segunda-feira, 12 de março de 2012

enleio meu



Um dia assim na tua vida,
e eu sem mais para deixar,
nada mais, escrito ou dito,
nenhuma palavra, velha ou nova,
que traduza.
Sempre que é dia doze do mês terceiro
fica-me este enleio
eu sem saber o que deseje
que não seja muito mais,
que não seja dádiva dos céus,
o firmamente inteiro
a ti que me nasceste
e serás sempre o meu menino




sexta-feira, 9 de março de 2012

o meu preito

tinha umas palavras escritas
modifiquei-as o quanto necessário
e deixo-as aqui em memória
que ontem uma amiga de amiga ficou viúva
e mais umas tantas partiram desde que escrevi as tais palavras


Elas vão ao mercado, usam trança se o cabelos lhes dá, ou peruca se lhes for necessário, e cada uma delas pinta a vida com as cores das tintas, ou com sorrisos, ou usa essa cor em vestidos, numas mais soltos do que em outras, e lêem livros nas esplanadas onde conversam ou se recolhem.
E gostam de passear sozinhas, tanto como de ficar conversando pela noite dentro com uma amiga ou num bar em volta de uns copos.
Não deram nas vistas senão o necessário para que se sentissem vivas: intervenientes o bastante porque cada umas delas nem podia fechar os olhos, que o coração lhes falava mais alto.
Mulheres sem mais de especial que terem sido isso mesmo a cem por cento.
E se hoje assim as falo, é apenas porque me faz espécie que não sejam lembradas. Nem uma palavra que dissesse: recolheu-se à morada de Deus.
Por mim, soltaria uma pomba branca, ou que fosse uma de outra cor, no propósito de lembrar  que morreu, discreta e sofrida…e viria o nome dela num papelinho preso numa pata da avezinha.
Melhor ainda, que se fizesse dito, como era antigamente, uma arruaça. Que alguém gritasse em tom de oração: muito obrigada minha amiga! E dizendo-lhe o nome todos rezariam por mais uma mulher que partia: uma mulher que ao sábado iria ao mercado e que, se tocava piano ou fazia versos, ou desenhos, era no recolhimento da sua intimidade.
Eu vejo-as partirem, discretas, cheias de vagares nos preparos da viagem, e fico-me pensando, se nós, os que com ela convivemos e fomos bafejados pela sorte de lhes conhecer os dotes, não devemos fazer-lhes homenagem, que mais não seja conversando delas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

oito de março



por elas e pelas filhas que terão

e pelos machos que com elas crescem

e pelos que são amores das mãe delas...

pelas meninas que somos

mulheres com éme grande,

é que não esquecemos

terça-feira, 6 de março de 2012

link

ora tenho andado a escrever por outros lados e por aqui anda meio desleixado, mas vamos lá mostrar uma ponta do véu agora publicado no NOTÍCIAS DO GIL

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

copy past


deixo aqui o copy past de um texto 
que em tempos publiquei na SAMIZDAT
ao lê-lo hoje comoveu-me 
 como se aquele meu eu fosse outro



Sem ruído, caminho, pé ante pé na bordinha do meu olho esquerdo
E nem estou chorando, que não é lágrima: aquele verde é tinta de eu ter estado a enfeitar-me. 
E desço, a ver se o contraforte do sapato surte aquele efeito que vi no cadeirão do sapateiro:
 Pode mostrar-me daqueles costurados? 
E o homem deu-me um par: verniz encarnado com muitos buraquinhos. 
Sobram deles o meu dedo mindinho.
Uma gota verde a deslizar como se fosse lágrima e eu a caminhar no bordo, um pé a seguir ao outro.
– Olha!
Espanto-me e torno:
– Olha como fico bem de saltos altos!
E dizendo isto, distraio-me.
Deslizo pelo rosto e grito:
– Olha como choro!
O contraforte preso entre dois dedinhos, e eu a descalçar-me para que não magoe o olho por onde caminho, devagarinho, sem outro destino que não seja, entendo, mas sem muita certeza.
Irei apenas na sombra dos meus cílios sem que seja para ir para onde.
No meu olho direito, eu estou dormindo e sonho com cavalos e um corso de carnaval com dois palhaços.
Que a minha vista deste lado, é dada a visões: poços e princesas e sapos e muita gordura em poções de bruxedos…
Nunca é assim no olho esquerdo que só adormece quando cantam os galos.
Eu que me sento na bordinha, com os dois sapatos dependurados do mindinho.
Se me acontece adormecer um olho sem que o outro acorde, costumo ter sonhos dos dois olhos.
Quando se dá, fico-me enroscadinha no verde da minha íris como colcha que me cubra.
É só então que calço o meu par de sapatos e ando de saltos muito altos, muito encarnados.
Ando, então, por muito lado e não apenas na bordinha do meu olho enfeitado de verde.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

bucolismo ou nem tanto



Imaginá-las rosadas, as saias e as botinas e os lenços floridos – mantilhas nos dias de ver a Deus ou pela festa
Imaginá-las com ama de leite, e criada de dentro, e criada de fora, e mais a cozinheira, e o rapaz que conduz a parelha de bestas à frente da charrete, e o moço que ajuda a tratar dos animais
Imaginá-las com um filho, dois, três e mais – os filhos nascendo, um a seguir ao outro, e elas sem receber marido não se vá nisso coalhar o leite – as crenças maiores do que as verdades!
Imaginá-las criadas de servir e não senhoras, um quarto no saguão, esconso, húmido, e a cozinheira velha a fazer orações e a impor normas ainda mais do que as que lhe impõem os patrões, e nem um segundo que dissesse seu senão, de quinze em quinze dias, metade de um domingo, e a mãe a pedir que arrecade para os muitos irmãos
Imaginá-las costureiras e preceptoras...
Imaginá-las que posam para pintores – homens, sempre homens...
Imaginá-las a parir em casa e nem água corrente, nem água aquecida que não fosse em panelas, e seriam outras mulheres a enchê-las, a tomar conta que ficasse no ponto o banho, e seria um banho por semana e o mais como seria lavado, e a que cheirariam estas mulheres se não fossem as defumações e as ervas, perfumes que entranhassem fedores, e as criadas delas cheirariam a peixe frito e a mijo a servir à mesa (?)
Imaginá-las doentes e sem mais remédios que cataplasmas e chás quentes, tisanas, infusões ou aplicação de ventosas ou sangramentos se o caso fosse mais grave
Imaginá-las de amores pelo cocheiro, um rapaz bem posto e nem por isso assim tão pobre, e a mãe a casá-las com o sobrinho do padre, e elas descobrindo na noite, sempre e só na noite, o marido que lhe deram e se esgueira para a função sem arte ou as desvirginda grosseiro e bruto
Imaginá-las censuradas nos olhares que fosse, dissimuladas, elas, sempre, para poderem acreditar-se
Imaginá-las nos folhos e nas saias e nos decotes e nas sombrinhas e nos olhares que faziam por detrás dos leques
Imaginá-las bucólicas ?!




e digo eu de razões de ter escrito este texto:

de vez em quando oiço: que bom que era dantes e a ouvir, pasmo, estremeço desse gabar o bucólico da vida das nossas trisavós 
e deve ter sido esse incómodo que se soltou nas pontas dos meus dedos:  um niquinho só do que podia dizer a pensar no que seria o viver dessas mulheres
sorte delas que não sabiam o quanto teriam de abastança e comodidade a suas bisnetas e trinetas que ousariam gabar-lhes vestidos e modos...
talvez desconhecendo tenham encarado a vida que levavam com um sabor realmente bucólico... algumas, pelo menos...
e o que me dói e lamento, é haver ainda multidões de mulheres que vivem como as nossas tetravós,hoje, num mundo de viagens interplanetárias e internet e água quente nas torneiras (de algumas apenas, é certo) 
e nem bucolismo que lhes valha 




quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

em dia de aniversário





encostaria a minha cabeça nos joelhos
não nos de outro, em jeito de pedir que me fizesse um afago, mas nos meus próprios
acocorar-me-ia num novelo e ficaria assim o dia inteiro
e ficaria toda a noite
e quando fosse manhã, se ainda não tivesse enregelado, se ainda não tivesse adormecido todo meu lado esquerdo, ficaria acocorada a receber uma nesga de sol que entrasse pelo quarto
sentada no tapete fofo, apoiaria um cotovelo na manta de quadrados
lã pura que costurei com pedaços de casacos velhos
usei também quadrados de um xaile com que tapei barrigas – um xaile que servia de resguardo em tempos de se ser discreta em tudo o que lembrasse, ainda que remoto, que ali havia sexo
enrolar-me-ia nesse cosido de recordações como se fosse um esconderijo
como naquelas construções que fazíamos com mantas e lençóis nos dias de chuva em que não podíamos brincar na rua nem no quintal, e no sobrado estavam, em visita, os nossos bisavós
ficaria assim enrolada, um dia a seguir ao outro ou, ao menos, no dia do meu aniversário
e contaria os segundos pelo bater do sangue, o pulsar ritmado do coração, o respirar que seria manso e sem ruído
e se dormisse,
e dormiria se ficasse largo tempo nessa posição quase fetal
se dormisse, sonharia sonhos em que o mar seria negro a despontar cristas de espuma, e as aves marinhas haviam de confundir os seus vôos verticais com os cordões da chuva a cair de um céu riscado por coriscos
um céu repleto de nuvens a tremeluzir os azuis e lilazes das descargas
sonhos de praias ensolaradas, seriam sonhos demasiados para esse meu ficar assim acocorada
sonharia, isso sim, com cidades a arderem na loucura de um concerto de guitarras, ou sob o fogo que se tivesse gerado pelo derrube de uma carroça
um carro de bois vindo dos tempos em que o chão que as bestas pisavam era alumiado por candeeiros de fogo colocados de um e outro lado do cabresto
eu encaracolada com a cabeça nos joelhos, teria as duas mãos a segurar as pernas, os dedos unidos numa trama muito justa
e seria quase certo que, num dado instante de ser eu assim aconchegada em mim mesma,
num momento desde há muito inscrito no destino – no meu, e no dos deuses que me tinham concebido – os braços iriam, devagarinho, cair-me, um de cada lado do corpo

por toda a eternidade
ou no escasso instante do prazer da carne



imagem : GustaveKlimt - trecho de Beethoven frieze

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

a mestra




Graciete Mendes, modista de senhora e fato de homem.
Está assim escrito na porta, e por baixo, colada na madeira, uma folha arrancada em revista de moda.
No espaço exíguo que habitualmente é sala de provas e de costura, a modista parece que vai, de um momento ao outro, erguer-se do féretro e ditar ordens, indagar do cumprimento de tarefas. 
Graciete Mendes morta recente de doença de peito.
Num canto, a máquina de costura, tão sem vida quanto a mestra, está tapada com uma coberta de florinhas cor de rosa.
Em volta da urna, velam-na meia dúzia de mulheres sentadas nas cadeirinhas de tabúa das aprendizes. 
Uma delas é Benvinda.
Graciete nunca lhe disse: a partir de hoje és a contramestra. Mas ela era: cortava e até fazia provas. E no entanto, Graciete nunca lhe deu para as mãos um choleio. Nunca lhe pediu que o fizesse numa seda, um brocado, uma fazenda cara. Disse-lhe sempre: tens um cholear incerto, Benvinda. Que Graciete, além do choleado, lhe depreciava quase tudo com excepção de caseados e cerzidos. Nisso, Graciete sempre a reconheceu.
Nisso, e no casamento que Benvinda fizera mal se iniciara como aprendiza. Graciete Mendes, que namorara um e outro, e ficara para tia.
– Foi até amante do Elias da farmácia. Podia ter casado... 
Benvinda a falar consigo mesma, se bem que Alzira a escute entre choros e ranhos. A aprendiza vesga que viera há poucos dias. A mãe rogando que lhe aceitassem a filha. Quanto lhe pagaria Graciete?! dois tostões?! Benvinda a olhar a rapariguinha apertada num desengraçado vestidinho de chita.
– Que Deus te receba no seu seio, e te dê o eterno descanso – balbucia Benvinda, e inicia o desfiar de um Padre Nosso. 


imagem - Costureiras  de Fernando Botero 

domingo, 1 de janeiro de 2012

cores do ano



se houvesse pedido que ela fizesse em início de ano,
se ela se deleitasse a invocar os deuses para pedir benesses,
pediria decerto que o ano fosse da cor do mar
e da cor da chuva,
e, se fosse possível,
(e o que não é possível às divindades, perguntaria antes de atrever-se)
ela pediria que o ano fosse da cor dos campos de espiga, por Agosto
e entremeando, ali e aonde,
dispersa,
uma cor de papoilas.

a cor do mar para que fosse azul e também fosse cinza,
percorresse os vários matizes do verde,
e fosse amarelo, e alaranjado,
anil e roxo, no de repente de um ocaso.

a cor da chuva para que fosse límpido deixando ver para lá dele,
atrás e adiante,
e ainda sobrasse.

a cor das espigas para que fosse de oiro 
e nem por isso fosse de riquezas mais do que as suficientes
e fosse na alma que as fizesse.

o rubro das papoilas,
essa cor dos deuses e das mulheres,
para que fosse vida,
intenso,
para que acontecesse.

domingo, 25 de dezembro de 2011

uma árvore de natal no quarto


Acordado recente de uma madrugada, três horas mal dormidas e nem copos, nem sequer orgia de comidas. Andara de rua em rua, de boteco em boteco, a dizer apareçam lá em casa que eu tenho presentes, e não tinha, que ele nem sequer  armara um presépio. 

Ele nem acreditava. 

Nem na árvore de natal, que era coisa que nunca se fizera na casa de seus pais, e nem a avó Bia fazia sequer ideia dessas modas do norte da europa em que sobram pinheiros e abetos para cortar rente e colocar na sala com enfeites.

Dos natais passados, de há muitos anos, ele conhecia apenas as cearas a crescerem verdinhas no inverno frio. Sementes que a avó colocava dentro de latas de conserva de sardinha consumidas para matar a fome, e nunca como aperitivo em restaurante fino. E a sua mãe assim o repetira em tacinhas de plástico com florinhas. Deitavam-lhes um golinho de água, e depois havia uma fila delas espalhadas no parapeito das janelas. E quando chegava o dia de armar o presépio, serviam de erva para as cabrinhas dos pastores que tinham visto a estrela a brilhar por cima da cabana onde Jesus nascia em cada natal, desde que ele tinha entendimento, e até que perdeu de vista cristo morto, e também cristo nascido, e mais o séquito de anjos e de santos, e se tornou ateu. E nem virgem maria lhe tinha sobrado para que pedisse, nos momentos que tinha tido de aflição.

Hoje, mal acordado de um sono dormido entre agitações, abriu os olhos no escuro do quarto da sua solidão de homem dicorciado várias vezes: de papel passado, e de namoros portas adentro, e nem filhos e nem uma amante que tivesse sobrado. 

O escuro do quarto desvirtuado pela luz do candeeeiro da avenida onde mora naquele segundo esquerdo de má sorte, duas assoalhadas pagas ainda ao banco, e os restos de tarecos que as mulheres lhe foram deixando.

A luz a fazer risquinhas sobre a colcha e sobre a parede por cima da cama, onde há um senhor morto com um terço dependurado.

A pouca luz que entra, é suficiente para que veja, e ele nem acredita, mas que é assim tal e qual: um pinheiro do tamanho do cano do soquete, que nem descalçou, atirando para o chão cada sapato, e deitando o corpo esfalfado sobre a cama.

Um pinheirinho de natal iluminado com luzinhas, e em volta um molho de fitas e embrulhos.

- Presentes - pensou ele, e sentiu vergonha de o ter ter feito.

Recostou-se um pouco, e o pinheirinho manteve-se erecto a projectar, para que nem restassem dúvidas que era um ser terreno, uma sombra suave entre as riscas de luz, que ele deixava sempre a persiana da janela mal fechada.














quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

requiem




Morreu dançaricando em cima do varal do cortinado.
Sei que se espantam, que nem acreditam no que digo, e me chamam louca, mas é a pura verdade.
Ela tinha por costume dependurar-se no cortinado, subir por ele, e depois ficar zanzando a passear-se entre as argolas que dependuravam um tecido com riscas amarelas, de baixo até acima, que é o mesmo que dizer a toda a altura da cortina da janela que tenho na cozinha.
No dia em que fui dar com ela já morta, tinha comido carapaus grelhados – um resto que ficara do almoço.
Subira como era seu costume, mas chegada lá cima, ter-se-á gorado o intento de ficar zanzando, que quando pretendeu deslocar o corpo naquele quase sapateado, faltou-lhe a força, desequilibrou-se, e já viria morta quando se estatelou no ladrilho vermelho.
Nem a salvou aquele ditado, ou será até coisa explicada pelas leis do movimento, de que gato cai sempre sobre as quatro patas. A minha gata terá morrido de ataque fulminante, o que também dá nos outros animais que não seja a gente.
Anastázia de seu nome, tinha aquele costume de subir o cortinado e ficar zanzando como se fosse um bailado.
Hoje mudei a tal cortina de riscas cor de canário, troquei até a posição dos móveis, senão morro eu de tanta saudade.




         TCA


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

dia de anos

Com que então caiu na asneira
de fazer anos nesta quarta-feira?!
Que tolo!
Ainda se os desfizesse,
mas fazê-los não parece
de quem tem muito miolo!

E já no ano passado
fez a mesma tolice?!
Por esse andar, quase aposto,
vai-lhe tomar o gosto,
e repetir
 ano a ano!
Coitado!

Não faça tal, porque os anos
só nos trazem desenganos
e  fazem a gente velha!
Faça outra coisa, 
que em suma,
não fazer coisa nenhuma,
também não lhe aconselho.

Mas anos...
Não caia nessa!
Olhe que a gente começa,
às vezes por brincadeira,
e depois, cria-lhe o gosto,
já não tem vontade sua,
e fá-los, queira ou não queira,
esses maganos, que nos dão tanta canseira!


um poema de João de Deus livre e ousadamente alterado por mim que me apetecia oferecer-te um poema levezinho e lembrei-me deste

terça-feira, 29 de novembro de 2011

reflexos



Lá fora, o sol brilhava. Intenso.
Um reflexo de cegueira no branco de cal.
Despidos de luz que reenviassem, os olhos da tua irmã  mais velha e os olhos da tua irmã mais nova. Dois pares de olhos a olharem-te de um alto sem sopé nem base. Um alto todo imaginado, que elas tinham descido a escadaria degrau a degrau, quando chegaste. E no entanto, continuavam vagando acima do sítio onde as vossas vozes aguardaram sempre, que se fizesse um silêncio antes que cada uma falasse. Frases curtas. Palavras isoladas com poder de verbo. Nenhum som mais alto do que o outro. E só tu a ouvir o grito amalgamando-se com o ar da sala.
Um grito por cima das vossas vozes, enquanto decidiam o que fazer ao açucareiro, às facas com cabo de osso, e ao baixo relevo trazido nem sabias de onde. Um valor enorme o daquele tinteiro – cristal debruado a prata.
Estavas certa de ouvir nitidamente a voz dela.
A sala atafulhada, e mais o sol que dava do lado do páteo. A casa em que tinham crescido reduzida a isto: um para mim, outro para ti. Aquele ali vende-se e divide-se o saldo.
As vossas vozes comedidas. Grito, apenas o que tu ouvias ressoar no canapé de palhinha e nos reposteiros – seda pura, trazida do oriente.
– Podes ficar com ele  – disse a tua irmã mais velha.
– Toma, leva – dizia-te, a segurar um vasinho. Uma marca castanha, restos de um pé de salsa, desfeava a porcelana mal lavada.
– Ofereço-te – insistia.
E era também a tua irmã mais nova.
– Toma, fica com ele – dizia, a segurar um gato de loiça a que faltava a pedrinha de um olho.
O grito era a voz dela, não te restavam dúvidas.


sábado, 12 de novembro de 2011

ao chá



Sentou-se como se ainda fosse. 
E já não era. 
O chá soube-lhe demasiado à erva de que era feito, ardendo a água como se fosse isso apenas: água fervente. 
E como lhe pesava a chávena de uma loiça cara em azul debruado a oiro. 
Maria Inácia entrelaçara o bojo com a mão inteira. A mão dela com os dedos nodosos de uma artrite antiga. 
Sentia escaldarem-lhe cada um dos veios. Até nos ossos ela sentia o quente. Apertou a loiça mais um pouco. Aquele calor a trespassá-la braço acima, e a encolherem-se num desassossego os músculos de todo o corpo. Um prazer estranho, pensou ela, a chávena muito apertada na mão esquerda. E o fio de lágrimas que lhe marejou os olhos  seria do imenso esforço. 
Bebeu um minúsculo gole e sentiu aquele sabor estranho.
Eram seis sentados em redor da mesa. Ninguém bebera o chá fervente antes que ela tivesse bebido aquele golinho. Foi só quando se ouviu o tinir dos talheres. O bolo de nozes a ser partido em fatias estreitinhas, o açucareiro a passar de um a outro. E o mel. E a casquinha de limão. E o ruído, raro, de algum sorver mais descuidado.
Maria Inácia serviu-se de manteiga numa torradinha de pão de centeio. 
Amparara com a outra, a mão que segurava a faiança. Maria Ináca no esforço de colocar a chávena sobre o pires. As mãos dela cada vez mais inseguras do que fizesse uma e fizesse a parceira, tinham aprendido a entreajuda mesmo nos pequenos gestos em que nem deviam, que  mais não fosse por uma questão de etiqueta à mesa.
Dentro em breve, seria o costume: lembra-se, tia? lembra-se mãezinha? sabe como foi avó, sabe? Conte-nos, dona Inácinha - era a fala de uma amiga que estava por lá como se fosse da família. E Maria Inácia se contasse seriam recontos. Ou inventaria. E sorriu-se de novo, os olhos perpassando cada um deles. 
Quase distraída, foi erguendo a chávena. Subiu aquela loiça muito azul até à altura do peito. E mais um pouco. A mão a segurar a asa, dois dedos apenas, e ela muito hirta, muito direita na cadeira.
Maria Inácia muito contente de ter conseguido um gesto como antigamente. 



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

loucura,Otelo?


Expresso da Linha questiona-se "está tudo maluco ou é só ele?" o que comentei deste modo: 
"é assim como que um estado anunciado: está-lhe na massa do sangue, pula-lhe e de vez em quando salta-lhe... não deve bater muito bem, não... vá que lhe deu para levar em frente a revolução dos cravos...depois disso mais valia que estivesse calado...e ainda lhe dão caixa sem comentários..."
Mas fiquei matutando.
E fui em busca de mais para reflexão.
E encontrei uma crónica no semanário Sol.
Estarão na base desse texto, assinado por Luís Osório, outras declarações de Otelo, mas é tão a propósito que o transcrevo na íntegra. 
Aqui fica.


Herdou o nome do avô – Otelo Augusto – e pediu dinheiro ao pai para fazer um curso de representação: desejava cumprir o nome e ser um verdadeiro Otelo.

Nas últimas semanas o palco voltou a ser ocupado por Otelo Saraiva de Carvalho. Todos os anos, umas vezes mais e outras menos, é procurado pelas perguntas de sempre. Desta vez, empurrado por um impulso que o leva a fazer e a dizer o que não se espera, quase afirmou sentir saudades de Salazar e confessou-se angustiado e arrependido por ter feito o 25 de Abril.

Conheço Otelo de poucos encontros. Um na sua casa de Oeiras, outro no Rádio Clube quando me quis convencer a contratar Os Parodiantes de Lisboa – de quem era amigo e admirador – e vários pequenos diálogos que, sem assunto, fomos tendo.

Há umas semanas voltei a lembrar-me de histórias que me contou. A culpa foi de João Miranda, chefe de gabinete de Jardim Gonçalves, por ter recordado um episódio com uma cozinheira da sua família. Chamava-se Delfina – e certa vez, candidamente, perguntou à dona da casa «se o senhor Santos Costa ainda era general ou se já era Salazar».

Ao imaginar a legítima dúvida de Delfina – dúvida que, aliás, não era um exclusivo da cozinheira (para muitos Salazar era um posto e não um nome) –, voltei a Otelo e lembrei-me do amor que ele me confessou ter pelo nome herdado do avô, Otelo Augusto, alentejano de Moura que se apaixonou pelo teatro.

O avô morreu cedo, desamparando o filho. E este, anos mais tarde, ouviria o jovem Otelo pedir-lhe dinheiro para entrar num curso do Actors Studio, porque desejava cumprir o nome e ser um verdadeiro Otelo!

Por isso, sinceramente, acho bizarras as críticas às suas palavras. Se Otelo fosse controlável, se fosse calculista no que pensa e diz, se fosse consequente e não tivesse a mania das grandezas, nunca teria liderado a revolução que derrubou o Estado Novo.

Disse-lhe isto há uns anos e ele não gostou. Tinha-lhe feito uma pergunta sobre a democracia directa e ele, entusiasmado, fez um paralelismo com a democracia de Péricles, com a experiência da Comuna de Paris e com os conselhos de operários e camponeses no início da revolução russa.

Nada havia a comentar: a partir daquele momento percebi que deixara há muito de ser tenente-coronel, coronel ou general, e já concretizara o sonho de ser Otelo.

Conto-lhe três episódios. Numa célebre viagem a Moçambique, pouco tempo após o 25 de Abril, Spínola pediu a Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros desse Governo provisório, que fosse a Moçambique negociar com Samora Machel um acordo de cessar-fogo com a Frelimo. Só que, entre as sombras, Spínola chamou Otelo a Belém e ordenou-lhe que vigiasse Soares, visto não confiar nele.

Otelo, então comandante do Copcon, aproveitou a viagem para conhecer Mário Soares e virar do avesso toda a estratégia do Presidente. Em plenas negociações, Soares seguiu o guião pensado por Spínola: negociar um cessar-fogo imediato e, implicitamente, criar condições para um regime pluripartidário.

Foi então que Otelo, perante o espanto geral, pediu a palavra e disse: «Eu estou aqui como representante do MFA e a nossa filosofia não passa por isto. De facto, quem tem direito ao exercício do poder num Moçambique livre e independente é a Frelimo. Se eu estivesse do vosso lado, faria exactamente a mesma coisa. Realmente não faz sentido o cessar-fogo».

Soares interrompeu a cimeira e levou Otelo para um canto. Mas, antes que pudesse abrir a boca, o militar avisou-o de que falava em nome do MFA. Mário Soares apenas lhe perguntou se estava preparado para dizer a Spínola o que estava a dizer-lhe a ele. Otelo disse que sim – e, a partir daquele momento, nunca mais os protagonistas conseguiram encarar-se.

O curioso é que Otelo, quando me confirmou os acontecimentos, colocou maior ênfase no espanto que sentiu ao ver Soares, no aeroporto em Nairobi, fazer do casaco almofada, tirar os sapatos e deitar-se nos bancos. Disse para consigo que não fazia sentido um ministro ‘espojar-se’ daquela forma.

O segundo episódio foi anterior: passa-se quando tinha os seus 17 anos. Desejava ardentemente ser actor, já o sabemos. O pai demoveu-o – e, ainda antes da entrada na Academia Militar, obrigou-o a pertencer à Milícia, grupo ligado à Mocidade Portuguesa.

Foi o único a ser reprovado – tendo ficado escrito no relatório que o aluno não tinha a mínima vocação para a vida militar. Muito mais tarde, depois do 25 de Abril, Otelo voltaria a encontrar o oficial que tal profetizara. Chamava-se Melo Egídio e, por ironia, viria a ser seu subordinado – e, depois, chefe de Estado-Maior das Forças Armadas.

O terceiro episódio aconteceu um mês antes do 25 de Abril. O país assistira, a 16 de Março, a uma tentativa de golpe de Estado e vários militares tinham sido presos. Otelo temeu que a companhia das Caldas – que avançara solidária com Spínola, por este ter sido exonerado do cargo que ocupava – tivesse abortado a operação que preparava há tanto tempo.

Era fundamental voltar a falar com os operacionais, moralizar as tropas e ligar as pontas soltas.

Foi exactamente isto que disse a Melo Antunes. Num café na Avenida de Roma, Otelo reafirmou que estava preparado para liderar o processo, garantiu que era de confiança e que tinha tudo na cabeça.

Melo Antunes ficou de escrever o programa político – e marcaram uma derradeira reunião para a Quinta da Figueirinha, perto de Oeiras. Aí ficou definido que o dia escolhido teria de ser antes do 1.º de Maio, para aproveitar a obsessão da PIDE com os comunistas. E assim foi.

Não fiquei surpreendido com as suas declarações, como poderia? Otelo é hoje exactamente o que sempre foi – e, talvez por isso, um golpe de Estado numa madrugada em final de Abril resultou.

Excessivo, brutal, terno, incoerente e megalómano, foi sempre, para o bem e para o mal, um actor em representação. Não o actor que julga representar uma mentira, apenas o homem que se julga providencial e escolhido por Deus.

E de alguma forma o foi, não tenho dúvidas. Também por isso, não entende o porquê da morte da sua filha, uma menina de sete anos que, em menos de 24 horas, se despediu nos seus braços no Hospital Militar. Meningite, disseram-lhe. Também por isso não entende – mas, quando lá volta, quando regressa à brutal imagem, Otelo não é mais nem menos do que outro qualquer homem nas suas circunstâncias. Humano, demasiado humano."



adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein