na janela assomavam dois olhos a olhar de cima
- como está hoje dona cremilde? - diria eu se tivesse dito
ela podia ser isaura, natércia ou assunção, maria simplesmente
podia ter-me respondido
- não se mace, eu vou indo, estou bem obrigada
nunca ofereci
- trago-lhe uma fruta
nem sequer
- bom dia, boa tarde, como vai?
- está passando bem dona eduarda?
nada
nunca fizemos dois dedos de conversa e nem lhe soube o nome
nunca ousei perguntar
- quer que lhe traga alguma coisa?
que eu não proporia
- eu subo, abre?
cheiraria a mijo
- e o banho, quem lho dá?
não diria eu que não me competia
- coma coma: um dia destes vai morrer de fome
- e os sobrinhos?
não lhe fiz promessas nem lhe limpei choros
nem nunca mais tinha visto os olhos dela lá em cima
nem reparara que faltava a velha senhora na janela
hoje lembrei-me do sorriso que me sorriu como sorriria aos meninos dela
tinha sido um dia
uma vez apenas
só agora lembro
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
quatro catatuas
Eram quatro catatuas.
Quatro viúvas enlutadas com plumas garridas nos chapéus. Pareciam tal e qual mulheres.
As ancas moles e os ventres pretuberantes sob o negro dos véus.
Dançavam uma dança de roda.
Cantariam se houvesse um ar que levasse as vozes.
E nem havia céu. E nem havia mais que quatro criaturas.
Eu que as via, chorava de as ver bizarras.
E nem chorava a morte que elas carpiam, que o que me fazia prantos silenciosos era essa vida que se erguia do seu andar rodando.
A vida é também isso, dizia para comigo olhando as quatro catatuas como sendo viúvas pejadas de véus negros.
E de penas.
Eu a cismar que indo aqueles quatro maridos, viriam outros tantos. Maridos que seriam de outras quatro catatuas que um dia estariam vestidas de negro a bailarem, chorando, a morte dos maridos.
Ou estariam elas morrendo-se e viriam outras quatro que seriam nascidas, entretanto.
Eu a carpir deste ir e vir que é a vida.Ah! se nascer uma mulher fosse assim como nascer uma catatua!
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
assim por acaso
baixou as calças e disse, de si para consigo:
- pronto, cago aqui mesmo que estou com vontade
e quem o viu, olhando do alto, recolheu-se
e quem o viu passando, desviou-se
um e outro dirá, se perguntado, que nem por deu por nada
que nem achou diferente
cada um defende-se de que lhe perguntem:
- sentiu o cheiro?
cada um requer para si o direito de não ter visto
e disso a certeza de não ter sentido
mas que era um homem de calças em baixo a cagar no centro da cidade
ah! isso ninguém duvide
- pronto, cago aqui mesmo que estou com vontade
e quem o viu, olhando do alto, recolheu-se
e quem o viu passando, desviou-se
um e outro dirá, se perguntado, que nem por deu por nada
que nem achou diferente
cada um defende-se de que lhe perguntem:
- sentiu o cheiro?
cada um requer para si o direito de não ter visto
e disso a certeza de não ter sentido
mas que era um homem de calças em baixo a cagar no centro da cidade
ah! isso ninguém duvide
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
da vida e da morte
faríamos o que quer que fosse para alargar este estarmos aqui
eternamente, seria o nosso gosto
ou não faríamos isso e apenas desejavamos que fosse uma estadia alegre
ou quereríamos que não fosse mesclada de sofrimento, doenças, desgostos, incertezas
preferíamos uma estada num qualquer paraíso desses que nos acenam as igrejas
e nem precisaríamos de um cortejo de anjos e nem de que nos fosse pedido sermos santos - apenas uma paz de entendimento e cada um aceitando o outro sem mais malidecência e sacanice do que o sabor do sal bem doseado ou um tiquinho de pimenta
e quereríamos que morrer fosse depois de tudo
e se fosse uma passagem, assim como dizendo adeus para uma viagem - sem retorno, é certo, sem hipóteses de visitas,
que houvesse a certeza de que estavamos num sítio, um algo semelhante
que houvesse a certeza de que estavamos num sítio, um algo semelhante
que é isso de desconhecermos, que dá este nó na garganta e este aperto nas vísceras - não sabermos
se vamos em viagem ou se acabamos, sem qualquer continuidade enquanto ser que somos, como a formiga que, sem nenhum respeito pela enorme quantidade de informação que carrega, espezinhamos aos quarteirões porque invadiram o pote do açúcar
ah! se soubessemos resolver o mistério seria tão diverso
tão diferente o nosso modo de ser gente,
que nem me atrevo a desejar que assim fosse
antes, a delinear estes termos que me saem no teclado, cuido que o que falta de ensino em escolas, lares e faculdades, é o culto do saber estar em paz consigo
que isso bastaria
digo
neste fim de semana em que estive na homenagem a um amigo, e encontrei os que foram dele gostados
(e o que me dói escrever no pretérito quando falo de gente!)
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
dia onze de janeiro de dois mil e onze
hoje é simplesmente terça feira
o dia décimo primeiro de outro janeiro
hoje é
por acaso dos astros
por acaso do calendário
por destino que me tenha sido dadoo dia do meu aniversário
doze meses somados
hoje
terça feira
janeiro de dois mil e onze
Antonio López García Carmencita Playing, 1960
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dia de anos
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
retorno
A rua tem uma paliçada, lá ao fundo.
Olho o relógio: seis da tarde. Está a ficar escuro. Nem passa um carro. Nem surge gente. Nem gato ou cão vadio.
Olho o relógio: seis da tarde. Está a ficar escuro. Nem passa um carro. Nem surge gente. Nem gato ou cão vadio.
Vou descendo.
A paliçada é, afinal, um taipal de obra. Tem alguma coisa escrita. Um nome. Não. Apenas um número e a palavra vendo em caracteres enormes.
Eu moro na casa seguinte.
Nem escrevi carta a dizer retorno. Nem disse um dia apareço.
A porta foi pintada de encarnado.
Está só no trinco. Empurro.
Cá dentro faz fresco.
O cão de loiça está no mesmo sítio. Intacto. .
Oiço a voz de Bia:
- Ele nunca mais voltará, garanto-te - e pela casa ecoa o rir de duas vozes.
Eu moro na casa seguinte.
Nem escrevi carta a dizer retorno. Nem disse um dia apareço.
A porta foi pintada de encarnado.
Está só no trinco. Empurro.
Cá dentro faz fresco.
O cão de loiça está no mesmo sítio. Intacto. .
Oiço a voz de Bia:
- Ele nunca mais voltará, garanto-te - e pela casa ecoa o rir de duas vozes.
Eu, a vir de tão longe, saio sem fazer barulho.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
meia noite
Tá louca, menina. Descontraia que isso dos relógios parados é coisa contornável. Notícia de brincadeira, essa de terem parado todos os relógios. Também só mesmo a menina para acreditar em tudo! Mas se fosse assim nem seria drama. tempo de relógio é coisa desprecisa. Talvez um calendário para ir dando uma visão sobre as colheitas, o começo da estação das chuvas, a Primavera e o Outono. E ainda assim a natureza se encarrega.
Não sabe onde está a meia noite?! Ora! ora! Chora de não saber quando gritar VIVA?! Tolice, minha amiga! Deixe que logo aparece o sol a dizer-lhe que é um novo dia. Desligue esse telemóvel a falar com um e outro sobre uma notícia tão tola e cuide de ver o tempo a escorrer no sol que nasce. Depois, ele há-de esconder-se e saberá que fluiu um dia.
Que canseira essa de querer dividir a vida em antes e depois!
Coisa feia essa de ser dependente do tempo marcado no relógio! Param os ponteiros e esta gente acha que não tem mais tempo para fazer vida!
Chiça! Olha-os espalhados por aí esperando.
Gizela, acorde desse torpor, menina!
Sabe que tive filho?! Uma menina nascida de nove luas inteirinhas e nem precisei ver no calendário.
Que o tempo não parou coisa nenhuma! Tá rodando a lua em nosso torno e o nosso planeta em volta da estrela.
Levante-se daí Gizela e venha sentir o ritmo do seu corpo.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
BOAS FESTAS!!
para mim não há Natal sem Anjos
figura que me encanta
Anjo
toca música que enternece
e eu penso que os Anjos adormenceram o Menino
e sossego
Ele que nasceu sem cama
nem roupa, nem ar condicionado
tinha um bando de Anjos
o Menino Deus assim chamado
pena que ainda hoje nasçam meninos sem terem nem um simples anjinho
este Natal vamos pedir ao Deus que zela pelo batalhão que anda lá pelo céu
Ele que envie bastantes a cuidarem dos meninos
que não nasça um só sem ter pela vida fora
o bafo quente e o cantar mavioso do seu Anjo
Song of the Angels de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)
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anjos
domingo, 19 de dezembro de 2010
crime na estação de combóios
Tu sabes que eu sei tudo, Maria Ema e por isso permaneces aí sentada e nem uma lágrima: nada mais que esses olhos carregados de nada.
Tu sabes que está acontecendo, ali, debaixo dos meus olhos, não sabes, Maria Ema?
E nem um grito, nem um desassossego: esperas como se esperasses o combóio. E tu sabes que nem é isso que esperas: sabemos os dois.
E nem um grito, nem um desassossego: esperas como se esperasses o combóio. E tu sabes que nem é isso que esperas: sabemos os dois.
Posso dizer-te: consumou-se agora.
E nem assim desvias o olhar desse infinito. E nem é triste o teu olhar distante, mas apenas de alívio, que tu sabes que foi cruel, sim, como pediste.
E nem assim desvias o olhar desse infinito. E nem é triste o teu olhar distante, mas apenas de alívio, que tu sabes que foi cruel, sim, como pediste.
domingo, 12 de dezembro de 2010
roda
nem mais que um aperto pelo estomago e as luzes do parque a ficarem longe
as luzes do parque a piscarem cada vez mais lá em baixo
e Maria a querer segurar a mão de Roberto, ter um apoio
ela a degladiar-se com o enjôo da vertigem, aquele horror de querer atirar-se, mais do que ficar ali a digerir o derradeiro bocado de algodão doce
Roberto colocou-lhe o braço sobre os ombros que ela trazia nús - e nem era disso o frio no pescoço e nem era esse frio que ela sentia a percorrer-lhe o corpo ao contacto de pele contra pele
a pele dele que ela sabia que seria nunca mais
Maria numa confusão a subir naquele brinquedo
- vamos? - dissera ele
e Maria nem olhe que enjôo, olhe que tenho medo de estar lá tão no alto
que ela desejava tanto saber como seria estarem os dois ali tão sem apoio, o vento quente a afagar-lhes o rosto e eles apenas: os dois
ela queria saber como seria ficarem assim longe
e agora é só aquele arrepio no corpo
e o braço dele como se fosse corda que a dependurasse no vazio
e Maria vomita
os pedacinhos de algodão doce devem ter-se desfeito sobre as luzes, sobre alguma barraquinha de pinhões
talvez tenha caido um nico mal digerido sobre aquele casal: dois velhos que se beijavam eternecidos no momento em que a roda iniciou o movimento
Maria fecha os olhos e diz apenas:
- Nunca mais, Roberto
e nem o namorado saberia se era do andar na roda se era deles...
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
dia sete
se eu voltasse ao tempo em que te vi menino
mãos brincando coisas sérias: como se fossem
se tornasse a ver-te os olhos inquirindo mundos
e eu sem respostas
se eu te visse trepando abraços como se fossem rochas
tu escalando sentimentos
e eu sem mais que uma cartilha de abecedários e contas
se eu te visse de novo criança
cerregava-te ao colo até me pedires
anda, mãe, vai que eu já sou um homem
mãos brincando coisas sérias: como se fossem
se tornasse a ver-te os olhos inquirindo mundos
e eu sem respostas
se eu te visse trepando abraços como se fossem rochas
tu escalando sentimentos
e eu sem mais que uma cartilha de abecedários e contas
se eu te visse de novo criança
cerregava-te ao colo até me pedires
anda, mãe, vai que eu já sou um homem
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
outros tempos...
estou sentada na beirinha do tamborete com a caneta a borrar-me os dedos
já escrevi três vezes: " se fosse..." e em todas elas deixei a escrita em suspenso
entra pela tarde um ventinho morno e eu tenho o pé direito inchado que me caíu em cima uma trave -os pedreiros deixaram encostada na entrada do quintal, e eu esbarrei com a saia e a barra de madeira caiu-me direitinha no sapato
e dói-me
por isso, ou porque nada mais me ocorre, ou porque o tal ventinho levanta a borda do papel e entorna a tinta quando molho o aparo, ou sei lá eu por que razão, tornei a escrever: " se fosse..."
é a quarta vez que o faço
mas agora prossigo
se fosse antigamente...
ai se fosse quando havia canetas e computadores...
se fosse nesse tempo a que chamam futuro, eu podia até estar a ver o meu Zé Augusto que foi assentar praça como se eu estivesse lá com ele e ele aqui comigo no banco do jardim
que ele nem se lembra disso, mas eu lembro-me bem que havia os PC's que se podiam levar de um lado para o outro
mas tudo muda num instamnte e agora nem falar pelo tememóvel posso - se nem telefone com fio, já existe!
a vida tem o seu fluxo e a gente contra isso nada pode...
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
a favor ou contra
O casamento homosexual
desta vez não perco, não! aguardem que eu vou aparecer por lá, sim!
e pronto já lá está a minha lauda sobre o assunto, que é coisa tão simples não fossem os tabus, os preconceitos...a não aceitação do diferente que gera ainda mais diferente
e pronto já lá está a minha lauda sobre o assunto, que é coisa tão simples não fossem os tabus, os preconceitos...a não aceitação do diferente que gera ainda mais diferente
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
muito mais do que um selinho
um gesto lindo da Mateso que eu muito agradeço
e com o meu muito obrigada pelos bons momentos, o selo vai para:
Eduardo do Varal de ideias
João do Grifo planante
Mena do de Olhar
Isabel do Webclube
Jorge do Expresso da linha
Mac do Resto da couve
Luis do blorganaizer
Marques Correia do pensar não dói aiai
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selo
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
coisas de família
O António era um moço redondo.
Não que ele fosse gordo e baixote, que o António era possuidor de um bom metro e setenta e dois sem contar com a espessura das solas: botas cardadas e com brochas.
O António era redondo no modo.
Filho do senhor capitão, António cresceu a sentir que ser chamado para o lanche pelo vozeirão da criada lhe dava um estatuto em tudo diverso dos outros rapazes – os que lhe gritavam mariconço e faziam António desbeiçar-se em choros.
Quando foi às sortes, António ficou apurado, que nem aquele defeito de encanar ambos os olhos em cima do nariz o livrou da categoria de escriturário.
Dona Amélinha rogou que o marido interferisse para que o seu menino não fosse em comissão – não via o pai que melhor ficaria o António a gerir os destinos da quintinha do que a bater com os costados nas colónias?!
Não, o capitão não via.
E Dona Amélinha, de lenço torcido na mão esquerda. E o capitão a chupar o cachimbo.
Pimenta de Almeida. Anatólio Pimenta de Almeida, capitão na reserva. Afastado das paradas dos quartéis por conta de uns assuntos. Segredos mal mantidos. Coisas de secretarias e dinheiros. Estivera mesmo preso por dois meses.
Dono de uns bocados de terra e da quintarola arrimada às ameias da cidade. Heranças. O marido de Dona Amélinha recusava cunhas.
E António, muito loiro e leitoso de pele, embarcou no Timor num dia vinte oito de Janeiro.
Nem Angola, nem Guiné, nem Moçambique. Terá sido o mais que o pai de António terá intercedido.
Corria o ano de sessenta e oito.
Nos ombros, a reluzirem ouro, as divisas de furriel miliciano.
Não que ele fosse gordo e baixote, que o António era possuidor de um bom metro e setenta e dois sem contar com a espessura das solas: botas cardadas e com brochas.
O António era redondo no modo.
Filho do senhor capitão, António cresceu a sentir que ser chamado para o lanche pelo vozeirão da criada lhe dava um estatuto em tudo diverso dos outros rapazes – os que lhe gritavam mariconço e faziam António desbeiçar-se em choros.
Quando foi às sortes, António ficou apurado, que nem aquele defeito de encanar ambos os olhos em cima do nariz o livrou da categoria de escriturário.
Dona Amélinha rogou que o marido interferisse para que o seu menino não fosse em comissão – não via o pai que melhor ficaria o António a gerir os destinos da quintinha do que a bater com os costados nas colónias?!
Não, o capitão não via.
E Dona Amélinha, de lenço torcido na mão esquerda. E o capitão a chupar o cachimbo.
Pimenta de Almeida. Anatólio Pimenta de Almeida, capitão na reserva. Afastado das paradas dos quartéis por conta de uns assuntos. Segredos mal mantidos. Coisas de secretarias e dinheiros. Estivera mesmo preso por dois meses.
Dono de uns bocados de terra e da quintarola arrimada às ameias da cidade. Heranças. O marido de Dona Amélinha recusava cunhas.
E António, muito loiro e leitoso de pele, embarcou no Timor num dia vinte oito de Janeiro.
Nem Angola, nem Guiné, nem Moçambique. Terá sido o mais que o pai de António terá intercedido.
Corria o ano de sessenta e oito.
Nos ombros, a reluzirem ouro, as divisas de furriel miliciano.
sábado, 30 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
bastilhas...
Este texto é a parte final de uma crónica que escrevi há uns tempos.
Pareceu-me tão actual, tão a explicar desassossegos que andam por aí no ar, que o transcrevo.
O suor dos corpos tem um cheiro pestilento e fervilha de ódios à luz encarniçada dos archotes. Num canto, a mulher que vi esta tarde na rua. Ou quiçá a confundo: o mesmo rosto enegrecido, os mesmos ossos assomando sob a pele, a mesma criança mal enrolada num xaile de cor incerta, sujo como ela. A mesma mulher ou outra, a personificação do povo indigente que acompanhei uns instantes. Eu a tentar desviar-me do cortejo para uma rua transversal e a mulher no ritmo, que era um passo estugado, marcado pelo avançar da turba. Uma mulher com um rosto que emanava uma força estranha. Não era ódio. Era determinação em adquirir a todo o custo o alimento para os seios que ela tinha secos, que já nem chorar lhe sabia o filho. Uma mulher lutando num desespero, os olhos de um azul límpido e os lábios ressequidos a gritarem: queremos a Bastilha. E que saberia ela do que assim dizia, indago-me e sinto-me ingrato: que o homem suporta quase tudo, mas a fome, o corpo a desfazer-se, fraco, os olhos sobrando dos ossos descarnados: ver isso nos filhos, não há homem que suporte sem que se solte a besta, a essência animal da sobrevivência.
Terá sido disso que se ergueu esta tarde o povo a derrubar o mito indestrutível..."
Terá sido disso que se ergueu esta tarde o povo a derrubar o mito indestrutível..."
o mito indestrutível da Bastilha, referia o texto
mas poderá ser outro e outro da nossa actualidade
um dia destes...
ou andarei eu a fazer leituras destempadas dos acontecimentos?
mas poderá ser outro e outro da nossa actualidade
um dia destes...
ou andarei eu a fazer leituras destempadas dos acontecimentos?
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Bastilha
domingo, 3 de outubro de 2010
eles
incomoda-me
deixa-me desconfortável
inconstante, insegura, vulnerável
e no entanto, eu acompanho, mas distante qb, assim como se estivesse com um medo de que seja doença que se pegue
ou na certeza de que, mal me volte, este é, para pior, o meu retrato
ou na certeza de que, mal me volte, este é, para pior, o meu retrato
e faço por não pensar no caso, mas crio um bloqueio que me impede de ser verdadeira no que faço: eu mimo, mas desejava que se afastasse de mim aquele quadro
e nem é daquele que ali vejo, mas das pregas sobre os ossos, da boca arredondada num estreito onde não passa alimento que esvazie colher ou garfo
e nem é daquele que ali vejo, mas das pregas sobre os ossos, da boca arredondada num estreito onde não passa alimento que esvazie colher ou garfo
ficam-me os olhos
e esses, se me olham, deixam-me uma dor e uma raiva - vida atravancada, presa
e eu a gritar aos sete ventos, doida, desnecessária, ingrata- seja! - para quê tanta coisa, para quê os deuses e as morais, dinheiros, zangas...
e eu a gritar aos sete ventos, doida, desnecessária, ingrata- seja! - para quê tanta coisa, para quê os deuses e as morais, dinheiros, zangas...
para quê, dizem-me?
que plano está inscrito para que seja apenas isto ou morrer antes, de doença ou de desastre?
terei pecado por não ter defronte a mim o firmamento de um paraíso que acolha todos na eternidade
serei tão pecadora que de castigo me tenham tirado a visão do sentido e eu seja uma alma penando sem entendimento do que seja
eu sem esse poder do coração
eu olhando apenas carnes e peles e olhos em vez de olhar almas e espíritos, gente que vai indo na lei da vida que eu, humilde, deveria entender e não entendo
e peço perdão a um deus e outro e outro
e fica-me um silêncio que não sei ouvir
fica-me um enorme vazio
e fica-me um silêncio que não sei ouvir
fica-me um enorme vazio
eu a querer amar, simplesmente isso, e sem saber como
talvez se eu fosse ele...
talvez seja assim tão grave o meu pecado
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
na despedida...
nem contra nem a favor
eu nem peço nem imploro
nem fico sentada vendo
nem escrevo não acabem
nem escrevo não acabem
nem contra nem a favor
eu simplesmente sorrio
deixo o riso a cada um
aos tantos que aqui passaram
e agradeço
obrigada aos que geriram
e engendraram
e aos demais que abrilhantaram
são assim os festejos
os encontros vão e vêm
os encontros vão e vêm
deixam saudades
deixam laços
três ou quatro
tu apenas
que fortuna!
nem a favor nem contra
a partir para uma outra
venha ela!
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blogincana
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
paroles, paroles
O mundo não é este dez elevado a quase nada do universo
O mundo é impressionante de largo – dez elevado a tanto que ficariam zeros a pingar para fora do corpo da estrada de são tiago, ou quiçá mais longe
porque é o que acontece que faz que o mundo seja mundo e não apenas um outro planeta a girar em torno, a fazer dias e meses e tempos diminutos, que ainda assim nem tem interesse que os tempos sejam longos ou escassos, se não se dá algo neles
O mundo é,
em menos de um segundo, num dez elevado a número negativo, em muito menos do que o tempo que demora uma letra destas a ficar com aspecto de ser lida,
um retalhamento de tanto acontecido
E o que eu me espanto desse tanto que acontece mesmo quando tomo apenas um resumo
um salpico!
E nem há assim tantos avanços na qualidade do que vai acontecendo
parece que existe dificuldade em mudar apesar do tanto que se dá, diverso, num menos que trimilionésimo do segundo
Seria de esperar que os acontecidos se moldassem uns aos outros
que morressem muitos por serem tantos em tão escasso tempo
E no entanto o que noto é que aos acontecidos de antes se adicionam outros mais recentes e se repetem até os que pareciam ter desexistido
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mudança
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
eles
Terão finalmente pensado neles.
Terão sabido de cada um o nome e ouvido as razões.
Terão decidido de lugar para banho e um tecto debaixo de onde e o mais que lhes é devido pela simples condição de serem filhos de pai e mãe, mesmo que desconhecidos ou esquecidos. O que lhes é devido por terem um nome, ainda que sem apelido, ainda que apenas com a alcunha que lhe foram dando. Apenas pelo direito que lhes assiste a serem gente.
Bela acção!
Que os nossos edis, com este jeito de pensarem as gentes da cidade, de caminho embelezaram o espaço da estação também ela um tantinho abandonada à sua sorte.
mas diz que eles andam como que varridos pelo areal...
não acredito que os tenham, tão só, banido do local...
digam que não é verdade
em nome de quê, então?
em nome de quê, então?
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sem abrigo; estação de lagos
sábado, 28 de agosto de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
carta
Minha querida
Escrevo-te e nem sei se mando. Nem sei se ainda saberei dizer.
É muita solidão, Inês.
É muita palavra afogada na garganta, muito riso sem estalar.
O sol nasce. O sol põe-se. De um momento ao outro, nem um guincho.
O cão morreu no domingo. Morreu de não ouvir um outro.
Desde que chegamos, aprendeu: ouvia-se reflectido no mistério do eco. Mas era pouco e ontem estava morto.
É muito silêncio. Nem o vento ruge, nem se ouve o balançar de folhas. Nem um pássaro, um melro, uma rola. Nada mais que eu respirando e até me assusto quando espirro ou quando tusso. Um dia destes dei um traque e fiquei em sobressalto.
É muita solidão, Inês. Muito sossego.
Disse-te na carta que enviei na sexta-feira, que acabou a manteiga e estragou-se o último bocado de carne que enviaste? criou uma camada fina de pó branco, esverdeou de lado, e cheirava. Um cheiro a cadáveres.
O cão, enterrei-o ao lado do pedregulho: a pedra lá ao fundo. A única elevação. A que falava com ele.
Estava só pele.
Fiz um buraco fundo, demasiado largo para tão pouco corpo.
Agora o silêncio pesa-me ainda mais: entra pela roupa mais fundo do que a água da chuvada que caiu ontem à tarde.
Terei que deixar-te que está a bruxulear a luz da vela e tenho que poupar o couto.
Um beijo louco como este lugar.
Fernando
Escrevo-te e nem sei se mando. Nem sei se ainda saberei dizer.
É muita solidão, Inês.
É muita palavra afogada na garganta, muito riso sem estalar.
O sol nasce. O sol põe-se. De um momento ao outro, nem um guincho.
O cão morreu no domingo. Morreu de não ouvir um outro.
Desde que chegamos, aprendeu: ouvia-se reflectido no mistério do eco. Mas era pouco e ontem estava morto.
É muito silêncio. Nem o vento ruge, nem se ouve o balançar de folhas. Nem um pássaro, um melro, uma rola. Nada mais que eu respirando e até me assusto quando espirro ou quando tusso. Um dia destes dei um traque e fiquei em sobressalto.
É muita solidão, Inês. Muito sossego.
Disse-te na carta que enviei na sexta-feira, que acabou a manteiga e estragou-se o último bocado de carne que enviaste? criou uma camada fina de pó branco, esverdeou de lado, e cheirava. Um cheiro a cadáveres.
O cão, enterrei-o ao lado do pedregulho: a pedra lá ao fundo. A única elevação. A que falava com ele.
Estava só pele.
Fiz um buraco fundo, demasiado largo para tão pouco corpo.
Agora o silêncio pesa-me ainda mais: entra pela roupa mais fundo do que a água da chuvada que caiu ontem à tarde.
Terei que deixar-te que está a bruxulear a luz da vela e tenho que poupar o couto.
Um beijo louco como este lugar.
Fernando
terça-feira, 17 de agosto de 2010
blogincana de agosto: perdi a hora
perdi a hora
e disso me choro
o que me havia de fazer este tempo de Agosto!
o banho na baía
o peixe na grelha
o ripanço da sesta
e lá se foi o dia quinze!
mas não desisto
inda mais a falar de cidades
eu faço tal qual me tivesse inscrito no
O passatempo da Bloggincana de Agosto é dar-nos três cidades que o/a marcaram. Marcaram por qualquer razão. Podem ser estas ou outras. Não queremos um exercício turístico. Queremos saber da razão telúrica, profunda da sua preferência. As fotos são bem vindas. Tente jogar a foto com esse sentimento que o faz preferir essa cidade.
Uma das cidades que me ficou no coração nem é uma cidade grande como Madrid, ou Londres, ou Estocolmo, Antuérpia, Nova York ou Barcelona.
E nem é Lagos nem Lisboa nem Coimbra ou Miranda do Douro ou o Porto, que essas estão fora desta ordem, essas são as minhas cidades e nem há que dizer mais nada...
Mauléon. Ali no Soule.
Mauléon-Licharre!
Mauléon-Licharre!
Surpresos?
pois calha que nem sempre a gente tem no coração Tóquio ou Singapura!Pequenina e acolhedora nas gentes e no rio e nos arredores.
E na produção de sapatilhas... e mais não digo.
Que saudade dos dias felizes!
Uma cidade onde o ar não peganhenta, mesmo se cai uma morrinha, e onde o rapaz do turismo lia Pessoa...
E na produção de sapatilhas... e mais não digo.
Que saudade dos dias felizes!
Uma cidade onde o ar não peganhenta, mesmo se cai uma morrinha, e onde o rapaz do turismo lia Pessoa...
E mais uma vez, uma outra cidade que me está no coração é uma cidade pequenina. Esta perdida, não no meio da montanha, mas no Oceano, na Ilha Terceira. A cidade de Praia da Vitória!
Um encanto que não esqueço. A água e a praia de areia negra mal caiam uns bagos de chuva, e as lapas comidas na praia...
Hoje não tenho acesso ou colocaria fotos minhas, assim, ficam mostras retiradas da net, àparte a de Paris que está, como outras por aqui
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blogincana
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
encontro memorável, sim senhora!
transpirava a terra e o mar resfolegando na noite de sueste (ou seja de levante)
e a gente bebendo falava dos amores
de sermos ali juntos
de sermos ali juntos
de tanto e de tão pouco
olhos sobretudo
os olhos da gente acariciando de uns aos outros
que bom (re)conhecer-te , Claire - onde? de onde?
que bom (re)conhecer-te , Claire - onde? de onde?
talvez fosse só o levante a trazer sonhos e tu a insisitir- conheço-te, e ao teu marido...de onde?
e foi o riso e o espanto e os comes e os bebes e os pois compreendes que sempre se dizem entre dois carapaus e umas cavalas: sabes? estes são sardinhas, Jorge, come!
e foi o riso e o espanto e os comes e os bebes e os pois compreendes que sempre se dizem entre dois carapaus e umas cavalas: sabes? estes são sardinhas, Jorge, come!
Fernanda, que tanto derretemos! e como nem sabíamos comum esse prazer de ter um bichinho a passear no seio: ai como é suave o bafo de um gatinho rameloso!
(e fotos desses momentos de carinho, Jorge?!)
decorria um jogo de futebol e o nosso poeta, Calado só de nome, nem comeu no horário a ver um e mais outro golo
foi assim Madalena, não foi?! nem sabes o que perdeste, tu e o teu marido e os que ficaram em terra no amanhã, dia seguinte, dia oito!
o filme estava um espanto, dizem todos e eu acrescento: estava demais a apresentação com os Ephedra em fundo, sim senhora, Zé Francisco!
a Mena sempre atenta ao pormenor, que nem só o berbigão delicioso, em molho, ela trouxe! que em cada acontecer sentia-se o coração dela a bater - sentiram todos, tenho isso por certo! um brinquinho, diz cada um de nós a dizer obrigada à Mena e também ao Jorge
é que este encontro teve um qualquer quê de diferente
(para melhor, claro!)
e ainda nem percebi se foi do livro do João Menèes
se foi dos lápis que ele nos ofereceu (Madalena onde meteste o meu que não encontro e choro de ranho e tudo?)
(para melhor, claro!)
e ainda nem percebi se foi do livro do João Menèes
se foi dos lápis que ele nos ofereceu (Madalena onde meteste o meu que não encontro e choro de ranho e tudo?)
se foi de estar levante...
ou seria do prémio que o João ganhou num concurso ?!
ou seria do champanhe com que saudamos o feito ?!
ou seria do prémio que o João ganhou num concurso ?!
ou seria do champanhe com que saudamos o feito ?!
ou seria da gente?!!
ah!
ah!
foi por ter sido um encontro blogueiro abençoado pelo Eduardo tão distante e no entanto presente nem que fosse por ter enviado aqueles sete quilos de prémio - que gesto lindo! e o discurso lido pelo Jorge!
terão quase chorado...
choro eu sempre e sobretudo a andar de barco com levante!
mas isso foi na manhã seginte, e só a Bal, aí num comentário, me compreendeu e eu que nem percebi que a moça precisava, na aflição das ondas, da mão de um marido nem que fosse emprestado (Fernanda, tás vendo os egoismos da gente?!)
é que o mar estava uma cama de hotel sem hóspedes, mas era antes de sair a barra - mar chão diria alguém que não soubesse que ainda ia a navegar na ribeira de Bensafrim...
que em ela acabando... em chegando o mar de levante... dava para fazer fita como fez a Fernanda (foi fita, sim senhora!!! !) a enfiar a cabeça no colo do Jorge e este coitado a segurar o estômago e eu ali no banco seguinte a fazer-me forte: ai José Domingos que nem és blogueiro, ainda bem que vieste senão a quem me agarraria eu?!
lá na proa, a Mena e o Menères a ver as vagas e a fazerem montes de fotografias, nem deram pela angustia que ia pela ré onde o senhor José guiava o barco a rasar as cristas das ondas e quase a tocar nas rochas e nas entradas das grutas (tão lindas, não são? as rochas da nossa baía?!)
e o Fernando e a sua esposa Teresa que são uma simpatia foi uma pena que, sendo ele marinheiro (percebi assim ou ouvi mal cá do fundo da mesa no dia sete?!) não tivessem experimentado o nossso mar encapelado, que ele daria um bom apoio a quem queria que o barco voltasse para Lagos mal saiu a barra (quem se terá atrevido, sequer em pensamento, a estragar um passeio memorável?!)
e foi assim nos dias sete e oito, mais coisa menos coisa, que eu não tenho o poder de mostrar o que nos vai na alma e, se tivesse, teria pejo que neste encontro isso seria coisa demasiada
assim, foi o que se me aprouve dizer fora um pormenor ou outro, como seria a doce Claire a ver, no lixo que boiava na baia - infelizmente há disto - mensagens que os deuses enviavam para ela em garrafas de litro...
o almoço não terá sido o ponto alto se bem que sendo na casa do Baco
não foi decerto, que cada momento do encontro foi para cada um o Everest (exagero?!)
mas que o almoço foi um bocado bem passado, isso foi! e sobretudo bem regado com sangrias que andavam a passo ... não é assim, Jorge?!
a todos os que disse, e mais à Zamira a quem envio um beijinho, o meu muito obrigada!
e especiais beijos e enormes abraços à Olívia!!
grande compincha essa menina que tem uns maravilhosos doze anos e meio no dia oito deste Agosto!
e do passeio pela cidade não sei nada, que fui do almoço direitinha para casa...mas espero que me contem por aí em fotos...
a quem quiser saber e ver mais, vá ver espreitar na Claire que terá indicações
e especiais beijos e enormes abraços à Olívia!!
grande compincha essa menina que tem uns maravilhosos doze anos e meio no dia oito deste Agosto!
e do passeio pela cidade não sei nada, que fui do almoço direitinha para casa...mas espero que me contem por aí em fotos...
a quem quiser saber e ver mais, vá ver espreitar na Claire que terá indicações
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encontro de blogueiros
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Obrigada
Antes das letras
Antes das palavras
Antes de frases e parágrafos
Ela é a sábia
Ela que te diz dos deuses e das flores
ela que te fala de águas
dos rios e dos choros
dos oceanos e das chuvas
Águas que rebentam para nasceres
Planetário este desejo de dizer-nos.
Singelo o gesto da dádiva
Nas mãos em que recebo
no coraçao, nos olhos,
silencioso, sincero
Muito obrigada
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encontro em Lagos
sábado, 31 de julho de 2010
o pato
No outro dia...
Eu a alinhar palavras para contar o que se deu eram quatro em ponto
Mas isso era se eu fosse dona do poder de contar, de escrever qualquer coisa como: hoje aconteceu, eram quatro horas e o ceu estava com uns penachos de nuvens
E continuar com verbos, pontos de exclamação, vírgulas e muitos pois, mas, senão, entretanto, depois de...
Mas eu perdi a sabedoria de escrever o que aconteceu : como estava a temperatura, se chovia ou estava o tempo a anunciar trovoada, quam entrou e quem saiu e a razão
Perdi esse saber dizer, escrever apenas, sem outros ritmos que não os do decorrer da trama enleada no tempo
Se nem a consolação dos olhos verdes de uma menina e nem palavras alinhadas entre dois pontos parágrafo a ilustrar as falas
Que se há um saco e uma gravata e um pato, as palavras diriam que o pato estava dentro do saco e que o homem que carregava tinha uma gravata
Coisas simples a que acresceria eu dizer que o pato fora morto pelo caçador nessa tarde e dizer que era Julho ou Dezembro ou Março
Nada semelhando a escrever que o pato regurgitava gravatas embrulhado num saco cheio de cartas
Eu que perdi a condição de saber dizer o que se passou ainda há bocado, ou ontem, ou no ano passado, e precisar a hora, e descrever a sala e a rua e o tempo que estava, e o quarto ou que fosse igreja, e dizer que a dona do retrato era uma menina cujo pai fora morto e descrever tudo
Contar simplesmente: ontem bateram à minha porta, ponto, letra grande: eram duas mulheres
E por aí adiante
Mas eu desaprendi o gozo de dizer pela ordem: as palavras saem-me sem contexto, parece até que se escrevem por elas, sem meu consentimento: imagens, divagações avulso
Que o pato podia apertar a mão do homem, e a gravata selaria o acto a fazer de estola ou de uma fita de veludo a enrolar os punhos solidários, com o saco a apadrinhar o acto
Coisinhas sem qualquer motivo e eu a querer dizer que bateram na porta, que se sentaram sem que eu dissesse, que tinham carnes a sobrarem dos decotes: redondas
E aquele buço
Eu a tentar escrever que lhes ofereci um chá, uma cerveja, ao menos um copo de água e que elas negaram: obrigada, disse cada uma delas. E sorriram
Mas o que me ocorre são menstruos ou no que teriam elas feito nas intimidades
Mas o que me ocorre são menstruos ou no que teriam elas feito nas intimidades
É que o pato a andar na sala de cá para lá, não me permite
Ou será de eu saber que o saco é aquele onde ficou a carta que não enviei
Certo é que não escrevo que a porta bateu pesada sobre a sala, vazia com a saída delas, e que eu chorava a ver a sua partida
Não sei contar – perdi ou nunca tive essa capacidade
Ou é o ruido do grasnar da ave que não me deixa alinhar as palavras que dissessem o que se passou naquela tarde: quatro em ponto, o ceu com uns penachos de nuvens e elas a entrarem
Nem sei se tente de novo
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palavras
segunda-feira, 19 de julho de 2010
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