sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
de 2004 para 2005
quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
para ti....
se apenas desejo o bem de ti
se apenas e tão só para ti
para ti apenas
meus pensamentos, meus desejos, meus votos
desejar a mim, aos outros...
afinal tudo, tudo mesmo, o que desejo
concentra-se em ti somente
para ti desejo e faço votos
para ti
a Paz
a Serenidade
as mãos dadas de Amor
os pés pisando firmes
alcançando horizontes
largos horizontes
para ti o desejo, a vontade
o sorriso de te veres e gostares
em ti concentro
o que desejo para toda a gente
pra mim eu só desejo o que pra ti espero
um ano de ternura, de encontros
um ano de te encontrares
serei feliz e o ano será um ano bom
se tudo o que desejas e precisas
nas tuas mãos guardares
(que me desculpem todos! tudo o que vos desejo...desejo eu a ele)
quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
fragilidades
O dia de Natal... mais um vinte e cinco depois de mais uma Consoada...apenas mais uma mais nada?!
Os olhos estendem-se para além do que está e...não vislumbram...nada mais que o que existe – visível e penumbra. Uma densa névoa tolda tudo o que tento olhar para além daquilo que vejo, se é, sequer, que realmente é o que vejo aquilo que realmente lá está. A penumbra adensa-se em negrume se olho outro. Se tento vê-lo além daquilo que de imagem percebo, fica-me assim mais nada que um eu. Isso! É como se me visse apenas rodeada de espelhos e neles apenas vejo, mais ou menos fosca, sempre alterada, a minha, a minha só, a minha imagem. E, mesmo assim, quando me apercebo que sou eu apenas que me vejo reflectida, e tento perceber, então o que me vejo eu em mim para tanto me sobrepor ao eu do outro que desse modo desvejo. Fico inerte. Soçobro numa visão de imagem parada como se o meu eu reflectido em todos, em cada um dos que, assim, nem olho, se esfumasse para um fundo e deixasse aquela imagem desfocada que nem sou eu nem é mais nada. Fico, como imaginam, sozinha. Nem me alcanço a mim nem estou com eles. E rio e choro e palavreio, mas no fundo de mim sobra um vazio. Como se quisesse dar-lhes a mão e escorregasse cada um dos dedos em cada um dos deles esticados, ansiosos de dar e receber, eu e eles...e sós...a escorregar para um fundo de nada. E sei que sou eu que me meto no meio. Sinto que sou eu que rodeada dos meus espelhos, incapaz de quebrar cada um deles, me afasto e fico apenas vendo a sombra daquilo que cada um é e os deixo, a eles também, de mim sozinhos. Posso acordar de mil e uma madrugadas. Posso dormir de mil e muitos sonos descansados. Mal me coloco de frente a cada um, fico longe, distante anos – luz como se os elos da cadeia ali em mim estivessem quebrados por um qualquer ácido ou ferramenta de corte que deixou um elo muito, muito fraco e de cada lado eu e todos, todos eles. Posso acordar e ficar pensando. Posso ficar madrugada adentro matutando. Posso sacudir milhões de vezes o corpo em sentidos e sinceros soluços. Posso receber mil sorrisos e sorrir de volta. Posso escrever e ler e passear. Posso isso e muita outra coisa. O que não consigo, aquilo que me está vedado, é algo de profundo, algo de congénito ou adquirido por um qualquer instante acontecido que por mais que pense não deslindo e fico assim sem nada de mim e sem nada realmente de cada um. Parece-me, por vezes, que é amor aquilo que não sinto. Parece-me, outras tantas vezes, muitas, que há em mim uma incapacidade de dádiva. Parece-me que me ficou faltando em alguma parte do meu crescimento, aquele bocadinho de ser amada que daria assim como que uma semente que, germinando, me daria agora a capacidade de não andar pedindo, pedindo e fingindo, quase me convencendo, que o que ando a fazer é dar quando ando apenas implorando aquele pedacinho que me não foi dado.
Sou muito grande, velha quase. Sobra-me pouco tempo para tal façanha. Mas tenho vontade de fazê-lo. Libertar-me de mim. Olhar os outros sem me ver a mim. Deixá-los partir sem lhes criar peias e, ficando comigo, conseguir olhar-me como sou e deixar de andar a pedir o tal bocadinho que não germinou, mas que posso adquirir cá num fundo de mim que recria as coisas. Em mim a solução e não o problema?! Muitos o dizem de si, leio por aí. Não sei se alcancei a dimensão plena deste saber que a frase encerra.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2004
UM ANO ...TANTO?!!!
Gostava que ele me ligasse assim um pouco! Tenho pena, porque aprendo muito com as suas delicadas e sábias conversas, posso assim dizer, que observo, sem que consiga deter uma réstia de inveja de para mim não serem, com os diversos leitores e leitoras (muitas e boas!) que passam pelos comentários e a quem ele responde, uma, duas, três, no mesmo post, as vezes que cada um precise de lá deixar um dito, um pedido, um desabafo.
O Porquinho preza o comentário...escreve postes e acaba-os no verso da folha...
Sérios. Sisados. Eu leio e fico extasiada com a precisão com que ele responde a cada um dos comentários. Com graça e ferroada, plenos de delicadeza e sempre, disso tenho eu a certeza, com total verdade.
Ele diz coisas que se fossem faladas, levadas à cena num Teatro, davam rios de dinheiro em bilheteira.
Outra faceta do Porquito, assim algumas lhe chamam carinhosas, é ser, apesar de podre de rico, um esbanja mãos, um caridoso. Ele até traz prendas para alguns!
E...outra coisa que eu acho que deve ficar registada neste dia de aniversário:
O Bertus Francis Bacon detesta que o chamem de Porco! Tem essa pecha, esse único defeito! terá ficado de linhagem, de ser da Índia de uma alta casta...
Isto...digo eu que leio tudo o que ele até hoje escreveu! O que é fácil porque, ele, quer no post , mas sobretudo nos comentários, nunca escreve mais que uma linha duas, no máximo três!
Parcimonioso no gasto de bits, creio.
Muito mais teria eu a dizer, não fora urgente colocar a carta, esta, no posteiro a tempo de lhe dar os meus calorosos PARABÉNS!
E pedir-lhe que me leia, me faça a fineza, a caridade de responder aos meus pedidos...se ele há uma tal Seila que junto com uma Nia não largam o pobre do bicho todo o dia, e ele responde aqui ali e acolá!... posso rogar que me faça um pedacinho só o mesmo que eu até nem escrevo muito...lê-se bem!
domingo, 26 de dezembro de 2004
Vida...
Isto não anda nada fácil. Mas para que nos havemos de queixar?! A Vida é isto mesmo! Assim um fogacho. Um niquinho de tempo que passa num instante. Ainda ontem era o tempo de prever e já estamos no hoje e logo a seguir no “olhem que...lembras-te?!” E pronto!... lá se foi o presente e o futuro e fica um grande passado que, bem olhado, e nem preciso é olhar assim tanto, é afinal um pedacito de tempo. E quando nos começam a bater na porta aquelas ditas desgraças que podem até não ser as desgraças mesmo aquelas, mas são as nossas!...então a gente observa...realmente!... que andamos nós a fazer do tempo?!
Olha que raio de conversa me vai esta arranjar logo, mas mesmo logo, logo depois...melhor!...ainda no dia da festa! Bem podia esperar que passasse o dia de Natal para vir para aqui com estas lamechas de dizer do tempo! Olha que realmente! Já nem uma pessoa pode viver sossegada a época das broas e do bolo rei e das rabanadas...que vem alguém, armada em sofredora, lembrar o tempo aí a vir e que temos a certeza, ai, temos! vai ser um tempo de coisas boas! que esse ... já passou! Bolas! ele há gente!!
Pronto!... eu, por mim, aquilo que digo, e nem é lamento...apenas constato! é que a coisa de viver anda assim um tanto xoxa! um bocado má!
Pois... eu entendo!...não será a melhor forma de terminar o ano! Eu sei! Compreendo! Mas que querem?! A gente não comanda nada! Pensavam?! Não acredito que pensem tal! Eu, por mim, há já bastante que entendo que devemos estar preparados para tudo! Tudinho! Há uns natais atrás, a coisa andava mesmo colada aqui a mim. Mesmo debaixo do meu telhado. Lá foi passando. Mas...digo-vos! Nunca mais nada é visto, sentido, pensado, do mesmo...nem sei eu qual!... assim...do mesmo modo que...já esqueci qual!...que era antes! Agora...foi bater a outra porta e deixa-me aqui um peso do caraças! mais do que isso! um engasgamento entalado na garganta.
Isto não anda nada fácil! Isto anda mau! E eu peço que me desculpem este modo assim do meu falar!
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E o boneco assim a modos que o Pinóquio foi o mote.
É brincando que tento levar a coisa da Vida, da Morte e do Sofrimento.
Mas não pensem que tenho arte...tento!!
quinta-feira, 23 de dezembro de 2004
quinta-feira, 16 de dezembro de 2004
uma visita
Tudo isto, já perceberam é o que eu conto se realmente um dia pudesse visitar a tal de Solidão. Pois assim, continuando, eu fui desfiando um rosário de situações que, entendia eu, seriam todas elas conhecidas dessa senhora. A certa altura desse meu imaginado tanto que até aqui conto tal qual se tivesse passado, a Solidão encarou-me nos olhos com um olhar profundo e tão intenso que senti que se não fosse a minha Paz e as minhas boas intenções, se bem que imprecisas, eu teria sido cuspido da cadeira e levado nos ares como se passasse ali um tufão daqueles que felizmente ainda só vi na televisão e no cinema, sim! A esse olhar eu fiquei sem mais o que dizer. Ela debruçou-se sobre a toalha, agarrou com as dela as minhas duas mãos e apertou-as. Ficámos assim um tanto instante que, hoje quando me lembro, entendo que às vezes não há relógios para marcar o tempo! Foi infinito e de repente. Depois, com voz que nem parecia ser daquela boca que saía, ela disse apenas: Meu amigo só pode mesmo falar comigo, saber o que essa, toda essa gente que agora enumerou, sente, quando a visito ou com eles moro uma vida ou a partir de uma dada altura! quem já viveu ou me encontrou assim sem dar por mim, num mero acaso! Os outros, como a senhora que me procura, percebo que com o melhor intento! O de fazer que me deixe de aparecer, que desapareça, que me faça com presença de menos peso a tanta gente! Esses, como a senhora, lhe garanto nunca poderão saber o que é viver comigo dia a dia, nem percebem, por muito que no meu nome falem, quem eu realmente represento. Cuide que, com esta visita se não vá ficar sentindo que aliviou alguma solidão ou, pior ainda, que estima que me conhece de perto. Nem de longe, lhe garanto. Não poderia nunca aqui vir assim, sem me conhecer, se algum dia tivesse eu cruzado o seu caminho! seria eu a encontrá-lo! apenas eu decido a quem faço ou não companhia.
Fiquei de cara à banda! A mulher lia-me os pensamentos! A mulher sabia que tantas vezes eu havia dito, escrito, coisas sobre a minha solidão! Agora ali estava ela. Ela mesmo em pessoa, afirmando que tivesse juízo que eu nunca a tivera! feliz me devia sentir! a sua companhia nunca, dizia ela, eu conhecera, nem naqueles momentos em que parecia que o mundo e todo o universo me fugia e eu ficava apenas eu, poeira perdida sem uma única companhia. Eu a ouvira como um acusado a quem lêem os crimes antes de ditarem a sentença.
Solidão, a voz dela ressoava baixa mas intensa aos meus ouvidos, solidão mesmo não tem voz, meu caro amigo, solidão quando eu lá entro, fica assim um desapercebimento que é apenas uma dor que apanha tudo na pessoa e, sendo assim, ela nem percebe que havia antes outra coisa...um diferente. Eu caio, vou minando, falo baixinho, trato de apagar recordações e em seu lugar deixo um vazio de pensar, apenas uma dor sem nome e sem direcção...melhor com todas! Fique sabendo que, por vezes, quando passo junto de gente que me emprega o nome, dá-me uma vontade enorme de as abanar e dizer tenham siso que...um dia eu lhes entro e... nada nada do que viveram vocês aproveitaram. E dá-me uma raiva! Que... sabe?! eu tenho sentimentos e dói-me a solidão dos outros! Penso, quando eu sou mesmo eu presente, que é a deles sempre muito maior que a minha. É o que resta a cada um quando me instalo, perceber no outro a solidão e dar-lhe, apesar de tudo, um pouco de solidariedade! Agora vá-se embora! E quando vir alguém precisado de ajuda, de assim de companhia, dispa-se dessa pele de querer saber tudo e fique apenas assim juntinho sem pedir nada e sem querer dar o que não sabe. Eu quando me instalo, cuido eu, que quem me fica comigo apenas sabe perceber que está ali alguém um instante que seja ao seu lado.
E lhe digo mais, continuou, eu entro tanto mais facilmente, quanto cada um de cada qual onde me instalo, andara sempre...sempre...buscando fora de si a sua própria metade!
quarta-feira, 15 de dezembro de 2004
ora bem....
Ora bem! Estava eu aqui a pensar com os meus botões: por que raio ando eu sempre a fazer ilustres postes (esta do ilustres advém dos comentários ! a culpa é portanto deles! vossa! se me revejo babada naquilo que escrevo e escrevo mais!) mas estava então, falando eu com os ditos dos aqueles que apertam os casacos e outras coisas mais de roupa de vestir e, diria, que desapertar um assim ali num local certo, tem por vezes efeitos que, diria, podem ser mais colaterais dependendo, evidente, do local certo do corpo em que é colocado o botão fora da casa! E pronto isto está mesmo a ir como eu pensava, dizia, pensando com os tais...está a ir por um caminho diferente daquela sensaboria de escrever contos que saem sei lá de onde e são sempre tragédias, e mais tristezas e pesos de alma. Ora eu cá até me tenho por uma mecinha com uma pontinha jeitosa de ironia e muita, alguma gracinha (quer dizer...na tenho piada nenhuma ...mas rio-me muito e à minha volta fica, quase sempre, todo o mundo a rir!) Entonces...porque raio saem todos os dias aqui uns postes que são uma coisa assim que, vinda sei lá de onde, dá da minha virtual pessoa a imagem de uma gaja sensaborona, triste, ca alma apanhada por uma qualquer virose de tristeza ou coisa parecida?! Nem eu entendo!! Quer dizer...na acreditem que eu percebo, sim, e muito bem , mas que querem, hoje, deu-me para colocar-me aqui escarrapachada como eu sou assim meio marada e dichotando sem tino nenhum! Acabei?! Que jeite?! A coisa inda vai no mêo ou menos...sei lá... Hoje acordei a ler um artigo que o jornal na digue qual que eles, taditos, são assim todos a modes que muita parecidos e tamém na tou pra entar nessa de publicidade que bem me chega ter a caixa do corrêo chêa dessas coisas cheias de cores que apresentam de uma ponta à outra bacalhau e flores e cadeiras e camisolas e chóriços e percima vem uns números sempre de tamanho grande e a cores e eu amando aquilo tudo pra forrar o cêste do lixe que dá pra isso muito jeite. Mas...olha deve ser aquilo que aqueles que me conhecem bem, costumam dizer: ela perdesse...faz uma data de parênteses e depois na sabe o que ia dezer! Pois...dizia a prima do outro... assim estava eu lendo o tal artigo... ah! esquecia-me de dizer que além dos tais papéis, agora aparecem no telefone umas vozes a dizer pra mim ir a um jantar assim lá num hotel e um dia é fui e levei o mé home queles , os moços que me telefonaram, disseram quéra preciso levar o marido se não na mofereciam o jantar, assim é cá fui e... Depois conto cagora estava a contar que lia o tal artigo no jornal! Ai! Carago! Esquecia-me ! tenho quir ao banco e deve tar a fechar! Té logo! Eu depois conto! Um abraço que agora...Ai! já me esquecia, inda vou dizer uma num instante sobre essa coisa de publicidade! é cá goste é cande aparecem a bater aqui na porta uns rapazites muita loucos! percebem?! buéda giraços! Coitados! andam a ganhar uns cruzados! euros é?!pois! São capazes de ser meus netos, mas são tão fofos que é percasa disse que é face sempre os inquéritos todes e inda lhes précuro se ganham bem e coisas assim ou se andam a ganhar pró curse e ... eles contam-me assim a vida toda ou quase...é ache...e é tenhe pachorra...mete assim cunbersa e ele gostam... vê-se nas caritas...às vezes são umas mecitas ...um dia tava um raio dum calor caté escaldava e é disse quentrasse e dei-lhe um cope dágua fresquinha... coitadas das gentes estas que na tem mais empregue e anda a fazer o que pode... o raio da publicidade é outra coisa qué digue sempre a quem me telefona que deixe que na quere ir (sim depois daquela em que levei o mé maride e me queriam impigir um colchão que andava de baixo para cima sem a gente mexer coisa nenhuma do nosso corpe...é nunca mais fui a outra! caí né?!) mas sou muito simpática qué cá percebe queles estão a fazer aquilo qué o sé empregue e lhes mandam assim... Pior é esta seca da TV quentra pela casa dentre! ( mas há anúncios que são arte!!! é adore!! É uma contradição, mas se calhar até não!!! Sei lá...tamém na tou aqui pra convencer minguém! ) Pois...o pior ainda são esses Spames quinda na percebi bem o que é...
segunda-feira, 13 de dezembro de 2004
Maria...
Maria arrumava a loiça. Os pratos muito limpos de um pano branco que dependurava na mão e mais parecia, quando o erguia lenta a retirar os restos de água do lavar, que afagava com algodão ou alinhado pano, ferida de ente querido.
De fora, o grito se ouvia:
-Maria! Anda! Corre! Anda ver!
Parecia coisa de aflição, mas ela, Maria, conhecia aquele deslariar e continuou a tarefa de colocar um sobre o outro, já bem secos, os pratos, dois, do almoço acabado há pouco. Ainda se deu em abrir a gaveta da mesa redonda e colocar, sem pressas, antes com desvelos, se diria, muito dobrada pelos quatro cantos e depois em quatro partes, a toalha de quadrados. Compra-a na feira no sábado passado. Enquanto passava a mão direita para aconchegar de melhor guardada, pensava que encontrara o António nesse dia. Há quanto tempo não o via! Pegava na toalha (essa que agora guardava) apreçando. Uma conversa de descuido com a feirante, cigana bem parecida se bem que não lhe tivesse quase visto a cara. O António. Partira dali há tanto! Ninguém mais lhe soubera o paradeiro. Deixara um bilhete na mesa, aquela redonda. Dizia apenas: Amar-te-ei sempre. António. Fora há tanto ano! Aquela barba! O cabelo muito louro! nem os brancos se viam! E os olhos! Aqueles olhos azuis olhando-a como se fosse ontem aquele longe dia! Desapareceu no meio da gente falando, falando e ela ficou olhando...a toalha de quadrados pendurada entre a dela e a mão da feirante e o coração a saltar-lhe de um não percebia de onde como se hoje ali fosse o outro dia. Tirara a nota da carteira como se nada mais tivesse a fazer que comprar a toalha. Recebera o troco e sabia que por mais que olhasse nunca mais o veria. Mas olhou tentando alcançar uma guedelha loura a andar apressada no meio da feira cheia de gente. Uma voz de dentro ralhou-lhe muito forte, muito zangada. Dizia-lhe que se lembrasse que ele, aquele, já não era o António o pai da sua filha. Esse fugira para sempre deixando um bilhete e nunca mais dissera nada. Era esta a história, não sabia ela que essa era a história?! Não havia António!
De fora para o dentro de casa a voz gritava:
- Maria, anda ver! O homem vai cair assim empoleirado. Corre, Maria!
Ela entreolhou a cozinha arrumada. Fechou de manso a gaveta, endireitou a jarra com um ramo de malmequeres apanhados de manhãzinha a dar de comer às galinhas. Havia tantos! Ainda mal abertos! Ainda orvalhados! Agora estavam lindos na jarra. Rodeados de verdes das folhas. Ainda com raízes. O transparente do vidro mostrava. Nestes gestos e observados, se perdeu não mais que em passando, ouvindo a que gritava e pensando “que seria?!”. Era melhor ir. Apesar de, como costume, não ser nada. Alguém que arranjava o relógio há muito parado nas dez horas ou um curioso que pedira ao padre para subir a ver de cima os campos de cevada. E como estavam lindos com tanta papoila e aquelas borboletas negras que pareciam contas caídas do colar de uma fada. Foi-se assim chegando, agarradas, como lhe era hábito, as duas mãos dobrando, para cima, para junto da cintura, o avental meio molhado. Assomou na porta. Olhou a filha ali especada no quintal. Aquele olhar azul meio debotado e a boca sempre a esboçar um sorriso ou pronta para se esboroar num babado de choro sem lágrimas. Olhou-a naquela saia de quadradinhos encarnados com a blusa muito apertada deixando no decote redondo assomar uns seios alvos, duros de menina. Os pés descalços enfiados num par de sandálias verdes muito velho. O cabelo loiro atado num tufo desarranjado por cima do pescoço. Era linda! Era muito linda a sua menina! Tinha, no momento em que assim, num sequer que instante em que a olhava, a mão em pala sobre os olhos assestados na torre da igreja ali ao fundo da rua; ali dependurada acima do quintal. Maria olhou para cima e gritou. Um grito que nem sequer se ouviu de forte ressoou no peito. Ela sentiu que não gritou, mas que julgou. No alto da torre o corpo de um homem balançava como um galho seco. Maria não gritou. Pegou na mão da filha, abraçou-a pela cintura como que para a proteger do que ambas viam. Só ela, Maria, percebia. Trouxe-a assim colada a ela. Sentou-se às duas na soleira, viradas ambas para dentro da casa. Deixou que a filha a olhasse com aquele ar de perguntar sem saber o que pergunta. Levantou o avental e enxugou um nico de água que corria do lugar que não devia. Ficou Maria assim abraçada à filha. Lá fora, junto ao muro baixo do quintal, passava gente em corrida, em vozearia. Maria bem ouviu o nome que diziam.
Aconchegou-se mais num encolhido que se deu em pranto de balançar o corpo.
Uma voz de dentro falava baixinho. Falava de dizer a história que ela dera em esquecer. Quanto mais a voz falava, mais Maria lembrava o balançar do homem. Bastara um relance. Vira quase sem ver. O sol batia forte na cabeleira ainda loira. A voz soava no seu lá de dentro. Levava-a a um tempo de guerra e de fome. Ele voltara de lá. Uma terra de nome que soava como de muito longe e nossa se diziam ser. Voltara. O mesmo cabelo loiro. Diverso era o olhar. Um outro olhar azul. Um azul sem fundo, sem alvo. E a voz. A voz rouca que cantava, agora falando, falando. Sempre falando de coisas que ela nem entendia. No meio da fala apenas ouvia, quando a ele dava de soluçar: Maria, amo-te! Nunca percebera da filha. E a voz dizia. Não, Maria, não! ele não fugiu, Maria! Ele foi que o levaram a tratar na cidade longe, lembras?! E ela chorava. Agarrava a filha que assim, mesmo sem a tal de guerra, ficara que nem ele sem mundo deste se aperceber. Outro, ela habitava. Um seu mundo de fantasia, dizia o doutor. Tratar de quê?! Deixar. Ela assim nasceu, assim irá morrer. Ali, agora, se cruzaram seus caminhos. A filha olhando, sem perceber, o homem que trepara no cimo da torre.
Maria já não chorava.
Ergueu-se devagar. Tirou o avental. Pegou a mão da filha. Sentou-a na cadeira e deu-lhe a caixa dos lápis, os papéis.
- Ficas aqui que a mãe vai ver se estão a concertar o relógio, sim?!
Ela sorriu de ver Maria sem chorar.
- Sim, vai. Olha, eu desenho o homem pendurado na torre. Sim?! O homem loiro. Viste que era loiro?!
- Sim! – respondeu Maria e saiu.
sábado, 11 de dezembro de 2004
Bora!!! Parabéns ao Tim!
Tim
BORA PRÁ FARRA QUE HOJE É O TEU DIA!!
...vá lá...um beijinho...
sexta-feira, 10 de dezembro de 2004
(in)titulada...
E neste momento a coisa está a avolumar, a crescer, ainda mais, cá dentro. Acordei cedo o que não é novidade. Novidade, sim, é estar aqui a dizer...sim porque sei que não estou a escrever para o meu diário, mas vos estou a escrever. Ando a deambular em volta da temática. Este “vos” que ali se esbarrou debaixo dos dedos fez dentro de mim uma mossa assim como uma pedra atirada à janela como aviso: “Ei! Olha estou aqui! vê lá o que é que escreves!” Topo-a bem a esta minha cuidação de me falar de mim. Mas que se dane o raio do aviso que eu hoje tenho que dizer umas coisas que senão ainda me piro disto e nem a mim mesma me aviso. Delet your blog clique e prontos! Num instante meio ano e uma data de escritos e aqueles nomes todos alinhados ali ao lado jogados pró camandro! Delet e pronto!
Vamos lá então a ver o que se passa.
É! É mais uma vez sobre este de andar aqui a escrever. Mais do que isso. Calma. Vamos devagar.
Mas, então...de caras com um homem que eu conheço.
Não disse nada! A coisa é bem mais complicada!
Encontrei fotos do tal que eu conheço e aquilo que já cá andava reaparece numa interrogação, num espanto: "Que gente tanta que eu conheço!” Ora! Mas isso já eu sabia! Conheço um porradão de gente! E lá volta! mas...pessoas...conheço?! que raio sei eu assim de conhecer daquele homem?! Nada! Pouca coisa! Nada!
Mas com este quadro que raio ando eu aqui a fazer?!
E parece que é aqui que marca o ponto da coisa. Parece...
Mudemos o trilho.
Boa! Assim isto toma outro sentido!
O tal homem por exemplo! Coitado! Que ele nem sonhe nem pense a ser aqui assim usado de exemplo!
Gosto daquele homem! Gosto dele pronto!
Conheço-o (pronto escrevo o raio do verbo e sobe-me um calafrio de baixo para cima!) Mas, sim, conheço -o! É ... mas topam?! eu até há pouco tempo nem sabia que o homem era casado e tinha uma filha! E já gostava dele! E já conversávamos!
Pois...por exemplo, isto acontece com os meus ex-alunos...só aí é um carradão de gente!...com colegas de escolas,liceus, faculdade, cursos, encontros, retiros, grupos... partidos!!!...das escolas onde leccionei e esta...olha esta é uma boa como exemplo! Tanta gente que aqui passa! E tanta que nem me lembro sequer o nome, mas que sei que gosto e que reencontro e abraço assim com uma grande sinceridade de lhe dar e de saber dela e de a ver...no entanto...nada sei, assim de saber mesmo de coisas contadas de pensar...apenas que houve e continua uma amizade...fundada em ....
Então...aqui nos blogs isto é, pelo menos comigo, a continuação da coisa que me acontece na vida! Gosto na realidade porque gosto e pronto!
Olha escrevi isto tudo ou quase nada...entendam o que vos aprouver...
Então eu gosto de vocês e o que tenho pena é de não poder, conhecer mais!(o verbo já não me incomoda!).
Hoje não vos deixei em silêncio!
quinta-feira, 9 de dezembro de 2004
shuuut!!!!!!!!!!!!
Agradeço a todos os que leram,comentaram, perceberam o escrito de dia sete!
De todos há um que lembrarei a vida inteira...o do meu menino grande!
Gostava que lessem o que a Sotavento publicou aqui ...e hoje deixo-vos assim... ..um pouco de silêncio faz bem!
terça-feira, 7 de dezembro de 2004
Hoje...
Cresceste–me num tempo de incógnitas
num tempo ainda de segredos
Gostosa espera!
um dia nasceste
um nascer de desejado parto lindo!
caíste de mim
no meu ventre exposto
encolhido da tua falta
rosaste de ti o meu corpo entregue
Foi um instante
Um lapso
uma avalanche
anichado entre mim e o mundo
mundo que te esperava...
eu ria e chorava!
Nós dois ainda um só
mas já tão longe!
Hoje...
deixo-me ficar em silêncio!
Hoje...
quero mesmo só ficar em silêncio!
num dizer de silêncio
fazer-te ouvir sentido
Amo-te!
Que esse Amor seja em ti Vida Paz Serenidade
Hoje...
Os amigos Ognid e Lmatta deixaram uma prenda linda neste teu dia!
segunda-feira, 6 de dezembro de 2004
sexta-feira, 3 de dezembro de 2004
tempestade
Sentava-se no meio do largo como se fosse a sala de visitas. Direita. As duas pernas muito unidas nos joelhos. As mãos cruzadas sobre o colo. Nunca vestia um fato, uma saia, um vestido, umas calças. Nunca. Fosse de dia frio ou canícula, cobria o que se não via num apertado casaco sempre azul tisnado de pingados de tinta. Trazia uma mala. Uma daquelas antigas malas de cartão com cantos de lata arredondando os cantos. Uma mala dita de viagem. Mas era uma mala pequena assim pelo mal medido de quatro mãos-travessas (o mesmo que dizer fechadas de dedos o que é diverso do palmo mais usado em medidas). Sentava-se num banco mesmo no centro do largo. No único banco onde chovia directa a chuva e a sombra não cobria do sol quando este dava. No largo havia bancos e havia árvores. Aquele banco tinha, por razões de arquitectura que de paisagem, ao tempo, não havia, ficado ali ao centro sem ficar por debaixo de coisa nenhuma. E, por razões dadas ao acaso, o banco ficava bem no meio do dito largo. No meio mesmo, não! Havia entre ele e o meio um canteiro. Quer dizer...era um arredondado de terra salpicada de ervas e duas roseiras secas e, mesmo, mesmo no meio, um cipreste. Ela, sentada no banco. É de dizer que cada banco, e também esse, tinham sido verdes que ainda se lho via, na tinta saltada em lascas, essa, apenas de longe apercebida, cor. Para além do canteiro com o banco ao lado, o largo era rodeado por um gradeado. Um enfiamento de ferros verticais com pontas esguias apontando acima e a uni-los uma espécie de fita torcida do mesmo material. Era assim todo em volta do largo onde havia o banco onde ela se sentava. Ademais disto, as árvores eram, precisemos, quatro. Quatro árvores de folha caduca uma em cada canto como se formassem um quadrado inscrito no arredondo do círculo do gradeado. Eram árvores antigas de troncos gorgulhosos, esburacados. O chão deste largo era todo de terra amarelada. Aqui e ali, um naco de côdea parecia uma pedra. Mais noutro sítio uma semelhança mesma se fazia uma poita de caca de animal canídeo ali vindo de rara ocasião. Sim, que o largo não era quase nada frequentado, nem mesmo pelo bicho passeante cão. É verdade! Esquisito também! Mas o certo é que nunca se via, além dela, ninguém passeando ou ocupando qualquer dos outros bancos. De quando em vez. Lá muito de longe em longe, um que não era dali, e isso via-se pelo modo como parecia, atravessava o chão terroso e, raras vezes, se sentava numa ponta de um banco. Podia parar olhando o que ela nunca via. Uma ponte que corria por cima do rio lá muito ao fundo, lá muito do outro lado, lá muito embaixo do alto em que planava, parecia quase, o largo. Porventura quem ali passava era em busca do rio. Talvez, de o ver de ali de encima. Há que dizer que o largo não fazia parte de nada. Isto é, não era largo de aldeia, nem de cidade ou vila. Não. Era simplesmente um largo perdido ali no em cima de uma povoação de casas soltas atravessadas por um rio delgado e uma ponte estreita. Claro! a ponte nem precisava ser larga para tão pouca água.
Nessa tarde ventava. Um vento frio azulado num ar de trovoada. O céu estava roxo escuro. Plúmbeo?! Não! era roxo misturado de negro. Escuro! Ela chegou, como costume, e sentou-se tal qual descrita. Pousou a mala no lado esquerdo. Deitada, a mala sobre o banco, parecia prenha. Uma das mãos deslocou-se de sobre a outra que se manteve inerte. Num gesto de cegueira, inesperado para quem o visse. Num gesto que, a ver-se de alguém, se diria sem tento, soltou os fechantes dois da mala, um de cada canto. Qual boneco de mola preso em caixa, um soltar de folhas brancas, vermelhas, verdes, amarelas, se fez de dentro. Cada, todas as folhas escritas de certa, rigorosa, esguia caligrafia. Cartas?! Parecia, se alguém o visse. O largo e mais o ar azulado de quase trovejar ficou coberto daquele arco íris de papel. Lá no bem no fundo as casas desviam-se de alguém que olhasse. Ela, sentada, abriu o casaco botão a botão. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Sete botões dourados verdes de zinabre. Ergueu-se. Uma de cada aba do casaco em cada mão. Diria, quem visse, que parecia ela com duas asas. O vento batia forte os seios desnudos. Os pelos púbicos, muito negros, tremiam de arrepio no roçagar do ar sobre eles. Os pés calçados de chinelas pretas de um verniz quebrado, deslocaram-se no amarelado da terra. Um passo. Dois, três, quatro, cinco. Cinco passos em linha recta. Parou certeira na grade pendurada sobre o de lá embaixo onde havia o rio e as casas e a ponte.
Os papéis voavam.
Diz quem por lá passou, assim de por acaso, que no banco do meio nunca mais viu alguém sentado.
terça-feira, 30 de novembro de 2004
pequeno almoço
Era o meio-dia. Era o fim da manhã. Era domingo. Chuviscava. Era na capital. Era na grande cidade. E era num Bairro. Todas as cidades grandes são somatórias de bairros! Não?! Esta sim! Falta pouco e será um somatório de casas. Era domingo num bairro de uma grande cidade - não assim tão capital, nem assim tão grande, nem assim tão bairro. Era uma avenida. Era mais assim uma rua antiga que cortava, há muitos, muitos anos, um bairro de um outro bairro. A capital, ali, era duas partes dentro de uma. Era dia de descanso. Chovia na cidade grande. Os carros chapinhavam nas poças. O alcatrão colado sobre o velho empedrado deixava, aqui e além, com o passar dos andantes, estas coisas arredondadas, mostrando por debaixo pedras aquadranguladas que noutros idos tempos sentiram, em si, rodados diversos e foram afagadas por lisas ferraduras. Digo eu que conto e não vi senão os salpicos que faziam os carros de dentro da água chovida dentro dos referidos buracos.
Era, pois, domingo dia de descanso numa rua que dividia, naquele sítio, a cidade em duas – um bairro a poente e outro a nascente. E chovia. Na rua passavam carros. Era, do lado da rua em que eu estava, o bairro de ruas estreitas que assomavam em goelas direitas de casario envelhecido. Ruas lisas. Ruas que, espreitadas, pareciam um retrato de janelas enfileiradas resguardadas umas das outras dirigindo-se todas a um ponto de fuga. Eram ruas de casas com janelas floridas. Era roupa pendurada parecendo gente que assomava.
Assim, na grande rua atravessada por carros e com buracos onde havia água de chuva, espreitavam uma série de outras ruas todas fugindo, quase se unindo lá num ponto ao longe, que não se via, se adivinhava apenas, fugindo todas para um rio ao fundo. Era um rio o que aparecia, aqui e além, como se fosse um lugar de debruçar das ruas e das casas todas. Era uma cidade nem por isso assim tão grande, mas capital, e tinha, ali, no local onde me encontrava, um bairro cujas ruas espreitavam de um lado sobre a rua onde passavam carros chapinhando nos buracos da chuva, e do outro lado, parecia, que cada rua se acabava, toda e cada uma, dentro de água, penso eu que vi e conto, de um rio ao fundo.
Era na rua essa grande que, numa esquina, e daí ser meio da rua meio do bairro, havia uma padaria. Pois! Eu sei, eu que vi e conto, que padaria não é de conto. Sim. Mas esta era uma padaria especial. Era uma padaria da cidade grande e do bairro. E isto faz uma diferença tal que nem eu, que conto, pensava o quanto é diferente ser, ao mesmo tempo, padaria de cidade grande numa rua central e de um bairro com roupa e flores de vaso e até limoeiros, soltados nas janelas. Era mais. Era a padaria uma casa antiga e, como calhava bem naquela zona, de tectos altos toda decorada com vistosos retorcidos doirados e rococós de medalhões entrecruzados nos ditos. Era uma padaria que servia pão que ali mesmo fazia e vinha para boca da gente ainda quente. Era uma padaria que servia, a um tempo, pão para transportar e nas mesas, colocadas em local onde antes, digo eu que agora invento pois não sei da sua história, se formavam filas de raparigas do bairro e outras senhoras e suas raparigas, de então ditas criadas, esperando o pão. Era, devia ter sido, penso, um espaço de conversas animadas. Isso não sei de ter visto nem sequer lido ou ouvido - imagino.
Era, assim, uma padaria o espaço onde, em manhã de domingo, dia de descanso e de chuva, duas coisas juntas apenas de acaso, que eu tomava, lenta, o pequeno-almoço tarde como convinha em manhã de domingo. Era na padaria que, olhando (este vício de olhar em volta e ver que me ficou de não sei onde nos genes) eu via os casais novinhos com um dois filhos bem trajados; aquela rapariga magra de roupa que já tivera cor e uma cara que não tinha idade, agarradas as duas mãos no copo do galão, os olhos enfiados num de dentro vazio (assim me pareceu); o casal de meia-idade esguio e com os corpos enfarpelados em caros trajares entrando na porta verde de vidraças eu não disse? era uma porta enorme e havia outras em recantos de mesas enquadradas nas grossas paredes; a um canto um rapaz lia o jornal com ar de quem esperava alguém, um descentrado olhar que o fazia ter, para mim que o via, esse ar, digo eu mas sem certeza. Era assim uma padaria e um dito de café como por cá gostamos de dizer.
Era aqui que, na mesa ao lado daquela de onde eu via, olhava enquanto comia e bebia, se veio sentar uma senhora. No cabelo muito liso, muito ralo e muito branco, salteavam uns ganchos. O casaco de um xadrez coçado a preto e branco quadrava sobre uma blusa de malha multicolor coçada como a saia de viés de cor indefinida, usada. No rosto, a pele era lisa, branca por debaixo de um mar de lindas rugas sobre as quais refulgiram, olhando-me, um par de olhos semi escondidos por detrás de umas lentes de algumas, poucas, as suficientes, creio, dioptrias. Era assim, descrita agora por mim que a vi, a vizinha que, também ela, me olhava. Era uma senhora sim! Era do bairro, dizia: “ a senhora sabe?! já aqui venho há mais de quarenta anos!”. Não eu não sabia e ouvia parando, toda eu ali na padaria, a minha vida, ouvindo a dela se contando. Era mãe de um filho que sofria “sabe a senhora que ele teve, fumava muito, um enfarte! Aqui deviam abrir uma nesga da porta para sair este ar a tabaco! Sabe?! Não que a mim me incomode, mas há crianças e há quem se incomode e nada diga. A senhora sabe?! Não! não apague o seu cigarro! Eu digo por dizer! Gosto de falar! Venho aqui só ao domingo, sabe?! Moro aqui na rua ao lado, no bairro. Nasci aqui. Que idade me dá?!” Era uma senhora do bairro. Era uma mulher da padaria. Era uma mulher daquela rua que descia para longe e tinha flores e roupa dependurada nas janelas e ao fundo tinha, de um lado o rio, e de outro, a rua onde a cidade dividia o bairro dela do bairro do outro lado. “Sabe, minha senhora eu tenho mais do que isso, muito mais, mas não pareço, não! “ Era uma mulher de quase oitenta anos e sorria da vida que fazia parecer ser outra a sua real idade. “ Olhe, veja aqui!” Era uma mulher que abria uma carteira engordada de enchimentos vários entre elas muitas fotografias de um nada ali espalhadas e colocadas da dela na minha comovida mão. Era um dedo, o dela, que apontava e a boca, ainda de lábios carnudos, que dizia:”este é o filho que falei. Desempregado. Mora por cima de mim. O outro, vê?! são tão diferentes, não?! um louro o outro tem assim um ar aciganado” Era ela quem dizia dos dois filhos sorrindo embevecida. No meu de tentar sair que espreitava na tal de porta de entrada e saída, o meu marido, ela sorriu e disse, uma vaga onda de água transparecendo por debaixo das lentes: “Sabe?! fiquei viúva deste, um lindo homem o meu marido! há quarenta anos!” Era viúva a senhora do bairro, ocasional vizinha da mesa ao lado da minha numa manhã de domingo na padaria que era também café de diversas gentes. E, acrescentou, enquanto eu já me levantava desejando, apesar, de ficar mais à palavra: “a solidão custa muito, minha senhora! Custa muito! Sobretudo à noite! A solidão é muito, muito pesada! Gosto de aqui vir. Ao domingo, só ao domingo! Venho sempre!”
Saí para a rua deixando, espero, desejava, a minha mão assente num carinho sobre aquele ombro sob o casaco de xadrez usado.
Saí e fiquei pensando que a solidão é muito, mas muito mais, do que estar sozinho.
segunda-feira, 29 de novembro de 2004
PARABÉNS MINHA LINDA!!!
Hoje este meu espaço é todo todinho para dizer do coração sentido
e com um abraço do tamanho do que o real e virtual em união se fazem
um mundo de emoção e vida
que desejo PARABÉNS
e dizendo nele transporto para o lado de onde ela se encontra
o desejo de toda a FELICIDADE prara esta
MULHER INCONFORMADA
que hoje completa
ela o diz de modo lindo
44 PRIMAVERAS !
PARABÉNS! e um monte de beijinhos, Linda!
sexta-feira, 26 de novembro de 2004
contradição?!!!
Amigo/s
assim uma coisa calma um escorrer de leve uma alegria doutro derramada em mim!
Eu estou feliz sinceramente! e sei que não é de mim que isto me vem!
por isso sinto-me assim tão bem! Ele está feliz!!! entendem ?! Ele está tão Feliz!!! e eu ...ai eu...sinto-me tão Bem!!!
Fui buscar, por isso, uma coisinha que considero querida escrita era eu uma menina. Publiquei um dia no início quase deste andar por blog! deixo aqui...
Ofereço-vos de novo com esta Alegria aos Amigos todos!
Amigo!
apetece gritar ao mundo
ir por aí dizer a toda a gente
Dizer que não é tarde
que vale a pena espear
amar e crer
sorrir e no sorriso dar-se
A hora sempre chega!
E, então..
o ribombar da tempestade
é doce sol nascendo
luz filtrando-se nos bagos da chuva
o sol, o firmamento
as terras, os mares
o trinado dos pássaros
o coaxar das rãs
o rugido das feras
o rumorejar do vento nos sobreiros
a calma do sorriso
o soluço no choro
é vida...vida!
A alma volteia em passos de dança
loucos, muito loucos.
Vestiste-a de brancos folhos, Amigo!
e ela rodopia
dança, dança, dança...
escorrega aqui, mas logo retoma
na mais louca das danças
ao ritmo voluptuoso da Alegria pura!
Ouve, Amigo,
Ouve!
És tu quem colocou na pauta
o dó , o ré, o mi...
as notas todas!
És tu, Amigo quem conduz a minha alma
quem doira de luz o salão
onde ela rodopia!
Debruçado nos prados, nos vales, nas montanhas
nos ribeiros, nas fontes
na vastidão do mar
na imensidão do espaço...
és tu... Amigo...
quinta-feira, 25 de novembro de 2004
que dia é hoje?!!!
Trocam-se-me as datas todas
Revolteiam-se números
Enrolam-se intricados nós
Apertam-se imprecisas cadeias
Hoje...
eu tenho a alma...
nem sei... está ela aqui ainda
ou se voou de mim
deste sentir de ferida
carne viva de Vida
Hoje...
Gritam por aí cantares
Oiço rufar tambores
vozes de multidão
megafones troando
na rua
bandeiras desfraldadas
Soam ecos surdos
Ecoam
Longe
Mal se ouvem
(escutem...ouvem?)
O calendário voou...agora
folha a folha
desabriu pela janela
revolteou no céu
(O céu ainda azul)
eu nesta confusão
de não saber dos números
(a quantos são?!)
Novembro...em eco oiço
doendo como antes
A jarra de cristal
e a panela de barro
estão ali em cacos
E os panos...
bandeiras descoloridas
Vermelho só o sangue...
... ainda corre quente
Hoje...
relembro...
havia um mês de Abril
depois um de Novembro...
...é impreciso...
é tudo muito longe...
(Que dia é hoje...então?! )