há dias como hoje que nem percebo
estou assim a modos que contente
assim como quando se recebe um presente
nem isso
assim como quando nos apaixonamos
quando sabemos que, de aqui a pouco, vamos ver o motivo do nosso apreço
um contentamento e um sossego de lago depois das neves
será deste interregno do Outono
será deste tempo primaveril a saber a estio
será de mim mesma e eu desconheço
nada que se tenha passado e eu nisto
afinal descubro
é tudo do Chopin que toca lá dentro
do cão que dorme pachorrento
e do cheirinho gostoso a marmelos assados
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
terça-feira, 10 de outubro de 2017
romã
era apenas uma romã
uma, igualzinha a outras romãs de que retiro os bagos para uma taça e sirvo à
sobremesa
mas esta fez-me sentir que estava ali o Universo
e Deus...
(se Ele existe)
que aquilo cresceu de uma flor encarnada
andaram, uma e outra, flor e romã, a enfeitar os céus
de Maio até hoje
e eu
a retirar aqueles bagos translucidos de sob as películas que os
aconchegavam
a desfazer os gomos sedosos no interior daquele redondo matizado
verdes, amarelos, castanhos e vermelhos...
lembrei-me dos cachorrinhos que outro dia nasceram
e dos falares dos meus netos
e dos dedinhos dos meninos quando vêm ao mundo...
caiam na taça os bagos vermelhos
e eu
se Ele existe, será nisto
(como neste engelhar de pele que a cada dia me acontece...)
segunda-feira, 19 de junho de 2017
em memória
A aflição dos que se
foram
a dor que terá sido,
essa,
não me consinto
imaginar,
recuso.
Penso, sim, nos vivos:
pais e mães e avós e
filhos
(sobretudo esses)
Atormenta-me a dor que
lhes imagino.
Que cada um saiba onde
buscar alívio,
desejo,
eu que nem sei de shivas
ou deuses gato
ou mesmo jesus cristo,
ou o todo poderoso
anjos...
Eu egoísta,
eu amarfanhada do meu
medo,
penso neles e,
ignorante dos desígnios
dos céus, balbucio:
não suportaria uma dor
semelhante.
E, porque não sei outro
modo,
finjo que oro.
Pedrógão Grande
Pedrógão Grande
sexta-feira, 5 de maio de 2017
chuvinha de maio
A minha vizinha apareceu na janela de peitilho a sacudir um tapete azul escuro.
Sacudiu, sacudiu, e retirou-se deixando a janela aberta com a cortina alçada
sobre o fundo, que vislumbro escuro, do interior da casa
Depois, voltou, sacudiu um lençol e retirou-se com o pano, mas reapareceu a
sacudir outro tapete, este, azul clarinho.
Ali ficou, demorando-se ela, e demorando-me eu a olhar o vagar com que se entretém,
ou assim parece, a retirar uns não sei quê que eu imagino que sejam pedacinhos
de pele de uns calcanhares que tenham assentado, nus de peúgas e de chinelos,
sobre o pelo fofo daquele artefacto; ou serão penas do canário que ela tenha lá
por casa; ou serão penas do merlo que por aí anda em pios danados, ou serão penas
das andorinhas que abundam; penas que tenham entrado pela janela da vizinha e caído
nos pelos do tapete.
Ou nem serão coisa nenhuma, mas apenas distracções da senhora minha vizinha
que tem o cabelo preso com um lenço verde alface e nem olha o tapete que cata
com a mão direita e bate, suave, com a outra, enquanto voga o olhar pelos
carros que descem e sobem a rua que nos separa, eu aqui a olhá-la, eu também distraída,
mas sem que sacuda uma peça que seja, tapete ou colcha, ou coisa nenhuma, num gesto
do qual alguém dissesse: que zelosa está esta mulher a tratar da sua casa.
Estávamos nisto, eu e a minha vizinha, nem ela sabendo de mim, observando-a,
ou pararia aquele seu distraído catar de coisas nos pelos do tapete a dizer-me,
simpática: bom dia! e nem sacudiria, quem o sabe, outro lençol como este que
agora sacode, tão imenso que quase roja as pedras do passeio.
Estávamos ambas, cada uma em seu lado da rua, quando o sol que prometia
demora, resolveu esconder-se atrás de nuvens negras e, logo de seguida, começou
a cair uma chuva desgraciosa que levou para dentro o lençol com barra cor-de-rosa
que a minha vizinha sacudia a seguir ao tapete azul clarinho.
E, por causa da chuva, encerrou-se a janela ali defronte e
encerrou-se, assim, o que eu pretendia que fosse a minha primeira crónica.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
numa outra Primavera
"Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. "
mas...
se, no início de uma outra Primavera, eu cá não estiver, estes ramos vão rebentar de igual modo, não tenho dúvidas,
apenas...
não terão neles o brilho dos meus olhos
e isso, que me perdoem os deuses que eu seja presumida e vaidosa, que eu não consiga dizer como Poeta que se houver outra Primavera sem que eu esteja, será a mesma coisa...
e será por sentires destes que nem sou crente, nem a poesia me bafeja
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. "
mas...
se, no início de uma outra Primavera, eu cá não estiver, estes ramos vão rebentar de igual modo, não tenho dúvidas,
apenas...
não terão neles o brilho dos meus olhos
e isso, que me perdoem os deuses que eu seja presumida e vaidosa, que eu não consiga dizer como Poeta que se houver outra Primavera sem que eu esteja, será a mesma coisa...
e será por sentires destes que nem sou crente, nem a poesia me bafeja
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primavera; Caeiro
sábado, 18 de março de 2017
regresso
no fim de semana que passou fez anos (quarente e dois) que nasceu o meu primeiro filho
eram tempos de tanta esperança, esses de ele ter nascido, ainda que o seu dia tenha coincidido com aquele "golpe" que meteu o general do monóculo...
estivemos na praia onde me cresci para este gosto pelo mar que lhe transmiti e ele aos seus meninos
desse entardecer de quase primavera deixo um registo e a promessa de que, de hoje em diante, é aqui que volto quando me apetecer dizer de mim ou dizer de seja o que for
eram tempos de tanta esperança, esses de ele ter nascido, ainda que o seu dia tenha coincidido com aquele "golpe" que meteu o general do monóculo...
estivemos na praia onde me cresci para este gosto pelo mar que lhe transmiti e ele aos seus meninos
desse entardecer de quase primavera deixo um registo e a promessa de que, de hoje em diante, é aqui que volto quando me apetecer dizer de mim ou dizer de seja o que for
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Porto de Mós; aniversário;
domingo, 5 de fevereiro de 2017
M de Mulher e de aMor e de Mãe
cada uma delas teve um momento certo
foi tradução de um viver intenso, bom ou menos agradável
nunca indiferente
colocá-las em lugar publico sabe bem enquanto há a ilusão de que quem as olha o faz amorosamente
depois,é como se ali ficassem ao abandono
a sala enorme e elas olhando-se mudas
aprisionadas
solitárias
indefesas de um e outro que as despe,
as viola ainda que gostando-as
ou de quem nem as gosta
ou não sabe
ou as vê apenas como traço
serem ou não serem mais ou menos arte
se eu tivesse sabido...
e eu soube-o tanto
mas ficou-me aquele dizê-las aqui estamos
a ilusão de libertá-las
a vaidade de sermos eu e elas
das que partam, ficará a saudade
desse tanto que com elas se vai
mais no OLHARES FELINOS e no INTIMARTE
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
fase natalícia
que eu até gosto deste brincar com os enfeites
e as luzes e as velas
e os vermelhos, verdes e castanhos
eu até faria um presépio com um moinho
e um rio com ponte onde
nem cabia o burro e o moleiro, que seriam do primeiro plano
e teria uma igreja
(a minha mãe fazia-as em papel com luz lá dentro e uma data de freirinhas que eram grãos de bico e um pedacinho de tecido...)
eu faria isso tudo se tivesse cá os netos...
uma coisa que ocupasse espaço
quase uma cidade que
tivesse até modo de acender a apagar luzes
e tivesse movimento...
mas não tenho os mecinhes e entretenho-me
faço apenas para que a casa fique...diferente
porque gosto, já disse
porque é aconchegante
faço para mim e pronto
(a minha mãe gostava, mas, este ano ...
onde andará quem montou presépios e fez filhoses?!!)
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
100% de humidade
Aí onde te deixamos é escuro e há bichos
E
hoje que chove tanto
Hoje
que escorre água pelos caminhos
Se
eu tivesse poderes
Se
me tivessem ensinado os deuses
Se
tu me tivesses dito
Mas
também não sabias
Não
dizem disso os livros
Se
fosse como eu sinto e creio
Se
fosse, sobretudo, como desejo
Deitava-me
a teu lado com um cobertor quentinho
Levava
uma lanterna e um livro
Tenho tantas saudades
Tantas
De não me ter deitado mais vezes contigo
5 sentidos
há bocado, o mar estava num sueste intenso e eu
nem sei porquê
senti-me orando
eu, de novo, ímpia que sou, a dar graças aos céus
eu a curvar-me, humilde, perante a benção dos meus 5 sentidos
e ali fiquei em transe
com cada um
com eles todos
a maresia caía-me nos lábios
e eram sabores tão variados
como variados eram os odores
iodo, sim, mas também outros
partículas vindas de outros tempos, de outros lugares
sabores que eu senti sem lhes saber o nome
pele de gente ou de peixe ou de duende
a tocar-me o rosto
eu a olhar aqueles tons refractados na neblina de fim de tarde
azuis, cinzentos, roxos
eu inebriada dos meus cinco sentidos
e aquele mar rugindo soava aos meus ouvidos como,
dizem,
são os sons celestes
nem sei porquê
senti-me orando
eu, de novo, ímpia que sou, a dar graças aos céus
eu a curvar-me, humilde, perante a benção dos meus 5 sentidos
e ali fiquei em transe
com cada um
com eles todos
a maresia caía-me nos lábios
e eram sabores tão variados
como variados eram os odores
iodo, sim, mas também outros
partículas vindas de outros tempos, de outros lugares
sabores que eu senti sem lhes saber o nome
pele de gente ou de peixe ou de duende
a tocar-me o rostoeu a olhar aqueles tons refractados na neblina de fim de tarde
azuis, cinzentos, roxos
eu inebriada dos meus cinco sentidos
e aquele mar rugindo soava aos meus ouvidos como,
dizem,
são os sons celestes
terça-feira, 29 de novembro de 2016
inconformada alfacinha
hoje faz-me anos uma amiga
uma daquelas que a gente conhece desde o ventre
certamente
porque sonho é isso
e a gente conheceu-se nesse limbo
nessa orla onde tudo acontece
joguei com ela à cabra cega
corremos em cima de paredões
esfolámos joelhos
namorámos e tivemos desilusões
e às duas por três éramos afinal
duas mulheres em tamanho certo
tudo no sítio excepto
deuses!!!
tudo como deve àparte a loucura inata dessa outra
minha amiga do peito
tal e qual a minha ou semelhando
desde esse momento que nem tem fronteira
corremos de pés juntos para dentro do sonho
e lá estamos...
uma daquelas que a gente conhece desde o ventre
certamente
porque sonho é isso
e a gente conheceu-se nesse limbo
nessa orla onde tudo acontece
joguei com ela à cabra cega
corremos em cima de paredões
esfolámos joelhos
namorámos e tivemos desilusões
e às duas por três éramos afinal
duas mulheres em tamanho certo
tudo no sítio excepto
deuses!!!
tudo como deve àparte a loucura inata dessa outra
minha amiga do peito
tal e qual a minha ou semelhando
desde esse momento que nem tem fronteira
corremos de pés juntos para dentro do sonho
e lá estamos...
domingo, 27 de novembro de 2016
porra!!
tem dias como hoje
a gente parece que nunca tinha percebido
e descobre
e cora para não dizer: "porra!"
que a total falta de tudo, assim ali, face to face
não é coisa com que se brinque
custa
e nem é de cretino
que estupidez nem é isso
do que falo é coisa mais inata
menos palpável
dois palmos de testa sem poiso
alguma coisa na cabeça sem ter onde se acoite
local de onde tenha criado raízes
um suporte que estruture
e ilude
parece ser o que nunca foi
e confunde
envolve-se de faz de conta
e passa por ser apenas parvoíce
um jocoso feito graça idiota
e muito medo
e quando a gente a sente,
quando é sobre ti que a coisa se abate,
é de ficar corando num balbuciar sem ter mais jeito
"afinal existe"
"afinal é possível encontrar seres deste calibre
bondosas criaturas sem substrato
ou com ele mal doseado"
tem dias, sim, como hoje
a gente parece que nunca tinha percebido
e descobre
e cora para não dizer: "porra!"
que a total falta de tudo, assim ali, face to face
não é coisa com que se brinque
custa
e nem é de cretino
que estupidez nem é isso
do que falo é coisa mais inata
menos palpável
dois palmos de testa sem poiso
alguma coisa na cabeça sem ter onde se acoite
local de onde tenha criado raízes
um suporte que estruture
e ilude
parece ser o que nunca foi
e confunde
envolve-se de faz de conta
e passa por ser apenas parvoíce
um jocoso feito graça idiota
e muito medo
e quando a gente a sente,
quando é sobre ti que a coisa se abate,
é de ficar corando num balbuciar sem ter mais jeito
"afinal existe"
"afinal é possível encontrar seres deste calibre
bondosas criaturas sem substrato
ou com ele mal doseado"
tem dias, sim, como hoje
domingo, 16 de outubro de 2016
inóspitos
entre o Castelejo e a Cordoama a esquecer as luzes dos
bares e as luzes dos carros e mais o que sabemos
Acabado o sol de derramar-se
mar adentro em estertores de laranjas e roxos, nem mais um foco onde se
determine: aqui é caminho, ali é precipício.
O inóspito avolumando-se: montes
e céu como se fora nos primórdios.
Paisagem de vultos gordos
como ventres prenhes ou coxas de mulher. Redondos recortados em azuis
muito escuros e em negros e, mal adivinhados, uns verdes rasos e opacos.
E o silêncio: nada que não seja o coração
da gente e o ar que nos sustenta a ir e vir, dentro e fora, fora e dentro.
Luz, apenas a luz da lua, que
hoje foi noite dela ser quase uma lua grande, redonda como sol em céu de
Outubro.
A lua inteira e não apenas
um recorte.
Que em noites em que ela não
se vislumbre, por ser o céu, um céu de tempestade, será só o alumiar de um
relâmpago que varrerá a escuridão dos montes e da rocha e das dunas e do mar.
O mar, sempre.
O mar presente no odor intenso
a algas e a peixe e a iodo, e a cheiros de quando fomos seres dentro dele, um
cheiro de útero que trouxemos de termos sido medusas e girinos: termos sido feto.
E aqui e ali um
branco que é o mar sempre revolto, sempre despedaçando-se no alcantilado da
falésia e a derramar humores
alvos na areia lá em baixo, lá muito onde nem adivinhamos.
Inóspitos com a gente
dentro, imaginando.
domingo, 14 de agosto de 2016
eu pecadora...
não tenho deuses a quem peça perdão por faltas que cometa
nem um Deus que tema no interior mais profundo de mim mesma
sou ímpia
mas sinto, e nem será virtude e sim pecado grave
sinto a benção dos céus a cada passo
blasfemo
será isso que faço
seria mulher de arder em fogueira
e nunca se sabe o que me espera
que eu, à luz do que para aí oiço e vejo, sou mesmo uma peste
o que eu não sou é mulher de duas caras
nem sou senhora de dar esmola à "pobrezinha" sem a sentar na minha mesa ou dar-lhe banho e lavar-lhe a roupa se o cheiro me incomoda, ir com ela ao juiz ou ao centro de emprego se não sabe dizer ou não percebe
mas tenho em mim um defeito monstro
por ele, estou em crer que perderei o paraíso, se ele existe
tenho pouca pachorra para a imbecilidade
para além de detestar os reaccionários e os fascistas
e mesmo apenas os que entendem natural que muitos trabalhem por salário
a fazer crescer em flecha a riqueza de poucos
e abomino os meninos armados em finos
e todos os que querem parecer o que não são
mas, mais ainda, abomino certas mulheres
tias é como muitos as chamam
mas eu nem sei se são apenas essas do estereotipo que me incomodam
são mulheres nem sempre assim tão estúpidas
as mesmo estúpidas, essas, va de retro
que olham do seu reino de virtudes
nem sempre escassas, aceito, e dá-me pena
olham uns e outros como se fossem os seres inferiores que elas aprenderam a afugentar tanto ou mais do que os ratos e baratas que abundam pelas casas herdadas de gerações de avós que, muitos deles, moiraram e elas dizem condes e marqueses ou ricos industriais
ou as outras, sem heranças nem louros, e que têm atitude semelhante
mulheres
eles são outro modo
detesto e pronto
que eu fui criada por mãe que viu muita miséria
mulher de virtudes
alma boa
e do pai nem digo a história
gente que me deu o que não tinha e
mais que tudo
deu-me um quadro onde está escrita a moral que sigo
e deu-me o respeito imenso pelo invisível seja ele
o espectro electromagnético
as almas penadas
ou os deuses
(ah! esqueci-me de dizer que não gosto de gente que se presume isto e mais aquilo e escreve
“à horas que estou à espera” ou “ gostei de lhe ver” )
“à horas que estou à espera” ou “ gostei de lhe ver” )
domingo, 7 de agosto de 2016
tristezas
se as tristezas da gente tivessem 100 paptitas como tem aquele bicho
se por cada patita a tristeza fugisse
mas as tristezas terão patas, sim, mas das que agarram
patitas como as da carraça
ou terão ventosas
terminais imensos recobertos
como eu gostaria de as retirar daqui onde
de vez em quando
fazem gala em visitar-me
nunca vem apenas uma
ou sim...
vem uma e instala-se
remexe-se, barafunda-me, recorda-me
depois...
corna
mula
tristezas são sempre umas filhas da puta
depois...
chama outras
desenterra mistérios
coisas muito antigas
tristezas mansas vêm vindo
quase elegantes
e ficam, assim, às quatro e às cinco
tem vezes que se entretêm
se embaralham
grasnam, vociferam
mas há aquele momento em que se calam
duas, três ou quatro tristezas em silêncio
digo-vos que é obra
um silêncio que é só olhos
apenas imagens sem palavras
é aí, quando elas nem se ouvem
porra, porrra
é aí que eu adorava que tivessem patas e se fossem
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tristeza
domingo, 31 de julho de 2016
saudade
as
saudades que doem
estão
inscritas no que não vivemos
dolorosas
imensas
são também as outras
o
capinzal ardendo
as
águas a caírem do alto da fraga
a
terra que nem é vermelha mas semelha sangue
essa
terra seca
tão
seca que era a terra antes das chuvas
as
saudades doem
o
telhado de zinco em noites de lua
o
ruído da água
nunca
mais ouvirás um ruído de chuva como ouviste nessas noites d' África
as
saudades ardem
"Ficarás
marcado pelo fogo da terra"
dizia-me
assim o preto velho sem dentes na fala
o
fogo da terra embebido no sangue da gente
marca
do gado das imensas manadas
a
saudade é sabre entre pele e carne
vinagre
escorrido em unha de bitacaia
uma
doença
um
mal de peste
esta
saudade que fica
não
te livras dela
nunca
te sai da pele
do
sangue
da
alma
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África; saudade
quarta-feira, 25 de maio de 2016
doze anos
há doze anos nisto
e nem me arrependo
e nem me arrependo
(muito pelo contrário)
doze anos de frutos colhidos
estou de parabéns, hoje,
eu e o meu Repensando
floriam as minhas orquídeas em 2004
eu e o meu Repensando
floriam as minhas orquídeas em 2004

florescem mais orquídeas, hoje, no meu quintal
que mais desejaria eu, se mais nem houvesse
e felizmente existe...
?
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doze anos
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
Colunista Acidental
estou na página dezoito da revista como Colunista Acidental
ora cliquem e leiam e vejam o resto deste nº dois da revista editada pela Maria Alfacinha a minha querida Helena de tantos e tão felizes reencontros
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revista inominável
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
poeiras
As vozes
dizem que é um limbo entre a alma lhe deixar o corpo e ser ainda gente.
E que
Deus a resguarda neste estar terreno.
Que Deus
sabe, propalam.
E eu pergunto:
que quer, assim, um Deus Todo Poderoso de um seu acólito.
Que os
mecanismos da engrenagem se tenham avariado e que, disso, tenha resultado esse
desconcerto, isso, eu percebo e, embora me custe que tenha ficado, assim, sem
jeito de poder revelar-se como gente, de todo o modo, aceito.
Que o meu
pasmo é ante aqueles que vêem Deus agindo, o Espírito actuando e a Alma
buscando o seu domínio, ali, onde eu vejo apenas células que definham, células
que nenhum sangue irriga e circuitos eléctricos que, por curto-circuito ou de
outro modo, deixam de transmitir mensagens ou que, se as transmitem, é sem nexo.
Cabe Deus
nisto, interrogo.
E a alma está
enfiada onde?
Espírito,
ainda balbucio, e fica-me um imenso espanto, que eu vejo interacções complexas,
coisa digna, sim, de deuses, mas não é neles que encontro resposta, e espírito, não, não vejo, não sinto. E mesmo a emoção, mesmo essa, eu a reporto a condições de energia, de forças: campos de umas e outras resolvendo-se num ter pena, ou dor, ou num chorar
a gente de cara lavada. E assim, tal e qual, com os afectos, e pena e tristeza
e alegria e as falas que aprendemos, e mesmo a criatividade numa tela ou numa página
de escrita matemática.
E se digo “estados de alma”, “estados de espírito” é apenas por retórica, pura literatura,
modo que terá ficado dos ancestrais que nem sequer imaginavam que éramos
fígado e rins, sequer vagina e útero e esperma de onde vínhamos, quanto mais
que éramos um cérebro que comanda e recria.
E se
interrogo: mecanismo que somos, ainda assim, tão perfeito, quem o terá
criado, respondo-me alijando disso um
Criador primeiro, antes dizendo deste modo: que condições, de energia e outras,
terão acontecido no universo para que surgisse, paulatino, vagaroso, nem sempre
tão inteligente, nem sempre tão perfeito, nem sempre tão capaz de inovação,
este homem que hoje somos?
O sopro de um
Deus em estátua de pedra soa bem e faz poesia, calha bem na imagem que gostamos
de ter do homem protegido por um Deus, ou deuses que seja, desta contingência
de nos pensarmos gregários, amantes e amados, e até criadores de outros, e
sermos afinal tão solitários.
Que a solidão,
sim, essa domina. Solidão é o mais que acontece nestes momentos de interrogação
e espera. A solidão jogada sobre a gente com a poeira cósmica.
Solidão, e a
certeza que é na obra que nos transmitimos. Nos riscos, nos telhados erguidos,
nas árvores plantadas, nos poemas lavrados. É na obra que somos. No mais,
perecemos, mesmo se gravados no coração dos outros como afirmam as vozes.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
esperança
hoje eu vi o mundo assim e tive também nele um vislumbre
quando o mal escorre pelo mundo
(esventra-o, apodrece-o)
quando tudo parece cor de sangue
(e negro que é a cor de cor nenhuma)
quando nem Deus
(e nem os deuses)
parece compadecer-se
quando nos é quase certo que
apenas o sol para iluminar e aquecer
quando tanto, tanto, tanto...
surge por aí uma renda
um desenho
uma canção
um riso
um gesto simples de menina
e a gente acredita que é tudo pesadelo
que acordamos num mundo de homens bons e justos
um mundo onde nem os deuses nem Deus serão mais precisos
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Pedro
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