terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

vermelhos de matisse


Sentava-se de cócoras.
Sentava-se e sentia o corpo todo. 
O corpo dela apoiado sobre o baixo-ventre: quente. Tão quente que era o seu corpo quando se sentava de cócoras a ver desfazer o bicho.
Lembra-se disso e lembra-se do cheiro que, esse, nunca o esqueceu. Que ela, a bem dizer, nem sequer o lembra, antes esse odor lhe está entranhado como coisa que lhe existe, coisa sua, como lhe é o nariz adunco e o cabelo muito liso da cor das barbas do milho.
Um odor estranho. 
Um cheiro que lhe surge, intenso e apenas seu.
- Sentes o cheiro? - deixou de perguntar aos que a rodeiam.
Aprendeu que só ela sente esse odor que lhe surge associado ao tom de vermelho, seja vestido, echarpe, sapato ou brincos, como aqueles que o pai lhe ofereceu no dia em que fez o exame.
Um odor intenso, nauseabundo e encharcante que lhe enche as narinas sempre que olha o sol a poisar no horizonte e a fez vomitar quando se picou na agulha na aula de lavoures.
Hoje, ainda almareia frente a uma obra de arte.
Um quadro com vermelhos, e vem-lhe aquele odor, misto de recordação carinhosa de uma infância dolente e o asco que sempre disfarçou a ver desfazer cabras de mato e coelhos e porcos. O sol vermelho de Miró nem tanto, mas agoniam-na alguns raros rubros de Vincent van Gogh e muito em particular as tonalidades que lhe confere Matisse na sua harmonia em vermelho.






segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

volta ao berço

está decidido
o FB não me serve
as redes sociais dão-me em stress
não tenho jeito (e nem pachorra) para ver, ouvir e ser delicada
engulo muita merda desnecessária
chega!!
vou lincar para lá o que me apetecer, mas faço daqui para lá e não o inverso
agora vão aqui ficar alguns dos textos que escrevi ultimamente e depois volto ao directo do blog



era o tempo em que o coração nos chegava aos lábios
e um espirro
uma tosse
um ah! de espanto
um pequeno grito 
e lá se nos ia o coração, voando
ficava-nos no peito o eco do seu palpitar
dia e noite esse tum tum tum sem jeito
e o coração da gente sabe-se lá por onde
era um tempo de desassossegos, esse
um tempo de paixões

Foi no dia 24 de há dez anos e eu dizia no post do convite colocado no meu Blog: um sonho dela feito nosso:T.C.Alves nas ilustrações, M. Correia nos textos; prefaciado pelo Jorge Castro
Ficam fotos do evento e a saudade
Abraços AmadeuMaria Helena e Jorge
Abraço ao Cristiano Cerol (mostras-lhe Ana? obrigada)



faz tempos, escrevi sobre a problemática dos meninos abandonados na Roda
sobre essas mulheres que lá os deixavam pela calada da noite, mães, amas, vizinhas...tantas...

outros tempos, outras misérias, outras ignorâncias

hoje que temos a pílula
anticoncepcionais vários
mulheres escolarizadas
segurança social
centros de saude com valências para mulheres grávidas
temos até uma lei de aborto...
hoje
os mesmos meninos indefesos
as mesmas mulheres...
que traves mestras falham ?
que ignorâncias?
que medos?
que desleixos?
que país é este onde aquelas irmãs esfaquearam à morte o ainda quase feto, onde acontece uma violência adentro portas que já matou quase uma dezena de mulheres neste primeiro mês de 2019 e pelo menos uma criança...
que perguntas deveria eu fazer e desconheço?!
que mulheres e que homens nos crescem lado a lado e não os vemos?
em que bancos de escola?
em que bairros?
em que consultórios (não) os ouvimos, (não) lhes falamos?
para que raio, então, evoluimos?
para que raio, então, fazemos abris e igrejas redentoras?
é pouco acreditar no Homem Novo...
olhei em volta e dei por mim a pensar que nunca irei gastar estes lápis de cor e nem os de grafite...
irão cá ficar depois de mim...
irão durar nas mãos, quiçá, de alguma bisneta que se chame Lurdes...
alguém lhe irá dizer, num incentivo: "a tua bisavó paterna desenhava"
que eu irei ter uma bisneta que seja menina, os deuses ir-me-ão bafejar com essa dávida e será loirinha e de olhos verdes... 
hão-de dizer-lhe: "até no feitio és tal e qual a tua bisavó, caramba!" e acrescentarão, espero, para que a menina não se entristeça: "mas lá no fundo, no fundo, era boa criatura"...
uma menina que será, quem o sabe, Mariana, e terá olhos castanhos e cabelos de azeviche...
também fará desenhos...
desenharão, uma e outra, com estes lápis que se multiplicam aqui de onde os olho...
verdes uns, outros laranja e variados em tons de azul
também os há castanhos
alguns rombos...
terão pertencido aos meus filhos, no tempo, ainda, em que era uso oferecerem-nos, pelo Natal ou pelos anos: meia dúzia de lápis de cor numa caixinha vistosa, e que contentes ficavam as crianças
depois, vieram as cassetes e os aipódes...
hoje, quem se lembra, quem se atreve, a ofertar lápis de cor...
com estes que dão o mote a semelhante relambório, escreverão, assim o desejo, uma Lurdes e uma Mariana..
talvez um Daniel que venha, depois, e seja primo delas...
será que era tudo muito mais simples se o planeta fosse plano
e vogasse, balouçando como berço, enquando o sol rodava em torno dele?!
é que, eu que fui educada segundo as leis copernicianas, temo que o sol um dia destes almareie e ande saltitando de uma excentricidade a outra...
é tal o meu desespero que me dou ao luxo de imaginar tudo
que eu não me habituo com este estar já a mais de meio do segundo mês do ano, e não ter ainda digerido, em condições, o bolo rei
posso-me lá habituar a este concomitar das festividades?!
é que ainda tenho o sabor na boca da fruta cristalizada, e já apanho, dia e noite, com propostas para o dia dos namorados, o Carnaval e as almejadas férias da Páscoa...
andará o nosso planetra a girar mais depressa do que é costume em torno do astro-rei?!
a girar loucamente sobre o seu eixo?!
ou será que esta sensação do tempo a correr que nem um danado é uma característica do envelhecimento a que terei que me ir habituando?!
terei eu que aceitar que isto de trinta dias, doze meses, uma década, foi chão que já deu uvas e que, de agora em diante, é tudo ao molhe: horas, meses, dias, anos...um minuto ou o famigerado cagagésimo, tudo de roldão sem grande preceito, sem nada a ver com os intervalos de tempo que eram o meu desespero: duravam e duravam e nunca mais chegava o verão ou o fim de semana...menos ainda as férias...
ou será que o raio do planeta entrou em concorrência com a restante populaça do universo que, dizem os entendidos, há muito anda numa corrida desenfreada para o vermelho?!
o meu receio, e nisso imploro a protecção dos deuses, é que eu um dia destes, na ânsia de me regular com este andar do tempo, me ponha a jeito e seja disparada na primeira tangente

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

há dias assim...simples



um braço de mar espraiado como campo de flores 
o sol a tombar derramado em rubros 
uns tantos sorrisos 
uns riscos 
pedaços de nada feitos transparência 
e mais céu 
e mais sol poente 
e mais ciência houvesse para ser tão só poesia 
um simples, simples, pedacinho de dia





fotos de João Pinto e Filipe Coelho

sábado, 12 de janeiro de 2019

juventude e velhice

tardejavas
demoravas no teu vir
e eu
eu que te esperava desde
(desde quando te esperava eu?)
tardejavas tanto que eu
eu que te esperava
desde quando
(desde que te tinha sabido, ou antes)
eu demorava igual a ver se vinhas
tardejava, tal e qual, a esperar-te
hoje percebi que estivemos sempre juntas
tu a dares-me conselhos
tu a decidires-me a vida
tu tão discreta, tão menina
e eu
eu a esperar que fosses apenas de um dia
ou nem chegasses
eu a desejar-te e a temer-te e tu presente
em cada choro
em cada riso
hoje
nem és tu, já, que me guias
eu, sim, te dou a mão para que não caias
te dou o riso
a lágrima
o abraço
hoje, eu a pagar o que me deste
discreta, eu, como tu foste

sábado, 10 de novembro de 2018

no algures de mim

Tenho em mim tristezas que não partilho
nem dou em trazê-las num choro, num olhar sombrio. 
Algumas são apenas mágoas 
e nem por isso menos doloridas... 
Silenciosas, umas e outras, 
são segredos que se fizeram em mim, 
algures...
Dá-se que aparecem, sobretudo, 
quase sempre, 
por via de atitudes que não sei entender porque não uso. 
Aí, recuo no meu eu e dou com elas: 
as minhas tristezas e mágoas antigas, 
elas e só elas me consolam. 
e lá levam, para o local onde se acarinham, 
esse local algures, 
mais uma tristeza que acaba de ser minha...

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

a propósito da crónica 124

vão ver no varal de ideias o intimidades crónicas a ser lido por mim

crónica 124




acordo cedíssimo e sem sono
lá fora chove e deve estar frio
pego num livro, folhei-o
(este não tem marca a dizer: é aqui que vais)
de página em página, fico a ler pedaços
são crónicas curtas, ligeiras algumas, que elas são, muitas, bem profundas
e, neste ir acordando, cai-me sob os olhos a que tem o número 124
conta a história da Origem do Mundo, obra censurada, faz tempo, ali pelo facebook
e fico remoendo, enquanto lá fora chove e já me acordei, de todo
lembro a polémica das fotos de Serralves
século vinte e um, século dezanove
o corpo e o preconceito
moral e bons costumes a preservar-nos de falos e vaginas no espaço público
va de retro arte do demo que a gente é muito mais espírito
a gente é sobretudo espírito e nada de andar a descobrir que também somos essa parte do corpo
bela designação lhe deu Gustave Courbet
as origens do mundo arrastadas por dabliuscês e alcovas
pornografias secretas e confessionários conspícuos
 a gente a fazer delas coisas feias
a gente a impedir que se saiba como é mesmo a origem...
a gente a impedir algumas partes do nosso belo corpo
que as vejamos como elas podem ser olhadas
soltas
belíssimas
verdadeiras
livres



obrigada Eduardo

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

tempos sombrios

não sou leitora do Expresso, mas aconteceu dar com um dos seus cadernos, este fim de semana e nele uma crónica de José Tolentino de Mendonça no espaço Que coisa são as nuvens
Li e reli
e fui em busca do poema de Brecht, que é, na crónica, referência para uma reflexão serena (se é possível, se é sobretudo desejável) sobre os "tempos sombrios"
Aqui deixo o poema
( a crónica, claro que aconselho)


Aos que virão depois de nós 
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, 
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença. 
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, 
Quando falar sobre flores é quase um crime. 
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? 
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado. 
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe! 
Fica feliz por teres o que tens! 
Mas como é que posso comer e beber, 
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome? 
Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? 
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: 
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; 
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. 
Sabedoria é isso! 
Mas eu não consigo agir assim. 
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem, 
Quando a fome reinava. 
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles. 
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra. 
Eu comi o meu pão no meio das batalhas, 
Deitei-me entre os assassinos para dormir, 
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza. 
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem, 
Quando falarem das nossas fraquezas, 
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes, 
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados! 
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos: 
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos! 
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca! 
Infelizmente, nós, 
Que queríamos preparar o caminho para a amizade, 
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. 
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem, 
Pensem em nós
Com um pouco de compreensão.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

incúrias

não disse nada quando Monchique ardia e eu me banhava na baía sob um manto de cinzas
calei esse horror amalgamado de trtisteza que vinha desde a estupefacção que me tinha ficado de Pedrogão
calei como costumo, desde pequeninina, silenciar as dores que me são mesmo dolorosas
calaria agora, mas é tempo de deixar sair o pranto e o grito por esse horror que é a incúria
a apagar-nos
a deixar-nos órfãos
de gente que amamos
das árvores com que respiramos
e do que fomos
mal vai o mundo a deixar para os vindourtos este pobre legado de cinzas e maldade
e eu, sem deuses a quem rogar,
 sem deuses a quem peça perdão e grite clemencia,
silencio de novo esta imensa mágoa
e procuro, num desespero,
no que de mim resta de fé no Homem,
algum nico de esperança

Museu Nacional do Rio de Janeiro
Luzia

sábado, 1 de setembro de 2018

Setembro

De novo Setembro...
o recomeço

O meu recomeço será sempre quando a eclíptica se vai inclinando no horizonte a arrastar o sol para tão baixo que a gente quase lhe toca com um dedo
quando, no corpo, é mais suave a luz e o quente
quando é diverso o odor que há no ar, mal entra Setembro
quando tudo parece apaziguado no Universo

De aqui até ser o novo ano, Natal de permeio,
e depois que chegue a Primavera intensa de cores e cheiros e chilreios,
será a espera, que sempre me há-de semelhar eterna,
pelo Verão que está quase a deixar-nos...



sexta-feira, 25 de maio de 2018

quinta-feira, 26 de abril de 2018

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein