que eu nem sei se escrevo
se serão apenas letras
e nem papéis
letras soltas sem sentido nem realidade
nada mais que vomitados
frutas que foram apodrecendo
peixes esventrados que nem os gatos pegam
nojos
velórios do que tenha sido
e nem futuros nem presente
nada mais que dejectos
fezes de insensatas comezainas
bebedeiras
maus agoiros e bruxedos
e nem rezas
e nem missas
nem o séquito dos anjos a velá-las
palavras desajustadas
nem palavras...
letras soltas
soletrares que nem ensaio
balbuciares de vazios
e nem choros
cada som sem um nome
nem velho, nem criança, nem mendigo
nem ave, nem casa, nem filho
nem nome de gente que eu chamasse
daniel, luisa ou francisco
nem designação de defeito ou qualidade
como fosse
bom, amigo, crueldade
amoroso, ou fiel, ou presunçoso
palavras que seriam ditos
ou que nem as haja e eu invente
merdas
apenas merdas o que escrevo
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
duas e vinte
Fiquei encravada entre as duas e as quatro.
Eu não, o relógio.
O ponteiro das horas roçando o algarismo de menor valor de mercado, e o ponteiro dos minutos em cheio sobre o algarismo que indica o número de estações nas zonas temperadas como esta aonde moro.
O relógio de ponteiros que ainda uso e ponho no pulso sempre que saio e para todo o lado.
O relógio parado nas duas e vinte minutos, e eu saindo da consulta de otorrino em que o médico me aconselhou que não apanhasse humidades, dessas que se dão no início de Outubro, o Outono a chegar em passinhos mansos e eu repleta de mal estar, uns descompassos na zona do peito, falta de ar, parece, e umas coceiras na garganta que me dão num pigarro inconveniente se estou numa sala de espectáculos e eu ainda gosto de ir a um cinema pela tarde, sair e dar uma volta junto ao rio, e o médico que me deixe disso, que guarde esses passeios para mais cedo, que a humidade característica da mudança de estação, e ainda mais a que vem do rio, não se coadunam com o meu estado quase alérgico a tudo o que sejam gotículas de líquido dependuradas no ar que respiro. E foi peremptório, de tal modo que eu estou numa aflição em perceber que horas são e se ainda posso dar uma volta junto ao rio sem que depois tussa toda a noite, e olho o relógio a confirmar se será a hora antes da que o médico disse: depois das seis da tarde nem pense em andar por aí desagasalhada desse modo, e estampou os dois olhos míopes sobre o decote que eu trago sempre acentuado e só tapo com casacos de abafo lá mais para Novembro. Que me agasalhasse mais, aconselhou-me sem tirar os olhos dos meus ombros desnudados pois neste quase final de Setembro, eu ainda considero que é Verão e nem um casaquinho pelos ombros, nem um xaile.
O relógio entre as duas e as quatro e o sol já bastante inclinado no horizonte.
Noto assim, enquanto o elevador desce desde o décimo onde é o consultório . Um elevador todo envidraçado que galga em breves segundos os quinze andares, descendo e subindo pelo exterior do edifício.
Noto assim, enquanto o elevador desce desde o décimo onde é o consultório . Um elevador todo envidraçado que galga em breves segundos os quinze andares, descendo e subindo pelo exterior do edifício.
Serão seis da tarde? Será um pouco menos ou um pouco mais?
E quando saio do elevador pergunto as horas ao porteiro, um homem com um bigodinho ralo, ainda um garoto, noto, um licenciado que terá encontrado este tacho na fraqueza em que está o mundo do trabalho. E o homem responde: são seis e trinta e sete. E eu agradeço e vou saindo, eu e mais o pasmo da precisão com que ele me disse, e só depois me explico: é que hoje em dia os relógios já não têm ponteiros, sobretudo os relógios baratos, e para ser isso nem é preciso que seja vendido na loja dos chineses, que as minhas colegas dizem que barato são os que elas usam, para cada fato um relógio diferente, e têm-nos grandes e pequenos uns mais bonitos do que os outros e alguns que eu nem percebo que sejam relógios, e dizem que um dinheirão custam aqueles ali atrás das montras onde elas esborracham narizes: olha aquele, olha aquele, e são preços incómodos e muitos têm no mesmo mostrador o modo digital e o modo analógico, e se eu tivesse um desses, o que é impensável, não teria perguntado as horas ao rapaz do bigode. Que eu por mim tenho este, e tiro-o do pulso e abano-o a ver se ainda oiço o tic-tac, mas ele está mesmo parado, e nem será falta de pilha que este meu relógio ainda tem aquela mola e eu costumo dar-lhe corda todas as noites. Não me terei esquecido, e verifico. Tem a corda toda, confirmo, e dou início a este ficar triste, o mesmo sentimento que me acompanhará a escrever esta crónica, e tudo por ter o meu relógio avariado.
Um relógio que possuo desde que fiz o exame da primária.
Penso nele com mágoa de que desfuncione em permanência, enquanto faço sinal a um táxi, que será melhor precaver-me do vício de ir daqui passeando até ao rio. Entro e digo:
– Avenida dos Estados Unidos.
E acrescento o número do prédio já a recostar-me.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
andarilhando
Nestes dias, andarilhei por palavras, mas nem é disso que aqui falo, e também não é
de ter-se dado na minha cidade aquele caso.
Ou é disso tudo que eu careço alinhar um escrito, que as palavras me permitam pensar no que
está feito.
Nada vemos através da cortina transparente,
quiçá véu de noiva que nos envolve, casulo que quebramos sem poder espreitar um
passo antes ou que fosse a espessura de um cabelo. Um instante em que
deixaríamos de ser isto que somos: cegos de futuros, amblíopes nos
sonhos que fazemos, iletrados dos gestos ou das palavras que soltamos. Impercebidos de estarmos, neles, contaminados de futuros.
E um dia fenecemos. Ficamos de repente
inertes ou matamos ou nos acontece outro modo.
Um
seja o que seja que nem estava previsto, e no entanto, era equação segura a que
tínhamos feito: soluções certinhas no caderno que guardamos aqui no peito, a
prova dos nove e a prova real e tantos outros modos para que o resultado batesse certo, fosse fiel às premissas e condições.
E no entanto (e o caso que se tece é apenas
mote) que drama?! que farsa?! que magia?! que dores ou que alegrias?! que o meu estupor é apenas esse desassossego
de saber que, por mais que encha folhas, apague e torne, noite após
noite de insónia ou dia de trabalho insano, por mais que tenha como certas as
variadas soluções, que exclua as incorrectas e deixe apenas uma, fica-me sempre o travo inglório de que um dia, seja como seja,
será sempre o gosto amargo de nunca ter sequer pensado esse outro modo...ou de o ter visto em sonhos, escrito nas nuvens ou na cal de uma parede, no sussurro de palavras que por mim passaram e eu não escutei, não vi, não parei o instante certo de saber destinos...
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
in memoriam
as tardes acordam doentes e
a gente não percebe
os
dias acordam com morte, e cada um a rir-se, cada um guerreando como se houvesse
um minuto mais, como se aquele não fosse o derradeiro
não
percebemos que os olhos que nos olham estão a dizer-nos nunca mais seremos um e
outro assim como estamos
não
percebemos que aquele gesto que nem fazemos: o mimo, o dizer adeus, o olhar
mais um instante, é afinal gesto de dizer eternidade
e
nem sequer ficamos uns com os outros consolando, seja gente ou seja o cão que
nos abana a cauda, sabe-se lá que sensibilidade terão os animais
continuamos
como se nada fosse a olhar as formigas que polulam por ali em busca de
migalhas, elas também sem saberem que um dedo de senhora lhes esmagará a
existência, que por essas nem sequer choramos, nem sequer nos culpamos de não
ter velado para que não tivesse sido como foi
interrogações
que colocamos, ridículas e desprovidas de sentido: porque raio não fiquei ou
porque raio fui, e mais um ror de dizeres que é a gente a tentar perceber, a
tentar imaginar que nem fosse verdade, a tentar reverter, bater no peito uma
culpa que nos console daquele mistério que é não termos percebido o que era
afinal tão óbvio, tudo a dar-se no nariz da gente, tudo previsto, tudo escrito
no filho da puta do destino
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
terça-feira, 7 de agosto de 2012
a promessa
Irene Fogaça viaja na camioneta rumo a sul.
É o mês de Nossa Senhora, e nem o sol redondo,
inchado, prenhe de fogos e de medos a mostrar-se bailando aos olhos peregrinos,
fálicos de segredos e de terços. Os olhos deles intumescidos de pecados, a
cumprirem promessas, a sangrar orações pelos caminhos. E o sol sem aquecer
asfaltos para que escaldem as pedrinhas e fervente a terra a tornar mais
apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de
pomadas e águas quase bentas.
Um horror estes dias com o sol filtrado, pensa Irene
Fogaça a olhar a estrada.
Ela a imaginar o calor sufocante que fará no recinto.
Um calor a embeber as frontes com suores gelados, que são assim os suores de
tristezas e doenças, e os suores de medos.
E nem uma aragem que rode um
cata-vento. Meias luas e palhaços e figuras do zodíaco, ou uma cabra. Bichos
talhados em pedaços de lata a apontarem, ainda, ao vento de há dois dias.
Não se movem cata-ventos no céu deste Maio, pensa
Irene Fogaça ajeitando o rabo no banco.
A parceira do lado tem um perfume a cheirar a qualquer
coisa que lhe dá no estômago como se fosse mistura de medronho com azeite rançoso.
E fala: meu Deus como fala esta mulher! Vale a Irene Fogaça ter trazido o
terço. Vai rolando as bagas com a velocidade justa para que a outra pense que
debita, em cada uma, a Ave-Maria de cuja letra sabe apenas uns pedaços. O
Padre-Nosso, esse, esqueceu-o totalmente, que Irene nem é devota, aconteceu-lhe
ter feito a promessa, e já faz dois anos que ficou curada. Um mal de pele que
lhe dava em comichão pelo corpo todo: ela sempre a coçar onde nem devia. Um
desespero. E Irene Fogaça tinha prometido que se aquilo passasse iria rezar à
Virgem num dia de aparição.
Tinha perguntado na merceeira:
– Dona Lurdes, sabe se há excursão? e mencionou o
local de culto.
E a outra a cortar umas tiras de fiambre:
– Há, sim, mas parece que o autocarro está lotado.
E Irene Fogaça foi falar com o Bomba: este ano é ele
quem vai levar o carro, tinha dito a
Dona Lurdes já a pesar-lhe umas cebolas.
E o Bomba que sim senhora, que podia ir, que havia um
lugar vago: o lugar da Cremilde que está internada das varizes.
E foi assim que Irene veio por ali abaixo a cumprir o
que tinha prometido num dia de maior comichão.
– Um tempo dos diabos, murmura ela como se balbuciasse
palavras de orações.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
contraponto
esta imagem, que foi capa de revista, a querer um contraponto e eu a pensar no Vilhena e nas suas mulheres...
mas desisti do intento
desisti de fazer o humor que, por contraponto, e apenas por isso, a imagem merecesse
e fiquei na mensagem séria que ela me devolve
o tanto de sério e violento que ela possa trazer
e compuz para este passatempo gostoso do Eduardo a imagem que aqui deixo
sexta-feira, 27 de julho de 2012
ainda a casa dela
Uma casa onde ainda se sentiam, grossas, ensebadas de compotas e
manteiga fresca, as dedadas de filhos e de netos. Onde ainda cheirava à caca
das fraldas e ao mijo de cães e gatos. E se havia restos que pudessem dizer de
como tinha sido, eram esses besuntados nas paredes.
E os riscos.
- Deixa ver se cresceste - dizia, e marcava um risco.
Um risco a lápis. Sempre grafite para poder ser removido e nunca
tinha sido. Tinham ficado espalhados pela casa entre camadas e mais camadas de
cal viva, limpezas que fazia nos dias quentes em que não chovia.
E haveria por ali, impregnadas na cera do sobrado, sobretudo nos
quartos, pedacinhos de pele. Dermes de um e outro soltas do corpo de quando o
sol fazia escaldões e eles dormiam grandes sestas seminus.
E, aguçados, poderiam surgir pedacinhos de unhas que eles cortavam
uns aos outros, e fiapos dos cabelos. Franjas enormes que aparavam.
- Deixa ver que eu dou um jeito...
e lá iam umas pontas loiras se era o cabelo do Zé Pedro, ou mais
escurinhas se era o cabelo da Matilde ou do Rui ou da Maria Cremilde.
Seria caso raro encontrar um pelo encarnado do cabelo muito ruivo
do Simão que nunca passou férias lá na casa. Ele e os irmãos eram os netos que
andavam lá por fora e, se vinham, ficavam alojados num hotel. Esses netos que
nunca compreenderiam o horror estampado nas caras do Zé Pedro e da Matilde,
sobretudo eles, a ouvirem o Simão dizer, tinham sido as partilhas na semana
passada: que sim, que ia deitar abaixo e depois construir.
terça-feira, 17 de julho de 2012
VIVA LA VIDA em CONTRA PONTO
e logo me veio à ideia aquela imensidão de vida que a Frida fez jorrar na tela onde deixou inscrito que o que ali estava era um hino, um grito
urro de animal em cio
fémea parindo ou cria a vir a este mundo
urro de animal em cio
fémea parindo ou cria a vir a este mundo
e só a melancia,
seja o fruto inteiro ou uma talhada roida a resvalar solitária na imensidão de um céu de nuvens
quiçá de uma corrente de água pela maré vaza,
quiçá de uma corrente de água pela maré vaza,
só uma talhada desse fruto para nos dar aquele gosto que a vida sempre nos deixa quando degustada
os líquidos vários que somos e nos escorrem
contraponto dessa casca roida balançando vidas
antes que um boi ou cabra ou outro animal que poderá ser ave do céu ou que seja peixe
um ser que por ali passe e dela se sustente
contraponto dessa casca roida balançando vidas
antes que um boi ou cabra ou outro animal que poderá ser ave do céu ou que seja peixe
um ser que por ali passe e dela se sustente
quinta-feira, 12 de julho de 2012
a passar o tempo
se contasse o dia, se narrasse o
dia de antes e o dia de depois
um dia a seguir a outro
horas
segundos dependurados nas
entradas dos minutos, uma plêiade de instantes
sussurros no silêncio, que o
passar do tempo cria movimentos no ar circundante
e Maria Rosa removendo o pó das
estantes com o dedo indicador da mão onde em tempos tinha trazido uma aliança e
hoje nem a marca que o sol teimava em deixar de um Verão a outro
o pó soltava-se da madeira em tiras da espessura
do seu dedo que era um dedinho de nada, ela que nunca mais crescera desde o
exame de admissão ao liceu e se mantivera muito magra ainda depois de amamentar
três filhos, quase sem gordura a não ser no rabo e um nadinha na cintura
o dia escoava-se e, de vez em
quando, muito de longe em longe, Maria Rosa lá ia mordiscando uma torrada ou fazia a
si própria o esmoler de uma tirinha de queijo de ovelha
uma tira de nada e bebia água
e os segundos escoavam-se, e nem
era necessária ampulheta onde o tempo escorresse por acção das leis da
gravidade, e nem relógio onde o cuco viesse, mecânico e feioso, espreitar quem
saltava de susto com o seu cucu
repetido tantas vezes quantas fossem as horas, os minutos, ou os segundos
nem Maria Rosa tinha por ali o
som irritativo de um pêndulo e o dãodão
do martelo a ecoar pelas paredes
nada que marcasse, em compassos
diversos, um mesmo tempo, como se o tempo fosse tão apenas o ritmo que fizessem as botas de
soldados que passassem, ou o marchar de outra gente que deixaria lenços de
papel sujos de suor ou de ranho pelo empedrado
o tempo sorvendo-lhe o único bem
que ainda tinha, o bem único que afinal tem quem cada um dos que ainda por aqui
anda, e Maria Rosa sossegada, presa naquele pó que cobria a madeira das
estantes nos espaços estreitinhos que sobravam de tanto livro
nunca os leria todos, pensava Maria
Rosa, e sentia uma espécie de desgosto
e se os lesse acabaria por
esquecer cada enredo, se era naquele que havia um tio com uma ferida repugnante que a sobrinha tratava, em cada noite, com pinça esterelizada na chama de
uma lamparina
ou ela estaria confundindo com
aquele enredo onde alguém prensava com algodão embebido num líquido amarelo, desinfectante que escorria pela barba grisalha de um homem que nem era ssim tão
velho, mas fora alistado numa guerra onde o tinham ferido
ou seria naquele livro de capa verde
que Maria Rosa teria lido a história de cunhado e cunhada entretidos em
marotices, cerejas e frutos secos que eles misturavam nos misteres do sexo às
escondidas dos parceiros, a dona Miluzinha catequeista que nunca consentira em
desnudar-se, e o Xavier Deniz que nunca fizera sexo de outro modo
desde aquela noite
era, sim senhora, era naquele livro de capa cor de couve onde
estava escrito, em letras amarelas: Xavier
Deniz, seu marido, um livro
pícaro, genialmente escrito, a tratar com despudor e graça as curvas sinuosas
do sexo na alcova
e o outro
Maria Rosa firme na discórdia
de que fosse assim tão simples dizer que era perdido o tempo que ela sentia a
pulsar-lhe, ia colocando um dedo na capa de cada livro e fazendo o esforço de
revisitá-lo, ou ela retirava-o da estante e lia, uma folha ali, outra mais
adiante, a fazer-se encontrada com aquele meliante do Jorge, ou a sem graça da
Gertrudes, e a ver deitado, na torreira de um sol alentejano, o gato Jeremias
não tivesse lido e nem se teria recordado do felino que o escritor colocara na
varanda, ou teria o gato vindo colocar-se, Maria Rosa não entende os segredos da escrita e por isso não sabe, mas sabe que, se não fosse o gato, Hermínia
não teria tropeçado e sem isso não se teria feito aquela curva sinuosa no enredo que Maria Rosa gostava de saber qual foi, mas esqueceu
o tempo escoando-se e ela
especada na estante, que antes ser isso do que ficar contando o que tinha sido
o dia antes, e o dia depois desse, e mais o dia de hoje, e ainda ficar a imaginar o que seriam os
dias seguintes
antes Maria Rosa ter optado por ficar
naquele solilóqio mudo com os livros, e a usar o dedo para limpar o pó das
estantes
sexta-feira, 6 de julho de 2012
novos talentos literatura FNAC
De entre setecentos contos, o juri seleccionou dez.
Deles, só cinco serão publicados e o seu voto é que o determina.
clique no texto a negrito para ler os contos, e siga os passos para votar
(cada endereço de e-mail pode validar um voto por dia)
terça-feira, 19 de junho de 2012
restos
Numa das gavetas da cómoda havia um
album.
Um album de fotografias incompleto jazendo entre duas camisas
de noite ainda com goma, ainda muito tesas. Alvas, não fosse o amarelado que o tempo
lhes pusera em cima.
E passando o dedo naquelas
folhas de cartolina preta, recoberta cada uma por um fino papel de seda, lá
estavam, a atestar as faltas de fotografias, os locais onde elas tinham sido
presas em cada um dos cantos, por fiapos de papel transparente.
Espaços onde o negro
do papel não fora cozinhado pela luz dos candeeiros e pela luz do sol. E pela
luz de tantos olhos que tinham ficado, horas e horas, a olhar as fotos:
Um album somente pela casa
inteira, que Maria Teresa, prouvera que repousando nos braços do Senhor
em que tanto cria, nunca fora dada a retratos, e se os havia era apenas porque
o marido, com quem convivera mais de meio século até o perder, assim, sem ser
esperado, mas também sem sofrimento, o marido, dizia eu, fora grande amigo do
dono da primeira casa de fazer retratos na cidade. Disso que houvesse, além do
album, aquela pose deles em caixilho de oiro, dependurada no alto da escada.
E havia ainda aquela
paisagem nocturna. A cidade em três exposições.
Fora-lhe oferecida pelo fotógrafo no dia em que ela tinha completado trinta anos. Pendurara-a por cima da mesinha que tinha no quarto ao lado da janela, mais precisamente, do lado direito da janela, de modo que a luz não fizesse sombra quando Maria Teresa escrevia, e ela sempre fora de escrever com a mão direita o que se não dera com o seu irmão que ainda hoje escrevia de esguelha como dizia a mãe deles a referir-se àquele modo que o filho tinha.
Fora-lhe oferecida pelo fotógrafo no dia em que ela tinha completado trinta anos. Pendurara-a por cima da mesinha que tinha no quarto ao lado da janela, mais precisamente, do lado direito da janela, de modo que a luz não fizesse sombra quando Maria Teresa escrevia, e ela sempre fora de escrever com a mão direita o que se não dera com o seu irmão que ainda hoje escrevia de esguelha como dizia a mãe deles a referir-se àquele modo que o filho tinha.
Em outras gavetas, nada
havia que fosse cobiçado.
Roupa simples, muito usada, e no
guarda loiças nem faqueiros de prata e nem outros, e a alpaca das colheres, e o
osso no cabo das facas, tinha sido há muito tempo, tal como o linho lavrado das
toalhas e respectivos guardanapos, ainda que usados apenas em dias de consoada
e aniversários. Mas tinham sido sempre os mesmos, um ano a seguir a outro ano,
e netos, e bisnetos. Andariam por ali, confundidos com outros panos. E teriam
sobrado uns garfos e a colher de concha, verde de zinabre.
No fundo das gavetas havia, isso sim,
cotão de muitos anos e muitas pratinhas de chocolate alisadas com a unha do
dedo polegar. Com cuidado, para não rasgar.
terça-feira, 29 de maio de 2012
entre linhas
assim um ficar ali a ver de longe
a ver o todo e a ver pormenores
a imaginar o como de ter sido feito
aqueles pelos/linhas nos sovacos delas
e nos cabelos e nos sexos
e os riscos que teriam sido antes do bordado
agulha e linha e mãos
trabalho feminino
que nisso de usar o dedal e a agulha é delas o princípio
transparentes aqueles panos a deixar saber
que muito mais que apenas cada uma
era todo um mundo que olhávamos
e sóis e galáxias
rendas
elas a desfazerem-se em luz e ainda assim tão intensas
tão gente, tão almas, tão mulheres
quinta-feira, 24 de maio de 2012
até logo
em homenagem aos textos no expressodalinha
textos que não
sei comentar em palavras outras
era tantas vezes a hora de
torreira, o sol lá fora imenso, e ali a penumbra das portadas e dos véus, que era o que semelhava o tule dos cortinados
uma greta apenas em cada umas das
janelas, e o sol fazendo-se uma luz que mal alumiava a tijoleira ou a madeira de
um soalho, um encerado num outro quarto que fosse em casa de cidade ou naquela outra
debruçada na falésia em que o mar era apenas uma linha no horizonte e o mais era o vale
era essa a hora deles
os inícios de tarde, a sesta quando dava
às vezes fazia frio
nunca nevara numa hora que fosse
a hora deles, nunca calhara
horas apetecidas,
essas, quanto as do sol a pino
eram horas de se irem iniciando tardes
que acabavam ainda antes que se tivesse percebido um sol no firmamento,
e nem que o astro-rei se tinha ido para lá daquela mole cinzenta, as nuvens
pesadas de chuva
às vezes faziam temporais naquelas horas que eles faziam suas, e as cortinas abertas deixavam ver a água, e o frio penetrava pelas frinchas
e água seria também aquela que brilhava nos corpos de um e do outro
horas metálicas como dizem delas os poetas, horas de cinza apenas lá fora que no mais eram sempre horas da cor de um fogo assim entre os laranjas e os vermelhos com muito amarelo e azul polulando irreverentes
às vezes faziam temporais naquelas horas que eles faziam suas, e as cortinas abertas deixavam ver a água, e o frio penetrava pelas frinchas
e água seria também aquela que brilhava nos corpos de um e do outro
horas metálicas como dizem delas os poetas, horas de cinza apenas lá fora que no mais eram sempre horas da cor de um fogo assim entre os laranjas e os vermelhos com muito amarelo e azul polulando irreverentes
mas eram também as horas aquelas que
eles faziam acontecer nos breves minutos de um até logo
ela saindo de pasta e saltos altos, que nem
eram assim tão enormes, uns saltitos de nada, mas ela garantia: hoje vou de saltos
altos, e não era mais do que ter deixado de ir de saltos rasos, o bucho da perna
a sobressair na meia, ou seriam outras vezes sandalinhas de tiras, e as saias
uma mão travessa acima do joelho ou rojando pelo chão
e eram eles segredando-se só um segundo, que podia ser ela ou podia ser ele, e eram uns minutos tão imensos quanto aquelas horas no início das
tardes que se faziam pequeninas mesmo se o sol se escondia sendo quase noite
e era segundos, uns minutos breves, e lá fora chovia imenso e esfriava se lhe
despia a camisola a sentir-lhe pele, ao menos o seu ombro gelado que
nem tinham ligado o aquecimento e já era frio naquele início de outono
ou era no calor de um Agosto europeu
ela tinha sempre aquele hábito de
ajeitar a calcinha sob o collant justo ou sob o vestido de tecido fino
e o riso de um ia indo com o outro e
ficava tão sereno ali no degrau da escada a dizerem-se até logo
até logo, e só mais um beijinho
terça-feira, 1 de maio de 2012
coisas de há uns anos ...
O sol encandeia apesar das nuvens, ou nem disso, que nem há fiapos, nem rolos, nem castelos a enfeitar o céu deste Maio.
Um céu que nem é de chuva mas de demência: Um tempo de malucos. Assim diria a minha avó materna se olhasse este céu de hoje com os olhos que ela tinha pardos: um cinzento mesclado de azul claro, olhos de cataratas e choros e cansaços, olhos quase cegos de ver tanto, olhos em tudo semelhantes ao ceu que nos cobre desde o solstício.
Um céu descido sobre a Terra, tão baixinho, que a gente cuida chegar lá se espetar um dedo.
Um céu descido sobre a Terra, tão baixinho, que a gente cuida chegar lá se espetar um dedo.
Um céu ligado ao chão que está molhado do xixi dos anjos pela noite, que não se vê que caiam bagos.
Um céu coberto por uma ténue pasta parda que cai, de lá em cima cá abaixo, e nos encobre os sonhos, se dormimos, e nos entontece ideias e entorta dizeres.
Um céu como se fora véu de noiva morta na véspera das bodas, feitas exéquias, com o padre a enganar-se na leitura e os convidados a darem os meus parabéns à mãe da noiva.
Um céu como maçã podre, deslizando fedores, este céu que cobre o mês de Maio, e está Nossa Senhora para se mostrar e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos e de medos, a mostrar-se bailando, se preciso, aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e terços, e pecados, e promessas, e caminhos percorridos sangrando, que nem o sol a aquecer asfaltos, pedrinhas, terras, a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de águas quase bentas.
Um céu como maçã podre, deslizando fedores, este céu que cobre o mês de Maio, e está Nossa Senhora para se mostrar e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos e de medos, a mostrar-se bailando, se preciso, aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e terços, e pecados, e promessas, e caminhos percorridos sangrando, que nem o sol a aquecer asfaltos, pedrinhas, terras, a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de águas quase bentas.
Um horror, estes dias cinzentos com o sol apertado entre vapores, calores filtrados, sufocantes, a doerem as frontes das gentes, dos mais sensíveis, das virgens e mulheres entradas, dos seres em espera de algo, que somos quase todos. Testas alagadas de águas gélidas, que são assim os suores de tristezas, de doenças e de medos.
Nem rodam um pouquinho os cata-ventos: firmes na direcção do mesmo ponto, vai para meses, que se apontassem como deve, nestes dias, seria a um siroco, mas nem é essa a latitude.
Nem rodam um pouquinho os cata-ventos: firmes na direcção do mesmo ponto, vai para meses, que se apontassem como deve, nestes dias, seria a um siroco, mas nem é essa a latitude.
Pastosas as angústias neste mês de tolos.
E nas mãos húmidas escorrem suores tão mal cheirosos como os que empapam os sovacos escanhoados das madames que aprovam vestidos novos para o Verão, leves, decotados, de sedas finas e algodões de cores garridas, embrulhadas em capas e cobertas por sombrinhas.
terça-feira, 17 de abril de 2012
sem deus e sem demónios
não escreve com um Deus no pensamento, nem tem um Profeta
que lhe guie a fantasia, nem um Ideólogo que lhe mostre os cantos do planeta
onde se faz a História
talvez ela escreva com pó de estrelas, ou farpas de
fogueira, ou sangues de vidas suicidas
ou talvez com cheiros
os odores fedorentos dos mijos das velhas e das meninas
badalhocas no tempo em que nem se sonhava com água em torneiras
os cheiros das bocas destratadas dos homens pelas
tabernas, os odores a veneno disfarçado nas moléculas bem cheirantes dos
perfumes caros das mulheres – putas muitas delas ou viuvas tristes de homens
mal casados
e se escreve com cores, serão vermelhos
sempre o encarnado pincelado na cor da terra ou na cor de
um vestido, e se mais não houver, na cor do sangue que desce nas pernas das
mulheres
o sangue sempre correndo nas pernas das mulheres
e nem Deus nem Demónios
ao menos, não os seres transcendentes que lhe contaram
nas idas ao catecismo - ela menina, filha de pai ateu mas cheinho de receios:
se der que haja inferno e céu, pois que a menina tenha a sabedoria do ensino
para poder escolhe-los, pensaria assim seu pai, e que a mãe lhe vestisse o
vestidinho de domingo e a mandasse à catequese
mas a menina cresceu e esqueceu o Deus e a Mãe d’Ele e
essas entidades que eram os Anjos e os Demónios
rumou em outros universos e hoje, se fala neles, é apenas
na dúvida que lhe resta de que existam e ela os não nomeie, esse receio que traz consigo,
quiçá o mesmo que seu pai lhe deu de legado nalgum gene
prefere dar- lhes nomes
chamá-los Fernando, Hilário, Felismina, Hermengarda ou
Luísa
ou ela transforma o Deus uno em muitos deuses, e anjos
sorridentes, e demónios travessos, sem nunca deixar que cada um seja, no que
escreve, mais que palavras exorcisando o pecado enorme que é ela não
acreditá-los
evita assim dizer qual paraíso, qual inferno, qual vida
eterna e qual pecado capital e mais o perdão e o poder da oração, que é o que
ela sente
nada de heresias no que escreva e nem confissões
e ela não escreve, nunca, vozes de criança bem tratada e
sua ama, ou menino na escola aprendendo palavras virgens de sentidos na
inscrita caligrafia que desenha, ou orando ao Deus do Céu que lhe abençoe o
prato de comida
nem conta histórias de meninas virgens anunciadas por
anjos que as trespassem com espadas luminosas num cerimonial todo ele vindo das
alturas
e no entanto, as palavras dela são palavrinhas mansas, ainda que despidas desse
dizer Senhor, Senhor numa oração sentida ou do clamor de um perdoai-nos a nós
almas desmandadas por purgatórios
as palavras dela não têm a densidade que possuem as que,
tendo descido ao fundo dos infernos, trouxessem nelas os odores da carnificina
segunda-feira, 16 de abril de 2012
simplesmente isso
vai tudo acontecendo como tem que acontecer
um dia e outro escritos pelo destino
folhas dele caindo
e a gente
espantando-se que tenha sido assim
a gente boquiaberta
pesadelo ou quase
a vida a mudar o rumo
apenas isso
doença e morte
um suspiro profundo
os olhos mais chorosos hoje do que ontem de tarde
a vida a levar o seu rumo
nada de mais
um dia e outro escritos pelo destino
folhas dele caindo
e a gente
espantando-se que tenha sido assim
a gente boquiaberta
pesadelo ou quase
a vida a mudar o rumo
apenas isso
doença e morte
um suspiro profundo
os olhos mais chorosos hoje do que ontem de tarde
a vida a levar o seu rumo
nada de mais
terça-feira, 10 de abril de 2012
não te disse
estou aqui sem peça de roupa que
agasalhe
a tristeza desabrochou-me
erecta
firme
desejosa de deitar ramos
aspergir-se de lágrimas
reflorir em choros
no interior do que nem sei onde
eu sou um novelinho cor de palha
um rolinho de penas que os pardais
deixaram
um novelo das cartas
que nem nos escrevemos
estou aqui sem fato
não tenho nada que me identifique
espraiada como a areia
tomada
pela maré enchente
nada na pele me assinala
nada no meu rosto traduz
e eu morri um tanto
morri um pedaço enorme
onde tu existias
lá
onde te dizia até um dia destes
ficou vazio
e eu nunca te disse
nem uma palavra
e hoje
fico apenas muito triste
muita coisa ainda para dizer-se
muita mão ainda para apertar-se
e aquele etéreo
(tão etéreo que somos)
esvai-se no passado que fomos
sábado, 31 de março de 2012
andorinha
– Não
tragas vaidades que te ajoujem, grita Ermelinda ainda a pensar na andorinha
com papo encarnado que ela juraria que tinha visto a saltitar no gargalo do poço.
E
ninguém lhe responde, e ninguém a ouve, ou estará a outra escondida por detrás da janela.
– Não
tragas vaidades, grita-lhe.
Era,
sim, uma andorinha.
E no
entanto tinha aquele risco vermelho sob o papo: uma andorinha estranha como
estava a ser aquela primavera, pensou Ermelinda a dobrar duas peças de roupa
que tinha colocado no gargalo do poço. Ermelinda gritando desaforos
para a janela nem sequer aberta, e sem uma certeza de que a outra a
ouvisse.
– Vem antes
nua. Vem tal e qual te deitas com os homens.
A
andorinha teria sido ferida em farpa de vedação ou seria uma espécie rara que
ainda assim viera com as outras: as andorinhas voando pelos céus a trespassarem
continentes, e esta a voar distante do bando uns quantos metros, apenas porque
trazia no papo aquele risco da cor do sangue.
– Cabra,
gritava Ermelinda ao ar da tarde, minha grande cabra, e acomodava a
roupa seca na dobra do braço.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


.png)


