terça-feira, 29 de março de 2005

cumplicidades


Dá-me a tua mão. Assim. Os dedos entrelaçados. Os braços enroscados. O teu ombro a tocar o meu. Agora, fecha os olhos. Cerra os dois olhos com muita força. Até veres luzinhas. Fixa essas cores que é o que vês de olhos bem cerrados. Deixa o corpo bem encostado ao meu. Apenas encostado. Não empurres. Sente o calor do meu braço. A força da minha anca na tua. A coxa encostando a tua com firmeza. Respira devagar. Inspira e expira sentindo o ar a circular.
Está um ar frio e seco. Estamos no cimo da montanha. Subimos para ver-o-mar. Lembras-te? Lá baixo, na cidade, fazia frio mas não este vento. O mar estava quase raso. O vento era de Norte. Riste-te quando te propus que subíssemos. Os sinos anunciavam a missa de Domingo de Páscoa e as ruas estavam pejadas de flores na entrada das casas. Tinhas decidido que não enfeitávamos a nossa. Afinal frente à casa havia cactos no chão. Cactos variados cada um florido na sua única flor de cor intensa. Cores grossas, como gostavas de chamar. E havia a buganvília amarela. E camélias e orquídeas variadas no parapeito de cada janela. As duas janelas a ladear a porta de madeira cinzenta. É! Tu nunca quiseste pintar a porta velha! Muito menos trocar por outra. O cinzento era de velho e tu entretinhas-te a lavá-lo com água quente e sabão. Lembras-te? Claro que te lembras!
Agora vamos aqui os dois muito encostados. Chegamos ao cimo da montanha. Um monte de escassos metros acima da planura do mar e da cidade. Os metros suficientes para se sentir o Norte como um vento de frio a cortar as mãos mesmo as nossas duas que estão entrelaçadas. Agarra bem a minha mão, mas não apertes. Sente como se estivesses colada. Eu sinto o meu corpo colado ao teu.
Não. Não sinto um corpo só. A tua forma sempre se encaixou na minha. Naqueles momentos em que escorregávamos para o abismo e subíamos montanhas anichados em lençóis ou na margem resguardada de um riacho. Sim. Eu sei. Nunca na areia fria numa noite de luar. Era nesses momentos que estava mais longe de ti. Lembras-te de concordares comigo?! Dizias que devíamos ser esquisitos porque ficávamos sós no acto de amar. Acentuavas, dizendo que era um estar eminentemente solitário. Os advérbios de modo, uma compulsão na tua forma apaixonada de dizer!
Acabei de cerrar os meus olhos. Antes olhava-te. Olhei para ti todo este tempo. Chorei quando cerraste os olhos. Esses olhos verdes que sempre dizem tudo. Nunca percebi porque era a palavra necessária em pessoas com olhos desses.
Mas agora só vejo luzes. Muitas luzes coloridas em fundo negro. Agora, devo ter rodado o glóbulo, e ficou branco com um ponto amarelo ao fundo.
Vamos andar devagar. Não fales. Querias dizer que me amas? Mas eu sei. Eu também te amo.
Hoje o dia está cheio de sol e de um frio trazido pelo vento de Norte. No esverdeado do mar havia pequeninas ondas de branco. Umas ondinhas a que chamavas cachão. Assim chamavas, tu que viveste em paragens que eu não conheci. O mar era pois de cachão antes de fechar os meus olhos.
Vamos andando, assim, devagar, muito agarrados ao que temos.
Muito agarrados um ao outro.
Vamos andando devagar com os olhos a ver apenas para dentro de cada um.
Vamos sentindo o vento, o corpo de cada um, o frio.
Vamos até onde a montanha se debruça sobre o mar.
Sabes onde fica o limite?
Não sabes?!
Eu também não!
Vamos muito devagar. Um passo a seguir ao outro até que a montanha deixe de ser e fiquemos debruçados sobre o mar muito verde e branco.
Debruçados entre a montanha e o teu mar de cachão.
foto adaptada de uma intitulada Cúmplices de voo

sábado, 26 de março de 2005

quarta-feira, 23 de março de 2005

RESSURREIÇÃO

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Páscoa
Ressurreição
Ressuscite a Natureza
de uma Primavera em Chuva


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Mais e melhor (?!) vão ver ali ao ladinho no OLHARES FELINOS
as fotos foram todinhas feitas esta manhã aqui pela Seila que vos deseja Boa Páscoa!

domingo, 20 de março de 2005

pulsar

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A foto ali especada. Especada tu olhando a foto.
As tuas palavras a desacertarem-se-te como naqueles dias. Lembras-te?
Lembras-te de como as palavras se te desapareciam para muito longe e ficavam apenas sons?! apenas vocábulos dispersos de sim não já vou...
E ficaste com esse olhar que era muito, mas muito mais comprido e muito, mas muito mais desarrumado do que o eram os corredores que conheceste! Um olhar que era o teu olhar de corredor atulhado em partida ou chegada.
Tantos corredores!
Olhaste todos eles naquele teu olhar a fotografia. Nem nunca tinhas sequer pensado que um corredor...muitos corredores...tinham sido parte essencial, parte marcante da vida que já viveste. Uma parte tão tanto escondida, ali desvendada no olhar uma foto de um corredor que nem sequer é nenhum dos aqueles que viste olhando a foto. Nenhum dos muitos tantos compridos desarrumados corredores. Quem pensaria fotografar um dos corredores onde as malas se acumulavam no entretanto de uma outra casa com um outro corredor?!
Alguns iriam ser corredores em outra terra. Longe.
As palavras deixavam de se tecer. Lembras-te?! Apenas te ficavam vocábulos designativos. Perdias, na desarrumação do corredor, a palavra das relações e do sentir. Ficavam atadas num local do teu ser... atadas como as peças que atulhavam o corredor.
Atulhados os corredores porque era preciso partir. Atulhada tu de sentires e de palavras porque partias...porque tinhas acabado de chegar. Chegada tu sem ter ainda deixado de estar lá de onde vieras. Um corredor atulhado lá, outro aqui.
E tu sem palavras e com aquele olhar comprido.
Parece-te até que o corredor tinha essa finalidade: de se assim encher, de tempos em tempos que daria uma frequência. Diria que se ouvia.
Um corredor. Uma geografia das casas. Um espaço que servia para que portas desembocassem no para dentro da casa. Um espaço de passar para os espaços de ser na casa.
Não se vivia no corredor. Passava-se nele...

Vivia-se nos corredores que recordas olhando essa foto?!
Ah! nos momentos de atulhamento...
... tu sempre te sentavas num recanto?!
Havia sempre um recanto em cada corredor de chegada e em cada corredor de partida?!
Havia sempre um canto em cada corredor...
Um canto que te aninhava... no corredor ...
Aninhada... antes...até que...
...devagarinho...
voltavas à palavra!





Obrigada Ognid pela foto que me deu estes ir lá onde andamos ou nem sabemos se apenas sonhamos...

sábado, 19 de março de 2005

Pai?!

Passo a passo
fazes-te ao terreno
arrojas-te à despedida
Começas por ti
Resolveste assim há muito
Dizias:
Partir é deixar-se para trás e renascer
Assim vais fazer
Despedes-te sobretudo de ti
os outros vão-te vendo partir
Sorris a uns...aconselhas a um outro
Recebes abraços ...abraças
Mas gostas e precisas de coisas
As coisas que te são tu
Aquele pedacito de areia junto ao rio
(que bem dormias nu depois do banho!)
O rio sombreado de um castanheiro
O banco verde sob a amoreira....
(lutos de outros em ti
dois soluços e uma cara lavada)
Andas nas despedidas
percebes

sabes
sentes
tens que ser rápido
tudo antes de pôr o sol
Baixando devagar
confunde-te essa luz
Achas graça
sorris
recordas
(um daquilo um daqueloutro)
A cidade que te acarinhou
abandonado aqui...tu...
Não entendes
Pedes ajuda
Choras

Fazes o teu luto
na enorme solidão de ti.





terça-feira, 15 de março de 2005

my darling, my blood PARTE II

O último post que aqui coloquei e que integro neste a seguir foi lido e comentado. Nada de mais! Mas ele era-me muito caro como as opiniões sobre o filme que lhe estavam na origem e sobre o que eu escrevera. Por isso volto a ele.
Esta MULHER leu o meu texto, comentou-o e escreveu aqui .
E eu, que pensava escrever ainda sobre este tema, acabei por fazer um daqueles comentários que passo a transcrever aqui (ela não se zanga)
minha linda! o bonito e rico é podermos ver a mesma coisa, neste caso um filme magnífico, por ópticas diversas! A minha (e te agradeço comovida a referência e o comentário) saíu como já disse assim brutal e quase (até a mim parece !) desligada do filme -não está e talvez ainda escreva sobre issso! A tua é uma ternura, uma suave visão do que está à vista e envolve toda a narrativa. Ternurenta. Mas ...e a violência?! e as mulheres no ring? e aquela "família"? e aquela filha daquelas cartas?! e o Deus dele? e o ar a chiar a chiar... o ar que a fazia rir?! o ar que fazia aquele lindo sorriso e aquela voz?! ai Lique onde anda a Vida? Eu coloquei-as a atirar...podiam ser murros (disseram que queria mutilar-me...pois!!! quem escreve sujeita-se!!!)e a amar-se e a querer não querer sair daquilo e a rir e...coloquei-as sozinhas...muito sozinhas...Eu vi outra história .... eu escrevi e depois vi ! Foi muito angustiante e sincera a pergunta o que é que este texto me quer dizer...e acho que o que ele ME quiz dizer, eu ainda não sei, mas ando a ler o que me escrevem e a pensar e já sei ao menos isto que acabei de escrever - que vi no filme as mulheres que lutavam...foi isso que me chocou no filme...isso e a solidão delas e de cada um dles!Um abração Mulher!
Publicado por: seila em março 15, 2005 10:55 PM


Faço isto, porque me parece que as questões que, em mim, o filme fez questões primeiras, estão ali descritas. Acrescento-vos apenas que a descoberta da resposta à questão que coloquei ainda não está respondida e não sei se o será...a vida é cheia de surpresas e recantos escondidos... Deixem que diga ainda que não vi relação com o filme (sentia, sabia, mas não percebia!) senão no acordar do dia seguinte. Acordei com uma espécie de "Ah! o que te chocou no filme, o que para ti foi mais importante, foi a relação que existia sem existir entre aquelas mulheres do ringue"

O post de dia 13

…my darling, my blood PARTE I

Escrevi este texto de jacto a pensar no filme que vi ontem Million Dollar Baby de e com Clint Eastwood.
O filme é belíssimo e perturbou-me muito! muito!! muito!! muito!.........
A foto que reproduzo está
neste site e é da atriz Hilary Swank na interpretação de Maggie Fitzgerald.

e eu não percebo o que o meu texto me quer dizer

Dá-me um tiro de raiva
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara!
Enfia essa merda no cano e díspara, caramba!
Um balázio na esquerda e outro na direita.
Rebenta um vaso... deixa lá o osso...
Quero sangue a correr e eu deitada
De borco tentando rastejar.
Dispara porra!
Ficas a olhar com essa cara de anjo...
És linda de morrer... ou melhor...
Linda tu não és! Mas tens uns olhos verdes
Adoro olhos que olham e se forem verdes...
Mas ias mesmo disparar?! Não acredito!
Claro!!!
nem tens arma!!
Eu sei que percebeste!!!
Estávamos ambas a brincar
Que se lixe se não acham isto brincadeira!
Eu queria que disparasses
Sentir o disparo a atravessar a polpa
Na outra perna o choque cru com o osso
A tíbia?! Não! Preferia o outro...
isso...o perónio.
Depois, eu caía.... e tu fugias.
Acabavas a ir ver-me com um ramo de flores
Rosas e gerberas amarelas
táaaá.... também podias levar malmequeres.
Todos os dias irias ver-me ao hospital.
Não! Nunca ninguém saberia.
A arma disparada por ti era imaginada
e cada uma das minhas pernas
estavam simplesmente.... cansadas.
Eu estava internada apenas por ser mulher.
Sangrava de outros sangues
E pedia que disparasses de uma loucura.
Essa loucura que tu entenderas tão bem...
Por isso... dispararas
a tua mão aparando sangue.
O sangue escorria entre as pernas.
Sentada... as flores no colo
sorrindo muito cara de anjo
Quando acordei estavas a meu lado
Dispara porra - gritei
Dipara essa merda!!
E rimos as duas... rimos muito!
Tu arrumavas as flores na jarra
eu tinha adormecido soluçando - dispara!

sábado, 12 de março de 2005

menino...homem



Sou pela primeira vez mãe de um homem de trinta anos!
E estou tão baralhada de sentires
choro e rio igualinho...


tal qual fiz... quando te pari de mim
foi a primeira vez que eu pari
quando nasceste tu de mim
Nasceste-me de um maravilhoso parto lindo
Era Primavera na Natureza
Primavera no nosso País
Foi Primavera na minha Vida

Estou baralhada nos sentires e choro e rio

Desejo que te leves pela mão sempre ao meu menino
Que não percas de ti o teu eu menino
Que ele te faça companhia
Que se saibam um ao outro dar carinho
Protege o teu menino tu de vendavais
Enfrenta com ele a vida
Sorrindo... brincando...chorando... rindo
Leva sempre contigo pela mão o teu eu menino

Ai tou tão baralhada que nem sei...

homem...menino...

(que é isto que sinto morno aqui na mão ?!
Uma lágrima atrevida que se descaiu
a deixar soltar-se o coração!)

sexta-feira, 11 de março de 2005

memória



há momentos ...tantos momentos!!!
em que não há...eu não as tenho...
palavras
guardo...tento...

silêncio...
sinto o coração desfazer-se

sangue
sempre sangue derramado ...
nesses...tantos momentos...

choro dos corações....tantos corações...
os ficados até ao sempre depois daquele...
tantos corações depois do momento...
sangrando
hoje...ainda...sangram corações
pingam

e as flores...
desfazem-se em seivas
as flores amarelas rosadas brancas
as flores são todas vermelhas
e sangram

quinta-feira, 10 de março de 2005

...vontade

Se eu fosse a derramar o sangue que me escorre em cada pequenina veia, em cada capilar...se eu derramasse assim de natural, então seria em sangue de vermelho cada lágrima de meu chorar. Loucura. Como se de um plano de cidade em teias de ruas e becos e avenidas de visão aérea feita. Assim meus sentires. Assim meus pensares. Assim se deles tornam causa de chorares em soluços que, se sentidos são e a alma desfalecem, são confusos como se a vista aérea estivesse desfocada e da cidade, entremeadas de becos e rotundas, jardins e pequenos nichos, apenas eu visse uma difusa rede de linhas inapercebidas e as até confundisse com vasos de meu sanguíneo sistema. Vejo-te ali sentado. A ti eu vejo nítido. Mas não és o tu que eu chamo e de quem me apelido. Aquele que se ali derrama vai não sendo. Eu sinto isso. E este que referido faço antes dito, devolve-me um de chorar que aborta no interior do peito e deixa uma pressão que mais um pouco medida em bar, atmosfera ou unidade de medida outra, sufoca. Sufoco dessa pressão do não chorar. Dizia eu acima, e continuo. Se me desse em rebentar as correntes que me fazem ser vivente, choraria eu de vermelho vivo e cada soluço operaria um diagrama aqui na face. Cada tentativa de conter o curso do choro seria um avermelhar de mão e braço e cotovelo. E isso porque ele se não ergue, não lhe pede a vontade que se vá dali em passeio de sol ou de chuva. É isto que eu sinto olhando a ele. Ele perde a vontade mas nem ele e nem eu sabemos como e para onde, para quem, porque caminhos se vai, se perde tal de importância de se ter que é igual e maior de se perder de cada um numa cidade assim ou de perder o tino. Mal maior é, assim me dá em sentir e crer, perder a vontade. E por esta perda que nele se está processando, a da vontade, se me estão em mim desfazendo as vias daquele um sistema lógico de circuitos alimentadores do ser na energia transportada em vermelho de plaquetas. Como se me desfazem? Não sei. Estas coisas eu sinto. Apenas sinto. Sinto eu apenas?! Loucura. E fico olhando em espanto porque se me escorrem transparentes as designadas lágrimas. Fico em soluço esfregando um de cada olho com estas mãos que se me voltam humedecidas, mornas, mas límpidas. E eu as esperava tintas de vermelho sangue.

sem ...

segunda-feira, 7 de março de 2005

degraus...

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Era uma pedra enrugada. Teria, em muitos tempos idos, sido uma lisa placa de marmoreada pedra, arroseada de cor, com listes de cinza muito ténue. E, porque era um local de passar o pé para o de dentro da cozinha, talvez nunca fora bem um degrau. Talvez fora um degrau de mármore, apenas para um alguém que dele fez a sua vez primeira. Talvez tenha havido para alguém um dia inicial Dia, de um dia, parabentar. Dia de relembrar, passando que fosse o moço, envelhecido já, a comoção mostrando-se a ele no dobrar que a língua se lhe fazia como se fora uma peça estranha, ao dizer ao neto: “aquele foi o primeiro degrau que o avô assentou”. A gente sabe lá que pode estar de sentir ligado a uma pedra tão de pisar que nem já lhe chamam o nome, como o que esta tinha – degrau. Mas, para um assentador, um moço de robusto dorso e mãos ainda apenas a ajeitar-se ao virar do cabo da colher da massa para dar aquele final toque que fazia que o degrau estivesse agora ali, a crer nisto que é da imaginação que pode tudo se se deixar andar, podia ser aquele degrau, um degrau com história. Que mais não seja, a história de ser o primeiro degrau que colocou aquele moço na sua, e continuamos a supor, que seria longa carreira de os vir a assentar.
Hoje havia a pedra enrugada que descrevemos e supusemos e havia Marília. E entre os dois uma queda. Ainda não dissemos. Uma Marília que tropeçava na pedra enrugada. Uma Marília um dia, comprara aquela casa enorme rodeada de ervas. Comprara a casa por... devido a .... pelo gosto de... comprara por aquela corrosão estranha que sentira; um aquilo que nunca sabia, quando assim se dava de se lhe aconchegar, se era mesmo ela lá num seu de interior, se era um de outro ser de uma outra vida, como a avó dizia que seres nos entravam; assim mesmo dizia a avó de Marília – seres que nos possuíam. Era este mesmo o termo que empregava – possuíam.
Certo é que Marília comprara a casa pelo sobreiro que nunca outro daquele porte nunca vira. E, no dia primeiro que o viu dependurando rama sobre a chaminé da casa, tinha metade dele em cinzento grosso e a outra metade lisinha de um acastanhado que não sabia na ocasião, e também não encontramos nós agora designação para dar à cor, mas há cores que são assim...não se deixam chamar. E o sobreiro parecia gente acabada de sair de banho em meias vestes. Isto, apesar, Marília lembra bem, de ser de frio com sol, o dia aquele em que, nem sabe bem quem foi, se ela se outro incarnado ser em si, decidiu que a casa seria para ela viver dali até a uma sepultura ou, sabia ela lá como seria, o acabar da vida daquela Marília ali embevecida.
Marília comprou a casa, a erva, o sobreiro e... o degrau.
E hoje, agora que estamos a seguir a história, Marília estatelou-se de cima daquele minúsculo desnível de pedra...o degrau da cozinha. Foi como “o degrau da cozinha” que ficou sempre conhecida a pedra que, talvez, isso a gente não sabe, tenha sido a primeira assente por um rapaz que depois foi, terá sido, avô.
O que sabemos é que esse degrau estava agora muito rugoso, muito desgastado, muito sem aquela posição horizontal que, talvez, tenha sido resultado de um primeiro toque que passou a ser de mestre, dado com o cabo da colher de massa por um rapaz que se estreava na arte de colocar pedras que passariam a servir de para subir e para descer, para entrar e para sair e que, neste preciso descrito, também servia de local de queda.
O degrau, por desgaste ou descuido de vir a tal de Marília a correr, servia, neste momento, para alguém se estatelar.
E o alguém que caía, no degrau que fora pedra, presumível primeiro degrau assente por um moço futuro mestre de colocar degraus, que mostraria a um neto o local da sua obra primeira com a comoção a enrolar-se na língua, o alguém era Marília.
Marília. Uma mulher linda rondando a idade de ser uma avó. Marília que não era avó, nem seria, porque dela não brotara vida senão a que ela possuía em rodos que a faziam se alevantar de um pulo e prosseguir a corrida mesmo que depois de caída do degrau.
E, cheia dessa vida que não passara a outro alguém que de seu filho assim se chamaria, gritar de um vozearia que era uma das vantagens de a casa e o sobreiro ficarem no de longe de outras casas.
O grito de Marília, era um grito com nome de homem. O homem que corria de encontro ao apelo contido no grito de Marília, logo a seguir ao ela se estatelar no degrau da cozinha, sorria sempre que contava ter sido de seu ido avô a profissão fazer escadas de pedra. Escadas de pedra degrau a degrau.


Foto do querido Ognid que contém a imagem linda amalgamada com a sua enorme paciência para aturar aqui a Seila

sexta-feira, 4 de março de 2005

Pôr de luz



Brilho de incandescente feito
cada degrau reluzindo
branco
e a cor...todas as cores...
resguardada
colorida.... branquinha
a escada.
Encandeava o quem que a olhava.

Sentado no degrau do meio,
enroscado num degrau a meio,
o Homem.
Sombreava um tanto.
O brilho encurvava ali,
naquele de seu redondo Ser,
naquele degrau do meio.
No meio de uma escadaria
fazia sombra, fazia desluzir.
Acima e mais abaixo... a luz.
Ali... o Homem,
num redondo encolhido,
uma sombra em degrau
a meio da escadaria.
De verdes olhos olhava
de verdes olhos, o Homem via.
De um olhar de luz, o Homem
ergueu-se
do fundo de um Eu,
olhou de encandear,
olhou de se desensombrar.
A sombra deslassou acima e abaixo
O brilho sumiu devagarzinho
milímetro por milímetro de baixo a cima
até um só redondinho
um de brilho pequenininho
um nadinha de luz no cimo.
Depois desse redondinho,
escureceu.
Ensombreou de negro a escadaria.

No degrau do meio
devagarinho...a luz.
Brilho de encandescer
Um redondinho de brilho
Um brilho de verde olhar
Todo o brilho ali...
num degrau do meio da escadaria.

Rebrilhando de luz
o Homem descansou.

quinta-feira, 3 de março de 2005

Percursos


às vezes as palavras precisam saltar do coração
desatar de entre as duas que se olham e se dizem-ouvem
às vezes é preciso tirar as palavras todas para dá-las ao mundo
as palavras entremeadas de coração e olhos ficam ali quietinhas
assim ficaram aquelas ali
devagarzinho vou tirá-las uma a uma e ofertar a todos vós
olhem aqui
não! não é nada demais ...
são apenas umas simples palavrinhas...

então ela lhe deu os parabéns...
lhe disse de mansinho “ih! que de tempo passou!!!” você tá linda e eu...ai eu minina eu tou tão de coração sorrindo que lhe fiquei de amiga sua de tempos que nem dava no jeito de sentir que ia ser de assim sentida esta meiguice do jeito seu ...arredia que eu andava de encontar com gente...me conquistou...a conquistei ...aconchegada agora eu sei....posso ficar e se você necessitar ou só mesmo desejar, pode bater as vezes que quiser mas não vai precisar eu vou estar não precisa avisar...olha meu ombro aqui: que quer chorar, se rir?! ah! hoje foi dizer olá e ir! Minina, a gente sempre fica junto quando é de si gostar...


Diverti-mo-nos imenso! Não foi amigalhaço?

terça-feira, 1 de março de 2005

PARABÉNS ALICE

Mulher ali abeiradinha entre as 50 e as 60 Primaveras

ao Sul num Mar de Sol
sussurrando sob palmeiras bravas
os deuses Te abençoam
Mulher que no-la hoje
a trazes
Primavera!

domingo, 27 de fevereiro de 2005

foto

se as visses hoje
se olhasses o céu de chuva em fundo
se caminhasses rindo ali comigo
se me desses a mão amigo
se olhasses as flores de amendoeira
as flores já fugindo sob o verde
afagando-te o cabelo sujo e pardo
se estivesses aqui olhando as flores...
mas de ti ficou-me este desenho d’arte
foto em cinzento como o céu de esta tarde

Víamos-te, certo
na esquina da cidade grande
eras tu a gente sabia
mas nada de quem eras a gente percebia
Quem eras ?!
Ficaste naquele suspenso gesto do teu Ser,
mas quem serias Tu?!
Inventando escrevi sobre quem?
Sobre Ti?!
Pecado ou Amor que molda em um os muitos
semelhantes todos...naquele tu que vi?!
Enquanto te invento, a pergunta dolorosa fica:
quem eras Tu?
E, sincera, suplico a esse Alguém que ousei reinventar:
Perdoa que te tenha assim feito Ser
Foi por a muitos todos querer amar
Foi por te sentir um tu pleno de um Amor
que poderias dar!



texto sobre a foto aqui

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

travessias


Apetecia-me escrever-lhe. Dizer-lhe.
A perda das certezas. A perda das respostas. A perda do controlo dos aconteceres.
Queria escrever a ela.
Depois dessa perda, a serenidade. Depois, o amainar dos medos...Os corredores labirínticos a transformar-se em ruelas sossegadas. Algumas desembocando em recantos ajardinados. Outras, descendo até margens de regatos de águas transparentes. Os labirintos entrecruzados, cinzentos, húmidos que me faziam imagem de mim, não desexistiram. Eles lá estão. Apenas eu me passeio neles sem olhar receosa a minha sombra ou apressar o passo medrosa. Aprendi a percorrê-los para melhor os conhecer e não para lhes fugir. E até aprendi a gostar dos seus recantos mal iluminados, do cheiro acre de uma valeta sem sol.
Dizer-lhe a ela.
Um dia passei muitos dias em que os dias que vivia eram a soma de esperar. E eu não sabia que sabia fazer isso. Eu não sabia que podia viver apenas esperando algo que não estava na minha mão mudar. Eu não sabia que podia viver os dias sentindo as divisões de cada dia e em cada intervalo de cada parte o dia, nos bocados em que o dia era para ser, a boca amargava-me e eu desexistia.
Imagina!
Imagino eu agora que escrevo sobre o que foi viver dias que nem existiam nas partes em que era para existir, nem existiam nos intervalos dessas partes. E isto era assim, mesmo que eu estivesse no cinema ou sentada numa esplanada com amigos. E isto era assim mesmo que estivesse a ver o mar sentada deixando que as lágrimas enchessem aquela covinha de areia. E isto era assim, mesmo com o Natal a rebentar em alegorias de quadra de ofereceres ou a Primavera a rebentar em cascatas de flores e verdes e sol e luz e águas de Abril. E o isto que era assim era o dia, todos os dias, ser dividido em três partes que não eram a manhã, a tarde e a noite, mas eram outras partes de outro horário, marcado por outro fazer. Eram dias de esperar e dias de ver e dias de contar e dias de saber outras coisas diferentes daquilo que se queria e se desejara saber e nem sequer se importar se para saber isso se deixava de saber outras tantas...muitas coisas. E nesses dias aprendi a desesperar como uma forma de sossegar. Contraditório? Não. Tão apenas sentar o desespero frente a frente para o poder ter não como inimigo, mas como aliado. E os corredores do medo não encurtam nesses dias. E os corredores do desespero não se tornam menos húmidos e escusos. Apenas aprendo a percorrê-los sem receio. Apenas aprendo que vou ver o fundo, mesmo que não saiba quando. A dor é o percorrer desses corredores dos nossos medos. A nossa dor. A dor que sentimos por não poder apaziguar a dor do outro, essa dor apenas o saber esperar a colmata.
Um dia, eu vivi muitos dias divididos em partes que o sol não comandava.

Um dia, depois desses dias, percebi, aprendi que a serenidade advém da aceitação do que a Vida nos dá.
Um dia, depois de conviver com a dor do outro feita minha que mais dor é, um dia desses, depois dos outros, eu percebi a unidade do meu eu com os demais. Noutros, muitos outros, eu continuo vivendo muitos dias em que os dias são a soma de esperar. E muitos outros eus não sabem que sabem fazer isso...que podem viver apenas esperando algo que não está na sua mão transformar...que não sabem que podem viver os dias sentindo as divisões de cada dia e em cada intervalo de cada parte o dia, nos bocados em que o dia era para ser, a boca amarga e cada um dos muitos eus desexiste.

Eu gostava de lhe escrever
e dizer das noites sem manhã e das tardes sem pôr de sol.
Eu gostava de lhe escrever
e dizer que soluçar confunde-se
no cascatear da água na fonte
na chuva caindo no quintal.
Eu queria dizer-lhe
depois desses dias nunca mais aqueles dias
Mas eu gostava de dizer-lhe
do sorrir :
Um sorrir de uma outra Alegria!

Escrito depois de ler a Lique
Obrigada ao
Ognid pela foto carinhosamente ofertada

domingo, 20 de fevereiro de 2005

serenamente


A frescura da flor de amendoeira
a fragilidade e o fruto que a sua singeleza encerra
o sol a esconder-se em religiosa e silenciosa despedida
anuncia o raiar de um dia novo
é isto que deixo hoje
uma mensagem escondida e por isso inda pura


sábado, 19 de fevereiro de 2005

Longa espera


No fim da espera
quando acabar este silêncio
num ruído de alegria
ou num rugir de desesperança,
choverá!
Finalmente...
choverá!
Quando vires chover,
acredita:
é o milagre das lágrimas!
O sol chora,
finalmente!
De uma a outra Primavera,
soltam-se lágrimas!
É o nosso sol a poder libertá-las
num ruído de alegria
ou num rugir de desesperança...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

...que chova

Que a água se desfaça!
Que o suor rompa de cada poro!
Que o corpo escorra deslizando
o ventre em tuas mãos!

Quero engolir a dor e rir do choro
sufocar de odores de maresias
salgar dos limos entre as pedras
ficar ébria de um respirar de leve
entre teus joelhos firmes amarras
ficar perdida em sabor de branco sal
confundindo luz e escuridão
olhar de frente todos os sóis
e mais que ter-te doar-me em ti
solto livre companheiro
caminhante de serranias íngremes
pular todas as constelações
em nossos corpos seduzidos, meigos.

Voltar devagarzinho nos teus beijos...
aplanar a roupa com o riso
deixar correr areia grão a grão
soltar a gratidão no teu sorriso
amar-te serena mão na mão
sorver a chuva no teu rosto
e ficar a olhar, a olhar, a olhar...

a ver-te até ao infinito...

Quero a água da chuva na janela
e entre ela e nós
entre ela e nós... o prazer do corpo!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein