tens a tragédia alçada num reduto do teu corpo
nem sabes onde
mas sabes
intuis que seja disto ou daqueloutro, mas sem certeza
e um dia dói-te
um dia, e pode ser hoje
ou ter sido na manhã de ontem
ou naquela madrugada adentro, depois do vinho, depois de nem sequer teres bebido ou de teres apenas ingerido um chá bem quente, um chá que dizia nas letras da embalagem "calmante dos nervos" e tu teres pensado: "que raio acalmaria senão isso?!"
enquanto aquecias uns quatro dedos de água na cafeteira eléctrica que há muito te desabituaste de acender um fogo, sequer ligar a chapa - é ali, e fica pronta a água para o chá em poucos segundos que o tempo urge, o tempo sempre a correr atrás da gente, o tempo a dizer é hoje, foi ontem, vai ser daqui a pouco
o tempo a misturar-se com os sinais do corpo
e pode ser na praia
e pode ser - inusitada é sempre-
fazendo a depilação ou lendo um livro
ou pode vir num repente e nem ficares sabendo
mas, e isso não duvides, a tragédia está lá,
e quiçá sorri-se
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
terça-feira, 3 de setembro de 2013
sonho
triste
tu andas triste
corresse água límpida como a que correu no meu sonho
torrentes de água a efervescerem, frescas de caleiras e de gretas
água através da qual se vislumbrava a paisagem colorida pelos veios de arco-íris que lhe fazia a luz, que era ainda luz difusa do dia a nascer lá muito em baixo, que era para onde corriam os teus passos lestos como há tanto não via
tu a correr e eu seguindo-te, os meus pés enterrando-se numa terra fofa, terra ainda não banhada dessa água que vinha atrás da gente, terra solta, terra de um castanho que se fez rendado de vermelhos, mal lhe entrou um fio de água e depois outro, e tu correndo, e eu com a minha saia entre as mãos a desimpedir-me os pés descalços
e éramos já em outro território, éramos longe do local onde a água correra, inopinada, pelos buracos, gretas, interstícios onde a tinhas querido presa - poço, cisterna, o que fosse onde a domasses, água que se tinha solto, rija, transparente, a mostrar o quanto havia de outro espaço para que fosse longe
e longe era onde eu andava procurando-te e chamava-te, e era o teu nome que retornava de terem as letras, cada uma, colidido na casa semienterrada na paisagem - uma casa enorme e eu espantada que fosse outro continente onde vinha eu, e vinha a água, e tu já não vinhas correndo
eu chamando o teu nome, tu que tinhas ficado, triste, tão triste que tu estavas encostado ao muro de onde o primeiro jacto de água límpida tinha brotado
a água a fugir do que tinhas construído e seria talvez barragem ou seria lago
a água que alagou outro continente e me seguia por onde eu corria a chamar o teu nome
acordei fresca
acordei serena
acordei com muita pena que não tivesses vindo
tu andas triste
corresse água límpida como a que correu no meu sonho
torrentes de água a efervescerem, frescas de caleiras e de gretas
água através da qual se vislumbrava a paisagem colorida pelos veios de arco-íris que lhe fazia a luz, que era ainda luz difusa do dia a nascer lá muito em baixo, que era para onde corriam os teus passos lestos como há tanto não via
tu a correr e eu seguindo-te, os meus pés enterrando-se numa terra fofa, terra ainda não banhada dessa água que vinha atrás da gente, terra solta, terra de um castanho que se fez rendado de vermelhos, mal lhe entrou um fio de água e depois outro, e tu correndo, e eu com a minha saia entre as mãos a desimpedir-me os pés descalços
e éramos já em outro território, éramos longe do local onde a água correra, inopinada, pelos buracos, gretas, interstícios onde a tinhas querido presa - poço, cisterna, o que fosse onde a domasses, água que se tinha solto, rija, transparente, a mostrar o quanto havia de outro espaço para que fosse longe
e longe era onde eu andava procurando-te e chamava-te, e era o teu nome que retornava de terem as letras, cada uma, colidido na casa semienterrada na paisagem - uma casa enorme e eu espantada que fosse outro continente onde vinha eu, e vinha a água, e tu já não vinhas correndo
eu chamando o teu nome, tu que tinhas ficado, triste, tão triste que tu estavas encostado ao muro de onde o primeiro jacto de água límpida tinha brotado
a água a fugir do que tinhas construído e seria talvez barragem ou seria lago
a água que alagou outro continente e me seguia por onde eu corria a chamar o teu nome
acordei fresca
acordei serena
acordei com muita pena que não tivesses vindo
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
em vez de prece
Teimosamente, deixas que os dias se encarreguem.
Os pés incham-te.
As veias das tuas pernas parecem cordões lilases de um novelo que se tivesse desfeito em linhas soltas e as enleasse; linhas em torno delas, salpicadas.
E os olhos, esses, estão cada vez mais saltados das órbitas, e sem brilho.
Baços os teus olhos castanhos, e um mais fechado que o outro. O esquerdo a ressentir-se da tua teimosia em não tratares o corpo.
A alma eu não sei se alguma vez percebeste que essa também precisa de tratamento ou engelha, enrodilha-se, deixa mesmo de servir para o que seja. E sem alma a gente é menos ainda que a formiga, que essa, dizimado o carreiro que enchemos de veneno, o carreiro que atravessava, de uma ponta à outra, os azulejos da banheira, aparece, em proporções semelhantes, na extremidade oposta.
Mas tu não és uma formiga, e eu receio que um dia destes nem seja de veneno, mas de ti mesmo, que desapareces.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
concurso de contos cidade de Araçaltuba
Um conto meu galardoado com uma das cinco menções honrosas no concurso de contos cidade de Araçaltuba
Como dizem os nosso irmãos brasileiros, confira aqui
terça-feira, 25 de junho de 2013
Florentino barbeiro
Trazia no pescoço um lenço num
tecido vistoso. E do lado esquerdo, que é o lado do coração, um lencinho
vermelho assim como sangue a ensopar-lhe o branco do casaco.
Nem seria por ele estar
chegando que soavam foguetes.
Florentino chegava no barco
e vinha por trabalho.
Vestidinho de branco, não
fosse o lenço no pescoço e mais o encarnado do lencinho no bolso do casaco, e o
sapato que era em verniz negro como o seu cabelo, uma carapinha farta besuntada
a brilhantina por baixo do chapéu de palhinha com fita igualzinha à cor do fato
que vestia, e era branco.
Foi como o viu Maria Rosa, e
ela mesma conta:
– Era um mulato escuro e
vinha tão bonito no seu fato imaculado!
Era o dia da Festa e daí os
foguetes. Era também o dia de chegar o barco.
Não o sabia Florentino, como
não sabia que Rosinha o olhava lá de longe. Florentino encandeado do sol que
brilhava na janelinha onde ela assomava numa das casinhas da aldeia. Calçada do Cipreste era onde ficava a casa de Maria
Rosa.
Brilhava um sol de início de
Verão que também cintilava no campanário da Igreja, e na areia da praia e nas
ameias do Forte.
E Florentino que já vira
muito, ainda assim, embasbacava.
Ele a dar duas dobras nas
calças, e a mostrar a peúga muito alva.
O marinheiro tinha avisado:
– Arregacem a roupa –
estavam eles a entrar no bote e eram, além de Florentino, um homem que trazia
galinhas num cabaz, e uma mulher anafada que tinha jeito de ser quem deitaria
cartas e faria nascer os meninos lá na aldeia.
Lá ao longe, fora do olhar
de Florentino, era Maria Rosa a esconder-se na sombra de um rendado de cortina,
que nem que ele a não visse devia recatar-se. E dizia.de si para consigo:
– Que lindo homem está
chegando.
Rosinha numa janela da
casinha que ficava para lá da tira de areia, no único cabeço da aldeia
aconchegada nas muralhas do Forte. Não a sabia Florentino a chegar no bote, tinha
ficado o barco grande atracado, ao largo. E mal jogou um pé fora do barquito,
veio uma ondinha de um levante que se amodorrara e lambeu-lhe o linho alvo do
tecido de que era feito o fato. Na janela, Maria Rosa riu-se de maldade. E riu
ainda mais quando a areia recebeu o sapato de Florentino como se o devorasse.
Florentino a entrar ensopado
na Aldeia da Senhora do Forte, e era afinal como entrava todo o mundo que chegava
pelo mar, antes de estar acabado o cais. Trazia na mão uma maleta em cabedal
curtido que era onde vinha o material de que faria uso, ali, como já fizera em
outros lados.
O mulato todo vestido de
branco, não fosse o salpico colorido que trazia nos lenços e nos sapatos, havia
de dar a conhecer os seus serviços a um e outro.
Soube desde logo que havia
de fazer bom negócio a olhar os homens barbudos e bem servidos de cabelo que
cirandavam pelo areal.
Florentino, barbeiro vindo
de terras quentes mais a sul, não sabia que, à sua chegada, estava, a
namorar-lhe outros dotes, a menina mais bonita da aldeia.
E nem ele nem ela adivinhavam
que o casório deles se faria noutro mês de começar o Verão, quando fosse
inaugurado o cais e aí baptizado Cais das Dunas.
Quando fosse outra Festa em honra da Senhora do Forte.
Lido
na Festa do 20º aniversário da Aldeia da Nossa Senhora do Forte - 22 de Junho de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
menção honrosa
"O júri atribuiu duas menções honrosas: uma, ao romance “Só mais um abraço”, da autoria de Maria de Fátima Marques Correia Santos, professora aposentada, de Lagos, obra sobre a qual o júri destacou a originalidade e beleza da escrita, a forma interessante de narrar os acontecimentos e os sentimentos das personagens e a sua estrutura inovadora e original; "
leia o anúncio aqui
quarta-feira, 12 de junho de 2013
memórias de uma aldeia que nem foi
A aldeia é esse sossego feito de silêncios e salve-os Deus
ditos a eito.
Casas pequenas e bosques e rebanhos, e uma paz tão enorme
que se desconfia não estará a preparar-se algum combate.
E cuide-se, que mesmo na Aldeia há palavras difíceis de
serem ditas de uns a outros.
E que sejam bem vindos os que forem chegando.**
Seriam onze horas, mais quarto, menos quarto, manhã clara,
sol manhoso por detrás de nuvens cor de algodão em rama, e outras de um
cinzento carregado. Prometia um dia fresco em dealbar de Outubro.
Seria minha mãe quem me levava pela mão e atrás o meu pai. E
iria por ali o menino que eles diziam ter vindo no bico da cegonha. Talvez
viesse no carrinho, não me lembra.
Íamos de passeio, e disso, eu lembro-me muito bem. Eu, tão pequenina, pedalando o meu triciclo. Levaria o rosto afogueado e nem hoje sei se para onde íamos era aldeia ou seria sítio, ou se nem seria um nem outro, que meus pais diziam, referindo: vamos à quinta da Senhora Antónia, e não mais adiantavam. E eu pedalava de Lagos, cidade, até lá tão longe.
Íamos de passeio, e disso, eu lembro-me muito bem. Eu, tão pequenina, pedalando o meu triciclo. Levaria o rosto afogueado e nem hoje sei se para onde íamos era aldeia ou seria sítio, ou se nem seria um nem outro, que meus pais diziam, referindo: vamos à quinta da Senhora Antónia, e não mais adiantavam. E eu pedalava de Lagos, cidade, até lá tão longe.
E nem passava um único automóvel, que o mais que passavam
eram mulas atreladas em carroças, e diziam uns aos outros: bom dia! salve-os
deus! e eram chapéus voando das cabeças em largos cumprimentos.
E os meus pais
sorriam, e eu um dia saberia que nenhum deles conhecia aquele que passava, e
nem o outro que levava um boi.
Coisas de aldeia, saberei um dia.
Ao tempo, eu apenas sabia, e era tanto, que eram dias de
sossego e coisas boas, da comida aos ares, e que cidade era o que ficava lá ao
longe, o casario branco entre a baia e a ribeira que passava por debaixo da
ponte.
Se o sítio aonde íamos era aldeia ou se um dia viria a ser
assim chamado, a nenhum deles importaria. Aldeia era, sem sombra para dúvida, a
Luz ou Burgau, uma e a outra, ali, rentinho ao mar, ou o Sargaçal, as Portelas
e Odiáxere, mais viradas ao campo. Aldeias bem perto de Lagos.
Não foi em nenhuma delas que a senhora Antónia e o marido
construíram uma casa. Foi ali, no sítio para onde íamos. Uma casinha quase
arrumada à estrada, a casa deles.
E encavalitadas umas nas outras, ou assim
parecendo, foram surgindo mais e mais, encosta arriba, naquele sítio afastado
da cidade um bom par de quilómetros.
A dar crédito apenas a memórias minhas desse tempo, diria
que era o dealbar do Chinicato. Eram os anos cinquenta decorrendo.
Lá no alto, a escola com as suas crianças, e a cada uma seu
caderno de duas linhas, e um livro com meninos sorrindo, e um lugar onde
sentar-se numa sala aconchegada e em cada sala, Jesus Cristo agarrado ao
crucifixo e os retratos de dois senhores, um de cada lado. E a lousa negra e a
secretária da senhora professora.
Talvez a esse tempo nem houvesse a escola e a estivessem
ainda a erguer dos caboucos, ou seriam já diversas casas caiadas de branco a
ganharem a encosta, casas muito modestas e lá no cimo o edifício com o mastro
da bandeira muito direito ao céu.
Visto de longe, este sítio que a cidade alonjou de si,
pareceria já então um presépio. E olhado da encosta em frente, não sendo uma
aldeia seria muito semelhante. Um casario branquinho, com salpicos coloridos, e
a sobressaírem os verdes de uma árvore e mais outra que mãos cuidadosas tinham
plantado nos quintais. E a escorrer pelo Sargaçal, a mirar o sapal que a
ribeira ali forma, a namorar o casario da cidade lá muito ao longe, um
pinheiral singelo, e que Deus os perdoe se um dia o abatem em nome do
progresso.
Ainda por aqui passa, como antes, um ou outro rebanho, mais
cabras e ovelhas que outro gado.
Se não é aldeia, pois eu estou em mim que podia sê-lo.
O silêncio derramado pelas tardes, e o céu pejado de
estrelas e ao fundo o feérico da cidade.
Talvez eu idealize. Talvez nem seja assim tal e qual neste Chinicato. Talvez eu esteja a esquecer ruídos que se fazem em alguns desses locais que emigraram da urbe em busca de repousos incautos. Talvez seja. Mas eu sei que em muita gente ainda reside esse espírito de ver em cada um, um conhecido, e apreciar o chilrear dos pássaros e o latir dos cães e, de vez em quando, já tão raro, acordar madrugando com o cantar de um galo.
O texto acima é uma minha modesta
colaboração no 1º Congresso das Aldeias do Algarve cujo Encerramento terá lugar
durante a Festa da Aldeia da Nossa Senhora do Forte que este ano comemora o 20º
aniversário.
Será no próximo dia 22 de Junho,
sábado, pelas 17h no Museu Municipal de Lagos
** texto introdutório adaptado do texto lido aqui
sábado, 25 de maio de 2013
nove anos
Em Maio de 2004, os blogs tinham-se iniciado não havia muito, e o pessoal travestia-se cada um no seu nick-name.
Eu era a Seilá no blog Intervalos. Alojado no Sapo, desapareceu completamente; não sei dele; vale que tenho cópias. Mas hoje que faz anos destas andanças, apetece-me recordar quem era então novato como eu. Uns quantos, claro, que eu a dizer, vou dizê-los de cor, e nisso esquecerei muitos; perdoem estes, e os outros, porque nem assim direi de cada um o principal.
E à memória vem de imediato a Lique, da Mulher dos 50 aos 60 e do Eu de novo, e do Vida de vidro e que encontro ali no FB. Abraço, Alice!
E lembro o Ognid no seu Catedral desactivado depois que nos deixou de todo. Um abraço,Dionísio! Fica aqui uma foto tua.
E homem também de fotos era o Rajoadas, Raúl de seu nome. E como esquecer o Zecatelhado, o António do Tádechuva,organizador do primeiro encontro de blogueiros um almoço nos finais de 2004.
E é desse tempo o Inde, o Quim do Lobices que ainda encontro pelo Facebook.
E homem também de fotos era o Rajoadas, Raúl de seu nome. E como esquecer o Zecatelhado, o António do Tádechuva,organizador do primeiro encontro de blogueiros um almoço nos finais de 2004.
E é desse tempo o Inde, o Quim do Lobices que ainda encontro pelo Facebook.
E quem seria por detrás da Mariaras do AVelha que cedo desapareceu? e a escrever o Tim Bora quem estaria?
O Orca do Sete Mares ainda navega no seu blog e por essas tertúlias de música e poesia. Viva Jorge Castro!
E o sofá amarelo do Alex Gandum também vem desse tempo e anda pelo Facebook tal como anda o Almaro do Aguarelas escritas.
Mas nada sei de um Dom Badalo, e de um Micróbio, e nem da MJM que entre outros tinha o dixit-sic-dixit. E nem do Porquinho da India,nas suas várias versões do Bertus...
Mas nada sei de um Dom Badalo, e de um Micróbio, e nem da MJM que entre outros tinha o dixit-sic-dixit. E nem do Porquinho da India,nas suas várias versões do Bertus...
E havia um Luz de Tecto e um Yard Birth...
E nisto de blogs houve momentos altos como foi a loucura tão saudável da Inconformada no tempo do seu Escrevo apenas; agora é uma Alfacinha no FB e no blog O meu alpendre. Viva Maria Helena!
E nisto de blogs houve momentos altos como foi a loucura tão saudável da Inconformada no tempo do seu Escrevo apenas; agora é uma Alfacinha no FB e no blog O meu alpendre. Viva Maria Helena!
E nesses momentos inesquecíveis, esteve o TCA e os seus desenhos no Abstracto Concreto. Também anda de vez em quando pelo FB. Abraço, Amadeu Brigas!
E desse tempo também o Perplexo do Universos Assimétricos, homem com quem participo na revista on-line SAMIZDAT. Viva,Joaquim!
E desde início, a minha fidelíssima Wind mantém o seu nick e o Web Club; ela que é tantas vezes a minha única visita no Repensando e nos meus outros blogs; Isabel, um beijo!
Bem hajam todos!
segunda-feira, 13 de maio de 2013
dia treze
hoje que é dia treze, este pedacito de um que escrevi, faz
tempo
talvez até ande por aí publicado de outro modo, que eu corto, reescrevo, faço plágio de meus próprios textos
É o mês da virgem e nem o sol redondo, inchado, prenhe
de fogos a mostrar-se bailando aos olhos peregrinos, fálicos de
segredos e de terços. Os olhos deles intumescidos de pecados a cumprirem
promessas por caminhos a sangrar orações. E nem o sol para aquecer asfaltos,
para que escaldem as pedrinhas e fervente a terra que os peregrinos pisam, a
tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com
desvelos de pomadas e águas quase bentas.
Um calor a embeber as frontes com suores gelados, que são
assim os suores de tristezas e doenças. Os suores de medos.
E nem uma aragem que rode um cata-vento no céu deste Maio.
Um tempo dos diabos, murmura Irene Fogaça de mistura com
palavras de orações. E vai rolando as
bagas do terço, e em cada uma a Ave-Maria de cuja letra sabe apenas uns
pedaços.
Irene Fogaça que andou na catequese há um ror de tempo.
Vai no cumprimento da promessa.
Entalada nos dedos, a conta que separa duas dezenas pede-lhe
agora um Padre-Nosso e ela tartamudeia
como se fosse.
anda aqui, sim senhora
anda aqui, sim senhora
sábado, 11 de maio de 2013
co-autorias
Acabadinhos de sair da gráfica
olha-os na estante do Eduardo
olha-os na estante do Eduardo
o Lunardelli do Varal
olha a pinta deles
mas não me fico por aqui nisto de co-autorias
irão estar três pecados meus, a saber: ira, preguiça e luxúria,
numa edição da Pastelaria Estúdios Editora
com quem travei conhecimento lá pelo FaceBook
a capa poderá ser esta
deixo um cheirinho de um dos meus contos, um dos meus pecados
Ana Lúcia tem que confessar que está curiosa. Que a mana explique o que lhe quer naquela sala a cheirar a mofo, e lá fora um sol de primavera.
E volta a sentar-se, ela que sempre foi a mais extrovertida e a mais viajada. Morreria virgem, mas isso eram manias que nem vinham ao caso.
E volta a cruzar a perna direita sobre a perna esquerda. Modos de ter sido habituada a estar sentada muito tempo em estiradores altos. Desenho de arquitecto uma vida inteira.
E num descuido de estar mal enfiada, cai-lhe no chão a chinela do seu pé direito.
Fica uma mancha vermelha a brilhar, indiscreta, no encerado do chão de madeira, na saleta da irmã Henriqueta, sua irmã mais velha, que nem lhe dá tempo de tornar a calçá-la. Henriqueta pontapeie aquele objecto numa cor que ela disse, há nada, achar inadequado que Ana Lúcia use.
Um gesto tão feio quanto inesperado.
Uma raiva inusitada que Henriqueta solta sobre a chinelinha da irmã mais nova.
Assim o sente Ana Lúcia e não se engana, a olhar a chinela que fica tombada junto à ombreira da porta, o corredor em fundo.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
ser que somos
ainda que te pegue pela
mão
mesmo que adormeça contigo
mesmo que te prepare a cada dia
as refeições
mesmo no que se chame e seja intimidade
ainda assim apenas parece
ainda que te abrace e beije
ainda que te pegue pela mão e te
leve
calcorreie contigo
montanhas rios mares e desertos
ainda assim não te conheço
não conhecemos nunca o outro
nunca sabemos ao certo
e no entanto
de vez em quando
é muito semelhante
podem rodar em ventos fortes os moinhos
bramar os mares em ondulações
revirar-se a Terra em magmas
ardentes
o firmamento inteiro evoluir para
nem sei onde
ser um tempo imenso ou um instante
pode dar-se o mais que se conceba até em sonho
pode dar-se tanto
e a gente
uns dos outros
desconhecidos no que de facto
somos
e o amor
o amor que faz milagres
sela com lacre timbrado a ouro
este sermos assim tão só de todos
ser solitário e único
é disto que te falo quando te
chamo o nome
terça-feira, 23 de abril de 2013
dia mundial do texto escrito
Escrevia assim lá no Face Book, essa plataforma de social coscuvilhice e muita outra coisa igualmente merecedora de que a gente lá espreite.
Foi a propósito de ser hoje o Dia Mundial do Livro, e dizia eu que quando me perguntam de que livro mais gostei, eu engasgo: sei eu lá...
Um deles é, sem sombra de dúvida, uma obra do Gabriel Garcia Marquez. Um texto de pouquinhas páginas que é literatura da maior. Chamaram-lhe Crónica de uma morte anunciada e é disso que se trata.
Encontrei essa obra em formato PDF e daí decorreu o meu texto lá no FB.
Eu a dizer que livro, livro como a gente recorda, as folhas que precisavam ser despegadas e a cheirar a tinta, e a vir de uma casa onde o tinham composto com tipos, esse livro que cheirava já não existe a não ser nas bibliotecas e arquivos onde se guardam livros de outras vidas.
Celebrar o livro, hoje, é, quanto a mim, celebrar a leitura e celebrar a escrita seja qual seja o suporte, e disso que tenha achado curioso que o livro que eu diria ser o meu livro da vida, estivesse ali em e-book, em formato PDF.
Um livro digital como convém nos dias em que se iniciam leitores em tabletes e outros que nunca lhes vi o modo senão nas lojas onde se comercializam e, alguns, ainda poucos, nas mãos de quem se delicia com um livro sem areia entre as páginas, sem folhas a precisarem de uma marca que diga: é de aqui em diante...Terão outro escolhos, não duvido.
E lá no FB onde escrevi assim, mais ou menos, desejei que os meus netos lessem muito e também os netos deles, fosse em que formato fosse inscrito o texto, que LIVRO, LIVRO mesmo, é o que está lá dentro.
e leiam:
| Gabriel Garcia Marquez Cronica de uma Morte Anunciada pdf |
Found at ebookbrowse.com
sábado, 13 de abril de 2013
dia internacional do beijo?!
escrevi este texto faz já uns belos anos
ando numa fase de revivalismo...
ou será mais de preguiça...
quinta-feira, 4 de abril de 2013
nono de vários
e éramos uma turbe
depois de sermos apenas eu e tu
éramos imensos
mas isso foi num outro mundo
muito longe
muito antes
muito antes
muito antes
sábado, 30 de março de 2013
mãos na massa
Dizem-me que dicotomizo, que separo, que
olho sempre em dois modos.
E que não devo.
Mas como faço, deuses, se o cheiro,
o tom da voz, o jeito inteiro, é de molde a que eu veja tão diverso, tão um e
outro, e disso nem me importe.
Se bem que eu sei que temos ambos um pouco
de cada um.
E no entanto…
Para levedá-la, para que cresça a massa,
de onde as orações? De onde a prece para que levede?
Quem ora para
que "calhe bem"?
Ancestralidades que são modos, terão feito
esses meus olhares.
Uma cruz por cima da massa que ainda nem
enche o alguidar. E também uma cruz na própria massa, desenhada com a mão em
cutelo.
Elas desenhando, deixando na massa a
cruz onde Ele morreu.
E que levede.
Que o que aqui deixo desapareça e nisso
mostre que cresceu.
Ou enterram o dedo cinco vezes que é esse
o número das chagas de Cristo.
E rezam.
Assim ou de modo semelhante:
São Vicente te acrescente,
São Vicente te alevede,
Em louvor da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
São Vicente te alevede,
Em louvor da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
E cobrem com mantas. Ou colocam farelo
sobre um pano fino para que o azedo se faça quentinho e ajude a crescer. Ou de
algum outro modo mantêm aquecida a massa levedando.
E vão meter a mão em outras massas, outros
afazeres.
Fica a massa ali o tempo necessário para
que se cresça. Para que se dê cumprimento ao pedido que enviaram na reza:
São Vicente te acrescente,
São Mamede te levede,
Nossa Senhora da Ribeira
Te faça tão lindo e formoso
Como a flor da macieira, ou da amendoeira.
Ou de outra maneira terão elas orado
sobre a massa acabada de amassar:
Deus te levede e torne a levedar,
Para comermos e para dar.
E mais um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. E enunciam outros santos:
São João te faça bom pão
E São Mamede te levede
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai Nosso e uma Ave-Maria
E São Mamede te levede
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai Nosso e uma Ave-Maria
E dizer que era para ela
e era para os seus:
Deus te acrescente
Para mim e para toda a minha gente
Para mim e para toda a minha gente
Há olhares diferentes, sim, modos de
sentir, modos de fazer também. Há um olhar característico do ser feminino, eu estou convencida disso. Nada a fazer.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Canto Chão
eu a querer comemorar a Primavera
deixar aqui registo
abro o blogger e dou com este hino ao bom gosto
este hino à mulher,
à vida
poesia em cada linha
em cada foto
Canto Chão de Gabriela Rocha Martins
duy huynh
e isto é Primavera
e isto é renascer
duy huynh
quarta-feira, 20 de março de 2013
dia dos contadores de histórias
hoje, é também dia da felicidade,
e eu entendo que há momentos na vida em que a gente é feliz,
apenas momentos que, como onda,
se espraiam pela praia da vida que vamos vivendo,
até outra onda, outro momento
e eu entendo que há momentos na vida em que a gente é feliz,
apenas momentos que, como onda,
se espraiam pela praia da vida que vamos vivendo,
até outra onda, outro momento
terça-feira, 19 de março de 2013
sem
A gente busca o que seria pele
seria
afago,
e
em troca é apenas isto:
o ar que respiramos a ocupar tudo.
Ter sido para sempre
e nunca termos dito
nunca ter sido como desejamos
um
e outro.
A gente tateia e é só infinito
e
nem um espaço que tivesse ficado
vácuo de teres aí existido.
sábado, 16 de março de 2013
decepadas
Cortaram um pedaço de Primavera na cidade de Lagos.
O bairro 30 de Junho no Chinicato ficou mais pobre.
Ficou mais pobre a nossa cidade.
Cortaram árvores assim como mostra a foto.
Será isto poda?!
Será esta a época indicada?!
O que eu vejo são árvores decepadas.
E os jacarandás iriam florir já no mês que entra ou muito próximo...
E nem foram os serviços camarários, e nem foram técnicos de flora ou agentes sanitários a decretar:
corte-se, não se deixe um só ramo, faça-se de cada árvore apenas tronco.
Não faria isso quem soubesse, quero acreditar!
A decisão veio da direcção da cooperativa, veio de quem aqui vive, o que me espanta e dói ainda mais.
Decisão que resulta no espectáculo que as fotos nem conseguem documentar, que não se documenta numa fotografia o que se sente a olhar aquelas pobres árvores reduzidas a troncos mutilados, impedidas de florir, quem sabe se apenas neste ano, aquelas árvores já com tanta idade...
Erguidos aos céus estes pobres cotos
que nem ramos sequer e suas folhas a encher de sombra os dias de Estio neste bairro.
Não é isto incúria?!
Será zelo?
Se é zelo,
se acções destas têm defesa, e sou eu que incorro em erro, andarei então num mundo que não é o meu...
Eu que temo se morrerão algumas, senão todas estas árvores...
e se viverei para as ver de novo frondosas...
e se poderão os meus netos passear um dia na sua sombra...
Às gentes que assim decidiram
e aos demais que terão ficado contentes
e aos que porventura até o desejaram
(sei lá eu que imperativos terão movido um tal corte)
a todos desejo que o sono lhes seja levezinho,
que se é crise o que por aí se clama,
é de zelos semelhantes que eu mais temo.
Resta-me crer que os troncos que ali ficaram rebentem em ramos novos.
Que sejam de novo árvores frondosas e acolhedoras.
Que floresçam.
Que as deixem crescer como merecem,
assim imploro aos deuses.
Aos deles
que eu, pobre de mim, não tenho deuses.
fotos de Maria de Fátima
quinta-feira, 14 de março de 2013
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