terça-feira, 14 de janeiro de 2014

António Lobo Antunes


 
li que venceu o prémio literário internacional Nonino 2014, atribuído por uma empresa secular italiana, produtora da bebida alcoólica grappa (para quem, como eu não sabe, é uma aguardente italiana)
e lembrei-me
aqui deixo uma das suas crónicas

Os Pobrezinhos

"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados,milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

papoilas

por inícios deste ano, o papoilas de janeiro faz cinco anos

neste excerto de um dos contos e no desenho com que o meu estimado TCA o ilustrou, o meu abraço ao Amadeu Brigas  e à Maria Helena

 
 
 
 
 
Ercília debruçada na tábua. A folha de papel vegetal sobre a revista. A mão esquerda muito tensa a segurá-la. A segurar o papel contra a revista que não pudera alfinetá-los – era uma revista emprestada pela Rosinha modista. A mão tensa carregava aberta no papel. Cada unha de Ercília ficava muito branca na extremidade. Quase tão branca, cada unha na sua respectiva extremidade, como cada uma das mamas esborrachadas no vestido.
Com a outra mão, Ercília passava o lápis por cada risco do desenho. O desenho copiado para a transparência do papel. De vez em quando, com muito cuidado, Ercília levantava a folha de papel vegetal. Olhava por debaixo. Certificava-se de pétala de flor ou asa de borboleta bem traçada.
Ele e o papel presos por Ercília. O papel pela mão de unhas brancas nas extremidades. Ele pelos dois seios muito brancos tapando-se e destapando-se ao deslizar da mão de Ercília sobre o papel vegetal.
Como se recorda bem! Ele encostado na parede em frente com o ar inocente de um menino na 3ª classe.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Boas Festas

este é um dos cartazes que neste Natal divulgam poesia nas montras de Lagos 






uma iniciativa doVieira Calado e dos Amigos de Lagos

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

vista para o rio


a segunda parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no  26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba




Tinham-se conhecido na festa de aniversário do Frederico Cunha.
Não se lembra quantos anos fazia aquele amigo do Carlos.
Ela teria vinte, ou pouco mais.
Tinham jantado bem e bebido bastante. Um vinho caro que eram sempre os vinhos em casa do Frederico. No regresso, desceram pelas escadas e o Carlos colocou-lhe o braço direito sobre os ombros e deixou que escorregasse, e os dedos da mão esquerda dele ficaram a tocar a nervura do seu seio por baixo da axila.
Casaram dois meses depois pelo registo com separação total de bens. Teriam desconfiado que não ia resultar. E nem filhos. Nunca fizeram qualquer esforço. Ela tomava a pílula e ele, naquele temor de doenças que tivesse algum dia adquirido, sempre usou preservativo. Um casamento que durou até Ana Mafalda alugar aquele tê dois com vista para o rio e dizer-lhe que ia deixar de morar com ele e que depois pediriam o divórcio. Amigável, dissera-lhe. E tinha-lhe pedido para ficar com o sofá
cor de azeitona. Não sabe porquê, mas decidira que gostava de ter aquele sofá no meio de uma sala que fosse apenas sua. Tinham-no trazido dois rapazes duma dessas firmas que fazem transportes. E ela tinha dito:
– Podem deixar aí ao meio e, por favor, coloquem-no de frente para janela.
E os rapazes tinham-no colocado na posição onde ela viria a cair dois dias depois, ao tropeçar no fio do berbequim.
Tinham estado casados quatro anos e nem por isso conheciam grande coisa um do outro, conclui Ana Mafalda a olhar o rio.
E pensa que Carlos Afonso talvez tivesse sido o autor inconfesso da outra queda, essa realmente aparatosa, muito mais do que esta.
Nunca lhe tinha contado. Tinha-lhe dito pouco sobre aquela queda.
Apenas naquele dia em que ela se queixou:
– Este tornozelo dói-me sempre que apanha humidade.
E era já muito tarde para dizer-lhe pormenores.
Foi depois dum passeio à serra. Regressavam já pela tardinha e era final de Outubro. Uma humidade fria subia da terra. Ana Mafalda a colocar uma meia elástica em cima da pomada, contou-lhe que um dia escorregara numa garrafa amolgada e desde então aquela dor no tornozelo aparecia. E Carlos perguntou-lhe:
– A garrafa estava amolgada em que sítio?
E ela tinha respondido:
– Sei lá! Era a garrafa inteira esborrachada!
Mas Carlos Afonso precisara, sorrindo:
– Foi na casa da tua mãe que escorregaste, cá em baixo, na rua?
E ela confirmou que sim, que tinha sido na casa onde morava com os pais.
E não disse mais nada.
Era já um tempo adiantado depois de terem ido à festa de anos do Frederico Cunha. Ana Mafalda já não queria que ele fosse o rapaz tímido que ela imaginara a amolgar a garrafa. E não lhe fez perguntas. Não lhe disse, assim, por exemplo:
– No dia dois de Maio de mil novecentos e oitenta e oito estavas a amarrotar uma garrafa no bairro onde moram os meus pais? Estavas Carlos Afonso?
A mãe fazia anos nesse dia e tinha-lhe dito: na volta do treino traz-me o bolo que encomendei na pastelaria. E ela não tinha trazido.
Ana Mafalda não permitiu que Carlos Afonso dissesse, sequer pensasse:
– Olha, eu um dia também amolguei uma garrafa e deixei-a num degrau.
Não. Ana Mafalda tinha mudado de assunto.
Pediu-lhe que lhe fosse buscar gelo.
Ou ter-lhe-á pedido que fosse à rua buscar um maço de tabaco.
Não. Ela nunca iria ter a certeza de que tivesse sido ele o rapaz tímido que amolgou a garrafa. Não. Ela não tinha querido que ele fosse o rapaz da garrafa amolgada. Era já muito tarde na vida de um e outro.
Depois, houve aquela noite.
Carlos Afonso apareceu no sexto-frente com o Frederico Cunha. Vinham ambos bem bebidos a saírem do elevador no sexto-frente. Tinham emborcado, copo a copo, cada um a sua garrafa de um tinto caro que era o vinho que sempre tinha havido em casa do Frederico.
Tinham vindo de autocarro.
E depois que comeram umas sandes, Ana Mafalda dormiu enroscadinha no sofá verde, e deixou que eles dormissem no quarto.
Dois dias depois, disse:
– Olha, Carlos, aluguei um tê dois com vista para o rio. Depois, divorciamo-nos. Amigável, ouves-me?
E trouxe o sofá verde, e aquela quase certeza de que Carlos Afonso podia ter sido o rapaz tímido que ela imaginara quando escorregou no plástico esborrachado.

Ana Mafalda a olhar o rio depois de ter tropeçado.

domingo, 24 de novembro de 2013

Vista para o rio


Publico hoje  a primeira parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no  26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba


Tropeçou no fio que atravessava a sala. Dois passos em vão e aquele desamparo de perceber que iria estatelar-se. O fio deslizando pela tijoleira desde o berbequim até à tomada, a única que havia na sala naquele tê dois acabado de alugar. Ela a desandar, um pé aqui, um pé do outro lado, e a lembrar-se. Como é possível que se tivesse lembrado de tanto naquele tempo ínfimo.
Era de manhã e saía para o treino. Tempos em que cuidava do corpo. O plástico estava esborrachado no degrau da porta de entrada. E nem treino, nem aulas. Caiu desamparada na calçada.
– Sorte, que não tivesse passado um carro.
Disse assim a mãe que via sempre as coisas pelo lado do drama.
O médico falou em ligamentos soltos, e nem o endireita, nem massagens com este e outro lenimento, e nem as injeções. Apenas o repouso e o tempo, e ainda hoje, se faz um dia mais húmido, aquele tornozelo lembra-lhe aquela queda.
Morava ainda em casa dos pais e, ao fim-de-semana, sobretudo nas noites de sexta-feira e sábado, as ruas enchiam-se de gente transbordando dos bares. Pela madrugada, entretinham-se a conversar na porta da entrada do prédio onde ela tinha nascido. Todos muito ruidosos, todos bebidos, uns mais do que os outros. Valia que os quartos ficavam virados para as traseiras. Os pais não ouviam, mas ela vinha espreitar na janela da sala. Às escondidas, via-os. Ficavam por ali, antes do largo, a fazerem despedidas, e era depois cada um para seu carro, e outros apanhavam um táxi.

Quando escorregou na garrafa desfeita, pensou que poderia ter sido um deles. Um que tivesse estado apenas a ouvir. Um que nem tivesse bebido senão água tónica e um sumo de laranja sem gin nem vodka. Um daqueles rapazes poderia ter esborrachado a garrafa, as mãos entretidas enquanto ouvia os amigos a contar façanhas que ele nunca tinha feito, e muito provavelmente nenhum deles, ao menos na dimensão desmedida em que as enunciavam. Um rapaz que seria tímido, a amarfanhar o seu ser desprotegido no gesto de deformar o plástico. Ela imaginou-o assim, cuidadoso, a colocar a garrafa espalmada no canto do degrau. E depois ficou pensando que deuses endoidados, anjinhos malandros, ou demónios soltos teriam colocado aquele objeto no local preciso em que ela o pisou. Que podia ter sido o filho da porteira, imaginou ela. A Dolores saía muito cedo. Ao sábado ia fazer limpeza para amealhar uns cobres. O infantário encerrava nesse dia, e ela levava o filho. Talvez que, enquanto Dolores verificava se tinha a chave, a criança tivesse brincado com a garrafinha ali esmigalhada, o rótulo rasgado onde ainda se podia ler água mineral, mas já não se via a marca. Talvez tivesse sido o filho da Dolores quem tivesse tirado a garrafinha do local onde o rapaz tímido a tinha deixado.
Podia muito bem ter sido o filho da porteira, o rapaz que morreria, ainda muito jovem, num acidente de mota. Dolores suicidar-se-ia um mês e um dia depois.
– Sabes quem morreu?
Seria assim a mãe ao telefone.
A mãe dela gostava de participar as mortes de um e outro, e telefonava. Começava sempre com aquela pergunta, e só depois contava pormenores, que ouvira na merceeira do Senhor Antunes onde em pequena a mandava em recados.
– Traz-me duas dúzias.
Era a mãe a querer pregadores que os que tinha não chegavam e no estendal ainda havia espaço para estender as peças daquela máquina de roupa que pusera a fazer na noite. E ela descia as escadas desde o terceiro andar pelo corrimão.
Quando caiu no empedrado estava uma chuvinha que iniciara pingos naquela manhã de sábado, mês de Maio.
Talvez tivesse sido o filho da Dolores. Ou talvez tivesse sido o tal rapaz tímido que ela imaginara a amolgar o plástico. Que não fosse cuidadoso e tivesse deixado a garrafa no meio do degrau da entrada do prédio onde ela então morava.
Depois de casada, havia de mudar-se para aquele sexto-frente num bairro periférico.
Ana Mafalda que agora cai desamparada nas costas do sofá, a barriga empurrada contra o verde azeitona. O Carlos tinha dito, a apontar para o tecido:
– Esse! Gosto desse!
E ela farta de ver revistas de decoração, tinha anuído. E o sofá mostrara-se muito confortável. Aquele onde está caída, dobrada em duas no meio da salinha, nem assim muito espaçosa, e a dois passos a porta envidraçada que dá para a varanda. Ao fundo, o rio seria azul se não estivesse um dia nublado. 
– Podias ter-te esborrachado contra as vidraças.
Diria a mãe de Ana Mafalda se a soubesse a tropeçar no fio.
E ela senta-se no sofá que lhe devolve agasalho e aconchego naquela sala onde ainda não sabe se ali ficará a cadeira de palhinha e se no canto oposto ficará a estante.
Ana Mafalda senta-se no instante preciso em que o sol desfaz um castelo de nuvens e o céu e o rio ficam muito azuis.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

pirulitando


– Ai que pirulitantes que estais –  dizia a minha mãe a olhar-nos.
E a gente de esguelha, a gente a esconder, nem sabíamos o que mais escondêssemos sob os olhos dela tão penetrantes, e a sua voz repetindo:
– Vamos lá então saber por onde andaram pirulitando.
A vida inteira, de cada vez que alguém me fez ficar numa fila, assim de esguelha, assim em espera que alguém dissesse, ou enquanto alguém fazia um discurso, palestrava ou simplesmente distribuía trabalho: tu fazes isto, tu vais para aquele lado, como aconteceu, anos seguidos em cada manhã em que estive a trabalhar na fábrica de distribuição de materiais de apoio a hospitais e outros serviços de saúde, eu sempre na espera que dissessem, com a mesmíssima voz cava, doce, tanto mais doce e cava quanto mais a mãe queria saber:
 – Então vamos lá: por onde andaram pirulitando os meus meninos?
Se bem que, pela vida fora, nunca ninguém tivesse ousado sequer imitá-la, e no entanto, também nunca ninguém soube apagar aquela imagem que éramos os três, a Inesinha no meio, e a mãe sempre com uma bata de flores, o sutiã a ver-se à transparência e as cuecas, e tantas vezes na mão uma tesoura com que ora cortava as barrigas dos peixes desmesurados que o pai pescava no lago, como podava as roseiras ou cortava madeixas de cabelos de cada um da gente: 
– Anda cá Miguel que esse cabelo precisa de ser aparado.
E eram os caracóis empeçados do meu irmão mais velho a serem debastados.
Ou era a minha vez, e a mãe comentava sempre: 
– Não sei como me saíste assim tão russo meu malvado, olha que os teus irmãos ao menos saem à gente.
Eu branquinho, loiro e de olhos azuis.
– Espécie rara, este filho – ria ela com as vizinhas.
E que ainda um dia me havia de fotografar e ganhar um concurso.  A minha mãe dizia:
– Olhe que lindo que é o meu mais novo.


 Para o resto da vida eu ouvi a voz dela, já mesmo quase nada loiro, as entradas e a careca,e as cãs saltitando, e ainda assim eu a ouvi-la na voz das mulheres que me segredavam: 
– És um homem lindo, Ernesto Semedo.


A voz da mãe dizendo: Ai que pirulitantes que estais.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

solilóquio comigo

tens a tragédia alçada num reduto do teu corpo
nem sabes onde
mas sabes
intuis que seja disto ou daqueloutro, mas sem certeza
e um dia dói-te
um dia, e pode ser hoje
ou ter sido na manhã de ontem
ou naquela madrugada adentro, depois do vinho, depois de nem sequer teres bebido ou de teres apenas ingerido um chá bem quente, um chá que dizia nas letras da embalagem "calmante dos nervos" e tu teres pensado: "que raio acalmaria senão isso?!"
enquanto aquecias uns quatro dedos de água na cafeteira eléctrica que há muito te desabituaste de acender um fogo, sequer ligar a chapa - é ali, e fica pronta a água para o chá em poucos segundos que o tempo urge, o tempo sempre a correr atrás da gente, o tempo a dizer é hoje, foi ontem, vai ser daqui a pouco
o tempo a misturar-se com os sinais do corpo
e  pode ser na praia
e pode ser - inusitada é sempre-
fazendo a depilação ou lendo um livro
ou pode vir num repente e nem ficares sabendo
mas, e isso não duvides, a tragédia está lá,
e quiçá sorri-se

terça-feira, 3 de setembro de 2013

sonho

triste
tu andas triste
corresse água límpida como a que correu no meu sonho
torrentes de água a efervescerem, frescas de caleiras e de gretas
água através da qual se vislumbrava a paisagem colorida pelos veios de arco-íris que lhe fazia a luz, que era ainda luz difusa do dia a nascer lá muito em baixo, que era para onde corriam os teus passos lestos como há tanto não via
tu a correr e eu seguindo-te, os meus pés enterrando-se numa terra fofa, terra ainda não banhada dessa água que vinha atrás da gente, terra solta, terra de um castanho que se fez rendado de vermelhos, mal lhe entrou um fio de água e depois outro, e tu correndo, e eu com a minha saia entre as mãos a desimpedir-me os pés descalços
e éramos já em outro território, éramos longe do local onde a água correra, inopinada, pelos buracos, gretas, interstícios onde a tinhas querido presa - poço, cisterna, o que fosse onde a domasses, água que se tinha solto, rija, transparente, a mostrar o quanto havia de outro espaço para que fosse longe
e longe era onde eu andava procurando-te e chamava-te, e era o teu nome que retornava de terem as letras, cada uma, colidido na casa semienterrada na paisagem - uma casa enorme e eu espantada que fosse outro continente onde vinha eu, e vinha a água, e tu já não vinhas correndo
eu chamando o teu nome, tu que tinhas ficado, triste, tão triste que tu estavas encostado ao muro de onde o primeiro jacto de água límpida tinha brotado
a água a fugir do que tinhas construído e seria talvez barragem ou seria lago
a água que alagou outro continente e me seguia por onde eu corria a chamar o teu nome
acordei fresca
acordei serena
acordei com muita pena que não tivesses vindo

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

em vez de prece

Teimosamente, deixas que os dias se encarreguem.
Os pés incham-te.
As veias das tuas pernas parecem cordões lilases de um novelo que se tivesse desfeito em linhas soltas e as enleasse; linhas em torno delas, salpicadas.
E os olhos, esses, estão cada vez mais saltados das órbitas, e sem brilho.
Baços os teus olhos castanhos, e um mais fechado que o outro. O esquerdo a ressentir-se da tua teimosia em não tratares o corpo.
A alma eu não sei se alguma vez percebeste que essa também precisa de tratamento ou engelha, enrodilha-se, deixa mesmo de servir para o que seja. E sem alma a gente é menos ainda que a formiga, que essa, dizimado o carreiro que enchemos de veneno, o carreiro que atravessava, de uma ponta à outra, os azulejos da banheira, aparece, em proporções semelhantes, na extremidade oposta.
Mas tu não és uma formiga, e eu receio que um dia destes nem seja de veneno, mas de ti mesmo, que desapareces.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

concurso de contos cidade de Araçaltuba


Um conto meu galardoado com uma das cinco menções honrosas no concurso de contos cidade de Araçaltuba
Como dizem os nosso irmãos brasileiros, confira aqui

terça-feira, 25 de junho de 2013

Florentino barbeiro



Trazia no pescoço um lenço num tecido vistoso. E do lado esquerdo, que é o lado do coração, um lencinho vermelho assim como sangue a ensopar-lhe o branco do casaco.
Nem seria por ele estar chegando que soavam foguetes.
Florentino chegava no barco e vinha por trabalho.
Vestidinho de branco, não fosse o lenço no pescoço e mais o encarnado do lencinho no bolso do casaco, e o sapato que era em verniz negro como o seu cabelo, uma carapinha farta besuntada a brilhantina por baixo do chapéu de palhinha com fita igualzinha à cor do fato que vestia, e era branco.
Foi como o viu Maria Rosa, e ela mesma conta:
– Era um mulato escuro e vinha tão bonito no seu fato imaculado!
Era o dia da Festa e daí os foguetes. Era também o dia de chegar o barco.
Não o sabia Florentino, como não sabia que Rosinha o olhava lá de longe. Florentino encandeado do sol que brilhava na janelinha onde ela assomava numa das casinhas da aldeia. Calçada do Cipreste era onde ficava a casa de Maria Rosa.
Brilhava um sol de início de Verão que também cintilava no campanário da Igreja, e na areia da praia e nas ameias do Forte.
E Florentino que já vira muito, ainda assim, embasbacava.
Ele a dar duas dobras nas calças, e a mostrar a peúga muito alva.
O marinheiro tinha avisado:
– Arregacem a roupa – estavam eles a entrar no bote e eram, além de Florentino, um homem que trazia galinhas num cabaz, e uma mulher anafada que tinha jeito de ser quem deitaria cartas e faria nascer os meninos lá na aldeia.
Lá ao longe, fora do olhar de Florentino, era Maria Rosa a esconder-se na sombra de um rendado de cortina, que nem que ele a não visse devia recatar-se. E dizia.de si para consigo:
– Que lindo homem está chegando.
Rosinha numa janela da casinha que ficava para lá da tira de areia, no único cabeço da aldeia aconchegada nas muralhas do Forte. Não a sabia Florentino a chegar no bote, tinha ficado o barco grande atracado, ao largo. E mal jogou um pé fora do barquito, veio uma ondinha de um levante que se amodorrara e lambeu-lhe o linho alvo do tecido de que era feito o fato. Na janela, Maria Rosa riu-se de maldade. E riu ainda mais quando a areia recebeu o sapato de Florentino como se o devorasse.
Florentino a entrar ensopado na Aldeia da Senhora do Forte, e era afinal como entrava todo o mundo que chegava pelo mar, antes de estar acabado o cais. Trazia na mão uma maleta em cabedal curtido que era onde vinha o material de que faria uso, ali, como já fizera em outros lados.
O mulato todo vestido de branco, não fosse o salpico colorido que trazia nos lenços e nos sapatos, havia de dar a conhecer os seus serviços a um e outro.
Soube desde logo que havia de fazer bom negócio a olhar os homens barbudos e bem servidos de cabelo que cirandavam pelo areal.
Florentino, barbeiro vindo de terras quentes mais a sul, não sabia que, à sua chegada, estava, a namorar-lhe outros dotes, a menina mais bonita da aldeia.
E nem ele nem ela adivinhavam que o casório deles se faria noutro mês de começar o Verão, quando fosse inaugurado o cais e aí baptizado Cais das Dunas. Quando fosse outra Festa em honra da Senhora do Forte.



Lido na Festa do 20º aniversário da Aldeia da Nossa Senhora do Forte - 22 de Junho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

menção honrosa


Foi muito aconchegante.
"O júri atribuiu duas menções honrosas: uma, ao romance “Só mais um abraço”, da autoria de Maria de Fátima Marques Correia Santos, professora aposentada, de Lagos, obra sobre a qual o júri destacou a originalidade e beleza da escrita, a forma interessante de narrar os acontecimentos e os sentimentos das personagens e a sua estrutura inovadora e original; "

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

memórias de uma aldeia que nem foi

A aldeia é esse sossego feito de silêncios e salve-os Deus ditos a eito.
Casas pequenas e bosques e rebanhos, e uma paz tão enorme que se desconfia não estará a preparar-se algum combate.
E cuide-se, que mesmo na Aldeia há palavras difíceis de serem ditas de uns a outros.
E que sejam bem vindos os que forem chegando.**


    Seriam onze horas, mais quarto, menos quarto, manhã clara, sol manhoso por detrás de nuvens cor de algodão em rama, e outras de um cinzento carregado. Prometia um dia fresco em dealbar de Outubro.
     Seria minha mãe quem me levava pela mão e atrás o meu pai. E iria por ali o menino que eles diziam ter vindo no bico da cegonha. Talvez viesse no carrinho, não me lembra.
      Íamos de passeio, e disso, eu lembro-me muito bem. Eu, tão pequenina, pedalando o meu triciclo. Levaria o rosto afogueado e nem hoje sei se para onde íamos era aldeia ou seria sítio, ou se nem seria um nem outro, que meus pais diziam, referindo: vamos à quinta da Senhora Antónia, e não mais adiantavam. E eu pedalava de Lagos, cidade, até lá tão longe.
    E nem passava um único automóvel, que o mais que passavam eram mulas atreladas em carroças, e diziam uns aos outros: bom dia! salve-os deus! e eram chapéus voando das cabeças em largos cumprimentos. 
      E os meus pais sorriam, e eu um dia saberia que nenhum deles conhecia aquele que passava, e nem o outro que levava um boi.
      Coisas de aldeia, saberei um dia.
     Ao tempo, eu apenas sabia, e era tanto, que eram dias de sossego e coisas boas, da comida aos ares, e que cidade era o que ficava lá ao longe, o casario branco entre a baia e a ribeira que passava por debaixo da ponte.
     Se o sítio aonde íamos era aldeia ou se um dia viria a ser assim chamado, a nenhum deles importaria. Aldeia era, sem sombra para dúvida, a Luz ou Burgau, uma e a outra, ali, rentinho ao mar, ou o Sargaçal, as Portelas e Odiáxere, mais viradas ao campo. Aldeias bem perto de Lagos.
    Não foi em nenhuma delas que a senhora Antónia e o marido construíram uma casa. Foi ali, no sítio para onde íamos. Uma casinha quase arrumada à estrada, a casa deles. 
     E encavalitadas umas nas outras, ou assim parecendo, foram surgindo mais e mais, encosta arriba, naquele sítio afastado da cidade um bom par de quilómetros.
     A dar crédito apenas a memórias minhas desse tempo, diria que era o dealbar do Chinicato. Eram os anos cinquenta decorrendo.
      Lá no alto, a escola com as suas crianças, e a cada uma seu caderno de duas linhas, e um livro com meninos sorrindo, e um lugar onde sentar-se numa sala aconchegada e em cada sala, Jesus Cristo agarrado ao crucifixo e os retratos de dois senhores, um de cada lado. E a lousa negra e a secretária da senhora professora.
   Talvez a esse tempo nem houvesse a escola e a estivessem ainda a erguer dos caboucos, ou seriam já diversas casas caiadas de branco a ganharem a encosta, casas muito modestas e lá no cimo o edifício com o mastro da bandeira muito direito ao céu.
    Visto de longe, este sítio que a cidade alonjou de si, pareceria já então um presépio. E olhado da encosta em frente, não sendo uma aldeia seria muito semelhante. Um casario branquinho, com salpicos coloridos, e a sobressaírem os verdes de uma árvore e mais outra que mãos cuidadosas tinham plantado nos quintais. E a escorrer pelo Sargaçal, a mirar o sapal que a ribeira ali forma, a namorar o casario da cidade lá muito ao longe, um pinheiral singelo, e que Deus os perdoe se um dia o abatem em nome do progresso.
       Ainda por aqui passa, como antes, um ou outro rebanho, mais cabras e ovelhas que outro gado.
      Se não é aldeia, pois eu estou em mim que podia sê-lo.
   O silêncio derramado pelas tardes, e o céu pejado de estrelas e ao fundo o feérico da cidade.

     
     Talvez eu idealize. Talvez nem seja assim tal e qual neste Chinicato. Talvez eu esteja a esquecer ruídos que se fazem em alguns desses locais que emigraram da urbe em busca de repousos incautos. Talvez seja. Mas eu sei que em muita gente ainda reside esse espírito de ver em cada um, um conhecido, e apreciar o chilrear dos pássaros e o latir dos cães e, de vez em quando, já tão raro, acordar madrugando com o cantar de um galo.




O texto acima é uma minha modesta colaboração no 1º Congresso das Aldeias do Algarve cujo Encerramento terá lugar durante a Festa da Aldeia da Nossa Senhora do Forte que este ano comemora o 20º aniversário.
Será no próximo dia 22 de Junho, sábado, pelas 17h no Museu Municipal de Lagos



** texto introdutório adaptado do texto lido aqui

sábado, 25 de maio de 2013

nove anos

   

   Em Maio de 2004, os blogs tinham-se iniciado não havia muito, e o pessoal travestia-se cada um no seu nick-name. 
   Eu era a Seilá no blog Intervalos. Alojado no Sapo,  desapareceu completamente; não sei dele; vale que tenho cópias. Mas hoje que faz anos destas andanças, apetece-me recordar quem era então novato como eu. Uns quantos, claro, que eu a dizer, vou dizê-los de cor, e nisso esquecerei muitos; perdoem estes, e os outros, porque nem assim direi de cada um o principal. 
    E à memória vem de imediato a Lique, da Mulher dos 50 aos 60  e do Eu de novo, e do Vida de vidro e que encontro ali no FB. Abraço, Alice!
    E lembro o Ognid no seu Catedral desactivado depois que nos deixou de todo. Um abraço,Dionísio! Fica aqui uma foto tua.

    
   E homem também de fotos era o Rajoadas, Raúl de seu nome. E como esquecer o Zecatelhado, o António do Tádechuva,organizador do primeiro encontro de blogueiros um almoço nos finais de 2004. 
   E é desse tempo o Inde, o Quim do Lobices que ainda encontro  pelo Facebook.
    E quem seria por detrás da Mariaras do AVelha que cedo desapareceu? e a escrever o Tim Bora quem estaria?
   O Orca do Sete Mares ainda navega no seu blog e por essas tertúlias de música e poesia. Viva Jorge Castro! 
   E o sofá amarelo do Alex Gandum também vem desse tempo e anda pelo Facebook tal como anda o Almaro do  Aguarelas escritas.
   Mas nada sei de um Dom Badalo, e de um Micróbio, e  nem da MJM que entre outros tinha o dixit-sic-dixitE nem do Porquinho da India,nas suas várias versões do Bertus...
    E havia um Luz de Tecto e um Yard Birth...
   E nisto de blogs houve momentos altos como foi a loucura tão saudável da  Inconformada no tempo do seu Escrevo apenasagora é uma Alfacinha no FB e no blog O meu alpendreViva Maria Helena!
    E nesses momentos inesquecíveis, esteve o TCA e os seus desenhos no Abstracto Concreto. Também anda de vez em quando pelo FB. Abraço, Amadeu Brigas!
   E desse tempo também o Perplexo do Universos Assimétricoshomem com quem participo na revista on-line SAMIZDATViva,Joaquim!
     E desde início, a minha fidelíssima Wind mantém o seu nick e o Web Club; ela que é tantas vezes a minha única  visita no Repensando e nos meus outros  blogs; Isabel, um beijo!


Bem hajam todos!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

dia treze


hoje que é dia treze, este pedacito de um que escrevi, faz tempo
talvez até ande por aí publicado de outro modo, que eu corto, reescrevo, faço plágio de meus próprios textos


É o mês da virgem e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos a mostrar-se bailando aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e de terços. Os olhos deles intumescidos de pecados a cumprirem promessas por caminhos a sangrar orações. E nem o sol para aquecer asfaltos, para que escaldem as pedrinhas e fervente a terra que os peregrinos pisam, a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de pomadas e águas quase bentas.
Um horror estes dias com o sol filtrado.
Um calor a embeber as frontes com suores gelados, que são assim os suores de tristezas e doenças. Os suores de medos.
E nem uma aragem que rode um cata-vento no céu deste Maio.
Um tempo dos diabos, murmura Irene Fogaça de mistura com palavras de orações.  E vai rolando as bagas do terço, e em cada uma a Ave-Maria de cuja letra sabe apenas uns pedaços. 
Irene Fogaça que andou na catequese há um ror de tempo. 
Vai no cumprimento da promessa.
Entalada nos dedos, a conta que separa duas dezenas pede-lhe agora um Padre-Nosso  e ela tartamudeia como se fosse.





anda aqui, sim senhora 

sábado, 11 de maio de 2013

co-autorias

Acabadinhos de sair da gráfica 
olha-os na estante do Eduardo 
o Lunardelli do Varal


olha a pinta deles 


mas não me fico por aqui nisto de co-autorias
irão estar três pecados meus, a saber: ira, preguiça e luxúria, 
com quem travei conhecimento lá pelo FaceBook
a capa poderá ser esta

deixo um cheirinho de um dos meus contos, um dos meus pecados

Ana Lúcia tem que confessar que está curiosa. Que a mana explique o que lhe quer naquela sala a cheirar a mofo, e lá fora um sol de primavera. E volta a sentar-se, ela que sempre foi a mais extrovertida e a mais viajada. Morreria virgem, mas isso eram manias que nem vinham ao caso. E volta a cruzar a perna direita sobre a perna esquerda. Modos de ter sido habituada a estar sentada muito tempo em estiradores altos. Desenho de arquitecto uma vida inteira. E num descuido de estar mal enfiada, cai-lhe no chão a chinela do seu pé direito. Fica uma mancha vermelha a brilhar, indiscreta, no encerado do chão de madeira, na saleta da irmã Henriqueta, sua irmã mais velha, que nem lhe dá tempo de tornar a calçá-la. Henriqueta pontapeie aquele objecto numa cor que ela disse, há nada, achar inadequado que Ana Lúcia use. Um gesto tão feio quanto inesperado. Uma raiva inusitada que Henriqueta solta sobre a chinelinha da irmã mais nova. Assim o sente Ana Lúcia e não se engana, a olhar a chinela que fica tombada junto à ombreira da porta, o corredor em fundo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

ser que somos





  
ainda que te pegue pela mão

mesmo que adormeça contigo

mesmo que te prepare a cada dia as refeições

mesmo no que se chame e seja intimidade

ainda assim apenas parece



ainda que te abrace e beije

ainda que te pegue pela mão e te leve 

calcorreie contigo

montanhas rios mares e desertos

ainda assim não te conheço



não conhecemos nunca o outro

nunca sabemos ao certo

e no entanto

de vez em quando

é muito semelhante



podem rodar em ventos fortes os moinhos

bramar os mares em ondulações

revirar-se a Terra em magmas ardentes

o firmamento inteiro evoluir para nem sei onde

ser um tempo imenso ou um instante



pode dar-se o mais que se conceba até em sonho

pode dar-se tanto

e a gente

uns dos outros 

desconhecidos no que de facto somos



e o amor

o amor que faz milagres

sela com lacre timbrado a ouro
este sermos assim tão só de todos



ser solitário e único

é disto que te falo quando te chamo o nome






terça-feira, 23 de abril de 2013

dia mundial do texto escrito




   Escrevia assim lá no Face Book, essa plataforma de social coscuvilhice e muita outra coisa igualmente merecedora de que a gente lá espreite.
   Foi a propósito de ser hoje o Dia Mundial do Livro, e dizia eu que quando me perguntam de que livro mais gostei, eu engasgo: sei eu lá...
   Um deles é, sem sombra de dúvida, uma obra do Gabriel Garcia Marquez. Um texto de pouquinhas páginas que é literatura da maior. Chamaram-lhe Crónica de uma morte anunciada e é disso que se trata.
   Encontrei essa obra em formato PDF e daí decorreu o meu texto lá no FB. 
   Eu a dizer que livro, livro como a gente recorda, as folhas que precisavam ser despegadas e a cheirar a tinta, e a vir de uma casa onde o tinham composto com tipos, esse livro que cheirava já não existe a não ser nas bibliotecas e arquivos onde se guardam livros de outras vidas. 
   Celebrar o livro, hoje, é, quanto a mim, celebrar a leitura e celebrar a escrita seja qual seja o suporte, e disso que tenha achado curioso que o livro que eu diria ser o meu livro da vida, estivesse ali em  e-book, em formato PDF. 
   Um livro digital como convém nos dias em que se iniciam leitores em tabletes e outros que nunca lhes vi o modo senão nas lojas onde se comercializam e, alguns, ainda poucos, nas mãos de quem se delicia com um livro sem areia entre as páginas, sem folhas a precisarem de uma marca que diga: é de aqui em diante...Terão outro escolhos, não duvido.
   E lá no FB onde escrevi assim, mais ou menos, desejei que os meus netos lessem muito e também os netos deles, fosse  em que formato fosse inscrito o texto, que LIVRO, LIVRO mesmo, é o que está lá dentro.

e leiam:
Gabriel Garcia Marquez Cronica de uma Morte Anunciada pdf




Found at ebookbrowse.com


adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein