Era o meio-dia. Era o fim da manhã. Era domingo. Chuviscava. Era na capital. Era na grande cidade. E era num Bairro. Todas as cidades grandes são somatórias de bairros! Não?! Esta sim! Falta pouco e será um somatório de casas. Era domingo num bairro de uma grande cidade - não assim tão capital, nem assim tão grande, nem assim tão bairro. Era uma avenida. Era mais assim uma rua antiga que cortava, há muitos, muitos anos, um bairro de um outro bairro. A capital, ali, era duas partes dentro de uma. Era dia de descanso. Chovia na cidade grande. Os carros chapinhavam nas poças. O alcatrão colado sobre o velho empedrado deixava, aqui e além, com o passar dos andantes, estas coisas arredondadas, mostrando por debaixo pedras aquadranguladas que noutros idos tempos sentiram, em si, rodados diversos e foram afagadas por lisas ferraduras. Digo eu que conto e não vi senão os salpicos que faziam os carros de dentro da água chovida dentro dos referidos buracos.
Era, pois, domingo dia de descanso numa rua que dividia, naquele sítio, a cidade em duas – um bairro a poente e outro a nascente. E chovia. Na rua passavam carros. Era, do lado da rua em que eu estava, o bairro de ruas estreitas que assomavam em goelas direitas de casario envelhecido. Ruas lisas. Ruas que, espreitadas, pareciam um retrato de janelas enfileiradas resguardadas umas das outras dirigindo-se todas a um ponto de fuga. Eram ruas de casas com janelas floridas. Era roupa pendurada parecendo gente que assomava.
Assim, na grande rua atravessada por carros e com buracos onde havia água de chuva, espreitavam uma série de outras ruas todas fugindo, quase se unindo lá num ponto ao longe, que não se via, se adivinhava apenas, fugindo todas para um rio ao fundo. Era um rio o que aparecia, aqui e além, como se fosse um lugar de debruçar das ruas e das casas todas. Era uma cidade nem por isso assim tão grande, mas capital, e tinha, ali, no local onde me encontrava, um bairro cujas ruas espreitavam de um lado sobre a rua onde passavam carros chapinhando nos buracos da chuva, e do outro lado, parecia, que cada rua se acabava, toda e cada uma, dentro de água, penso eu que vi e conto, de um rio ao fundo.
Era na rua essa grande que, numa esquina, e daí ser meio da rua meio do bairro, havia uma padaria. Pois! Eu sei, eu que vi e conto, que padaria não é de conto. Sim. Mas esta era uma padaria especial. Era uma padaria da cidade grande e do bairro. E isto faz uma diferença tal que nem eu, que conto, pensava o quanto é diferente ser, ao mesmo tempo, padaria de cidade grande numa rua central e de um bairro com roupa e flores de vaso e até limoeiros, soltados nas janelas. Era mais. Era a padaria uma casa antiga e, como calhava bem naquela zona, de tectos altos toda decorada com vistosos retorcidos doirados e rococós de medalhões entrecruzados nos ditos. Era uma padaria que servia pão que ali mesmo fazia e vinha para boca da gente ainda quente. Era uma padaria que servia, a um tempo, pão para transportar e nas mesas, colocadas em local onde antes, digo eu que agora invento pois não sei da sua história, se formavam filas de raparigas do bairro e outras senhoras e suas raparigas, de então ditas criadas, esperando o pão. Era, devia ter sido, penso, um espaço de conversas animadas. Isso não sei de ter visto nem sequer lido ou ouvido - imagino.
Era, assim, uma padaria o espaço onde, em manhã de domingo, dia de descanso e de chuva, duas coisas juntas apenas de acaso, que eu tomava, lenta, o pequeno-almoço tarde como convinha em manhã de domingo. Era na padaria que, olhando (este vício de olhar em volta e ver que me ficou de não sei onde nos genes) eu via os casais novinhos com um dois filhos bem trajados; aquela rapariga magra de roupa que já tivera cor e uma cara que não tinha idade, agarradas as duas mãos no copo do galão, os olhos enfiados num de dentro vazio (assim me pareceu); o casal de meia-idade esguio e com os corpos enfarpelados em caros trajares entrando na porta verde de vidraças eu não disse? era uma porta enorme e havia outras em recantos de mesas enquadradas nas grossas paredes; a um canto um rapaz lia o jornal com ar de quem esperava alguém, um descentrado olhar que o fazia ter, para mim que o via, esse ar, digo eu mas sem certeza. Era assim uma padaria e um dito de café como por cá gostamos de dizer.
Era aqui que, na mesa ao lado daquela de onde eu via, olhava enquanto comia e bebia, se veio sentar uma senhora. No cabelo muito liso, muito ralo e muito branco, salteavam uns ganchos. O casaco de um xadrez coçado a preto e branco quadrava sobre uma blusa de malha multicolor coçada como a saia de viés de cor indefinida, usada. No rosto, a pele era lisa, branca por debaixo de um mar de lindas rugas sobre as quais refulgiram, olhando-me, um par de olhos semi escondidos por detrás de umas lentes de algumas, poucas, as suficientes, creio, dioptrias. Era assim, descrita agora por mim que a vi, a vizinha que, também ela, me olhava. Era uma senhora sim! Era do bairro, dizia: “ a senhora sabe?! já aqui venho há mais de quarenta anos!”. Não eu não sabia e ouvia parando, toda eu ali na padaria, a minha vida, ouvindo a dela se contando. Era mãe de um filho que sofria “sabe a senhora que ele teve, fumava muito, um enfarte! Aqui deviam abrir uma nesga da porta para sair este ar a tabaco! Sabe?! Não que a mim me incomode, mas há crianças e há quem se incomode e nada diga. A senhora sabe?! Não! não apague o seu cigarro! Eu digo por dizer! Gosto de falar! Venho aqui só ao domingo, sabe?! Moro aqui na rua ao lado, no bairro. Nasci aqui. Que idade me dá?!” Era uma senhora do bairro. Era uma mulher da padaria. Era uma mulher daquela rua que descia para longe e tinha flores e roupa dependurada nas janelas e ao fundo tinha, de um lado o rio, e de outro, a rua onde a cidade dividia o bairro dela do bairro do outro lado. “Sabe, minha senhora eu tenho mais do que isso, muito mais, mas não pareço, não! “ Era uma mulher de quase oitenta anos e sorria da vida que fazia parecer ser outra a sua real idade. “ Olhe, veja aqui!” Era uma mulher que abria uma carteira engordada de enchimentos vários entre elas muitas fotografias de um nada ali espalhadas e colocadas da dela na minha comovida mão. Era um dedo, o dela, que apontava e a boca, ainda de lábios carnudos, que dizia:”este é o filho que falei. Desempregado. Mora por cima de mim. O outro, vê?! são tão diferentes, não?! um louro o outro tem assim um ar aciganado” Era ela quem dizia dos dois filhos sorrindo embevecida. No meu de tentar sair que espreitava na tal de porta de entrada e saída, o meu marido, ela sorriu e disse, uma vaga onda de água transparecendo por debaixo das lentes: “Sabe?! fiquei viúva deste, um lindo homem o meu marido! há quarenta anos!” Era viúva a senhora do bairro, ocasional vizinha da mesa ao lado da minha numa manhã de domingo na padaria que era também café de diversas gentes. E, acrescentou, enquanto eu já me levantava desejando, apesar, de ficar mais à palavra: “a solidão custa muito, minha senhora! Custa muito! Sobretudo à noite! A solidão é muito, muito pesada! Gosto de aqui vir. Ao domingo, só ao domingo! Venho sempre!”
Saí para a rua deixando, espero, desejava, a minha mão assente num carinho sobre aquele ombro sob o casaco de xadrez usado.
Saí e fiquei pensando que a solidão é muito, mas muito mais, do que estar sozinho.