terça-feira, 5 de julho de 2011

senhora ministra

   - Juro por minha honra que cumprirei ...
   A voz saiu-lhe firme, pausada.
   A mãe costumava dizer-lhe: olha que os deuses vêem tudo! e acrescentava, depois de um intervalo curto, o necessário para a olhar do alto do seu metro e meio, e mais um pouco, com aqueles olhos muito claros, os mesmos com que veria os deuses: olha que eles castigam as meninas presunçosas...
   Setas de fogo, e corredores sem ir aonde, e o chão a abrir-se em precipícios: uma lista imensa de castigos.
   Letra por letra, palavra por palavra, Maria Rosa terminou a leitura da lauda de tomada de posse.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

insónias

Queria morrer  de um pontapé que lhe dessem no pescoço; ou afundar-se num mar de mosto; ou um pé descair-se: ela a rebolar pela ravina e o mar profundo a receber-lhe a vida inteira, bons e maus momentos, e sobretudo aquele atulhamento que eram as noites de insónia,  neurónios e sinapses baralhando os tempos que tinham sido, com os que nunca seriam, e ela revolteando o corpo no colchão ortopédico, último modelo comprado pelo marido. 
Gostava que a morte chegasse como se fosse um acto de descuido, coisa acidental decorrida de ela andar cirandando em zonas escusas da cidade, ou ter ido passear no carapeto de arribas mal delineadas pelos ventos.
(o mosto, era um desejo antigo, um modo outro de sair de aqui para o infinito - desejos estranhos que passam pela cabeça de quem dorme pouco...)

sábado, 4 de junho de 2011

alucinando com Rene

hoje só me vêm à cabeça quadros do Magritte
e nem entendo, que o meu deveria ser um dia semelhante ao de todo o cidadão neste recanto, hoje, dia de meditação, dia para deixar que o conteúdo assente, crie fundagem, e disso surja a decisão, se ainda não tomada
e eu neste despropósito: as telas insistentes de cada vez que cabisbaixo, busco o ângulo necessário, a posição para que reflita em boas condições
são sobretudo os rostos... 
 
e é recorrente a tela do cachimbo...


vou tentar uma reflexão condigna, mas assim não prometo



quarta-feira, 1 de junho de 2011

dia da criança

as mãos dos meninos carregam o Universo
galáxias indescobertas
camadas e camadas de segredos
mãos sábias de futuros
as mãos dos nossos netos

sábado, 28 de maio de 2011

S. Teófilo

Entrou escondendo o rosto no cabelo solto, quase desgrenhado. Entrou, e um odor de perfume caro seguia-lhe os passos: ela esgueirando o corpo como se fosse sem razão vir àquele sítio, mas quisesse muito.
Era o sol quase posto, badalavam avé-marias surdas pelos campos. Na capela, rezavam as mulheres do costume - só elas e nem padre, nem mais ninguém que orientasse aquele rezar cadenciado: avé maria cheia de graça, e por aí adiante.
Sentou-se no banco derradeiro, numa ponta junto da parede, e só então descobriu o rosto. E era um olhar tão branco, tão vítreo, tão distante que, a olhar aqueles olhos, se espantariam os bandos de aves, e nem os anjos descuidosos ousariam pousar-lhe no ombro.
E nem rezou, e nem acompanhou a reza das mulheres. 
Destapou um frasquinho negro que trazia apertado na mão, e bebeu de um gole: via-se o escorrer do líquido através da pele.
Os anjos que por ali andavam, por costume, àquela hora, nem se aproximaram quando o corpo, ainda muito jovem, tombou na pedra fria que era o chão da capela.
E nem as mulheres pararam as rezas.
Apenas um dos santos, Teófilo salvo erro, revirou os olhos pintados na madeira do seu corpo de boneco, e chorou duas lágrimas por aquela morte.

terça-feira, 24 de maio de 2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

assuntos de mulheres?!


Na Arábia Saudita!
"as mulheres não podem dirigir e devem ter uma autorização por escrito de um guardião - pai, marido, irmão ou filho - para deixar o país, trabalhar ou viajar para o exterior."





Ainda falando de assuntos de mulheres...
deixo-vos o texto de Isabela Figueiredo as putas somos nós



quinta-feira, 19 de maio de 2011

coisas da vida

Um embuste, o que Inácinha lhe fizera.
Aconselhara-a:
- Eu se fosse o teu caso, ía... - e metera-lhe na mão a direcção escrita num papelinho.
Dissera-lhe ainda:
- Hás-de ver numa esquina, uma montra com roupa de senhora: é por cima!
E não seria coisíssima nenhuma!
Nunca lhe criticaria o erro, ela que calcorreou o quarteirão, seca e meca, ela e mais o papelinho, para trás e para a frente: "onde diabo será que não encontro?", e afinal a  Inácinha tinha trocado!
Lá deu com uma entrada numa outra esquina onde havia um alfaiate, e nem havia montra de loja.
Não lhe pediria satisfações por esse erro, mas havia de dizer-lhe que nem era caso para lá ter ido.
Isso, havia de dizer-lhe, olhos nos olhos.
É que nem era nada de feitiço, nem de bruxaria, não senhora: a coisa que lhe acontecia era apenas a vida a interagir com o destino que lhe coubera em sorte, ou lhe estava inscrito algures! Apenas isso!
E pagara duas notas de quinhentos, ali batidas!
Havia de ouvi-las, a Inácinha!

domingo, 15 de maio de 2011

ao teu coração que tresbateu

O coração da gente,
Muitas vezes
Vezes demais, pressinto,
Pesa que nem ao homem
O molho das redes



Massa informe,
Mercúrio denso envenenando,
O coração da gente chora
Por muitas vezes,
Dias, anos, meses

A gente soluça o coração em fases
Intermitentes ais que guardamos
Choros de muito antes

Quando choramos,
Soluçamos alma e corpo
Tristezas do Universo todo

E vivemos

Vivemos apesar do grande choro
Um dia e mais um outro
Ai como pesa o coração da gente!
(Como nos pesa ainda mais o coração do outro!)

terça-feira, 10 de maio de 2011

o sol tão quente...

um grão da areia a rebolar entre os teus dois dedos e o sol de frente
o sol muito intenso na hora do zénite
o grão tão rijo parece um mundo redondinho ali aconchegado 
e quem sabe
quem pode dizer daquele pedacinho de quartzo
um planeta sujeito a forças imensas e só tu saibas que são apenas as forças dos teus dedos
um baguinho de entre a multidão incontável de tantos outros ali na praia
nem um fiapo de nuvem e o mar em espumas sossegadas
e entre os teus dois dedos talvez haja um outro ser deitado numa outra areia

segunda-feira, 2 de maio de 2011

pediria

ah! nem que fosse apenas um ditongo! sílabas despegadas que caissem como pingos de chuva a fazerem lagos de palavras!
ou nem tanto!
tão só o que bastasse para dizer o perfume de uma manhã de sol ou o cheiro acre da terra depois da trovoada. 
contar de fadas, arengar de demónios.
falar dos homens seria pedir demais, que são contos a necessitar palavras rebuscadas, muitas frases, parágrafos, diálogos: coisas só para mestres.
bastar-me-iam letras que se emparceirassem num verbo, num nome que chamasse outro até ficar um dito.
ah! palavras com que dissesse tristeza e alegria, ou um recanto de paisagem, ou a elegância de um gesto, ou um dizer jocoso suspenso entre duas frases!

pediria essa graça, mas não me atrevo a incomodar os deuses

terça-feira, 26 de abril de 2011

nascido

mais do que haver luz de sol ou estar o céu nublado
mais do que andarem avezinhas a fazer ninho ou um sapo a coachar ali no lago
mais do que se fosse o dia inicial de tudo
ou fosse ele o dia derradeiro
apitassem combóios e navios
ou tivesse sido  de uma guerra o fim ou o início
final ou começo fosse do que fosse
amor ou ódio
ou pintura de quadro
ou carta que alguém escrevesse
fosse o que fosse que se imaginasse
risos ou dinheiros
ou simplesmente um cão roendo um osso
ou moedas chovidas dos céus
mais do que tudo
hoje
dia vinte e seis do quarto mês do ano de dois mil e onze
hoje
é o dia do teu primeiro vagido
glória aos arcanjos e deuses
e a ti menino que nasceste

segunda-feira, 25 de abril de 2011

grito





teremos cravos espetados em canos de espingardas
teremos flores em vez de balas
e o riso
o rir de alegria
semelhante em tudo ao daquele dia
esse rir de esperança e de futuro
a brilhar de novo

terça-feira, 19 de abril de 2011

oremos

se eu rezasse 
se eu pusesse as mãos unidas e orasse:
"Senhor dos céus, lá nas alturas..."
se eu soubesse padre-nossos ou ladaínhas
mas eu quebrei o terço de contas brancas que me deram
e o livro de orações deixei-o ao sol e à chuva
encarquilhou-se, corroeu as folhas, e das letras só vislumbro borrões ilegíveis
resta-me balbuciar uns versos sem mais sentido do que serem
eles em vez de preces:
"deuses dessa imensidão que é o Universo
atendei o rogo desta humilde serva
intercedei para que seja de boa parição a sua hora
que tenha a mama abarrotada de néctar
que não lhe falte o pão, o mel, a água
e na hora do parto, dai-lhe,
Senhor Deus do Universo,
Vós que reinais sobre os outros deuses,
concedei-lhe aquele quanto baste de energia!
disso, eu hoje Vos rogo e agradeço!"

eu orando, assim, como se fosse...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

sorrisinhos

a gente em frente uma da outra e ela disse:
- tá boa
ou fosse perguntando ou fosse comentando a sopa

não entendi, mas sorri-lhe

 a gente em frente uma da outra e ela a dizer-me:
- teria prepado um jantarzinho
ela emprega muito os diminutivos

não gosto do modo, mas sorri-lhe

a gente em frente uma da outra, despediu-se:
- até um dia destes - dizia-me ela
- até mais ver - dizia-lhe eu

e sorríamos

segunda-feira, 28 de março de 2011

diálogos

sons surdos entre a gente. como se o ar circundante deixasse de transportar as vibrações. e ela: "pois..." e nem havia entre nós o abraço, o carinho a suplantar aquele silêncio. era como se os nossos ouvidos tivessem rebentado - pum! lá se fora o pedacinho de tecido. e no entanto, seria outra a razão do desentendido. um silêncio profundo a entremear-se nas palavras. e lembrei-me: talvez se eu chorasse, talvez se eu risse muito, gargalhasse. mas ela olhou-me, num e outro caso, com olhos de que olhasse um caso raro: coisa do demo, satanás, mafarrico. ou que eu tivesse enlouquecido. só depois de muito sofrimento: eu e ela, únicas neste imenso mundo. só depois percebi como fazer-nos companhia: deixei que ela me falasse dos seus dias. e fiquei ouvindo.


quinta-feira, 24 de março de 2011

pequequatro



Por sinal este blog não tem o costume. Ele por estes lados é mais umas larachas intimistas à laia de contos, uma pincelada acerca disto ou daquilo: a morte de alguém, ou do gato, ou a referência, indirecta tantas vezes, uma alusão apenas, a um acontecido.
Quem escreve aqui não tem o jeito da crítica e nem da reflexão. E nem vai ser hoje que muda este modo.
No entanto, gostava de deixar registo do muito que me vem incomodando o que se passa lá para S. Bento e arredores. Mas antes deixem que pergunte: afinal é mesmo preciso o tal pequequatro ou podia ser outro menos incisivo?!
Se era preciso um peque assim a doer nas costas da gente, o sacana do homem foi um mestre de contradança do caraças! fez com que  lá na Europa ficassem a pensar que era verdade, que aqui os rapazes de S. Bento estariam pelos ajustes, que o nosso país ia mesmo deixar de pagar parte dos ordenados e mais os subsídios e que o povo agora, além de não tratar dos dentes, não trataria de muitas outras coisas e aumentariam os defeituosos a pedir nas ruas e a gente a andar a pé e de autocarro. E magros. Tudo elegante por falta de divisas para comprar lá fora os bens essenciais.
O pequequatro muito louvado: "que lindo ministro este, vá meu filho, e ponha isso em prática que se precisar de uma sopinha ou de gasóleo para os seus carros, a gente isso cede-lhe de boa vontade."
E  muitos beijinhos na senhora Merquére convencida da bondade do que o nosso primeiro lhe mostrava nos papéis, e dizia aos microfones.
(Eu estou em crer que o português que um dia se passou para o lado de lá e deixou o país entregue, literalmente aos bichos, devia estar a ver-lhe a trapaça, mas finório, ter-se-á posto nas putas: digo eu que nada sei e me meto em conjecturas... )
Certo, é que  o nosso primeiro voltou  com o pequequatro que tinha levado às escondidas - não sabiam?!
pois! ele e o pai que é aquele de cabelos brancos que toca a sineta quando o nosso primeiro levanta o cálice, cá, e em Bruxelas levaram sem dizer um corno.
Por aqui ninguém tinha sido convidado a meter o bedelho, a dizer ao menos: "concordo com  os sacrifícios, o país precisa" e quando deram por isso, ficaram furiosos.
E vai daí, mal o nosso primeiro descia do avião, já havia um clamor nas escadarias do palácio de S. Bento, de tal modo que em Belém, o nosso presidente, ainda mal acomodado, ainda a decidir se continuava a receber naquela sala ou se redecorava aqueloutra, lá reuniu forças e, clamaria ele para a sua Maria a dependurar uns cortinados : "rais partam! lá anda aquele marafado a fazer das suas", enquanto despia o robe para ir ouvir as partes e os parceiros.
Um teatro do caraças armado, digo eu que nem percebo, pelo nosso primeiro naquele gesto de levar o pequequatro escondido - ele e o pai que o segue em tudo e lhe dá o amén.
Isso faz-se?!
E nem disso contente, quando viu os outros todos a dizerem que devia ter mostrado, fez birra, pôs beicinho: "Ou fazem como eu quero ou vou-me embora disto" e nem assim estava sendo sincero, o filho da mãe dele, que o que tinha na mente era passar a outro a batata quente do tal pequequatro de má fama. Poder dizer, em caso de voltar ao governo, ou se fosse outro seria o mesmo: "esta merda bateu no fundo porque quiseram deixar a crise entrar em S. Bento...se tivessem aprovado o pequequatro, mesmo depois de ter sido conspurcado pelos perdigotos de Bruxelas... a minha querida Merqueréle e os outros..." - parece que o oiço! 

Um guião de ópera bufa que o danadinho do nosso primeiro levou redigido para Bruxelas e anda representando.
Será ainda apenas a cena dois do primeiro acto.
Em rodapé, em negrito, os nomes dos actores...


Segir-se-ão os demais actos.

Presumo que no segundo esteja escrito:
O  povo reelege-me.  
Eu o salvador! o que tentou os favores da Europa e esta aceitou o namoro! o que estava impedindo o país de escorregar no mar de euros da divida.  
Cai o pano.

entendem porque hoje escrevo?
por receio de o ter de novo a escrever cenas e a beijar a mérquerél e o diabo que o carregue



aqui é outra onda...

domingo, 20 de março de 2011

os deuses devem estar loucos





se deuses ainda existem
se eles ainda nos velam
se ainda nos guardam paraísos
estarão por certo enlouquecidos
que só demente
 perdido do juizo, alguém
seja mesmo um deus,
consegue aturar o homem 
e nem digo,
eu que nada sei de deuses
e nem do ser humano,
não falo de petróleo
e nem do nuclear
e nem sopeso efeitos
gases de estufa e radiações
nem falo de perigos outros
terramotos, tsunamis,
crises
o que digo
e rezaria se soubesse,
é desse pendor do ser humano para
puxar pelo gatilho
para brincar de esconde-esconde,
tanto
que consegue
deixar enlouquecidos
até os próprios deuses




Bombardeamentos da aviação francesa na estrada que chega a Bengasi desde Ajdabiya (Goran Tomasevic/Reuters)


quarta-feira, 16 de março de 2011

ir às putas

anda por ali um debate aceso: se sim ou não deve ser legalizada a mais velha profissão do mundo
e eu que cuidava que o mundo caminhava para que nunca mais houvesse:
 -Zézinho, apronte-se que hoje é seu dia...
que nunca mais ninguém convidasse outrem:
- Carago, homem,  deixemos as senhoras conversando que a gente vai  às putas.
e iam
em grupo
eu desejava muito que já não fosse esse o modo
ao menos que estivessemos caminhando para outro
ou será que a posição do "já que existe..." é o caminho
e  deixemos que os zézinhos e seus pais vão divertir-se
a rir-se, alarves


sábado, 12 de março de 2011

segunda-feira, 7 de março de 2011

genético

se me fosse dado, queixava-se
se bem que soubesse que lhe tinha sido dado isso e outro tanto
saberia, decerto
apenas tinha inscrito, sei lá onde, um melaço, um qualquer uguento que lhe emperrava as células:  recuos e avanços coartados ainda antes que tivesse sido o que quer que fosse
um dom em reverso: o peito feito aos desafios, e no entanto, os pés assentes e as mãos cruzadas numa inatitude
um quase medo, mas nem era isso, que rejubilava, ria, convencia-se, e no final, antes de ter a consciência que era improduto, dizendo ou não palavras, era sempre aquele : hoje não faço, mas amanhã, decerto
e rematava: se me fosse dado
estava-lhe  nos genes

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

um poema inteiro

imagem e palavra juntos
e eu em comunhão com o firmamento
olhando o quadro
os meus demónios presos ali num recanto
e eu planando
mares, desertos, flores de pimaveras antigas
e neves
tão apaziguada como se tivesse,
num repente, 
atravessado todas as idades do mundo,
este onde não resido mais que um pinguinho de tempo,
tão escasso 
que nem conheço um nico do muito que veria se voasse,
ou nem isso
que há sempre o cansaço
ou um tiro desferido de algum vale
eu olhando embevecida lá do alto
nunca se sabe

antes ficar como diz o verso


 frase da Gisela Ramos Rosa
um poema inteiro

destaque em engraxadoria central

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

uma vez apenas

na janela assomavam dois olhos a olhar de cima
- como está hoje dona cremilde? -
diria eu se tivesse dito
ela podia ser isaura, natércia ou assunção, maria simplesmente
podia ter-me respondido
- não se mace, eu vou indo, estou bem obrigada
nunca ofereci
- trago-lhe uma fruta
nem sequer

- bom dia, boa tarde, como vai?
- está passando bem dona eduarda? 

nada
nunca fizemos dois dedos de conversa
e nem lhe soube o nome
nunca ousei perguntar
- quer que lhe traga alguma coisa?
que eu não proporia

- eu subo, abre?
cheiraria a mijo
- e o banho, quem lho dá?
não diria eu que não me competia 

- coma coma: um dia destes vai morrer de fome
- e os sobrinhos?

não lhe fiz promessas nem lhe limpei choros
nem nunca mais tinha visto os olhos dela lá em cima
nem reparara que faltava a velha senhora na janela
hoje lembrei-me do sorriso que me sorriu como sorriria aos meninos dela
tinha sido um dia
uma vez apenas
só agora lembro

e na mesma linha, o texto publicado aqui

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

quatro catatuas

Eram quatro catatuas.
Quatro viúvas enlutadas com plumas garridas nos chapéus.
Pareciam tal e qual mulheres.
As ancas moles e os ventres pretuberantes sob o negro dos véus.
Dançavam uma dança de roda.
Cantariam se houvesse um ar que levasse as vozes.
E nem havia céu.
E nem havia mais que quatro criaturas.

Eu que as via, chorava de as ver bizarras.
E nem chorava a morte que elas carpiam, que o que me fazia prantos silenciosos era essa vida que se erguia do seu andar rodando.
A vida é também isso, dizia para comigo olhando as quatro catatuas como sendo viúvas pejadas de véus negros.
E de penas.
Eu a cismar que indo aqueles quatro maridos, viriam outros tantos.
Maridos que seriam de outras quatro catatuas que um dia estariam vestidas de negro a bailarem, chorando, a morte dos maridos.
Ou estariam elas morrendo-se e viriam outras quatro  que seriam nascidas, entretanto.
Eu a carpir deste ir e vir que é a vida.
Ah! se nascer uma mulher fosse assim como nascer uma catatua!


oiça o texto ali ao lado

destaque em engraxadoria central

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

assim por acaso

baixou as calças e disse, de si para consigo:
- pronto, cago aqui mesmo que estou com vontade
e quem o viu, olhando do alto, recolheu-se
e quem o viu passando, desviou-se 
um e outro dirá, se perguntado, que nem por deu por nada
que nem achou diferente
cada um defende-se de que lhe perguntem:
- sentiu o cheiro?
cada um requer para si o direito de não ter visto
e disso a certeza de não ter sentido
mas que era um homem de calças em baixo a cagar no centro da cidade
ah! isso ninguém duvide

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

da vida e da morte

faríamos o que quer que fosse para alargar este estarmos aqui
eternamente, seria o nosso gosto
ou não faríamos isso e apenas desejavamos que fosse uma estadia alegre
ou quereríamos que não fosse mesclada de sofrimento, doenças, desgostos, incertezas
preferíamos uma estada num qualquer paraíso desses que nos acenam as igrejas
e nem precisaríamos de um cortejo de anjos e nem de que nos fosse pedido sermos santos - apenas uma paz de entendimento e cada um aceitando o outro sem mais malidecência e sacanice do que o sabor do sal bem doseado ou um tiquinho de pimenta
e quereríamos que morrer fosse depois de tudo
e se fosse uma passagem, assim como dizendo adeus para uma viagem - sem retorno, é certo, sem hipóteses de visitas,
que houvesse a certeza de que estavamos num sítio, um algo semelhante
que é isso de desconhecermos, que dá este nó na garganta e este aperto nas vísceras - não sabermos
se vamos em viagem ou se acabamos, sem qualquer continuidade enquanto ser que somos, como a formiga que, sem nenhum respeito pela enorme quantidade de informação que carrega, espezinhamos aos quarteirões porque invadiram o pote do açúcar
ah! se soubessemos resolver o mistério seria tão diverso
tão diferente o nosso modo de ser gente,
que nem me atrevo a desejar que assim fosse
antes, a delinear estes termos que me saem no teclado, cuido que o que falta de ensino em escolas, lares e faculdades, é o culto do  saber estar em paz consigo
que isso bastaria
digo 
neste fim de semana em que estive na homenagem a um amigo, e encontrei os que foram dele gostados
(e o que me dói escrever no pretérito quando falo de gente!)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

dia onze de janeiro de dois mil e onze


             hoje é simplesmente terça feira
             o dia décimo primeiro de outro janeiro

             hoje é
             por acaso dos astros
             por acaso do calendário
             por destino que me tenha sido dado
             o dia do meu aniversário

             doze meses somados


             hoje
             terça feira
             janeiro de dois mil e onze
            



Antonio López García Carmencita Playing, 1960

           

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

retorno

A rua tem uma paliçada, lá ao fundo.
Olho o relógio: seis da tarde. Está a ficar escuro. Nem passa um carro. Nem surge gente. Nem gato ou cão vadio.
Vou descendo.
A paliçada é, afinal, um taipal de obra. Tem alguma coisa escrita. Um nome. Não. Apenas um número e a palavra vendo em caracteres enormes.
Eu moro na casa seguinte.
Nem escrevi carta a dizer retorno. Nem disse um dia apareço.
A porta foi pintada de encarnado.
Está só no trinco. Empurro.
Cá dentro faz fresco.
O cão de loiça está no mesmo sítio. Intacto. .
Oiço a voz de Bia:
- Ele nunca mais voltará, garanto-te - e pela casa ecoa o rir de duas vozes.
Eu, a vir de tão longe, saio sem fazer barulho.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

meia noite

Tá louca, menina. Descontraia que isso dos relógios parados é coisa contornável. Notícia de brincadeira, essa de terem parado todos os relógios. Também só mesmo a menina para acreditar em tudo! Mas se fosse assim nem seria drama. tempo de relógio é coisa desprecisa. Talvez um calendário para ir dando uma visão sobre as colheitas, o começo da estação das chuvas, a Primavera e o Outono. E ainda assim a natureza se encarrega.
Não sabe onde está a meia noite?! Ora! ora! Chora de não saber quando gritar VIVA?! Tolice, minha amiga! Deixe que logo aparece o sol a dizer-lhe que é um novo dia. Desligue esse telemóvel a falar com um e outro sobre uma notícia tão tola e cuide de ver o tempo a escorrer no sol que nasce.  Depois, ele há-de esconder-se e saberá que fluiu um dia.
Que canseira essa de querer dividir a vida em antes e depois!


Garota! Gizela!  ainda por aqui, menina?! Passou um ano inteiro! Nem foi ao emprego, nem tratou da casa?! Olhe, criou até piolho. Não fez nada de nada?!
Coisa feia essa de ser dependente do tempo marcado no relógio! Param os ponteiros e esta gente acha que não tem mais tempo para fazer vida!
Chiça! Olha-os espalhados por aí esperando.
Gizela, acorde desse torpor, menina!
Sabe que tive filho?! Uma menina nascida de nove luas inteirinhas e nem precisei ver no calendário.
Que o tempo não parou coisa nenhuma! Tá rodando a lua em nosso torno e o nosso planeta em volta da estrela.
Levante-se daí Gizela e venha sentir o ritmo do seu corpo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS!!


para mim não há Natal sem Anjos
figura que me encanta
Anjo
toca música que enternece
e eu penso que os Anjos adormenceram o Menino
e sossego 
Ele que nasceu sem cama
nem roupa, nem ar condicionado
tinha um bando de Anjos
o Menino Deus assim chamado

pena que ainda hoje nasçam meninos sem terem nem um simples anjinho

este Natal vamos pedir ao Deus que zela pelo batalhão que anda lá pelo céu
Ele que envie bastantes a cuidarem dos meninos
que não nasça um só sem ter pela vida fora
o bafo quente e o cantar mavioso do seu Anjo
 
 
 
Song of the Angels de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)

sorrisos natalícios

domingo, 19 de dezembro de 2010

crime na estação de combóios

Tu sabes que eu sei tudo, Maria Ema e por isso permaneces aí sentada e nem uma lágrima: nada mais que esses olhos carregados de nada.
Tu sabes que está acontecendo, ali, debaixo dos meus olhos, não sabes, Maria Ema?
E nem um grito, nem um desassossego: esperas como se esperasses o combóio. E tu sabes que nem é isso que esperas: sabemos os dois.
Posso dizer-te: consumou-se agora.
E nem assim desvias o olhar desse infinito. E nem é triste o teu olhar distante, mas apenas de alívio, que tu sabes que foi cruel, sim, como pediste.

domingo, 12 de dezembro de 2010

roda


nem mais que um aperto pelo estomago e as luzes do parque a ficarem longe
as luzes do parque a piscarem cada vez mais lá em baixo
e Maria a querer segurar a mão de Roberto, ter um apoio
ela a degladiar-se com o enjôo da vertigem, aquele horror de querer atirar-se, mais do que ficar ali a digerir o derradeiro bocado de algodão doce
Roberto colocou-lhe o braço sobre os ombros que ela trazia nús - e nem era disso o frio no pescoço e nem era esse frio que ela sentia a percorrer-lhe o corpo ao contacto de pele contra pele
a pele dele que ela sabia que seria nunca mais
Maria numa confusão a subir naquele brinquedo
- vamos? - dissera ele
e Maria nem olhe que enjôo, olhe que tenho medo de estar lá tão no alto
que ela desejava tanto saber como seria estarem os dois ali tão sem apoio, o vento quente a afagar-lhes o rosto e eles apenas: os dois
ela queria saber como seria ficarem assim longe
e agora é só aquele arrepio no corpo
e o braço dele como se fosse corda que a dependurasse no vazio
e Maria vomita
os pedacinhos de algodão doce devem ter-se desfeito sobre as luzes, sobre alguma barraquinha de pinhões
talvez tenha caido um nico mal digerido sobre aquele casal: dois velhos que se beijavam eternecidos no momento em que a roda iniciou o movimento

Maria fecha os olhos e diz apenas:
- Nunca mais, Roberto
e nem o namorado saberia se era do andar na roda se era deles...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

dia sete

se eu voltasse ao tempo em que te vi menino
mãos brincando coisas sérias: como se fossem
se tornasse a ver-te os olhos inquirindo mundos
e eu sem respostas
se eu te visse trepando abraços como se fossem rochas
tu escalando sentimentos
e eu sem mais que uma cartilha de abecedários e contas

se eu te visse de novo criança
cerregava-te ao colo até me pedires
anda, mãe, vai que eu já sou um homem

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

outros tempos...

estou sentada na beirinha do tamborete  com a caneta a borrar-me os dedos
 já escrevi três vezes: " se fosse..." e em todas elas deixei a escrita em suspenso
entra pela tarde um ventinho morno e eu tenho o pé direito inchado que me caíu em cima uma trave -os pedreiros deixaram encostada na entrada do quintal, e eu esbarrei com a saia e a barra de madeira caiu-me direitinha no sapato
e dói-me
por isso, ou porque nada mais me ocorre, ou porque o tal ventinho levanta a borda do papel e entorna a tinta quando molho o aparo, ou sei lá eu por que razão, tornei a escrever: " se fosse..."
é a quarta vez que o faço
mas agora prossigo
se fosse antigamente...
ai se fosse quando havia canetas e computadores...
se fosse nesse tempo a que chamam futuro, eu podia até estar a ver o meu Zé Augusto que foi assentar praça como se eu estivesse lá com ele e ele aqui comigo no banco do jardim
que ele nem se lembra disso, mas eu lembro-me bem que havia os PC's que se podiam levar de um lado para o outro
mas tudo muda num instamnte e agora nem falar pelo tememóvel posso - se nem telefone com fio, já existe!
a vida tem o seu fluxo e a gente contra isso nada pode...

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein