hoje faz-me anos uma amiga
uma daquelas que a gente conhece desde o ventre
certamente
porque sonho é isso
e a gente conheceu-se nesse limbo
nessa orla onde tudo acontece
joguei com ela à cabra cega
corremos em cima de paredões
esfolámos joelhos
namorámos e tivemos desilusões
e às duas por três éramos afinal
duas mulheres em tamanho certo
tudo no sítio excepto
deuses!!!
tudo como deve àparte a loucura inata dessa outra
minha amiga do peito
tal e qual a minha ou semelhando
desde esse momento que nem tem fronteira
corremos de pés juntos para dentro do sonho
e lá estamos...
terça-feira, 29 de novembro de 2016
domingo, 27 de novembro de 2016
porra!!
tem dias como hoje
a gente parece que nunca tinha percebido
e descobre
e cora para não dizer: "porra!"
que a total falta de tudo, assim ali, face to face
não é coisa com que se brinque
custa
e nem é de cretino
que estupidez nem é isso
do que falo é coisa mais inata
menos palpável
dois palmos de testa sem poiso
alguma coisa na cabeça sem ter onde se acoite
local de onde tenha criado raízes
um suporte que estruture
e ilude
parece ser o que nunca foi
e confunde
envolve-se de faz de conta
e passa por ser apenas parvoíce
um jocoso feito graça idiota
e muito medo
e quando a gente a sente,
quando é sobre ti que a coisa se abate,
é de ficar corando num balbuciar sem ter mais jeito
"afinal existe"
"afinal é possível encontrar seres deste calibre
bondosas criaturas sem substrato
ou com ele mal doseado"
tem dias, sim, como hoje
a gente parece que nunca tinha percebido
e descobre
e cora para não dizer: "porra!"
que a total falta de tudo, assim ali, face to face
não é coisa com que se brinque
custa
e nem é de cretino
que estupidez nem é isso
do que falo é coisa mais inata
menos palpável
dois palmos de testa sem poiso
alguma coisa na cabeça sem ter onde se acoite
local de onde tenha criado raízes
um suporte que estruture
e ilude
parece ser o que nunca foi
e confunde
envolve-se de faz de conta
e passa por ser apenas parvoíce
um jocoso feito graça idiota
e muito medo
e quando a gente a sente,
quando é sobre ti que a coisa se abate,
é de ficar corando num balbuciar sem ter mais jeito
"afinal existe"
"afinal é possível encontrar seres deste calibre
bondosas criaturas sem substrato
ou com ele mal doseado"
tem dias, sim, como hoje
domingo, 16 de outubro de 2016
inóspitos
entre o Castelejo e a Cordoama a esquecer as luzes dos
bares e as luzes dos carros e mais o que sabemos
Acabado o sol de derramar-se
mar adentro em estertores de laranjas e roxos, nem mais um foco onde se
determine: aqui é caminho, ali é precipício.
O inóspito avolumando-se: montes
e céu como se fora nos primórdios.
Paisagem de vultos gordos
como ventres prenhes ou coxas de mulher. Redondos recortados em azuis
muito escuros e em negros e, mal adivinhados, uns verdes rasos e opacos.
E o silêncio: nada que não seja o coração
da gente e o ar que nos sustenta a ir e vir, dentro e fora, fora e dentro.
Luz, apenas a luz da lua, que
hoje foi noite dela ser quase uma lua grande, redonda como sol em céu de
Outubro.
A lua inteira e não apenas
um recorte.
Que em noites em que ela não
se vislumbre, por ser o céu, um céu de tempestade, será só o alumiar de um
relâmpago que varrerá a escuridão dos montes e da rocha e das dunas e do mar.
O mar, sempre.
O mar presente no odor intenso
a algas e a peixe e a iodo, e a cheiros de quando fomos seres dentro dele, um
cheiro de útero que trouxemos de termos sido medusas e girinos: termos sido feto.
E aqui e ali um
branco que é o mar sempre revolto, sempre despedaçando-se no alcantilado da
falésia e a derramar humores
alvos na areia lá em baixo, lá muito onde nem adivinhamos.
Inóspitos com a gente
dentro, imaginando.
domingo, 14 de agosto de 2016
eu pecadora...
não tenho deuses a quem peça perdão por faltas que cometa
nem um Deus que tema no interior mais profundo de mim mesma
sou ímpia
mas sinto, e nem será virtude e sim pecado grave
sinto a benção dos céus a cada passo
blasfemo
será isso que faço
seria mulher de arder em fogueira
e nunca se sabe o que me espera
que eu, à luz do que para aí oiço e vejo, sou mesmo uma peste
o que eu não sou é mulher de duas caras
nem sou senhora de dar esmola à "pobrezinha" sem a sentar na minha mesa ou dar-lhe banho e lavar-lhe a roupa se o cheiro me incomoda, ir com ela ao juiz ou ao centro de emprego se não sabe dizer ou não percebe
mas tenho em mim um defeito monstro
por ele, estou em crer que perderei o paraíso, se ele existe
tenho pouca pachorra para a imbecilidade
para além de detestar os reaccionários e os fascistas
e mesmo apenas os que entendem natural que muitos trabalhem por salário
a fazer crescer em flecha a riqueza de poucos
e abomino os meninos armados em finos
e todos os que querem parecer o que não são
mas, mais ainda, abomino certas mulheres
tias é como muitos as chamam
mas eu nem sei se são apenas essas do estereotipo que me incomodam
são mulheres nem sempre assim tão estúpidas
as mesmo estúpidas, essas, va de retro
que olham do seu reino de virtudes
nem sempre escassas, aceito, e dá-me pena
olham uns e outros como se fossem os seres inferiores que elas aprenderam a afugentar tanto ou mais do que os ratos e baratas que abundam pelas casas herdadas de gerações de avós que, muitos deles, moiraram e elas dizem condes e marqueses ou ricos industriais
ou as outras, sem heranças nem louros, e que têm atitude semelhante
mulheres
eles são outro modo
detesto e pronto
que eu fui criada por mãe que viu muita miséria
mulher de virtudes
alma boa
e do pai nem digo a história
gente que me deu o que não tinha e
mais que tudo
deu-me um quadro onde está escrita a moral que sigo
e deu-me o respeito imenso pelo invisível seja ele
o espectro electromagnético
as almas penadas
ou os deuses
(ah! esqueci-me de dizer que não gosto de gente que se presume isto e mais aquilo e escreve
“à horas que estou à espera” ou “ gostei de lhe ver” )
“à horas que estou à espera” ou “ gostei de lhe ver” )
domingo, 7 de agosto de 2016
tristezas
se as tristezas da gente tivessem 100 paptitas como tem aquele bicho
se por cada patita a tristeza fugisse
mas as tristezas terão patas, sim, mas das que agarram
patitas como as da carraça
ou terão ventosas
terminais imensos recobertos
como eu gostaria de as retirar daqui onde
de vez em quando
fazem gala em visitar-me
nunca vem apenas uma
ou sim...
vem uma e instala-se
remexe-se, barafunda-me, recorda-me
depois...
corna
mula
tristezas são sempre umas filhas da puta
depois...
chama outras
desenterra mistérios
coisas muito antigas
tristezas mansas vêm vindo
quase elegantes
e ficam, assim, às quatro e às cinco
tem vezes que se entretêm
se embaralham
grasnam, vociferam
mas há aquele momento em que se calam
duas, três ou quatro tristezas em silêncio
digo-vos que é obra
um silêncio que é só olhos
apenas imagens sem palavras
é aí, quando elas nem se ouvem
porra, porrra
é aí que eu adorava que tivessem patas e se fossem
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tristeza
domingo, 31 de julho de 2016
saudade
as
saudades que doem
estão
inscritas no que não vivemos
dolorosas
imensas
são também as outras
o
capinzal ardendo
as
águas a caírem do alto da fraga
a
terra que nem é vermelha mas semelha sangue
essa
terra seca
tão
seca que era a terra antes das chuvas
as
saudades doem
o
telhado de zinco em noites de lua
o
ruído da água
nunca
mais ouvirás um ruído de chuva como ouviste nessas noites d' África
as
saudades ardem
"Ficarás
marcado pelo fogo da terra"
dizia-me
assim o preto velho sem dentes na fala
o
fogo da terra embebido no sangue da gente
marca
do gado das imensas manadas
a
saudade é sabre entre pele e carne
vinagre
escorrido em unha de bitacaia
uma
doença
um
mal de peste
esta
saudade que fica
não
te livras dela
nunca
te sai da pele
do
sangue
da
alma
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África; saudade
quarta-feira, 25 de maio de 2016
doze anos
há doze anos nisto
e nem me arrependo
e nem me arrependo
(muito pelo contrário)
doze anos de frutos colhidos
estou de parabéns, hoje,
eu e o meu Repensando
floriam as minhas orquídeas em 2004
eu e o meu Repensando
floriam as minhas orquídeas em 2004

florescem mais orquídeas, hoje, no meu quintal
que mais desejaria eu, se mais nem houvesse
e felizmente existe...
?
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doze anos
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
Colunista Acidental
estou na página dezoito da revista como Colunista Acidental
ora cliquem e leiam e vejam o resto deste nº dois da revista editada pela Maria Alfacinha a minha querida Helena de tantos e tão felizes reencontros
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revista inominável
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
poeiras
As vozes
dizem que é um limbo entre a alma lhe deixar o corpo e ser ainda gente.
E que
Deus a resguarda neste estar terreno.
Que Deus
sabe, propalam.
E eu pergunto:
que quer, assim, um Deus Todo Poderoso de um seu acólito.
Que os
mecanismos da engrenagem se tenham avariado e que, disso, tenha resultado esse
desconcerto, isso, eu percebo e, embora me custe que tenha ficado, assim, sem
jeito de poder revelar-se como gente, de todo o modo, aceito.
Que o meu
pasmo é ante aqueles que vêem Deus agindo, o Espírito actuando e a Alma
buscando o seu domínio, ali, onde eu vejo apenas células que definham, células
que nenhum sangue irriga e circuitos eléctricos que, por curto-circuito ou de
outro modo, deixam de transmitir mensagens ou que, se as transmitem, é sem nexo.
Cabe Deus
nisto, interrogo.
E a alma está
enfiada onde?
Espírito,
ainda balbucio, e fica-me um imenso espanto, que eu vejo interacções complexas,
coisa digna, sim, de deuses, mas não é neles que encontro resposta, e espírito, não, não vejo, não sinto. E mesmo a emoção, mesmo essa, eu a reporto a condições de energia, de forças: campos de umas e outras resolvendo-se num ter pena, ou dor, ou num chorar
a gente de cara lavada. E assim, tal e qual, com os afectos, e pena e tristeza
e alegria e as falas que aprendemos, e mesmo a criatividade numa tela ou numa página
de escrita matemática.
E se digo “estados de alma”, “estados de espírito” é apenas por retórica, pura literatura,
modo que terá ficado dos ancestrais que nem sequer imaginavam que éramos
fígado e rins, sequer vagina e útero e esperma de onde vínhamos, quanto mais
que éramos um cérebro que comanda e recria.
E se
interrogo: mecanismo que somos, ainda assim, tão perfeito, quem o terá
criado, respondo-me alijando disso um
Criador primeiro, antes dizendo deste modo: que condições, de energia e outras,
terão acontecido no universo para que surgisse, paulatino, vagaroso, nem sempre
tão inteligente, nem sempre tão perfeito, nem sempre tão capaz de inovação,
este homem que hoje somos?
O sopro de um
Deus em estátua de pedra soa bem e faz poesia, calha bem na imagem que gostamos
de ter do homem protegido por um Deus, ou deuses que seja, desta contingência
de nos pensarmos gregários, amantes e amados, e até criadores de outros, e
sermos afinal tão solitários.
Que a solidão,
sim, essa domina. Solidão é o mais que acontece nestes momentos de interrogação
e espera. A solidão jogada sobre a gente com a poeira cósmica.
Solidão, e a
certeza que é na obra que nos transmitimos. Nos riscos, nos telhados erguidos,
nas árvores plantadas, nos poemas lavrados. É na obra que somos. No mais,
perecemos, mesmo se gravados no coração dos outros como afirmam as vozes.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
esperança
hoje eu vi o mundo assim e tive também nele um vislumbre
quando o mal escorre pelo mundo
(esventra-o, apodrece-o)
quando tudo parece cor de sangue
(e negro que é a cor de cor nenhuma)
quando nem Deus
(e nem os deuses)
parece compadecer-se
quando nos é quase certo que
apenas o sol para iluminar e aquecer
quando tanto, tanto, tanto...
surge por aí uma renda
um desenho
uma canção
um riso
um gesto simples de menina
e a gente acredita que é tudo pesadelo
que acordamos num mundo de homens bons e justos
um mundo onde nem os deuses nem Deus serão mais precisos
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Pedro
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
só mais um abraço III
no dia 17 foi na capital
foi na livraria Ler Devagar
no espaço quase mítico da LX Factory
|
![]() |
| e em torno do livro choveram afectos |
| reencontros |
| esperas |
| recordações |
diz que foi um bom momento... |
obrigada a todos e à editora
e podem ver o que escreveu o Luís Bento
e a Maria Helena que transcreveu o texto que leu na apresentação e fez uma linda reportagem
o texto que o Joaquim leu
Olá, boa tarde a todos; parabéns, Maria da Fátima!
Tenho contactos literários com a
Fátima desde o longínquo maio de 2008, quando eu tinha aderido a uma oficina de
escrita na internet e queria o conforto de mais portugueses, numa oficina que
era frequentada por uma enorme maioria de brasileiros.
Convidei-a porque a paisagem dos
blogues de então era semelhante às páginas de facebook atuais, em que a maioria
escreve apenas pensamentos ou desabafos, enquanto que o blogue dela apresentava
textos que contavam histórias com enredo, com personagens. E ela aceitou.
Nem sempre o convívio foi
pacífico, porque as nossa escritas são muito diferentes e as nossas conceções
de narrativa chocaram algumas vezes. Creio mesmo que se escrevêssemos sobre o
mesmo facto específico, talvez não fosse fácil assegurar que escrevíamos sobre
o mesmo assunto.
O tratamento que ela dá à
história é muito especial, singular. O facto está lá, mas é narrado através do
sentir das personagens, através dos pequenos gestos delas, em narrativas muito
sentidas. Muitas vezes tive ocasião de lhe dizer que este ou aquele texto dela
me tinha criado um nó na garganta. E muitas vezes vi classificar a escrita dela
como prosa poética.
Outra característica da escrita
dela é o uso das formas verbais. É muito frequente o uso de um futuro
imperfeito, revelando, no tempo da peripécia em questão, factos futuros, que a
personagem ainda não sabe. («E
no abraço que hão-de dar-se, saberás que não são choros que te lavam o
rosto, mas tão-somente a chuva que cairá intensa nesse inverno na
capital do que já fora um vasto Império.»)
Mas, curiosamente, o narrador nem
sempre é omnisciente; muitas vezes revela que também não sabe bem o que vai
acontecer ou se a personagem sabe factos passados ou não. Ela usa magistralmente
o futuro perfeito composto, que exprime incerteza ou suposições sobre factos
passados. («Num dia,
Inacinha terá deixado o nó lasso, e o lenço escorregou. E ela a deixar
que as tranças se soltassem, ter-se-á sorrido. Terá até desfeito
o entrelaçado do cabelo, e terá ficado vestida apenas dele.»)
Este bascular entre tempos, este
vai-vem entre acontecimentos a decorrer e memórias da personagem, podem causar
alguma dificuldade ao leitor. Mas a Fátima não conta a história para lhe facilitar
a vida. As narrativas dela exigem do leitor atenção e empenho, para acompanhar
o quê e o como lhe é contado. Mas valem a pena, porque nos meandros da
filigrana, com que ela envolve as histórias, há pedras preciosas.
Percebe-se porque é que o
narrador nem sempre sabe o que aconteceu ou vai acontecer: porque a autora é
ferozmente adversa de qualquer planeamento. Sentiria isso como uma inverdade,
antes de mais para consigo própria. Como terá dito alguém, depois de saber a
história já não vale a pena escrevê-la. A história nascerá assim de algum
estímulo que só ela sabe e depois vais crescendo por um sentir, todo feito de
atenção aos sussurros do seu íntimo, que faz lembrar o sopro da musa dos
Antigos. Acho que já a vi dizer que as personagens tomaram conta da história. E,
pelo que tenho lido, têm tomado boa conta das histórias dela.
Um abraço, Fátima! Como todos
sabemos, este é mais um livro de muitos que continuarão a nascer. Assim haja
leitores.
Boa tarde a todos.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
escolhas
Só quem não percebe nada
quem entende que é seu o bem estar em que vive
Só quem acha que pobre é o que bate à porta
uma esmolinha, minha senhora...
e que nada perturbe, que nada incomode
Só quem tem muito medo
medo dos olhos deles
medo do confronto
medo de si mesmo
Sei lá eu quem são os que receiam
tanto que nem olham
ou se olham não vêem...
Agora imaginem um chefe de família sem ter dólares
sem um chavo para dar de barato ao traficante
e os olhos dos filhos a pedirem: e a casa, pai? e o meu quarto de brinquedos?
Imaginem os milhares que não saem por não terem nada
ou os que saem assim mesmo
(e nem falo no avô que olha o neto ali ao sabor das ondas do Mar Mediterrâneo)
Com ou sem dólares, morrem uns e outros
hordes assustadoras
desconfortáveis
e nem de mão estendida como deve
uma esmolinha, senhores, pelos deuses
Eles exigem
eles querem
eles sabem e escolhem
Querem a Europa e, se for apenas por mais uns quilómetros, preferem a do norte
Querem Londres, Paris, Berlim em vez do sol de Lisboa ou de Barcelona
que afinal saber é normal nesta era do google
Arriscaram tudo e sabem onde, depois de nada de nada, lhes seria o paraíso desejado
Vêm por aí fora e invadem o confortozinho dos meninos deste canto do mundo
ai deuses que lá vêm estes hereges obrigar os nossos netos a andar de burka
Lá vêm a mostrar-nos, sim, que o nosso paraíso e o inferno deles é tudo o mesmo: resultados díspares dos senhores dos deuses e do petróleo
e senhores do dinheiro
que às vezes faz muito jeito que existam uns cobres
nunca se sabe, n'é?!, se um dia destes seremos nós esses
ricos a ousar escolher um canto da Terra onde nos acolhermos
nunca se sabe...
quem entende que é seu o bem estar em que vive
Só quem acha que pobre é o que bate à porta
uma esmolinha, minha senhora...
e que nada perturbe, que nada incomode
medo dos olhos deles
medo do confronto
medo de si mesmo
Sei lá eu quem são os que receiam
tanto que nem olham
ou se olham não vêem...
Agora imaginem um chefe de família sem ter dólares
sem um chavo para dar de barato ao traficante
e os olhos dos filhos a pedirem: e a casa, pai? e o meu quarto de brinquedos?
Imaginem os milhares que não saem por não terem nada
ou os que saem assim mesmo
(e nem falo no avô que olha o neto ali ao sabor das ondas do Mar Mediterrâneo)
Com ou sem dólares, morrem uns e outros
hordes assustadoras
desconfortáveis
e nem de mão estendida como deve
uma esmolinha, senhores, pelos deuses
Eles exigem
eles querem
eles sabem e escolhem
Querem a Europa e, se for apenas por mais uns quilómetros, preferem a do norte
Querem Londres, Paris, Berlim em vez do sol de Lisboa ou de Barcelonaque afinal saber é normal nesta era do google
Arriscaram tudo e sabem onde, depois de nada de nada, lhes seria o paraíso desejado
Vêm por aí fora e invadem o confortozinho dos meninos deste canto do mundo
ai deuses que lá vêm estes hereges obrigar os nossos netos a andar de burka
Lá vêm a mostrar-nos, sim, que o nosso paraíso e o inferno deles é tudo o mesmo: resultados díspares dos senhores dos deuses e do petróleo
e senhores do dinheiro
que às vezes faz muito jeito que existam uns cobres
nunca se sabe, n'é?!, se um dia destes seremos nós esses
ricos a ousar escolher um canto da Terra onde nos acolhermos
nunca se sabe...
sábado, 15 de agosto de 2015
só mais um abraço II
o livro vai tomando o seu caminho
este nas mãos do filhote do Henry Bugalho brasileiro a viver em Manchester
um outro por Lisboa exposto na Ler Devagar
e a saga da 6ª Mostra teve uma segunda semana mais tranquila
mas no dia treze esteve lá a Cristina Taquelim contando
e que bem ela contava
e o livro lá foi na sua parafernália
e, no entretanto, o Francisco Castelo pretendeu receitas para cozinhar gaivotas, e eu escrevi uma quase ode aos pássaros que, destituídos das iguarias que lhes davam os barcos na faina de ir vir no encalço da sardinha, poluem os telhados e as ruas num desespero de raça ameaçada.
Reza assim:
Não a tomes demasiado nova
a melhor será a de Setembro
tem certeza se é nascida nesse ano
se tem ainda algumas penas de castanho
se o grasnar é, ainda, pouco altivo e pouco atrevido
Ficarás observando pelas noites de finais de Agosto
verás as mães vigias em seus poisos
e saberás que, esses, são animais velhos
tios e pais dos que apenas de dia andam voando
Aguardarás pelos dias de Setembro
quase Outubro chegando
e tomarás um sabre
terás que munir-te da faca dos antepassados
um sabre de gume afiado
uma lâmina num redondo que iguale a lua em crescente
com ela virada ao luar de uma lua a imitar luar de Agosto
encandearás o bicho
tomarás seu distraimento em tuas mãos e
de um só golpe
com um rodar firme, lhe cortarás o pescoço
e deixarás que sangre
deixarás que pingue o sangue sobre o sumo de limões apanhados por uma lua azul
apenas limões desses farão reverter o coalho
e enquanto aguardas que o corpo da ave fique seco dos humores da vida
que oiças por outras tantas noites o grito desespero
o grasnar estridente de seus ancestrais
o bater de asas
os voos rasantes que te farão e de que deves escudar-te
os bandos ruidosos a tornarem branco o céu da noite
Só depois farás o que é costume
Escaldarás em água o que foi ser livre
e deitarás em cova de areia
uma cova funda na areia da praia
as penas que tiraste do seu corpo morto
uma a uma
farás desse modo ou terás em teu porvir
em cada dia e noite
em todo o sítio onde te encontrares
o grito imenso da gaivota que mataste
e ainda que te cuides em cada um deste gestos que aqui aconselho
coisas que me dizem os deuses e meus avós deixaram de uns aos outros
ainda assim,
que seja cabidela ou canja
ou que faças sua carne como se fosse arroz de pato
terás em cada noite de qualquer Agosto
o ruido cavo que são as suas patas poisando
antes de teres desferido o golpe.
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; 6ª mostra,
o livro
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
só mais um abraço
o convite da Biblioteca da UALG e o logotipo da Editora
instantâneos da apresentação em Faro
e a crítica da DrªAdriana Nogueira Professora da Univ. do Algarve publicada no suplemento Postal do Algarve
a capa do António Brigas e o cartaz feito na União de Freguesias
um aspecto da sala onde decorreu a 6ª mostra de autores de Lagos
um instantâneo da apresentação em Lagos
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o livro
segunda-feira, 25 de maio de 2015
onze anos!!!
Tanto tempo!
Alguns desaparecemos no mistério de um nick-name nunca desvendado.
Terá sido um tempo de morrermos...
Um tempo de vivermos outras vidas.
Terá sido, decerto, o tempo necessário.
Alguns ainda por aqui andamos.
De cor (ação) relembro uns quantos neste dia de aniversário do Repensando
wind (Isabel Mar Cruz) , Inconformada (Maria Alfacinha), TCA (Amadeu Brigas), OrCA (Jorge Castro), Perplexo, Alice Duarte (do Vida de Vidro ), Bertus (Alberto Oliveira), Lobices (Joaquim Nogueira), José Alex Gandum (d´O meu sofá amarelo), Ze Almaro (do Aguarelas escritas ), Luis Maia (do comblogs de ver) Jorge Pinheiro (do Expresso da linha), Eduardo Penteado Lunardelli (do Varal de ideias ), Luis Bento (do bento vai para dentro), Henry Alfred Bugalho (do Samizdat), João Menéres (do Grifo planante) , Isabela Figueiredo (do Novo Mundo )
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ANIVERSÁRIO
terça-feira, 19 de maio de 2015
delet
Importante
não é eliminar nomes e outras burocracias como os cartões do banco ou a
certidão de nascimento. Tudo registos anódinos, mesmo os filmes, mesmo as
fotografias.
Importante
seria eliminar aquilo que nos é como sangue.
Importante
seria desfazer pronomes, adjectivos e tempos verbais, palavras com que compusemos
personagens, seres que, algum dia, tenham respirado o ar da serra ou o ar
empestado duma cidade grande.
Importante
seria apagá-las. Rasgar todos os papéis, fazer delete em cada arquivo. Que nunca ninguém pudesse espantar-se ou
cogitar hipóteses, saber sequer que nada fizemos que fosse para explicar-lhes e
muito menos para que soubessem de onde e como, e de que modo, lhes sobreveio
aquele jeito de ranger os dentes, aquele não saber conter um choro ou parar a inusitada gargalhada.
Importante
seria queimar tudo e ir apreciando a lassidão do fogo, descalços e nus, que
mesmo o cabelo que um dia foi farto, entrançado ou rodando em cachos, mesmo
esse, importante seria desbarata-lo em sucessivas tesouradas.
Não
deixar nem panos, nem lençóis ou fronhas, fatos, cuecas ou casacos. Queimá-los em
cova apropriada que, recebendo as cinzas, fosse terra onde nunca medrassem favas
ou tomates, fruta ou legume que, crescendo, conteria vestígios nossos oriundos
daquela saia, do colarinho da camisa de ramagens, dos punhos da blusa que vestimos
por um baptismo.
Ficarmos
despojados.
O
nome riscado de capas de livros, e até os tachos e malgas em que cozinhamos serem
retorcidos por pancada forte e fendidos em cacos os de vidro ou de loiça ou de
barro.
E nem
por descuido grave, deixar uma só frase a pespontar assim, ou semelhando: hoje
aconteceu-me perceber que o mundo pode ser diferente e que é em mim que começa
tudo.
Que
nenhuma ideia sobeje.
Que
não fique registo escrito ou desenhado, e nem raízes quadradas ou polinómios
traindo o ser que fomos.
Importante
para não nos imputarem um depois, seria destruir cada vestígio.
Para
que nada reste a seguir ao dia em que, dum modo ou de outro, se quebre o fio
ténue, indefinido e frágil, com que aqui andamos a sorrir ou com menos bons
sentimentos de uns para os outros.
Para
que nada mais sejamos, ou nos pretendam, quando for silenciada a orquestra,
perdido o ritmo com que flui o sangue.
Para
não haver depois, quando tudo falhe por falta de maestro, quando, por inércia, nos terminem as cadências do corpo: aurículas e ventrículos, cúspides e aorta, e o
compasso dos pulmões arfando.
Para
que não fique nada que nos perdure.
Para
que, definitivamente, não sejamos.
E em
jeito de epílogo deixarmos um desejo e algumas perguntas num modo
pueril de encararmos, assim como dizer: gostaria de envolver o corpo nu num
pano tinto com cores fortes, tons africanos, amarelos e azuis e verdes e
vermelhos que o fogo consumisse.
E constatarmos, pesarosos: gostaria, mas não tenho voz que peça, ou voz que
mande.
Assim,
ou perguntando num receio todo ele cérebro: as carnes ficam moles e a pele
franzida, o sangue ainda corre quando chega o cangalheiro?
E
acrescermos num lamento: pergunto, mas ninguém responde.
Ou inquirir
num temor contido repleto de ironia: nas veias, o sangue, parando, terá deixado
troços ocos, ouvir-se-ão estampidos como no fogo-de-artifício em feira de Agosto?
E não
soltarmos sequer o murmúrio que lamentasse: pergunto, mas, ainda que
respondam, já não oiço.
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