sábado, 11 de maio de 2013

co-autorias

Acabadinhos de sair da gráfica 
olha-os na estante do Eduardo 
o Lunardelli do Varal


olha a pinta deles 


mas não me fico por aqui nisto de co-autorias
irão estar três pecados meus, a saber: ira, preguiça e luxúria, 
com quem travei conhecimento lá pelo FaceBook
a capa poderá ser esta

deixo um cheirinho de um dos meus contos, um dos meus pecados

Ana Lúcia tem que confessar que está curiosa. Que a mana explique o que lhe quer naquela sala a cheirar a mofo, e lá fora um sol de primavera. E volta a sentar-se, ela que sempre foi a mais extrovertida e a mais viajada. Morreria virgem, mas isso eram manias que nem vinham ao caso. E volta a cruzar a perna direita sobre a perna esquerda. Modos de ter sido habituada a estar sentada muito tempo em estiradores altos. Desenho de arquitecto uma vida inteira. E num descuido de estar mal enfiada, cai-lhe no chão a chinela do seu pé direito. Fica uma mancha vermelha a brilhar, indiscreta, no encerado do chão de madeira, na saleta da irmã Henriqueta, sua irmã mais velha, que nem lhe dá tempo de tornar a calçá-la. Henriqueta pontapeie aquele objecto numa cor que ela disse, há nada, achar inadequado que Ana Lúcia use. Um gesto tão feio quanto inesperado. Uma raiva inusitada que Henriqueta solta sobre a chinelinha da irmã mais nova. Assim o sente Ana Lúcia e não se engana, a olhar a chinela que fica tombada junto à ombreira da porta, o corredor em fundo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

ser que somos





  
ainda que te pegue pela mão

mesmo que adormeça contigo

mesmo que te prepare a cada dia as refeições

mesmo no que se chame e seja intimidade

ainda assim apenas parece



ainda que te abrace e beije

ainda que te pegue pela mão e te leve 

calcorreie contigo

montanhas rios mares e desertos

ainda assim não te conheço



não conhecemos nunca o outro

nunca sabemos ao certo

e no entanto

de vez em quando

é muito semelhante



podem rodar em ventos fortes os moinhos

bramar os mares em ondulações

revirar-se a Terra em magmas ardentes

o firmamento inteiro evoluir para nem sei onde

ser um tempo imenso ou um instante



pode dar-se o mais que se conceba até em sonho

pode dar-se tanto

e a gente

uns dos outros 

desconhecidos no que de facto somos



e o amor

o amor que faz milagres

sela com lacre timbrado a ouro
este sermos assim tão só de todos



ser solitário e único

é disto que te falo quando te chamo o nome






terça-feira, 23 de abril de 2013

dia mundial do texto escrito




   Escrevia assim lá no Face Book, essa plataforma de social coscuvilhice e muita outra coisa igualmente merecedora de que a gente lá espreite.
   Foi a propósito de ser hoje o Dia Mundial do Livro, e dizia eu que quando me perguntam de que livro mais gostei, eu engasgo: sei eu lá...
   Um deles é, sem sombra de dúvida, uma obra do Gabriel Garcia Marquez. Um texto de pouquinhas páginas que é literatura da maior. Chamaram-lhe Crónica de uma morte anunciada e é disso que se trata.
   Encontrei essa obra em formato PDF e daí decorreu o meu texto lá no FB. 
   Eu a dizer que livro, livro como a gente recorda, as folhas que precisavam ser despegadas e a cheirar a tinta, e a vir de uma casa onde o tinham composto com tipos, esse livro que cheirava já não existe a não ser nas bibliotecas e arquivos onde se guardam livros de outras vidas. 
   Celebrar o livro, hoje, é, quanto a mim, celebrar a leitura e celebrar a escrita seja qual seja o suporte, e disso que tenha achado curioso que o livro que eu diria ser o meu livro da vida, estivesse ali em  e-book, em formato PDF. 
   Um livro digital como convém nos dias em que se iniciam leitores em tabletes e outros que nunca lhes vi o modo senão nas lojas onde se comercializam e, alguns, ainda poucos, nas mãos de quem se delicia com um livro sem areia entre as páginas, sem folhas a precisarem de uma marca que diga: é de aqui em diante...Terão outro escolhos, não duvido.
   E lá no FB onde escrevi assim, mais ou menos, desejei que os meus netos lessem muito e também os netos deles, fosse  em que formato fosse inscrito o texto, que LIVRO, LIVRO mesmo, é o que está lá dentro.

e leiam:
Gabriel Garcia Marquez Cronica de uma Morte Anunciada pdf




Found at ebookbrowse.com


sábado, 13 de abril de 2013

dia internacional do beijo?!

escrevi este texto faz já uns belos anos


ando numa fase de revivalismo...
 ou será mais de preguiça...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

nono de vários

                                           






                                              e éramos uma turbe
                           depois de sermos apenas eu e tu
                           éramos imensos 
                                              
                                              mas isso foi num outro mundo
                                              muito longe
                                              muito antes


                   muito antes
                   muito antes 
                    

sábado, 30 de março de 2013

mãos na massa




 
Dizem-me que dicotomizo, que separo, que olho sempre em dois modos. 
E que não devo. 
Mas como faço, deuses, se o cheiro, o tom da voz, o jeito inteiro, é de molde a que eu veja tão diverso, tão um e outro, e disso nem me importe. 
Se bem que eu sei que temos ambos um pouco de cada um. 
E no entanto…
Para levedá-la, para que cresça a massa, de onde as orações? De onde a prece para que levede? 
Quem ora para que "calhe bem"?

Ancestralidades que são modos, terão feito esses meus olhares.


Uma cruz por cima da massa que ainda nem enche o alguidar. E também uma cruz na própria massa, desenhada com a mão em cutelo. 
Elas desenhando, deixando na massa a cruz onde Ele morreu. 
E que levede. 
Que o que aqui deixo desapareça e nisso mostre que cresceu. 
Ou enterram o dedo cinco vezes que é esse o número das chagas de Cristo. 
E  rezam. 
Assim ou de modo semelhante:

São Vicente te acrescente,
São Vicente te alevede,
Em louvor da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.

E cobrem com mantas. Ou colocam farelo sobre um pano fino para que o azedo se faça quentinho e ajude a crescer. Ou de algum outro modo mantêm aquecida a massa levedando. 
E vão meter a mão em outras massas, outros afazeres.
Fica a massa ali o tempo necessário para que se cresça. Para que se dê cumprimento ao pedido que enviaram na reza:

São Vicente te acrescente,
São Mamede te levede,
Nossa Senhora da Ribeira
Te faça tão lindo e formoso
Como a flor da macieira, ou da amendoeira.

Ou de outra maneira terão elas orado sobre a massa acabada de amassar:

Deus te levede e torne a levedar,
Para comermos e para dar.

E mais um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. E  enunciam outros santos:

São João te faça bom pão
E São Mamede te levede
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai Nosso e uma Ave-Maria

E dizer que era para ela e era para os seus:

Deus te acrescente
Para mim e para toda a minha gente


Há olhares diferentes, sim, modos de sentir, modos de fazer também. Há um olhar característico do ser feminino, eu estou convencida disso. Nada a fazer.

   



sexta-feira, 22 de março de 2013

Canto Chão


eu a querer comemorar  a Primavera
deixar aqui registo
abro o blogger e dou com este hino ao bom gosto
este hino à mulher, 
à vida
poesia em cada linha
em cada foto

Canto Chão de Gabriela Rocha Martins


duy huynh


e isto é Primavera 
e isto é renascer 

duy huynh

quarta-feira, 20 de março de 2013

dia dos contadores de histórias



hoje, é também dia da felicidade, 
e eu entendo que há momentos na vida em que a gente é feliz, 
apenas momentos que, como onda, 
se espraiam pela praia da vida que vamos vivendo,
 até outra onda, outro momento


terça-feira, 19 de março de 2013

sem
























A gente busca o que seria pele
seria afago,
e em troca é apenas isto:
o ar que respiramos a ocupar tudo.

Ter sido para sempre
e nunca termos dito
nunca ter sido como desejamos
um e outro.

A gente tateia e é só infinito
e nem um espaço que tivesse ficado
vácuo de teres aí existido.






sábado, 16 de março de 2013

decepadas






Cortaram um pedaço de Primavera na cidade de Lagos.
O bairro 30 de Junho no Chinicato ficou mais pobre. 
Ficou mais pobre a nossa cidade.

Cortaram árvores assim como mostra a foto. 
Será isto poda?!  
Será esta a época indicada?! 




O que eu vejo são árvores decepadas.
E os jacarandás iriam florir já no mês que entra ou muito próximo...
E nem foram os serviços camarários, e nem foram técnicos de flora ou agentes sanitários a decretar: 
corte-se, não se deixe um só ramo, faça-se de cada árvore apenas tronco.
Não faria isso quem soubesse, quero acreditar! 
A decisão veio da direcção da cooperativa, veio de quem aqui vive, o que me espanta e dói ainda mais.
Decisão que resulta no espectáculo que as fotos nem conseguem documentar, que não se documenta numa fotografia o que se sente a olhar aquelas pobres árvores  reduzidas a troncos mutilados, impedidas de florir, quem sabe se apenas neste ano, aquelas árvores já com tanta idade... 
Erguidos aos céus estes pobres cotos
que nem ramos sequer e suas folhas a encher de sombra os dias de Estio neste bairro. 

Não é isto incúria?! 
Será zelo?

Se é zelo, 
se acções destas têm defesa, e sou eu que incorro em erro, andarei  então num mundo que não é o meu...

Eu que temo se morrerão algumas, senão todas estas árvores...
e se viverei para as ver de novo frondosas...
e se poderão os meus netos passear um dia na sua sombra...

Às gentes que assim decidiram 
e aos demais que terão ficado contentes
 e aos que porventura até o desejaram 
(sei lá eu que imperativos terão movido um tal corte) 
a todos desejo que o sono lhes seja levezinho,
 que se é crise o que por aí se clama, 
é de zelos semelhantes que eu mais temo.





Resta-me crer que os troncos que ali ficaram rebentem em ramos novos. 
Que sejam de novo árvores frondosas e acolhedoras.
Que floresçam. 
Que as deixem crescer como merecem,
assim imploro aos deuses. 
Aos deles 
que eu, pobre de mim, não tenho deuses.




fotos de Maria de Fátima

quinta-feira, 14 de março de 2013

os papas da minha vida...



Pio XII    
39 a 58
 
    


58 a 63
 

 
63 a 78
 
       


Ag a Set de 78 



78 a 2005

                    


2005 a 2013



 

               Francisco I   13 de  Março de 2013   
 
           

terça-feira, 12 de março de 2013

ao meu menino




hoje que é dia doze do terceiro mês
podia contar-te
dizer do quanto foi um dia bonito aquele
em que vieste, por milagre dos deuses,
que só pode ser por milagre que se nasce…

vieste a este mundo e disso te agradeço,
de seres meu filho e seres um ser tão belo

eram tempos de pão e tempos de canções
tempo de esperança
tempos de certeza em porvires risonhos

que me perdoes se não soube deixar-te,
pedra sobre pedra e alicerces fundos,
o mundo que cantavam os hinos
com que te embalei
menino















poema adaptado de um outro de Março de 2007

sexta-feira, 8 de março de 2013

do mesmo rio



El Beso de Gericault

                   
                  o rosto e o seio
e o púbis exposto
e os joelhos 
e os dedos grandes de cada um dos pés

e as mãos

as mãos que escavam fétidos interiores 
que arrancam troncos em busca da raiz 
que só nela o gosto
que retiram do ventre o ser nascente
ajuda de fémea
seu consolo

e o umbigo

delicado enfeite do corpo
resto de ter sido sémen
e ter sido mórula 
e ter sido zigoto 
ter sido embrião e alimento



a lágrima e o riso juntos
ambos
macho e fêmea
águas do mesmo rio 
assim nos somos 
e queremos
um no outro

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

a matança


Fomos expressamente para "a matança". Celebrar a fartura em volta da morte (e sofrimento?!) do animal.

E no entretanto de já nada ser como era dantes, há o convívio e o trabalho que, sabe-se lá por que magia, só cansa quando paramos...
E, sejamos honestos, fica o sabor que tudo aquilo tem...
Uma carne tão saborosa! - e lambemos os beiços e os dedos depois daqueles picos de cachaço grelhados ali mesmo, o animal ainda quente...
Criatura alimentada a bolota! - pudera que seja a carne assim gostosa...
Porco preto, ali do Baixo Alentejo! - sentenciam os da casa.

E é a surraburra : o sangue cozinhado e derramado sobre pão migado em fatias, e a cortar o travo forte do sangue ainda tão sangue, ou será outro o motivo, o certo é que liga divinamente a  laranja às rodelas que vem sobre-nadando a tigela onde o manjar é servido.
E os torresmos: em cima de uma fatia de pão, os picos de toucinho que ficaram da banha, "crocantes" como se usa dizer agora aos cozinheiros gourmet...
E a couve do jantar do dia mesmo que o bicho morreu: não há adjectivos para dizer do legume fresquíssimo besuntado do toucinho ainda a saber a vivo.
Usos ali numa aldeia da raia, com o Rosal de La Fronteira a meia dúzia de quilómetros...
Pela manhãzinha tinha sido a azáfama de limpar o coiro de pelos e dejectos, e os  homens petiscando e bebendo a desmanchar a carnes.


E aquela técnica de picar... Bocadinhos que irão encher a tripa para fazer as linguiças. 
Mas isso será depois de a carne ter tomado condimento forte por dois dias ou mais.





E há que colocar na salga a carne para o  presunto, e nela a dose certa de pimenta junto ao osso para que não entre o mal, não apodreça, não lhe dê a mosca varejeira... 

Uma festa estes dias de matança e nem se pensa mais que aquele monte de iguarias é resultado do animal que os homens mataram...
Alimento para todo o ano, e nem míngua,  antes dobrará, o que é dado a quem vem dar uma mão ou o que é enviado àquele que não pôde vir nem para a couve do jantar, nem no dia seguinte, nem mesmo para ajudar nos enchidos...
Há sempre um naco a assinalar no prato dessa gente a matança que decorreu.
E que Deus abençoe casa tão farta e lhe acrescente!
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

história que não conto


publicada inicialmente em Notícias do Gil

Podia contar uma história passada no recreio, ou na sala de aula, ou de como tinha sido a prova oral daquele exame.
Podia também contar de namoros.
 Ou contar das partidas que fazíamos: sempre às escondidas, sempre longe de sermos vistos nem que fosse com um sorriso malandro pendurado nos olhos, que partida que engendrassemos era combinada no maior segredo, e a execução dava-se em sossego. Nada de atropelos como daquela vez.
Podia contar, mas não conto!
O que eu poderia contar nem teria interesse: coisinhas como ter feito aquela conta trinta e tantas vezes numa manhã inteira, que era o que durava a prova! e em cada vez que fazia aquela abençoada divisão por dois algarismos, dizer, convicta e sistemática: dois vezes dois, quatro, e vão dois! e nada batia certo, e tornava: dois vezes dois, quatro, e vão dois!
Não pode ter interesse este tipo de erro feito por uma menina com duas tranças louras que andava ainda na segunda classe, a bata muito branca, os dedos da mão direita borrados no sítio onde já criara calo do aparo! e todas as demais meninas a deixarem a sala, a prova terminada, e ela a ficar para trás, a engolir a humilhação de mistura com as lágrimas que só chorou em casa! e de novo:  dois vezes dois, quatro, e vão dois! e a voz da professora passando ao largo: então menina e essa conta nunca mais se acerta?!
A menina a fazer uma prova final em folha de papel almaço com margem dobrada pela quarta parte, e a caneta de aparo molhada em tinteiro de loiça enfiado no buraco.
Claro que histórias como esta não entusiasmam o leitor, ainda mais se ele nunca viu uma folha de trinta e cinco linhas em papel almaço ou um tinteiro de porcelana enfiado no buraco da carteira repleto até às bordas de tinta azul intenso.
E porque com este exemplo cuido ter argumento que chegue, vou daqui e não conto!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

oitavo de vários







esqueci-me de consultar o oráculo
esqueci-me de pagar as promessas
esqueci até qual era o caminho
vagueio
olha eu vagueando





olha eu
olha eu
olha eu












des. de Maria de Fátima


adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein