quinta-feira, 28 de abril de 2005

Chocolate

Este hoje é dedicado
Ao pessoal d’oblogdalibelua que faz um aninho
À Sotavento ca mecinha hoje (e sempre...mas NÃO faz anos carago!!!) merece tudo



Ao fundo da sala a parte antiga de mim pinta os lábios de vermelho. O batom esborrata-se nos cantos e eu lambo. Sabe a amora com travo de ranço. Um batom, como eu, rançoso. O fato que visto é verde. O brilho que tinha ainda se nota na bainha. No resto, e sobretudo nos sovacos e nos em redor dos mamilos, também na cintura, o brilho do tecido deu lugar a um baço verde. Quando iluminado, parece branco, opaco, quase roto. No cabelo, camadas de cores antigas esconsas num acobreado. A ondulação larga e fingida descai-me sobre a testa. Eu sentada com o cotovelo apoiado na mesa lá bem no mais escuro fundo do salão. Eu. A que vive perdida de mim há anos. Eu a que não morri. Velha?! Não! Desgostada da vida. Busca-me a cada canto. Olha, noite após noite, que eu passe na rua quando volto, pela madrugada, já as gentes se indo para os afazeres de um dia. Olho-me. Eu a procurar-me naquelas mulheres que conduzem carros. Naquelas mulheres que se sentam displicentes no balcão de um bar tomando o pequeno-almoço. Naquela que folheia revista de decoração de casa, na outra que começou a aula e se debruça sobre uma criança, na que não dormiu e sai do hospital zonza pensando. Naquela que descobriu a um olhar, um rasgão vertical na meia preta muito esticada, muito elegante, muito feita para ser vista. Eu de cabeça em volta busco-me e não me encontro. Eu olho-as todas num cansaço. Puxo a aba do casaco de uma imitação de burel castanho e afofo ao cabelo a boina. Aconchego as luvas entrelaçando os dedos uma mão na outra e aproveito para um bafo de quentura lhes deitar da boca. Endireito as costas e o pescoço levantando o mais que posso o queixo e sinto que este gesto me obriga a um pisar mais forte no cinzento do asfalto coberto de geada da noite. Sinto as botas a tocar a saia cinzenta por baixo do casaco. Sinto o soutien mover-se roçagando os bicos dos seios. Sorrio a este sentir do corpo. Olho-me no espelhado de um carro. Encontro eu ali na imagem. O cabelo parece penteado e com corte. O ondulado ganhou forma de naturalidade e a cor de um cobre natural, sombreada de muitos entremeados brancos. O batom...Continuo a andar. Busco-me a mim. Paro defronte de uma cafetaria. Na montra há um espelho que multiplica os detrás dos bolos. Fez-me fome e vontade de uma bebida quente. Um chocolate grosso! Eu, parada frente à montra, pensando chocolate quente. O espelho envia a minha boca reflectida. Uma boca sem batom! Uma boca de cor rosada. Encostei o nariz no frio do vidro. Eu queria ver se era eu. Olhei com força no tal espelho que fazia muitos os bolos na montra. Debaixo dos cabelos caídos para a cara, descobri um par de olhos de mim! Um par de eu a olhar para mim!
Meti as mãos nos bolsos e com o ombro empurrei a porta rotativa e dei uma, duas, três, tantas voltas sem entrar no café. Fiquei andando de roda na porta com aquela eu que encontrei. Mas há mais de mim, eu sei!

Estarei em casa lendo?! Será que estou na cama revendo o êxtase de há instantes, revolteando lençóis meu corpo desvestido, saciado fazendo-se-me afagos?! Ah! Serei a que desabriu a janela para penumbrear sala onde tem marido doente?! Não?! andarei cantando num jardim?! Ah! Estou nadando numa praia no outro lado desta rua, quero eu dizer, no outro lado do mundo!!
É! eu ando por aí em muitas muitas tantas e estou aqui escrevendo assim... ando por aí....

ando por aí!!!!

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eu a acabar de escrever este texto e trazem-me esta caixa de chocolates embrulhada num sorriso
a vida é feita de pequenas coincidências algumas de chocolate...
saborosa!
é mesmo de lamber os beiços!





domingo, 24 de abril de 2005

era uma vez...

Escusado gritar por eles ... Timóóoooteo!...Esteeeer!!! Mariaaaana!!! Melhor mesmo é ir lá, juntinho de cada um. Devagarinho, assim que nem festinha, muito de lento, tirar tampa de ouvido e logo, ao mesmo tempo, dizer o que se quer: “Timóteo, vou contar história!” “Ester, vamos na roda do tapete?!” – a Ester é ainda quase de pegar no colo!
Eles sempre querem ouvir história. Lhes habituei eu que nunca tive, nas terras em que me vi crescer, aqueles materiais que Dona Marília compra para eles cada dia. Sim mesmo! Ela traz sem ser dia de festa de aniversário ou Natal... É só ver ela chegar naquela caixinha de subir que nem lagartixa em parede, desde o jardim até ao décimosextoandar! Ai! décimosextoandar?! e eu que nunca percebi o que ela queria de dizer com aquela palavra. Olha... eu que estava pensando em contar a eles, hoje, uma história que minha avó contava sobre palavras, e logo me encontro com uma que nem sei que ela quer dizer... se sequer é palavra! A Dona Marília chegava na tal caixinha (essa eu sei que é elevador!) e dizia: “Finalmente no meu...”e falava aquela tal que eu, agorinha mesmo, agora, descobri que nem sei se é palavra!
Bom, mas a conversar assim, com vocês que não estão aqui na sala onde cada um dos três rapazes filhos da Dona Marília, mais cinco primos e primas que hoje cá ficaram para dormir... a falar,mesmo que seja, como é, um falar só pensando, nunca mais eles se desprendem das ligações na rede...Olha outra palavra que não sei significado!! Mas é o que cada um deles diz : “Espera Maria das Dores que inda tou na rede”.
Nem que eu mesma, nunca apercebera que havia palavras que sendo ditas não eram sabidas! Estou quase me chorando de andar aqui tentando que eles oiçam a tal história sobre palavras e eu descobrindo que emprego algumas de mal entendimento. Mas não vou desistir. Olha quem?! Eu sou nascida naquela ilha que chamam de Cabo Verde e minha pele é negra mais que a da Dona Marília quando volta do solário. Deus que me valha que eu tou-me assustando de mim! Outra palavra a sair sem percepção! Solário?! Não sei, não, o que é! Minha cabeça hoje está me pregando partida...pois que eu julgava que solário era...Que sei eu o que eu julgava que era solário! Não julgava nada!
E com esta atrapalhação ainda vou me mentir...mentir apenas de pensar! Porra! Eu nem sei palavra melhor para, inda que só pensando, gritar minha indignação comigo – falar palavra sem saber o que ela é de querer dizer.
Pronto. Ando a pensar isto tudo ao mesmo tempo que vou ajuntando cada um dos meninos em volta do tapete, e agora como é que eu vou contar a história que começa assim: Houve um tempo em que a palavra andava presa.
Me diga eu a mim: Maria das Dores, como é que tu vais contar?
Mas vou que eu não sou de assustar com palavra nova ou que descobri que empregava sem lha perceber.
Então agora que eles já estão todos sentados, enrolados, abraçados aqueles ali no canto! Eu vou é começar. Já sentei a bunda que é que nem a da minha avó... no resto sou fininha, mas a bunda é rija e alargada.
Eles tão julgando que é de bichos da selva ou de tiros ou de aquele avião que deitava fogo e do outro que deitava saco de milho.
Hoje, a Maria das Dores vai contar uma história de um tempo em que as palavras, mesmo aquelas que eram muito percebidas, eram proibidas de sequer ser pensadas.
Era uma época em que as palavras podiam ser presas. Era uma época em que era crime palavra inventada, e mais ainda palavra de verdade. E as palavras podiam ser mortas.
As palavras andavam refugiadas em encontros nocturnos, perdidas em esquinas.
Palavras sussurradas muito, muito amadas.
A história é longa, mas tem como todas as que lhes conto, um final muito feliz.
Antes de contar pra eles, eu adianto o final.
Há um dia em que a Palavra, foi libertada. E com ela todas as palavras.
E as bocas e os olhos ficaram cheios de palavras à solta enchendo as ruas.


Esta é a história que lhes vou contar ...
-Ester, minha linda! não durma... Maria das Dores conta...
Era uma vez...


quinta-feira, 21 de abril de 2005

memória

Vinhas em torneados de dança.
Os pés descalços.
Finos os tornozelos.
Inaudível o teu pisar.
A luz a que dançavas, era...
entre ser o sol e o se deixar de ser
a estrela que alumia
Também na luz de um castiçal de velas
teu corpo tu dançavas.
Volteios de serena volúpia.
A dança duplicada.
O deslizar da vela se lacrimando
e o teu quase chorar... dançando.
Serpenteavas abraçando o ar.
Descalça.
Sacolejando panos... asas...
transparências coloridas.



Vinhas dançando
e eu estava ali.
Eu estive sempre lá.
Vi o sol se colocar detrás
Vi as velas acabarem...
lágrimas de cera... só...
Eu estive sempre lá.
Sempre...

E tu vinhas para mim....
Dançavas ronronando
gatinha bailarina.



o verdadeiro sentido deste texto está ali na gatinha do abstracto concreto que eu nem sei como dizer eu te agradeço TCA! eu te agradeço!




segunda-feira, 18 de abril de 2005

imploração



deixa eu descansar
eu quero mesmo só ficar assim
de costas voltadas
sem ver um só de nada
quero ficar desouvindo
ficar bisbilhotando sonho dormido
prevaricar dormindo em hora de trabalhar
baixar a persiana e desver o sol
passar olhar em letra e não ler
fazer lacinho com dobra de camisa...torcer
abraçar o ursinho
ficar olhando desenho em risco de parede
deixa eu descansar
não me chama em hora de ir
deixa eu andar por aí despida
sentar no tapete a tarde toda
toda a tarde vendo fotografia
deixar correr o rio saudoso
fungar nariz em cima de foto amarela
deixa eu descansar
deixa esquecer
deixa ficar comigo, eu
depois eu volto e faço vida de viver
agora...deixa eu morrer de gente...
apenas não estar...

sábado, 16 de abril de 2005

anos


Voltavas da tarde na eira. O vestido debotado volteava de lilás em teu redor. A brisa soltava dele florinhas. Voltavas vestida com um simples e velho vestido lilás com flores miúdas rosadas. As florinhas, sopradas pela brisa, faziam grinalda em teu andar. Era um fim de tarde de Agosto. Um muito ao fim da tarde quando as sombras se esbatem e ficam muito atrás das gentes e das coisas. Era uma hora em que os corpos vão deixando de fazer sombra. As mangas do vestido eram um balão muito pequenino. O elástico dentro da manga que fazia que ela fosse dita manga de balão, quase encostado ao ombro. O braço, os dois braços, ficavam sem vestido. Os dois braços ficavam muito braços entre a manga e o pulso, passando pelo cotovelo aguçado, tão rosado como o resto da pele. E os pelos loiros brilhavam na luz do fim daquela tarde de Agosto. Tão loiros eram, ainda mais brilhando, os cabelos de caracóis meio cobertos pelo lenço azul atado displicente por um nó. Um lenço na cabeça atado com um nó sobre a nuca muito branca. Como era branca a pele da nuca ali onde o nó segurava o lenço e onde poderia alguém tocar ou simplesmente ver, confirmar, a brancura, alguém a quem permitisses que levantasse devagar os caracóis aí dependurados. O loiro, esse, a gente consegue descrever por comparando ao folheado das maçarocas secas que desfazias na noite de há quatro dias naquela mesma eira de aonde agora vinhas. Ficavam-te na mão as maçarocas de cor divina e de quando em quando ou num quase nunca mais, gritavas tu, que outro já fizera, milho-rei. Vinhas da eira ao fim de uma tarde assim como descrevi do que eu me lembro. A brisa soprava em inverso sentido do teu andar. Por este acaso de vento leve que sopra no sentido da eira, eu quase via teu corpo sob o vestido lilás. Os seios. O redondo do ventre. As coxas. Calçavas aquelas sandálias de cabedal entrançado em tiras sobre o peito do pé. Os dedos, quatro deles, livres volteavam ao teu andar. Dançavam, os dedos nas sandálias. Dedos brancos apesar do pó da terra. Assim te via eu sentado no beiral de cima da fonte. Muito sentado olhava a menina Tinhas quinze, dezasseis?!
Em cada mão trazias uma outra apertada. Uma mão pequenina dependurada de uma criança. E eu via três meninas. Eu via a ti menina . no dia dos teus vinte e cinco anos. Hoje. Quando vinhas, em contra brisa, da eira, trazendo, em quase brincando que ias, uma em cada mão as tuas crianças. E eu só via, dependurado, olhando, do beiral da fonte, a menina andando, quase que voando, de me fazer a mim pelos céus me ir, naquele riso de descuido ao passar na fonte, com um sonoro e quase trinado “Deus te salve, António!”

quinta-feira, 14 de abril de 2005

encontros do coração

Tinha na caixa do correio este Risco

obra sempre prima do TCA

e palavras ...
velhas palavras...
assim como um abraço ele escrevia
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara! (...)
palavras encanecidas que ele leu...
palavras velhas por aí

Deuses lh'abençoem! o mesmo desenho ilustra no Abstracto Concreto
palavras NOVAS... as palavras No Lago do Breu do Zeca Afonso recordado com magia de amor no Orpheu.


segunda-feira, 11 de abril de 2005

realidade/s

Nem um traço de caminho. Nem um sinal de orientação. Nem luz, nem sombra, nem um estrebuchar de ave volvendo ao ninho perdida na debanda a outro rumo. Nada . Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada. De repente, um roçar de seda fria na mão. Um estremeço... medo, espanto, desejo, esperança. Alegria? Não.
Agora, um sentir de carne
Uma pele roçando. Em redor a negritude e aquele nada de nem sequer o silêncio por comparado. Nada. A pele e a seda. Começas a sentir que existes. Há algo que se relaciona contigo. És. No nada, a pele e o tecido. Não sabes. Sabes que se rompeu o nada. Dás um passo e sentes um soprar quente na zona que te lembras ser a mão de um dos braços. O teu braço ergue-se para alguma coisa-alguém. Pára. A mão que o teu braço conduziu no espaço deserto de som e luz, encontra um rosto. Desliza devagar e sente-o peça a peça: nariz longo, olhos semicerrados, as pestanas, sobrolhos fartos, um queixo ossudo. Tu tens uma pessoa contigo. Afagas o rosto. Um dedo da tua mão encontra a cavidade da boca. Percorre os contornos internos de uma boca que se fecha e te entrega a suavidade húmida de uma língua. O teu dedo rola no interior daquela cavidade que o lambe e morde com dentes pequenos e agudos. O silêncio arde. Não sabes se falas. Sabes que pensas. Sabes que não ouves. Nada. Vazio?! Dás um passo a encontrar o corpo. Envias a mão no erguer do braço e buscas. Acima e abaixo daquela boca e daquele rosto...nada. Duvidas. Retornas. Outro passo. O dedo revolteia na contorção da língua e sentes o bafo quente. Mais nada. Estás ali... num ali que nem sabes o que é porque sem referencias. Contigo uma face, uma boca, uma língua. Sem corpo. Volteias o braço em redor de ti. Não tocas. Não te tocas.
Dois braços. Duas mãos e um rosto com boca e língua que lambe e dentes que mordem. Sentes a suavidade da pele e aquela outra de seda caída do cima do rosto. Puxas devagar o dedo. Solto o dedo da boca. Coloca-lo sobre a outra mão. Seco. Lambido, o teu dedo está seco.
Uma luz intensa embate nos olhos que fechas com pressão das pálpebras. Encolhes o corpo numa uterina postura. Um ruído intenso. Um som que não dominas. O dedo seco aprisiona algo. Ergues-te na luz branca do quarto. Tocas, incrédulo,uma parede. Apalpas. A parede água suga a tua mão. A tua mão, além,um jacto de água.
Ah! o barco! ela no barco! há quanto tempo?!
Agora te sabias. Vagavas de quando em vez...Agora te sabias ser. Frequências interferindo te faziam ser.Pedaços. Pedaços de ser.
O que fica da gente! pensaste tu. A parede de água enrolou-se-te nos pedaços de ti.
partiste? tu? quem? onde? quando?

(Nada. Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada.)???

sexta-feira, 8 de abril de 2005

estórias...

Dona Antónia modista.
Antoninha era apenas nome de designar a senhora assim de brincar. Maria Antónia para a família e amigos.
Era a Dona Antónia modista pois piadas eram pouco frequentes...nem as havia! mais agora que ela se deixara dos pontos e das máquinas e deitara na lixeira as cadeirinhas onde se assentavam as meninas da costura.
Antoninha há muito que ninguém se referia a Dona Antónia desse jeito de sentir, sequer de lembrar ou se a ela referir. Quase podíamos dizer que nunca existira uma Antoninha.
Maria Antónia era, essa sim, figura de presença assim designada pela madrinha. Mas também, mais ninguém, ao que o narrador saiba, se lhe referiu deste modo, ao tempo desta narração. Dona Antónia modista de profissão herdada precisamente dessa madrinha. Madrinha, modista de casa posta, freguesia certa e seleccionada de entre, e apenas de entre, as senhoras de nome e casa de brasão. (Verdade que muita camisa e fato de sair, vira o corte e a vestidura primeira, nessa modista madrinha de Dona Antónia. Mas essa roupa de pano de condição sempre inferior a uma seda ou a um brocado, essa de um corte que nem consulta de desenhados se precisara, saía sempre pelas traseiras na calada da noite ou muito antes de algum galo cantar. É isso que os leitores pensam esta,r eu narrador, dizendo: essa madrinha fazia umas roupas para o povo, mas era coisa de escondido para não desafamar a casa de modista que fizera nome. Estórias...)
Foi pois Maria Antónia, ainda menina, sentar o seu já bem apessoado traseiro, numa das pequenas cadeiras dessa madrinha. Levava-o, ao traseiro de então, recoberto em saias de panos de cotim, uma chita florida, um algodão na roupa de mais achegar ao corpo - um colete, um saiote. Dobrada como as outras naquele jeito de coser. As pernas, muito juntas. A roupa se achegando aos olhos tal como o prato da sopa.
Maria Antónia cedo chuleava de jeito que não saía um fio do interior da costura. Envelhecida a tia, já ela dava ordens de prioridades e modos de colocar o ferro na entretela ou a tesoura entre o molde e o tecido num espaço para bainhas e algum embebido.
Numa noite de um Janeiro muito nevado, a tia continuou o sono que dormira aí pelo início do sol se esconder atrás do monte e as galinhas acabarem com aquele odioso guerrear de arrumação nos poleiros. (Maria Antónia bem que viu o fogareiro de manter brasas para os ferros de engomar as roupas, toda a noite alumando.)
A madrinha ficou dormindo ía Maria Antónia nos seus dezassete anos. Não que soubesse esta idade com muita certeza, mas era mais assim do que menos porque os sangrares mensais já se lhe eram segredo só partilhado com a Emília Coxa, desde há largos seis anos.
Dormida a madrinha, ficou a casa em debanda. E eram muitos os vestidos em meio terminar e os fatos de tecido grosso, bem como uma meia dúzia de casacões de abafar. Havia ainda os cortes encarrapitados na sala de arrumos e passares de ferro.
Maria Antónia enterrou a madrinha (salvo seja!! está bem de ver que o narrador não gosta destas lides de funerais e resolveu brincar! quem a enterrou foi o Januário Zarolho mais o Pedro Castigo de Deus, os dois coveiros lá da zona)
No acto de ver enterrar, Maria Antónia estava toda de negro. Notaram-lhe o desgosto devido. Dona Antónia levava a cara coberta. De acima da cabeça até ao fim do começar a pele da gola do casaco, descaía um véu de brocado pesado e quase opaco. Ela quase não via. Mas, também ninguém podia ver como, por detrás do véu, ela sorria. Levezinho, Maria Antónia sorria a pensar que agora não havia ninguém para lhe mandar. Ninguém para lhe dizer: “Maria Antónia atende essa senhora, filha” e ela ali ouvindo aquela puta, amante do alcaide, que trazia mais um daqueles tecidos de seda que escorregavam e faziam as dores de cabeça daquela mocidade. Agora, morta a madrinha, teria ela uma outra a quem dizer: “Atende aquela senhora, enquanto acabo aqui esta prova!”. E lhe diria assim... num ar mandado!
O funeral passou. Muito passado se foi fazendo. Muito tempo de nunca mais, até ao dia em que Dona Maria Antónia sentou o apessoado traseiro, nunca apalpado por mão alheia (o que não vem nada a propósito do contar, mas isto são pequenas distracções do sacana do narrador, perdoem!) Dona Antónia sentou-se, pois, na almofada que cobria a cadeira junto à janela; o seu recanto da tarde desde que mandara deitar as cadeirinhas na lixeira e vendera, ao ferro velho que ali aparecera sabido da intenção que ela anunciara por dois ou três da cidade, ferros de engomar, máquinas de costura e, porque o homem fizera questão, duas tábuas de talhar. A caixa de dedais (desapareciam sempre que precisos!) e as almofadinhas de espetar alfinete, essas ofertara-as, a um pedido do sucateiro, pensando para que quereria o rapaz aquilo.
Sentada naquele recanto, viu o sol depositar-se como uma enorme romã descascada por detrás do monte. Sentiu um arrepio na zona onde o casaquinho se juntava ao pescoço. Levantou-se muito devagarinho.
Era hora de meio-dia, quando chegou a menina da limpeza. (Uma moça que nunca obedecia, assim pensava Dona Antónia saudosa de outras meninas.)
A menina encontrou Dona Antónia dormindo na cama.
A menina gritou de um sentir que aquilo era mais que dormir.
A menina gritou a pensar porque raio a mulher se deitara com aquele enorme véu negro a tapar a cara.
O que a moça não viu foi o sorriso de Dona Antónia por debaixo do opaco do véu.
(este sorriso o narrador nunca entendeu!)



imagem adaptada d’ AQUI

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Cadências


As lágrimas soltam-se-te. Ficas olhando-te nesse estar chorando. Espantas-te.
E nem sabes o que te faz assim. E nem entendes. E nem te explicas.
Quando te explicaste a ti sobre ti?!
Quando te admitiste chorando?!
Mas sabes que o fizeste... não! não!
de modo algum! tu não choraste!
Hoje...sabes que o fazes. Espantas-te.
Percebes que este chorar é um de muito longe...e ao mesmo tempo...
ai! ao mesmo tempo... este chorar é um... assim como um aviso.
Tu sentes.
Quando elas se te soltam, sentes.
Um tempo que não conheces.
Um tempo que te aguarda...te permite ...te pede que te escorras lágrimas pelo rosto.
Olhas-te como sempre te olhaste. Mas esse chorar avisa-te.
Tu estás deixando-te a ti. E a despedida dói. E as lágrimas soltam-se.
E olhas quem te está em volta. Indagas da nossa prontidão na percepção de ti.
Tu que te soltas devagar desse eu que olhamos.
Olhas-nos espantado de te veres ser visto quando tu, tu mesmo, estás partindo de ti. Partindo devagar. De um modo de partir que eu, que te vejo e te conto, com ele me espanto...me sofro...me não entendo.
E eu me vejo chorando.
Eu... num choro des-me-percebendo.

sábado, 2 de abril de 2005

estendais

O alguidar verde olhava-a debaixo para cima assente no lajeado do quintal. Uma manga de camisa de um azul usado, caía de cima de uma amálgama de cores molhadas. Um bolo de aniversário muito enfeitado... podia parecer. Podia. Podia a outro que olhasse o alguidar e a roupa dentro. A ela, o alguidar olhava-a. Ela nem disso encontrava modo de se ali ficar. Lonjeava. Olhava distraída. Uma distracção de ausência. Um não estar ali que sempre se lhe dava. Sempre, naquele debaixo de sol. Sempre, naquele abrir e fechar de molas. Sempre se fugia dela. Sempre se ia voando para longe de ali.
Debruçava na roupa. Erguia no arame. Ritmava, doce, num pensar que lhe abria covinhas na face. Num pensar que acentuava a nesga de olhos que o sol frisara. O sol e o de erguer a roupa. O sol e o alguidar de azul olhando-a repleto de roupa que era de ser vestida pelos da casa. E mais se alonjava de aquela roupa. Mais se ia longe daquele ali onde estendia roupa com molas. Mais, nesta roupa esticada em grande. Esta, dependurada a toda a largura: uma mola, duas, mais uma. Um roçagar na mão sobre uma cor de rosa de flores miudinhas. Das mãos, redobrada no arame, soltava-se roupa de adormecer. Um pano grande, represado em molas de cores garridas.

Voar a roupa dali e ir ela andando com esses voares. Haveria de ver muitas outras assim cadenciadas num levantar e baixar sobre a roupa de dormir.
Ela, naquele voar por cima de muitos estendais em terras outras que sonhava ali. O sol batendo forte e o olhar piscando. Ela se via arrancando as molas e levando os panos de esticar em cama de dormir.
Não. Nem era assim que ela via, agora que o sol passara debaixo de uma quase nuvem.
O que ela via mesmo, era como ela faria naqueles e em outros panos de cobrir cama. Como ela faria e como ela veria. Ela, voando com o vento que fazia vapor e assim secava a roupa. Ela, sonhava o lençol dormido.
O alguidar olhava-a debaixo, de sobre o lajeado. Um alguidar redondo todo azul. Olhou-a de tal olhar que ela se fixou nele e voltou do lonjear onde andava.
Escondeu-lhe o côncavo no lajeado. Não mais alguidar olhando-a.
Um banco. Sentou nele a saia e ficou olhando. Olhando a roupa volteando colorida.
Mais do que o calor do sol, apesar da nuvem, o corpo dela era todo quentura.


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saiba porque não fui ao jantar da Pandora AQUI

terça-feira, 29 de março de 2005

cumplicidades


Dá-me a tua mão. Assim. Os dedos entrelaçados. Os braços enroscados. O teu ombro a tocar o meu. Agora, fecha os olhos. Cerra os dois olhos com muita força. Até veres luzinhas. Fixa essas cores que é o que vês de olhos bem cerrados. Deixa o corpo bem encostado ao meu. Apenas encostado. Não empurres. Sente o calor do meu braço. A força da minha anca na tua. A coxa encostando a tua com firmeza. Respira devagar. Inspira e expira sentindo o ar a circular.
Está um ar frio e seco. Estamos no cimo da montanha. Subimos para ver-o-mar. Lembras-te? Lá baixo, na cidade, fazia frio mas não este vento. O mar estava quase raso. O vento era de Norte. Riste-te quando te propus que subíssemos. Os sinos anunciavam a missa de Domingo de Páscoa e as ruas estavam pejadas de flores na entrada das casas. Tinhas decidido que não enfeitávamos a nossa. Afinal frente à casa havia cactos no chão. Cactos variados cada um florido na sua única flor de cor intensa. Cores grossas, como gostavas de chamar. E havia a buganvília amarela. E camélias e orquídeas variadas no parapeito de cada janela. As duas janelas a ladear a porta de madeira cinzenta. É! Tu nunca quiseste pintar a porta velha! Muito menos trocar por outra. O cinzento era de velho e tu entretinhas-te a lavá-lo com água quente e sabão. Lembras-te? Claro que te lembras!
Agora vamos aqui os dois muito encostados. Chegamos ao cimo da montanha. Um monte de escassos metros acima da planura do mar e da cidade. Os metros suficientes para se sentir o Norte como um vento de frio a cortar as mãos mesmo as nossas duas que estão entrelaçadas. Agarra bem a minha mão, mas não apertes. Sente como se estivesses colada. Eu sinto o meu corpo colado ao teu.
Não. Não sinto um corpo só. A tua forma sempre se encaixou na minha. Naqueles momentos em que escorregávamos para o abismo e subíamos montanhas anichados em lençóis ou na margem resguardada de um riacho. Sim. Eu sei. Nunca na areia fria numa noite de luar. Era nesses momentos que estava mais longe de ti. Lembras-te de concordares comigo?! Dizias que devíamos ser esquisitos porque ficávamos sós no acto de amar. Acentuavas, dizendo que era um estar eminentemente solitário. Os advérbios de modo, uma compulsão na tua forma apaixonada de dizer!
Acabei de cerrar os meus olhos. Antes olhava-te. Olhei para ti todo este tempo. Chorei quando cerraste os olhos. Esses olhos verdes que sempre dizem tudo. Nunca percebi porque era a palavra necessária em pessoas com olhos desses.
Mas agora só vejo luzes. Muitas luzes coloridas em fundo negro. Agora, devo ter rodado o glóbulo, e ficou branco com um ponto amarelo ao fundo.
Vamos andar devagar. Não fales. Querias dizer que me amas? Mas eu sei. Eu também te amo.
Hoje o dia está cheio de sol e de um frio trazido pelo vento de Norte. No esverdeado do mar havia pequeninas ondas de branco. Umas ondinhas a que chamavas cachão. Assim chamavas, tu que viveste em paragens que eu não conheci. O mar era pois de cachão antes de fechar os meus olhos.
Vamos andando, assim, devagar, muito agarrados ao que temos.
Muito agarrados um ao outro.
Vamos andando devagar com os olhos a ver apenas para dentro de cada um.
Vamos sentindo o vento, o corpo de cada um, o frio.
Vamos até onde a montanha se debruça sobre o mar.
Sabes onde fica o limite?
Não sabes?!
Eu também não!
Vamos muito devagar. Um passo a seguir ao outro até que a montanha deixe de ser e fiquemos debruçados sobre o mar muito verde e branco.
Debruçados entre a montanha e o teu mar de cachão.
foto adaptada de uma intitulada Cúmplices de voo

sábado, 26 de março de 2005

quarta-feira, 23 de março de 2005

RESSURREIÇÃO

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Páscoa
Ressurreição
Ressuscite a Natureza
de uma Primavera em Chuva


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Mais e melhor (?!) vão ver ali ao ladinho no OLHARES FELINOS
as fotos foram todinhas feitas esta manhã aqui pela Seila que vos deseja Boa Páscoa!

domingo, 20 de março de 2005

pulsar

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A foto ali especada. Especada tu olhando a foto.
As tuas palavras a desacertarem-se-te como naqueles dias. Lembras-te?
Lembras-te de como as palavras se te desapareciam para muito longe e ficavam apenas sons?! apenas vocábulos dispersos de sim não já vou...
E ficaste com esse olhar que era muito, mas muito mais comprido e muito, mas muito mais desarrumado do que o eram os corredores que conheceste! Um olhar que era o teu olhar de corredor atulhado em partida ou chegada.
Tantos corredores!
Olhaste todos eles naquele teu olhar a fotografia. Nem nunca tinhas sequer pensado que um corredor...muitos corredores...tinham sido parte essencial, parte marcante da vida que já viveste. Uma parte tão tanto escondida, ali desvendada no olhar uma foto de um corredor que nem sequer é nenhum dos aqueles que viste olhando a foto. Nenhum dos muitos tantos compridos desarrumados corredores. Quem pensaria fotografar um dos corredores onde as malas se acumulavam no entretanto de uma outra casa com um outro corredor?!
Alguns iriam ser corredores em outra terra. Longe.
As palavras deixavam de se tecer. Lembras-te?! Apenas te ficavam vocábulos designativos. Perdias, na desarrumação do corredor, a palavra das relações e do sentir. Ficavam atadas num local do teu ser... atadas como as peças que atulhavam o corredor.
Atulhados os corredores porque era preciso partir. Atulhada tu de sentires e de palavras porque partias...porque tinhas acabado de chegar. Chegada tu sem ter ainda deixado de estar lá de onde vieras. Um corredor atulhado lá, outro aqui.
E tu sem palavras e com aquele olhar comprido.
Parece-te até que o corredor tinha essa finalidade: de se assim encher, de tempos em tempos que daria uma frequência. Diria que se ouvia.
Um corredor. Uma geografia das casas. Um espaço que servia para que portas desembocassem no para dentro da casa. Um espaço de passar para os espaços de ser na casa.
Não se vivia no corredor. Passava-se nele...

Vivia-se nos corredores que recordas olhando essa foto?!
Ah! nos momentos de atulhamento...
... tu sempre te sentavas num recanto?!
Havia sempre um recanto em cada corredor de chegada e em cada corredor de partida?!
Havia sempre um canto em cada corredor...
Um canto que te aninhava... no corredor ...
Aninhada... antes...até que...
...devagarinho...
voltavas à palavra!





Obrigada Ognid pela foto que me deu estes ir lá onde andamos ou nem sabemos se apenas sonhamos...

sábado, 19 de março de 2005

Pai?!

Passo a passo
fazes-te ao terreno
arrojas-te à despedida
Começas por ti
Resolveste assim há muito
Dizias:
Partir é deixar-se para trás e renascer
Assim vais fazer
Despedes-te sobretudo de ti
os outros vão-te vendo partir
Sorris a uns...aconselhas a um outro
Recebes abraços ...abraças
Mas gostas e precisas de coisas
As coisas que te são tu
Aquele pedacito de areia junto ao rio
(que bem dormias nu depois do banho!)
O rio sombreado de um castanheiro
O banco verde sob a amoreira....
(lutos de outros em ti
dois soluços e uma cara lavada)
Andas nas despedidas
percebes

sabes
sentes
tens que ser rápido
tudo antes de pôr o sol
Baixando devagar
confunde-te essa luz
Achas graça
sorris
recordas
(um daquilo um daqueloutro)
A cidade que te acarinhou
abandonado aqui...tu...
Não entendes
Pedes ajuda
Choras

Fazes o teu luto
na enorme solidão de ti.





terça-feira, 15 de março de 2005

my darling, my blood PARTE II

O último post que aqui coloquei e que integro neste a seguir foi lido e comentado. Nada de mais! Mas ele era-me muito caro como as opiniões sobre o filme que lhe estavam na origem e sobre o que eu escrevera. Por isso volto a ele.
Esta MULHER leu o meu texto, comentou-o e escreveu aqui .
E eu, que pensava escrever ainda sobre este tema, acabei por fazer um daqueles comentários que passo a transcrever aqui (ela não se zanga)
minha linda! o bonito e rico é podermos ver a mesma coisa, neste caso um filme magnífico, por ópticas diversas! A minha (e te agradeço comovida a referência e o comentário) saíu como já disse assim brutal e quase (até a mim parece !) desligada do filme -não está e talvez ainda escreva sobre issso! A tua é uma ternura, uma suave visão do que está à vista e envolve toda a narrativa. Ternurenta. Mas ...e a violência?! e as mulheres no ring? e aquela "família"? e aquela filha daquelas cartas?! e o Deus dele? e o ar a chiar a chiar... o ar que a fazia rir?! o ar que fazia aquele lindo sorriso e aquela voz?! ai Lique onde anda a Vida? Eu coloquei-as a atirar...podiam ser murros (disseram que queria mutilar-me...pois!!! quem escreve sujeita-se!!!)e a amar-se e a querer não querer sair daquilo e a rir e...coloquei-as sozinhas...muito sozinhas...Eu vi outra história .... eu escrevi e depois vi ! Foi muito angustiante e sincera a pergunta o que é que este texto me quer dizer...e acho que o que ele ME quiz dizer, eu ainda não sei, mas ando a ler o que me escrevem e a pensar e já sei ao menos isto que acabei de escrever - que vi no filme as mulheres que lutavam...foi isso que me chocou no filme...isso e a solidão delas e de cada um dles!Um abração Mulher!
Publicado por: seila em março 15, 2005 10:55 PM


Faço isto, porque me parece que as questões que, em mim, o filme fez questões primeiras, estão ali descritas. Acrescento-vos apenas que a descoberta da resposta à questão que coloquei ainda não está respondida e não sei se o será...a vida é cheia de surpresas e recantos escondidos... Deixem que diga ainda que não vi relação com o filme (sentia, sabia, mas não percebia!) senão no acordar do dia seguinte. Acordei com uma espécie de "Ah! o que te chocou no filme, o que para ti foi mais importante, foi a relação que existia sem existir entre aquelas mulheres do ringue"

O post de dia 13

…my darling, my blood PARTE I

Escrevi este texto de jacto a pensar no filme que vi ontem Million Dollar Baby de e com Clint Eastwood.
O filme é belíssimo e perturbou-me muito! muito!! muito!! muito!.........
A foto que reproduzo está
neste site e é da atriz Hilary Swank na interpretação de Maggie Fitzgerald.

e eu não percebo o que o meu texto me quer dizer

Dá-me um tiro de raiva
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara!
Enfia essa merda no cano e díspara, caramba!
Um balázio na esquerda e outro na direita.
Rebenta um vaso... deixa lá o osso...
Quero sangue a correr e eu deitada
De borco tentando rastejar.
Dispara porra!
Ficas a olhar com essa cara de anjo...
És linda de morrer... ou melhor...
Linda tu não és! Mas tens uns olhos verdes
Adoro olhos que olham e se forem verdes...
Mas ias mesmo disparar?! Não acredito!
Claro!!!
nem tens arma!!
Eu sei que percebeste!!!
Estávamos ambas a brincar
Que se lixe se não acham isto brincadeira!
Eu queria que disparasses
Sentir o disparo a atravessar a polpa
Na outra perna o choque cru com o osso
A tíbia?! Não! Preferia o outro...
isso...o perónio.
Depois, eu caía.... e tu fugias.
Acabavas a ir ver-me com um ramo de flores
Rosas e gerberas amarelas
táaaá.... também podias levar malmequeres.
Todos os dias irias ver-me ao hospital.
Não! Nunca ninguém saberia.
A arma disparada por ti era imaginada
e cada uma das minhas pernas
estavam simplesmente.... cansadas.
Eu estava internada apenas por ser mulher.
Sangrava de outros sangues
E pedia que disparasses de uma loucura.
Essa loucura que tu entenderas tão bem...
Por isso... dispararas
a tua mão aparando sangue.
O sangue escorria entre as pernas.
Sentada... as flores no colo
sorrindo muito cara de anjo
Quando acordei estavas a meu lado
Dispara porra - gritei
Dipara essa merda!!
E rimos as duas... rimos muito!
Tu arrumavas as flores na jarra
eu tinha adormecido soluçando - dispara!

sábado, 12 de março de 2005

menino...homem



Sou pela primeira vez mãe de um homem de trinta anos!
E estou tão baralhada de sentires
choro e rio igualinho...


tal qual fiz... quando te pari de mim
foi a primeira vez que eu pari
quando nasceste tu de mim
Nasceste-me de um maravilhoso parto lindo
Era Primavera na Natureza
Primavera no nosso País
Foi Primavera na minha Vida

Estou baralhada nos sentires e choro e rio

Desejo que te leves pela mão sempre ao meu menino
Que não percas de ti o teu eu menino
Que ele te faça companhia
Que se saibam um ao outro dar carinho
Protege o teu menino tu de vendavais
Enfrenta com ele a vida
Sorrindo... brincando...chorando... rindo
Leva sempre contigo pela mão o teu eu menino

Ai tou tão baralhada que nem sei...

homem...menino...

(que é isto que sinto morno aqui na mão ?!
Uma lágrima atrevida que se descaiu
a deixar soltar-se o coração!)

sexta-feira, 11 de março de 2005

memória



há momentos ...tantos momentos!!!
em que não há...eu não as tenho...
palavras
guardo...tento...

silêncio...
sinto o coração desfazer-se

sangue
sempre sangue derramado ...
nesses...tantos momentos...

choro dos corações....tantos corações...
os ficados até ao sempre depois daquele...
tantos corações depois do momento...
sangrando
hoje...ainda...sangram corações
pingam

e as flores...
desfazem-se em seivas
as flores amarelas rosadas brancas
as flores são todas vermelhas
e sangram

quinta-feira, 10 de março de 2005

...vontade

Se eu fosse a derramar o sangue que me escorre em cada pequenina veia, em cada capilar...se eu derramasse assim de natural, então seria em sangue de vermelho cada lágrima de meu chorar. Loucura. Como se de um plano de cidade em teias de ruas e becos e avenidas de visão aérea feita. Assim meus sentires. Assim meus pensares. Assim se deles tornam causa de chorares em soluços que, se sentidos são e a alma desfalecem, são confusos como se a vista aérea estivesse desfocada e da cidade, entremeadas de becos e rotundas, jardins e pequenos nichos, apenas eu visse uma difusa rede de linhas inapercebidas e as até confundisse com vasos de meu sanguíneo sistema. Vejo-te ali sentado. A ti eu vejo nítido. Mas não és o tu que eu chamo e de quem me apelido. Aquele que se ali derrama vai não sendo. Eu sinto isso. E este que referido faço antes dito, devolve-me um de chorar que aborta no interior do peito e deixa uma pressão que mais um pouco medida em bar, atmosfera ou unidade de medida outra, sufoca. Sufoco dessa pressão do não chorar. Dizia eu acima, e continuo. Se me desse em rebentar as correntes que me fazem ser vivente, choraria eu de vermelho vivo e cada soluço operaria um diagrama aqui na face. Cada tentativa de conter o curso do choro seria um avermelhar de mão e braço e cotovelo. E isso porque ele se não ergue, não lhe pede a vontade que se vá dali em passeio de sol ou de chuva. É isto que eu sinto olhando a ele. Ele perde a vontade mas nem ele e nem eu sabemos como e para onde, para quem, porque caminhos se vai, se perde tal de importância de se ter que é igual e maior de se perder de cada um numa cidade assim ou de perder o tino. Mal maior é, assim me dá em sentir e crer, perder a vontade. E por esta perda que nele se está processando, a da vontade, se me estão em mim desfazendo as vias daquele um sistema lógico de circuitos alimentadores do ser na energia transportada em vermelho de plaquetas. Como se me desfazem? Não sei. Estas coisas eu sinto. Apenas sinto. Sinto eu apenas?! Loucura. E fico olhando em espanto porque se me escorrem transparentes as designadas lágrimas. Fico em soluço esfregando um de cada olho com estas mãos que se me voltam humedecidas, mornas, mas límpidas. E eu as esperava tintas de vermelho sangue.

sem ...

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein