vai tudo acontecendo como tem que acontecer
um dia e outro escritos pelo destino
folhas dele caindo
e a gente
espantando-se que tenha sido assim
a gente boquiaberta
pesadelo ou quase
a vida a mudar o rumo
apenas isso
doença e morte
um suspiro profundo
os olhos mais chorosos hoje do que ontem de tarde
a vida a levar o seu rumo
nada de mais
segunda-feira, 16 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
não te disse
estou aqui sem peça de roupa que
agasalhe
a tristeza desabrochou-me
erecta
firme
desejosa de deitar ramos
aspergir-se de lágrimas
reflorir em choros
no interior do que nem sei onde
eu sou um novelinho cor de palha
um rolinho de penas que os pardais
deixaram
um novelo das cartas
que nem nos escrevemos
estou aqui sem fato
não tenho nada que me identifique
espraiada como a areia
tomada
pela maré enchente
nada na pele me assinala
nada no meu rosto traduz
e eu morri um tanto
morri um pedaço enorme
onde tu existias
lá
onde te dizia até um dia destes
ficou vazio
e eu nunca te disse
nem uma palavra
e hoje
fico apenas muito triste
muita coisa ainda para dizer-se
muita mão ainda para apertar-se
e aquele etéreo
(tão etéreo que somos)
esvai-se no passado que fomos
sábado, 31 de março de 2012
andorinha
– Não
tragas vaidades que te ajoujem, grita Ermelinda ainda a pensar na andorinha
com papo encarnado que ela juraria que tinha visto a saltitar no gargalo do poço.
E
ninguém lhe responde, e ninguém a ouve, ou estará a outra escondida por detrás da janela.
– Não
tragas vaidades, grita-lhe.
Era,
sim, uma andorinha.
E no
entanto tinha aquele risco vermelho sob o papo: uma andorinha estranha como
estava a ser aquela primavera, pensou Ermelinda a dobrar duas peças de roupa
que tinha colocado no gargalo do poço. Ermelinda gritando desaforos
para a janela nem sequer aberta, e sem uma certeza de que a outra a
ouvisse.
– Vem antes
nua. Vem tal e qual te deitas com os homens.
A
andorinha teria sido ferida em farpa de vedação ou seria uma espécie rara que
ainda assim viera com as outras: as andorinhas voando pelos céus a trespassarem
continentes, e esta a voar distante do bando uns quantos metros, apenas porque
trazia no papo aquele risco da cor do sangue.
– Cabra,
gritava Ermelinda ao ar da tarde, minha grande cabra, e acomodava a
roupa seca na dobra do braço.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Maria(s)
Que era uma menina,
disse-o a Senhora Benvinda num tom de mágoa:
– Olhe, é uma menina! –
e a mulher, a cortar o cordão, quereria avisar da desgraça que sempre se
iniciava no nascer de uma filha.
Maria Vasilima.
O pai insisitiu que ela fosse
baptizada desse modo desusado.
Um homem de trabalho, Ernesto
Demóstenes deixou-lhe esse nome estranho como única herança, pois na semana mesma
de ela ter nascido, terá guinado em demasia o eixo da carroça, e foi encontrado
falecido debaixo dos legumes e da fruta com que ganhava a vida.
Até ter a idade de
levantar-se nas perninhas, Maria Vasilima era apenas uma menina muito morena e muito
rechonchuda. Mas a dar os primeiros passinhos, logo se mostrou de pernas tortas
e bambas num corpinho sem graça. Falaria tarde e com defeito no modo de dizer
os ésses: cuspia as letras na língua carregada de saliva, a espreitar disforme
entre os lábios. E diria mal a maioria das palavras, ou porque as engolia, guturais
e roucas, ou porque lhes trocava as consoantes. E, sobretudo, porque nem
percebia como havia de empregá-las.
– A Maria é parva! –
diria dela o irmão Fernando, filho do Manel Serúdio, que a mãe tinha sido junta
com esse homem que morreu tuberculoso, e tinha tido aquele filho, muito antes
de Maria Vasilima.
E haviam de dizer que ela
era poucochinha. Ou diriam: aquela moça não tem tino. E haviam de apelidá-la de
demente, e ela rindo e babando-se, a segurar uns fios de lã com que gostava de
enfeitar-se depois de os aldrabar com as agulhas.
– Estou a fazer malha
como as senhoras! – entaramelava a rir um riso de menina tola.
E na idade de ir a uma
escola, nunca a aceitariam:
– A menina não tem
qualidades – diria a professora.
Maria Vasilima a quem a
mãe batia por tudo e por nada, era também sovada pelo irmão.
– Maria, vai buscar
vinho! – gritavam-lhe.
E ela demorava-se.
Ficava pelas tabernas. Os homens ofereciam-lhe bebida e rebuçados.
– Queres chupar Vasilima?!
– diziam-lhe. E riam-se, alarves.
Ela que já adulta seria
sempre uma criança, não entendia. Se nem tinha entendido quando o irmão se
escarranchou sobre ela! Ainda sem a idade
de ter sido senhora, não gritou a dor que sentia, que a não deixavam as manápulas
dele a taparem-lhe a boca. E se não
morreu dessa vez a desfazer-se em sangue e lágrimas, também não morreria quando
o velho Pascoal a recostou nas redes que remendava às tardes! A ela pareceu-lhe
que o homem lhe ía contar um conto, e Maria Vasilima tinha esse gosto de ouvir contos...
mas o velho nem disse uma palavra, e tratou-a como ela via os cães. E ainda lhe
descoseu a saia, o que lhe valeu uma sova com o cajado como a mãe fazia quando
o irmão vinha bêbado ou não lhe entregava a féria. A mãe guerreava muito.
– Andas por aí a beber e
a dar-te aos homens! és a minha vergonha!
E os homens a
oferecer-lhe:
– Queres um rebuçado Vasilima?!
conto apresentado no âmbito dos contos de Barão
segunda-feira, 12 de março de 2012
enleio meu
Um dia assim na tua vida,
e eu sem mais para deixar,
nada mais, escrito ou dito,
nenhuma palavra, velha ou nova,
que traduza.
Sempre que é dia doze do mês terceiro
fica-me este enleio
eu sem saber o que deseje
que não seja muito mais,
que não seja dádiva dos céus,
o firmamente inteiro
a ti que me nasceste
e serás sempre o meu menino
sexta-feira, 9 de março de 2012
o meu preito
tinha umas palavras escritas
modifiquei-as o quanto necessário
e deixo-as aqui em memória
que ontem uma amiga de amiga ficou viúva
e mais umas tantas partiram desde que escrevi as tais palavras
Elas vão ao mercado, usam trança se o cabelos lhes dá, ou peruca
se lhes for necessário, e cada uma delas pinta a vida com as cores das tintas,
ou com sorrisos, ou usa essa cor em vestidos, numas mais soltos do que em
outras, e lêem livros nas esplanadas onde conversam ou se recolhem.
E gostam de passear sozinhas, tanto como de ficar conversando pela noite dentro com uma amiga ou num bar em volta de uns copos.
Não deram nas vistas senão o necessário para que se sentissem vivas: intervenientes o bastante porque cada umas delas nem podia fechar os olhos, que o coração lhes falava mais alto.
Mulheres sem mais de especial que terem sido isso mesmo a cem por cento.
E se hoje assim as falo, é apenas porque me faz espécie que não sejam lembradas. Nem uma palavra que dissesse: recolheu-se à morada de Deus.
Por mim, soltaria uma pomba branca, ou que fosse uma de outra cor, no propósito de lembrar que morreu, discreta e sofrida…e viria o nome dela num papelinho preso numa pata da avezinha.
E gostam de passear sozinhas, tanto como de ficar conversando pela noite dentro com uma amiga ou num bar em volta de uns copos.
Não deram nas vistas senão o necessário para que se sentissem vivas: intervenientes o bastante porque cada umas delas nem podia fechar os olhos, que o coração lhes falava mais alto.
Mulheres sem mais de especial que terem sido isso mesmo a cem por cento.
E se hoje assim as falo, é apenas porque me faz espécie que não sejam lembradas. Nem uma palavra que dissesse: recolheu-se à morada de Deus.
Por mim, soltaria uma pomba branca, ou que fosse uma de outra cor, no propósito de lembrar que morreu, discreta e sofrida…e viria o nome dela num papelinho preso numa pata da avezinha.
Melhor ainda, que se fizesse dito, como era antigamente, uma arruaça. Que
alguém gritasse em tom de oração: muito obrigada minha amiga! E dizendo-lhe o
nome todos rezariam por mais uma mulher que partia: uma mulher que ao sábado
iria ao mercado e que, se tocava piano ou fazia versos, ou desenhos, era no
recolhimento da sua intimidade.
Eu vejo-as partirem, discretas, cheias de vagares nos preparos da viagem,
e fico-me pensando, se nós, os que com ela convivemos e fomos bafejados pela
sorte de lhes conhecer os dotes, não devemos fazer-lhes homenagem, que mais não
seja conversando delas.
quinta-feira, 8 de março de 2012
oito de março
por elas e pelas filhas que terão
e pelos machos que com elas crescem
e pelos que são amores das mãe delas...
pelas meninas que somos
mulheres com éme grande,
é que não esquecemos
terça-feira, 6 de março de 2012
link
ora tenho andado a escrever por outros lados e por aqui anda meio desleixado, mas vamos lá mostrar uma ponta do véu agora publicado no NOTÍCIAS DO GIL
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
copy past
deixo
aqui o copy past de um texto
que em tempos publiquei na
SAMIZDAT
ao lê-lo hoje comoveu-me
como se
aquele meu eu fosse outro
Sem ruído, caminho, pé ante pé na bordinha do
meu olho esquerdo
E nem estou chorando, que não é lágrima: aquele verde
é tinta de eu ter estado a enfeitar-me.
E desço, a ver se o contraforte do sapato surte aquele
efeito que vi no cadeirão do sapateiro:
– Pode mostrar-me daqueles costurados?
E o homem deu-me um par: verniz encarnado com
muitos buraquinhos.
Sobram deles o meu dedo mindinho.
Uma gota verde a deslizar como se fosse lágrima e eu a
caminhar no bordo, um pé a seguir ao outro.
– Olha!
Espanto-me e torno:
– Olha como fico bem de saltos altos!
E dizendo isto, distraio-me.
Deslizo pelo rosto e grito:
– Olha como choro!
O contraforte preso entre dois dedinhos, e eu a
descalçar-me para que não magoe o olho por onde caminho, devagarinho, sem outro
destino que não seja, entendo, mas sem muita certeza.
Irei apenas na sombra dos meus cílios sem que seja
para ir para onde.
No meu olho direito, eu estou dormindo e sonho com
cavalos e um corso de carnaval com dois palhaços.
Que a minha vista deste lado, é dada a visões:
poços e princesas e sapos e muita gordura em poções de bruxedos…
Nunca é assim no olho esquerdo que só adormece quando
cantam os galos.
Eu que me sento na bordinha, com os dois sapatos
dependurados do mindinho.
Se me acontece adormecer um olho sem que o outro
acorde, costumo ter sonhos dos dois olhos.
Quando se dá, fico-me enroscadinha no verde da
minha íris como colcha que me cubra.
É só então que calço o meu par de sapatos e ando de
saltos muito altos, muito encarnados.
Ando, então, por muito lado e não apenas na bordinha
do meu olho enfeitado de verde.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
bucolismo ou nem tanto
Imaginá-las rosadas, as
saias e as botinas e os lenços floridos – mantilhas nos dias de ver a Deus ou
pela festa
Imaginá-las com ama de leite,
e criada de dentro, e criada de fora, e mais a cozinheira, e o rapaz que conduz
a parelha de bestas à frente da charrete, e o moço que ajuda a tratar dos
animais
Imaginá-las com um filho,
dois, três e mais – os filhos nascendo, um a seguir ao outro, e elas sem
receber marido não se vá nisso coalhar o leite – as crenças maiores do que as
verdades!
Imaginá-las criadas de
servir e não senhoras, um quarto no saguão, esconso, húmido, e a cozinheira
velha a fazer orações e a impor normas ainda mais do que as que lhe impõem os
patrões, e nem um segundo que dissesse seu senão, de quinze em quinze dias,
metade de um domingo, e a mãe a pedir que arrecade para os muitos irmãos
Imaginá-las costureiras e preceptoras...
Imaginá-las que posam para
pintores – homens, sempre homens...
Imaginá-las a parir em casa
e nem água corrente, nem água aquecida que não fosse em panelas, e seriam outras
mulheres a enchê-las, a tomar conta que ficasse no ponto o banho, e seria um
banho por semana e o mais como seria lavado, e a que cheirariam estas mulheres
se não fossem as defumações e as ervas, perfumes que entranhassem fedores, e as
criadas delas cheirariam a peixe frito e a mijo a servir à mesa (?)
Imaginá-las doentes e sem
mais remédios que cataplasmas e chás quentes, tisanas, infusões ou aplicação de
ventosas ou sangramentos se o caso fosse mais grave
Imaginá-las de amores pelo cocheiro,
um rapaz bem posto e nem por isso assim tão pobre, e a mãe a casá-las com o
sobrinho do padre, e elas descobrindo na noite, sempre e só na noite, o marido que lhe deram e se esgueira para a função sem arte ou as desvirginda grosseiro e bruto
Imaginá-las censuradas nos
olhares que fosse, dissimuladas, elas, sempre, para poderem acreditar-se
Imaginá-las nos folhos e nas
saias e nos decotes e nas sombrinhas e nos olhares que faziam por detrás dos
leques
Imaginá-las bucólicas ?!
de vez em quando oiço: que bom que era dantes e a ouvir, pasmo, estremeço desse gabar o bucólico da vida das nossas trisavós
e deve ter sido esse incómodo que se soltou nas pontas dos meus dedos: um
niquinho só do que podia dizer a pensar no que seria o viver dessas mulheres
sorte delas que
não sabiam o quanto teriam de abastança e comodidade a suas bisnetas e trinetas que ousariam gabar-lhes vestidos e modos...
talvez desconhecendo tenham encarado a vida que levavam com um sabor realmente bucólico... algumas,
pelo menos...
e o que me
dói e lamento, é haver ainda multidões de mulheres que vivem como as nossas
tetravós,hoje, num mundo de viagens interplanetárias e internet e água quente nas
torneiras (de algumas apenas, é certo)
e nem bucolismo
que lhes valha
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
em dia de aniversário
encostaria a minha cabeça
nos joelhos
não nos de outro, em jeito
de pedir que me fizesse um afago, mas nos meus próprios
acocorar-me-ia num novelo e
ficaria assim o dia inteiro
e ficaria toda a noite
e quando fosse manhã, se
ainda não tivesse enregelado, se ainda não tivesse adormecido todo meu lado
esquerdo, ficaria acocorada a receber uma nesga de sol que entrasse pelo quarto
lã pura que costurei com
pedaços de casacos velhos
usei também quadrados de um
xaile com que tapei barrigas – um xaile que servia de resguardo em tempos de se
ser discreta em tudo o que lembrasse, ainda que remoto, que ali havia sexo
enrolar-me-ia nesse cosido
de recordações como se fosse um esconderijo
como naquelas construções
que fazíamos com mantas e lençóis nos dias de chuva em que não podíamos brincar
na rua nem no quintal, e no sobrado estavam, em visita, os nossos bisavós
ficaria assim enrolada, um
dia a seguir ao outro ou, ao menos, no dia do meu aniversário
e contaria os segundos pelo
bater do sangue, o pulsar ritmado do coração, o respirar que seria manso e sem
ruído
e se dormisse,
e dormiria se ficasse largo
tempo nessa posição quase fetal
se dormisse, sonharia sonhos
em que o mar seria negro a despontar cristas de espuma, e as aves marinhas haviam
de confundir os seus vôos verticais com os cordões da chuva a cair de um céu riscado
por coriscos
um céu repleto de nuvens a tremeluzir
os azuis e lilazes das descargas
sonhos de praias ensolaradas,
seriam sonhos demasiados para esse meu ficar assim acocorada
sonharia, isso sim, com
cidades a arderem na loucura de um concerto de guitarras, ou sob o fogo que se tivesse
gerado pelo derrube de uma carroça
um carro de bois vindo dos
tempos em que o chão que as bestas pisavam era alumiado por candeeiros de fogo colocados
de um e outro lado do cabresto
eu encaracolada com a cabeça
nos joelhos, teria as duas mãos a segurar as pernas, os dedos unidos numa trama
muito justa
e seria quase certo que, num
dado instante de ser eu assim aconchegada em mim mesma,
num momento desde há muito
inscrito no destino – no meu, e no dos deuses que me tinham concebido – os braços
iriam, devagarinho, cair-me, um de cada lado do corpo
por toda a eternidade
ou no escasso instante do
prazer da carne
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
a mestra
Graciete Mendes, modista de senhora e fato de homem.
Está assim escrito na porta, e por baixo, colada na madeira, uma folha arrancada em revista de moda.
No espaço exíguo que habitualmente é sala de provas e de costura, a modista parece que vai, de um momento ao outro, erguer-se do féretro e ditar ordens, indagar do cumprimento de tarefas.
Graciete Mendes morta recente de doença de peito.
Num canto, a máquina de costura, tão sem vida quanto a mestra, está tapada com uma coberta de florinhas cor de rosa.
Em volta da urna, velam-na meia dúzia de mulheres sentadas nas cadeirinhas de tabúa das aprendizes.
Uma delas é Benvinda.
Graciete nunca lhe disse: a partir de hoje és a contramestra. Mas ela era: cortava e até fazia provas. E no entanto, Graciete nunca lhe deu para as mãos um choleio. Nunca lhe pediu que o fizesse numa seda, um brocado, uma fazenda cara. Disse-lhe sempre: tens um cholear incerto, Benvinda. Que Graciete, além do choleado, lhe depreciava quase tudo com excepção de caseados e cerzidos. Nisso, Graciete sempre a reconheceu.
Nisso, e no casamento que Benvinda fizera mal se iniciara como aprendiza. Graciete Mendes, que namorara um e outro, e ficara para tia.
– Foi até amante do Elias da farmácia. Podia ter casado...
Benvinda a falar consigo mesma, se bem que Alzira a escute entre choros e ranhos. A aprendiza vesga que viera há poucos dias. A mãe rogando que lhe aceitassem a filha. Quanto lhe pagaria Graciete?! dois tostões?! Benvinda a olhar a rapariguinha apertada num desengraçado vestidinho de chita.
– Que Deus te receba no seu seio, e te dê o eterno descanso – balbucia Benvinda, e inicia o desfiar de um Padre Nosso.
imagem - Costureiras de Fernando Botero
domingo, 1 de janeiro de 2012
cores do ano
se houvesse pedido que ela fizesse em início de ano,
se ela se deleitasse a invocar os deuses para pedir benesses,
pediria decerto que o ano fosse da cor do mar
e da cor da chuva,
e, se fosse possível,
(e o que não é possível às divindades, perguntaria antes de atrever-se)
ela pediria que o ano fosse da cor dos campos de espiga, por Agosto
e entremeando, ali e aonde,
dispersa,
uma cor de papoilas.
a cor do mar para que fosse azul e também fosse cinza,
percorresse os vários matizes do verde,
e fosse amarelo, e alaranjado,
anil e roxo, no de repente de um ocaso.
a cor da chuva para que fosse límpido deixando ver para lá dele,
atrás e adiante,
e ainda sobrasse.
a cor das espigas para que fosse de oiro
e nem por isso fosse de riquezas mais do que as suficientes
e fosse na alma que as fizesse.
o rubro das papoilas,
essa cor dos deuses e das mulheres,
para que fosse vida,
intenso,
para que acontecesse.
domingo, 25 de dezembro de 2011
uma árvore de natal no quarto
Acordado recente de uma madrugada, três horas mal dormidas e nem copos, nem sequer orgia de comidas. Andara de rua em rua, de boteco em boteco, a dizer apareçam lá em casa que eu tenho presentes, e não tinha, que ele nem sequer armara um presépio.
Ele nem acreditava.
Nem na árvore de natal, que era coisa que nunca se fizera na casa de seus pais, e nem a avó Bia fazia sequer ideia dessas modas do norte da europa em que sobram pinheiros e abetos para cortar rente e colocar na sala com enfeites.
O escuro do quarto desvirtuado pela luz do candeeeiro da avenida onde mora naquele segundo esquerdo de má sorte, duas assoalhadas pagas ainda ao banco, e os restos de tarecos que as mulheres lhe foram deixando.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
sábado, 10 de dezembro de 2011
requiem
Morreu dançaricando em cima do varal do cortinado.
Sei que se espantam, que nem acreditam no que digo, e me chamam louca, mas é a pura verdade.
Ela tinha por costume dependurar-se no cortinado, subir por ele, e depois ficar zanzando a passear-se entre as argolas que dependuravam um tecido com riscas amarelas, de baixo até acima, que é o mesmo que dizer a toda a altura da cortina da janela que tenho na cozinha.
No dia em que fui dar com ela já morta, tinha comido carapaus grelhados – um resto que ficara do almoço.
Subira como era seu costume, mas chegada lá cima, ter-se-á gorado o intento de ficar zanzando, que quando pretendeu deslocar o corpo naquele quase sapateado, faltou-lhe a força, desequilibrou-se, e já viria morta quando se estatelou no ladrilho vermelho.
Nem a salvou aquele ditado, ou será até coisa explicada pelas leis do movimento, de que gato cai sempre sobre as quatro patas. A minha gata terá morrido de ataque fulminante, o que também dá nos outros animais que não seja a gente.
Anastázia de seu nome, tinha aquele costume de subir o cortinado e ficar zanzando como se fosse um bailado.
Hoje mudei a tal cortina de riscas cor de canário, troquei até a posição dos móveis, senão morro eu de tanta saudade.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




