Tenho em mim tristezas que não partilho
nem dou em trazê-las num choro, num olhar sombrio.
Algumas são apenas mágoas
e nem por isso menos doloridas...
Silenciosas, umas e outras,
são segredos que se fizeram em mim,
algures...
Dá-se que aparecem, sobretudo,
quase sempre,
por via de atitudes que não sei entender porque não uso.
Aí, recuo no meu eu e dou com elas:
as minhas tristezas e mágoas antigas,
elas e só elas me consolam.
e lá levam, para o local onde se acarinham,
esse local algures,
mais uma tristeza que acaba de ser minha...
sábado, 10 de novembro de 2018
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
crónica 124
acordo cedíssimo e sem sono
lá fora chove e deve estar frio
pego num livro, folhei-o
(este não tem marca a dizer: é aqui que vais)
de página em página, fico a ler pedaços
são crónicas curtas, ligeiras algumas, que elas são, muitas, bem profundas
e, neste ir acordando, cai-me sob os olhos a que tem o número 124
conta a história da Origem do Mundo, obra censurada, faz tempo, ali pelo facebook
e fico remoendo, enquanto lá fora chove e já me acordei, de todo
lembro a polémica das fotos de Serralves
século vinte e um, século dezanove
o corpo e o preconceito
moral e bons costumes a preservar-nos de falos e vaginas no espaço público
va de retro arte do demo que a gente é muito mais espírito
a gente é sobretudo espírito e nada de andar a descobrir que também somos essa parte do corpo
bela designação lhe deu Gustave Courbet
as origens do mundo arrastadas por dabliuscês e alcovas
pornografias secretas e confessionários conspícuos
a gente a fazer delas coisas feias
a gente a impedir que se saiba como é mesmo a origem...
a gente a impedir algumas partes do nosso belo corpo
que as vejamos como elas podem ser olhadas
soltas
belíssimas
verdadeiras
livres
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
tempos sombrios
não sou leitora do Expresso, mas aconteceu dar com um dos seus cadernos, este fim de semana e nele uma crónica de José Tolentino de Mendonça no espaço Que coisa são as nuvens
Li e reli
e fui em busca do poema de Brecht, que é, na crónica, referência para uma reflexão serena (se é possível, se é sobretudo desejável) sobre os "tempos sombrios"
Aqui deixo o poema
( a crónica, claro que aconselho)
Li e reli
e fui em busca do poema de Brecht, que é, na crónica, referência para uma reflexão serena (se é possível, se é sobretudo desejável) sobre os "tempos sombrios"
Aqui deixo o poema
( a crónica, claro que aconselho)
Aos que virão depois de nós
( Bertold Brecht )
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses,
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
Deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
Que queríamos preparar o caminho para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem,
Pensem em nós
Com um pouco de compreensão.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses,
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
Deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
Que queríamos preparar o caminho para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem,
Pensem em nós
Com um pouco de compreensão.
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
incúrias
não disse nada quando Monchique ardia e eu me banhava na baía sob um manto de cinzas
calei esse horror amalgamado de trtisteza que vinha desde a estupefacção que me tinha ficado de Pedrogão
calei como costumo, desde pequeninina, silenciar as dores que me são mesmo dolorosas
calaria agora, mas é tempo de deixar sair o pranto e o grito por esse horror que é a incúria
a apagar-nos
a deixar-nos órfãos
de gente que amamos
das árvores com que respiramos
e do que fomos
mal vai o mundo a deixar para os vindourtos este pobre legado de cinzas e maldade
e eu, sem deuses a quem rogar,
sem deuses a quem peça perdão e grite clemencia,
silencio de novo esta imensa mágoa
e procuro, num desespero,
no que de mim resta de fé no Homem,
algum nico de esperança
calei esse horror amalgamado de trtisteza que vinha desde a estupefacção que me tinha ficado de Pedrogão
calei como costumo, desde pequeninina, silenciar as dores que me são mesmo dolorosas
calaria agora, mas é tempo de deixar sair o pranto e o grito por esse horror que é a incúria
a apagar-nos
a deixar-nos órfãos
de gente que amamos
das árvores com que respiramos
e do que fomos
mal vai o mundo a deixar para os vindourtos este pobre legado de cinzas e maldade
e eu, sem deuses a quem rogar,
sem deuses a quem peça perdão e grite clemencia,
silencio de novo esta imensa mágoa
e procuro, num desespero,
no que de mim resta de fé no Homem,
algum nico de esperança
sábado, 1 de setembro de 2018
Setembro
De novo Setembro...
o recomeço
O meu recomeço será sempre quando a eclíptica se vai inclinando no horizonte a arrastar o sol para tão baixo que a gente quase lhe toca com um dedo
quando, no corpo, é mais suave a luz e o quente
quando é diverso o odor que há no ar, mal entra Setembro
quando tudo parece apaziguado no Universo
De aqui até ser o novo ano, Natal de permeio,
e depois que chegue a Primavera intensa de cores e cheiros e chilreios,
será a espera, que sempre me há-de semelhar eterna,
pelo Verão que está quase a deixar-nos...
o recomeço
O meu recomeço será sempre quando a eclíptica se vai inclinando no horizonte a arrastar o sol para tão baixo que a gente quase lhe toca com um dedo
quando, no corpo, é mais suave a luz e o quente
quando é diverso o odor que há no ar, mal entra Setembro
quando tudo parece apaziguado no Universo
De aqui até ser o novo ano, Natal de permeio,
e depois que chegue a Primavera intensa de cores e cheiros e chilreios,
será a espera, que sempre me há-de semelhar eterna,
pelo Verão que está quase a deixar-nos...
sexta-feira, 25 de maio de 2018
quinta-feira, 26 de abril de 2018
quarta-feira, 21 de março de 2018
árvores
designo algumas pelo nome
a faia, a pereira, o carvalho, a nespereira
e essa maravilha da natureza que é o imbondeiro
florescem por Janeiro em rebates de beleza como a amendoeira
ou salpicam-se de folhinhas verdes, em ramos que semelhavam secos,como faz a figueira
remoçam-se, e eu invejo-as
e, a lembrar o poeta, imploro aos deuses
que a Primavera faça, em cada um da gente, o que faz às cerejeiras
"Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras" Pablo Neruda
sexta-feira, 16 de março de 2018
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
o livro - apresentação e colóquio
Foi encerrado este ciclo, poderei dizer que com chave dourada
Uma sessão de apresentação do livro Expostos meninos e meninas do Concelho de Lagos em que o ponto alto que foi a dramatização primorosa que a RiTa Rodrigues fez dum texto que nem eram mais do que frases e nomes que retirei do livro a fazerem as vezes de um texto e que ela tratou tão bem, tão bem que lhes deu a vida que eu lhes imaginava
quereria ver de novo, deixar correr de novo aquela lágrima...
Que os deuses encham de bençãos a Mãe Rita e os seus Meninos!
Ficam algumas fotos a documentarem
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Natal de 2017
Sejamos
sinceros
Deixemos
de pensar em água para isto e aquilo
na falta
dela
Água
doce, claro
água
de rios e de barragens
a água
dos autoclismos e das torneiras
e das
garrafinhas e garrafões que
a
faltar uma, também falta outra, acreditem
Deixemos
de tentar encontrar poesia na chuva
Tudo
a rever a húmido
Tudo
pardo e,
no mínimo, um fedor a madeira queimada
no mínimo, um fedor a madeira queimada
ou a
gasóleo
ou o
contador da electricidade a rodar como louco
e um
frio de cortar os ossos
Deixemos
de ver poesia nas nuvens a dançarem-nos
baixas e escuras,
dentro
dos olhos, essa luz coada que magoa
Sejamos
sinceros
Nada
de politicamente correto
Nada
de ficarmos a pensar no futuro
o nosso
e, mais ainda, o dos netos
Peçamos
tréguas à boa consciência
Peçamos
complacência aos rios e às couves
e às
plantações diversas
e perdão
a nós mesmos sedentos e sebentos
e a
modos que
a modos que endoidados
a modos que endoidados
que a
falta de água nas torneiras nos poria loucos
Deixemos
estes cenários trágicos e lembremos
este Novembro
este Novembro
nem sendo
frequente
não
é caso único
Tudo
se recompõe
Vejamos
a coisa dum ponto de vista esperançoso e
Caramba!!
Um
Natal na praia seria um grande gozo!!
Um
Natal como, afinal, em outras partes do Globo
Nem neve,
nem chuva,
essa
coisa que nem deixa que sequem os lençóis
Ou,
em alternativa,
concedo,
uns esgarrões
entre as duas e as quatro
e o
sol raiando, antes e depois
e um
calorzinho que deixasse
lavarmo-nos nessa água mole que caísse dos céus
lavarmo-nos nessa água mole que caísse dos céus
Estamos
quase nisso, regalemo-nos
Um Natal
de biquíni
e a árvore enfeitada com conchas e limos.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
contentamento
há dias como hoje que nem percebo
estou assim a modos que contente
assim como quando se recebe um presente
nem isso
assim como quando nos apaixonamos
quando sabemos que, de aqui a pouco, vamos ver o motivo do nosso apreço
um contentamento e um sossego de lago depois das neves
será deste interregno do Outono
será deste tempo primaveril a saber a estio
será de mim mesma e eu desconheço
nada que se tenha passado e eu nisto
afinal descubro
é tudo do Chopin que toca lá dentro
do cão que dorme pachorrento
e do cheirinho gostoso a marmelos assados
estou assim a modos que contente
assim como quando se recebe um presente
nem isso
assim como quando nos apaixonamos
quando sabemos que, de aqui a pouco, vamos ver o motivo do nosso apreço
um contentamento e um sossego de lago depois das neves
será deste interregno do Outono
será deste tempo primaveril a saber a estio
será de mim mesma e eu desconheço
nada que se tenha passado e eu nisto
afinal descubro
é tudo do Chopin que toca lá dentro
do cão que dorme pachorrento
e do cheirinho gostoso a marmelos assados
terça-feira, 10 de outubro de 2017
romã
era apenas uma romã
uma, igualzinha a outras romãs de que retiro os bagos para uma taça e sirvo à
sobremesa
mas esta fez-me sentir que estava ali o Universo
e Deus...
(se Ele existe)
que aquilo cresceu de uma flor encarnada
andaram, uma e outra, flor e romã, a enfeitar os céus
de Maio até hoje
e eu
a retirar aqueles bagos translucidos de sob as películas que os
aconchegavam
a desfazer os gomos sedosos no interior daquele redondo matizado
verdes, amarelos, castanhos e vermelhos...
lembrei-me dos cachorrinhos que outro dia nasceram
e dos falares dos meus netos
e dos dedinhos dos meninos quando vêm ao mundo...
caiam na taça os bagos vermelhos
e eu
se Ele existe, será nisto
(como neste engelhar de pele que a cada dia me acontece...)
segunda-feira, 19 de junho de 2017
em memória
A aflição dos que se
foram
a dor que terá sido,
essa,
não me consinto
imaginar,
recuso.
Penso, sim, nos vivos:
pais e mães e avós e
filhos
(sobretudo esses)
Atormenta-me a dor que
lhes imagino.
Que cada um saiba onde
buscar alívio,
desejo,
eu que nem sei de shivas
ou deuses gato
ou mesmo jesus cristo,
ou o todo poderoso
anjos...
Eu egoísta,
eu amarfanhada do meu
medo,
penso neles e,
ignorante dos desígnios
dos céus, balbucio:
não suportaria uma dor
semelhante.
E, porque não sei outro
modo,
finjo que oro.
Pedrógão Grande
Pedrógão Grande
sexta-feira, 5 de maio de 2017
chuvinha de maio
A minha vizinha apareceu na janela de peitilho a sacudir um tapete azul escuro.
Sacudiu, sacudiu, e retirou-se deixando a janela aberta com a cortina alçada
sobre o fundo, que vislumbro escuro, do interior da casa
Depois, voltou, sacudiu um lençol e retirou-se com o pano, mas reapareceu a
sacudir outro tapete, este, azul clarinho.
Ali ficou, demorando-se ela, e demorando-me eu a olhar o vagar com que se entretém,
ou assim parece, a retirar uns não sei quê que eu imagino que sejam pedacinhos
de pele de uns calcanhares que tenham assentado, nus de peúgas e de chinelos,
sobre o pelo fofo daquele artefacto; ou serão penas do canário que ela tenha lá
por casa; ou serão penas do merlo que por aí anda em pios danados, ou serão penas
das andorinhas que abundam; penas que tenham entrado pela janela da vizinha e caído
nos pelos do tapete.
Ou nem serão coisa nenhuma, mas apenas distracções da senhora minha vizinha
que tem o cabelo preso com um lenço verde alface e nem olha o tapete que cata
com a mão direita e bate, suave, com a outra, enquanto voga o olhar pelos
carros que descem e sobem a rua que nos separa, eu aqui a olhá-la, eu também distraída,
mas sem que sacuda uma peça que seja, tapete ou colcha, ou coisa nenhuma, num gesto
do qual alguém dissesse: que zelosa está esta mulher a tratar da sua casa.
Estávamos nisto, eu e a minha vizinha, nem ela sabendo de mim, observando-a,
ou pararia aquele seu distraído catar de coisas nos pelos do tapete a dizer-me,
simpática: bom dia! e nem sacudiria, quem o sabe, outro lençol como este que
agora sacode, tão imenso que quase roja as pedras do passeio.
Estávamos ambas, cada uma em seu lado da rua, quando o sol que prometia
demora, resolveu esconder-se atrás de nuvens negras e, logo de seguida, começou
a cair uma chuva desgraciosa que levou para dentro o lençol com barra cor-de-rosa
que a minha vizinha sacudia a seguir ao tapete azul clarinho.
E, por causa da chuva, encerrou-se a janela ali defronte e
encerrou-se, assim, o que eu pretendia que fosse a minha primeira crónica.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
numa outra Primavera
"Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. "
mas...
se, no início de uma outra Primavera, eu cá não estiver, estes ramos vão rebentar de igual modo, não tenho dúvidas,
apenas...
não terão neles o brilho dos meus olhos
e isso, que me perdoem os deuses que eu seja presumida e vaidosa, que eu não consiga dizer como Poeta que se houver outra Primavera sem que eu esteja, será a mesma coisa...
e será por sentires destes que nem sou crente, nem a poesia me bafeja
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. "
mas...
se, no início de uma outra Primavera, eu cá não estiver, estes ramos vão rebentar de igual modo, não tenho dúvidas,
apenas...
não terão neles o brilho dos meus olhos
e isso, que me perdoem os deuses que eu seja presumida e vaidosa, que eu não consiga dizer como Poeta que se houver outra Primavera sem que eu esteja, será a mesma coisa...
e será por sentires destes que nem sou crente, nem a poesia me bafeja
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primavera; Caeiro
sábado, 18 de março de 2017
regresso
no fim de semana que passou fez anos (quarente e dois) que nasceu o meu primeiro filho
eram tempos de tanta esperança, esses de ele ter nascido, ainda que o seu dia tenha coincidido com aquele "golpe" que meteu o general do monóculo...
estivemos na praia onde me cresci para este gosto pelo mar que lhe transmiti e ele aos seus meninos
desse entardecer de quase primavera deixo um registo e a promessa de que, de hoje em diante, é aqui que volto quando me apetecer dizer de mim ou dizer de seja o que for
eram tempos de tanta esperança, esses de ele ter nascido, ainda que o seu dia tenha coincidido com aquele "golpe" que meteu o general do monóculo...
estivemos na praia onde me cresci para este gosto pelo mar que lhe transmiti e ele aos seus meninos
desse entardecer de quase primavera deixo um registo e a promessa de que, de hoje em diante, é aqui que volto quando me apetecer dizer de mim ou dizer de seja o que for
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Porto de Mós; aniversário;
domingo, 5 de fevereiro de 2017
M de Mulher e de aMor e de Mãe
cada uma delas teve um momento certo
foi tradução de um viver intenso, bom ou menos agradável
nunca indiferente
colocá-las em lugar publico sabe bem enquanto há a ilusão de que quem as olha o faz amorosamente
depois,é como se ali ficassem ao abandono
a sala enorme e elas olhando-se mudas
aprisionadas
solitárias
indefesas de um e outro que as despe,
as viola ainda que gostando-as
ou de quem nem as gosta
ou não sabe
ou as vê apenas como traço
serem ou não serem mais ou menos arte
se eu tivesse sabido...
e eu soube-o tanto
mas ficou-me aquele dizê-las aqui estamos
a ilusão de libertá-las
a vaidade de sermos eu e elas
das que partam, ficará a saudade
desse tanto que com elas se vai
mais no OLHARES FELINOS e no INTIMARTE
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
fase natalícia
que eu até gosto deste brincar com os enfeites
e as luzes e as velas
e os vermelhos, verdes e castanhos
eu até faria um presépio com um moinho
e um rio com ponte onde
nem cabia o burro e o moleiro, que seriam do primeiro plano
e teria uma igreja
(a minha mãe fazia-as em papel com luz lá dentro e uma data de freirinhas que eram grãos de bico e um pedacinho de tecido...)
eu faria isso tudo se tivesse cá os netos...
uma coisa que ocupasse espaço
quase uma cidade que
tivesse até modo de acender a apagar luzes
e tivesse movimento...
mas não tenho os mecinhes e entretenho-me
faço apenas para que a casa fique...diferente
porque gosto, já disse
porque é aconchegante
faço para mim e pronto
(a minha mãe gostava, mas, este ano ...
onde andará quem montou presépios e fez filhoses?!!)
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