Dá-me a tua mão. Assim. Os dedos entrelaçados. Os braços enroscados. O teu ombro a tocar o meu. Agora, fecha os olhos. Cerra os dois olhos com muita força. Até veres luzinhas. Fixa essas cores que é o que vês de olhos bem cerrados. Deixa o corpo bem encostado ao meu. Apenas encostado. Não empurres. Sente o calor do meu braço. A força da minha anca na tua. A coxa encostando a tua com firmeza. Respira devagar. Inspira e expira sentindo o ar a circular.
Está um ar frio e seco. Estamos no cimo da montanha. Subimos para ver-o-mar. Lembras-te? Lá baixo, na cidade, fazia frio mas não este vento. O mar estava quase raso. O vento era de Norte. Riste-te quando te propus que subíssemos. Os sinos anunciavam a missa de Domingo de Páscoa e as ruas estavam pejadas de flores na entrada das casas. Tinhas decidido que não enfeitávamos a nossa. Afinal frente à casa havia cactos no chão. Cactos variados cada um florido na sua única flor de cor intensa. Cores grossas, como gostavas de chamar. E havia a buganvília amarela. E camélias e orquídeas variadas no parapeito de cada janela. As duas janelas a ladear a porta de madeira cinzenta. É! Tu nunca quiseste pintar a porta velha! Muito menos trocar por outra. O cinzento era de velho e tu entretinhas-te a lavá-lo com água quente e sabão. Lembras-te? Claro que te lembras!
Agora vamos aqui os dois muito encostados. Chegamos ao cimo da montanha. Um monte de escassos metros acima da planura do mar e da cidade. Os metros suficientes para se sentir o Norte como um vento de frio a cortar as mãos mesmo as nossas duas que estão entrelaçadas. Agarra bem a minha mão, mas não apertes. Sente como se estivesses colada. Eu sinto o meu corpo colado ao teu.
Acabei de cerrar os meus olhos. Antes olhava-te. Olhei para ti todo este tempo. Chorei quando cerraste os olhos. Esses olhos verdes que sempre dizem tudo. Nunca percebi porque era a palavra necessária em pessoas com olhos desses.
Mas agora só vejo luzes. Muitas luzes coloridas em fundo negro. Agora, devo ter rodado o glóbulo, e ficou branco com um ponto amarelo ao fundo.
Vamos andar devagar. Não fales. Querias dizer que me amas? Mas eu sei. Eu também te amo.
Hoje o dia está cheio de sol e de um frio trazido pelo vento de Norte. No esverdeado do mar havia pequeninas ondas de branco. Umas ondinhas a que chamavas cachão. Assim chamavas, tu que viveste em paragens que eu não conheci. O mar era pois de cachão antes de fechar os meus olhos.
Vamos andando, assim, devagar, muito agarrados ao que temos.
Vamos andando devagar com os olhos a ver apenas para dentro de cada um.
Vamos sentindo o vento, o corpo de cada um, o frio.
Vamos até onde a montanha se debruça sobre o mar.
Sabes onde fica o limite?
Não sabes?!
Eu também não!
Vamos muito devagar. Um passo a seguir ao outro até que a montanha deixe de ser e fiquemos debruçados sobre o mar muito verde e branco.
Debruçados entre a montanha e o teu mar de cachão.