sexta-feira, 17 de agosto de 2012

in memoriam



 as tardes acordam doentes e a gente não percebe
os dias acordam com morte, e cada um a rir-se, cada um guerreando como se houvesse um minuto mais, como se aquele não fosse o derradeiro
não percebemos que os olhos que nos olham estão a dizer-nos nunca mais seremos um e outro assim como estamos
não percebemos que aquele gesto que nem fazemos: o mimo, o dizer adeus, o olhar mais um instante, é afinal gesto de dizer eternidade
e nem sequer ficamos uns com os outros consolando, seja gente ou seja o cão que nos abana a cauda, sabe-se lá que sensibilidade terão os animais
continuamos como se nada fosse a olhar as formigas que polulam por ali em busca de migalhas, elas também sem saberem que um dedo de senhora lhes esmagará a existência, que por essas nem sequer choramos, nem sequer nos culpamos de não ter velado para que não tivesse sido como foi
interrogações que colocamos, ridículas e desprovidas de sentido: porque raio não fiquei ou porque raio fui, e mais um ror de dizeres que é a gente a tentar perceber, a tentar imaginar que nem fosse verdade, a tentar reverter, bater no peito uma culpa que nos console daquele mistério que é não termos percebido o que era afinal tão óbvio, tudo a dar-se no nariz da gente, tudo previsto, tudo escrito no filho da puta do destino

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

novos talentos FNAC literatura




a todos os que para tal contribuiram os meus parabéns!




terça-feira, 7 de agosto de 2012

a promessa


Irene Fogaça viaja na camioneta rumo a sul.
É o mês de Nossa Senhora, e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos e de medos a mostrar-se bailando aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e de terços. Os olhos deles intumescidos de pecados, a cumprirem promessas, a sangrar orações pelos caminhos. E o sol sem aquecer asfaltos para que escaldem as pedrinhas e fervente a terra a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de pomadas e águas quase bentas.
Um horror estes dias com o sol filtrado, pensa Irene Fogaça a olhar a estrada.
Ela a imaginar o calor sufocante que fará no recinto.
Um calor a embeber as frontes com suores gelados, que são assim os suores de tristezas e doenças, e os suores de medos.
E nem uma aragem que rode um cata-vento. Meias luas e palhaços e figuras do zodíaco, ou uma cabra. Bichos talhados em pedaços de lata a apontarem, ainda, ao vento de há dois dias.
Não se movem cata-ventos no céu deste Maio, pensa Irene Fogaça ajeitando o rabo no banco.
A parceira do lado tem um perfume a cheirar a qualquer coisa que lhe dá no estômago como se fosse mistura de medronho com azeite rançoso. E fala: meu Deus como fala esta mulher! Vale a Irene Fogaça ter trazido o terço. Vai rolando as bagas com a velocidade justa para que a outra pense que debita, em cada uma, a Ave-Maria de cuja letra sabe apenas uns pedaços. O Padre-Nosso, esse, esqueceu-o totalmente, que Irene nem é devota, aconteceu-lhe ter feito a promessa, e já faz dois anos que ficou curada. Um mal de pele que lhe dava em comichão pelo corpo todo: ela sempre a coçar onde nem devia. Um desespero. E Irene Fogaça tinha prometido que se aquilo passasse iria rezar à Virgem num dia de aparição.
Tinha perguntado na merceeira:
– Dona Lurdes, sabe se há excursão? e mencionou o local de culto.
E a outra a cortar umas tiras de fiambre:
– Há, sim, mas parece que o autocarro está lotado.
E Irene Fogaça foi falar com o Bomba: este ano é ele quem vai levar o carro, tinha dito a Dona Lurdes já a pesar-lhe umas cebolas.
E o Bomba que sim senhora, que podia ir, que havia um lugar vago: o lugar da Cremilde que está internada das varizes.
E foi assim que Irene veio por ali abaixo a cumprir o que tinha prometido num dia de maior comichão.
– Um tempo dos diabos, murmura ela como se balbuciasse palavras de orações.






quinta-feira, 2 de agosto de 2012

contraponto

esta imagem, que foi capa de revista, a querer um contraponto e eu a pensar no Vilhena e nas suas mulheres...
mas desisti do intento
desisti de fazer o humor que, por contraponto, e apenas por isso, a imagem merecesse
e fiquei na mensagem séria que ela me devolve
o tanto de sério e violento que ela possa trazer
e compuz para este passatempo gostoso do Eduardo a imagem que aqui deixo

sexta-feira, 27 de julho de 2012

ainda a casa dela




Uma casa onde ainda se sentiam, grossas, ensebadas de compotas e manteiga fresca, as dedadas de filhos e de netos. Onde ainda cheirava à caca das fraldas e ao mijo de cães e gatos. E se havia restos que pudessem dizer de como tinha sido, eram esses besuntados nas paredes.
E os riscos.
 - Deixa ver se cresceste - dizia, e marcava um risco. 
Um risco a lápis. Sempre grafite para poder ser removido e nunca tinha sido. Tinham ficado espalhados pela casa entre camadas e mais camadas de cal viva, limpezas que fazia nos dias quentes em que não chovia.
E haveria por ali, impregnadas na cera do sobrado, sobretudo nos quartos, pedacinhos de pele. Dermes de um e outro soltas do corpo de quando o sol fazia escaldões e eles dormiam grandes sestas seminus.
E, aguçados, poderiam surgir pedacinhos de unhas que eles cortavam uns aos outros, e fiapos dos cabelos. Franjas enormes que aparavam.
- Deixa ver que eu dou um jeito... 
e lá iam umas pontas loiras se era o cabelo do Zé Pedro, ou mais escurinhas se era o cabelo da Matilde ou do Rui ou da Maria Cremilde.
Seria caso raro encontrar um pelo encarnado do cabelo muito ruivo do Simão que nunca passou férias lá na casa. Ele e os irmãos eram os netos que andavam lá por fora e, se vinham, ficavam alojados num hotel. Esses netos que nunca compreenderiam o horror estampado nas caras do Zé Pedro e da Matilde, sobretudo eles, a ouvirem o Simão dizer, tinham sido as partilhas na semana passada: que sim, que ia deitar abaixo e depois construir.


terça-feira, 17 de julho de 2012

VIVA LA VIDA em CONTRA PONTO

ali no varal de ideias o Edu pede uma imagem que seja contraponto a esta






e logo me veio à ideia aquela imensidão de vida que a Frida fez jorrar na tela onde deixou inscrito que o que ali estava era um hino, um grito
 urro de animal em cio
 fémea parindo ou cria a vir a este mundo 


e só a melancia,
seja o fruto inteiro ou uma talhada roida a resvalar solitária na imensidão de um céu de nuvens
 quiçá de uma corrente de água pela maré vaza,
só uma talhada desse fruto para nos dar aquele gosto que a vida sempre nos deixa quando degustada
os líquidos vários que somos e nos escorrem

contraponto dessa casca roida balançando vidas
antes que um boi ou cabra ou outro animal que poderá ser ave do céu ou que seja peixe
um ser que por ali passe e dela se sustente

quinta-feira, 12 de julho de 2012

a passar o tempo


se contasse o dia, se narrasse o dia de antes e o dia de depois
um dia a seguir a outro
horas
segundos dependurados nas entradas dos minutos, uma plêiade de instantes
sussurros no silêncio, que o passar do tempo cria movimentos no ar circundante
e Maria Rosa removendo o pó das estantes com o dedo indicador da mão onde em tempos tinha trazido uma aliança e hoje nem a marca que o sol teimava em deixar de um Verão a outro
o pó soltava-se da madeira em tiras da espessura do seu dedo que era um dedinho de nada, ela que nunca mais crescera desde o exame de admissão ao liceu e se mantivera muito magra ainda depois de amamentar três filhos, quase sem gordura a não ser no rabo e um nadinha na cintura
o dia escoava-se e, de vez em quando, muito de longe em longe, Maria Rosa lá ia mordiscando uma torrada ou fazia a si própria o esmoler de uma tirinha de queijo de ovelha
uma tira de nada e bebia água
e os segundos escoavam-se, e nem era necessária ampulheta onde o tempo escorresse por acção das leis da gravidade, e nem relógio onde o cuco viesse, mecânico e feioso, espreitar quem saltava de susto com o seu cucu repetido tantas vezes quantas fossem as horas, os minutos, ou os segundos
nem Maria Rosa tinha por ali o som irritativo de um pêndulo e o dãodão do martelo a ecoar pelas paredes
nada que marcasse, em compassos diversos, um mesmo tempo, como se o tempo fosse tão apenas o ritmo que fizessem as botas de soldados que passassem, ou o marchar de outra gente que deixaria lenços de papel sujos de suor ou de ranho pelo empedrado
o tempo sorvendo-lhe o único bem que ainda tinha, o bem único que afinal tem quem cada um dos que ainda por aqui anda, e Maria Rosa sossegada, presa naquele pó que cobria a madeira das estantes nos espaços estreitinhos que sobravam de tanto livro
nunca os leria todos, pensava Maria Rosa, e sentia uma espécie de desgosto
e se os lesse acabaria por esquecer cada enredo, se era naquele que havia um tio com uma ferida repugnante que a sobrinha tratava, em cada noite, com pinça esterelizada na chama de uma lamparina
ou ela estaria confundindo com aquele enredo onde alguém prensava com algodão embebido num líquido amarelo, desinfectante que escorria pela barba grisalha de um homem que nem era ssim tão velho, mas fora alistado numa guerra onde o tinham ferido
ou seria naquele  livro de capa verde que Maria Rosa teria lido a história de cunhado e cunhada entretidos em marotices, cerejas e frutos secos que eles misturavam nos misteres do sexo às escondidas dos parceiros, a dona Miluzinha catequeista que nunca consentira em desnudar-se, e o Xavier Deniz que nunca fizera sexo de outro modo desde aquela noite
era, sim senhora, era naquele livro de capa cor de couve onde estava escrito, em letras amarelas: Xavier Deniz, seu marido, um livro pícaro, genialmente escrito, a tratar com despudor e graça as curvas sinuosas do sexo na alcova
e o outro
Maria Rosa firme na discórdia de que fosse assim tão simples dizer que era perdido o tempo que ela sentia a pulsar-lhe, ia colocando um dedo na capa de cada livro e fazendo o esforço de revisitá-lo, ou ela retirava-o da estante e lia, uma folha ali, outra mais adiante, a fazer-se encontrada com aquele meliante do Jorge, ou a sem graça da Gertrudes, e a ver deitado, na torreira de um sol alentejano, o gato Jeremias
não tivesse lido e nem se teria recordado do felino que o escritor colocara na varanda, ou teria o gato vindo colocar-se, Maria Rosa não entende os segredos da escrita e por isso não sabe, mas sabe que, se não fosse o gato, Hermínia não teria tropeçado e sem isso não se teria feito aquela curva sinuosa no enredo que Maria Rosa gostava de saber qual foi, mas esqueceu
o tempo escoando-se e ela especada na estante, que antes ser isso do que ficar contando o que tinha sido o dia antes, e o dia depois desse, e mais o dia de hoje, e ainda ficar a imaginar o que seriam os dias seguintes
antes Maria Rosa ter optado por ficar naquele solilóqio mudo com os livros, e a usar o dedo para limpar o pó das estantes

sexta-feira, 6 de julho de 2012

novos talentos literatura FNAC


De entre setecentos contos, o juri seleccionou dez.
Deles, só cinco serão publicados e o seu voto é que o determina.
clique no texto a negrito para ler os contos, e siga os passos para votar
(cada endereço de e-mail pode validar um voto por dia)

terça-feira, 19 de junho de 2012

restos


Numa das gavetas da cómoda havia um album.
Um album de fotografias incompleto jazendo entre duas camisas de noite ainda com goma, ainda muito tesas. Alvas, não fosse o amarelado que o tempo lhes pusera em cima.
E passando o dedo naquelas folhas de cartolina preta, recoberta cada uma por um fino papel de seda, lá estavam, a atestar as faltas de fotografias, os locais onde elas tinham sido presas em cada um dos cantos, por fiapos de papel transparente.
Espaços onde o negro do papel não fora cozinhado pela luz dos candeeiros e pela luz do sol. E pela luz de tantos olhos que tinham ficado, horas e horas, a olhar as fotos:
– Olha aqui o tio Ernesto com caracóis!
Um album somente pela casa inteira, que Maria Teresa, prouvera que repousando nos braços do Senhor em que tanto cria, nunca fora dada a retratos, e se os havia era apenas porque o marido, com quem convivera mais de meio século até o perder, assim, sem ser esperado, mas também sem sofrimento, o marido, dizia eu, fora grande amigo do dono da primeira casa de fazer retratos na cidade. Disso que houvesse, além do album, aquela pose deles em caixilho de oiro, dependurada no alto da escada.
E havia ainda aquela paisagem nocturna. A cidade em três exposições.
Fora-lhe oferecida pelo fotógrafo no dia em que ela tinha completado trinta anos. Pendurara-a por cima da mesinha que tinha no quarto ao lado da janela, mais precisamente, do lado direito da janela, de modo que a luz não fizesse sombra quando Maria Teresa escrevia, e ela sempre fora de escrever com a mão direita o que se não dera com o seu irmão que ainda hoje escrevia de esguelha como dizia a mãe deles a referir-se àquele modo que o filho tinha.
Em outras gavetas, nada havia que fosse cobiçado.  
Roupa simples, muito usada, e no guarda loiças nem faqueiros de prata e nem outros, e a alpaca das colheres, e o osso no cabo das facas, tinha sido há muito tempo, tal como o linho lavrado das toalhas e respectivos guardanapos, ainda que usados apenas em dias de consoada e aniversários. Mas tinham sido sempre os mesmos, um ano a seguir a outro ano, e netos, e bisnetos. Andariam por ali, confundidos com outros panos. E teriam sobrado uns garfos e a colher de concha, verde de zinabre.
No fundo das gavetas havia, isso sim, cotão de muitos anos e muitas pratinhas de chocolate alisadas com a unha do dedo polegar. Com cuidado, para não rasgar.

terça-feira, 29 de maio de 2012

entre linhas

 

assim um ficar ali a ver de longe
a ver o todo e a ver pormenores
a imaginar o como de ter sido feito
aqueles pelos/linhas nos sovacos delas
e nos cabelos e nos sexos
e os riscos que teriam sido antes do bordado
agulha e linha e mãos
trabalho feminino
que nisso de usar o dedal e a agulha é delas o princípio
transparentes aqueles panos a deixar saber
que muito mais que apenas cada uma
era todo um mundo que olhávamos
e sóis e galáxias
rendas
elas a desfazerem-se em luz e ainda assim tão intensas
tão gente, tão almas, tão mulheres

quinta-feira, 24 de maio de 2012

até logo


                                                                     em homenagem aos textos no expressodalinha
                                                                     textos que não sei comentar em palavras outras



era tantas vezes a hora de torreira, o sol lá fora imenso, e ali a penumbra das portadas e dos véus, que era o que semelhava o tule dos cortinados
uma greta apenas em cada umas das janelas, e o sol fazendo-se uma luz que mal alumiava a tijoleira ou a madeira de um soalho, um encerado num outro quarto que fosse em casa de cidade ou naquela outra debruçada na falésia em que o mar era apenas uma linha no horizonte e o mais era o vale
era essa a hora deles
os inícios de tarde, a sesta quando dava
às vezes fazia frio
nunca nevara numa hora que fosse a hora deles, nunca calhara
horas  apetecidas, essas, quanto as do sol a pino
eram horas de se irem iniciando tardes que acabavam ainda antes que se tivesse percebido um sol no firmamento, e nem que o astro-rei se tinha ido para lá daquela mole cinzenta, as nuvens pesadas de chuva
às vezes faziam temporais naquelas horas que eles faziam suas, e as cortinas abertas deixavam ver a água, e o frio penetrava pelas frinchas
e água seria também aquela que brilhava nos corpos de um e do outro
horas metálicas como dizem delas os poetas, horas de cinza apenas lá fora que no mais eram sempre horas da cor de um fogo assim entre os laranjas e os vermelhos com muito amarelo e azul polulando irreverentes
mas eram também as horas aquelas que eles faziam acontecer nos breves minutos de um até logo
ela saindo de pasta e saltos altos, que nem eram assim tão enormes, uns saltitos de nada, mas ela garantia: hoje vou de saltos altos, e não era mais do que ter deixado de ir de saltos rasos, o bucho da perna a sobressair na meia, ou seriam outras vezes sandalinhas de tiras, e as saias uma mão travessa acima do joelho ou rojando pelo chão
e eram eles segredando-se só um segundo, que podia ser ela ou podia ser ele, e eram uns minutos tão imensos quanto aquelas horas no início das tardes que se faziam pequeninas mesmo se o sol se escondia sendo quase noite
e era segundos, uns minutos  breves, e lá fora chovia imenso e esfriava se lhe despia a camisola a sentir-lhe pele, ao menos o seu ombro gelado que nem tinham ligado o aquecimento e já era frio naquele início de outono
ou era no calor de um Agosto europeu
ela tinha  sempre aquele hábito de ajeitar a calcinha sob o collant justo ou sob o vestido de tecido fino
e o riso de um ia indo com o outro e ficava tão sereno ali no degrau da escada a dizerem-se até logo
até logo, e só mais um beijinho




terça-feira, 1 de maio de 2012

coisas de há uns anos ...




O sol encandeia apesar das nuvens, ou nem disso, que nem há fiapos, nem rolos, nem castelos a enfeitar o céu deste Maio.
Um céu que nem é de chuva mas de demência: Um tempo de malucos. Assim diria a minha avó materna se olhasse este céu de hoje com os olhos que ela tinha pardos: um cinzento mesclado de azul claro, olhos de cataratas e choros e cansaços, olhos quase cegos de ver tanto, olhos em tudo semelhantes ao ceu que nos cobre desde o solstício.
Um céu descido sobre a Terra, tão baixinho, que a gente cuida chegar lá se espetar um dedo.
Um céu ligado ao chão que está molhado do xixi dos anjos pela noite, que não se vê que caiam bagos.
Um céu coberto por uma ténue pasta parda que cai, de lá em cima cá abaixo, e nos encobre os sonhos, se dormimos, e nos entontece ideias e entorta dizeres.
Um céu como se fora véu de noiva morta na véspera das bodas, feitas exéquias, com o padre a enganar-se na leitura e os convidados a darem os meus parabéns à mãe da noiva.
Um céu como maçã podre, deslizando fedores, este céu que cobre o mês de Maio, e está Nossa Senhora para se mostrar e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos e de medos, a mostrar-se bailando, se preciso, aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e terços, e pecados, e promessas, e caminhos percorridos sangrando, que nem o sol a aquecer asfaltos, pedrinhas, terras, a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de águas quase bentas.
Um horror, estes dias cinzentos com o sol apertado entre vapores, calores filtrados, sufocantes, a doerem as frontes das gentes, dos mais sensíveis, das virgens e mulheres entradas, dos seres em espera de algo, que somos quase todos. Testas alagadas de águas gélidas, que são assim os suores de tristezas, de doenças e de medos.
Nem rodam um pouquinho os cata-ventos: firmes na direcção do mesmo ponto, vai para meses, que se apontassem como deve, nestes dias, seria a um siroco, mas nem é essa a latitude.


Pastosas as angústias neste mês de tolos.


E nas mãos húmidas escorrem suores tão mal cheirosos como os que empapam os sovacos escanhoados das madames que aprovam vestidos novos para o Verão, leves, decotados, de sedas finas e algodões de cores garridas, embrulhadas em capas e cobertas por sombrinhas.




terça-feira, 17 de abril de 2012

sem deus e sem demónios




 
não escreve com um Deus no pensamento, nem tem um Profeta que lhe guie a fantasia, nem um Ideólogo que lhe mostre os cantos do planeta onde se faz a História
talvez ela escreva com pó de estrelas, ou farpas de fogueira, ou sangues de vidas suicidas
ou talvez com cheiros
os odores fedorentos dos mijos das velhas e das meninas badalhocas no tempo em que nem se sonhava com água em torneiras
os cheiros das bocas destratadas dos homens pelas tabernas, os odores a veneno disfarçado nas moléculas bem cheirantes dos perfumes caros das mulheres – putas muitas delas ou viuvas tristes de homens mal casados
e se escreve com cores, serão vermelhos
sempre o encarnado pincelado na cor da terra ou na cor de um vestido, e se mais não houver, na cor do sangue que desce nas pernas das mulheres
o sangue sempre correndo nas pernas das mulheres
e nem Deus nem Demónios
ao menos, não os seres transcendentes que lhe contaram nas idas ao catecismo - ela menina, filha de pai ateu mas cheinho de receios: se der que haja inferno e céu, pois que a menina tenha a sabedoria do ensino para poder escolhe-los, pensaria assim seu pai, e que a mãe lhe vestisse o vestidinho de domingo e a mandasse à catequese
mas a menina cresceu e esqueceu o Deus e a Mãe d’Ele e essas entidades que eram os Anjos e os Demónios
rumou em outros universos e hoje, se fala neles, é apenas na dúvida que lhe resta de que existam e ela os não nomeie, esse receio que traz consigo, quiçá o mesmo que seu pai lhe deu de legado nalgum gene
prefere dar- lhes nomes
chamá-los Fernando, Hilário, Felismina, Hermengarda ou Luísa
ou ela transforma o Deus uno em muitos deuses, e anjos sorridentes, e demónios travessos, sem nunca deixar que cada um seja, no que escreve, mais que palavras exorcisando o pecado enorme que é ela não acreditá-los
evita assim dizer qual paraíso, qual inferno, qual vida eterna e qual pecado capital e mais o perdão e o poder da oração, que é o que ela sente
nada de heresias no que escreva e nem confissões
e ela não escreve, nunca, vozes de criança bem tratada e sua ama, ou menino na escola aprendendo palavras virgens de sentidos na inscrita caligrafia que desenha, ou orando ao Deus do Céu que lhe abençoe o prato de comida
nem conta histórias de meninas virgens anunciadas por anjos que as trespassem com espadas luminosas num cerimonial todo ele vindo das alturas
e no entanto, as palavras dela são palavrinhas mansas, ainda que despidas desse dizer Senhor, Senhor numa oração sentida ou do clamor de um perdoai-nos a nós almas desmandadas por purgatórios
as palavras dela não têm a densidade que possuem as que, tendo descido ao fundo dos infernos, trouxessem nelas os odores da carnificina

segunda-feira, 16 de abril de 2012

simplesmente isso

vai tudo acontecendo como tem que acontecer
um dia e outro escritos pelo destino
folhas dele caindo
e a gente
espantando-se que tenha sido assim
a gente boquiaberta
pesadelo ou quase
a vida a mudar o rumo
apenas isso
doença e morte
um suspiro profundo
os olhos mais chorosos hoje do que ontem de tarde
a vida a levar o seu rumo
nada de mais

terça-feira, 10 de abril de 2012

não te disse


estou aqui sem peça de roupa que agasalhe
a tristeza desabrochou-me
erecta
firme
desejosa de deitar ramos
aspergir-se de lágrimas
reflorir em choros

no interior do que nem sei onde
eu sou um novelinho cor de palha
um rolinho de penas que os pardais deixaram
um novelo das cartas que nem nos escrevemos

estou aqui sem fato
não tenho nada que me identifique
espraiada como a areia
                           tomada pela maré enchente
nada na pele me assinala
nada no meu rosto traduz
e eu morri um tanto
morri um pedaço enorme

onde tu existias
onde te dizia até um dia destes
ficou vazio
e eu nunca te disse
nem uma palavra
e hoje
fico apenas muito triste

muita coisa ainda para dizer-se
muita mão ainda para apertar-se
e aquele etéreo
(tão etéreo que somos)
esvai-se no passado que fomos










sábado, 31 de março de 2012

andorinha







– Não tragas vaidades que te ajoujem, grita Ermelinda ainda a pensar na andorinha com papo encarnado que ela juraria que tinha visto a saltitar no gargalo do poço.
E ninguém lhe responde, e ninguém a ouve, ou estará a outra escondida por detrás da janela.
– Não tragas vaidades, grita-lhe.
Era, sim, uma andorinha.
E no entanto tinha aquele risco vermelho sob o papo: uma andorinha estranha como estava a ser aquela primavera, pensou Ermelinda a dobrar duas peças de roupa que tinha colocado no gargalo do poço.  Ermelinda gritando desaforos para a janela nem sequer aberta, e sem uma certeza de que a outra a ouvisse.
– Vem antes nua. Vem tal e qual te deitas com os homens.
A andorinha teria sido ferida em farpa de vedação ou seria uma espécie rara que ainda assim viera com as outras: as andorinhas voando pelos céus a trespassarem continentes, e esta a voar distante do bando uns quantos metros, apenas porque trazia no papo aquele risco da cor do sangue.
– Cabra, gritava Ermelinda ao ar da tarde, minha grande cabra, e acomodava a roupa seca na dobra do braço.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Maria(s)


Que era uma menina, disse-o a Senhora Benvinda num tom de mágoa:
– Olhe, é uma menina! – e a mulher, a cortar o cordão, quereria avisar da desgraça que sempre se iniciava no nascer de uma filha.
Maria Vasilima.                                                       
O pai insisitiu que ela fosse baptizada desse modo desusado.
Um homem de trabalho, Ernesto Demóstenes deixou-lhe esse nome estranho como única herança, pois na semana mesma de ela ter nascido, terá guinado em demasia o eixo da carroça, e foi encontrado falecido debaixo dos legumes e da fruta com que ganhava a vida.
Até ter a idade de levantar-se nas perninhas, Maria Vasilima era apenas uma menina muito morena e muito rechonchuda. Mas a dar os primeiros passinhos, logo se mostrou de pernas tortas e bambas num corpinho sem graça. Falaria tarde e com defeito no modo de dizer os ésses: cuspia as letras na língua carregada de saliva, a espreitar disforme entre os lábios. E diria mal a maioria das palavras, ou porque as engolia, guturais e roucas, ou porque lhes trocava as consoantes. E, sobretudo, porque nem percebia como havia de empregá-las.
– A Maria é parva! – diria dela o irmão Fernando, filho do Manel Serúdio, que a mãe tinha sido junta com esse homem que morreu tuberculoso, e tinha tido aquele filho, muito antes de Maria Vasilima. 
E haviam de dizer que ela era poucochinha. Ou diriam: aquela moça não tem tino. E haviam de apelidá-la de demente, e ela rindo e babando-se, a segurar uns fios de lã com que gostava de enfeitar-se depois de os aldrabar com as agulhas.
– Estou a fazer malha como as senhoras! – entaramelava a rir um riso de menina tola.
E na idade de ir a uma escola, nunca a aceitariam:
– A menina não tem qualidades – diria a professora.
Maria Vasilima a quem a mãe batia por tudo e por nada, era também sovada pelo irmão.
– Maria, vai buscar vinho! – gritavam-lhe. 
E ela demorava-se. Ficava pelas tabernas. Os homens ofereciam-lhe bebida e rebuçados.
– Queres chupar Vasilima?! – diziam-lhe. E riam-se, alarves.
Ela que já adulta seria sempre uma criança, não entendia. Se nem tinha entendido quando o irmão se escarranchou sobre ela!  Ainda sem a idade de ter sido senhora, não gritou a dor que sentia, que a não deixavam as manápulas dele a taparem-lhe a boca.  E se não morreu dessa vez a desfazer-se em sangue e lágrimas, também não morreria quando o velho Pascoal a recostou nas redes que remendava às tardes! A ela pareceu-lhe que o homem lhe ía contar um conto, e Maria Vasilima tinha esse gosto de ouvir contos... mas o velho nem disse uma palavra, e tratou-a como ela via os cães. E ainda lhe descoseu a saia, o que lhe valeu uma sova com o cajado como a mãe fazia quando o irmão vinha bêbado ou não lhe entregava a féria. A mãe guerreava muito.
– Andas por aí a beber e a dar-te aos homens! és a minha vergonha!
E os homens a oferecer-lhe:
– Queres um rebuçado Vasilima?!




conto apresentado no âmbito dos contos de Barão

segunda-feira, 12 de março de 2012

enleio meu



Um dia assim na tua vida,
e eu sem mais para deixar,
nada mais, escrito ou dito,
nenhuma palavra, velha ou nova,
que traduza.
Sempre que é dia doze do mês terceiro
fica-me este enleio
eu sem saber o que deseje
que não seja muito mais,
que não seja dádiva dos céus,
o firmamente inteiro
a ti que me nasceste
e serás sempre o meu menino




sexta-feira, 9 de março de 2012

o meu preito

tinha umas palavras escritas
modifiquei-as o quanto necessário
e deixo-as aqui em memória
que ontem uma amiga de amiga ficou viúva
e mais umas tantas partiram desde que escrevi as tais palavras


Elas vão ao mercado, usam trança se o cabelos lhes dá, ou peruca se lhes for necessário, e cada uma delas pinta a vida com as cores das tintas, ou com sorrisos, ou usa essa cor em vestidos, numas mais soltos do que em outras, e lêem livros nas esplanadas onde conversam ou se recolhem.
E gostam de passear sozinhas, tanto como de ficar conversando pela noite dentro com uma amiga ou num bar em volta de uns copos.
Não deram nas vistas senão o necessário para que se sentissem vivas: intervenientes o bastante porque cada umas delas nem podia fechar os olhos, que o coração lhes falava mais alto.
Mulheres sem mais de especial que terem sido isso mesmo a cem por cento.
E se hoje assim as falo, é apenas porque me faz espécie que não sejam lembradas. Nem uma palavra que dissesse: recolheu-se à morada de Deus.
Por mim, soltaria uma pomba branca, ou que fosse uma de outra cor, no propósito de lembrar  que morreu, discreta e sofrida…e viria o nome dela num papelinho preso numa pata da avezinha.
Melhor ainda, que se fizesse dito, como era antigamente, uma arruaça. Que alguém gritasse em tom de oração: muito obrigada minha amiga! E dizendo-lhe o nome todos rezariam por mais uma mulher que partia: uma mulher que ao sábado iria ao mercado e que, se tocava piano ou fazia versos, ou desenhos, era no recolhimento da sua intimidade.
Eu vejo-as partirem, discretas, cheias de vagares nos preparos da viagem, e fico-me pensando, se nós, os que com ela convivemos e fomos bafejados pela sorte de lhes conhecer os dotes, não devemos fazer-lhes homenagem, que mais não seja conversando delas.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein