domingo, 10 de março de 2019

passos de palco


a gente pode enlouquecer de excesso
perder a razão por não saber o que fazer do que sobra
                                                                          e é tanto

do que fica por dizer depois de já ter dito
do que sobeja, aqui, e ali está faltando
do que escorre a pingar nas entrelinhas

séculos e mais séculos
gerações e outras gerações

tanta gente
tantos humores
tantos credos
tantas manhãs enevoadas e noites de lua cheia
tantos filhos e criados e namoros
e vestidos franzidos
e saias de riscas e casacos de quadrados
e cadelas cobertas por cães vadios
e gatas parindo
e a gente a gritar por socorro em caves escuras

tantos pesadelos mantidos em segredo
poços e guerras e camiões caídos
e gado
tanto gado morto
e vento
e tanto mar bramindo

a gente a seguir a linha do tempo
a gente a perceber esse ir passando de um a outro até ao mister de sermos, hoje, como nos vemos
apegados às coisas ou descuidados
tão loiros ou tão tisnados…
ou tão detestando alface…

podemos, sim, ensandecer de excesso
a qualquer instante,
em qualquer idade

como se a gente estivesse sempre a pisar um palco e cada tábua rangesse, muito baixo, a dardejar do que somos e é muito mais do que o passo que damos a querermos que seja elegante e leve…


sexta-feira, 1 de março de 2019

narcisos e outras flores


Chegamos hoje ao terceiro mês do ano.
Aí está a Primavera a anunciar-se em narcisos e outras flores e, ao menos por aqui, tem sido um inverno xoxo.
Não é de falta de frio que me queixo, mas uma chuva a sério tinha calhado.
Uma chuva que se visse. 
Um dia e outro e mais outro, as valetas escorrendo, as goteiras a pingarem que nem lágrimas de viúva e, nas vidraças das janelas, correrias de linhas de água a fazerem os sonhos das crianças: cobras transparentes, colares de alguma princesa...
- Rios de áfrica! - pensarias tu que lá estiveste
Uma chuva que caísse dias seguidos, mas que, no ent(ret)anto, lá pelo final de tarde, desse lugar a um sol doirando nuvens que fizessem tréguas, sossegadas da função de se abrirem em água.
Tardes de ter escampado. 
Haveríamos de aplicar o termo nesses dias de chuvada como era antigamente e, nas ruas, os guarda-chuva encalhariam uns nos outros: pedaços de pagodes chineses multicores deambulando, e os corpos agradecidos por não ficarem molhados até aos ossos.
Coisas que só acontecem em dias de invernos como deve.
Coisas que esquecemos com invernos defeituosos como está sendo este.
É que, não fosse o friozinho que se deu, e nem apreciaríamos a Primavera a rebentar em narcisos e mais flores...
E, ainda assim, foi um frio que se aconteceu quase só pelas noites que, pela hora do meio-dia, o sol fervia-nos no corpo, mesmo nos dias curtos, mesmo nos dias de raios de luz tão rasos que se diriam projectar-se na horizontal.
Já é hoje dia um de Março, o Carnaval por todo o lado, e nem um lamaçal. 
Nenhum pedaço de terreno onde enlamear umas botas ou onde as rodas do carro fizessem patinado.
Como hão-de crescer estas crianças sem saber o que é chegar a casa coberto de lama?!
O que é um inverno sem poder  dizer, o guarda-chuva na mão, dobrado, sem qualquer préstimo: acabei de apanhar uma casaca de água.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

a casa


A pobreza é como doença que trazemos no sangue, nunca sara.
Assim pensa e assim o diz, se julga oportuno, ela que nasceu naquela casa de tijolo em cima de tijolo e nem mais do que argamassa a juntá-los: bocados endurecidos a escorrerem no avermelhado, a mostrarem-se como se fosse arte; um desconjuntado sem reboco e, menos ainda, sem pintura.
A casa tinha uma janelinha que deitava sobre os dois pés de couve que havia no quadradinho ganho ao socalco e a que ela chamava, orgulhosa: o meu quintal.
Lá do alto, assomavam, indiscretas e altivas, as marquises dos números ímpares dos prédios que ladeavam a rua que tinham traçado os engenheiros da Câmara, depois de mandarem derrubar a casa da Matilde e a casa da Aldegundes e umas tantas outras que desciam, como a dela, pela ravina a semelhar que se estatelavam lá em baixo onde corria o rio.
Perigosamente, disseram as senhoras da Segurança Social numa das conversas a convencê-la a mudar-se, e ela que nem pensar sair dali.
Estava já só com a menina, os pais mortos, um e outro; e, sem deixar que sequer a adivinhassem, que isto nunca se sabe, dizia, de si para consigo, a olhar os prédios que subiam, desmesurados, céu adentro: nem morta, eu deixo o meu quintal para ir morar numa daqueles gaiolas.
Ela que nascera paupérrima naquela mesma casa onde a única janela mal alumiava a sala de fora.
Uma salinha de fora e o quartinho da menina - dizia a descrever a moradia como ufana lhe chamava.
E explicava, com um sorriso de dentes a precisarem de conserto, mas os da Caixa nunca mais se resolviam: eu durmo onde calha que marido nunca tive.
Nessa janelinha, pendurara uma cortina.
Um tecido fininho e liso num branco encardido que lavava muito de vez em quando; porque a água é uma carestia - dizia; e trazia da cisterna baldes a entornarem, a última chuva a dar para os gastos das casas que ainda resistiam ao realojamento, ribanceira abaixo, e o rio a deslizar sereno, até ao dia em que a chuva foi demais e foram de roldão as casas de tijolo em cima de tijolo e nem caiadas, e foram por ali abaixo os dois pés de couve e, disseram nos noticiários, foi uma sorte que tivessem ficado incólumes, escorados no muro de suporte, os prédios da rua de cima - as gaiolas, como ela lhes chamava.
O morro deslizou como papa em direcção ao rio, era o cabeçalho dum jornal que leu na mão de alguém, e ela mesma apareceu na televisão a explicar como se tinha salvo.
Contou-lhes que tinha decidido não esperar mais, e que, embora já chovesse a cântaros e fosse tão longe, tinha ido, a menina a seu lado num banco e outro de três autocarros. Tinha ido ver se lhe arranjavam os dentes como lhe tinham prometido na consulta da Caixa.
E, ainda com a câmara dirigida para ela e a repórter a sorrir-lhe, foi dizendo, com mais altivez do que lamento, o morro lamacento a servir-lhe de cenário: a pobreza é como doença que trazemos no sangue, nunca sara, sabe? mas na transmissão cortaram esse pedaço, viu ela, à noite, no Centro onde a alojaram, a ela e à menina: até lhe darem uma casa - tinham-lhe dito.
Uns meses passados, meses demasiados, foi a cerimónia de entrega da chave de uma casa num local onde se enovelam autovias, e nem quintal nem o rio rumorejando. Nem sequer uma marquise.
Apareceu sorrindo nos ecrãs do país inteiro, enquanto metia a chave na fechadura da sua casa nova. Sorrindo e a afirmar com a firmeza humilde que é, tinha já percebido, o tom dos que nada têm: a pobreza é como doença que trazemos no sangue, nunca sara. 



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

vermelhos de matisse


Sentava-se de cócoras.
Sentava-se e sentia o corpo todo. 
O corpo dela apoiado sobre o baixo-ventre: quente. Tão quente que era o seu corpo quando se sentava de cócoras a ver desfazer o bicho.
Lembra-se disso e lembra-se do cheiro que, esse, nunca o esqueceu. Que ela, a bem dizer, nem sequer o lembra, antes esse odor lhe está entranhado como coisa que lhe existe, coisa sua, como lhe é o nariz adunco e o cabelo muito liso da cor das barbas do milho.
Um odor estranho. 
Um cheiro que lhe surge, intenso e apenas seu.
- Sentes o cheiro? - deixou de perguntar aos que a rodeiam.
Aprendeu que só ela sente esse odor que lhe surge associado ao tom de vermelho, seja vestido, echarpe, sapato ou brincos, como aqueles que o pai lhe ofereceu no dia em que fez o exame.
Um odor intenso, nauseabundo e encharcante que lhe enche as narinas sempre que olha o sol a poisar no horizonte e a fez vomitar quando se picou na agulha na aula de lavoures.
Hoje, ainda almareia frente a uma obra de arte.
Um quadro com vermelhos, e vem-lhe aquele odor, misto de recordação carinhosa de uma infância dolente e o asco que sempre disfarçou a ver desfazer cabras de mato e coelhos e porcos. O sol vermelho de Miró nem tanto, mas agoniam-na alguns raros rubros de Vincent van Gogh e muito em particular as tonalidades que lhe confere Matisse na sua harmonia em vermelho.






segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

volta ao berço

está decidido
o FB não me serve
as redes sociais dão-me em stress
não tenho jeito (e nem pachorra) para ver, ouvir e ser delicada
engulo muita merda desnecessária
chega!!
vou lincar para lá o que me apetecer, mas faço daqui para lá e não o inverso
agora vão aqui ficar alguns dos textos que escrevi ultimamente e depois volto ao directo do blog



era o tempo em que o coração nos chegava aos lábios
e um espirro
uma tosse
um ah! de espanto
um pequeno grito 
e lá se nos ia o coração, voando
ficava-nos no peito o eco do seu palpitar
dia e noite esse tum tum tum sem jeito
e o coração da gente sabe-se lá por onde
era um tempo de desassossegos, esse
um tempo de paixões

Foi no dia 24 de há dez anos e eu dizia no post do convite colocado no meu Blog: um sonho dela feito nosso:T.C.Alves nas ilustrações, M. Correia nos textos; prefaciado pelo Jorge Castro
Ficam fotos do evento e a saudade
Abraços AmadeuMaria Helena e Jorge
Abraço ao Cristiano Cerol (mostras-lhe Ana? obrigada)



faz tempos, escrevi sobre a problemática dos meninos abandonados na Roda
sobre essas mulheres que lá os deixavam pela calada da noite, mães, amas, vizinhas...tantas...

outros tempos, outras misérias, outras ignorâncias

hoje que temos a pílula
anticoncepcionais vários
mulheres escolarizadas
segurança social
centros de saude com valências para mulheres grávidas
temos até uma lei de aborto...
hoje
os mesmos meninos indefesos
as mesmas mulheres...
que traves mestras falham ?
que ignorâncias?
que medos?
que desleixos?
que país é este onde aquelas irmãs esfaquearam à morte o ainda quase feto, onde acontece uma violência adentro portas que já matou quase uma dezena de mulheres neste primeiro mês de 2019 e pelo menos uma criança...
que perguntas deveria eu fazer e desconheço?!
que mulheres e que homens nos crescem lado a lado e não os vemos?
em que bancos de escola?
em que bairros?
em que consultórios (não) os ouvimos, (não) lhes falamos?
para que raio, então, evoluimos?
para que raio, então, fazemos abris e igrejas redentoras?
é pouco acreditar no Homem Novo...
olhei em volta e dei por mim a pensar que nunca irei gastar estes lápis de cor e nem os de grafite...
irão cá ficar depois de mim...
irão durar nas mãos, quiçá, de alguma bisneta que se chame Lurdes...
alguém lhe irá dizer, num incentivo: "a tua bisavó paterna desenhava"
que eu irei ter uma bisneta que seja menina, os deuses ir-me-ão bafejar com essa dávida e será loirinha e de olhos verdes... 
hão-de dizer-lhe: "até no feitio és tal e qual a tua bisavó, caramba!" e acrescentarão, espero, para que a menina não se entristeça: "mas lá no fundo, no fundo, era boa criatura"...
uma menina que será, quem o sabe, Mariana, e terá olhos castanhos e cabelos de azeviche...
também fará desenhos...
desenharão, uma e outra, com estes lápis que se multiplicam aqui de onde os olho...
verdes uns, outros laranja e variados em tons de azul
também os há castanhos
alguns rombos...
terão pertencido aos meus filhos, no tempo, ainda, em que era uso oferecerem-nos, pelo Natal ou pelos anos: meia dúzia de lápis de cor numa caixinha vistosa, e que contentes ficavam as crianças
depois, vieram as cassetes e os aipódes...
hoje, quem se lembra, quem se atreve, a ofertar lápis de cor...
com estes que dão o mote a semelhante relambório, escreverão, assim o desejo, uma Lurdes e uma Mariana..
talvez um Daniel que venha, depois, e seja primo delas...
será que era tudo muito mais simples se o planeta fosse plano
e vogasse, balouçando como berço, enquando o sol rodava em torno dele?!
é que, eu que fui educada segundo as leis copernicianas, temo que o sol um dia destes almareie e ande saltitando de uma excentricidade a outra...
é tal o meu desespero que me dou ao luxo de imaginar tudo
que eu não me habituo com este estar já a mais de meio do segundo mês do ano, e não ter ainda digerido, em condições, o bolo rei
posso-me lá habituar a este concomitar das festividades?!
é que ainda tenho o sabor na boca da fruta cristalizada, e já apanho, dia e noite, com propostas para o dia dos namorados, o Carnaval e as almejadas férias da Páscoa...
andará o nosso planetra a girar mais depressa do que é costume em torno do astro-rei?!
a girar loucamente sobre o seu eixo?!
ou será que esta sensação do tempo a correr que nem um danado é uma característica do envelhecimento a que terei que me ir habituando?!
terei eu que aceitar que isto de trinta dias, doze meses, uma década, foi chão que já deu uvas e que, de agora em diante, é tudo ao molhe: horas, meses, dias, anos...um minuto ou o famigerado cagagésimo, tudo de roldão sem grande preceito, sem nada a ver com os intervalos de tempo que eram o meu desespero: duravam e duravam e nunca mais chegava o verão ou o fim de semana...menos ainda as férias...
ou será que o raio do planeta entrou em concorrência com a restante populaça do universo que, dizem os entendidos, há muito anda numa corrida desenfreada para o vermelho?!
o meu receio, e nisso imploro a protecção dos deuses, é que eu um dia destes, na ânsia de me regular com este andar do tempo, me ponha a jeito e seja disparada na primeira tangente

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein