quarta-feira, 21 de outubro de 2015

só mais um abraço III

no dia 17 foi na capital



foi na livraria Ler Devagar 
no espaço quase mítico da LX Factory


e em torno do livro choveram afectos

reencontros  











esperas

recordações

diz que foi um bom momento...

obrigada a todos e à editora 

e podem ver o que  escreveu o Luís Bento
e a Maria Helena que transcreveu o texto que leu na apresentação e fez uma linda reportagem

o texto que o Joaquim leu

Olá, boa tarde a todos; parabéns, Maria da Fátima!

Tenho contactos literários com a Fátima desde o longínquo maio de 2008, quando eu tinha aderido a uma oficina de escrita na internet e queria o conforto de mais portugueses, numa oficina que era frequentada por uma enorme maioria de brasileiros.
Convidei-a porque a paisagem dos blogues de então era semelhante às páginas de facebook atuais, em que a maioria escreve apenas pensamentos ou desabafos, enquanto que o blogue dela apresentava textos que contavam histórias com enredo, com personagens. E ela aceitou. 

Nem sempre o convívio foi pacífico, porque as nossa escritas são muito diferentes e as nossas conceções de narrativa chocaram algumas vezes. Creio mesmo que se escrevêssemos sobre o mesmo facto específico, talvez não fosse fácil assegurar que escrevíamos sobre o mesmo assunto.

O tratamento que ela dá à história é muito especial, singular. O facto está lá, mas é narrado através do sentir das personagens, através dos pequenos gestos delas, em narrativas muito sentidas. Muitas vezes tive ocasião de lhe dizer que este ou aquele texto dela me tinha criado um nó na garganta. E muitas vezes vi classificar a escrita dela como prosa poética.

Outra característica da escrita dela é o uso das formas verbais. É muito frequente o uso de um futuro imperfeito, revelando, no tempo da peripécia em questão, factos futuros, que a personagem ainda não sabe. («E no abraço que hão-de dar-se, saberás que não são choros que te lavam o rosto, mas tão-somente a chuva que cairá intensa nesse inverno na capital do que já fora um vasto Império.»)

Mas, curiosamente, o narrador nem sempre é omnisciente; muitas vezes revela que também não sabe bem o que vai acontecer ou se a personagem sabe factos passados ou não. Ela usa magistralmente o futuro perfeito composto, que exprime incerteza ou suposições sobre factos passados. («Num dia, Inacinha terá deixado o nó lasso, e o lenço escorregou. E ela a deixar que as tranças se soltassem, ter-se-á sorrido. Terá até desfeito o entrelaçado do cabelo, e terá ficado vestida apenas dele.»)

Este bascular entre tempos, este vai-vem entre acontecimentos a decorrer e memórias da personagem, podem causar alguma dificuldade ao leitor. Mas a Fátima não conta a história para lhe facilitar a vida. As narrativas dela exigem do leitor atenção e empenho, para acompanhar o quê e o como lhe é contado. Mas valem a pena, porque nos meandros da filigrana, com que ela envolve as histórias, há pedras preciosas.

Percebe-se porque é que o narrador nem sempre sabe o que aconteceu ou vai acontecer: porque a autora é ferozmente adversa de qualquer planeamento. Sentiria isso como uma inverdade, antes de mais para consigo própria. Como terá dito alguém, depois de saber a história já não vale a pena escrevê-la. A história nascerá assim de algum estímulo que só ela sabe e depois vais crescendo por um sentir, todo feito de atenção aos sussurros do seu íntimo, que faz lembrar o sopro da musa dos Antigos. Acho que já a vi dizer que as personagens tomaram conta da história. E, pelo que tenho lido, têm tomado boa conta das histórias dela.

Um abraço, Fátima! Como todos sabemos, este é mais um livro de muitos que continuarão a nascer. Assim haja leitores.

Boa tarde a todos.



as fotos, umas são da wind e outras do meu irmão

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

escolhas

Só quem não percebe nada
quem entende que é seu o bem estar em que vive
Só quem acha que pobre é o que bate à porta
uma esmolinha, minha senhora...
e que nada perturbe, que nada incomode
Só quem tem muito medo
medo dos olhos deles
medo do confronto
medo de si mesmo
Sei lá eu quem são os que receiam
tanto que nem olham
ou se olham não vêem...
Agora imaginem um chefe de família sem ter dólares
sem um chavo para dar de barato ao traficante
e os olhos dos filhos a pedirem: e a casa, pai? e o meu quarto de brinquedos?
Imaginem os milhares que não saem por não terem nada
ou os que saem assim mesmo
(e nem falo no avô que olha o neto ali ao sabor das ondas do Mar Mediterrâneo)
Com ou sem dólares, morrem uns e outros
hordes assustadoras
desconfortáveis
e nem de mão estendida como deve
uma esmolinha, senhores, pelos deuses
Eles exigem
eles querem
eles sabem e escolhem
Querem a Europa e, se for apenas por mais uns quilómetros, preferem a do norte
Querem Londres, Paris, Berlim em vez do sol de Lisboa ou de Barcelona
que afinal saber é normal nesta era do google
Arriscaram tudo e sabem onde, depois de nada de nada, lhes seria o paraíso desejado
Vêm por aí fora e invadem o confortozinho dos meninos deste canto do mundo
ai  deuses que lá vêm estes hereges obrigar os nossos netos a andar de burka
Lá vêm a mostrar-nos, sim, que o nosso paraíso e o inferno deles é tudo o mesmo: resultados díspares dos senhores dos deuses e do petróleo
e senhores do dinheiro
que às vezes faz muito jeito que existam uns cobres
nunca se sabe, n'é?!,  se um dia destes seremos nós esses
ricos a ousar escolher um canto da Terra onde nos acolhermos
nunca se sabe...

sábado, 15 de agosto de 2015

só mais um abraço II

o livro vai tomando o seu caminho




este nas mãos do filhote do Henry Bugalho brasileiro a viver em Manchester

um outro por Lisboa exposto na Ler Devagar

 

e a saga da 6ª Mostra teve uma segunda semana mais tranquila
mas no dia treze esteve lá a Cristina Taquelim contando
e que bem ela contava
 e o livro lá foi na sua parafernália



e, no entretanto, o Francisco Castelo pretendeu receitas para cozinhar gaivotas, e eu escrevi uma quase ode aos pássaros que, destituídos das iguarias que lhes davam os barcos na faina de ir vir no encalço da sardinha, poluem os telhados e as ruas num desespero de raça ameaçada.

Reza assim:
Não a tomes demasiado nova
a melhor será a de Setembro
tem certeza se é nascida nesse ano

se tem ainda algumas penas de castanho

se o grasnar é, ainda, pouco altivo e pouco atrevido

Ficarás observando pelas noites de finais de Agosto

verás as mães vigias em seus poisos
e saberás que, esses, são animais velhos
tios e pais dos que apenas de dia andam voando 
Aguardarás pelos dias de Setembro
quase Outubro chegando 
e tomarás um sabre
terás que munir-te da faca dos antepassados
um sabre de gume afiado 
uma lâmina num redondo que iguale a lua em crescente
com ela virada ao luar de uma lua a imitar luar de Agosto
encandearás o bicho
tomarás seu distraimento em tuas mãos e
de um só golpe
com um rodar firme, lhe cortarás o pescoço 
e deixarás que sangre
deixarás que pingue o sangue sobre o sumo de limões apanhados por uma lua azul
apenas limões desses farão reverter o coalho
e enquanto aguardas que o corpo da ave fique seco dos humores da vida
que oiças por outras tantas noites o grito desespero
o grasnar estridente de seus ancestrais
o bater de asas
os voos rasantes que te farão e de que deves escudar-te
os bandos ruidosos a tornarem branco o céu da noite
Só depois farás o que é costume
Escaldarás em água o que foi ser livre
e deitarás em cova de areia 
uma cova funda na areia da praia
as penas que tiraste do seu corpo morto
uma a uma
farás desse modo ou terás em teu porvir
em cada dia e noite 
em todo o sítio onde te encontrares
o grito imenso da gaivota que mataste
e ainda que te cuides em cada um deste gestos que aqui aconselho
coisas que me dizem os deuses e meus avós deixaram de uns aos outros
ainda assim,
que seja cabidela ou canja
ou que faças sua carne como se fosse arroz de pato
terás em cada noite de qualquer Agosto
o ruido cavo que são as suas patas poisando 
antes de teres desferido o golpe.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

só mais um abraço


o convite da Biblioteca da UALG e o logotipo da Editora



instantâneos da apresentação  em Faro

e a crítica da DrªAdriana Nogueira Professora da Univ. do Algarve publicada no suplemento Postal do Algarve


a capa do António Brigas e o cartaz feito na União de Freguesias



um aspecto da sala onde decorreu a 6ª mostra de autores de Lagos



 um instantâneo da apresentação em Lagos

segunda-feira, 25 de maio de 2015

onze anos!!!


Tanto tempo!
Alguns desaparecemos no mistério de um nick-name nunca desvendado.
Terá sido um tempo de morrermos...
Um tempo de vivermos outras vidas.
Terá sido, decerto, o tempo necessário.
Alguns ainda por aqui andamos.
De cor (ação)  relembro uns quantos  neste dia de aniversário do Repensando  
wind (Isabel Mar Cruz) ​, Inconformada (Maria Alfacinha)​, TCA (Amadeu Brigas​), OrCA (Jorge Castro​), Perplexo, Alice Duarte (do Vida de Vidro ), Bertus (Alberto Oliveira)​, Lobices (Joaquim Nogueira)​, José Alex Gandum​ (d´O meu sofá amarelo), Ze Almaro (do Aguarelas escritas )​, Luis Maia (do comblogs de ver) Jorge Pinheiro (do Expresso da linha)​, Eduardo Penteado Lunardelli​ (do Varal de ideias ), Luis Bento (do bento vai para dentro)​, Henry Alfred Bugalho​ (do Samizdat), João Menéres​ (do Grifo planante) , Isabela Figueiredo​ (do Novo Mundo )

terça-feira, 19 de maio de 2015

delet

Importante não é eliminar nomes e outras burocracias como os cartões do banco ou a certidão de nascimento. Tudo registos anódinos, mesmo os filmes, mesmo as fotografias.
Importante seria eliminar aquilo que nos é como sangue.
Importante seria desfazer pronomes, adjectivos e tempos verbais, palavras com que compusemos personagens, seres que, algum dia, tenham respirado o ar da serra ou o ar empestado duma cidade grande.
Importante seria apagá-las. Rasgar todos os papéis, fazer delete em cada arquivo. Que nunca ninguém pudesse espantar-se ou cogitar hipóteses, saber sequer que nada fizemos que fosse para explicar-lhes e muito menos para que soubessem de onde e como, e de que modo, lhes sobreveio aquele jeito de ranger os dentes, aquele não saber conter um choro ou parar a inusitada gargalhada.
Importante seria queimar tudo e ir apreciando a lassidão do fogo, descalços e nus, que mesmo o cabelo que um dia foi farto, entrançado ou rodando em cachos, mesmo esse, importante seria desbarata-lo em sucessivas tesouradas.
Não deixar nem panos, nem lençóis ou fronhas, fatos, cuecas ou casacos. Queimá-los em cova apropriada que, recebendo as cinzas, fosse terra onde nunca medrassem favas ou tomates, fruta ou legume que, crescendo, conteria vestígios nossos oriundos daquela saia, do colarinho da camisa de ramagens, dos punhos da blusa que vestimos por um baptismo.
Ficarmos despojados.
O nome riscado de capas de livros, e até os tachos e malgas em que cozinhamos serem retorcidos por pancada forte e fendidos em cacos os de vidro ou de loiça ou de barro.
E nem por descuido grave, deixar uma só frase a pespontar assim, ou semelhando: hoje aconteceu-me perceber que o mundo pode ser diferente e que é em mim que começa tudo.
Que nenhuma ideia sobeje.
Que não fique registo escrito ou desenhado, e nem raízes quadradas ou polinómios traindo o ser que fomos.
Importante para não nos imputarem um depois, seria destruir cada vestígio.
Para que nada reste a seguir ao dia em que, dum modo ou de outro, se quebre o fio ténue, indefinido e frágil, com que aqui andamos a sorrir ou com menos bons sentimentos de uns para os outros.
Para que nada mais sejamos, ou nos pretendam, quando for silenciada a orquestra, perdido o ritmo com que flui o sangue.
Para não haver depois, quando tudo falhe por falta de maestro, quando, por inércia, nos terminem as cadências do corpo: aurículas e ventrículos, cúspides e aorta, e o compasso dos pulmões arfando.
Para que não fique nada que nos perdure.
Para que, definitivamente, não sejamos.

E em jeito de epílogo deixarmos um desejo e algumas perguntas num modo pueril de encararmos, assim como dizer: gostaria de envolver o corpo nu num pano tinto com cores fortes, tons africanos, amarelos e azuis e verdes e vermelhos que o fogo consumisse.
E constatarmos, pesarosos: gostaria, mas não tenho voz que peça, ou voz que mande.
Assim, ou perguntando num receio todo ele cérebro: as carnes ficam moles e a pele franzida, o sangue ainda corre quando chega o cangalheiro?
E acrescermos num lamento: pergunto, mas ninguém responde.
Ou inquirir num temor contido repleto de ironia: nas veias, o sangue, parando, terá deixado troços ocos, ouvir-se-ão estampidos como no fogo-de-artifício em feira de Agosto?
E não soltarmos sequer o murmúrio que lamentasse: pergunto, mas, ainda que respondam, já não oiço.




quarta-feira, 8 de abril de 2015

o dom




Um dia, um amigo que a tinha, disse-me: a Fé é um dom de Deus!
Ensinou-me, em palavras simples, que era preciso buscar,
percorrer caminhos,
mas que sem o dom não iria longe...
(como ser artista no desenho ou nas letras, pensei eu...)
e ainda hoje não tenho o dom com que, imagino, uns e outros, acreditam nos céus,
eu que nem creio numa alma que me acalente o corpo,
nem "remissão dos pecados" me diz mais do que literatura,
nem "vida eterna" é mais que expressão bela, idiossincrática.
E, assim, sem Fé, tenho vivido.
Sem o dom que não recebo, por graça de Deus, nem na pia do baptismo,
eu que não busquei
ou que, buscando, confundi sinais.
E, assim, blasfemo,
e tanto que dou por mim a orar, não a Ele, mas aos anjos,
esses seres brincalhões que me escondem tudo
me mudam, até, a posição das almofadas
e deixam que julgue ter perdido, por longos tempos,
um guarda-chuva ou documentos importantes;
e acendem as luzes que eu juro ter apagado,
e abrem-me os olhos e os outros sentidos ou eu, por um tris, batia com o carro.
Tenho os meus anjos, sim!
Um batalhão que me atazina e me protege.
Com eles cá me amanho
e que Deus nunca se zangue...
.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

pesadelos



É madrugada e eu estarei em meio a um pesadelo.
pedofilia legal ?!
Ou será o mundo rodando às arrecuas e eu almareando.
O mundo invertendo valores pelos quais lutaram tantos, e eu aqui acreditando que o mundo só pudesse ir adiante. 
E engano-me.
E nem é só Paris, que os seus tiros, os seus mortos serão a ponta ínfima dum icebergue imenso. meu pesadelo chama-se Nigéria, Islão, Síria...o Mundo.
O meu pesadelo são os sem nome e os que lutam sozinhos.
chicotadas?!
excisão genital?!
Boko Haram



o papa conden

Que a  voz de Francisco tenha sido bem ouvida, que um desenho a mais ou um desenho a menos, ainda que parodiando, seja o profeta ou sejam os deuses, não pode ser razão. 
Que ninguém  tenha nunca pensado: se eles não tivessem desenhado. Que ninguém tenha tido esse pensamento, a tentar justificar o injustificável.
Não há razões para a crueldade. Não há razões para que crianças e mulheres e homens sofram atrocidades em nome de crenças e morais.
Que não haja um só que pense: se eles não tivessem desenhado.
Que falem, que escrevam, que desenhem.
Armas de papel, como lhes chamam.
Não desfoquemos a nossa atenção do principal.
Não são os desenhos, não, que matam e torturam e chacinam, nem é por os terem criado, truculentos e ofensivos, alertando. 
Não são eles a causa. 
A causa são os homens que desejam um mundo  às arrecuas onde domine a luz das trevas. 
Em nome do Profeta, em nome de Deus. 
E blasfémia é apenas um dos pecados que cometem.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

dias dez e onze



nestes dias dez e onze que foram de celebração pelos meus lados, 
aconteceu pelo mundo tanta coisa
aconteceram coisa boas
aconteceram coisa terríveis
aconteceu que uma menina enrolada em explosivos, 
simplesmente explodiu
foi em África e fez notícia
mas nem cartazes pelas ruas que se vissem
nem manifestações augustas
nem solidariedades forjadas pelas redes 
morreram uma data deles sem nada mais do que 
ter sido num dos dias em que cá em casa celebramos











Atentado em Paris contra o jornal Charlie Hebdo

“Explosivos estavam colados à volta do corpo da menina que parecia não ter mais de 10 anos”








quinta-feira, 18 de setembro de 2014

domingo, 22 de junho de 2014

dois contos ilustrados



dois pequenos textos em torno da aldeia

uma aldeia que existe em maquete numa sala do Museu Municipal de Lagos
ou nem será isso, e existe algures uma Aldeia da Senhora do Forte e o Pedro Reis na sua arte fez dela uma miniatura
o certo é que a aldeia existe  na magia de uns tantos que lhe fazem a Festa desde há mais de vinte anos

e um bocado inerte de casinhas toma forma e fica uma aldeia com gente
pode?!
coisa de malucos, decerto...
um dia convidaram-me: anda à festa! 
e eu fui e achei piada
e porque gosto do insólito, escrevi um conto    
este ano escrevi outro 
estão num opúsculo com dois desenhitos ilustrando 





O RAPAZ DA GRAVATA COR DE MALVA

O corpo estava deitado na areia. Ou estaria caído, pensou Adosindo, aproximando-se. E ao ouvir o respirar lento de quem está apenas dormindo, murmurou, aliviado:
– Afinal não é um morto.
E ficou investigando à luz já fraca do sol-posto.
Era um corpo de homem. Jovem. Talvez nem tivesse vinte anos. Fosse ele quem fosse, tinha uma farta cabeleira negra espalhada na areia.
– Não teria vindo pelo mar ou o cabelo estaria, ao menos, húmido, balbuciou Adosindo a olhar o corpo virado sobre a areia, quase de borco.
Tinha a cara meio tapada e, no entanto, Adosindo podia ver-lhe a tez escurinha e lisa, a boca entreaberta e as narinas largas.
– De onde teria vindo, interrogou-se.
Havia areia salpicada sobre o fato de um linho branco amarrotado e, a ver-se quase nada por baixo do corpo, a ponta rosa malva de uma gravata.
– Um tom semelhante à palma da mão, ponderou Adosindo a olhar a mão esquerda que o homem tinha jogada, sem cuidado, sobre a areia.
Adosindo regressava da faina. Vinha do outro lado. Nesse dia, tinha vendido uma canasta de polvos. Ajoelhou-se ao lado do corpo sem tocar-lhe, sem se chegar demasiado. Adosindo estranhando aquele, ali, inusitado. Tinha-o visto, mal atracara a chata. O barquito com o peixe para seu consumo. Vendera o resto, e sorte a sua que era uso que vendesse tudo o que não comia. Era o que lhe dava para o vinho e para o pão. Adosindo tinha trazido de um e outro para quando fosse ao outro dia, que ali, daquele lado, não havia nada. Nem havia outro que ali viesse, de dia ou de noite, que não fosse ele, o Adosindo pescador de peixe para a sua boca e um, a mais, que vendesse. Uns cruzados com que aviasse a pinga de que gostava, mas bebia com termos, e o petróleo para o candeeiro. Daria também para comprar remédios se fosse necessário, mas Adosindo nunca tinha estado doente e, se tinha uma febre, um inchaço em pé ou perna por enleio nas redes, trompaço em rocha, ou mordida de moreia, tratava-os com mezinhas como fez daquela vez em que escorregou na rocha e catrapus. A perna custou a curar-se, nem com tanto cataplasma de ervas que lhe fez, e nem com a areia fria da madrugada. Tirando isso, Adosindo era saudável, e a venda do peixe chegava para que tivesse umas moedas escondidas em local tão guardado que receava que um dia, ele mesmo não desse com o esconderijo.
O corpo mexeu-se. O rapaz rezingou como se fosse dorido e voltou-se. Ficou de costas sobre a areia, e Adosindo afastou-se sem ruido. Quem o visse a saltar como coelho julgaria que era ele o ser furtivo ali na língua de areia entre o mar e a ria.
De onde estava, Adosindo mal lhe via os olhos a fixarem um céu que era já de estrelas e, mais desconfiado que medroso, sustinha o ar nos pulmões. Que nem um leve respirar o denunciasse.
E foi sem dar pela presença de Adosindo, que o rapaz se ergueu e ficou sentado. Ficou de costas voltadas para o local onde estava Adosindo. Não podia vê-lo. Esticou os braços em cruz de cristo. Espreguiçou-se. Depois, devagarinho, pôs-se de pé, os dois braços erguidos e, muito como se fosse ilusão o que Adosindo estava vendo e ao outro dia nem iria contar no cais, o homem foi subindo, os pés a soltarem-se da areia muito esticados, descalços os pés dele a deixarem o chão que a lua cheia iluminava, redonda, vermelha, a rasar o horizonte.
Adosindo benzeu-se.
Adosindo ajoelhou na areia a olhar os céus, e benzeu-se de novo.
Seria deus ou anjo, ou seria a alma dum antepassado. Adosindo não sabia, nem isso lhe deu cuidado. Benzeu-se e ajoelhou para que não se desse o caso de ser castigado por arcanjo ou demónio, mas cuidado dava-lhe não perceber como o homem tinha ali chegado. Que partisse daquele modo, sendo espanto nem era nada que o perturbasse, que o que Adosindo desejava é que o homem nem ali tivesse estado.
Tirou os peixes da chata e recolheu-a para terra e, por razões que nem ele sabe, Adosindo, nos passos que deu a dirigir-se para a choupana, evitou passar no local onde o homem, ainda nem há nada, estava deitado. Passou ao largo, e assim tomaria o costume, a partir dessa noite.
Se, no dia seguinte, Adosindo contasse, lá do outro lado, ninguém iria acreditar, como não tinham acreditado numa palavra do que lhes contara quando foi de terem aparecido as pedras. Um monte de pedras naquele mar de areia. Tantas pedras quanto as necessárias para construir o barraco onde morava. Fora no tempo dele ter vindo tresmalhado da cidade, que antes viver no desterro daquela língua de areia, a ria de um lado e o mar do outro, que ouvi-los, dia e noite: Adosindo isto e Adosindo aqueloutro, que ele lá tinha que ser inculpado dos erros que tinham feito aqueles que o puseram no mundo.
Nem triste nem abandonado, viera apenas para ficar distante, viver sozinho e, a ligá-lo ao outro lado, apenas a chata e o peixe, um naco de pão o vinho e o petróleo para o candeeiro.
As pedras tinham aparecido e Adosindo nem tinha estranhado. Serviu-se delas para construir o barraco, e o telhado fê-lo de algas entretecidas com caniço. Mais tarde, havia de trazer umas telhas, mas isso foi muito depois.
Adosindo não iria contar. Desta vez, não lhes daria motivo. Não diria: sabem, estava um rapaz deitado na areia e levantou-se, abriu os braços e subiu aos céus. Nem por mim deu. Nem salve-o deus, deixou que lhe dissesse.
Não permitiria que, a ouvi-lo, se benzessem duas vezes as mulheres e se rissem dele os homens, inconfessadamente receosos.
Mas quando os jornais noticiassem, Adosindo teria a certeza que era o rapaz que tinha estado deitado na areia. Diriam que numa aldeia que nem tinha sido construída, numa aldeia que existia apenas no espírito de alguns homens, um rapaz tinha criado uma barcarola, uma espécie de pássaro que, ao toque de uma fita de seda rosa malva dependurada no pescoço como gravata, o levava de uma banda a outra através dos tempos.
Adosindo sabia e, ainda assim, a ouvir as notícias, havia de benzer-se.
Na língua de areia, ficaria, para todo o sempre, uma mancha rosada no local onde Adosindo vira, e só ele tinha visto, subir aos céus um rapaz que, se tivesse vindo do outro lado, só podia ter vindo a nado ou de barco, e não teria sido, que o corpo estava completamente seco e, para aqueles lados, era só a chata do Adosindo e não tinha sido ele a trazê-lo.










sábado, 7 de junho de 2014

requium

De repente as ruas entupidas
Cheira a suores e cheira a mijos e assados e fritos e odores de desinfectantes, sabões e outros
Soçobram as calçadas aos andares de tantos
Seres divididos, seres inacabados
Duplos, cada um deles em pedaços
Ou serão maus seres, que seria o que diriam as mães se ainda se dedicassem ao amor maternal e esse lhes saísse em palavras 
Seres tolhidos por medos tão enormes como eram os de antes enrolados em edredões ou mantas, lençóis e colchas
De repente, as ruas atulhadas 
E um mal estar virulento a cobrir tudo
O céu nublado e este frio de inverno a descarregar-se junho adentro e a chuva e o mar que devia estar azul ou verde e está cor de chumbo salpicado de farinha de trigo
O céu pesado a descair-se nesta aguinha falrrirpa que nem se pode dizer: agora chove
E o silêncio: nem uma gaivota cacareja e nada se ouve 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

ainda António Lobo Antunes


 " O que eu penso é que as pessoas são loucas, e que é preciso traduzir essa secreta loucura, os saltos de imaginação e de humor, o medo da morte, as coisas inexprimíveis.  E deixar de por os homens em prateleiras catalogadas. Tudo é contraditório. E o amor, por exemplo, acompanha-se sempre do ódio (...) Eu acho que o romance tem de ser uma espécie de tricot subterrâneo, a correr por baixo da aparência."

do livro D'este viver aqui neste papel descripto 
            cartas da guerra
aerograma de 9.7.91 Chiúme (Angola)







quinta-feira, 24 de abril de 2014

escola do antigamente



A minha professora da primeira classe zurzia de modo natural uma menina e outra com reguadas se pingava a folha de prova com um pingo caído do aparo ou se errava os que vão na conta de dividir ou errava os dois erres duma palavra ou dizia dezanove em vez de dezasseis a responder a quantos são quatro vezes quatro.
A minha professora batia nas palmas das mãos das suas alunas com uma régua fininha ou com a chamada menina dos cinco olhos.
Mas essa professora que tive na primeira classe e que era muito minha amiga, assim dizia a minha mãe, essa senhora que tinha pó de arroz a saltitar nos pelos do rosto rosado e bochechudo, zurzia de régua de madeira colocada em esquina quem não levasse bata branca, ou não a levasse bem lavada, ou quem, como a Adélia, não levasse cuecas a cobrir as partes.
A Adélia não as usava. Ponto.
Haverá por este termo quem tenha estado lá e tenha visto.
Perante a sala muda de receio e pasmo, sei lá se também de raivas, sei lá eu se de medo seriam as carinhas das meninas vestidinhas de bibinhos brancos em filas de carteiras certinhas, duas meninas em cada uma, e a régua a estalar nas carnes da Adélia, o rabo nu virado para a sala.
A minha professora da primeira classe, e nem era medo que lhe tinha, eu que, além da bata vincada e a luzir de alva, trazia sempre cuequinhas, cada dia umas, e um vestido por debaixo da bata que era coisa muito apreciada pela professora que levantava a ponta do bibe a ver o que cada uma trazia por baixo com o mesmo à vontade com que virava as folhas dos cadernos a ver se os tínhamos limpos.
Não seriam todas, mas era natural e aconteceu na minha primeira classe e na segunda.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

António Lobo Antunes


 
li que venceu o prémio literário internacional Nonino 2014, atribuído por uma empresa secular italiana, produtora da bebida alcoólica grappa (para quem, como eu não sabe, é uma aguardente italiana)
e lembrei-me
aqui deixo uma das suas crónicas

Os Pobrezinhos

"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados,milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein