Sentava-se de cócoras.
Sentava-se e sentia o corpo
todo.
O corpo dela apoiado sobre o baixo-ventre: quente. Tão quente que era o
seu corpo quando se sentava de cócoras a ver desfazer o bicho.
Lembra-se disso e lembra-se
do cheiro que, esse, nunca o esqueceu. Que ela, a bem dizer, nem sequer o
lembra, antes esse odor lhe está entranhado como coisa que lhe existe, coisa
sua, como lhe é o nariz adunco e o cabelo muito liso da cor das barbas do
milho.
Um odor estranho.
Um cheiro que lhe surge, intenso e apenas seu.
- Sentes o cheiro? - deixou de perguntar aos que a rodeiam.
Aprendeu que só ela sente esse odor que
lhe surge associado ao tom de vermelho, seja vestido, echarpe, sapato ou
brincos, como aqueles que o pai lhe ofereceu no dia em que fez o exame.
Um odor intenso, nauseabundo
e encharcante que lhe enche as narinas sempre que olha o sol a poisar no
horizonte e a fez vomitar quando se picou na agulha na aula de lavoures.
Hoje, ainda almareia frente a uma obra de arte.
Um quadro com vermelhos, e vem-lhe aquele odor, misto de recordação carinhosa de uma
infância dolente e o asco que sempre disfarçou a ver desfazer cabras de mato e
coelhos e porcos. O sol vermelho de Miró nem tanto, mas agoniam-na alguns raros rubros de Vincent van
Gogh e muito em particular as tonalidades que lhe confere Matisse na sua harmonia em vermelho.
















