terça-feira, 15 de janeiro de 2013

sétimo de vários






parcas 
indigentes mesmo
e uns cús enormes


uns cús
uns cús
que cús tinham essas mulheres











desenho de Maria de Fátima


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

sexto de vários







nada haverá
por detrás do número
nada além de 







unidades
dezenas
centenas
milhares















foto de Maria de Fátima

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

o quinto de vários





e que 2013 nos vá dando um pouco ...

 

 

de poeta

e de louco...

 

 

 

 

 

 

 




 
 
 
 
 
 
 
 
 
           
Goya

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

o quarto de vários





amanheceu-me uma nuvem no olho
um farrapo em cima do olho esquerdo
vejo mal
vejo só do olho direito






não vejo
porra 
não vejo








adaptado de René Maigritte

domingo, 23 de dezembro de 2012

três de vários


pancadinhas na madeira e que se vão feitiços
a mim feriram-se-me os nós dos dedos
foi isso










retirado da net


domingo, 16 de dezembro de 2012

dois de vários






ando nisto
ontem estive quase para subir ao guarda-fatos 
e depois despencar-me de lá abaixo
sustive-me
mas hoje andei o dia todo em modo triste


amanhã não me sustenho
amanhã subo
amanhã faço
































desenho de Maria de Fátima



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

um de vários







Emborquei dois pedaços de mim sobre a mesa do almoço
E depois fugi disfarçada de sapo



disfarçada de sapo
disfarçada de sapo
disfarçada



foto de Maria de Fátima



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

o meu livrinho





               Eu ontem escrevi ali num comentárioe o que eu devia era ter saído correndo a ver a caixa do correio!
 Fiz isso, um dia atrás do outro, sempre  pela manhãzinha, mas hoje demorei-me, deixei para mais tarde, e o livrinho lá ficou o dia todo ao frio deste dia de inverno.
O livrinho ali abandonado, terá até lamuriado:
Eduardo, esta portuguesa tarda em fazer como você disse que ela faria…e agora escurece e está frio...
você comentou que ela era meio doida...era esta, não era?! e se ela não me pega?! 
Terá sido assim que terá estado o meu livrinho, e eu não me perdoo, ainda mais porque, quando abri a portinhola do correio, em vez de acarinhá-lo, colocá-lo amorosamente junto ao seio, tirá-lo de imediato de dentro daquele envelope, não o fiz, não! Egoísta, a dar-me tempo de poder desfrutá-lo com sossego, ergui-o na minha mão, a gritar ao maridão que me esperava no passeio: 
chegou ! cá está ele! 
e o coitado morrendo de frio e de cansaço.
Ah! mas depois foi lareirinha com lume crepitando e foi eu no sofá a folheá-lo! E ele, sabe, Eduardo, o seu livrinho, dizia-me a cada palavra, a cada frase, a cada virar de página que eu fazia:
que beleza de livro fez o nosso Eduardo, não é Maria de Fátima?! 
Sabia até o meu nome! Que bem industriado vinha! 
E a dizer-me, vaidoso:
que bem estruturado! que elegante! 
você não tá achando isso?! 
um mimo! um fazer de mestre esse modo de ir dizendo dos amigos, e assim naturalmente, levezinho, a dizer o modo como eu fui aparecendo e ainda tecer considerações (sábias, não acha do que já viu?!) sobre essa vida de ter blogues e alimentá-los!
Por demais este livro do Eduardo! exclamei eu em voz alta ali na sala onde a família via o noticiário. Eu sem poder conter-me, e o livrinho sempre cutucando:
estou vendo que você está gostando, e nem precisa estar falando isso, que eu noto no jeitinho de você virar a folha, no modo como vai passando o dedo... e nem imagina como isso me deixa tão contente!
e, diga-me, não é mesmo verdade que a capa é muito, mas muito mais bonita assim na realidade?! 
estou vaidoso de me estar gostando tanto!
diga isso ao Eduardo! pediu-me ele.
diga também que eu agradeço muito que me tenha mandado para as suas mãos! 
e diga-lhe obrigada
não esqueça de lhe dizer: obrigadão meu caro Eduardo, muito e muito obrigada por me ter enviado! 
E quando lhe coloquei uma marca de página a guardá-lo para outra rodada de leitura, ele pediu-me:
promete que amanhã me pega outro niquinho ?!
Deixou-me extasiada este livrinho.
Tanto que nem consigo dizer mais. 


Ah! Eduardo! ele segredou-me, e nem sei que crédito lhe encontre, que lá na página não sei quantos, eu iria encontrar sítio que, tocando, saltaria o calor igual da sua mão. Não me diga se é verdade ou não. Ainda não cheguei lá, mas depois conto… 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

caixinha de pregos

Ela queria tão apenas descer numa estaçãozinha e chamar-se Maria da Graça ou Constança, ou outro nome, nem que fosse Vanessa ou Tânia. Um nome que não o que lhe tinha sido aposto por batismo e lhe acordaria em cada instante ardores de feridas dilaceradas por pedras de caminhos conhecidos.
Queria ficar num apeadeiro, alugar um quartinho numa pensão barata, e andar rumando ruazinhas espreitada por mulheres assomadas de esguelha em janelas com cortinazinhas de rendas tricotadas em noites de sonhos, à luz de luas cheias. Mulheres paradas no destino como ela.
Ajeitou o saco onde trazia a caixinha dos pregos. Tinha-os conseguido no tamanho certo, e sabia que seria um em cada dedo, e se espichasse sangue ela o lamberia antes que espetasse o segundo, devagarinho, apenas um nadinha através da pele e ainda assim atingiria um vasito ou outro.
Sabia. Tinha-se documentado.
Sentou-se direita no banco da automotora e a paisagem deslizou como fazia antes, como fazia desde há os dias em que ela descia numa estação e comia uma bucha, nada mais que um pãozinho lambuzado com manteiga e um copo de leite morno aquecido em cafeteiras com ar duvidoso.
E seguia viagem na próxima automotora.
Mais uns dias, sonhava ela no embalo dos carris, e estaria onde ninguém lhe ouviria contar de poiais caiados de branco e uma pedra e os tamancos a subirem já cansados na hora de ainda nem ser dia, e voltavam já o sol descido, que em dias de inverno o sol nem esperava para que fosse ocaso, ia-se por dentro das nuvens e ficava aquele dia pesado e quando o pé poisava na pedra do degrau era noite desde há muito.
Ninguém a ouviria contar ou, ouvindo, nem a entenderia, e ela explicaria com aquele distender de rugas entre os olhos como se fora sinal de estar fazendo esforço, e no entanto era ela contando num monólogo nunca satisfeito ainda que soubesse que nunca mais teria ouvinte, ela que andara quilómetros uns atrás de outros para puder ter a certeza que ninguém seria capaz de entender o que dissesse.
Que talvez assim um dia esquecesse à força de nem ter quem a escutasse.
O que ela desejava era o silêncio.
A sua voz a ser engolida, a descair-se para o fundo de onde lhe vinham as lembranças e lhe espichavam rodilhos de palavras que um dia haviam de arredondar-se no tamanho certo para atravessarem esófago e estomago e intestinos, e serem finalmente expulsas pelo circular do esfíncter, e nunca mais ela a pensar em mares de sul, ou navios, ou terras onde tinha vivido.
Esqueceria finalmente a dor de ter regressado, e a dor de uma dia ter ido e nunca ter sido como tinha desejado. Que ela imaginava como seria ir, imaginava muito antes, ainda no tempo em que mal se habituara a equilibrar no nariz os óculos que lhe receitara o doutor.
A menina tem miopia congénita, dissera o homem barrigudo a cheirar a pasta dentífrica da couto, e a mãe comprara-lhe as lentes receitadas e enfiara-lhas nuns aros negros que lhe desfeavam o rostinho bochechudo com laivos de ser pouco inteligente, ou ao menos não ser nada dado às matemáticas.
Foi num dia em que vinham de terem ido ver montras, ou de terem ido à modista, ela teria menos de catorze e já usava um pedaço de pano informe a amparar-lhe as mamas que cresceram cedo até serem assim desmesuradas, a direita mais descaída do que a outra. Vá que não tinha barriga, que gorda, ela era apenas naquela cara de anjo com uma covinha no queixo. No resto era magra e até seria elegante não fora aquele peito enorme.
Ou teria sido no dia em que tinham ido consultar o médico dos olhos, que era como a mãe dizia: hoje tens consulta dos olhos.
Num dia em que vinham sabe lá ela de onde, mas recorda-se que disse: mãe preciso de um caderno quadriculado, e a mãe, escusadamente, assim como quem tem aquilo entalado e lhe dá em náuseas de calar-se, como se lhe desse até em insónias por falta de um desabafo, a mãe dela dada a enormes discursos nos jantares de páscoa e consoada, ou por uns anos em que fizesse um lanche com amigas.
A mãe despejou sem perder o tom de voz doce e sereno que era o mesmo com que orava na igreja.
Disse com estas mesmíssimas palavras: gastas papel demais para tão pouco talento.
A mãe dela adorava dizer coisas que entendia serem desafios. Fazia isso, assim, inesperada.
Foi desse modo que soube que a sua apetência pelos números nunca se compararia a nada que fosse sequer suficiente e esse caderno quadriculado durou até terminar o liceu, um número cabalístico de serem sete até concorrer a um lugar num banco, ou a um escritório de advogado, ou fazer admissão a uma faculdade e ir para o puto o que nem pensar que o pai dela achava que ter o sétimo do liceu era suficiente e com esta pecha de nem ser boa a matemática, letras nem pensar, que para uma menina ser escritora era fora de questão e nem advogada.
Talvez tivesse sido melhor se tivesse entrado no magistério, remocaria o pai quando estavam sentados à mesa, mas morreu muito antes até de ela ter dito que não queria nunca ser professora, que se fosse alguma coisa seria médica ou enfermeira, ou seria escritora, atreveu-se, e o pai acentuaria aquele: isso nunca! e calaria o resto da refeição até ser servida a sobremesa e só depois diria, levantando-se, e nunca ninguém sabia o que o pai dela fazia depois que saía a porta do quintal: falamos melhor no que farás se acabares este ano o liceu.
Eles colocaram sempre uma dúvida naquilo que ela seria capaz.
Mas nem o pai dela disse, nem ela reprovou, nem sequer no sexto em que teve negativas a desenho e a filosofia e numa outra que nem se lembra o nome dessa disciplina. Mas a matemática teve um quinze, e a mãe nem disse que bom que eu estava enganada, não disse mais nada que não fosse: olha que ainda perdes a essas disciplinas, Carla Teresa. Era Natal e ela detestava que lhe dissessem os dois nomes, e nessa férias, a mãe obrigou-a a preparar os pequenos-almoços lá em casa. Todas as manhãs ovos mexidos e restos de carne assada se sobrasse do jantar, e queijo, e o diabo a quatro, e nem a loiça podia ser lavada pelo mainato, lava-a ela obrigada por ter tido aquelas negativas.
O pai morreu no mês seguinte.
A mãe vestiu-se de negro, mas não deve ter tirado a cinta que usava por debaixo das saias travadas, e não deixou de usar saltos altos, que nem em casa punha umas chinelas rasas, umas sabrinas, e nunca andava descalça, apenas na areia da praia onde posava quase nua num biquíni encarnado que trouxera numa viagem rara à capital. Esse, sim, abandonou-o desde que ficou viúva. Trocou-o por um em cores de luto cerrado.
Havia de encontrar, sim, uma aldeia pequenina onde ficasse até varrer a vida completamente da memória.

 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

lisboa sem palavras

ou talvez as diga
  de ternura 
de encanto
 
 



e a luz...
 
 

Lisboa sempre outra em cada visita
 
 
 
 
 

 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

o meu saquito





Estava eu convencida,
diria mesmo que, convicta,
de que, se não chorava,
se não desatava em soluçares pungentes
(lavada em lágrimas costumamos dizer)
se não fazia prantos porque
a pensão não é o que era antes
e nem pelo Gasparzito e as suas façanhas.
Se não me dava em lágrimas a ler os cabeçalhos
(se nem a telenovela me trazia um olhar humedecido!)
seria, cuidava eu, de me ter tornado,
finalmente, eu era uma mulher adulta!
Eu no domínio dos meus sentimentos!
Eu finalmente uma senhora!
 
Nada disso se dava!
E pasmo, e desanimo-me.

Eu em profunda tristeza,
que o que eu tenho,
o que me provoca este passar por tudo imperturbável,
disse-me, eivada do seu saber científico,
indiferente à minha imensa mágoa,
disse-me, aconselhando-me modos
(um frasquinho diminuto e que usasse,
uma em cada olho, de manhã e à noite)
disse-me a doutora que o que eu tenho,
(e dói-me ter que confessá-lo)
o que me faz não desatar em choros
segurar-me mesmo se,
como é o caso desta imensa crise,
a gente anda  com o coração sangrando,
o que eu tenho, simples e prosaico,
(e com que mágoa o repito)
o que eu tenho é
um saco lacrimal todo marado!!


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

e temos livro!!

é só um contito no meio de outros...
mas é o "nosso" José Augusto
 
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

entre chaves

eu fui ao correio que fica ali abaixo, uma peça de enfeite aqui no bairro onde o carteiro deixa a nossa correspondência
fui aproveitando em ir à cidade: deixa ver se há correio...
e nisso...
olha que engraçado!
e olha que pequenino!
e fui apertando entre as duas mãos o envelope e a espreitar os selos, coisa mais desusada nestes tempos de e-mails!
que gostoso !
e coloquei o pacotinho em cima do banco ao meu lado, que eu tinha saído a tratar de urgências
o meu mini PC, o meu Toshiba adorado, estava de morte anunciada e eu a ir ver se ainda lhe dava cobro ou adquiria um outro, decisão terrível !!
situações que me são dolorosas, essas de os materias não terem conserto!
adiante...
de tudo isto,
o pacotinho com selos coloridos ficou ali assim com ar de abandonado,
mas mal tive um intervalo que lhe dedicasse,
e juro que fiz por isso!!
abri com cuidado o papelinho com o remetente de ter vindo de S. Paulo,
e retirei de dentro, com dedos apressados, aquela preciosidade!
um niquinho de livro e no entanto com tanto nele dito!
e li-o todo, lendo alto para que me ouvisse o meu estimado esposo!
depois fotografei-o que é vício deixar em digital tudo o que é para um dia recordar!
muito obrigada Eduardo!!
mas de passagem deixe que lhe diga:
eu tinha já esquecido aquela minha confissão de madrugada, aquele meu acto de confessar pecados tão graves quanto a inveja, e disso que nem tenha percebido a sua dedicatória
mas lá estava no blog,  justificando, o que eu tinha escrito

aqui é madrugada e eu acordada
e sabe o que me dá insónia
sabe, Eduardo?
pois eu lhe dou em segredo:
o que deixa assim sem sonhos pela noite dentro
é inveja deles...assim a lê-lo





um abraço Eduardo
e muito lhe agradeço

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

escreveres

que eu nem sei se escrevo
se serão apenas letras
e nem papéis
letras soltas sem sentido nem realidade
nada mais que vomitados
frutas que foram apodrecendo
peixes esventrados que nem os gatos pegam
nojos
velórios do que tenha sido
e nem futuros nem presente
as letras desconexas a teimarem frases
nada mais que dejectos
fezes de insensatas comezainas
bebedeiras
maus agoiros e bruxedos
e nem rezas
e nem missas
nem o séquito dos anjos a velá-las
palavras desajustadas
nem palavras...
letras soltas
soletrares que nem ensaio
balbuciares de vazios
e nem choros
cada som sem um nome
nem velho, nem criança, nem mendigo
nem ave, nem casa, nem filho
nem nome de gente que eu chamasse
daniel, luisa ou francisco
nem designação de defeito ou qualidade
como fosse
bom, amigo, crueldade
amoroso, ou fiel, ou presunçoso

palavras que seriam ditos 
ou que nem as haja e eu invente

merdas
apenas merdas o que escrevo

domingo, 16 de setembro de 2012

duas e vinte


Fiquei encravada entre as duas e as quatro.
Eu não, o relógio.
O ponteiro das horas roçando o algarismo de menor valor de mercado, e o ponteiro dos minutos em cheio sobre o algarismo que indica o número de estações nas zonas temperadas como esta aonde moro.
O relógio de ponteiros que ainda uso e ponho no pulso sempre que saio e para todo o lado.
O relógio parado nas duas e vinte minutos, e eu saindo da consulta de otorrino em que o médico me aconselhou que não apanhasse humidades, dessas que se dão no início de Outubro, o Outono a chegar em passinhos mansos e eu repleta de mal estar, uns descompassos na zona do peito, falta de ar, parece, e umas coceiras na garganta que me dão num pigarro inconveniente se estou numa sala de espectáculos e eu ainda gosto de ir a um cinema pela tarde, sair e dar uma volta junto ao rio, e o médico que me deixe disso, que guarde esses passeios para mais cedo, que a humidade característica da mudança de estação, e ainda mais a que vem do rio, não se coadunam com o meu estado quase alérgico a tudo o que sejam gotículas de líquido dependuradas no ar que respiro. E foi peremptório, de tal modo que eu estou numa aflição em perceber que horas são e se ainda posso dar uma volta junto ao rio sem que depois tussa toda a noite, e olho o relógio a confirmar se será a hora antes da que o médico disse: depois das seis da tarde nem pense em andar por aí desagasalhada desse modo, e estampou os dois olhos míopes sobre o decote que eu trago sempre acentuado e só tapo com casacos de abafo lá mais para Novembro. Que me agasalhasse mais, aconselhou-me sem tirar os olhos dos meus ombros desnudados pois neste quase final de Setembro, eu ainda considero que é Verão e nem um casaquinho pelos ombros, nem um xaile.
O relógio entre as duas e as quatro e o sol já bastante inclinado no horizonte.
Noto assim, enquanto o elevador desce desde o décimo onde é o consultório . Um elevador todo envidraçado que galga em breves segundos os quinze andares, descendo e subindo pelo exterior do edifício.
Serão seis da tarde? Será um pouco menos ou um pouco mais?
E quando saio do elevador pergunto as horas ao porteiro, um homem com um bigodinho ralo, ainda um garoto, noto, um licenciado que terá encontrado este tacho na fraqueza em que está o mundo do trabalho. E o homem responde: são seis e trinta e sete. E eu agradeço e vou saindo, eu e mais o pasmo da precisão com que ele me disse, e só depois me explico: é que hoje em dia os relógios já não têm ponteiros, sobretudo os relógios baratos, e para ser isso nem é preciso que seja vendido na loja dos chineses, que as minhas colegas dizem que barato são os que elas usam, para cada fato um relógio diferente, e têm-nos grandes e pequenos uns mais bonitos do que os outros e alguns que eu nem percebo que sejam relógios, e dizem que um dinheirão custam aqueles ali atrás das montras onde elas esborracham narizes: olha aquele, olha aquele, e são preços incómodos e muitos têm no mesmo mostrador o modo digital e o modo analógico, e se eu tivesse um desses, o que é impensável, não teria perguntado as horas ao rapaz do bigode. Que eu por mim tenho este, e tiro-o do pulso e abano-o a ver se ainda oiço o tic-tac, mas ele está mesmo parado, e nem será falta de pilha que este meu relógio ainda tem aquela mola e eu costumo dar-lhe corda todas as noites. Não me terei esquecido, e verifico. Tem a corda toda, confirmo, e dou início a este ficar triste, o mesmo sentimento que me acompanhará a escrever esta crónica, e tudo por ter o meu relógio avariado.
Um relógio que possuo desde que fiz o exame da primária.
Penso nele com mágoa de que desfuncione em permanência, enquanto faço sinal a um táxi, que será melhor precaver-me do vício de ir daqui passeando até ao rio. Entro e digo:
– Avenida dos Estados Unidos.
E acrescento o número do prédio já a recostar-me.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

andarilhando




Nestes dias, andarilhei por palavras, mas nem é disso que aqui falo, e também não é de ter-se dado na minha cidade aquele caso.
Ou é disso tudo que eu careço alinhar um escrito, que as palavras me permitam pensar no que está feito.
 
 
Não se compadece a vida, e menos ainda o destino de cada um da gente, que nem sabemos o que está escrito ali na névoa, e nem o que carrega a barca que atravessa, lenta, a água que divide.
Nada vemos através da cortina transparente, quiçá véu de noiva que nos envolve, casulo que quebramos sem poder espreitar um passo antes ou que fosse a espessura de um cabelo. Um instante em que deixaríamos de ser isto que somos: cegos de futuros, amblíopes nos sonhos que fazemos, iletrados dos gestos ou das palavras que soltamos. Impercebidos de estarmos, neles, contaminados de futuros.
E um dia fenecemos. Ficamos de repente inertes ou matamos ou nos acontece outro modo.
Um seja o que seja que nem estava previsto, e no entanto, era equação segura a que tínhamos feito: soluções certinhas no caderno que guardamos aqui no peito, a prova dos nove e a prova real e tantos outros modos para que o resultado batesse certo, fosse fiel às premissas e condições.
E no entanto (e o caso que se tece é apenas mote) que drama?! que farsa?! que magia?! que dores ou que alegrias?! que o meu estupor é apenas esse desassossego de saber que, por mais que encha folhas, apague e torne, noite após noite de insónia ou dia de trabalho insano, por mais que tenha como certas as variadas soluções, que exclua as incorrectas e deixe apenas uma, fica-me sempre o travo inglório de que um dia, seja como seja, será sempre o gosto amargo de nunca ter sequer pensado esse outro modo...ou de o ter visto em sonhos, escrito nas nuvens ou na cal de uma parede, no sussurro de palavras que por mim passaram e eu não escutei, não vi, não parei o instante certo de saber destinos...
 



adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein