sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

(in)titulada...

...ou porque o ano está a terminar...já 2004!!...ou porque sempre, mesmo se não escrevo, ando a pensar, a meditar, a reflectir ...em mim, nos outros, naquilo que acontece...por uma razão que desconheço e nem me vou pôr aqui fazer dela tema...e está bem perto, sinto, esse desvio! eu depois explico... Por um ou qualquer motivo, desde ontem que sinto esta necessidade de deixar registo de algo que me anda por aqui a bailar.
E neste momento a coisa está a avolumar, a crescer, ainda mais, cá dentro. Acordei cedo o que não é novidade. Novidade, sim, é estar aqui a dizer...sim porque sei que não estou a escrever para o meu diário, mas vos estou a escrever. Ando a deambular em volta da temática. Este “vos” que ali se esbarrou debaixo dos dedos fez dentro de mim uma mossa assim como uma pedra atirada à janela como aviso: “Ei! Olha estou aqui! vê lá o que é que escreves!” Topo-a bem a esta minha cuidação de me falar de mim. Mas que se dane o raio do aviso que eu hoje tenho que dizer umas coisas que senão ainda me piro disto e nem a mim mesma me aviso. Delet your blog clique e prontos! Num instante meio ano e uma data de escritos e aqueles nomes todos alinhados ali ao lado jogados pró camandro! Delet e pronto!
Mas, claro não era nada disto o que eu pensava no início de, com dois dedos, andar por aqui a passear no teclado, com frio e uma manhã linda aqui ao lado.
Vamos lá então a ver o que se passa.
É! É mais uma vez sobre este de andar aqui a escrever. Mais do que isso. Calma. Vamos devagar.
O Mundo é muito...quero eu dizer...é muita gente. Isso não me incomoda. É dado adquirido. Nascem, vivem, morrem. Muita muita gente...ontem à noite diziam e ouvia eu com uma lata que me arrepia, que morrem em cada...nem me lembro o intervalo de tempo, mas é coisa quase de instante, tantas crianças no mundo com menos de cinco anos CINCO! Tantas como o total daquelas que habitam, nesse intervalo de tempo, a Europa...a nossa civilizada e democrática Europa! Pois...e eu ouvindo isto e comendo uma sopa! Assim num desplante como se fosse um naturalmente o que se dizia ali no écran a um canto da minha sala ... a minha topam?!...a minha salinha...e no écran passavam figuras esqueléticas...brancas...amarelas..pretas...crianças a morrer de fome e doutras doenças...não sei quantas por um intervalo de tempo muito curto para tanta gente que nem chegou a ser mesmo mesmo gente...nem chegou a andar por cá cinco anos...365 dias vezes cinco mais os bissextos.
Coisa crua isto, né?! Pois então imaginem como eu me sinto aqui a escrever...para quê?! Pois...para coisa nenhuma! Ando eu nestas in re flexões e abro um blog por mero acaso...um “deixa cá ver” e dou de caras com um gajo que conheço.
Devem estar a pensar, se é que conseguiram chegar aqui, esta Seilá é louca! Pois e pensam muito bem!
Mas, então...de caras com um homem que eu conheço.
E aqui recomeça a tal porra que deu início a esta merda toda.
Que se lixe a linguagem! Eu quero é perceber que raio ando eu aqui a fazer.
Eu quero é perceber o que raio é isto de conhecer uma pessoa outra pessoa! Pronto já disse!
Não disse nada! A coisa é bem mais complicada!
Pois...eu por mim sou assim: coisa que me doa fica aqui guardada, enquista, arredonda, bloqueia, encolhe, e passado um tempo esqueço. Julgo eu! Que a porra é que eu sei que ela a tal coisa que me incomoda, está lá arrumada, mas vivinha da costa! Preparada para dar, em qualquer altura, sinal de si. Abrir que nem um vulcão e desatar a ditar de sua justiça coisas que eu já pensava arrumadas. Mas, que hei-de fazer?! Sempre fui assim. Coisa que me doa...Doer entendem?! Coisa dessa...eu nem falo. É mesmo assim um “não consigo!”. Sou assim desde criança. Começou, digo eu, na escola quando numa prova fiz aquilo que depois chamei de erro sistemático. Topam?! Assim dois vezes dois 4 e vai um! O tanas que não ía nenhum e a puta da conta dava sempre errada e a professora, ciosa da sua boa aluna, de roda numa de ajudar que a sua menina tinha que ter a prova impecável! e o raio do dois vezes dois quatro e vai um que não ía nada, a rolar...e assim ficou a prova com a divisão errada. Contei?! Que nada! Chorar que nem uma cabra tresmalhada. A pobre da minha mãe arreliada. Desesperada. E eu de boca fechada. Eu só a ver o raio da divisão e vai um para quatro três e pumba acabou o tempo e a menina a descer a escada com a aquelas vozes todas a berrar “olha,a menina da professora a sair com as burras”. Sim! O que é que pensam vocês que aqui andam e fizeram a escola depois dos anos sessenta?! A coisa era tramada. Bastava um e vai um e ser tida de boa para ficar assim uma criança com a alma esfolada! Não brinco, não! nem contei à mãe que teve que ir saber o que se passava a casa da professora. Topam o estilo que me ficou?! Agora imaginem com esta idade, sem ter tido, então, assim um psicólogo logo à mão a ver o que fazia calar de apenas dizer que de quatro ia um, uma criança naquela idade! Pois...nas outras idades começam-se a calar outras coisas mais...diria eu...mais pesadas. E com isto tudo já perceberam que para sair mesmo o essencial é parto de ferros e coisas que tal e é se sair daqui algo que seja sequer parecido com o que me anda dentro e nem por um raio sai para o teclado. Pois...tanto dá ser aparo de pena, esferográfica, máquina de fita de carreto, gravador ou simplesmente gente, o interlocutor. Se doer...nem a mim eu digo nada! Topam o estilo de gente que escreve aqui umas coisas cheias de humor nos coments e muito certinhas nos postes?! Topam?! Pois é assim um disfarce. Uma coisa nenhuma...bem bem exagero!
Encontrei fotos do tal que eu conheço e aquilo que já cá andava reaparece numa interrogação, num espanto: "Que gente tanta que eu conheço!” Ora! Mas isso já eu sabia! Conheço um porradão de gente! E lá volta! mas...pessoas...conheço?! que raio sei eu assim de conhecer daquele homem?! Nada! Pouca coisa! Nada!
Tou quase lá!
Quase.... um é assim: a gente, eu, nós, conhecemos quem?! Que é isso de conhecer pessoa?! Os amigos?! Porra! então são muito poucos!!! É que conhecer assim de saber coisas da vida deles e saber o que pensam e ler-lhes o pensamento e saber como vão reagir ou porque fazem isto assim e não assado...conheço...quantos?!! porra! tão poucos! Terei andado distraída?! Sei lá se fazem poesia nos intervalos?! Sei lá se leram aquela autora que eu adoro! Sei lá se gostam de antúrios ou de rosas?! E de gatos, gostam?! E querem ser avós?! E choram assim fora do contexto?! Tomam pastilhas ao almoço?! Rezam à noite?! Sentam-se para ler ou fazem-no de cu pró ar deitados?! Adoram olhar para uma formiga ou esmagam a desgraçada sem pensar nem nada?! Ficam a olhar uma rosa a abrir ou preferem ver se há arroz e grão na dispensa e regam a rosa apenas porque o arranjo do jardim custou uma fortuna?! Namoraram no rio às escondidas?! Andaram de bicicleta dentro de água?! Subiram a montes quase a pique?! Acamparam alguma vez na vida?! São contra ou a favor do aborto?! e da eutanásia?! E da pena de morte, que defendem?! Sei lá se tiveram os filhos na marqueza ou na cama ou de cesariana e sei lá se tiveram prazer ou se acham que se safaram com a epidural?! ou berraram?! Sei lá...se choram a ver que saiu o...quem?! da quinta das celebridades?! Sei lá se gostam do Picasso na fase azul ou se sabem os nomes de todas as músicas?!
Sei lá...de cada um dos que conheço eu... não sei quase...não...não sei nada!! De alguns.... mas são poucos! Conto-os pelos dedos de uma mão e sobram os outros cinco dedos para uns que ficam assim num que me parece...
Mas com este quadro que raio ando eu aqui a fazer?!
E parece que é aqui que marca o ponto da coisa. Parece...
Mudemos o trilho.
Eu gosto de tanta gente! Tanta gente gosta de mim!
Boa! Assim isto toma outro sentido!
O tal homem por exemplo! Coitado! Que ele nem sonhe nem pense a ser aqui assim usado de exemplo!
Gosto daquele homem! Gosto dele pronto!
Conheço-o (pronto escrevo o raio do verbo e sobe-me um calafrio de baixo para cima!) Mas, sim, conheço -o! É ... mas topam?! eu até há pouco tempo nem sabia que o homem era casado e tinha uma filha! E já gostava dele! E já conversávamos!
Que raio! Terá sido de ser nómada na minha adolescência que ficou esta facilidade de gostar assim de toda, de muita, muita gente e saber pouco de cada pessoa?!
Não! Não é que não me interesse! Apenas não sinto necessidade de saber mais que o preciso para simpatizar, e caso seja preciso estar lado a lado com ela numa ocasião e dar-lhe o meu ombro e tudo o que tenho e vou inventar para lhe dar!
Pois...por exemplo, isto acontece com os meus ex-alunos...só aí é um carradão de gente!...com colegas de escolas,liceus, faculdade, cursos, encontros, retiros, grupos... partidos!!!...das escolas onde leccionei e esta...olha esta é uma boa como exemplo! Tanta gente que aqui passa! E tanta que nem me lembro sequer o nome, mas que sei que gosto e que reencontro e abraço assim com uma grande sinceridade de lhe dar e de saber dela e de a ver...no entanto...nada sei, assim de saber mesmo de coisas contadas de pensar...apenas que houve e continua uma amizade...fundada em ....
Pronto lá volto eu outra vez à estaca zero!
Afinal a gente pode gostar sem conhecer?! Gosta-se de quê?! Do que se sente?! Gosta-se e pronto?!
Então...aqui nos blogs isto é, pelo menos comigo, a continuação da coisa que me acontece na vida! Gosto na realidade porque gosto e pronto!
Mas aqui é diferente em quê?! Apenas não conheço a cara, o carro, se o tem e a marca, a casa se é vivenda, andar, na Lapa ou na periferia...
mas se eu da maioria também nada disso conheço e são, alguns, os que mais gosto!
sei lá de onde é aquela colega menina fofa que me abraça e beija com tanta ternura quando me sente embaixo ou se ri de gargalhada com uma coisa que achamos, ambas, divertida, ou que fala de uma outra pessoa ou acontecimento na mesma onda de sentir que eu?! Dela nada sei e no entanto eu posso dizer que a amo e dela sei que o mesmo por mim sente! E diria mais: a mulher ali na merceeira que me fala da filha...bom pode ela me conhecer...saber quem sou...mas se for noutra cidade assim num autocarro ou no bar do comboio... a gente fica com o endereço, escreve-se, pergunta pelos filhos que desconhece...
Olha escrevi isto tudo ou quase nada...entendam o que vos aprouver...
eu estou bem mais descansada.
Andava a fazer disto do gostar e conhecer uma empreitada e chego à conclusão que era apenas um arranjo, um biscate.
A gente gosta de uns e conhece, sabe.
De outros, a gente gosta tanto ou mais e na conhece, nem sabe nada ou quase! É assim um feeling e não tem nada que ver com a embalagem! Ah! Isso não tem mesmo, para mim, mesmo nada!
Então eu gosto de vocês e o que tenho pena é de não poder, conhecer mais!(o verbo já não me incomoda!).
O tempo não chega e tenho tanta pena!
é que encontro, a cada canto, tanta gente linda!
Tanta pessoa!
Hoje não vos deixei em silêncio!
Perdoem!
Um abraço para toda a gente!
Um beijo a cada pessoa!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

shuuut!!!!!!!!!!!!

Agradeço a todos os que leram,comentaram, perceberam o escrito de dia sete!
De todos há um que lembrarei a vida inteira...o do meu menino grande!
Gostava que lessem o que a Sotavento publicou
aqui ...
e hoje deixo-vos assim... ..
um pouco de silêncio faz bem!

imagem daqui

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Hoje...


Cresceste–me num tempo de incógnitas
num tempo ainda de segredos
Gostosa espera!
um dia nasceste
um nascer de desejado parto lindo!
caíste de mim
no meu ventre exposto
encolhido da tua falta
rosaste de ti o meu corpo entregue
Foi um instante
Um lapso
uma avalanche
anichado entre mim e o mundo
mundo que te esperava...
eu ria e chorava!
Nós dois ainda um só
mas já tão longe!
Hoje...
deixo-me ficar em silêncio!
Hoje...
quero mesmo só ficar em silêncio!
num dizer de silêncio
fazer-te ouvir sentido
Amo-te!
Que esse Amor seja em ti Vida Paz Serenidade
Hoje...



Os amigos Ognid e Lmatta deixaram uma prenda linda neste teu dia!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

aniversário


Este hoje é só para TI FERNANDA!

Uma estrada de vida repleta de flores!

Um grande abraço!

PARABÉNS!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

tempestade


Sentava-se no meio do largo como se fosse a sala de visitas. Direita. As duas pernas muito unidas nos joelhos. As mãos cruzadas sobre o colo. Nunca vestia um fato, uma saia, um vestido, umas calças. Nunca. Fosse de dia frio ou canícula, cobria o que se não via num apertado casaco sempre azul tisnado de pingados de tinta. Trazia uma mala. Uma daquelas antigas malas de cartão com cantos de lata arredondando os cantos. Uma mala dita de viagem. Mas era uma mala pequena assim pelo mal medido de quatro mãos-travessas (o mesmo que dizer fechadas de dedos o que é diverso do palmo mais usado em medidas). Sentava-se num banco mesmo no centro do largo. No único banco onde chovia directa a chuva e a sombra não cobria do sol quando este dava. No largo havia bancos e havia árvores. Aquele banco tinha, por razões de arquitectura que de paisagem, ao tempo, não havia, ficado ali ao centro sem ficar por debaixo de coisa nenhuma. E, por razões dadas ao acaso, o banco ficava bem no meio do dito largo. No meio mesmo, não! Havia entre ele e o meio um canteiro. Quer dizer...era um arredondado de terra salpicada de ervas e duas roseiras secas e, mesmo, mesmo no meio, um cipreste. Ela, sentada no banco. É de dizer que cada banco, e também esse, tinham sido verdes que ainda se lho via, na tinta saltada em lascas, essa, apenas de longe apercebida, cor. Para além do canteiro com o banco ao lado, o largo era rodeado por um gradeado. Um enfiamento de ferros verticais com pontas esguias apontando acima e a uni-los uma espécie de fita torcida do mesmo material. Era assim todo em volta do largo onde havia o banco onde ela se sentava. Ademais disto, as árvores eram, precisemos, quatro. Quatro árvores de folha caduca uma em cada canto como se formassem um quadrado inscrito no arredondo do círculo do gradeado. Eram árvores antigas de troncos gorgulhosos, esburacados. O chão deste largo era todo de terra amarelada. Aqui e ali, um naco de côdea parecia uma pedra. Mais noutro sítio uma semelhança mesma se fazia uma poita de caca de animal canídeo ali vindo de rara ocasião. Sim, que o largo não era quase nada frequentado, nem mesmo pelo bicho passeante cão. É verdade! Esquisito também! Mas o certo é que nunca se via, além dela, ninguém passeando ou ocupando qualquer dos outros bancos. De quando em vez. Lá muito de longe em longe, um que não era dali, e isso via-se pelo modo como parecia, atravessava o chão terroso e, raras vezes, se sentava numa ponta de um banco. Podia parar olhando o que ela nunca via. Uma ponte que corria por cima do rio lá muito ao fundo, lá muito do outro lado, lá muito embaixo do alto em que planava, parecia quase, o largo. Porventura quem ali passava era em busca do rio. Talvez, de o ver de ali de encima. Há que dizer que o largo não fazia parte de nada. Isto é, não era largo de aldeia, nem de cidade ou vila. Não. Era simplesmente um largo perdido ali no em cima de uma povoação de casas soltas atravessadas por um rio delgado e uma ponte estreita. Claro! a ponte nem precisava ser larga para tão pouca água.
Nessa tarde ventava. Um vento frio azulado num ar de trovoada. O céu estava roxo escuro. Plúmbeo?! Não! era roxo misturado de negro. Escuro! Ela chegou, como costume, e sentou-se tal qual descrita. Pousou a mala no lado esquerdo. Deitada, a mala sobre o banco, parecia prenha. Uma das mãos deslocou-se de sobre a outra que se manteve inerte. Num gesto de cegueira, inesperado para quem o visse. Num gesto que, a ver-se de alguém, se diria sem tento, soltou os fechantes dois da mala, um de cada canto. Qual boneco de mola preso em caixa, um soltar de folhas brancas, vermelhas, verdes, amarelas, se fez de dentro. Cada, todas as folhas escritas de certa, rigorosa, esguia caligrafia. Cartas?! Parecia, se alguém o visse. O largo e mais o ar azulado de quase trovejar ficou coberto daquele arco íris de papel. Lá no bem no fundo as casas desviam-se de alguém que olhasse. Ela, sentada, abriu o casaco botão a botão. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Sete botões dourados verdes de zinabre. Ergueu-se. Uma de cada aba do casaco em cada mão. Diria, quem visse, que parecia ela com duas asas. O vento batia forte os seios desnudos. Os pelos púbicos, muito negros, tremiam de arrepio no roçagar do ar sobre eles. Os pés calçados de chinelas pretas de um verniz quebrado, deslocaram-se no amarelado da terra. Um passo. Dois, três, quatro, cinco. Cinco passos em linha recta. Parou certeira na grade pendurada sobre o de lá embaixo onde havia o rio e as casas e a ponte.
Os papéis voavam.
Diz quem por lá passou, assim de por acaso, que no banco do meio nunca mais viu alguém sentado.


hoje, 5 de Fevereiro de 2012, encontrei o largo onde se podia ter passado esta tempestade

terça-feira, 30 de novembro de 2004

pequeno almoço


Era o meio-dia. Era o fim da manhã. Era domingo. Chuviscava. Era na capital. Era na grande cidade. E era num Bairro. Todas as cidades grandes são somatórias de bairros! Não?! Esta sim! Falta pouco e será um somatório de casas. Era domingo num bairro de uma grande cidade - não assim tão capital, nem assim tão grande, nem assim tão bairro. Era uma avenida. Era mais assim uma rua antiga que cortava, há muitos, muitos anos, um bairro de um outro bairro. A capital, ali, era duas partes dentro de uma. Era dia de descanso. Chovia na cidade grande. Os carros chapinhavam nas poças. O alcatrão colado sobre o velho empedrado deixava, aqui e além, com o passar dos andantes, estas coisas arredondadas, mostrando por debaixo pedras aquadranguladas que noutros idos tempos sentiram, em si, rodados diversos e foram afagadas por lisas ferraduras. Digo eu que conto e não vi senão os salpicos que faziam os carros de dentro da água chovida dentro dos referidos buracos.
Era, pois, domingo dia de descanso numa rua que dividia, naquele sítio, a cidade em duas – um bairro a poente e outro a nascente. E chovia. Na rua passavam carros. Era, do lado da rua em que eu estava, o bairro de ruas estreitas que assomavam em goelas direitas de casario envelhecido. Ruas lisas. Ruas que, espreitadas, pareciam um retrato de janelas enfileiradas resguardadas umas das outras dirigindo-se todas a um ponto de fuga. Eram ruas de casas com janelas floridas. Era roupa pendurada parecendo gente que assomava.
Assim, na grande rua atravessada por carros e com buracos onde havia água de chuva, espreitavam uma série de outras ruas todas fugindo, quase se unindo lá num ponto ao longe, que não se via, se adivinhava apenas, fugindo todas para um rio ao fundo. Era um rio o que aparecia, aqui e além, como se fosse um lugar de debruçar das ruas e das casas todas. Era uma cidade nem por isso assim tão grande, mas capital, e tinha, ali, no local onde me encontrava, um bairro cujas ruas espreitavam de um lado sobre a rua onde passavam carros chapinhando nos buracos da chuva, e do outro lado, parecia, que cada rua se acabava, toda e cada uma, dentro de água, penso eu que vi e conto, de um rio ao fundo.
Era na rua essa grande que, numa esquina, e daí ser meio da rua meio do bairro, havia uma padaria. Pois! Eu sei, eu que vi e conto, que padaria não é de conto. Sim. Mas esta era uma padaria especial. Era uma padaria da cidade grande e do bairro. E isto faz uma diferença tal que nem eu, que conto, pensava o quanto é diferente ser, ao mesmo tempo, padaria de cidade grande numa rua central e de um bairro com roupa e flores de vaso e até limoeiros, soltados nas janelas. Era mais. Era a padaria uma casa antiga e, como calhava bem naquela zona, de tectos altos toda decorada com vistosos retorcidos doirados e rococós de medalhões entrecruzados nos ditos. Era uma padaria que servia pão que ali mesmo fazia e vinha para boca da gente ainda quente. Era uma padaria que servia, a um tempo, pão para transportar e nas mesas, colocadas em local onde antes, digo eu que agora invento pois não sei da sua história, se formavam filas de raparigas do bairro e outras senhoras e suas raparigas, de então ditas criadas, esperando o pão. Era, devia ter sido, penso, um espaço de conversas animadas. Isso não sei de ter visto nem sequer lido ou ouvido - imagino.
Era, assim, uma padaria o espaço onde, em manhã de domingo, dia de descanso e de chuva, duas coisas juntas apenas de acaso, que eu tomava, lenta, o pequeno-almoço tarde como convinha em manhã de domingo. Era na padaria que, olhando (este vício de olhar em volta e ver que me ficou de não sei onde nos genes) eu via os casais novinhos com um dois filhos bem trajados; aquela rapariga magra de roupa que já tivera cor e uma cara que não tinha idade, agarradas as duas mãos no copo do galão, os olhos enfiados num de dentro vazio (assim me pareceu); o casal de meia-idade esguio e com os corpos enfarpelados em caros trajares entrando na porta verde de vidraças eu não disse? era uma porta enorme e havia outras em recantos de mesas enquadradas nas grossas paredes; a um canto um rapaz lia o jornal com ar de quem esperava alguém, um descentrado olhar que o fazia ter, para mim que o via, esse ar, digo eu mas sem certeza. Era assim uma padaria e um dito de café como por cá gostamos de dizer.
Era aqui que, na mesa ao lado daquela de onde eu via, olhava enquanto comia e bebia, se veio sentar uma senhora. No cabelo muito liso, muito ralo e muito branco, salteavam uns ganchos. O casaco de um xadrez coçado a preto e branco quadrava sobre uma blusa de malha multicolor coçada como a saia de viés de cor indefinida, usada. No rosto, a pele era lisa, branca por debaixo de um mar de lindas rugas sobre as quais refulgiram, olhando-me, um par de olhos semi escondidos por detrás de umas lentes de algumas, poucas, as suficientes, creio, dioptrias. Era assim, descrita agora por mim que a vi, a vizinha que, também ela, me olhava. Era uma senhora sim! Era do bairro, dizia: “ a senhora sabe?! já aqui venho há mais de quarenta anos!”. Não eu não sabia e ouvia parando, toda eu ali na padaria, a minha vida, ouvindo a dela se contando. Era mãe de um filho que sofria “sabe a senhora que ele teve, fumava muito, um enfarte! Aqui deviam abrir uma nesga da porta para sair este ar a tabaco! Sabe?! Não que a mim me incomode, mas há crianças e há quem se incomode e nada diga. A senhora sabe?! Não! não apague o seu cigarro! Eu digo por dizer! Gosto de falar! Venho aqui só ao domingo, sabe?! Moro aqui na rua ao lado, no bairro. Nasci aqui. Que idade me dá?!” Era uma senhora do bairro. Era uma mulher da padaria. Era uma mulher daquela rua que descia para longe e tinha flores e roupa dependurada nas janelas e ao fundo tinha, de um lado o rio, e de outro, a rua onde a cidade dividia o bairro dela do bairro do outro lado. “Sabe, minha senhora eu tenho mais do que isso, muito mais, mas não pareço, não! “ Era uma mulher de quase oitenta anos e sorria da vida que fazia parecer ser outra a sua real idade. “ Olhe, veja aqui!” Era uma mulher que abria uma carteira engordada de enchimentos vários entre elas muitas fotografias de um nada ali espalhadas e colocadas da dela na minha comovida mão. Era um dedo, o dela, que apontava e a boca, ainda de lábios carnudos, que dizia:”este é o filho que falei. Desempregado. Mora por cima de mim. O outro, vê?! são tão diferentes, não?! um louro o outro tem assim um ar aciganado” Era ela quem dizia dos dois filhos sorrindo embevecida. No meu de tentar sair que espreitava na tal de porta de entrada e saída, o meu marido, ela sorriu e disse, uma vaga onda de água transparecendo por debaixo das lentes: “Sabe?! fiquei viúva deste, um lindo homem o meu marido! há quarenta anos!” Era viúva a senhora do bairro, ocasional vizinha da mesa ao lado da minha numa manhã de domingo na padaria que era também café de diversas gentes. E, acrescentou, enquanto eu já me levantava desejando, apesar, de ficar mais à palavra: “a solidão custa muito, minha senhora! Custa muito! Sobretudo à noite! A solidão é muito, muito pesada! Gosto de aqui vir. Ao domingo, só ao domingo! Venho sempre!
Saí para a rua deixando, espero, desejava, a minha mão assente num carinho sobre aquele ombro sob o casaco de xadrez usado.
Saí e fiquei pensando que a solidão é muito, mas muito mais, do que estar sozinho.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

PARABÉNS MINHA LINDA!!!


Hoje este meu espaço é todo todinho para dizer do coração sentido
e com um abraço do tamanho do que o real e virtual em união se fazem
um mundo de emoção e vida
que desejo PARABÉNS
e dizendo nele transporto para o lado de onde ela se encontra
o desejo de toda a FELICIDADE prara esta
MULHER INCONFORMADA
que hoje completa
ela o diz de modo lindo
44 PRIMAVERAS !
PARABÉNS! e um monte de beijinhos, Linda!

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

contradição?!!!

    porque será que pode num nadica de nada a gente ficar assim despedaçada?
    porquê este estar feliz pela manhã e de repente sem que sequer mude esse sentir de se estar por outro tão contente, se escorre de frio, uma termura, um mal estar dorido como se todo o Universo se concentrasse todo frio e quente e a evoluir num turbilhão dolente, deixando lágrimas a correr por fora e um mar de lava entupindo dentro? o que será afinal estar contente? nao é tristeza, nem dor...é isso tudo e uma vontade moribunda a rodar aqui dentro...é o corpo a pedir descanso e é a alma a soluçar por nós...a rogar-nos que por favor a cuidem que ela não aguente mais o que somos nós! e que fazer de mim se sinto que não lhe sei dar mais e que inda por cima lhe minto nesta insistente permenência de rir e rir quando estou a carpir?! e, no entanto, afirmo, eu estou feliz por outra muita gente! eu não vos minto quando afirmo que hoje estou de facto feliz, contente!!mas...talvez ande dividida em duas...talvez esteja há muito feita em cacos e ande de gatas a colá-los e de repente é aquele...aquele pequininino...o que se perdeu de mim e faz toda a diferença entre o ser todo, mesmo colado, e aquele buraquinho, uma fissura que dá, em alturas devidas, toda a forma ao vaso! será?! o que sei é que há por aqui muita racha que faz que o vaso de que me comparo de ser, fique sem jeito ou graça apenas porque alguma coisa se perdeu e eu...eu não sei achar!

Amigo/s

Hoje eu hoje estou Feliz!
assim uma coisa calma um escorrer de leve uma alegria doutro derramada em mim!
Eu estou feliz sinceramente! e sei que não é de mim que isto me vem!
por isso sinto-me assim tão bem! Ele está feliz!!! entendem ?! Ele está tão Feliz!!! e eu ...ai eu...sinto-me tão Bem!!!

Fui buscar, por isso, uma coisinha que considero querida escrita era eu uma menina. Publiquei um dia no início quase deste andar por blog! deixo aqui...
Ofereço-vos de novo com esta Alegria aos Amigos todos!


    Amigo!
    apetece gritar ao mundo
    ir por aí dizer a toda a gente
    Dizer que não é tarde
    que vale a pena espear
    amar e crer
    sorrir e no sorriso dar-se
    A hora sempre chega!
    E, então..
    o ribombar da tempestade
    é doce sol nascendo
    luz filtrando-se nos bagos da chuva
    o sol, o firmamento
    as terras, os mares
    o trinado dos pássaros
    o coaxar das rãs
    o rugido das feras
    o rumorejar do vento nos sobreiros
    a calma do sorriso
    o soluço no choro
    é vida...vida!
    A alma volteia em passos de dança
    loucos, muito loucos.
    Vestiste-a de brancos folhos, Amigo!
    e ela rodopia
    dança, dança, dança...
    escorrega aqui, mas logo retoma
    na mais louca das danças
    ao ritmo voluptuoso da Alegria pura!
    Ouve, Amigo,
    Ouve!
    És tu quem colocou na pauta
    o dó , o ré, o mi...
    as notas todas!
    És tu, Amigo quem conduz a minha alma
    quem doira de luz o salão
    onde ela rodopia!


    Debruçado nos prados, nos vales, nas montanhas
    nos ribeiros, nas fontes
    na vastidão do mar
    na imensidão do espaço...
    és tu... Amigo...

    quinta-feira, 25 de novembro de 2004

    que dia é hoje?!!!

    Hoje ...
    Trocam-se-me as datas todas
    Revolteiam-se números
    Enrolam-se intricados nós
    Apertam-se imprecisas cadeias
    Hoje...
    eu tenho a alma...
    nem sei... está ela aqui ainda
    ou se voou de mim
    deste sentir de ferida
    carne viva de Vida
    Hoje...
    Gritam por aí cantares
    Oiço rufar tambores
    vozes de multidão
    megafones troando
    na rua
    bandeiras desfraldadas
    Soam ecos surdos
    Ecoam
    Longe
    Mal se ouvem
    (escutem...ouvem?)
    O calendário voou...agora
    folha a folha
    desabriu pela janela
    revolteou no céu
    (O céu ainda azul)
    eu nesta confusão
    de não saber dos números
    (a quantos são?!)
    Novembro...em eco oiço
    doendo como antes
    A jarra de cristal
    e a panela de barro
    estão ali em cacos
    E os panos...
    bandeiras descoloridas
    Vermelho só o sangue...
    ... ainda corre quente
    Hoje...
    relembro...
    havia um mês de Abril
    depois um de Novembro...
    ...é impreciso...
    é tudo muito longe...

    (Que dia é hoje...então?! )


    terça-feira, 23 de novembro de 2004

    saudades

    Tenho saudades hoje
    De coisas simples

    Um bocado de corda pra saltar
    Dois berlindes
    Um aro de bicicleta e um ferro
    Um carro de linhas, sabão, elástico
    Um prego grande
    Uma meia velha cheia de trapos
    Um grão de bico um pedacinho de tecido
    Um biscoito frito
    O doce na côdea humedecida na boca
    Uma fita vermelha no pescoço

    Hoje tenho saudades dessas e outras
    Simples...simples coisas

    Um cabelo entrançado em duas
    Um bibe branco... a mala de cartão
    O cheiro de borracha e tinta
    O quadro de artista plástico
    num mataborrão
    e no papel dobrado em dois
    as formas fabulosas dum borrão

    Hoje as saudades crescem-me
    Saudades de coisas simples
    As coisas, afinal, que me deste...vida

    O cheiro que a terra tinha então
    O sabor diferente em cada fruta
    Joelhos esfolados lambidos a cuspo
    A cópia rigorosa de caligrafia
    A caneta de aparo
    O tinteiro de loiça no buraco
    O beijo trocado no banco do quintal
    A cama de ferro de lençóis de linho
    A palha solta do colchão riscado
    Aquela tarde que não acabava
    O verde mais verde que havia num prado

    Hoje, nem eu sei...
    Ficou-me uma saudade...

    Do mar que era de cheiro intenso
    Das covas na areia até ficar tapado
    A bicicleta com dois, três e quatro
    E a lama...a terra suja no vestido
    E o vento molhando de maresia
    E a chuva trespassando a alma
    E os rios que corriam devagar
    Os rios sempre quase parados

    Hoje se continuo assim escrevendo
    Hoje rebento de saudades

    Hoje tu partiste
    Foste de mansinho...
    Sorrindo... acho...
    Partiste agarrado à Vida
    E eu fico falando assim
    Destas saudades



    a tua praia

    domingo, 21 de novembro de 2004

    Beijos...mãe!

    Li no Biquinha poemas sobre o beijo

    e me lembrei
    mãe

    aquele que escreveste...BEIJOS
    tu, Senhora de Poemas...

    Lembras?!
    (nunca me dei de t'ouvir senão já bem crescida...
    que me me perdoas, sei...mas dói de mim
    este ter desatentado tanto no teu escrever
    Tu sabes, mãe!)

    Aqui um teu poema!
    Vão gostar de te ler!


    Os meus beijinhos são brancos!
    Escolhi a cor da Paz!
    Mas todos...se forem francos...
    de qualquer cor...tanto faz!

    Sendo beijos amarelos
    eles terão outro sabor...
    mas também podem ser belos
    quando dados com Amor!

    Beijo azul é ciumento?!
    Só o sabe quem o deu!
    Dado com sentimento
    nos fará subir ao Céu!

    Vermelhos são suculentos
    Saborosos com'a romã!
    despertam-nos sentimentos
    São assim...um talismã!

    De cor de rosa os beijinhos
    são o Amor...são a Ternura!
    Transmissores de carinhos...
    pois que dados com doçura!

    São os beijos mais bonitos
    os que os filhos nos dão!
    São belos! são infinitos!
    Gravam-se no coração!

    Parecidos...quase iguais...
    Ternurentos...amistosos
    dados aos filhos pelos pais
    com carinho e amorosos.


    Ai! Beijos! Beijos fogosos
    Cheios de outros sabores !!
    Apaixonados...amorosos...
    São rubros...cheios de cores !!
    São beijos cativantes
    quando eles são trocados
    pelas bocas dos amantes...
    Com ternura! com ardor!
    Plenos de sinceridade
    nas suas juras de Amor...

    Beijos dão Felicidade!


    Mãe em 1 de Fevereiro de 1992

    quinta-feira, 18 de novembro de 2004

    caminho/s

    Uma estrada. Não. Um caminho. Uma vereda de areia. Em cada margem. Berma. Em cada berma pinheiros. Mansos. Pinheiros mansos.Redondos. Negros. Cerrados. Apertadas as copas. Copas baixas. Pinheiros novos. Não verdes. Negros. A noite caia. Sulcos de rodado na areia. Um carro. Ela guiava. Conduzido um carro rodava na vereda. De noite. Quase noite. Ainda se via. Pouco. Via o rubro do sol. Sol já posto. Era visto à esquerda. À esquerda da vereda de areia o sol já se tinha posto enquanto ela conduzia um carro escuro de uma marca antiga. Um carro grande. O carro rolava muito devagar. Olhássemos de longe nem tanto dali de uns metros e o carro se diria parado. Ela conduzia agarrada ao volante. Um volante grande. Redondo e de diâmetro grande. A cara dela encimava o volante. O queixo encostava. Encostava quase. Apenas o tanto para deixar rodar. Que nada. O volante ía parado. O volante não rodava. Era caminho estreito. Era caminho de areia. E era a direito. Em recta. Ela não sabia onde ía. Ía. O queixo apoiado no volante. Via ao fundo o areal de sulcos. Outros carros de antes. Antes do dela este. Passou um de repente. O carro estacou. Pisou travão nem mais que ao de leve. Precisava ver. O caminho andava em frente. Ainda se via areia até uns metros. Em frente. Depois era escuro. Desaparecia ali quase logo o caminho em frente. Parada para ver dois caminhos. Um de esquerda dela. Outro de sua direita. Dois caminhos abertos de repente no corpo do caminho que era antes um. Onde ía ela não sabia. Sim. Tanto fazia o qual tomar. Pensou no mar. Olhou um rubro em negro ali . Devia ser. Sol posto sobre o mar. Rodou. O caminho outro acabava. Logo ficava mato. Não percebia. Agora era mesmo já escuro. Era noite. Pensou onde ía. Não lhe deu a ela resposta. Abriu a porta. Porta pesada. Grande. Saiu. Espantou. Uma casa. Uma falésia. O caminho. Aquele sobre uma falésia. O outro não sabia. Fora naquele pelo pensar de mar que havia no onde se pusera o sol. O outro nem pensava. Pisava coisa mole. Chorões. Mar se havia estava ainda longe. Mas ouvia um som vrum vrum e era logo ali. Um sono. Assim um torpor de digo eu que conto. Talvez de receio. Talvez de indecisão. Ela sabia. Foi um arrepio de pensar cair. Não. Não sabia onde ou porque ía. Mas cair da arriba. Não. Isso sabia. Não queria. Rodeou o mato. Olhou. Flores. Jardim pensou. Mato plantado. Sorriu deste pensar. Uma porta aberta e de dentro luz. Uma luz fraquinha. Espirrou. Um despropósito. Um calhou. Alguém ouviu. Alguém andou. De onde estava cosendo bordando não sabia ela nada do de lá de dentro. Entrou. Pareceu que deslizou. Estranhou. Casa grande. Sala de tudo e outra mulher sentada. Não houve de dizer. Ela deslizou. Pensou que estranho nada me falarem. Mas andou viu mexeu. Parou na janela ao fundo. Um vidro só. Uma parede só vidro. Pensou que lindo! Espreitou do negro o que via do lado de lá do vidro. Um branco remexido. Lá ao fundo. Em baixo. Do lado de lá do vidro. O mar. Pensou que bom e virou. Olhou as duas. Três mulheres na sala. Palavra nem uma. Nada. Disseram-lhe que dormisse sem lhe dizerem nada. Disseram-lhe que ficasse. Sem nem uma palavra. Sorrir ela sorriu. Sorriso viu. Não. A mulher levantada era sisuda. Loura. Alta. Magra. A outra sempre a cara baixa. Sentada. Lia. Bordava. Ela nem percebeu. A loura alta sisuda parou de frente nela. Uma chave pegada na mão. Não. Sentiu um arrepio. Um arrepio diferente. Este não era frio. Sabia. Era um quase medo. A porta abria. Não havia nada. Uma luz tão forte. Não era dia. Isso ela sabia.

    Acordou. O sol batia em cheio na cara. O cão ladrava. Abriu os olhos devagar. A gata ergueu um em arco de cauda alçada. Piscou. Afagou a gata. Saltou da cama. Que raio de sonho estranho. Pensou. Como é que o carro andava? Que raio de casa! Bolas deixa-me ir ver as horas. Meio dia! Nunca lhe acontecia. Sorriu e levantou. E ele? Ah! Saira já. Voltava a almoçar. Descansa. Está tudo feito. Debaixo do chuveiro morno inda cantou.

    segunda-feira, 15 de novembro de 2004

    voltas...

    Acordado. Olhar vago. Alma pesada? Um fardo?
    Dormir. Descansar? Não sei. Volteios. O sol brilha.
    Digo. “O sol aquece alma”. (aquece?!)
    Dormir. Redondo. Fetal.Revolteado. Retorcem-se olhos. Círculos de redondo.
    Vejo-os. (vejo?!). Oscilantes pálpebras. Cortina ventando. Titilam pestanas.
    Não. Não dormir. Dormir cumprido.
    O sol brilha. Enche de luz em tiras o volume na cama.
    Persianas discretas injectando luz. Um volume . Um dormindo.
    Num mundo outro (será?!).
    Falo de quem? Não sei. Será de mim? De alguém?
    Acordar.
    Quando choverá? A chuva. O olhar brilhando. (será?)
    Falo de mim. De ti. De muitos.
    Espero.
    Chuva. Digo. “Chuva limpa a alma” (limpa?!).
    Acordar.
    Chuva. Sol. (e se nevasse?! e se ventasse?!)
    Ficamos. Acordados. Depois. Novo sono.
    Digo. Talvez neve. Então brincamos. Rimos.
    Depois. Dormimos todos. Abraçamos o sono.
    Olhos cerrados. Sono de justo. Digo.
    Esperamos. (espero?!)
    O teu (o meu?!) olhar brilhando.

    ...e hoje é segunda feira...




    domingo, 14 de novembro de 2004

    mais que nostalgia...mais...

    Estive a ouvir no meu velho vinil
    Ouvi tudo e voltei a ouvir . Aqui deixo a segunda parte do texto que, depois de uma busca Google, retirei daqui Obrigada UNO

    Segunda Parte

    Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
    Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
    Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

    ************************************

    e ainda estive pensando e lendo sobre essa coisa obscura da pobreza e dos pedintes a propósito do texto de hoje da Blueshell

    fica aqui um sinal

    mais aqui e aqui


    sexta-feira, 12 de novembro de 2004

    fuga

    Deixem que perca o sabor de tudo
    Apenas a sensação de boiar
    em cada superfície

    da descida às profundezas
    apenas flutuar
    afogando-me
    na água que um dia verti
    Sem memória
    Sem ouvido
    Sem vista
    Sem tacto
    Sem sentidos

    Sem corpo
    que não o que se precipita
    para mais nada



    (escrito e desenho de finais de 02)

    quinta-feira, 11 de novembro de 2004

    luto

    SILÊNCIO!
    O MUNDO PERDEU UM HOMEM!



    ::::::::::::::::::::::::::::

    AGORA... por favor
    leiam o post anterior!
    sff...
    !!

    quarta-feira, 10 de novembro de 2004

    a cura

    Já o querido Orca o Jorge ali dos 7 mares tinha no dia anterior começado a ver que eu estava a precisar de um aviso qualquer de um apoisito e escrevia assim:
    Fugaz cada momento desta vida
    Fugaz o nascer e o morrer à desfilada
    Fugaz ser feliz
    Fugaz tristeza
    Mas vem de lá grávida a certeza
    De que é também fugaz a madrugada
    Que apaga a fugaz noite
    E faz o dia
    Que por nós passa e repassa sempre à espera
    Que dele se faço
    Por fim
    A Utopia
    mas eu desouvi dele...
    eu insisti na gritaria e postei aquele texto de eufemismo dito momento de alma negra sangrada marafada (olha! onde andou o Ognid?! também pronto na fica linkado!!) que foi de “baixa” o raio do dia!
    E foi-se do negro aliviando com os passinhos de leve
    da MWoman
    Entrei e li em silêncio...nada mais direi. Não há receitas. Um beijo muito grande.
    A sempre doce e discreta
    Wind Estou contigo! beijos:)***
    O amigo filósofo
    Willnow (não era para dizer nada, como o pedido). Que adiantam (mais) palavras? Como traduzir um sentimento? Li o poema e sei. Isso me basta (que o único destino é partir!).
    Mas a festa inda (perdoem!) estava negra os altares tapados...taipados mesmo digo eu que era o templo aqui na minha zona!
    Vai daí aparece um castiço que do Além se apercebe que por aqui andava alminha em desassossego e o
    Porquinho da Índia amigo Bertus obedece à ordem de nada dizer e desata a escrever a escrever .... assim:
    ....calado que nem um túmulo (brrrr có horror!) eis como aqui hoje me posiciono: hirto, quedo e mudo -que escrever não é falar e sei que te agrada ler as bacorices que debito (não sou nada vaidoso...) e acho que estás em grande estilo com o teu poema pois que pelo tamanho ( e pela qualidade!) dava para uma ópera; se quiseres posso fazer os cenários e ainda contratar um barítono e uma diva (atenção que não escrevi divã)e a orquestra ficava por tua conta. É só dizeres que tenho conhecimentos no meio (é no meio que reside a virtude...) e até eu próprio dou uns lamirés no belo canto. Entrei uma vez no Barbeiro de Sevilha; interpretava o
    pincel...da barba.Que tudo te continue a correr de feição -ou de maré-, que os ventos e oa mares estão propícios à navegação. Já mandei "notícias do além". Beijinhos e intés!!
    Lá mais para a tardinha, creio, aparece, coisa rara, que me fez pensar que isto devia andar mesmo muito sentido e ou então o escrito era tomado por belo escrito da alma bem sentido, isto para dizer que aparece naquele silêncio em cores de aguarelas o poeta das cores o querido Almaro....vinha ele, assim o entendi, despido das coloridas e silenciosas cores com que veste as palavras e escreveu uma coisa em que, já vão ver, além de Colibri eu sou, para ele, Gato em Cão e ando por aqui a deixar de mim pegadas no meu próprio chão. Mas, claro, sempre tudo dito com acerto... eu é que me deu pra rir (mal feito!!)
    mas foi de ver um bichinho tão simpático quanto este...
    Deu-me tanto pra rir
    (já começara tá visto com o Porquito mas isso é trivial é de esperar!)
    fiquei daquela negritude, ao menos por hoje... curada!
    atão ele até achou (tão mal que eu estava!!!) e ele a achar-me engraçada!!!
    Pois...é isso...ou ria, como fiz, ou ficava amuada. Deu-me para rir...olha fiquei curada!
    Delícia pura aqui fica o que escreveu o Almaro:
    Ás vezes imagino-te na praia, na areia, a tatuar os teus passos. É uma fantasia. Minha, porque te sinto sempre a voar nos silêncios, nos teus e nos nossos.
    És um colibri engraçado que se esconde curioso a espreitar o “des / ser”.
    Será do gato em que te passeias no cão?
    Não sei, nem tenho que saber. Mas hoje vi-te desenhar as tuas próprias pegadas, no teu próprio chão.
    Ilusão?
    Acho que não!
    Estás engraçada, hoje, assim, pregada no Teu chão…

    A todos do coração muito obrigada!!!

    momento


    partir para uma viagem
    sem sem som e sem sentido
    simplesmente nem ir
    des/ser de mim
    vaguear por aí
    sem fusos sem sequer tempo
    sem gente
    sem sem sem sem
    desouvir o que tanto oiço
    rebentar as correias
    retirar o cabresto (o de mim)
    abrir os braços
    apanhar a chuva
    (e não cegar de sol!)
    partir aos tropeções
    picar-me nos ramos
    numa floresta escura
    (desver o sol em cima!)
    cair numa cratera
    num buraco
    (cilada para fera!)
    desarrumar os livros
    partir todos os discos
    riscar as folhas todas
    (riscos riscos riscos!)
    amarrotar tudo regar a gasolina
    (depois ficar olhando o fogo!)
    partir de mim pra loooonge
    e nem sequer partir
    ficar aqui quietinha
    no fofo da cadeira
    olhando o crepitar do fogo na lareira
    des/sentir esta dor que fica de pensar
    desatar este nó que fica de sentir
    deslassar tudo em mim
    devagar sem tempo sem horas
    ficar mole a parda
    parada
    não ter que responder
    (porque sou perguntada?!)
    deixem-me só sofrer
    assim apenas assim sem ser por nada
    (porra!!já nem se pode estar simplesmente cansada)
    cansada sem razão sem motivo aparente
    cansada de si mesmo e no entanto querendo
    apenas e tão só estar consigo mesmo
    assim sossegada sem mais nenhum motivo
    que seja o de estar descansada
    Porra!! Sempre ter que responder!!
    Caramba!! sempre ser comparada
    consigo mesma...e ter FORÇA!
    Que puta de palavra!!
    Força força que nada!!
    A quem me ouvir...
    Por favor!!! Por favor!!!
    Não me diga NADA!!
    Sobretudo não diga espera que isso passa
    ou que tenha força
    ou que grande depressão
    (caramba!!! tanto chavão!!)
    digam se aprouver disso
    que ouviram só!! e estão comigo!
    Mais nada!
    O resto o resto é cá comigo!!
    E desde já vos digo de coração
    OBRIGADA!!!



    terça-feira, 9 de novembro de 2004

    a uma Amiga

    o/um desespero de mim hoje se aconchegou
    negro brutal irracional
    de ti me fiquei pensando
    e quase em oração te reli
    (nas tuas buscas...sabes que te entendo...)
    também esta oraçãoé para/por ti


    Eu sei só tu , Vida, és minha resolução
    No que em mim é irresolúvel
    Neste ponto sem retorno,
    Sem saber mais como existir
    Neste faz de conta de vida.
    Não me deixes mais
    Aqui neste espaço-tempo
    Presa e livre sem solução
    Nesta imitação sufocante de Ti,
    Na vaidade e crueldade de não sermos
    Negando a beleza que somos,
    Que mais não consigo aguentar.
    Deixa-me ser só minha parte
    Da água dos rios , do mar
    E da foz em que todas se vão misturar.
    Minha parte do ar
    Onde os pássaros vão migrar.
    Minha parte
    Da fluidez da lava.
    Minha parte da seiva das árvores
    Da beleza das flores
    E do alimento dos frutos .
    Minha parte do riso
    De criança de braços abertos ao Sol.




    (Escrito de uma Amiga ...
    parte final de um extenso texto a que ela chamou
    Ponto sem retorno )




    domingo, 7 de novembro de 2004

    Ao raio dos servidores!!!!!!

    A essas entidades enigmáticas tão escondides de face quanto nós, mas de alma se a escondem sei eu lá bem se é porque a perderam nas ondas deste espaço imenso de redes e de, sobretudo, me parece, de interesses. Se estas entidades fossem homens mulheres e se tivessem estes espaços imensos para servir de comunicar entre eles seja ciência, arte, apenas um trocar de palavras...se eles percebessem que já não é o tempo de esperar o carteiro mas agora o tempo é de estar em cada instante (isso! o tempo é o instante!) e que o que há para dizer tem que ser dito nesse momento perene que eles, os tais senhores gerem ... palavra digna deles(?!) servidores do nada que esta apalavra servir, meus senhores, também a desconhecem de significado e alma! Se vocês precisassem de escrever apenas, por exemplo isto: "São as que não escrevendo evoco." e a seguir dizer de quem o escreveu:" olha que bom terem as tuas iguais às minhas sido palavras importantes perdidas as que não foram escritas " e a seguir: "MJM vai ver as minhas letras no post que está referenciado em conflitos... leste... viste?!"
    Assim coisas de nada !
    mas...senhores! em vez "disto" podia ser coisa de salvar uma alma ou uma vida se fosse palavra de dizer o como tal fazer!
    cuidem deste espaço, senhores! não façam dele o que fazem do resto da vida! deixem correr a nova era em vez de andarem a perder-vos em chalaças e tentar saber mais uma vez quem tem mais frequência, mais linha mais ...massa!!
    abram um blog
    criem uma página
    façam o que raio vos aprouver...
    peçam uma taxa se é isso que querem!
    mas...
    mas cum raio deixem que a gente comunique SEMPRE que nos der na gana!!!

    sábado, 6 de novembro de 2004

    conflito


    pensem pensem só
    imaginem
    ainda mais
    sintam

    pedradas de palavras
    rebentam baralhadas
    informes disformes
    entrelaços
    pedaços
    palavras desfeitas em letras
    desarrumadas
    borradas de cores
    palavras desfonadas
    zunem revoadas
    toneladas de escória
    lava esfriada
    zunem
    doem
    desarrumadas
    palavras que não dizem
    nunca disseram
    palavras esfriadas
    cansadas

    palavras desfaladas



    minhas as palavras um dia

    hoje de novo
    palavras desditas

    as palavras dominam



    quinta-feira, 4 de novembro de 2004

    re/Composição

    Aproximou-se. Um nadica só. Correram na direcção certa os dois olhos. Fechou um. O outro deixou-o apontado. Atingia, assim, mesmo no ponto certo. Lá onde queria ver o que via.

    O que a ela mesmo mesmo lhe apetecia era gritar. gritar que a deixassem só. mais só do que aquele só que era todo estar todo companhia. aquele só que tanto lhe pedia. Gritar que a deixassem. não um dia. dois. uma semana. Gritar que a deixassem sempre. Que não lhe precisassem. Ou. se o sim. lho não pedissem. Que deslembrassem assim como em desastre que se diz amnésico. ficarem todos despensados dela. Gritar que não estava. encerrara. não para obras balanço remodelação. Não. não estava simplesmente. deixara um bilhete ou nem tal e partira. melhor seria assim - eles desconheciam dela que existia. Nem partida. Nem bilhete. Desconhecimento. Um atrás de tempo .Gritar neste momento era tão só o que lhe apetecia. Mas gritar não resolvia. Fingia. Fingia que via. Olhava.Uma luz. Que nada! O que via era o que supunha ver. No ponto em que assestara o olho só estava uma casa e dentro dela sentada na janela uma menina. Vestia um bibe. Em cada ombro do bibe ela vestia um folho. Ou era asa?

    Chegou-se mais. O muro de cal amparou-lhe o corpo. Sentiu-lhe o frio. Sentiu mais. Sentiu o limite ali da aproximação. O muro limitava. O muro empurrava. Encostava e de resposta levava um empurrão. Era assim como se o muro estivesse a dizer daqui para baixo não.

    Era! ela estava assim. apertada entre um muro e o resto. Mais. Ela estava numa caixa. Não. Não era uma caixa grande. Muito menos era uma caixa fechada. Nem. Nem de madeira ou metal ou material duro resistente ao abrir. Resistente ao sair de dentro que quer que fosse que lá estivesse. Não. Não caixa onde estava... entalada... dobrada. Essa era simples. Mole. cartão. nem isso. papelão. Entalada. nela estava. Sentia assim como se...se estivesse. Sabia que não estava. Pensava até. Que tinha as peças desencaixadas. Que, a sair, teria que se reconstruir. Um braço aqui, ali um dedo. .É. Se não se cuidasse, a ser assim, inda ficava o médio na ponta onde devia o mindinho estar. Devia ser lindo! É. Via. Só. Plena de vontade de gritar. Isso. Inda assim sorria só de se assim pensar...um mindinho no meio e nas pontas um médio e um polegar.

    O olho dela entretanto olhava. E via a menina que estava. Sentada no parapeito da janela. Muito lá longe. Tanto que só com a ver de um olho lhe alcançava. Por isso passou a mão em cima. Tapou o outro. Agora via. Via mesmo bem.

    Curioso! destas coisas que a vida tem! depois de tanto olhar com aquele olho que só queria ver e não gritar... gritar era ela que queria.
    Depois do olho e do muro e da menina e do bibe...
    Curioso...passou-lhe aquele apetecer de ir. Aquele querer que lhe esquecessem.
    Até arrepiou de horror um nadica. Um pouco só.
    Afinal estava apenas a olhar ao longe.


    Lá muito muito tanto de longe estava a menina.
    Agora sorria. Olhava. Via. Sorria... em vez de gritar...
    E...curiosa vida.
    Um choro levezinho suave quase doce escorreu...
    Teimoso do choro escorreu daquele e também do outro olho.
    Limpou na saia a mão molhada e ficou olhando a paisagem. Com um e também com o outro olho. Olhou com os dois olhos. Depois...sentou no muro a perna. Uma só.
    Mais não precisava. E ficou pensando.

    Curioso! agora sabia que pensava.
    Pois. Pensou que iria... e depois viria... e seria sempre bom ir e vir.
    Sempre saber que voltava.


    Lá muito longe a luz que vestia de bibe a menina na janela da casa...
    sumira devagar.

    Ela nem dera por nada.



    segunda-feira, 1 de novembro de 2004

    Sorvete


    Os cabelos redondos. Uma negrura de pele. Redonda a anca. Um por detrás redondo. Rolava pé descalço. Rolava! que não anda quem assim andava. Por detrás do assentar do pé, ficava um chão pisado. Igual?! vocês o pensam! Pois desigual vos digo eu que é! O chão que ela pisava rolava de um pé a outro pé. Nem ela era que andava! disse. Sim! Era o chão que rolava por debaixo do pé. Negrinha toda. Não. Minto. Rosada a língua aparecendo no lamber calado do sorvete. Sorvete castanhinho que nem ela. Um chocolate lambido de rosa. Rosa também o dela no debaixo da mão. Debaixo era de cima e um par. Isso era mesmo. Quando aparava água de chover pingo de céu. Rosado sim! olhando para cima, ficava o em devolta do negro muito preto do olhar. Redondo. Um negro em fundo rosa redondo! a olhar. Agora. Ali. Rolando o chão no que se diz de andar. Ela. Passando língua rosa em chocolate mole. O calor do sol. Redondo o sol. Desmantelado o doce chocolate do calor duplicado. O sol e a língua rosa. Luta desigual. Cai pingo na blusa. Cai pingo junto do céu. Cai o que se diz de chuva. É. O pingo redondo no lá em cima da nuvem. Caindo engelha. Estica. Fica forma tal de pingo de chuva. Cai. Arredonda em cima da blusa. Ela pára. Desvolteia o chão de terra no em redor do pé. Olhem! Por debaixo do negro (o pé) rosa/amarelado. Rosa por de dentro e por debaixo. E ela...toda ela chocolate. Negrinha. Parada olhando. Um olhar redondo. Vendo. A boca aberta suja de sorvete. Olhem! Rosada de rosa quente até mesmo ao lá de dentro.
    Negra.
    Negrinha tola olhando a chuva e perdendo sorvete.
    imagem adaptada d'aqui

    sexta-feira, 29 de outubro de 2004

    exorcismo

    a boneca mulher...
    mulher sentada...
    desgrenhada....
    desenhaste-a...
    quantas vezes...

    mãos amarfanhando o desalinho do cabelo...
    cotovelos esventrando os joelhos...
    força de um desespero...


    não sabias...ainda...
    então...não o sabias...


    desenhaste...bonecas...
    a óleo a lápis a carvão...


    agora...agora sabes...
    agora ela e tu...

    sentadas no degrau da escada...
    o desespero...antes...
    antes deste estar

    sentada...ouvindo...
    tu...desgrenhada...

    no degrau da escada...

    ela o vivia... antes...
    papel esborratado...
    olhando-te...


    o desespero da duvida...
    os cabelos dela...os teus...
    o sem - sentido dela... o teu...
    enclavinhadas as mãos...

    as tuas mãos...
    o desespero...

    a duvida... a dor...
    a tua...a dela...


    riscada no papel ...antes...
    muito antes...

    muitas vezes...
    antes...

    deste sentar... ouvindo...
    no degrau da escada...

    vivias... antes...
    boneca...
    desenhada
    ...

    (adaptado de texto escrito em 18/1/03)

    quarta-feira, 27 de outubro de 2004

    lua cheia

    Cansara de aguardar. Um dia atrás do outro. Um de riachos de água a desentupir sujeiras. Em outro, brasas de lume sobre a terra e nem maior se daria a secura...esta e o odor...aquele dançar de partículas de coisa que já fora.
    Cansara. De Junhos e Setembros. Também dos que lhes ficavam, antes, depois e no entre. Aguardar é demais que espera. De espera a gente sabe que aquilo chega. De aguardar a gente nunca sabe. Até se dá em deslembrar . Fica só entalado num desvio da memória.
    Ele cansara disso.
    Num dos Dezembros, o pai morrera. Não chorara. Não lhe entendeu aquilo na cara choro. Estranhara só.
    Uma noite de um desses meses...puxaria a camisola para o pescoço. Abotoaria o éclair das de ganga. No bolso a carteira documentos notas. Aos pés da cama deixaria um cartão...pedaço de uma oferta de um Dezembro. Escreveria fui. Em letras garrafais. Ninguém que visse se deslembraria. Ficaria antes correndo. Procurando. Ele já iria em outro Junho. Nem seria já ele. Ele descambado de aguardar. Ele cumprimentado daqueles que passavam. Ele sempre quieto. Sentado na soleira da porta...arrimado ao pé do limoeiro. Arrumando sonhos.
    Partiria.
    Puxou a camisola para o pescoço.... apanhou um limão.
    A lua rebentava de brilhos de cheia. Pisou a soleira. Entrou. A luz da lua estendia um lençol sobre a cama.
    No mês de dois seguintes o limão mirrara. Na cama outro lençol de lua.
    Ele já não era ele. Dizia assim quem o cumprimentara cansado de aguardar.... Diziam...num mês depois de dois...cuidaram que partira...ele apenas cansara. Cansara de aguardar.
    Um dia atrás do outro...cansara.

    O DORMITÓRIO III de Vicent Van Gogh

    domingo, 24 de outubro de 2004

    lembrando

    os aconteceres fazendo "cache-cache" ....suspresas...
    recordares...
    Almada Negreiros...O Nome de Guerra... Maternidade...
    esboços do antes de ser...desenhos...
    cópias enchendo paredes...eles pequeninos...eu...
    os outros...os desenhos...os nomes...as palavras....
    aconteceres sempre...


    Maternidade de Almada Negreiros
    Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais um estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal.
    O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. E é este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião.
    in Nome de guerra de Almada Negreiros
    Cap II A sociedade só tem que ver com todos não tem nada que cheirar com cada um



    terça-feira, 19 de outubro de 2004

    UM

    Este escrito ...(aquele, afinal ali abaixo!) ficou por ali escrito sem mais memórias ou com tantas!
    Hoje, venho colocá-lo neste local que me está sendo de...vida! quem mo diria! eu não sabia! (saberei algum dia alguma coisa, eu?!) não sabia ao que vinha.
    E estou de estar...ficando.
    A vida corre seu curso igual: de seres, de porvires, de risos, de cores, de tempos, de amores (desamores eu, acho, desachei de os ter) viver .... um simples balançar de flor, um apanhar de frutos no quintal, uma corrida ao entardecer, um sorriso, o jornal, o trabalho a fazer...os amores a tratar...... à vida eu agradeço .... carreiros, degraus, assentos de jardim,beiras de regatos, barcaças atravessando dois delás de afastar...

    e... eu ía escrever nada e postar apenas este, "de gaveta" dito, apanhado ali em base de CD com data de 23/4/03 e título prosaico de UM
    ...eu ía e...olha escrevi, saíu...aqui ficou



    A pressão dos nervos tensos
    na corrida do endemoninhado
    circulando nas ruas
    sem fim
    apressando e retardando
    os passos
    em cozimento com as paredes
    caminhando
    rompendo os passeios
    em passinhos miúdos
    apressados

    A pressão dos nervos
    nas mãos do electricista
    nos braços do cavador
    na cara do médico...
    nas olheiras da mulher das 19 horas
    a pressão na esquina
    no passeio de venda e compra

    A pressão
    sentida nas fibras
    indefinidas
    numa noite insónia

    A pressão – a falta
    nos lábios moles de velha precoce
    balbuciando
    a pressão
    na mão... na pega do saco


    A fúria do mar de sueste
    A dureza na tempestade de areia
    O sufoco do sol do meio dia
    O norte...o vento de norte...

    ...pressionando .... sempre...

    sexta-feira, 15 de outubro de 2004

    Escrever...agora...


    Era costume escrever mais tarde.
    Pela madrugada quando tudo dorme.
    Naquela manhã alonjara-se da hora de fazer os fazeres de ninguém. Outrora houvera a casa e havia a escola e a havia o reboliço dos risos e os choros e os ralhos. Havia os horários e os cortes dos vestidos, as bainhas ...os pontos. Os deveres da escola. A vela. Os acampares.Outrora fora há tanto e parecia agora. Ou seria ao invés?! outrora fora há pouco e parecia há tanto?! Deixá-lo! O tempo passando. Eles foram vivendo. As casas desandaram. Cartas já não havia. Hoje, apenas ela, normalmente, diferente de hoje, pela noite adentro, escrevia.
    Estava, notava enquanto remorava/revivia/percebia, sempre, sempre de ouvido atento. Não não era ao cão, nem ao ruído na porta (ele vinha vinha sempre não se surpreendia) . Este ouvido atento que se lhe apercebeu sempre de ouvido à escuta, sempre de ouvir esperando, era de outro ouvir. Era, o apercebia, como outrora o bater, repenico trinado, conhecido, a tempo. Mas, estava na hora, precisava escrever. Não que fosse costume fazê-lo àquela hora assim, depois de nada, ainda o sol pinando o de cima do monte e uma luz suave mas ainda bem forte, azulejando o chão lavado. Estava ali sentada meio de esguelha. Apenas metade da coxa no tampo da cadeira. Outrora havia sempre a voz a dizer-lhe que se sentasse bem. Outrora. Agora nem sentia. Estava assim sentada ao acaso. Sequer era porque apetecia. Calhava. Debruçou o corpo no castanho da mesa. Ficou. Os olhos entreviam para o delá do écran. Os ícones de apagar, abrir, refazer a letra em muitas tantas letras que nunca era a sua. As caras sorridentes que pusera no dito de Ambiente. Via para lá. Não estava nada ali. O corpo descaiu um pedacinho mais. A cabeça poisou no dobrado do braço. Ouviu um estalido. Não. Não era aquele o tal que sempre estava à espera que soasse ao ouvido. Desapercebeu-se deste. Nem sequer o ouviu. No écran giraram alguns ícones. As horas de escrever não eram mesmo aquelas. Outrora sabia ela quando. Mas ali não estava atempando. Bem bastava o relógio fazendo tic tic. Tempo apenas o medido. Aligeirou a manga que apertara o pulso. Um gesto tão sem gente como se fora outrem que assim a colocasse. Ainda mais, assim, num quase tudo nada de descuido.A roda desandando. Destempada.(Des) sentia tudo/não sentia nada. Apenas num delá de outroras lhe mergulhara o tempo e esse era agora ela ali sentada, debruçada no tampo de cima do teclado espelhando o monitor. A cabeça parada no de dentro, no delá do que se podia ver. Um cabeça inclinada sobre um braço rosado, afagado de leve por cabelo inda farto e apenas, só apenas, levemento branco.

    - Adormeceste?
    Ouviu.
    –Não! Estava a tentar escrever, mas... esta não é a minha hora.
    E sorriu.
    Ele vinha sempre voltava sempre. Nem se apercebia.
    O telefone soou (ou era o telemóvel?!).
    Clicou. (clicar era termo que gramaticara ali e no de escrever que num tempo de dar lhe ofertaram e ela se impusera que a mão entorpecia na escrita habituada e gostada de caligrafia).
    -Está?!... Tá?!... Viva! Olá!!! (.....) sim...diz......
    (Era a filha! )

    quarta-feira, 13 de outubro de 2004

    enquanto...

    Havia um banco. Um banco igual àquilo a que se chama banco de assentar. Quatro pernas e um tampo. Quatro travessas a unir as pernas. Um ângulo desviava de cada uma a outra perna e desperpendiculava uma e as quatro do horizontal do chão. (afinal todos sabemos o que é um banco neste contexto de descrição de casa) No demais era um espaço. No demais eram corpos deitados. Juntos. Aconchegados. Apertados. Dormiam numa colcha de cheiro a descomidos.
    Pancadearam na grade. (Podíamos dizer simplesmente que bateram à porta. Mas se não havia isso, há que encontrar modo de dizer de onde aquele ruído.) Um ruído surdo sobre tábua que é muitas tábuas com vários entres entre elas. Duas vezes bater. Às duas, foi ela que acordou. Ela. Um dos eles que dormia aconchegado,apertado (como vos aprouver). Arrumou um olho aberto. A cabeça descaiu do lado do ouvido que primeiro ouvira. Quem seria?! E isto não pensou. Gritou para o de lá dos entre tábuas quem é? Um grito que sabe, não é grito. Afirmação, não pergunta. Ela não falou. (podíamos dizer, apenas, que ela acordou com aqueles bates e esfregou um olho e pensou: “quem será?” mas...não foi bem assim...) Ergueu-se. Um corpo por de cima de outros. Alinhado numa vertical. Mais os outros se ficaram vistos na contrária posição. Corpos outros, que não ela, ondularam em espasmos de desouvir remorejando babas e sonidos sem voz e sem tino. Ela, a mão, nas tábuas. Os entres e as tábuas deslocadas para um ângulo agudo com...(podíamos dizer, simplesmente : levantou-se e abriu a porta, mas...não foi bem isso...).
    Assombreou-se o escuro do de cá do ângulo, com o escuro do de lá. O emsombreado deslocou-se. O ângulo desfez-se. Ela seguida pelo que emsombreou. Acresceu um odor novo. Tudo renovou à horizontal. Tudo, não. O banco! O banco a fazer quatro ângulos com o tudo embaixo a ele.
    Cheirava a cheiros. Rugiam silêncios entre corpos. Silvos. Esgares. Soluços. Fungares. Um choro. Um vagido. Um ranger de molares.
    Nos entre as tábuas começava a clarear. O banco assomando num raio de sol à altura,precisa e segura,de uma mão, a primeira a sair de leve, nua, para o acordar de um dormir (aconchegado ou apertado, como vos aprouver) e correr para o de lá da rua.

    Enquanto não consigo escrever o que se passou. Enquanto...outros o dizem de simples escrever...enquanto...escrevi este aqui - tem no por debaixo o que eu queria e não me sai de dizer nem, inda menos, escrever (e sangra...)

    segunda-feira, 11 de outubro de 2004

    dueto a uma voz

    Mal entraste, desfizeste o meu estar solitário fazendo horas para alguma coisa que logo se me passou. Passaste com um levantar de queixo e um acentuar de anca distorcida enquanto te dirigias para uma mesa, a chávena de café na mão. Sentaste-te de frente para mim. Não tinhas intenção de me olhar.
    (Eras tão magra!)
    Expeliste uma lufada de fumo branco enquanto equilibravas entre dois dedos um cigarro borrado do leve avermelhado com que cobrias os lábios. Lábios que deixaste um instante entreabertos como se um espanto se tivesse deles apoderado. Num lampejo que te foi indiferente, cruzaste com os meus, teus olhos de um azul debruado a preto como se pincel de artista chinês lhes tivesse desenhado contornos. Afastaste o fumo dos olhos com duas cortinas de renda negra que fizeste descair, levemente.
    (O meu vestido ficou mais velho. A barriga distendeu-se-me um ror de centímetros. Uma fila de bonequinhos colocou-se em cima da mesa especados em gargalhada! Calei-os. Calei as gargalhadas ridículas. Desfiz-lhes a fila que formavam - cada ano da minha idade ali em meu redor, espevitados. Arrumei-os com o ar sério a que obedeceram na responsabilidade de me tornarem uma jovem senhora idosa. A barriga voltou à sua dimensão real e o vestido descaia sobre ela numa cumplicidade que os fazia, e a mim, readquirir uma serena dignidade.)
    Foi um lapso.
    Voltei a olhar-te...vendo. O teu sorriso foi tão inconsciente e sincero como o meu.
    (Terias, tu também, a teu modo, sentido maior que nunca a tua magreza? algum osso a salientar-se indevido? Terias, por um lapso, um par de anitos a rabiarem sobre a tua mesa? Porventura terás sentido que as calças estavam demasiado lavadas... ou demasiado sujas?)

    Aliviamos as nossas duas esperas quando o teu isqueiro se recusou acender novo cigarro. Foi planeado o gesto que nos soergueu com o mesmo objectivo?! olhando tu primeiro em volta e só depois se me dirigindo, e eu fingindo que não via a tua busca, aguardando ser solicitada.
    (
    As calças estavam de facto demasiado lavadas e com vincos colocados ali no local certo de uma calça de corte. A blusa tinha o toque de uma marca que não identifiquei. As duas peças estavam separadas por um cinto de cabedal largo que apertavas, não displicente, não sobre um local qualquer das nádegas, mas bem assente na cintura. Calçavas sandálias rasas de tirinhas de um verniz azulado nuns pés de unhas bem tratadas e coloridas de azul, como nas mãos.
    Como os olhos
    !!).
    Retornamos às nossas esperas mordiscando a borda das respectivas chávenas, enquanto o café escorregava devagar. Gesto que repetimos quase em sincronia.
    (E, de repente, desapareceste-me. Quero dizer, deixei de te dar atenção, perdi-te.)
    Quando voltei a olhar, a mesa estava repleta de bonecos que só eu via e o teu pescoço saia da blusa numa rodada de pregas confundidas com um colar de pedras avermelhadas; as tuas mãos esguias e magras estavam igualmente fendidas de rugas e alteadas de veias arroxeadas. Um aro grosso cobria-te quase metade do anelar esquerdo.
    (Pasmei e observei melhor – avidamente.)
    Sorriste-me de modo consciente. Atabalhoadamente, respondi com um olhar que devia ser despegado do sorriso pois dirigia-se-te de outra forma que o sorriso – tentava perceber.
    (Sim, era o teu olhar, apenas ele, que te fizera toda quando entraste. Apenas o olhar.)

    Só então respondi ao teu sorriso.

    Dois adolescentes sentaram-se ruidosamente, calorosamente, pedinchosamente à tua mesa.
    Sorriste ao meu real sorriso.
    (eu já me distraia com outras chegadas)

    (rascunho encontrado ...1999?)

    Hoje saí e esqueci o riso pendurado no cabide

    deu em chover esparsado e eu sem o riso

    apanhava a água (toda aquela água!) em cheio na cara

    lágrimas do riso chorando de o ter esquecido!



    sábado, 9 de outubro de 2004

    quase oremos

    ...a estas palavras queridas do Almaro

    “Pega numa lágrima,tua, com dois dedos (polegar e indicador, de mão qualquer),
    ao de leve, não vá ela fugir e perder-se no ar ou no chão.
    Conseguiste? Bravo! Bom começo! Agora, olha-a! Que cores vês? Quantas? Uma? Duas? Consegues dar-lhe nome? Tem todas as cores do teu rio e da tua saudade.
    Se olhares bem, são os teus olhos que se reflectem da tua lágrima.
    As nossas lágrimas é o nosso EU, todo lá dentro…”

    juntei a voz doce que hoje de mim se acercou
    de um grande amor, de um meu amor!
    fiquei da saudade acalmada....
    e assim...
    (mais a chuva com que enchi mãos e alma)
    a tristeza se enrolou e...
    de mansinho...
    descansou de mim!

    Obrigada!



    sexta-feira, 8 de outubro de 2004

    momento

    sufoco de sentires diversos
    a saudade perpassa como um rio de lava
    nada mais que pressão no peito

    de rir a vontade está recostada de dormir
    uma lágrima pede que me deixe assossegar
    digo-lhe que se aquiete
    que se desfaça de companhia
    em torrente
    de vez, me acalme esta saudosa alma
    de vez, por um dia ao menos,
    esta tristeza se alonge

    (o ar paira de uma humidade que não se dá em chuva!)

    terça-feira, 5 de outubro de 2004

    palavras

    Sabem o que é querer escrever e não ter, ali à mão, uma folha de papel?! andar esgravatando ao derredor e nada que não esteja já escrito e a tua cabeça estrebucha de palavras como uma torneira a pingar de desarranjo sem mais que o chão onde escorrer e a alagar casa! Assim, as palavras numa cabeça sem um papel onde a mão escreva qual vaso parando ou sustentando a água, vão pingando e perdendo-se no éter mesmo quando, já tresloucada de procurar papel que as sustenha, ou mão que as estanque, te ouves palavras a saltar em tua volta e são elas saindo-te pela boca em sons desconexos molhando o ar em volta, perdidas, formando por vezes frases como os pingos acabam por formar um lago que invade tapetes e pode causar, a tempo, inundação pior que igual a chuva grande. Assim, as palavras sem um papel onde assentar.
    Um dos papéis encontrados, neste quase delírio de impedir que as palavras inundassem o ar em volta, estava escrito numa das faces com um poema. Um ror de palavras que não vieram de ti. Alguém as escrevera nele sobre a vaidade, os palcos, os que batem palmas e os que são ovacionados; alguém que talvez tenha andado aos papéis anos e anos, ou, talvez, tenha começado apenas a sentir a força de percorrer o papel para se parar a palavra, precisamente quando cresceu a necessidade de andar aos papéis. Antes, talvez, digo eu, nunca tenha sentido esta quase compulsão de escrita, de deixar a palavra desfazer-se amparada, qual pingo de água no balde, sobre a folha...ou rebenta...inunda...enlouquece...entope...derrama-as em discurso anódino.
    Mas...o tal papelinho escrito de um dos lados, dizia (dizia-te?!) que o mundo é um palco de representações/ que o peso das reproduções/ a afirmação das imagens/ nega o amor/ que se deve afirmar. Dizia mais... o papelucho, menor que a tua mão já de si pequena, ali abandonado, afinal também escrito na outra face como um vulgar papel de lembrar que preciso de ...comprar...fazer. Dizia, em letra de escrever em teclado impresso a um rosa esbatido, que o tempo da vida faz/ o meu ser estrebuchar/no vazio/ de nem a uma nem outra/cena pertencer/e de o circulo vicioso/ entre poder da submissão/ e submissão dos poderes/(...) estilhaçaram-se as representações/que sufocam as emoções.
    Toma lá para aprenderes a ter cuidado quando procuras papel para escrever – NUNCA LER!!! Precisas de papel vazio! um papel com palavras é um perigo – como um balde cheio de água ou colocado de fundo para o ar debaixo da torneira que pinga. Não deves ler...nunca! quando andas, assim, em busca de papel!
    Pronto, agora, o tal papelinho diz, tal e qual o que (talvez!) as tuas tais palavras fossem dizer escrevendo em papel outro: Exilada/ fora e dentro do mundo./ no lado invisível/ o dos sonhos de todos/ para lá das ilusões.
    O papelucho a reenviar os pingos de volta em ricochete ( as palavras para dentro da tua cabeça, da tua boca) uma magia, mas uma possibilidade que as leis da Física não desmentem – tudo uma questão de direcção do pingo e de momento cinético no ressalto. A palavra a bater na folha escrita e retornando, palavra que não escreveste chocando com palavra que está lá, direitinha para o local de origem na tua boca, na tua cabeça.
    O papelucho, ocasional na busca doutro, fez-te (diz lá, diz!!) fez-te engolir as palavras que ias escrever. Deixaste de pingar!
    Não te foi permitido alagar como farias sem qualquer papel. Afogou-te a palavra e remeteu-te ao sentir.
    Como dizia o papel: deixando sair os sentires/para sentir a plenitude da existência corporal/como a pertença universal.
    E aqui, precisamente nestas palavras, o papelucho foi rasgado. Alguém (tu?!) mataste as palavras...um dia...não viste o lado escrito a rosa e escreveste, apressado, um lembrar de cebolas, carne, arroz e um prosaico ir ao banco. E...não sentiste as palavras chorando, contorcendo-se no rrrrr do rasgar transversal?!
    Querias saber mais...o resto... não existe.
    Agora talvez seja o tempo de escrever as tuas. Só agora...depois de mescladas com as do papelucho!
    (Afinal havia tanto onde ir buscar papel e logo havia de te aparecer este papelucho escrito de rosa e rasgado tão transversal que te permitiu as palavras, perturbadoras...vivas!)

    Agora, talvez, já não seja o tempo de escreveres.

    A manhã já abriu de sol. O silêncio ensurdecedor das tuas palavras amainou e, lá fora, surgem os rumores de mais um dia. Um domingo. O fundo longínquo do sueste, o deslizar seco das folhas de buganvília no quintal, um cão, o tic-tac do relógio estragado na parede.


    As palavras acomodadas na cabeça qual torneira que parou de pingar...


    (Escrito em 25/9/04)

    segunda-feira, 4 de outubro de 2004

    Ai estes Blogueiros!!!

    Oh! meus queridos blogueiros ( oh! Zeca, tu então!) não sabiam qual é o livro que eu tinha aqui ao lado? e quem escreveu? mesmo com a dica em rodapé?! ai estes meninos!!!
    A resposta certa era:
    livro blogs
    autores Paulo Querido e Luis Ene
    E o vencedor do concurso com a única resposta certa foi:
    AC A despassarada com a indicação "as maravihas da pesquisa google"
    Uma mulher e despassarada...só podia!!!
    Vão lá dar os parabéns à moça !
    e ler o livro dos amigos, caramba!!

    domingo, 3 de outubro de 2004

    Retribuindo...

    Olá linda, menina Inconformada!

    A Seila pediu-me pra lhagradecer, a publicação do texto dela no seu bi logo...
    Tá vendo? Pois... eu bi logo que a menina bia!
    Tá então feito o agradecimento!

    Aproveito, eu agora, a vaquita, para dizer reconhecida e de minha voz "muuuuu", tal como a menina gosta!
    Porquê?! Ora, não seja tímida!
    Eu sei que a menina tem um fraquinho pela minha gente!

    Mais..uma paixão que a menina diz ser bem conhecida!
    Afirma, mesmo, que “cada vez que alguém vê uma vaca lembra-se de...” si.
    E, disse a Seilá, que a paixão é tal que já viajou “da Dinamarca para Lisboa com uma ao colo “.
    Ora isto deixou-me desvanecida!
    Conte, de hoje em diante, com mais esta vaca às suas ordens olhando-a dia a dia com “olhos imensos e pestanudos” neste meu jeito “pesadão e maciço”!

    Gosto da menina e pronto!

    (Texto livremente inspirado num documento encontrado num manuscrito da ERA SAPO e datado de julho.07.2004 )

    sexta-feira, 1 de outubro de 2004

    Acasos em REDE

    Eu...... encontrei no blog da Roxy que dizia:
    Bom, encontrei no blog do Cosmic Men
    O qual, por sua vez, tinha postado:
    Encontrei no blog do Isso Agora que tinha encontrado no Blog da Ju que tinha encontrado no Pintelho, que encontrou no da Duende, que encontrou no Canto do Melro que o encontrou no Substracto que, por sua vez, o encontrou em Caterina.net.

    E na página 31 do livro que estava mesmo aqui ao lado (finalmente encontrado nas bancas cá do burgo e lido ontem à tardinha) e seguindo à risca a condição de ser a primeira frase completa, rezava assim:
    Para muitos estar perto dos seus leitores é uma benesse.

    mas eu vou fugir à regra e escrever as outras duas frases que terminam o parágrafo primeiro desta página 31e que rezam assim:

    Ter feedback é fundamental. As Redacções proporcionam recompensa material, sobretudo,mas pouco calor humano. Ora, disso não falta na exaltada blogoesfera.

    E agora os meus estimados leitores exaltados blogueiros
    (não bloguistas como o livro, com estes ditos na página 31, me ensinou retirando-me ainda fiapos de dúvidas)
    façam favor de entrar naquele concurso!
    e neste que acabo de inventar :

    QUAL É O LIVRO QUE EU TINHA AQUI AO LADO? E QUEM ESCREVEU?

    ************************************************************************************
    Oh! ENEQUERIDOS ...a blogoesfera é um suminho de coincidências!


    adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

    desafio dos escritores

    desafio dos escritores
    meu honroso quarto lugar

    ABRIL DE 2008

    ABRIL DE 2008
    meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

    Abril de 2009

    Abril de 2009
    ai meu Abril, meu Abril...

    dizia ele

    "Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
    Einstein