Dizem-me que dicotomizo, que separo, que
olho sempre em dois modos.
E que não devo.
Mas como faço, deuses, se o cheiro,
o tom da voz, o jeito inteiro, é de molde a que eu veja tão diverso, tão um e
outro, e disso nem me importe.
Se bem que eu sei que temos ambos um pouco
de cada um.
E no entanto…
Para levedá-la, para que cresça a massa,
de onde as orações? De onde a prece para que levede?
Quem ora para
que "calhe bem"?
Ancestralidades que são modos, terão feito
esses meus olhares.
Uma cruz por cima da massa que ainda nem
enche o alguidar. E também uma cruz na própria massa, desenhada com a mão em
cutelo.
Elas desenhando, deixando na massa a
cruz onde Ele morreu.
E que levede.
Que o que aqui deixo desapareça e nisso
mostre que cresceu.
Ou enterram o dedo cinco vezes que é esse
o número das chagas de Cristo.
E rezam.
Assim ou de modo semelhante:
São Vicente te acrescente,
São Vicente te alevede,
Em louvor da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
São Vicente te alevede,
Em louvor da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
E cobrem com mantas. Ou colocam farelo
sobre um pano fino para que o azedo se faça quentinho e ajude a crescer. Ou de
algum outro modo mantêm aquecida a massa levedando.
E vão meter a mão em outras massas, outros
afazeres.
Fica a massa ali o tempo necessário para
que se cresça. Para que se dê cumprimento ao pedido que enviaram na reza:
São Vicente te acrescente,
São Mamede te levede,
Nossa Senhora da Ribeira
Te faça tão lindo e formoso
Como a flor da macieira, ou da amendoeira.
Ou de outra maneira terão elas orado
sobre a massa acabada de amassar:
Deus te levede e torne a levedar,
Para comermos e para dar.
E mais um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. E enunciam outros santos:
São João te faça bom pão
E São Mamede te levede
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai Nosso e uma Ave-Maria
E São Mamede te levede
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai Nosso e uma Ave-Maria
E dizer que era para ela
e era para os seus:
Deus te acrescente
Para mim e para toda a minha gente
Para mim e para toda a minha gente
Há olhares diferentes, sim, modos de
sentir, modos de fazer também. Há um olhar característico do ser feminino, eu estou convencida disso. Nada a fazer.










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