sexta-feira, 29 de outubro de 2004

exorcismo

a boneca mulher...
mulher sentada...
desgrenhada....
desenhaste-a...
quantas vezes...

mãos amarfanhando o desalinho do cabelo...
cotovelos esventrando os joelhos...
força de um desespero...


não sabias...ainda...
então...não o sabias...


desenhaste...bonecas...
a óleo a lápis a carvão...


agora...agora sabes...
agora ela e tu...

sentadas no degrau da escada...
o desespero...antes...
antes deste estar

sentada...ouvindo...
tu...desgrenhada...

no degrau da escada...

ela o vivia... antes...
papel esborratado...
olhando-te...


o desespero da duvida...
os cabelos dela...os teus...
o sem - sentido dela... o teu...
enclavinhadas as mãos...

as tuas mãos...
o desespero...

a duvida... a dor...
a tua...a dela...


riscada no papel ...antes...
muito antes...

muitas vezes...
antes...

deste sentar... ouvindo...
no degrau da escada...

vivias... antes...
boneca...
desenhada
...

(adaptado de texto escrito em 18/1/03)

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

lua cheia

Cansara de aguardar. Um dia atrás do outro. Um de riachos de água a desentupir sujeiras. Em outro, brasas de lume sobre a terra e nem maior se daria a secura...esta e o odor...aquele dançar de partículas de coisa que já fora.
Cansara. De Junhos e Setembros. Também dos que lhes ficavam, antes, depois e no entre. Aguardar é demais que espera. De espera a gente sabe que aquilo chega. De aguardar a gente nunca sabe. Até se dá em deslembrar . Fica só entalado num desvio da memória.
Ele cansara disso.
Num dos Dezembros, o pai morrera. Não chorara. Não lhe entendeu aquilo na cara choro. Estranhara só.
Uma noite de um desses meses...puxaria a camisola para o pescoço. Abotoaria o éclair das de ganga. No bolso a carteira documentos notas. Aos pés da cama deixaria um cartão...pedaço de uma oferta de um Dezembro. Escreveria fui. Em letras garrafais. Ninguém que visse se deslembraria. Ficaria antes correndo. Procurando. Ele já iria em outro Junho. Nem seria já ele. Ele descambado de aguardar. Ele cumprimentado daqueles que passavam. Ele sempre quieto. Sentado na soleira da porta...arrimado ao pé do limoeiro. Arrumando sonhos.
Partiria.
Puxou a camisola para o pescoço.... apanhou um limão.
A lua rebentava de brilhos de cheia. Pisou a soleira. Entrou. A luz da lua estendia um lençol sobre a cama.
No mês de dois seguintes o limão mirrara. Na cama outro lençol de lua.
Ele já não era ele. Dizia assim quem o cumprimentara cansado de aguardar.... Diziam...num mês depois de dois...cuidaram que partira...ele apenas cansara. Cansara de aguardar.
Um dia atrás do outro...cansara.

O DORMITÓRIO III de Vicent Van Gogh

domingo, 24 de outubro de 2004

lembrando

os aconteceres fazendo "cache-cache" ....suspresas...
recordares...
Almada Negreiros...O Nome de Guerra... Maternidade...
esboços do antes de ser...desenhos...
cópias enchendo paredes...eles pequeninos...eu...
os outros...os desenhos...os nomes...as palavras....
aconteceres sempre...


Maternidade de Almada Negreiros
Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais um estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal.
O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. E é este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião.
in Nome de guerra de Almada Negreiros
Cap II A sociedade só tem que ver com todos não tem nada que cheirar com cada um



terça-feira, 19 de outubro de 2004

UM

Este escrito ...(aquele, afinal ali abaixo!) ficou por ali escrito sem mais memórias ou com tantas!
Hoje, venho colocá-lo neste local que me está sendo de...vida! quem mo diria! eu não sabia! (saberei algum dia alguma coisa, eu?!) não sabia ao que vinha.
E estou de estar...ficando.
A vida corre seu curso igual: de seres, de porvires, de risos, de cores, de tempos, de amores (desamores eu, acho, desachei de os ter) viver .... um simples balançar de flor, um apanhar de frutos no quintal, uma corrida ao entardecer, um sorriso, o jornal, o trabalho a fazer...os amores a tratar...... à vida eu agradeço .... carreiros, degraus, assentos de jardim,beiras de regatos, barcaças atravessando dois delás de afastar...

e... eu ía escrever nada e postar apenas este, "de gaveta" dito, apanhado ali em base de CD com data de 23/4/03 e título prosaico de UM
...eu ía e...olha escrevi, saíu...aqui ficou



A pressão dos nervos tensos
na corrida do endemoninhado
circulando nas ruas
sem fim
apressando e retardando
os passos
em cozimento com as paredes
caminhando
rompendo os passeios
em passinhos miúdos
apressados

A pressão dos nervos
nas mãos do electricista
nos braços do cavador
na cara do médico...
nas olheiras da mulher das 19 horas
a pressão na esquina
no passeio de venda e compra

A pressão
sentida nas fibras
indefinidas
numa noite insónia

A pressão – a falta
nos lábios moles de velha precoce
balbuciando
a pressão
na mão... na pega do saco


A fúria do mar de sueste
A dureza na tempestade de areia
O sufoco do sol do meio dia
O norte...o vento de norte...

...pressionando .... sempre...

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Escrever...agora...


Era costume escrever mais tarde.
Pela madrugada quando tudo dorme.
Naquela manhã alonjara-se da hora de fazer os fazeres de ninguém. Outrora houvera a casa e havia a escola e a havia o reboliço dos risos e os choros e os ralhos. Havia os horários e os cortes dos vestidos, as bainhas ...os pontos. Os deveres da escola. A vela. Os acampares.Outrora fora há tanto e parecia agora. Ou seria ao invés?! outrora fora há pouco e parecia há tanto?! Deixá-lo! O tempo passando. Eles foram vivendo. As casas desandaram. Cartas já não havia. Hoje, apenas ela, normalmente, diferente de hoje, pela noite adentro, escrevia.
Estava, notava enquanto remorava/revivia/percebia, sempre, sempre de ouvido atento. Não não era ao cão, nem ao ruído na porta (ele vinha vinha sempre não se surpreendia) . Este ouvido atento que se lhe apercebeu sempre de ouvido à escuta, sempre de ouvir esperando, era de outro ouvir. Era, o apercebia, como outrora o bater, repenico trinado, conhecido, a tempo. Mas, estava na hora, precisava escrever. Não que fosse costume fazê-lo àquela hora assim, depois de nada, ainda o sol pinando o de cima do monte e uma luz suave mas ainda bem forte, azulejando o chão lavado. Estava ali sentada meio de esguelha. Apenas metade da coxa no tampo da cadeira. Outrora havia sempre a voz a dizer-lhe que se sentasse bem. Outrora. Agora nem sentia. Estava assim sentada ao acaso. Sequer era porque apetecia. Calhava. Debruçou o corpo no castanho da mesa. Ficou. Os olhos entreviam para o delá do écran. Os ícones de apagar, abrir, refazer a letra em muitas tantas letras que nunca era a sua. As caras sorridentes que pusera no dito de Ambiente. Via para lá. Não estava nada ali. O corpo descaiu um pedacinho mais. A cabeça poisou no dobrado do braço. Ouviu um estalido. Não. Não era aquele o tal que sempre estava à espera que soasse ao ouvido. Desapercebeu-se deste. Nem sequer o ouviu. No écran giraram alguns ícones. As horas de escrever não eram mesmo aquelas. Outrora sabia ela quando. Mas ali não estava atempando. Bem bastava o relógio fazendo tic tic. Tempo apenas o medido. Aligeirou a manga que apertara o pulso. Um gesto tão sem gente como se fora outrem que assim a colocasse. Ainda mais, assim, num quase tudo nada de descuido.A roda desandando. Destempada.(Des) sentia tudo/não sentia nada. Apenas num delá de outroras lhe mergulhara o tempo e esse era agora ela ali sentada, debruçada no tampo de cima do teclado espelhando o monitor. A cabeça parada no de dentro, no delá do que se podia ver. Um cabeça inclinada sobre um braço rosado, afagado de leve por cabelo inda farto e apenas, só apenas, levemento branco.

- Adormeceste?
Ouviu.
–Não! Estava a tentar escrever, mas... esta não é a minha hora.
E sorriu.
Ele vinha sempre voltava sempre. Nem se apercebia.
O telefone soou (ou era o telemóvel?!).
Clicou. (clicar era termo que gramaticara ali e no de escrever que num tempo de dar lhe ofertaram e ela se impusera que a mão entorpecia na escrita habituada e gostada de caligrafia).
-Está?!... Tá?!... Viva! Olá!!! (.....) sim...diz......
(Era a filha! )

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

enquanto...

Havia um banco. Um banco igual àquilo a que se chama banco de assentar. Quatro pernas e um tampo. Quatro travessas a unir as pernas. Um ângulo desviava de cada uma a outra perna e desperpendiculava uma e as quatro do horizontal do chão. (afinal todos sabemos o que é um banco neste contexto de descrição de casa) No demais era um espaço. No demais eram corpos deitados. Juntos. Aconchegados. Apertados. Dormiam numa colcha de cheiro a descomidos.
Pancadearam na grade. (Podíamos dizer simplesmente que bateram à porta. Mas se não havia isso, há que encontrar modo de dizer de onde aquele ruído.) Um ruído surdo sobre tábua que é muitas tábuas com vários entres entre elas. Duas vezes bater. Às duas, foi ela que acordou. Ela. Um dos eles que dormia aconchegado,apertado (como vos aprouver). Arrumou um olho aberto. A cabeça descaiu do lado do ouvido que primeiro ouvira. Quem seria?! E isto não pensou. Gritou para o de lá dos entre tábuas quem é? Um grito que sabe, não é grito. Afirmação, não pergunta. Ela não falou. (podíamos dizer, apenas, que ela acordou com aqueles bates e esfregou um olho e pensou: “quem será?” mas...não foi bem assim...) Ergueu-se. Um corpo por de cima de outros. Alinhado numa vertical. Mais os outros se ficaram vistos na contrária posição. Corpos outros, que não ela, ondularam em espasmos de desouvir remorejando babas e sonidos sem voz e sem tino. Ela, a mão, nas tábuas. Os entres e as tábuas deslocadas para um ângulo agudo com...(podíamos dizer, simplesmente : levantou-se e abriu a porta, mas...não foi bem isso...).
Assombreou-se o escuro do de cá do ângulo, com o escuro do de lá. O emsombreado deslocou-se. O ângulo desfez-se. Ela seguida pelo que emsombreou. Acresceu um odor novo. Tudo renovou à horizontal. Tudo, não. O banco! O banco a fazer quatro ângulos com o tudo embaixo a ele.
Cheirava a cheiros. Rugiam silêncios entre corpos. Silvos. Esgares. Soluços. Fungares. Um choro. Um vagido. Um ranger de molares.
Nos entre as tábuas começava a clarear. O banco assomando num raio de sol à altura,precisa e segura,de uma mão, a primeira a sair de leve, nua, para o acordar de um dormir (aconchegado ou apertado, como vos aprouver) e correr para o de lá da rua.

Enquanto não consigo escrever o que se passou. Enquanto...outros o dizem de simples escrever...enquanto...escrevi este aqui - tem no por debaixo o que eu queria e não me sai de dizer nem, inda menos, escrever (e sangra...)

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

dueto a uma voz

Mal entraste, desfizeste o meu estar solitário fazendo horas para alguma coisa que logo se me passou. Passaste com um levantar de queixo e um acentuar de anca distorcida enquanto te dirigias para uma mesa, a chávena de café na mão. Sentaste-te de frente para mim. Não tinhas intenção de me olhar.
(Eras tão magra!)
Expeliste uma lufada de fumo branco enquanto equilibravas entre dois dedos um cigarro borrado do leve avermelhado com que cobrias os lábios. Lábios que deixaste um instante entreabertos como se um espanto se tivesse deles apoderado. Num lampejo que te foi indiferente, cruzaste com os meus, teus olhos de um azul debruado a preto como se pincel de artista chinês lhes tivesse desenhado contornos. Afastaste o fumo dos olhos com duas cortinas de renda negra que fizeste descair, levemente.
(O meu vestido ficou mais velho. A barriga distendeu-se-me um ror de centímetros. Uma fila de bonequinhos colocou-se em cima da mesa especados em gargalhada! Calei-os. Calei as gargalhadas ridículas. Desfiz-lhes a fila que formavam - cada ano da minha idade ali em meu redor, espevitados. Arrumei-os com o ar sério a que obedeceram na responsabilidade de me tornarem uma jovem senhora idosa. A barriga voltou à sua dimensão real e o vestido descaia sobre ela numa cumplicidade que os fazia, e a mim, readquirir uma serena dignidade.)
Foi um lapso.
Voltei a olhar-te...vendo. O teu sorriso foi tão inconsciente e sincero como o meu.
(Terias, tu também, a teu modo, sentido maior que nunca a tua magreza? algum osso a salientar-se indevido? Terias, por um lapso, um par de anitos a rabiarem sobre a tua mesa? Porventura terás sentido que as calças estavam demasiado lavadas... ou demasiado sujas?)

Aliviamos as nossas duas esperas quando o teu isqueiro se recusou acender novo cigarro. Foi planeado o gesto que nos soergueu com o mesmo objectivo?! olhando tu primeiro em volta e só depois se me dirigindo, e eu fingindo que não via a tua busca, aguardando ser solicitada.
(
As calças estavam de facto demasiado lavadas e com vincos colocados ali no local certo de uma calça de corte. A blusa tinha o toque de uma marca que não identifiquei. As duas peças estavam separadas por um cinto de cabedal largo que apertavas, não displicente, não sobre um local qualquer das nádegas, mas bem assente na cintura. Calçavas sandálias rasas de tirinhas de um verniz azulado nuns pés de unhas bem tratadas e coloridas de azul, como nas mãos.
Como os olhos
!!).
Retornamos às nossas esperas mordiscando a borda das respectivas chávenas, enquanto o café escorregava devagar. Gesto que repetimos quase em sincronia.
(E, de repente, desapareceste-me. Quero dizer, deixei de te dar atenção, perdi-te.)
Quando voltei a olhar, a mesa estava repleta de bonecos que só eu via e o teu pescoço saia da blusa numa rodada de pregas confundidas com um colar de pedras avermelhadas; as tuas mãos esguias e magras estavam igualmente fendidas de rugas e alteadas de veias arroxeadas. Um aro grosso cobria-te quase metade do anelar esquerdo.
(Pasmei e observei melhor – avidamente.)
Sorriste-me de modo consciente. Atabalhoadamente, respondi com um olhar que devia ser despegado do sorriso pois dirigia-se-te de outra forma que o sorriso – tentava perceber.
(Sim, era o teu olhar, apenas ele, que te fizera toda quando entraste. Apenas o olhar.)

Só então respondi ao teu sorriso.

Dois adolescentes sentaram-se ruidosamente, calorosamente, pedinchosamente à tua mesa.
Sorriste ao meu real sorriso.
(eu já me distraia com outras chegadas)

(rascunho encontrado ...1999?)

Hoje saí e esqueci o riso pendurado no cabide

deu em chover esparsado e eu sem o riso

apanhava a água (toda aquela água!) em cheio na cara

lágrimas do riso chorando de o ter esquecido!



sábado, 9 de outubro de 2004

quase oremos

...a estas palavras queridas do Almaro

“Pega numa lágrima,tua, com dois dedos (polegar e indicador, de mão qualquer),
ao de leve, não vá ela fugir e perder-se no ar ou no chão.
Conseguiste? Bravo! Bom começo! Agora, olha-a! Que cores vês? Quantas? Uma? Duas? Consegues dar-lhe nome? Tem todas as cores do teu rio e da tua saudade.
Se olhares bem, são os teus olhos que se reflectem da tua lágrima.
As nossas lágrimas é o nosso EU, todo lá dentro…”

juntei a voz doce que hoje de mim se acercou
de um grande amor, de um meu amor!
fiquei da saudade acalmada....
e assim...
(mais a chuva com que enchi mãos e alma)
a tristeza se enrolou e...
de mansinho...
descansou de mim!

Obrigada!



sexta-feira, 8 de outubro de 2004

momento

sufoco de sentires diversos
a saudade perpassa como um rio de lava
nada mais que pressão no peito

de rir a vontade está recostada de dormir
uma lágrima pede que me deixe assossegar
digo-lhe que se aquiete
que se desfaça de companhia
em torrente
de vez, me acalme esta saudosa alma
de vez, por um dia ao menos,
esta tristeza se alonge

(o ar paira de uma humidade que não se dá em chuva!)

terça-feira, 5 de outubro de 2004

palavras

Sabem o que é querer escrever e não ter, ali à mão, uma folha de papel?! andar esgravatando ao derredor e nada que não esteja já escrito e a tua cabeça estrebucha de palavras como uma torneira a pingar de desarranjo sem mais que o chão onde escorrer e a alagar casa! Assim, as palavras numa cabeça sem um papel onde a mão escreva qual vaso parando ou sustentando a água, vão pingando e perdendo-se no éter mesmo quando, já tresloucada de procurar papel que as sustenha, ou mão que as estanque, te ouves palavras a saltar em tua volta e são elas saindo-te pela boca em sons desconexos molhando o ar em volta, perdidas, formando por vezes frases como os pingos acabam por formar um lago que invade tapetes e pode causar, a tempo, inundação pior que igual a chuva grande. Assim, as palavras sem um papel onde assentar.
Um dos papéis encontrados, neste quase delírio de impedir que as palavras inundassem o ar em volta, estava escrito numa das faces com um poema. Um ror de palavras que não vieram de ti. Alguém as escrevera nele sobre a vaidade, os palcos, os que batem palmas e os que são ovacionados; alguém que talvez tenha andado aos papéis anos e anos, ou, talvez, tenha começado apenas a sentir a força de percorrer o papel para se parar a palavra, precisamente quando cresceu a necessidade de andar aos papéis. Antes, talvez, digo eu, nunca tenha sentido esta quase compulsão de escrita, de deixar a palavra desfazer-se amparada, qual pingo de água no balde, sobre a folha...ou rebenta...inunda...enlouquece...entope...derrama-as em discurso anódino.
Mas...o tal papelinho escrito de um dos lados, dizia (dizia-te?!) que o mundo é um palco de representações/ que o peso das reproduções/ a afirmação das imagens/ nega o amor/ que se deve afirmar. Dizia mais... o papelucho, menor que a tua mão já de si pequena, ali abandonado, afinal também escrito na outra face como um vulgar papel de lembrar que preciso de ...comprar...fazer. Dizia, em letra de escrever em teclado impresso a um rosa esbatido, que o tempo da vida faz/ o meu ser estrebuchar/no vazio/ de nem a uma nem outra/cena pertencer/e de o circulo vicioso/ entre poder da submissão/ e submissão dos poderes/(...) estilhaçaram-se as representações/que sufocam as emoções.
Toma lá para aprenderes a ter cuidado quando procuras papel para escrever – NUNCA LER!!! Precisas de papel vazio! um papel com palavras é um perigo – como um balde cheio de água ou colocado de fundo para o ar debaixo da torneira que pinga. Não deves ler...nunca! quando andas, assim, em busca de papel!
Pronto, agora, o tal papelinho diz, tal e qual o que (talvez!) as tuas tais palavras fossem dizer escrevendo em papel outro: Exilada/ fora e dentro do mundo./ no lado invisível/ o dos sonhos de todos/ para lá das ilusões.
O papelucho a reenviar os pingos de volta em ricochete ( as palavras para dentro da tua cabeça, da tua boca) uma magia, mas uma possibilidade que as leis da Física não desmentem – tudo uma questão de direcção do pingo e de momento cinético no ressalto. A palavra a bater na folha escrita e retornando, palavra que não escreveste chocando com palavra que está lá, direitinha para o local de origem na tua boca, na tua cabeça.
O papelucho, ocasional na busca doutro, fez-te (diz lá, diz!!) fez-te engolir as palavras que ias escrever. Deixaste de pingar!
Não te foi permitido alagar como farias sem qualquer papel. Afogou-te a palavra e remeteu-te ao sentir.
Como dizia o papel: deixando sair os sentires/para sentir a plenitude da existência corporal/como a pertença universal.
E aqui, precisamente nestas palavras, o papelucho foi rasgado. Alguém (tu?!) mataste as palavras...um dia...não viste o lado escrito a rosa e escreveste, apressado, um lembrar de cebolas, carne, arroz e um prosaico ir ao banco. E...não sentiste as palavras chorando, contorcendo-se no rrrrr do rasgar transversal?!
Querias saber mais...o resto... não existe.
Agora talvez seja o tempo de escrever as tuas. Só agora...depois de mescladas com as do papelucho!
(Afinal havia tanto onde ir buscar papel e logo havia de te aparecer este papelucho escrito de rosa e rasgado tão transversal que te permitiu as palavras, perturbadoras...vivas!)

Agora, talvez, já não seja o tempo de escreveres.

A manhã já abriu de sol. O silêncio ensurdecedor das tuas palavras amainou e, lá fora, surgem os rumores de mais um dia. Um domingo. O fundo longínquo do sueste, o deslizar seco das folhas de buganvília no quintal, um cão, o tic-tac do relógio estragado na parede.


As palavras acomodadas na cabeça qual torneira que parou de pingar...


(Escrito em 25/9/04)

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Ai estes Blogueiros!!!

Oh! meus queridos blogueiros ( oh! Zeca, tu então!) não sabiam qual é o livro que eu tinha aqui ao lado? e quem escreveu? mesmo com a dica em rodapé?! ai estes meninos!!!
A resposta certa era:
livro blogs
autores Paulo Querido e Luis Ene
E o vencedor do concurso com a única resposta certa foi:
AC A despassarada com a indicação "as maravihas da pesquisa google"
Uma mulher e despassarada...só podia!!!
Vão lá dar os parabéns à moça !
e ler o livro dos amigos, caramba!!

domingo, 3 de outubro de 2004

Retribuindo...

Olá linda, menina Inconformada!

A Seila pediu-me pra lhagradecer, a publicação do texto dela no seu bi logo...
Tá vendo? Pois... eu bi logo que a menina bia!
Tá então feito o agradecimento!

Aproveito, eu agora, a vaquita, para dizer reconhecida e de minha voz "muuuuu", tal como a menina gosta!
Porquê?! Ora, não seja tímida!
Eu sei que a menina tem um fraquinho pela minha gente!

Mais..uma paixão que a menina diz ser bem conhecida!
Afirma, mesmo, que “cada vez que alguém vê uma vaca lembra-se de...” si.
E, disse a Seilá, que a paixão é tal que já viajou “da Dinamarca para Lisboa com uma ao colo “.
Ora isto deixou-me desvanecida!
Conte, de hoje em diante, com mais esta vaca às suas ordens olhando-a dia a dia com “olhos imensos e pestanudos” neste meu jeito “pesadão e maciço”!

Gosto da menina e pronto!

(Texto livremente inspirado num documento encontrado num manuscrito da ERA SAPO e datado de julho.07.2004 )

sexta-feira, 1 de outubro de 2004

Acasos em REDE

Eu...... encontrei no blog da Roxy que dizia:
Bom, encontrei no blog do Cosmic Men
O qual, por sua vez, tinha postado:
Encontrei no blog do Isso Agora que tinha encontrado no Blog da Ju que tinha encontrado no Pintelho, que encontrou no da Duende, que encontrou no Canto do Melro que o encontrou no Substracto que, por sua vez, o encontrou em Caterina.net.

E na página 31 do livro que estava mesmo aqui ao lado (finalmente encontrado nas bancas cá do burgo e lido ontem à tardinha) e seguindo à risca a condição de ser a primeira frase completa, rezava assim:
Para muitos estar perto dos seus leitores é uma benesse.

mas eu vou fugir à regra e escrever as outras duas frases que terminam o parágrafo primeiro desta página 31e que rezam assim:

Ter feedback é fundamental. As Redacções proporcionam recompensa material, sobretudo,mas pouco calor humano. Ora, disso não falta na exaltada blogoesfera.

E agora os meus estimados leitores exaltados blogueiros
(não bloguistas como o livro, com estes ditos na página 31, me ensinou retirando-me ainda fiapos de dúvidas)
façam favor de entrar naquele concurso!
e neste que acabo de inventar :

QUAL É O LIVRO QUE EU TINHA AQUI AO LADO? E QUEM ESCREVEU?

************************************************************************************
Oh! ENEQUERIDOS ...a blogoesfera é um suminho de coincidências!


quarta-feira, 29 de setembro de 2004

eu queria...

eu queria ter malmequeres a rodar na cabeça
uma carrada de malmequeres a dançar
nunca mais a cabeça zunir de contradições,
de sonhares desfeitos
de pesadelos acordada
nada mais que o zum zum dos malmequeres
rodando...


...com calma

nas palmas das mãos pétalas
rosadas pétalas de rosas
esvoaçantes
nos cabelos odores de pinhais
circundantes
carumas calcadas de pés nús
deslizantes
águas de um rio
escorrentes
meus olhos num arrepio
sosssegados

olhando-te neste fim de estio!
.....................................................................
o Almaro não deve ficar zangado ...este comentário dele, ali no outro post, tem tanto a ver com o que aqui, agora escevi!...

Tenho andado a sonhar…… com um mundo de acordares onde tudo é descoberta. Onde cada um desenha a sua própria ideia. Sem papagaios. Que cada um não repita o que ouve, o que vê. Mas que crie. Um mundo onde ninguém deixe que os jornais, as televisões, os fazedores de opiniões, nos retire o gosto de olharmos tudo, com o nosso ver. Um mundo sem espelhos, onde cada um não precise de se rever. Que sinta uma única necessidade. SER!


terça-feira, 28 de setembro de 2004

Tenho andado a sonhar...

...a sonhar a sonhar não é bem...têm sido assim uma espécie de pesadelos, nem sequer é bem isso... é como se estivesse acordada, mas numa realidade de outra dimensão em que passado e presente se misturam e onde reina uma grande bagunça e confusão! Eu nem percebo bem e tento contar mas as imagens soltam-se em pedacinhos...podia ser assim: as figuras e as frases apareciam e desapareciam tipo flasshes... esquisito...nunca me tinha acontecido ...nem em sonhos...

eram coisas que apareciam e desapareciam dos computadores lá pela madrugada

é pá a lista estava lá e agora já não está?!

era uma entidade estranha ...lista feita à mão... que me aparecia assim...

mais ou menos isto...uma confusão!!!

e eram imagens estranhas

com vozes ainda mais esquisitas

Aqui tem as listinhas!
se me tivessem dito há mais tempo...
escusava ter armado esta confusão ...
eu trabalho bem é à mão


...acordei?! ou ainda estou sonhando?!


segunda-feira, 27 de setembro de 2004

Repensando mesmo!

COMPAIXÃO ... é o que sinto!
Foi o meu pai nos seus sábios 86 anos... vendo-me perdida no meu mas... eu choro por todos eles! ninguém compreende isto?! eu não tenho pena, nem ódio, nem raiva deles! o que sinto...
na sua atenção que nem sempre percebemos tão atenta, murmurou “Compaixão, filha! o que eles merecem é compaixão” e eu serenei.

Mas outras crianças noutras andanças me fizeram reflectir este fim de semana. A leitura do artigo O CÉREBRO INFANTIL ESTÁ A MUDAR? relacionei-o com o tema sobre a escrita que foi levantado e podem ler num post com o título ALI ÀS VOLTAS e nos respectivos comentários.
Foi um fim de semana de reflexão inacabada, mas serenada.

Muita coisa anda, sim, a mudar e nesta conturbação eu sinto que é aos sinais que devemos estar atentos, buscar neles, buscá-los.
E sobretudo Amar (Incondicionalmente) como apela o Quim um amigo de longa data nestas andanças dos blogs.

(A quem acompanhou parte deste meu ir estando pela noite dentro, peço mais uma vez perdão e deixo o meu obrigada.)

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Pó de estrelas?!...

Aqui me encontro pasmada, com todo o meu eu chorando e nem me entendo o foco deste sentir. É algo que vem de muito lá do fundo de mim e lá de muito de toda a parte deste mundo. É como um sufoco, como se este ar quente estivesse carregado de imperceptíveis tristezas, dores, dislates de consciências, loucuras, insanidades, pobrezas...tantas pobrezas! Tanta pobreza! Este silêncio ensurdecedor que se solta dos noticiários e se escorre da tinta dos jornais . Estas caras que não olham, estes olhos sem vista, estes olhos (tantos pares de olhos) taipados , velados de um algo que não sei explicar, mas que me aumenta esta forma estranha de sentir que sendo tristeza é muito mais e muito diferente de estar triste. É também diferente de raiva, de revolta, de ódio que não sei nunca o senti - qualquer deles é impulso, é forte, é dirigido. Este sentir que sinto é estranho porque, redigo, não tem alvo nem nome lhe sei dar...apenas o mais próximo... esse de tristeza. Que mundo que gente que instituições que governos que éticas que religiões que morais que sentires que desejos que vontades que relações...meu deus que mundo é este? Que se passa? Que sinto eu atravessar-me cada partícula? Onde me encontro? Como me encontro que este estado de sentir me não permite julgar, colocar-me de um dos lados? Vejo a mãe o pai a criança o torturado o torturador o soldado o civil o bombista o drogado o pedinte a prostituta o violado o violador o ladrão o assaltado e...esta tristeza mescla-se com todos eles. Vejo a mãe do soldado morto e a mãe do que o matou e oiço e sinto-lhes um mesmo choro uma dor igual. A mãe que assassinou o pai que teima em não dizer do paradeiro da filha...vejo-lhes os olhos vácuos desbrilhados ... taipados...deus parecem-me robots e não lhes tenho raiva nem ódio nem mais que este sentir de uma tristeza que outro nome lhe não sei, já disse, dar. E vejo as gentes reagir, enraivecer, querer linchar e neles também olhos brilhando tanto que se me mostram, eles também, taipados. Parece que o ar se esvaziou de alguma substância essencial e cada um respira arfando uma matéria imprópria para humano ser. Que seres são estes? Que somos nós? Que mundo é este? Que mudanças se estão operando...ou não estão?!


(parei aqui porque me apelaram vozes, encantadoras vozes de gente que se busca, se quer crescer e sente as dores que isso dá e sente medo e anda de alma solta neste mar de almas presas, buscando-se; com elas, as vozes deles, me quedei horas que nem senti passando; e, sem que lhes visse, os olhos sei que estavam destaipados, brilhando apesar das dores, apesar das buscas que se estão, cada um, fazendo. Nessas vozes que me buscaram por um daqueles acasos que a vida nos coloca a cada instante e a gente tantas vezes desapercebe, nelas, minha tal acima descrita, mal percebida e portanto mal descrita, tristeza, se espaireceu...um pouco...)


Escrevi isto ontem à noitinha e o entre parêntesis agora. E estou lembrando o que li no sefaxavor....é assim que acho que estive naquela tristeza que não consegui explicar e depois na conversa linda com dois seres que amo muito...bombardeada e embebida num pó de estrelas!

quarta-feira, 22 de setembro de 2004

Devagarinho no Outono


Acaba-se imperceptivelmente o fulgor do Verão
Vai-nos caindo sobre...
esta lassidão de Outono.
A luz já não é bem luz
mas uma pasta que se mistura com a Terra.
Dela se ergue uma bruma da sua cor,
diluída, esparsa.
O cheiro entra-nos na pele
absorve-nos
dispensa as narinas.
é acre
intenso
quase agressivo.
As estrelas baixaram no céu
teimosamente entre nós.
Ensombra-nos uma ténue cortina-
futuras nuvens
ainda medrosas de o serem.
O céu já não é a donzela
desconhecedora de vergonhas
descuidando-se brilhante no seu virginal fulgor.
É, agora, pudica menina
tentando encobrir a nudez
em indiscreta cortina translúcida.

Se Paz houvesse, ela seria proclamada em cada início de Outono!

(As fêmeas deveriam sempre aleitar nesta estação.
Então, os vagidos das crias sequiosas ou o ronronar da saciedade, soariam abafados docemente na penumbra, de manhã a manhã, como uma almofada de lã fofa e transparente e as crias, rolando dos leitos, vagueariam nesta maciez onde a gravidade quase se anula.)

Se houvesse Paz... seria sempre no começar do Outono!


(de um manuscrito anterior a 1997)

segunda-feira, 20 de setembro de 2004

em jeito de...crónica

Ai deuses e todos os demais que possa para aqui congregar!
Oh! Forças do Universo!
poderosas forças que trazeis de vós o irreal para as entranhas do real !
Oh! inomináveis contadores de vós que presenteais ao insondável
energias transmitidas e reconvertidas
Partículas e ondas
numa realidade que se ousou poisar, incontrolada,
num local abeirado de águas numa noite aquentada de sóis
escondidos, já, nessa rotação dos astros, pela vossa mão,
no ventre das vossas inenarráveis estruturas!
Oh! Deuses, demónios, anjos, vulcões, luas,
quarks e esse sem fim de pedacinhos que fazem
de cada um um todo e do todo cada um!
Oh! aflita alma minha rodopiando nesta infinitude
que de sentires se entrelaçam
sem que saiba se de mim para eles
ou num outro qualquer direccionamento
e se, sequer, sentires lhe chame
tal a confusa demanda do que entendia virtual
que por, ouvindo, semelhar a virtude,
tão doce se me encanta seu existir num nada,
se me deu em desfazer em SER!
Enlouquecida!
Devaneante!
Errónea!
Incorpórea!
Neste estado os invoco
....shut!!!!!!!!!!
eles estão vindo...devagar...doces...
Sinto-os por entre as paredes, o tecto, o soalho...
Sentaram-se...estiram mesclas que semelho a pernas, braços...
mas serão, antes alguma outra entidade que desceu com eles
Aquietam-se em meu derredor
Estão aqui
Envolvem-me
Aquietei também
Respiro como um ser real
Apalpo-me....
sinto as estrias, os poros, os pelos
Eu estou aqui e.... maravilha!
estou sentindo que sinto!
Agora, talvez possa pensar o que terá acontecido
naquele local abeirado de águas numa noite aquentada de sóis já escondidos ....
Talvez!...
Antes, preciso estar mais um pouco com estas entidades aqui convocadas!
Olho-as!!
sossegadamente, se estão a preparar para entardecer comigo!
Depois...
Depois eu contarei ....
Agora, eles estão segredando
Shut!!!! quero ouvir!
Dizem .....que foram as sensações cruzadas
nesse local,sempre à beira rio mesmo quando já um outro dia se amanhecia,
foram essas doses intensas, concentradas, fortes,
que me fizeram assim os congregar...
Dizem-me que assossegue
Que olhar o real pelas portas da alma é tão desusado ao humano ser
Que (dizem-me eles, aqui, juro!)
Pode transmutar-se o ser em eles...num deles...
Que me aquiete
Que veja as fotos lindas
Que recorde cada sorriso
Que sinta cada abraço
Que oiça os rumores do linguajar doce e o rir suave ou garagalhado
Que recorde as histórias contadas em surdina
Que sinta a lágrima que não correu enquanto sorria
Que oiça o poema e reveja o piscar à luz dos flashs
adocicados por detrás de alguém que fotografando beijava
Que acaricie aquele sorriso sentado frente a mim
Que não pretenda contar o que já só é porque está aqui
guardado, mas planando no espaço,
e a que o humano ser português, ou nele se expressando,
designa docemente de AMIZADE!

sexta-feira, 17 de setembro de 2004

o não post

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tudo que escrevesse
agora...era mentira
escrevesse eu sobre o que fosse
e sairia borrada
assim, decidi não escrever
deixar este espaço em branco
aparecer um quadro de cores misturadas
um arco Íris em dupla refracção
uma folha de papel sem um borrão
nem um bom dia
nem uma saudação
nada de nada
hoje, tudo seria isso:
uma falsidade
ou um nada
fico por este
e assim me vou alumiar no sonho

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein