segunda-feira, 25 de maio de 2015

onze anos!!!


Tanto tempo!
Alguns desaparecemos no mistério de um nick-name nunca desvendado.
Terá sido um tempo de morrermos...
Um tempo de vivermos outras vidas.
Terá sido, decerto, o tempo necessário.
Alguns ainda por aqui andamos.
De cor (ação)  relembro uns quantos  neste dia de aniversário do Repensando  
wind (Isabel Mar Cruz) ​, Inconformada (Maria Alfacinha)​, TCA (Amadeu Brigas​), OrCA (Jorge Castro​), Perplexo, Alice Duarte (do Vida de Vidro ), Bertus (Alberto Oliveira)​, Lobices (Joaquim Nogueira)​, José Alex Gandum​ (d´O meu sofá amarelo), Ze Almaro (do Aguarelas escritas )​, Luis Maia (do comblogs de ver) Jorge Pinheiro (do Expresso da linha)​, Eduardo Penteado Lunardelli​ (do Varal de ideias ), Luis Bento (do bento vai para dentro)​, Henry Alfred Bugalho​ (do Samizdat), João Menéres​ (do Grifo planante) , Isabela Figueiredo​ (do Novo Mundo )

terça-feira, 19 de maio de 2015

delet

Importante não é eliminar nomes e outras burocracias como os cartões do banco ou a certidão de nascimento. Tudo registos anódinos, mesmo os filmes, mesmo as fotografias.
Importante seria eliminar aquilo que nos é como sangue.
Importante seria desfazer pronomes, adjectivos e tempos verbais, palavras com que compusemos personagens, seres que, algum dia, tenham respirado o ar da serra ou o ar empestado duma cidade grande.
Importante seria apagá-las. Rasgar todos os papéis, fazer delete em cada arquivo. Que nunca ninguém pudesse espantar-se ou cogitar hipóteses, saber sequer que nada fizemos que fosse para explicar-lhes e muito menos para que soubessem de onde e como, e de que modo, lhes sobreveio aquele jeito de ranger os dentes, aquele não saber conter um choro ou parar a inusitada gargalhada.
Importante seria queimar tudo e ir apreciando a lassidão do fogo, descalços e nus, que mesmo o cabelo que um dia foi farto, entrançado ou rodando em cachos, mesmo esse, importante seria desbarata-lo em sucessivas tesouradas.
Não deixar nem panos, nem lençóis ou fronhas, fatos, cuecas ou casacos. Queimá-los em cova apropriada que, recebendo as cinzas, fosse terra onde nunca medrassem favas ou tomates, fruta ou legume que, crescendo, conteria vestígios nossos oriundos daquela saia, do colarinho da camisa de ramagens, dos punhos da blusa que vestimos por um baptismo.
Ficarmos despojados.
O nome riscado de capas de livros, e até os tachos e malgas em que cozinhamos serem retorcidos por pancada forte e fendidos em cacos os de vidro ou de loiça ou de barro.
E nem por descuido grave, deixar uma só frase a pespontar assim, ou semelhando: hoje aconteceu-me perceber que o mundo pode ser diferente e que é em mim que começa tudo.
Que nenhuma ideia sobeje.
Que não fique registo escrito ou desenhado, e nem raízes quadradas ou polinómios traindo o ser que fomos.
Importante para não nos imputarem um depois, seria destruir cada vestígio.
Para que nada reste a seguir ao dia em que, dum modo ou de outro, se quebre o fio ténue, indefinido e frágil, com que aqui andamos a sorrir ou com menos bons sentimentos de uns para os outros.
Para que nada mais sejamos, ou nos pretendam, quando for silenciada a orquestra, perdido o ritmo com que flui o sangue.
Para não haver depois, quando tudo falhe por falta de maestro, quando, por inércia, nos terminem as cadências do corpo: aurículas e ventrículos, cúspides e aorta, e o compasso dos pulmões arfando.
Para que não fique nada que nos perdure.
Para que, definitivamente, não sejamos.

E em jeito de epílogo deixarmos um desejo e algumas perguntas num modo pueril de encararmos, assim como dizer: gostaria de envolver o corpo nu num pano tinto com cores fortes, tons africanos, amarelos e azuis e verdes e vermelhos que o fogo consumisse.
E constatarmos, pesarosos: gostaria, mas não tenho voz que peça, ou voz que mande.
Assim, ou perguntando num receio todo ele cérebro: as carnes ficam moles e a pele franzida, o sangue ainda corre quando chega o cangalheiro?
E acrescermos num lamento: pergunto, mas ninguém responde.
Ou inquirir num temor contido repleto de ironia: nas veias, o sangue, parando, terá deixado troços ocos, ouvir-se-ão estampidos como no fogo-de-artifício em feira de Agosto?
E não soltarmos sequer o murmúrio que lamentasse: pergunto, mas, ainda que respondam, já não oiço.




quarta-feira, 8 de abril de 2015

o dom




Um dia, um amigo que a tinha, disse-me: a Fé é um dom de Deus!
Ensinou-me, em palavras simples, que era preciso buscar,
percorrer caminhos,
mas que sem o dom não iria longe...
(como ser artista no desenho ou nas letras, pensei eu...)
e ainda hoje não tenho o dom com que, imagino, uns e outros, acreditam nos céus,
eu que nem creio numa alma que me acalente o corpo,
nem "remissão dos pecados" me diz mais do que literatura,
nem "vida eterna" é mais que expressão bela, idiossincrática.
E, assim, sem Fé, tenho vivido.
Sem o dom que não recebo, por graça de Deus, nem na pia do baptismo,
eu que não busquei
ou que, buscando, confundi sinais.
E, assim, blasfemo,
e tanto que dou por mim a orar, não a Ele, mas aos anjos,
esses seres brincalhões que me escondem tudo
me mudam, até, a posição das almofadas
e deixam que julgue ter perdido, por longos tempos,
um guarda-chuva ou documentos importantes;
e acendem as luzes que eu juro ter apagado,
e abrem-me os olhos e os outros sentidos ou eu, por um tris, batia com o carro.
Tenho os meus anjos, sim!
Um batalhão que me atazina e me protege.
Com eles cá me amanho
e que Deus nunca se zangue...
.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

pesadelos



É madrugada e eu estarei em meio a um pesadelo.
pedofilia legal ?!
Ou será o mundo rodando às arrecuas e eu almareando.
O mundo invertendo valores pelos quais lutaram tantos, e eu aqui acreditando que o mundo só pudesse ir adiante. 
E engano-me.
E nem é só Paris, que os seus tiros, os seus mortos serão a ponta ínfima dum icebergue imenso. meu pesadelo chama-se Nigéria, Islão, Síria...o Mundo.
O meu pesadelo são os sem nome e os que lutam sozinhos.
chicotadas?!
excisão genital?!
Boko Haram



o papa conden

Que a  voz de Francisco tenha sido bem ouvida, que um desenho a mais ou um desenho a menos, ainda que parodiando, seja o profeta ou sejam os deuses, não pode ser razão. 
Que ninguém  tenha nunca pensado: se eles não tivessem desenhado. Que ninguém tenha tido esse pensamento, a tentar justificar o injustificável.
Não há razões para a crueldade. Não há razões para que crianças e mulheres e homens sofram atrocidades em nome de crenças e morais.
Que não haja um só que pense: se eles não tivessem desenhado.
Que falem, que escrevam, que desenhem.
Armas de papel, como lhes chamam.
Não desfoquemos a nossa atenção do principal.
Não são os desenhos, não, que matam e torturam e chacinam, nem é por os terem criado, truculentos e ofensivos, alertando. 
Não são eles a causa. 
A causa são os homens que desejam um mundo  às arrecuas onde domine a luz das trevas. 
Em nome do Profeta, em nome de Deus. 
E blasfémia é apenas um dos pecados que cometem.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

dias dez e onze



nestes dias dez e onze que foram de celebração pelos meus lados, 
aconteceu pelo mundo tanta coisa
aconteceram coisa boas
aconteceram coisa terríveis
aconteceu que uma menina enrolada em explosivos, 
simplesmente explodiu
foi em África e fez notícia
mas nem cartazes pelas ruas que se vissem
nem manifestações augustas
nem solidariedades forjadas pelas redes 
morreram uma data deles sem nada mais do que 
ter sido num dos dias em que cá em casa celebramos











Atentado em Paris contra o jornal Charlie Hebdo

“Explosivos estavam colados à volta do corpo da menina que parecia não ter mais de 10 anos”








quinta-feira, 18 de setembro de 2014

domingo, 22 de junho de 2014

dois contos ilustrados



dois pequenos textos em torno da aldeia

uma aldeia que existe em maquete numa sala do Museu Municipal de Lagos
ou nem será isso, e existe algures uma Aldeia da Senhora do Forte e o Pedro Reis na sua arte fez dela uma miniatura
o certo é que a aldeia existe  na magia de uns tantos que lhe fazem a Festa desde há mais de vinte anos

e um bocado inerte de casinhas toma forma e fica uma aldeia com gente
pode?!
coisa de malucos, decerto...
um dia convidaram-me: anda à festa! 
e eu fui e achei piada
e porque gosto do insólito, escrevi um conto    
este ano escrevi outro 
estão num opúsculo com dois desenhitos ilustrando 





O RAPAZ DA GRAVATA COR DE MALVA

O corpo estava deitado na areia. Ou estaria caído, pensou Adosindo, aproximando-se. E ao ouvir o respirar lento de quem está apenas dormindo, murmurou, aliviado:
– Afinal não é um morto.
E ficou investigando à luz já fraca do sol-posto.
Era um corpo de homem. Jovem. Talvez nem tivesse vinte anos. Fosse ele quem fosse, tinha uma farta cabeleira negra espalhada na areia.
– Não teria vindo pelo mar ou o cabelo estaria, ao menos, húmido, balbuciou Adosindo a olhar o corpo virado sobre a areia, quase de borco.
Tinha a cara meio tapada e, no entanto, Adosindo podia ver-lhe a tez escurinha e lisa, a boca entreaberta e as narinas largas.
– De onde teria vindo, interrogou-se.
Havia areia salpicada sobre o fato de um linho branco amarrotado e, a ver-se quase nada por baixo do corpo, a ponta rosa malva de uma gravata.
– Um tom semelhante à palma da mão, ponderou Adosindo a olhar a mão esquerda que o homem tinha jogada, sem cuidado, sobre a areia.
Adosindo regressava da faina. Vinha do outro lado. Nesse dia, tinha vendido uma canasta de polvos. Ajoelhou-se ao lado do corpo sem tocar-lhe, sem se chegar demasiado. Adosindo estranhando aquele, ali, inusitado. Tinha-o visto, mal atracara a chata. O barquito com o peixe para seu consumo. Vendera o resto, e sorte a sua que era uso que vendesse tudo o que não comia. Era o que lhe dava para o vinho e para o pão. Adosindo tinha trazido de um e outro para quando fosse ao outro dia, que ali, daquele lado, não havia nada. Nem havia outro que ali viesse, de dia ou de noite, que não fosse ele, o Adosindo pescador de peixe para a sua boca e um, a mais, que vendesse. Uns cruzados com que aviasse a pinga de que gostava, mas bebia com termos, e o petróleo para o candeeiro. Daria também para comprar remédios se fosse necessário, mas Adosindo nunca tinha estado doente e, se tinha uma febre, um inchaço em pé ou perna por enleio nas redes, trompaço em rocha, ou mordida de moreia, tratava-os com mezinhas como fez daquela vez em que escorregou na rocha e catrapus. A perna custou a curar-se, nem com tanto cataplasma de ervas que lhe fez, e nem com a areia fria da madrugada. Tirando isso, Adosindo era saudável, e a venda do peixe chegava para que tivesse umas moedas escondidas em local tão guardado que receava que um dia, ele mesmo não desse com o esconderijo.
O corpo mexeu-se. O rapaz rezingou como se fosse dorido e voltou-se. Ficou de costas sobre a areia, e Adosindo afastou-se sem ruido. Quem o visse a saltar como coelho julgaria que era ele o ser furtivo ali na língua de areia entre o mar e a ria.
De onde estava, Adosindo mal lhe via os olhos a fixarem um céu que era já de estrelas e, mais desconfiado que medroso, sustinha o ar nos pulmões. Que nem um leve respirar o denunciasse.
E foi sem dar pela presença de Adosindo, que o rapaz se ergueu e ficou sentado. Ficou de costas voltadas para o local onde estava Adosindo. Não podia vê-lo. Esticou os braços em cruz de cristo. Espreguiçou-se. Depois, devagarinho, pôs-se de pé, os dois braços erguidos e, muito como se fosse ilusão o que Adosindo estava vendo e ao outro dia nem iria contar no cais, o homem foi subindo, os pés a soltarem-se da areia muito esticados, descalços os pés dele a deixarem o chão que a lua cheia iluminava, redonda, vermelha, a rasar o horizonte.
Adosindo benzeu-se.
Adosindo ajoelhou na areia a olhar os céus, e benzeu-se de novo.
Seria deus ou anjo, ou seria a alma dum antepassado. Adosindo não sabia, nem isso lhe deu cuidado. Benzeu-se e ajoelhou para que não se desse o caso de ser castigado por arcanjo ou demónio, mas cuidado dava-lhe não perceber como o homem tinha ali chegado. Que partisse daquele modo, sendo espanto nem era nada que o perturbasse, que o que Adosindo desejava é que o homem nem ali tivesse estado.
Tirou os peixes da chata e recolheu-a para terra e, por razões que nem ele sabe, Adosindo, nos passos que deu a dirigir-se para a choupana, evitou passar no local onde o homem, ainda nem há nada, estava deitado. Passou ao largo, e assim tomaria o costume, a partir dessa noite.
Se, no dia seguinte, Adosindo contasse, lá do outro lado, ninguém iria acreditar, como não tinham acreditado numa palavra do que lhes contara quando foi de terem aparecido as pedras. Um monte de pedras naquele mar de areia. Tantas pedras quanto as necessárias para construir o barraco onde morava. Fora no tempo dele ter vindo tresmalhado da cidade, que antes viver no desterro daquela língua de areia, a ria de um lado e o mar do outro, que ouvi-los, dia e noite: Adosindo isto e Adosindo aqueloutro, que ele lá tinha que ser inculpado dos erros que tinham feito aqueles que o puseram no mundo.
Nem triste nem abandonado, viera apenas para ficar distante, viver sozinho e, a ligá-lo ao outro lado, apenas a chata e o peixe, um naco de pão o vinho e o petróleo para o candeeiro.
As pedras tinham aparecido e Adosindo nem tinha estranhado. Serviu-se delas para construir o barraco, e o telhado fê-lo de algas entretecidas com caniço. Mais tarde, havia de trazer umas telhas, mas isso foi muito depois.
Adosindo não iria contar. Desta vez, não lhes daria motivo. Não diria: sabem, estava um rapaz deitado na areia e levantou-se, abriu os braços e subiu aos céus. Nem por mim deu. Nem salve-o deus, deixou que lhe dissesse.
Não permitiria que, a ouvi-lo, se benzessem duas vezes as mulheres e se rissem dele os homens, inconfessadamente receosos.
Mas quando os jornais noticiassem, Adosindo teria a certeza que era o rapaz que tinha estado deitado na areia. Diriam que numa aldeia que nem tinha sido construída, numa aldeia que existia apenas no espírito de alguns homens, um rapaz tinha criado uma barcarola, uma espécie de pássaro que, ao toque de uma fita de seda rosa malva dependurada no pescoço como gravata, o levava de uma banda a outra através dos tempos.
Adosindo sabia e, ainda assim, a ouvir as notícias, havia de benzer-se.
Na língua de areia, ficaria, para todo o sempre, uma mancha rosada no local onde Adosindo vira, e só ele tinha visto, subir aos céus um rapaz que, se tivesse vindo do outro lado, só podia ter vindo a nado ou de barco, e não teria sido, que o corpo estava completamente seco e, para aqueles lados, era só a chata do Adosindo e não tinha sido ele a trazê-lo.










sábado, 7 de junho de 2014

requium

De repente as ruas entupidas
Cheira a suores e cheira a mijos e assados e fritos e odores de desinfectantes, sabões e outros
Soçobram as calçadas aos andares de tantos
Seres divididos, seres inacabados
Duplos, cada um deles em pedaços
Ou serão maus seres, que seria o que diriam as mães se ainda se dedicassem ao amor maternal e esse lhes saísse em palavras 
Seres tolhidos por medos tão enormes como eram os de antes enrolados em edredões ou mantas, lençóis e colchas
De repente, as ruas atulhadas 
E um mal estar virulento a cobrir tudo
O céu nublado e este frio de inverno a descarregar-se junho adentro e a chuva e o mar que devia estar azul ou verde e está cor de chumbo salpicado de farinha de trigo
O céu pesado a descair-se nesta aguinha falrrirpa que nem se pode dizer: agora chove
E o silêncio: nem uma gaivota cacareja e nada se ouve 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

ainda António Lobo Antunes


 " O que eu penso é que as pessoas são loucas, e que é preciso traduzir essa secreta loucura, os saltos de imaginação e de humor, o medo da morte, as coisas inexprimíveis.  E deixar de por os homens em prateleiras catalogadas. Tudo é contraditório. E o amor, por exemplo, acompanha-se sempre do ódio (...) Eu acho que o romance tem de ser uma espécie de tricot subterrâneo, a correr por baixo da aparência."

do livro D'este viver aqui neste papel descripto 
            cartas da guerra
aerograma de 9.7.91 Chiúme (Angola)







quinta-feira, 24 de abril de 2014

escola do antigamente



A minha professora da primeira classe zurzia de modo natural uma menina e outra com reguadas se pingava a folha de prova com um pingo caído do aparo ou se errava os que vão na conta de dividir ou errava os dois erres duma palavra ou dizia dezanove em vez de dezasseis a responder a quantos são quatro vezes quatro.
A minha professora batia nas palmas das mãos das suas alunas com uma régua fininha ou com a chamada menina dos cinco olhos.
Mas essa professora que tive na primeira classe e que era muito minha amiga, assim dizia a minha mãe, essa senhora que tinha pó de arroz a saltitar nos pelos do rosto rosado e bochechudo, zurzia de régua de madeira colocada em esquina quem não levasse bata branca, ou não a levasse bem lavada, ou quem, como a Adélia, não levasse cuecas a cobrir as partes.
A Adélia não as usava. Ponto.
Haverá por este termo quem tenha estado lá e tenha visto.
Perante a sala muda de receio e pasmo, sei lá se também de raivas, sei lá eu se de medo seriam as carinhas das meninas vestidinhas de bibinhos brancos em filas de carteiras certinhas, duas meninas em cada uma, e a régua a estalar nas carnes da Adélia, o rabo nu virado para a sala.
A minha professora da primeira classe, e nem era medo que lhe tinha, eu que, além da bata vincada e a luzir de alva, trazia sempre cuequinhas, cada dia umas, e um vestido por debaixo da bata que era coisa muito apreciada pela professora que levantava a ponta do bibe a ver o que cada uma trazia por baixo com o mesmo à vontade com que virava as folhas dos cadernos a ver se os tínhamos limpos.
Não seriam todas, mas era natural e aconteceu na minha primeira classe e na segunda.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

António Lobo Antunes


 
li que venceu o prémio literário internacional Nonino 2014, atribuído por uma empresa secular italiana, produtora da bebida alcoólica grappa (para quem, como eu não sabe, é uma aguardente italiana)
e lembrei-me
aqui deixo uma das suas crónicas

Os Pobrezinhos

"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados,milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

papoilas

por inícios deste ano, o papoilas de janeiro faz cinco anos

neste excerto de um dos contos e no desenho com que o meu estimado TCA o ilustrou, o meu abraço ao Amadeu Brigas  e à Maria Helena

 
 
 
 
 
Ercília debruçada na tábua. A folha de papel vegetal sobre a revista. A mão esquerda muito tensa a segurá-la. A segurar o papel contra a revista que não pudera alfinetá-los – era uma revista emprestada pela Rosinha modista. A mão tensa carregava aberta no papel. Cada unha de Ercília ficava muito branca na extremidade. Quase tão branca, cada unha na sua respectiva extremidade, como cada uma das mamas esborrachadas no vestido.
Com a outra mão, Ercília passava o lápis por cada risco do desenho. O desenho copiado para a transparência do papel. De vez em quando, com muito cuidado, Ercília levantava a folha de papel vegetal. Olhava por debaixo. Certificava-se de pétala de flor ou asa de borboleta bem traçada.
Ele e o papel presos por Ercília. O papel pela mão de unhas brancas nas extremidades. Ele pelos dois seios muito brancos tapando-se e destapando-se ao deslizar da mão de Ercília sobre o papel vegetal.
Como se recorda bem! Ele encostado na parede em frente com o ar inocente de um menino na 3ª classe.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Boas Festas

este é um dos cartazes que neste Natal divulgam poesia nas montras de Lagos 






uma iniciativa doVieira Calado e dos Amigos de Lagos

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

vista para o rio


a segunda parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no  26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba




Tinham-se conhecido na festa de aniversário do Frederico Cunha.
Não se lembra quantos anos fazia aquele amigo do Carlos.
Ela teria vinte, ou pouco mais.
Tinham jantado bem e bebido bastante. Um vinho caro que eram sempre os vinhos em casa do Frederico. No regresso, desceram pelas escadas e o Carlos colocou-lhe o braço direito sobre os ombros e deixou que escorregasse, e os dedos da mão esquerda dele ficaram a tocar a nervura do seu seio por baixo da axila.
Casaram dois meses depois pelo registo com separação total de bens. Teriam desconfiado que não ia resultar. E nem filhos. Nunca fizeram qualquer esforço. Ela tomava a pílula e ele, naquele temor de doenças que tivesse algum dia adquirido, sempre usou preservativo. Um casamento que durou até Ana Mafalda alugar aquele tê dois com vista para o rio e dizer-lhe que ia deixar de morar com ele e que depois pediriam o divórcio. Amigável, dissera-lhe. E tinha-lhe pedido para ficar com o sofá
cor de azeitona. Não sabe porquê, mas decidira que gostava de ter aquele sofá no meio de uma sala que fosse apenas sua. Tinham-no trazido dois rapazes duma dessas firmas que fazem transportes. E ela tinha dito:
– Podem deixar aí ao meio e, por favor, coloquem-no de frente para janela.
E os rapazes tinham-no colocado na posição onde ela viria a cair dois dias depois, ao tropeçar no fio do berbequim.
Tinham estado casados quatro anos e nem por isso conheciam grande coisa um do outro, conclui Ana Mafalda a olhar o rio.
E pensa que Carlos Afonso talvez tivesse sido o autor inconfesso da outra queda, essa realmente aparatosa, muito mais do que esta.
Nunca lhe tinha contado. Tinha-lhe dito pouco sobre aquela queda.
Apenas naquele dia em que ela se queixou:
– Este tornozelo dói-me sempre que apanha humidade.
E era já muito tarde para dizer-lhe pormenores.
Foi depois dum passeio à serra. Regressavam já pela tardinha e era final de Outubro. Uma humidade fria subia da terra. Ana Mafalda a colocar uma meia elástica em cima da pomada, contou-lhe que um dia escorregara numa garrafa amolgada e desde então aquela dor no tornozelo aparecia. E Carlos perguntou-lhe:
– A garrafa estava amolgada em que sítio?
E ela tinha respondido:
– Sei lá! Era a garrafa inteira esborrachada!
Mas Carlos Afonso precisara, sorrindo:
– Foi na casa da tua mãe que escorregaste, cá em baixo, na rua?
E ela confirmou que sim, que tinha sido na casa onde morava com os pais.
E não disse mais nada.
Era já um tempo adiantado depois de terem ido à festa de anos do Frederico Cunha. Ana Mafalda já não queria que ele fosse o rapaz tímido que ela imaginara a amolgar a garrafa. E não lhe fez perguntas. Não lhe disse, assim, por exemplo:
– No dia dois de Maio de mil novecentos e oitenta e oito estavas a amarrotar uma garrafa no bairro onde moram os meus pais? Estavas Carlos Afonso?
A mãe fazia anos nesse dia e tinha-lhe dito: na volta do treino traz-me o bolo que encomendei na pastelaria. E ela não tinha trazido.
Ana Mafalda não permitiu que Carlos Afonso dissesse, sequer pensasse:
– Olha, eu um dia também amolguei uma garrafa e deixei-a num degrau.
Não. Ana Mafalda tinha mudado de assunto.
Pediu-lhe que lhe fosse buscar gelo.
Ou ter-lhe-á pedido que fosse à rua buscar um maço de tabaco.
Não. Ela nunca iria ter a certeza de que tivesse sido ele o rapaz tímido que amolgou a garrafa. Não. Ela não tinha querido que ele fosse o rapaz da garrafa amolgada. Era já muito tarde na vida de um e outro.
Depois, houve aquela noite.
Carlos Afonso apareceu no sexto-frente com o Frederico Cunha. Vinham ambos bem bebidos a saírem do elevador no sexto-frente. Tinham emborcado, copo a copo, cada um a sua garrafa de um tinto caro que era o vinho que sempre tinha havido em casa do Frederico.
Tinham vindo de autocarro.
E depois que comeram umas sandes, Ana Mafalda dormiu enroscadinha no sofá verde, e deixou que eles dormissem no quarto.
Dois dias depois, disse:
– Olha, Carlos, aluguei um tê dois com vista para o rio. Depois, divorciamo-nos. Amigável, ouves-me?
E trouxe o sofá verde, e aquela quase certeza de que Carlos Afonso podia ter sido o rapaz tímido que ela imaginara quando escorregou no plástico esborrachado.

Ana Mafalda a olhar o rio depois de ter tropeçado.

domingo, 24 de novembro de 2013

Vista para o rio


Publico hoje  a primeira parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no  26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba


Tropeçou no fio que atravessava a sala. Dois passos em vão e aquele desamparo de perceber que iria estatelar-se. O fio deslizando pela tijoleira desde o berbequim até à tomada, a única que havia na sala naquele tê dois acabado de alugar. Ela a desandar, um pé aqui, um pé do outro lado, e a lembrar-se. Como é possível que se tivesse lembrado de tanto naquele tempo ínfimo.
Era de manhã e saía para o treino. Tempos em que cuidava do corpo. O plástico estava esborrachado no degrau da porta de entrada. E nem treino, nem aulas. Caiu desamparada na calçada.
– Sorte, que não tivesse passado um carro.
Disse assim a mãe que via sempre as coisas pelo lado do drama.
O médico falou em ligamentos soltos, e nem o endireita, nem massagens com este e outro lenimento, e nem as injeções. Apenas o repouso e o tempo, e ainda hoje, se faz um dia mais húmido, aquele tornozelo lembra-lhe aquela queda.
Morava ainda em casa dos pais e, ao fim-de-semana, sobretudo nas noites de sexta-feira e sábado, as ruas enchiam-se de gente transbordando dos bares. Pela madrugada, entretinham-se a conversar na porta da entrada do prédio onde ela tinha nascido. Todos muito ruidosos, todos bebidos, uns mais do que os outros. Valia que os quartos ficavam virados para as traseiras. Os pais não ouviam, mas ela vinha espreitar na janela da sala. Às escondidas, via-os. Ficavam por ali, antes do largo, a fazerem despedidas, e era depois cada um para seu carro, e outros apanhavam um táxi.

Quando escorregou na garrafa desfeita, pensou que poderia ter sido um deles. Um que tivesse estado apenas a ouvir. Um que nem tivesse bebido senão água tónica e um sumo de laranja sem gin nem vodka. Um daqueles rapazes poderia ter esborrachado a garrafa, as mãos entretidas enquanto ouvia os amigos a contar façanhas que ele nunca tinha feito, e muito provavelmente nenhum deles, ao menos na dimensão desmedida em que as enunciavam. Um rapaz que seria tímido, a amarfanhar o seu ser desprotegido no gesto de deformar o plástico. Ela imaginou-o assim, cuidadoso, a colocar a garrafa espalmada no canto do degrau. E depois ficou pensando que deuses endoidados, anjinhos malandros, ou demónios soltos teriam colocado aquele objeto no local preciso em que ela o pisou. Que podia ter sido o filho da porteira, imaginou ela. A Dolores saía muito cedo. Ao sábado ia fazer limpeza para amealhar uns cobres. O infantário encerrava nesse dia, e ela levava o filho. Talvez que, enquanto Dolores verificava se tinha a chave, a criança tivesse brincado com a garrafinha ali esmigalhada, o rótulo rasgado onde ainda se podia ler água mineral, mas já não se via a marca. Talvez tivesse sido o filho da Dolores quem tivesse tirado a garrafinha do local onde o rapaz tímido a tinha deixado.
Podia muito bem ter sido o filho da porteira, o rapaz que morreria, ainda muito jovem, num acidente de mota. Dolores suicidar-se-ia um mês e um dia depois.
– Sabes quem morreu?
Seria assim a mãe ao telefone.
A mãe dela gostava de participar as mortes de um e outro, e telefonava. Começava sempre com aquela pergunta, e só depois contava pormenores, que ouvira na merceeira do Senhor Antunes onde em pequena a mandava em recados.
– Traz-me duas dúzias.
Era a mãe a querer pregadores que os que tinha não chegavam e no estendal ainda havia espaço para estender as peças daquela máquina de roupa que pusera a fazer na noite. E ela descia as escadas desde o terceiro andar pelo corrimão.
Quando caiu no empedrado estava uma chuvinha que iniciara pingos naquela manhã de sábado, mês de Maio.
Talvez tivesse sido o filho da Dolores. Ou talvez tivesse sido o tal rapaz tímido que ela imaginara a amolgar o plástico. Que não fosse cuidadoso e tivesse deixado a garrafa no meio do degrau da entrada do prédio onde ela então morava.
Depois de casada, havia de mudar-se para aquele sexto-frente num bairro periférico.
Ana Mafalda que agora cai desamparada nas costas do sofá, a barriga empurrada contra o verde azeitona. O Carlos tinha dito, a apontar para o tecido:
– Esse! Gosto desse!
E ela farta de ver revistas de decoração, tinha anuído. E o sofá mostrara-se muito confortável. Aquele onde está caída, dobrada em duas no meio da salinha, nem assim muito espaçosa, e a dois passos a porta envidraçada que dá para a varanda. Ao fundo, o rio seria azul se não estivesse um dia nublado. 
– Podias ter-te esborrachado contra as vidraças.
Diria a mãe de Ana Mafalda se a soubesse a tropeçar no fio.
E ela senta-se no sofá que lhe devolve agasalho e aconchego naquela sala onde ainda não sabe se ali ficará a cadeira de palhinha e se no canto oposto ficará a estante.
Ana Mafalda senta-se no instante preciso em que o sol desfaz um castelo de nuvens e o céu e o rio ficam muito azuis.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein