segunda-feira, 25 de maio de 2015
onze anos!!!
Tanto tempo!
Alguns desaparecemos no mistério de um nick-name nunca desvendado.
Terá sido um tempo de morrermos...
Um tempo de vivermos outras vidas.
Terá sido, decerto, o tempo necessário.
Alguns ainda por aqui andamos.
De cor (ação) relembro uns quantos neste dia de aniversário do Repensando
wind (Isabel Mar Cruz) , Inconformada (Maria Alfacinha), TCA (Amadeu Brigas), OrCA (Jorge Castro), Perplexo, Alice Duarte (do Vida de Vidro ), Bertus (Alberto Oliveira), Lobices (Joaquim Nogueira), José Alex Gandum (d´O meu sofá amarelo), Ze Almaro (do Aguarelas escritas ), Luis Maia (do comblogs de ver) Jorge Pinheiro (do Expresso da linha), Eduardo Penteado Lunardelli (do Varal de ideias ), Luis Bento (do bento vai para dentro), Henry Alfred Bugalho (do Samizdat), João Menéres (do Grifo planante) , Isabela Figueiredo (do Novo Mundo )
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ANIVERSÁRIO
terça-feira, 19 de maio de 2015
delet
Importante
não é eliminar nomes e outras burocracias como os cartões do banco ou a
certidão de nascimento. Tudo registos anódinos, mesmo os filmes, mesmo as
fotografias.
Importante
seria eliminar aquilo que nos é como sangue.
Importante
seria desfazer pronomes, adjectivos e tempos verbais, palavras com que compusemos
personagens, seres que, algum dia, tenham respirado o ar da serra ou o ar
empestado duma cidade grande.
Importante
seria apagá-las. Rasgar todos os papéis, fazer delete em cada arquivo. Que nunca ninguém pudesse espantar-se ou
cogitar hipóteses, saber sequer que nada fizemos que fosse para explicar-lhes e
muito menos para que soubessem de onde e como, e de que modo, lhes sobreveio
aquele jeito de ranger os dentes, aquele não saber conter um choro ou parar a inusitada gargalhada.
Importante
seria queimar tudo e ir apreciando a lassidão do fogo, descalços e nus, que
mesmo o cabelo que um dia foi farto, entrançado ou rodando em cachos, mesmo
esse, importante seria desbarata-lo em sucessivas tesouradas.
Não
deixar nem panos, nem lençóis ou fronhas, fatos, cuecas ou casacos. Queimá-los em
cova apropriada que, recebendo as cinzas, fosse terra onde nunca medrassem favas
ou tomates, fruta ou legume que, crescendo, conteria vestígios nossos oriundos
daquela saia, do colarinho da camisa de ramagens, dos punhos da blusa que vestimos
por um baptismo.
Ficarmos
despojados.
O
nome riscado de capas de livros, e até os tachos e malgas em que cozinhamos serem
retorcidos por pancada forte e fendidos em cacos os de vidro ou de loiça ou de
barro.
E nem
por descuido grave, deixar uma só frase a pespontar assim, ou semelhando: hoje
aconteceu-me perceber que o mundo pode ser diferente e que é em mim que começa
tudo.
Que
nenhuma ideia sobeje.
Que
não fique registo escrito ou desenhado, e nem raízes quadradas ou polinómios
traindo o ser que fomos.
Importante
para não nos imputarem um depois, seria destruir cada vestígio.
Para
que nada reste a seguir ao dia em que, dum modo ou de outro, se quebre o fio
ténue, indefinido e frágil, com que aqui andamos a sorrir ou com menos bons
sentimentos de uns para os outros.
Para
que nada mais sejamos, ou nos pretendam, quando for silenciada a orquestra,
perdido o ritmo com que flui o sangue.
Para
não haver depois, quando tudo falhe por falta de maestro, quando, por inércia, nos terminem as cadências do corpo: aurículas e ventrículos, cúspides e aorta, e o
compasso dos pulmões arfando.
Para
que não fique nada que nos perdure.
Para
que, definitivamente, não sejamos.
E em
jeito de epílogo deixarmos um desejo e algumas perguntas num modo
pueril de encararmos, assim como dizer: gostaria de envolver o corpo nu num
pano tinto com cores fortes, tons africanos, amarelos e azuis e verdes e
vermelhos que o fogo consumisse.
E constatarmos, pesarosos: gostaria, mas não tenho voz que peça, ou voz que
mande.
Assim,
ou perguntando num receio todo ele cérebro: as carnes ficam moles e a pele
franzida, o sangue ainda corre quando chega o cangalheiro?
E
acrescermos num lamento: pergunto, mas ninguém responde.
Ou inquirir
num temor contido repleto de ironia: nas veias, o sangue, parando, terá deixado
troços ocos, ouvir-se-ão estampidos como no fogo-de-artifício em feira de Agosto?
E não
soltarmos sequer o murmúrio que lamentasse: pergunto, mas, ainda que
respondam, já não oiço.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
o dom
Um dia, um amigo que a tinha, disse-me: a Fé é um dom de Deus!
Ensinou-me, em palavras simples, que era preciso buscar,
percorrer caminhos,
mas que sem o dom não iria longe...
(como ser artista no desenho ou nas letras, pensei eu...)
e ainda hoje não tenho o dom com que, imagino, uns e outros, acreditam nos céus,
eu que nem creio numa alma que me acalente o corpo,
nem "remissão dos pecados" me diz mais do que literatura,
nem "vida eterna" é mais que expressão bela, idiossincrática.
E, assim, sem Fé, tenho vivido.
Sem o dom que não recebo, por graça de Deus, nem na pia do baptismo,
eu que não busquei
ou que, buscando, confundi sinais.
E, assim, blasfemo,
e tanto que dou por mim a orar, não a Ele, mas aos anjos,
esses seres brincalhões que me escondem tudo
me mudam, até, a posição das almofadas
e deixam que julgue ter perdido, por longos tempos,
um guarda-chuva ou documentos importantes;
e acendem as luzes que eu juro ter apagado,
e abrem-me os olhos e os outros sentidos ou eu, por um tris, batia com o carro.
Tenho os meus anjos, sim!
Um batalhão que me atazina e me protege.
Com eles cá me amanho
e que Deus nunca se zangue...
.
Ensinou-me, em palavras simples, que era preciso buscar,
percorrer caminhos,
mas que sem o dom não iria longe...
(como ser artista no desenho ou nas letras, pensei eu...)
e ainda hoje não tenho o dom com que, imagino, uns e outros, acreditam nos céus,
eu que nem creio numa alma que me acalente o corpo,
nem "remissão dos pecados" me diz mais do que literatura,
nem "vida eterna" é mais que expressão bela, idiossincrática.
E, assim, sem Fé, tenho vivido.
Sem o dom que não recebo, por graça de Deus, nem na pia do baptismo,
eu que não busquei
ou que, buscando, confundi sinais.
E, assim, blasfemo,
e tanto que dou por mim a orar, não a Ele, mas aos anjos,
esses seres brincalhões que me escondem tudo
me mudam, até, a posição das almofadas
e deixam que julgue ter perdido, por longos tempos,
um guarda-chuva ou documentos importantes;
e acendem as luzes que eu juro ter apagado,
e abrem-me os olhos e os outros sentidos ou eu, por um tris, batia com o carro.
Tenho os meus anjos, sim!
Um batalhão que me atazina e me protege.
Com eles cá me amanho
e que Deus nunca se zangue...
.
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dom; fé; deus
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
revista Samizdat
vamos ler e convidar a ler
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Calamèo - http://en.calameo.com/read/
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SAMIZDAT
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
pesadelos
É madrugada e eu estarei em meio a um pesadelo.
![]() |
| pedofilia legal ?! |
Ou será o mundo rodando às arrecuas e eu almareando.
O mundo invertendo valores pelos quais lutaram tantos, e eu aqui acreditando que o mundo só pudesse ir adiante.
E engano-me.
E nem é só Paris, que os seus tiros, os seus mortos serão a ponta ínfima dum icebergue imenso. O meu pesadelo chama-se Nigéria, Islão, Síria...o Mundo.
O meu pesadelo são os sem nome e os que lutam sozinhos.
![]() |
| chicotadas?! |
![]() |
| excisão genital?! |
![]() |
| Boko Haram |
![]() |
| o papa conden |
Que ninguém tenha nunca pensado: se eles não tivessem desenhado. Que ninguém tenha tido esse pensamento, a tentar justificar o injustificável.
Não há razões para a crueldade. Não há razões para que crianças e mulheres e homens sofram atrocidades em nome de crenças e morais.
Que não haja um só que pense: se eles não tivessem desenhado.
Que falem, que escrevam, que desenhem.
Armas de papel, como lhes chamam.
Não desfoquemos a nossa atenção do principal.
Não são os desenhos, não, que matam e torturam e chacinam, nem é por os terem criado, truculentos e ofensivos, alertando.
Não são eles a causa.
A causa são os homens que desejam um mundo às arrecuas onde domine a luz das trevas.
Em nome do Profeta, em nome de Deus.
E blasfémia é apenas um dos pecados que cometem.
Que falem, que escrevam, que desenhem.
Armas de papel, como lhes chamam.
Não desfoquemos a nossa atenção do principal.
Não são os desenhos, não, que matam e torturam e chacinam, nem é por os terem criado, truculentos e ofensivos, alertando.
Não são eles a causa.
A causa são os homens que desejam um mundo às arrecuas onde domine a luz das trevas.
Em nome do Profeta, em nome de Deus.
E blasfémia é apenas um dos pecados que cometem.
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Charlie; Papa
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
dias dez e onze
nestes dias dez e onze que foram de celebração pelos meus
lados,
aconteceu pelo mundo tanta coisa
aconteceram coisa boas
aconteceram coisa terríveis
aconteceu que uma menina enrolada em
explosivos,
simplesmente explodiu
foi em África e fez notícia
mas nem cartazes pelas ruas que se vissem
nem manifestações augustas
nem solidariedades forjadas pelas redes
morreram uma data deles sem nada mais do
que
ter sido num dos dias em que cá em casa
celebramos
Atentado em Paris contra o jornal Charlie Hebdo
“Explosivos estavam colados à volta do corpo da menina que parecia não ter mais de 10 anos”
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Charllie; crianças
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
domingo, 22 de junho de 2014
dois contos ilustrados
dois pequenos textos em torno da aldeia
uma aldeia que existe em maquete numa sala do Museu Municipal de Lagos
ou nem será isso, e existe algures uma Aldeia da Senhora do Forte e o Pedro Reis na sua arte fez dela uma miniatura
o certo é que a aldeia existe na magia de uns tantos que lhe fazem a Festa desde há mais de vinte anos
e um bocado inerte de casinhas toma forma e fica uma aldeia com gente
pode?!
coisa de malucos, decerto...
um dia convidaram-me: anda à festa!
e eu fui e achei piada
e porque gosto do insólito, escrevi um conto
e este ano escrevi outro
estão num opúsculo com dois desenhitos ilustrando
O
RAPAZ DA GRAVATA COR DE MALVA
O corpo estava deitado na
areia. Ou estaria caído, pensou Adosindo, aproximando-se. E ao ouvir o respirar
lento de quem está apenas dormindo, murmurou, aliviado:
– Afinal não é um morto.
E ficou investigando à luz
já fraca do sol-posto.
Era um corpo de homem. Jovem.
Talvez nem tivesse vinte anos. Fosse ele quem fosse, tinha uma farta cabeleira
negra espalhada na areia.
– Não teria vindo pelo mar
ou o cabelo estaria, ao menos, húmido, balbuciou Adosindo a olhar o corpo
virado sobre a areia, quase de borco.
Tinha a cara meio tapada e,
no entanto, Adosindo podia ver-lhe a tez escurinha e lisa, a boca entreaberta e
as narinas largas.
– De onde teria vindo,
interrogou-se.
Havia areia salpicada sobre
o fato de um linho branco amarrotado e, a ver-se quase nada por baixo do corpo,
a ponta rosa malva de uma gravata.
– Um tom semelhante à palma
da mão, ponderou Adosindo a olhar a mão esquerda que o homem tinha jogada, sem
cuidado, sobre a areia.
Adosindo regressava da
faina. Vinha do outro lado. Nesse dia, tinha vendido uma canasta de polvos.
Ajoelhou-se ao lado do corpo sem tocar-lhe, sem se chegar demasiado. Adosindo
estranhando aquele, ali, inusitado. Tinha-o visto, mal atracara a chata. O
barquito com o peixe para seu consumo. Vendera o resto, e sorte a sua que era uso
que vendesse tudo o que não comia. Era o que lhe dava para o vinho e para o
pão. Adosindo tinha trazido de um e outro para quando fosse ao outro dia, que
ali, daquele lado, não havia nada. Nem havia outro que ali viesse, de dia ou de
noite, que não fosse ele, o Adosindo pescador de peixe para a sua boca e um, a
mais, que vendesse. Uns cruzados com que aviasse a pinga de que gostava, mas
bebia com termos, e o petróleo para o candeeiro. Daria também para comprar
remédios se fosse necessário, mas Adosindo nunca tinha estado doente e, se
tinha uma febre, um inchaço em pé ou perna por enleio nas redes, trompaço em
rocha, ou mordida de moreia, tratava-os com mezinhas como fez daquela vez em
que escorregou na rocha e catrapus. A perna custou a curar-se, nem com tanto
cataplasma de ervas que lhe fez, e nem com a areia fria da madrugada. Tirando
isso, Adosindo era saudável, e a venda do peixe chegava para que tivesse umas
moedas escondidas em local tão guardado que receava que um dia, ele mesmo não
desse com o esconderijo.
O corpo mexeu-se. O rapaz
rezingou como se fosse dorido e voltou-se. Ficou de costas sobre a areia, e
Adosindo afastou-se sem ruido. Quem o visse a saltar como coelho julgaria que
era ele o ser furtivo ali na língua de areia entre o mar e a ria.
De onde estava, Adosindo mal
lhe via os olhos a fixarem um céu que era já de estrelas e, mais desconfiado
que medroso, sustinha o ar nos pulmões. Que nem um leve respirar o denunciasse.
E foi sem dar pela presença
de Adosindo, que o rapaz se ergueu e ficou sentado. Ficou de costas voltadas
para o local onde estava Adosindo. Não podia vê-lo. Esticou os braços em cruz
de cristo. Espreguiçou-se. Depois, devagarinho, pôs-se de pé, os dois braços
erguidos e, muito como se fosse ilusão o que Adosindo estava vendo e ao outro
dia nem iria contar no cais, o homem foi subindo, os pés a soltarem-se da areia
muito esticados, descalços os pés dele a deixarem o chão que a lua cheia
iluminava, redonda, vermelha, a rasar o horizonte.
Adosindo benzeu-se.
Adosindo ajoelhou na areia a
olhar os céus, e benzeu-se de novo.
Seria deus ou anjo, ou seria
a alma dum antepassado. Adosindo não sabia, nem isso lhe deu cuidado. Benzeu-se
e ajoelhou para que não se desse o caso de ser castigado por arcanjo ou
demónio, mas cuidado dava-lhe não perceber como o homem tinha ali chegado. Que
partisse daquele modo, sendo espanto nem era nada que o perturbasse, que o que
Adosindo desejava é que o homem nem ali tivesse estado.
Tirou os peixes da chata e
recolheu-a para terra e, por razões que nem ele sabe, Adosindo, nos passos que
deu a dirigir-se para a choupana, evitou passar no local onde o homem, ainda
nem há nada, estava deitado. Passou ao largo, e assim tomaria o costume, a
partir dessa noite.
Se, no dia seguinte,
Adosindo contasse, lá do outro lado, ninguém iria acreditar, como não tinham
acreditado numa palavra do que lhes contara quando foi de terem aparecido as
pedras. Um monte de pedras naquele mar de areia. Tantas pedras quanto as
necessárias para construir o barraco onde morava. Fora no tempo dele ter vindo
tresmalhado da cidade, que antes viver no desterro daquela língua de areia, a
ria de um lado e o mar do outro, que ouvi-los, dia e noite: Adosindo isto e
Adosindo aqueloutro, que ele lá tinha que ser inculpado dos erros que tinham
feito aqueles que o puseram no mundo.
Nem triste nem abandonado,
viera apenas para ficar distante, viver sozinho e, a ligá-lo ao outro lado,
apenas a chata e o peixe, um naco de pão o vinho e o petróleo para o candeeiro.
As pedras tinham aparecido e
Adosindo nem tinha estranhado. Serviu-se delas para construir o barraco, e o
telhado fê-lo de algas entretecidas com caniço. Mais tarde, havia de trazer
umas telhas, mas isso foi muito depois.
Adosindo não iria contar.
Desta vez, não lhes daria motivo. Não diria: sabem, estava um rapaz deitado na
areia e levantou-se, abriu os braços e subiu aos céus. Nem por mim deu. Nem
salve-o deus, deixou que lhe dissesse.
Não permitiria que, a
ouvi-lo, se benzessem duas vezes as mulheres e se rissem dele os homens,
inconfessadamente receosos.
Mas quando os jornais
noticiassem, Adosindo teria a certeza que era o rapaz que tinha estado deitado
na areia. Diriam que numa aldeia que nem tinha sido construída, numa aldeia que
existia apenas no espírito de alguns homens, um rapaz tinha criado uma
barcarola, uma espécie de pássaro que, ao toque de uma fita de seda rosa malva
dependurada no pescoço como gravata, o levava de uma banda a outra através dos
tempos.
Adosindo sabia e, ainda
assim, a ouvir as notícias, havia de benzer-se.
Na língua de areia, ficaria,
para todo o sempre, uma mancha rosada no local onde Adosindo vira, e só ele
tinha visto, subir aos céus um rapaz que, se tivesse vindo do outro lado, só
podia ter vindo a nado ou de barco, e não teria sido, que o corpo estava completamente
seco e, para aqueles lados, era só a chata do Adosindo e não tinha sido ele a
trazê-lo.
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aldeia da senhora do forte; conto
sábado, 7 de junho de 2014
requium
De
repente as ruas entupidas
Cheira a suores e cheira a mijos e assados e fritos e odores de desinfectantes, sabões e outros
Seres divididos, seres inacabados
Duplos, cada um deles em pedaços
Ou serão maus seres, que
seria o que diriam as mães se ainda
se dedicassem ao amor maternal e esse lhes saísse em palavras
Seres tolhidos por medos tão enormes como eram os de antes enrolados em edredões ou mantas, lençóis e colchas
De repente, as ruas atulhadas
E um mal estar virulento a cobrir tudo
O céu nublado e este frio de inverno a descarregar-se junho
adentro e a chuva e o mar que devia estar azul ou verde e está cor de chumbo salpicado
de farinha de trigo
O céu pesado a descair-se nesta aguinha falrrirpa que nem se pode dizer: agora chove
E o silêncio: nem uma gaivota cacareja e nada se ouve
quinta-feira, 29 de maio de 2014
ainda António Lobo Antunes
" O que eu penso é que as pessoas são loucas, e que é preciso traduzir essa secreta loucura, os saltos de imaginação e de humor, o medo da morte, as coisas inexprimíveis. E deixar de por os homens em prateleiras catalogadas. Tudo é contraditório. E o amor, por exemplo, acompanha-se sempre do ódio (...) Eu acho que o romance tem de ser uma espécie de tricot subterrâneo, a correr por baixo da aparência."
do livro D'este viver aqui neste papel descripto
cartas da guerra
aerograma de 9.7.91 Chiúme (Angola)
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António Lobo Antunes
quinta-feira, 24 de abril de 2014
escola do antigamente
A minha professora da primeira classe zurzia de modo
natural uma menina e outra com reguadas se pingava a folha de prova com um
pingo caído do aparo ou se errava os que vão na conta de dividir ou errava os
dois erres duma palavra ou dizia dezanove em vez de dezasseis a responder a
quantos são quatro vezes quatro.
A minha professora batia nas palmas das mãos das suas
alunas com uma régua fininha ou com a chamada menina dos cinco olhos.
Mas essa professora que tive na primeira classe e que era
muito minha amiga, assim dizia a minha mãe, essa senhora que tinha pó de arroz
a saltitar nos pelos do rosto rosado e bochechudo, zurzia de régua de madeira
colocada em esquina quem não levasse bata branca, ou não a levasse bem lavada,
ou quem, como a Adélia, não levasse cuecas a cobrir as partes.
A Adélia não as usava. Ponto.
Haverá por este termo quem tenha estado lá e tenha visto.
Perante a sala muda de receio e pasmo, sei lá se também
de raivas, sei lá eu se de medo seriam as carinhas das meninas vestidinhas de
bibinhos brancos em filas de carteiras certinhas, duas meninas em cada uma, e a
régua a estalar nas carnes da Adélia, o rabo nu virado para a sala.
A minha professora da primeira classe, e nem era medo que
lhe tinha, eu que, além da bata vincada e a luzir de alva, trazia sempre cuequinhas,
cada dia umas, e um vestido por debaixo da bata que era coisa muito apreciada
pela professora que levantava a ponta do bibe a ver o que cada uma trazia por
baixo com o mesmo à vontade com que virava as folhas dos cadernos a ver se os tínhamos
limpos.
Não seriam todas, mas era natural e
aconteceu na minha primeira classe e na segunda.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
António Lobo Antunes
li que venceu o prémio literário internacional Nonino 2014, atribuído por uma empresa secular italiana, produtora da bebida alcoólica grappa (para quem, como eu não sabe, é uma aguardente italiana)
e lembrei-me
aqui deixo uma das suas crónicas
Os Pobrezinhos
"Na minha família os
animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os
animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre,
pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana
buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de
serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados
pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se
salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência
doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras
características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não
andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem
pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos,
parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima
distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre;
eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era
«pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias
reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e
outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os
seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da
periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de
distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não
serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de
igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as
minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que
esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só
nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por
correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada,
não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e
irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na
casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma
recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste
tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu,
malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou
comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres
definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao
perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um
encolher de ombros
- O que é que o menino
quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser
pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para
jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres
presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em
fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade
sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a
Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de
cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a
vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou
óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico
que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida
que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para
o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre
Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família
assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os
milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos
premiados,milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a
incenso.
Tanto pobre, tanta
Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que
principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o
sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde
cortavam a cabeça aos reis"
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António Lobo Antunes
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
papoilas
por inícios deste ano, o papoilas de janeiro faz cinco anos
neste excerto de um dos contos e no desenho com que o meu estimado TCA o ilustrou, o meu abraço ao Amadeu Brigas e à Maria Helena
Ercília debruçada na tábua. A folha de papel vegetal sobre a
revista. A mão esquerda muito tensa a segurá-la. A segurar o papel contra a
revista que não pudera alfinetá-los – era uma revista emprestada pela Rosinha
modista. A mão tensa carregava aberta no papel. Cada unha de Ercília ficava
muito branca na extremidade. Quase tão branca, cada unha na sua respectiva
extremidade, como cada uma das mamas esborrachadas no vestido.
Com a outra mão, Ercília passava o lápis por cada risco do
desenho. O desenho copiado para a transparência do papel. De vez em quando, com
muito cuidado, Ercília levantava a folha de papel vegetal. Olhava por debaixo.
Certificava-se de pétala de flor ou asa de borboleta bem traçada.
Ele e o papel presos por Ercília. O papel pela mão de unhas
brancas nas extremidades. Ele pelos dois seios muito brancos tapando-se e
destapando-se ao deslizar da mão de Ercília sobre o papel vegetal.
Como se recorda bem! Ele encostado na parede em frente com o
ar inocente de um menino na 3ª classe.
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papoilas de janeiro
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Boas Festas
este é um dos cartazes que neste Natal divulgam poesia nas montras de Lagos
uma iniciativa doVieira Calado e dos Amigos de Lagos
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
vista para o rio
a segunda parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no 26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba
Tinham-se
conhecido na festa de aniversário do Frederico Cunha.
Não
se lembra quantos anos fazia aquele amigo do Carlos.
Ela
teria vinte, ou pouco mais.
Tinham
jantado bem e bebido bastante. Um vinho caro que eram sempre os vinhos em casa do
Frederico. No regresso, desceram pelas escadas e o Carlos
colocou-lhe o braço direito sobre os ombros e deixou que escorregasse, e os
dedos da mão esquerda dele ficaram a tocar a nervura do seu seio por baixo da
axila.
Casaram
dois meses depois pelo registo com separação total de bens. Teriam desconfiado
que não ia resultar. E nem filhos. Nunca fizeram qualquer esforço. Ela tomava a
pílula e ele, naquele temor de doenças que tivesse algum dia adquirido, sempre
usou preservativo. Um casamento que durou até Ana Mafalda alugar aquele tê dois com vista para o rio e dizer-lhe
que ia deixar de morar com ele e que depois pediriam o divórcio. Amigável, dissera-lhe.
E tinha-lhe pedido para ficar com o sofá
cor
de azeitona. Não sabe porquê, mas decidira que gostava de ter aquele sofá no
meio de uma sala que fosse apenas sua. Tinham-no trazido dois rapazes duma
dessas firmas que fazem transportes. E ela tinha dito:
–
Podem deixar aí ao meio e, por favor, coloquem-no de frente para janela.
E
os rapazes tinham-no colocado na posição onde ela viria a cair dois dias depois,
ao tropeçar no fio do berbequim.
Tinham
estado casados quatro anos e nem por isso conheciam grande coisa um do outro,
conclui Ana Mafalda a olhar o rio.
E
pensa que Carlos Afonso talvez tivesse sido o autor inconfesso da outra queda,
essa realmente aparatosa, muito mais do que esta.
Nunca
lhe tinha contado. Tinha-lhe dito pouco sobre aquela queda.
Apenas
naquele dia em que ela se queixou:
–
Este tornozelo dói-me sempre que apanha humidade.
E
era já muito tarde para dizer-lhe pormenores.
Foi
depois dum passeio à serra. Regressavam já pela tardinha e era final de
Outubro. Uma humidade fria subia da terra. Ana Mafalda a colocar uma meia
elástica em cima da pomada, contou-lhe que um dia escorregara numa garrafa
amolgada e desde então aquela dor no tornozelo aparecia. E Carlos perguntou-lhe:
–
A garrafa estava amolgada em que sítio?
E
ela tinha respondido:
–
Sei lá! Era a garrafa inteira esborrachada!
Mas
Carlos Afonso precisara, sorrindo:
–
Foi na casa da tua mãe que escorregaste, cá em baixo, na rua?
E
ela confirmou que sim, que tinha sido na casa onde morava com os pais.
E
não disse mais nada.
Era
já um tempo adiantado depois de terem ido à festa de anos do Frederico Cunha. Ana
Mafalda já não queria que ele fosse o rapaz tímido que ela imaginara a amolgar
a garrafa. E não lhe fez perguntas. Não lhe disse, assim, por exemplo:
–
No dia dois de Maio de mil novecentos e oitenta e oito estavas a amarrotar uma
garrafa no bairro onde moram os meus pais? Estavas Carlos Afonso?
A
mãe fazia anos nesse dia e tinha-lhe dito: na volta do treino traz-me o bolo
que encomendei na pastelaria. E ela não tinha trazido.
Ana
Mafalda não permitiu que Carlos Afonso dissesse, sequer pensasse:
–
Olha, eu um dia também amolguei uma garrafa e deixei-a num degrau.
Não.
Ana Mafalda tinha mudado de assunto.
Pediu-lhe
que lhe fosse buscar gelo.
Ou
ter-lhe-á pedido que fosse à rua buscar um maço de tabaco.
Não.
Ela nunca iria ter a certeza de que tivesse sido ele o rapaz tímido que amolgou
a garrafa. Não. Ela não tinha querido que ele fosse o rapaz da garrafa
amolgada. Era já muito tarde na vida de um e outro.
Depois,
houve aquela noite.
Carlos
Afonso apareceu no sexto-frente com o Frederico Cunha. Vinham ambos bem bebidos
a saírem do elevador no sexto-frente. Tinham emborcado, copo a copo,
cada um a sua garrafa de um tinto caro que era o vinho que sempre tinha havido
em casa do Frederico.
Tinham
vindo de autocarro.
E
depois que comeram umas sandes, Ana Mafalda dormiu enroscadinha no sofá verde,
e deixou que eles dormissem no quarto.
Dois
dias depois, disse:
–
Olha, Carlos, aluguei um tê dois com
vista para o rio. Depois, divorciamo-nos. Amigável, ouves-me?
E
trouxe o sofá verde, e aquela quase certeza de que Carlos Afonso podia ter sido
o rapaz tímido que ela imaginara quando escorregou no plástico esborrachado.
Ana
Mafalda a olhar o rio depois de ter tropeçado.
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domingo, 24 de novembro de 2013
Vista para o rio
Publico hoje a primeira parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no 26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba
Tropeçou no fio que atravessava a sala. Dois passos em vão e aquele desamparo de perceber que iria estatelar-se. O fio deslizando pela tijoleira desde o berbequim até à tomada, a única que havia na sala naquele tê dois acabado de alugar. Ela a desandar, um pé aqui, um pé do outro lado, e a lembrar-se. Como é possível que se tivesse lembrado de tanto naquele tempo ínfimo.
Tropeçou no fio que atravessava a sala. Dois passos em vão e aquele desamparo de perceber que iria estatelar-se. O fio deslizando pela tijoleira desde o berbequim até à tomada, a única que havia na sala naquele tê dois acabado de alugar. Ela a desandar, um pé aqui, um pé do outro lado, e a lembrar-se. Como é possível que se tivesse lembrado de tanto naquele tempo ínfimo.
Era
de manhã e saía para o treino. Tempos em que cuidava do corpo. O plástico estava
esborrachado no degrau da porta de entrada. E nem treino, nem aulas. Caiu desamparada
na calçada.
–
Sorte, que não tivesse passado um carro.
Disse
assim a mãe que via sempre as coisas pelo lado do drama.
O
médico falou em ligamentos soltos, e nem o endireita, nem massagens com este e
outro lenimento, e nem as injeções. Apenas o repouso e o tempo, e ainda hoje,
se faz um dia mais húmido, aquele tornozelo lembra-lhe aquela queda.
Morava
ainda em casa dos pais e, ao fim-de-semana, sobretudo nas noites de sexta-feira
e sábado, as ruas enchiam-se de gente transbordando dos bares. Pela madrugada, entretinham-se
a conversar na porta da entrada do prédio onde ela tinha nascido. Todos muito
ruidosos, todos bebidos, uns mais do que os outros. Valia que os quartos
ficavam virados para as traseiras. Os pais não ouviam, mas ela vinha espreitar
na janela da sala. Às escondidas, via-os. Ficavam por ali, antes do largo, a
fazerem despedidas, e era depois cada um para seu carro, e outros apanhavam um táxi.
Quando
escorregou na garrafa desfeita, pensou que poderia ter sido um deles. Um que tivesse
estado apenas a ouvir. Um que nem tivesse bebido senão água tónica e um sumo de
laranja sem gin nem vodka. Um daqueles rapazes poderia ter esborrachado a
garrafa, as mãos entretidas enquanto ouvia os amigos a contar façanhas que ele
nunca tinha feito, e muito provavelmente nenhum deles, ao menos na dimensão
desmedida em que as enunciavam. Um rapaz que seria tímido, a amarfanhar o seu
ser desprotegido no gesto de deformar o plástico. Ela imaginou-o assim, cuidadoso,
a colocar a garrafa espalmada no canto do degrau. E depois ficou pensando que
deuses endoidados, anjinhos malandros, ou demónios soltos teriam colocado
aquele objeto no local preciso em que ela o pisou. Que podia ter sido o filho
da porteira, imaginou ela. A Dolores saía muito cedo. Ao sábado ia fazer
limpeza para amealhar uns cobres. O infantário encerrava nesse dia, e ela
levava o filho. Talvez que, enquanto Dolores verificava se tinha a chave, a
criança tivesse brincado com a garrafinha ali esmigalhada, o rótulo rasgado
onde ainda se podia ler água mineral, mas já não se via a marca. Talvez tivesse
sido o filho da Dolores quem tivesse tirado a garrafinha do local onde o rapaz
tímido a tinha deixado.
Podia
muito bem ter sido o filho da porteira, o rapaz que morreria, ainda muito
jovem, num acidente de mota. Dolores suicidar-se-ia um mês e um dia depois.
–
Sabes quem morreu?
Seria
assim a mãe ao telefone.
A
mãe dela gostava de participar as mortes de um e outro, e telefonava. Começava
sempre com aquela pergunta, e só depois contava pormenores, que ouvira na
merceeira do Senhor Antunes onde em pequena a mandava em recados.
–
Traz-me duas dúzias.
Era
a mãe a querer pregadores que os que tinha não chegavam e no estendal ainda
havia espaço para estender as peças daquela máquina de roupa que pusera a fazer
na noite. E ela descia as escadas desde o terceiro andar pelo corrimão.
Quando
caiu no empedrado estava uma chuvinha que iniciara pingos naquela manhã de
sábado, mês de Maio.
Talvez
tivesse sido o filho da Dolores. Ou talvez tivesse sido o tal rapaz tímido que
ela imaginara a amolgar o plástico. Que não fosse cuidadoso e tivesse deixado a
garrafa no meio do degrau da entrada do prédio onde ela então morava.
Depois
de casada, havia de mudar-se para aquele sexto-frente num bairro periférico.
Ana
Mafalda que agora cai desamparada nas costas do sofá, a barriga empurrada
contra o verde azeitona. O Carlos tinha dito, a apontar para o tecido:
–
Esse! Gosto desse!
E
ela farta de ver revistas de decoração, tinha anuído. E o sofá mostrara-se
muito confortável. Aquele onde está caída, dobrada em duas no meio da salinha,
nem assim muito espaçosa, e a dois passos a porta envidraçada que dá para a
varanda. Ao fundo, o rio seria azul se não estivesse um dia nublado.
–
Podias ter-te esborrachado contra as vidraças.
Diria
a mãe de Ana Mafalda se a soubesse a tropeçar no fio.
E
ela senta-se no sofá que lhe devolve agasalho e aconchego naquela sala onde
ainda não sabe se ali ficará a cadeira de palhinha e se no canto oposto ficará
a estante.
Ana
Mafalda senta-se no instante preciso em que o sol desfaz um castelo de nuvens e
o céu e o rio ficam muito azuis.
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