Era costume escrever mais tarde.
Pela madrugada quando tudo dorme.
Naquela manhã alonjara-se da hora de fazer os fazeres de ninguém. Outrora houvera a casa e havia a escola e a havia o reboliço dos risos e os choros e os ralhos. Havia os horários e os cortes dos vestidos, as bainhas ...os pontos. Os deveres da escola. A vela. Os acampares.Outrora fora há tanto e parecia agora. Ou seria ao invés?! outrora fora há pouco e parecia há tanto?! Deixá-lo! O tempo passando. Eles foram vivendo. As casas desandaram. Cartas já não havia. Hoje, apenas ela, normalmente, diferente de hoje, pela noite adentro, escrevia.
Estava, notava enquanto remorava/revivia/percebia, sempre, sempre de ouvido atento. Não não era ao cão, nem ao ruído na porta (ele vinha vinha sempre não se surpreendia) . Este ouvido atento que se lhe apercebeu sempre de ouvido à escuta, sempre de ouvir esperando, era de outro ouvir. Era, o apercebia, como outrora o bater, repenico trinado, conhecido, a tempo. Mas, estava na hora, precisava escrever. Não que fosse costume fazê-lo àquela hora assim, depois de nada, ainda o sol pinando o de cima do monte e uma luz suave mas ainda bem forte, azulejando o chão lavado. Estava ali sentada meio de esguelha. Apenas metade da coxa no tampo da cadeira. Outrora havia sempre a voz a dizer-lhe que se sentasse bem. Outrora. Agora nem sentia. Estava assim sentada ao acaso. Sequer era porque apetecia. Calhava. Debruçou o corpo no castanho da mesa. Ficou. Os olhos entreviam para o delá do écran. Os ícones de apagar, abrir, refazer a letra em muitas tantas letras que nunca era a sua. As caras sorridentes que pusera no dito de Ambiente. Via para lá. Não estava nada ali. O corpo descaiu um pedacinho mais. A cabeça poisou no dobrado do braço. Ouviu um estalido. Não. Não era aquele o tal que sempre estava à espera que soasse ao ouvido. Desapercebeu-se deste. Nem sequer o ouviu. No écran giraram alguns ícones. As horas de escrever não eram mesmo aquelas. Outrora sabia ela quando. Mas ali não estava atempando. Bem bastava o relógio fazendo tic tic. Tempo apenas o medido. Aligeirou a manga que apertara o pulso. Um gesto tão sem gente como se fora outrem que assim a colocasse. Ainda mais, assim, num quase tudo nada de descuido.A roda desandando. Destempada.(Des) sentia tudo/não sentia nada. Apenas num delá de outroras lhe mergulhara o tempo e esse era agora ela ali sentada, debruçada no tampo de cima do teclado espelhando o monitor. A cabeça parada no de dentro, no delá do que se podia ver. Um cabeça inclinada sobre um braço rosado, afagado de leve por cabelo inda farto e apenas, só apenas, levemento branco.
- Adormeceste?
Ouviu.
–Não! Estava a tentar escrever, mas... esta não é a minha hora.
E sorriu.
Ele vinha sempre voltava sempre. Nem se apercebia.
O telefone soou (ou era o telemóvel?!).
Clicou. (clicar era termo que gramaticara ali e no de escrever que num tempo de dar lhe ofertaram e ela se impusera que a mão entorpecia na escrita habituada e gostada de caligrafia).
-Está?!... Tá?!... Viva! Olá!!! (.....) sim...diz......
(Era a filha! )
25 comentários:
Agora vou jantar, depois vou ler este texto com muita atenção e deixar o meu comentário. Este foi só para ser o primeiro, mummy... rsrs.
Agora li e que é que eu posso dizer? Que me divirto a ler-te?Que fico com aquele riso a que já não chamo estúpido porque já o compreeendo? Que no alonjar dos destempos há neologismos que soam bem? E que se compreendem? E que provavelmente seriam necessárias frases muito maiores para transmitir uma mesma ideia, não fossem estes neologismos? Aquele outro tempo, o do real que o italico realça e este novo tempo o do imaginário baseado no outro. Porque na realidade o relógio não faz tic-tac, é mesmo tic-tic. E antes que me ponha para aqui a divagar, despeço-me. Mas talvez volte.
Meu Deus, ler-te é sempre uma benção dos Deuses:) Os olhos não despegam do écran e é uma prosa tão po´etica o que vejo e sinto;) bjs. wind
A tua prosa prende-me cada vez mais. O alternar entre o presente e passado (flashback) está soberbamente bem feito. Gostei muito. Beijinhos.
Li-te, reli-te e comentei-te, mas não sei o que dizer, pq a esta hora, já n penso!
http://sunshine.blogs.sapo.pt/
http://pequenitos.blogs.sapo.pt/
Oi Sei la, bom dia...Obrigada pelas visitas!! Fica com Deus...Um ótimo final de semana!! Bjuss
Quase um anjo
É verdade, lê-se perfeitamente. Em inglès deve resultar ainda melhor.
Aqui estou outra vez para em "comnetário sério" dizer-te que mais uma vez adorei este texto!! E mais uma vez acho que não tenho palavras para achar coisa nenhuma.. :)...
PS: Os meninos comportem-se qunado estão de visita ao bolg de terceiros...LOL ** Bom fim de semana!
Mais um texto em que (re)inventas palavras, alternas o tempo da narrativa e nos prendes do princípio ao fim. Por onde andou escondida a inspiração que escreveu estes textos? Estou a conhecer-te de novo e a gostar cada vez mais. Beijinhos
Texto interessante... Tem um ritmo tão próprio, tão conseguido que... agarrou-me assim pela mão nas primeiras palavras e só me largou mesmo no final. Gostei.
... e eu só cá vinha porque li o comentário no “A Verdade da Mentira” (Blogues- porquê?, para quê?) e, quando chegou aquela parte da cozinha e da roupa, desatei-me a rir... É que eu nem tenho nenhum blog (o meu marido, o Vitor, é que tem) e quantas vezes não deixo a cozinha toda por arrumar e mais não sei quantas coisas por fazer porque me perco por aqui, em leituras na blogosfera. Portanto, ó amiga Seilá, isto é mesmo viciante.
Um abraço, gostei de te ler
Ana (http://a_verdade_da_mentira.weblog.com.pt/)
Lamento ter constatado, através de comentários deixados noutros blogs, que estás engripada. É habitual nestas ocasiões desejar as melhoras e deixar uma receita que possa ajudar a debelar o problema. Pois desejo-te rápidas melhoras e receito-te, talvez dois bagaços.
Gosto deste jogo de palavras cadenciadas! Gosto, pronto!
Já não é a primeira vez que aqui venho espreitar em silêncio que agora senti necessidade de quebrar!Beijo
http://devaneio.blogs.sapo.pt/
Lindo como sempre! De um visualismo tão rico que nos faz estar "lá" no texto! Gostei mesmo. Um abraço de nós duas...
Este texto tem música. Aprendeste a escrever assim ou sai naturalmente?
Bjinhos. Boa semana de trabalho.
{ ... continuo nestas palavras sempre aprisionado. pontos e nos, visão anunciada, utopia desfolhada… fugir tento, mas não posso. fico, leio e gosto, continuo © pipetobacco ... }
(de willnow) era costume termos tempo para conviver, e ler, e escrever e também viver e também para o costume de.
...pois. Quase me apetecia dizer , escrever, pois e com isto digo tudo, mas tudo pode ser muito pouca coisa, não? e depois começavas a imaginar coisa, tais como o gajo nem lê o que escrevo e limita-se a pôr para aqui umas palavras mal alinhavadas que habitualmente nem têm nada a ver com o texto que escrevi, ele pensa que não o topo e por aí adiante. Só que eu não sou desses , qué que julgas? leio-te de fio a pavio e muitas das vezes releio mais duas vezes porque a minha cabeça já não é o que era que os anos vão pesando e para me lembrar das coisas é um castigo...podes ficar descansada nesse ponto que eu sou muito certinho e se digo que li é porque li mesmo, percebes?! nem te admito que te passe pela cabeça o contrário! A propósito: o que é que escreveste mesmo???
Gostei. Fica bem, beijos e intés!!
Olá. Os momentos passados revivo-os novamente. (Deves saber). Que posso dizer? Simplesmente que li,reli e vou voltar a ler. Cada dia fico mais surpeendida... Beijinho
Vim cá ler o teu novo artigo. Como não há novo artigo, voltei a ler este. :) Beijinhos!
http://sunshine.blogs.sapo.pt/
http://pequenitos.blogs.sapo.pt/
tens uma forma tão própria de escrever que me deixas sempre assim aqui coladita a ler tudo (e tudo e tudo).
Cá pra mim isso só pode ser obra dos deuses!
Não há momentos para se escrever... agora, depois, amanhã, ontem... qualquer altura serve!
Agora às voltas com o "That old devil called love", não é verdade? Vê se deixas uma batata quente para o que vier a seguir (espero não ser eu, ainda), eheheh!! Força.
Calma! eu apaguei, sim! o Tim...tava dobrado, quer-se dizer: duplicado...tá Tim?! pois o raio do Devil, sim...deixa pra lá alguma coisita se há-de arranjar...
fui eu! bolas e eu COM TANTO para fazer e práqui a desblogar :)
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