sexta-feira, 16 de novembro de 2012

lisboa sem palavras

ou talvez as diga
  de ternura 
de encanto
 
 



e a luz...
 
 

Lisboa sempre outra em cada visita
 
 
 
 
 

 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

o meu saquito





Estava eu convencida,
diria mesmo que, convicta,
de que, se não chorava,
se não desatava em soluçares pungentes
(lavada em lágrimas costumamos dizer)
se não fazia prantos porque
a pensão não é o que era antes
e nem pelo Gasparzito e as suas façanhas.
Se não me dava em lágrimas a ler os cabeçalhos
(se nem a telenovela me trazia um olhar humedecido!)
seria, cuidava eu, de me ter tornado,
finalmente, eu era uma mulher adulta!
Eu no domínio dos meus sentimentos!
Eu finalmente uma senhora!
 
Nada disso se dava!
E pasmo, e desanimo-me.

Eu em profunda tristeza,
que o que eu tenho,
o que me provoca este passar por tudo imperturbável,
disse-me, eivada do seu saber científico,
indiferente à minha imensa mágoa,
disse-me, aconselhando-me modos
(um frasquinho diminuto e que usasse,
uma em cada olho, de manhã e à noite)
disse-me a doutora que o que eu tenho,
(e dói-me ter que confessá-lo)
o que me faz não desatar em choros
segurar-me mesmo se,
como é o caso desta imensa crise,
a gente anda  com o coração sangrando,
o que eu tenho, simples e prosaico,
(e com que mágoa o repito)
o que eu tenho é
um saco lacrimal todo marado!!


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

e temos livro!!

é só um contito no meio de outros...
mas é o "nosso" José Augusto
 
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

entre chaves

eu fui ao correio que fica ali abaixo, uma peça de enfeite aqui no bairro onde o carteiro deixa a nossa correspondência
fui aproveitando em ir à cidade: deixa ver se há correio...
e nisso...
olha que engraçado!
e olha que pequenino!
e fui apertando entre as duas mãos o envelope e a espreitar os selos, coisa mais desusada nestes tempos de e-mails!
que gostoso !
e coloquei o pacotinho em cima do banco ao meu lado, que eu tinha saído a tratar de urgências
o meu mini PC, o meu Toshiba adorado, estava de morte anunciada e eu a ir ver se ainda lhe dava cobro ou adquiria um outro, decisão terrível !!
situações que me são dolorosas, essas de os materias não terem conserto!
adiante...
de tudo isto,
o pacotinho com selos coloridos ficou ali assim com ar de abandonado,
mas mal tive um intervalo que lhe dedicasse,
e juro que fiz por isso!!
abri com cuidado o papelinho com o remetente de ter vindo de S. Paulo,
e retirei de dentro, com dedos apressados, aquela preciosidade!
um niquinho de livro e no entanto com tanto nele dito!
e li-o todo, lendo alto para que me ouvisse o meu estimado esposo!
depois fotografei-o que é vício deixar em digital tudo o que é para um dia recordar!
muito obrigada Eduardo!!
mas de passagem deixe que lhe diga:
eu tinha já esquecido aquela minha confissão de madrugada, aquele meu acto de confessar pecados tão graves quanto a inveja, e disso que nem tenha percebido a sua dedicatória
mas lá estava no blog,  justificando, o que eu tinha escrito

aqui é madrugada e eu acordada
e sabe o que me dá insónia
sabe, Eduardo?
pois eu lhe dou em segredo:
o que deixa assim sem sonhos pela noite dentro
é inveja deles...assim a lê-lo





um abraço Eduardo
e muito lhe agradeço

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

escreveres

que eu nem sei se escrevo
se serão apenas letras
e nem papéis
letras soltas sem sentido nem realidade
nada mais que vomitados
frutas que foram apodrecendo
peixes esventrados que nem os gatos pegam
nojos
velórios do que tenha sido
e nem futuros nem presente
as letras desconexas a teimarem frases
nada mais que dejectos
fezes de insensatas comezainas
bebedeiras
maus agoiros e bruxedos
e nem rezas
e nem missas
nem o séquito dos anjos a velá-las
palavras desajustadas
nem palavras...
letras soltas
soletrares que nem ensaio
balbuciares de vazios
e nem choros
cada som sem um nome
nem velho, nem criança, nem mendigo
nem ave, nem casa, nem filho
nem nome de gente que eu chamasse
daniel, luisa ou francisco
nem designação de defeito ou qualidade
como fosse
bom, amigo, crueldade
amoroso, ou fiel, ou presunçoso

palavras que seriam ditos 
ou que nem as haja e eu invente

merdas
apenas merdas o que escrevo

domingo, 16 de setembro de 2012

duas e vinte


Fiquei encravada entre as duas e as quatro.
Eu não, o relógio.
O ponteiro das horas roçando o algarismo de menor valor de mercado, e o ponteiro dos minutos em cheio sobre o algarismo que indica o número de estações nas zonas temperadas como esta aonde moro.
O relógio de ponteiros que ainda uso e ponho no pulso sempre que saio e para todo o lado.
O relógio parado nas duas e vinte minutos, e eu saindo da consulta de otorrino em que o médico me aconselhou que não apanhasse humidades, dessas que se dão no início de Outubro, o Outono a chegar em passinhos mansos e eu repleta de mal estar, uns descompassos na zona do peito, falta de ar, parece, e umas coceiras na garganta que me dão num pigarro inconveniente se estou numa sala de espectáculos e eu ainda gosto de ir a um cinema pela tarde, sair e dar uma volta junto ao rio, e o médico que me deixe disso, que guarde esses passeios para mais cedo, que a humidade característica da mudança de estação, e ainda mais a que vem do rio, não se coadunam com o meu estado quase alérgico a tudo o que sejam gotículas de líquido dependuradas no ar que respiro. E foi peremptório, de tal modo que eu estou numa aflição em perceber que horas são e se ainda posso dar uma volta junto ao rio sem que depois tussa toda a noite, e olho o relógio a confirmar se será a hora antes da que o médico disse: depois das seis da tarde nem pense em andar por aí desagasalhada desse modo, e estampou os dois olhos míopes sobre o decote que eu trago sempre acentuado e só tapo com casacos de abafo lá mais para Novembro. Que me agasalhasse mais, aconselhou-me sem tirar os olhos dos meus ombros desnudados pois neste quase final de Setembro, eu ainda considero que é Verão e nem um casaquinho pelos ombros, nem um xaile.
O relógio entre as duas e as quatro e o sol já bastante inclinado no horizonte.
Noto assim, enquanto o elevador desce desde o décimo onde é o consultório . Um elevador todo envidraçado que galga em breves segundos os quinze andares, descendo e subindo pelo exterior do edifício.
Serão seis da tarde? Será um pouco menos ou um pouco mais?
E quando saio do elevador pergunto as horas ao porteiro, um homem com um bigodinho ralo, ainda um garoto, noto, um licenciado que terá encontrado este tacho na fraqueza em que está o mundo do trabalho. E o homem responde: são seis e trinta e sete. E eu agradeço e vou saindo, eu e mais o pasmo da precisão com que ele me disse, e só depois me explico: é que hoje em dia os relógios já não têm ponteiros, sobretudo os relógios baratos, e para ser isso nem é preciso que seja vendido na loja dos chineses, que as minhas colegas dizem que barato são os que elas usam, para cada fato um relógio diferente, e têm-nos grandes e pequenos uns mais bonitos do que os outros e alguns que eu nem percebo que sejam relógios, e dizem que um dinheirão custam aqueles ali atrás das montras onde elas esborracham narizes: olha aquele, olha aquele, e são preços incómodos e muitos têm no mesmo mostrador o modo digital e o modo analógico, e se eu tivesse um desses, o que é impensável, não teria perguntado as horas ao rapaz do bigode. Que eu por mim tenho este, e tiro-o do pulso e abano-o a ver se ainda oiço o tic-tac, mas ele está mesmo parado, e nem será falta de pilha que este meu relógio ainda tem aquela mola e eu costumo dar-lhe corda todas as noites. Não me terei esquecido, e verifico. Tem a corda toda, confirmo, e dou início a este ficar triste, o mesmo sentimento que me acompanhará a escrever esta crónica, e tudo por ter o meu relógio avariado.
Um relógio que possuo desde que fiz o exame da primária.
Penso nele com mágoa de que desfuncione em permanência, enquanto faço sinal a um táxi, que será melhor precaver-me do vício de ir daqui passeando até ao rio. Entro e digo:
– Avenida dos Estados Unidos.
E acrescento o número do prédio já a recostar-me.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

andarilhando




Nestes dias, andarilhei por palavras, mas nem é disso que aqui falo, e também não é de ter-se dado na minha cidade aquele caso.
Ou é disso tudo que eu careço alinhar um escrito, que as palavras me permitam pensar no que está feito.
 
 
Não se compadece a vida, e menos ainda o destino de cada um da gente, que nem sabemos o que está escrito ali na névoa, e nem o que carrega a barca que atravessa, lenta, a água que divide.
Nada vemos através da cortina transparente, quiçá véu de noiva que nos envolve, casulo que quebramos sem poder espreitar um passo antes ou que fosse a espessura de um cabelo. Um instante em que deixaríamos de ser isto que somos: cegos de futuros, amblíopes nos sonhos que fazemos, iletrados dos gestos ou das palavras que soltamos. Impercebidos de estarmos, neles, contaminados de futuros.
E um dia fenecemos. Ficamos de repente inertes ou matamos ou nos acontece outro modo.
Um seja o que seja que nem estava previsto, e no entanto, era equação segura a que tínhamos feito: soluções certinhas no caderno que guardamos aqui no peito, a prova dos nove e a prova real e tantos outros modos para que o resultado batesse certo, fosse fiel às premissas e condições.
E no entanto (e o caso que se tece é apenas mote) que drama?! que farsa?! que magia?! que dores ou que alegrias?! que o meu estupor é apenas esse desassossego de saber que, por mais que encha folhas, apague e torne, noite após noite de insónia ou dia de trabalho insano, por mais que tenha como certas as variadas soluções, que exclua as incorrectas e deixe apenas uma, fica-me sempre o travo inglório de que um dia, seja como seja, será sempre o gosto amargo de nunca ter sequer pensado esse outro modo...ou de o ter visto em sonhos, escrito nas nuvens ou na cal de uma parede, no sussurro de palavras que por mim passaram e eu não escutei, não vi, não parei o instante certo de saber destinos...
 



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

in memoriam



 as tardes acordam doentes e a gente não percebe
os dias acordam com morte, e cada um a rir-se, cada um guerreando como se houvesse um minuto mais, como se aquele não fosse o derradeiro
não percebemos que os olhos que nos olham estão a dizer-nos nunca mais seremos um e outro assim como estamos
não percebemos que aquele gesto que nem fazemos: o mimo, o dizer adeus, o olhar mais um instante, é afinal gesto de dizer eternidade
e nem sequer ficamos uns com os outros consolando, seja gente ou seja o cão que nos abana a cauda, sabe-se lá que sensibilidade terão os animais
continuamos como se nada fosse a olhar as formigas que polulam por ali em busca de migalhas, elas também sem saberem que um dedo de senhora lhes esmagará a existência, que por essas nem sequer choramos, nem sequer nos culpamos de não ter velado para que não tivesse sido como foi
interrogações que colocamos, ridículas e desprovidas de sentido: porque raio não fiquei ou porque raio fui, e mais um ror de dizeres que é a gente a tentar perceber, a tentar imaginar que nem fosse verdade, a tentar reverter, bater no peito uma culpa que nos console daquele mistério que é não termos percebido o que era afinal tão óbvio, tudo a dar-se no nariz da gente, tudo previsto, tudo escrito no filho da puta do destino

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

novos talentos FNAC literatura




a todos os que para tal contribuiram os meus parabéns!




terça-feira, 7 de agosto de 2012

a promessa


Irene Fogaça viaja na camioneta rumo a sul.
É o mês de Nossa Senhora, e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos e de medos a mostrar-se bailando aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e de terços. Os olhos deles intumescidos de pecados, a cumprirem promessas, a sangrar orações pelos caminhos. E o sol sem aquecer asfaltos para que escaldem as pedrinhas e fervente a terra a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de pomadas e águas quase bentas.
Um horror estes dias com o sol filtrado, pensa Irene Fogaça a olhar a estrada.
Ela a imaginar o calor sufocante que fará no recinto.
Um calor a embeber as frontes com suores gelados, que são assim os suores de tristezas e doenças, e os suores de medos.
E nem uma aragem que rode um cata-vento. Meias luas e palhaços e figuras do zodíaco, ou uma cabra. Bichos talhados em pedaços de lata a apontarem, ainda, ao vento de há dois dias.
Não se movem cata-ventos no céu deste Maio, pensa Irene Fogaça ajeitando o rabo no banco.
A parceira do lado tem um perfume a cheirar a qualquer coisa que lhe dá no estômago como se fosse mistura de medronho com azeite rançoso. E fala: meu Deus como fala esta mulher! Vale a Irene Fogaça ter trazido o terço. Vai rolando as bagas com a velocidade justa para que a outra pense que debita, em cada uma, a Ave-Maria de cuja letra sabe apenas uns pedaços. O Padre-Nosso, esse, esqueceu-o totalmente, que Irene nem é devota, aconteceu-lhe ter feito a promessa, e já faz dois anos que ficou curada. Um mal de pele que lhe dava em comichão pelo corpo todo: ela sempre a coçar onde nem devia. Um desespero. E Irene Fogaça tinha prometido que se aquilo passasse iria rezar à Virgem num dia de aparição.
Tinha perguntado na merceeira:
– Dona Lurdes, sabe se há excursão? e mencionou o local de culto.
E a outra a cortar umas tiras de fiambre:
– Há, sim, mas parece que o autocarro está lotado.
E Irene Fogaça foi falar com o Bomba: este ano é ele quem vai levar o carro, tinha dito a Dona Lurdes já a pesar-lhe umas cebolas.
E o Bomba que sim senhora, que podia ir, que havia um lugar vago: o lugar da Cremilde que está internada das varizes.
E foi assim que Irene veio por ali abaixo a cumprir o que tinha prometido num dia de maior comichão.
– Um tempo dos diabos, murmura ela como se balbuciasse palavras de orações.






quinta-feira, 2 de agosto de 2012

contraponto

esta imagem, que foi capa de revista, a querer um contraponto e eu a pensar no Vilhena e nas suas mulheres...
mas desisti do intento
desisti de fazer o humor que, por contraponto, e apenas por isso, a imagem merecesse
e fiquei na mensagem séria que ela me devolve
o tanto de sério e violento que ela possa trazer
e compuz para este passatempo gostoso do Eduardo a imagem que aqui deixo

sexta-feira, 27 de julho de 2012

ainda a casa dela




Uma casa onde ainda se sentiam, grossas, ensebadas de compotas e manteiga fresca, as dedadas de filhos e de netos. Onde ainda cheirava à caca das fraldas e ao mijo de cães e gatos. E se havia restos que pudessem dizer de como tinha sido, eram esses besuntados nas paredes.
E os riscos.
 - Deixa ver se cresceste - dizia, e marcava um risco. 
Um risco a lápis. Sempre grafite para poder ser removido e nunca tinha sido. Tinham ficado espalhados pela casa entre camadas e mais camadas de cal viva, limpezas que fazia nos dias quentes em que não chovia.
E haveria por ali, impregnadas na cera do sobrado, sobretudo nos quartos, pedacinhos de pele. Dermes de um e outro soltas do corpo de quando o sol fazia escaldões e eles dormiam grandes sestas seminus.
E, aguçados, poderiam surgir pedacinhos de unhas que eles cortavam uns aos outros, e fiapos dos cabelos. Franjas enormes que aparavam.
- Deixa ver que eu dou um jeito... 
e lá iam umas pontas loiras se era o cabelo do Zé Pedro, ou mais escurinhas se era o cabelo da Matilde ou do Rui ou da Maria Cremilde.
Seria caso raro encontrar um pelo encarnado do cabelo muito ruivo do Simão que nunca passou férias lá na casa. Ele e os irmãos eram os netos que andavam lá por fora e, se vinham, ficavam alojados num hotel. Esses netos que nunca compreenderiam o horror estampado nas caras do Zé Pedro e da Matilde, sobretudo eles, a ouvirem o Simão dizer, tinham sido as partilhas na semana passada: que sim, que ia deitar abaixo e depois construir.


terça-feira, 17 de julho de 2012

VIVA LA VIDA em CONTRA PONTO

ali no varal de ideias o Edu pede uma imagem que seja contraponto a esta






e logo me veio à ideia aquela imensidão de vida que a Frida fez jorrar na tela onde deixou inscrito que o que ali estava era um hino, um grito
 urro de animal em cio
 fémea parindo ou cria a vir a este mundo 


e só a melancia,
seja o fruto inteiro ou uma talhada roida a resvalar solitária na imensidão de um céu de nuvens
 quiçá de uma corrente de água pela maré vaza,
só uma talhada desse fruto para nos dar aquele gosto que a vida sempre nos deixa quando degustada
os líquidos vários que somos e nos escorrem

contraponto dessa casca roida balançando vidas
antes que um boi ou cabra ou outro animal que poderá ser ave do céu ou que seja peixe
um ser que por ali passe e dela se sustente

quinta-feira, 12 de julho de 2012

a passar o tempo


se contasse o dia, se narrasse o dia de antes e o dia de depois
um dia a seguir a outro
horas
segundos dependurados nas entradas dos minutos, uma plêiade de instantes
sussurros no silêncio, que o passar do tempo cria movimentos no ar circundante
e Maria Rosa removendo o pó das estantes com o dedo indicador da mão onde em tempos tinha trazido uma aliança e hoje nem a marca que o sol teimava em deixar de um Verão a outro
o pó soltava-se da madeira em tiras da espessura do seu dedo que era um dedinho de nada, ela que nunca mais crescera desde o exame de admissão ao liceu e se mantivera muito magra ainda depois de amamentar três filhos, quase sem gordura a não ser no rabo e um nadinha na cintura
o dia escoava-se e, de vez em quando, muito de longe em longe, Maria Rosa lá ia mordiscando uma torrada ou fazia a si própria o esmoler de uma tirinha de queijo de ovelha
uma tira de nada e bebia água
e os segundos escoavam-se, e nem era necessária ampulheta onde o tempo escorresse por acção das leis da gravidade, e nem relógio onde o cuco viesse, mecânico e feioso, espreitar quem saltava de susto com o seu cucu repetido tantas vezes quantas fossem as horas, os minutos, ou os segundos
nem Maria Rosa tinha por ali o som irritativo de um pêndulo e o dãodão do martelo a ecoar pelas paredes
nada que marcasse, em compassos diversos, um mesmo tempo, como se o tempo fosse tão apenas o ritmo que fizessem as botas de soldados que passassem, ou o marchar de outra gente que deixaria lenços de papel sujos de suor ou de ranho pelo empedrado
o tempo sorvendo-lhe o único bem que ainda tinha, o bem único que afinal tem quem cada um dos que ainda por aqui anda, e Maria Rosa sossegada, presa naquele pó que cobria a madeira das estantes nos espaços estreitinhos que sobravam de tanto livro
nunca os leria todos, pensava Maria Rosa, e sentia uma espécie de desgosto
e se os lesse acabaria por esquecer cada enredo, se era naquele que havia um tio com uma ferida repugnante que a sobrinha tratava, em cada noite, com pinça esterelizada na chama de uma lamparina
ou ela estaria confundindo com aquele enredo onde alguém prensava com algodão embebido num líquido amarelo, desinfectante que escorria pela barba grisalha de um homem que nem era ssim tão velho, mas fora alistado numa guerra onde o tinham ferido
ou seria naquele  livro de capa verde que Maria Rosa teria lido a história de cunhado e cunhada entretidos em marotices, cerejas e frutos secos que eles misturavam nos misteres do sexo às escondidas dos parceiros, a dona Miluzinha catequeista que nunca consentira em desnudar-se, e o Xavier Deniz que nunca fizera sexo de outro modo desde aquela noite
era, sim senhora, era naquele livro de capa cor de couve onde estava escrito, em letras amarelas: Xavier Deniz, seu marido, um livro pícaro, genialmente escrito, a tratar com despudor e graça as curvas sinuosas do sexo na alcova
e o outro
Maria Rosa firme na discórdia de que fosse assim tão simples dizer que era perdido o tempo que ela sentia a pulsar-lhe, ia colocando um dedo na capa de cada livro e fazendo o esforço de revisitá-lo, ou ela retirava-o da estante e lia, uma folha ali, outra mais adiante, a fazer-se encontrada com aquele meliante do Jorge, ou a sem graça da Gertrudes, e a ver deitado, na torreira de um sol alentejano, o gato Jeremias
não tivesse lido e nem se teria recordado do felino que o escritor colocara na varanda, ou teria o gato vindo colocar-se, Maria Rosa não entende os segredos da escrita e por isso não sabe, mas sabe que, se não fosse o gato, Hermínia não teria tropeçado e sem isso não se teria feito aquela curva sinuosa no enredo que Maria Rosa gostava de saber qual foi, mas esqueceu
o tempo escoando-se e ela especada na estante, que antes ser isso do que ficar contando o que tinha sido o dia antes, e o dia depois desse, e mais o dia de hoje, e ainda ficar a imaginar o que seriam os dias seguintes
antes Maria Rosa ter optado por ficar naquele solilóqio mudo com os livros, e a usar o dedo para limpar o pó das estantes

sexta-feira, 6 de julho de 2012

novos talentos literatura FNAC


De entre setecentos contos, o juri seleccionou dez.
Deles, só cinco serão publicados e o seu voto é que o determina.
clique no texto a negrito para ler os contos, e siga os passos para votar
(cada endereço de e-mail pode validar um voto por dia)

terça-feira, 19 de junho de 2012

restos


Numa das gavetas da cómoda havia um album.
Um album de fotografias incompleto jazendo entre duas camisas de noite ainda com goma, ainda muito tesas. Alvas, não fosse o amarelado que o tempo lhes pusera em cima.
E passando o dedo naquelas folhas de cartolina preta, recoberta cada uma por um fino papel de seda, lá estavam, a atestar as faltas de fotografias, os locais onde elas tinham sido presas em cada um dos cantos, por fiapos de papel transparente.
Espaços onde o negro do papel não fora cozinhado pela luz dos candeeiros e pela luz do sol. E pela luz de tantos olhos que tinham ficado, horas e horas, a olhar as fotos:
– Olha aqui o tio Ernesto com caracóis!
Um album somente pela casa inteira, que Maria Teresa, prouvera que repousando nos braços do Senhor em que tanto cria, nunca fora dada a retratos, e se os havia era apenas porque o marido, com quem convivera mais de meio século até o perder, assim, sem ser esperado, mas também sem sofrimento, o marido, dizia eu, fora grande amigo do dono da primeira casa de fazer retratos na cidade. Disso que houvesse, além do album, aquela pose deles em caixilho de oiro, dependurada no alto da escada.
E havia ainda aquela paisagem nocturna. A cidade em três exposições.
Fora-lhe oferecida pelo fotógrafo no dia em que ela tinha completado trinta anos. Pendurara-a por cima da mesinha que tinha no quarto ao lado da janela, mais precisamente, do lado direito da janela, de modo que a luz não fizesse sombra quando Maria Teresa escrevia, e ela sempre fora de escrever com a mão direita o que se não dera com o seu irmão que ainda hoje escrevia de esguelha como dizia a mãe deles a referir-se àquele modo que o filho tinha.
Em outras gavetas, nada havia que fosse cobiçado.  
Roupa simples, muito usada, e no guarda loiças nem faqueiros de prata e nem outros, e a alpaca das colheres, e o osso no cabo das facas, tinha sido há muito tempo, tal como o linho lavrado das toalhas e respectivos guardanapos, ainda que usados apenas em dias de consoada e aniversários. Mas tinham sido sempre os mesmos, um ano a seguir a outro ano, e netos, e bisnetos. Andariam por ali, confundidos com outros panos. E teriam sobrado uns garfos e a colher de concha, verde de zinabre.
No fundo das gavetas havia, isso sim, cotão de muitos anos e muitas pratinhas de chocolate alisadas com a unha do dedo polegar. Com cuidado, para não rasgar.

terça-feira, 29 de maio de 2012

entre linhas

 

assim um ficar ali a ver de longe
a ver o todo e a ver pormenores
a imaginar o como de ter sido feito
aqueles pelos/linhas nos sovacos delas
e nos cabelos e nos sexos
e os riscos que teriam sido antes do bordado
agulha e linha e mãos
trabalho feminino
que nisso de usar o dedal e a agulha é delas o princípio
transparentes aqueles panos a deixar saber
que muito mais que apenas cada uma
era todo um mundo que olhávamos
e sóis e galáxias
rendas
elas a desfazerem-se em luz e ainda assim tão intensas
tão gente, tão almas, tão mulheres

quinta-feira, 24 de maio de 2012

até logo


                                                                     em homenagem aos textos no expressodalinha
                                                                     textos que não sei comentar em palavras outras



era tantas vezes a hora de torreira, o sol lá fora imenso, e ali a penumbra das portadas e dos véus, que era o que semelhava o tule dos cortinados
uma greta apenas em cada umas das janelas, e o sol fazendo-se uma luz que mal alumiava a tijoleira ou a madeira de um soalho, um encerado num outro quarto que fosse em casa de cidade ou naquela outra debruçada na falésia em que o mar era apenas uma linha no horizonte e o mais era o vale
era essa a hora deles
os inícios de tarde, a sesta quando dava
às vezes fazia frio
nunca nevara numa hora que fosse a hora deles, nunca calhara
horas  apetecidas, essas, quanto as do sol a pino
eram horas de se irem iniciando tardes que acabavam ainda antes que se tivesse percebido um sol no firmamento, e nem que o astro-rei se tinha ido para lá daquela mole cinzenta, as nuvens pesadas de chuva
às vezes faziam temporais naquelas horas que eles faziam suas, e as cortinas abertas deixavam ver a água, e o frio penetrava pelas frinchas
e água seria também aquela que brilhava nos corpos de um e do outro
horas metálicas como dizem delas os poetas, horas de cinza apenas lá fora que no mais eram sempre horas da cor de um fogo assim entre os laranjas e os vermelhos com muito amarelo e azul polulando irreverentes
mas eram também as horas aquelas que eles faziam acontecer nos breves minutos de um até logo
ela saindo de pasta e saltos altos, que nem eram assim tão enormes, uns saltitos de nada, mas ela garantia: hoje vou de saltos altos, e não era mais do que ter deixado de ir de saltos rasos, o bucho da perna a sobressair na meia, ou seriam outras vezes sandalinhas de tiras, e as saias uma mão travessa acima do joelho ou rojando pelo chão
e eram eles segredando-se só um segundo, que podia ser ela ou podia ser ele, e eram uns minutos tão imensos quanto aquelas horas no início das tardes que se faziam pequeninas mesmo se o sol se escondia sendo quase noite
e era segundos, uns minutos  breves, e lá fora chovia imenso e esfriava se lhe despia a camisola a sentir-lhe pele, ao menos o seu ombro gelado que nem tinham ligado o aquecimento e já era frio naquele início de outono
ou era no calor de um Agosto europeu
ela tinha  sempre aquele hábito de ajeitar a calcinha sob o collant justo ou sob o vestido de tecido fino
e o riso de um ia indo com o outro e ficava tão sereno ali no degrau da escada a dizerem-se até logo
até logo, e só mais um beijinho




terça-feira, 1 de maio de 2012

coisas de há uns anos ...




O sol encandeia apesar das nuvens, ou nem disso, que nem há fiapos, nem rolos, nem castelos a enfeitar o céu deste Maio.
Um céu que nem é de chuva mas de demência: Um tempo de malucos. Assim diria a minha avó materna se olhasse este céu de hoje com os olhos que ela tinha pardos: um cinzento mesclado de azul claro, olhos de cataratas e choros e cansaços, olhos quase cegos de ver tanto, olhos em tudo semelhantes ao ceu que nos cobre desde o solstício.
Um céu descido sobre a Terra, tão baixinho, que a gente cuida chegar lá se espetar um dedo.
Um céu ligado ao chão que está molhado do xixi dos anjos pela noite, que não se vê que caiam bagos.
Um céu coberto por uma ténue pasta parda que cai, de lá em cima cá abaixo, e nos encobre os sonhos, se dormimos, e nos entontece ideias e entorta dizeres.
Um céu como se fora véu de noiva morta na véspera das bodas, feitas exéquias, com o padre a enganar-se na leitura e os convidados a darem os meus parabéns à mãe da noiva.
Um céu como maçã podre, deslizando fedores, este céu que cobre o mês de Maio, e está Nossa Senhora para se mostrar e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos e de medos, a mostrar-se bailando, se preciso, aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e terços, e pecados, e promessas, e caminhos percorridos sangrando, que nem o sol a aquecer asfaltos, pedrinhas, terras, a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de águas quase bentas.
Um horror, estes dias cinzentos com o sol apertado entre vapores, calores filtrados, sufocantes, a doerem as frontes das gentes, dos mais sensíveis, das virgens e mulheres entradas, dos seres em espera de algo, que somos quase todos. Testas alagadas de águas gélidas, que são assim os suores de tristezas, de doenças e de medos.
Nem rodam um pouquinho os cata-ventos: firmes na direcção do mesmo ponto, vai para meses, que se apontassem como deve, nestes dias, seria a um siroco, mas nem é essa a latitude.


Pastosas as angústias neste mês de tolos.


E nas mãos húmidas escorrem suores tão mal cheirosos como os que empapam os sovacos escanhoados das madames que aprovam vestidos novos para o Verão, leves, decotados, de sedas finas e algodões de cores garridas, embrulhadas em capas e cobertas por sombrinhas.




adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein