sexta-feira, 16 de julho de 2010

blogincana

A tarefa no Blog Gincana de Julho exige encontrar três palavras com mais de um significado sem repetir as já usadas por outros participantes.
E isso permite-me contar-vos o que me ri ontem a ouvir o Paulo Portas a discursar no Estado da Nação. Para quem não conhece a figura pode vê-lo e ouvi-lo ao vivo se clicar na tal frase que ele dirigia ao Sócrates nosso Primeiro Ministro:
E eu a rir daquele gozo que lhe deve ter dado, que passado para além dos significados que debito a seguir, retirados do dicionário, tem emprego corrente como interjeição de significado pouco simpático para o invectivado:

PASSADO 

louco, baralhado da cabeça, maluco, doido, apatetado e tudo o mais relacionado com ter a cabeça impreparada para o exercício


e retirado daqui , como nas palavras seguintes, o/s outro/s significado/s
adj.
1. Que passou ou decorreu.
2. Seco.
3. Trespassado.
4. Surpreendido, atordoado.
s. m.
5. O tempo decorrido, o pretérito.
passados
s. m. pl.
6. Antepassados.


E agora as outras duas palavras que me surjem


BUFO


(latim bufo, -onis, sapo)
s. m.
Zool. Designação vulgar do género de batráquios a que pertence o sapo.
bufo
(italiano buffo)
s. m.
1. Bobo. = BUFÃO
adj.
2. Teatro Cómico; burlesco.
bufo
(latim bubo, -onis, mocho, coruja)
s. m.
1. Ornit. Ave nocturna! estrígida. = CORUJÃO
2. Avaro, usurário.
3. Misantropo.
4. Pessoa que denuncia outra. = DELATOR
5. Espião que pertence a um tribunal ou à polícia. = BELEGUIM
6. Armadilha para aves.
bufo
(derivação regressiva de bufar)
s. m.
1. Acção! de bufar.
2. Sopro forte.
3. Ruído produzido ao bufar.
4. Ventosidade expelida sem ruído pelo ânus. = BUFA, FLATO



CORNO


s. m.
Género típico das plantas cornáceas.
corno
s. m.
1. Cada um dos apêndices duros que certos ruminantes têm na cabeça.
2. Chifre, chavelho.
3. Bico ou saliência de alguns ossos.
4. Cada uma das pontas do crescente da Lua.
5. Buzina.
6. Infrm. Antena, tentáculo.
7. Pleb. Marido atraiçoado.
corno de Amalteia ou corno da abundância: cornucópia.
corno de Ámon: amonita.
corno de carneiro: voluta do capitel jónico.










e atrevo-me a uma moral :
Nunca chame bufo ou corno a um português ou sujeita-se a que o tipo fique passado e lhe dê nos cornos

terça-feira, 6 de julho de 2010

obrigada irmãos brasileiros

nem tenho por costume, mas é uma coincidência que quero deixar aqui no espaço onde estes aconteceres se têm produzido
Hoje, é publicado o último número da revista SAMIZDAT com organização do Henry Bugalho e onde participei em muitos dos seus números

SAMIZDAT 30

Hoje, também, sairam os resultados do 5º desafio organizado pelo Marco Antunes : fiquei em segundo lugar na modalidade conto e tive vários contos propostos para prémio e um deles foi vencedor na categoria Melhor texto lírico ou dramático - podem-no ler aqui



terça-feira, 29 de junho de 2010

pouca terra

Eram brincadeiras variadas a entreter serões. Noites de inverno longas e sem sonos. A mãe ia apanhando uns e outros até estarem todos. O pai nunca brincava. O pai nunca corria pela casa agarrado aos suspensórios ou ao bibe, ou aos nós do avental. O pai nunca encalhava nos móveis nem dizia, apavorado, cá da última carruagem, a mão a soltar-se como se fosse desengatar-se da composição: esperem, num tom tão de desespero que a máquina resfolegava, amainava a corrida sempre a fazer pouca terra úú, pouca terra úú, sempre a carborar e a deitar fumo, enquanto aguardava que o António calçasse a pantufa que saira do pé, que ele mal ainda andava quanto mais deslizar certinho em cima de supostos carris.
Era sempre a mãe quem fazia de locomotiva. Era sempre a mãe a convidar que brincassem.
António há-de ouvi-la, vida fora, na cantilena em que todos a acompanhavam: pouca terra muita tralha, o diabo que trabalha, pouca terra muita areia, o diabo que semeia…

sexta-feira, 11 de junho de 2010

letras...

Por vezes, acontecimentos inesperados sobrepõem-se aos desejos, às decisões mais sábias, ultrapassam e desfazem paixões e os amores mais nobres amalgamam-se como se fosse uma luta de ódio.

apenas uma frase que apanhei por aí escrita
e nem tem data que pudesse dar-me a perceber: a razão foi esta, foi este o acontecimento que se deu
terei escrito apenas em jeito de começar romance
e, sendo isso, porque não terei escrito mais é coisa que me mói a ler aquela frase

letras...palavras sem sentido
frases deixadas sem mais serviço que serem encontradas e ficar a pergunta: porque terei escrito isto

sábado, 5 de junho de 2010

saudade

“Acredito na vida eterna, acredito que os processos biológicos têm fim e que, em todo o caso, o homem não é só biologia. Por isso, acredito que o homem vai para Deus.” Padre João Resina


é por homens como ele
por ser possível ter Fé num Deus
que me sinto tantas vezes pecadora
(por eles e por minha mãe que reza)

domingo, 23 de maio de 2010

eu ainda nem vim de férias

é
eu ainda estou por aí vogando
e, talvez porque fiz por isso, aconteceram coisas que só acontecem se nos deixamos ir de férias
eu estava ali de papo para cima, lendo
e lia uma revista
coisas que se dão quando a gente se deixa estar como se estivesse por aí vagueando
e nesse estar, eu de papo para o ar como se tivesse aterrado num local distante
pasmo:
na revista estava isto que abaixo deixo
e eu vim de longe colocar aqui para que soubessem o que pode acontecer a quem se deixa estar como se estivesse passeando
espero que gostem como eu estou gostando:
muito
tanto


de Marta Chaves na página sessenta e cinco da revista INÚTIL


Há mais tempo longe da minha infância do que isto:

Imagine-se uma criança a certificar-se da sua existência
batendo os pés violentamente no soalho.
A querer ouvir-se.

Imagine-se uma criança com a cara encostada ao vidro da janela
embaciando-se do seu próprio ar.
A querer ver-se.

Imagine-se uma rapariga que durante anos tomou banho ajoelhada
de modo a que a água ao cair,
fizesse menos barulho nos quartos contíguos à casa de banho.
Como se rezasse, como se não existisse.

Imagine-se mais tarde uma mulher a correr
ao longo de um muro alto,
magoando-se com a sua própria velocidade.
A desaparecer aos bocados.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

imagem de um tal falandomerda apenas por acaso, que procurei no google

sexta-feira, 30 de abril de 2010

excertos

   Para dar pai a cada filho, Aurora escolhia um tipo bem parecido ou com quem ela tivesse engraçado. Raramente os escolhia na pressa de ser um camionista a querer aliviar-se antes dos seiscenteos quilómetros que tinha pela frente.
   Aquele a pedir-lhe um desconto pelos seus serviços, doce, ingénuo, lindo de rosto, parecia um anjo, Aurora não teria dúvida em escolhê-lo!
   Que sabia lá Aurora de quem engravidara quando o período lhe faltava …

   Tudo começou a primeira vez que emprenhou, desprevenida. Aurora disse para consigo que seria aquele o pai da sua filha: Alonso, um preto de olhos chorosos e pele da cor do chocolate brilhando num corpo musculado e ainda muito jovem. Que nem o desfeava a mancha cor de rosa: tal e qual a minha avó falecida, dissera-lhe ele, a mostrar-lhe a mancha no pescoço.
   Não lhe restou duvida: este seria o pai da menina que trazia na barriga, que Aurora jurava que seria fémea não tendo, ao tempo, métodos que o garantissem – era a sua fé e pronto!
   Que ela nem queria pensar que tivesse sido o Amílcar das bicicletas a deixá-la prenha, o homem que por uns míseros tostões fora o primeiro que se gozara nela.
   O alarve a rir-se, a gargalhar-lhe na cara: atão tu agora fodes como as senhoras? que Aurora falou-lhe em preservativo, e o homem num deboche, andava ainda Aurora pelos catorze, já fizera uns broches, uns passeios de carro: nada que fosse de modo a que Aurora engravidasse. Mas agora este, no maior dos gozos, a rir-se dela que amanhã iria ao Centro falar com a enfermeira, para fazer isso de evitar os filhos. O homem parecia um bicho a fechar a porta da oficina, a rondar-lhe o corpo: e é certo que Aurora nem fugiu nem deu sequer um grito, que apesar de pouco lhe faziam jeito os trocos que ele depois lhe desse. E para ali ficou de quatro pelo chão sujo da oficina, que foi como Amilcar disse: vira cá esse cu, Aurorinha. E ela a desejar que o homem não lhe pedisse um broche, que isso ela levava caro, ensinaram-lhe, mas não queria sujeitar-se que ele não lhe pagasse, que o Amilcar dos pneus tinha fama disso: um unhas de fome.
   Aurora acha que só conheceu o preto Alonso muito tempo depois. Mas talvez tenha sido nessa mesma noite, que ela ainda deu um giro pelo bairro, tonta daquele embrutecido.
   Talvez isso explique o tom de pele com que veio a menina, nascida no hospital onde Aurora daria entrada já com as águas rebentadas, numa manhã clara do mês em que ela fazia quinze anos: ainda não chovera, mas o calor de Agosto já se despedira.

sábado, 24 de abril de 2010

Abril tão novo!

Vai ser daqui a pouco o aniversário
Trinta e seis anos, tão novo!...

Foi o início de tudo
que nem dava para reter fosse o que fosse 
que lhe viria agarrrado o fedor a bolor,
a carne podre.
Só as almas, as que restavam, e era o povo todo,
só essas, a evolarem-se acima daquele mar de negrume.

Diz-se que era um país de negras vestes.
Um lugar comum, parece,
mas nunca é demais dizê-lo:
mais que cinzento, era um Portugal escuro,
sem sorriso.
Um lugar onde se era obrigado a viver de esguelha,
a viver escondendo.
Um país onde viver custava horrores,
que sorrir sem poder dizer o que nos vai na alma é estar meio morto.

Silêncio, mordaça...
não, não são palavras feitas
são verdades que retratam o Portugal de antes numa síntese que é apanágio da Palavra.

Foi em Abril.
E seria sol radioso mesmo que caisse chuva e trovejasse.
Um dia planeado no silêncio.
Um silêncio tão forte que deixou solta a terra onde as almas boas escavaram túneis de Liberdade.

Foi um dia lindo!
Como dizer de outro modo se a palavra lindo tem lá tudo?!

E foram as flores:
cravos vermelhos como se fosse cada um a emular o sangue derramado,
as dores.
Cravos de mão em mão, a serem como numa oração.

Meu Portugal de Abril!
não é lugar comum, não!
é um Portugal que devemos cuidar ou criará bolores,
fedores novos...
Tratemos dele, que ainda é muito jovem, acredita em tudo...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

ai sonhos, sonhos

Maria de Fátima
publicado na revista SAMIZDAT


Sem ruído, caminho, pé ante pé na bordinha do meu olho esquerdo
E nem estou chorando, que não é lágrima: aquele verde é tinta de eu ter estado a enfeitar-me.
E desço, a ver se o contraforte do sapato surte aquele efeito que vi no cadeirão do sapateiro:
Pode mostrar-me daqueles costurados?
E o homem deu-me um par: verniz encarnado com muitos buraquinhos.
Sobram deles o meu dedo mindinho.
Uma gota verde a deslizar como se fosse lágrima e eu a caminhar no bordo, um pé a seguir ao outro.
– Olha!
Espanto-me e torno:
– Olha como fico bem de saltos altos!
E dizendo isto, distraio-me.
Deslizo pelo rosto e grito:
– Olha como choro!
O contraforte preso entre dois dedinhos, e eu a descalçar-me para que não magoe o olho por onde caminho, devagarinho, sem outro destino que não seja, entendo, mas sem muita certeza.

Irei apenas na sombra dos meus cílios sem que seja para ir para onde.

No meu olho direito, eu estou dormindo e sonho com cavalos e um corso de carnaval com dois palhaços.
Que a minha vista deste lado, é dada a visões: poços e princesas e sapos e muita gordura em poções de bruxedos…
Nunca é assim no olho esquerdo que só adormece quando cantam os galos.

Eu que me sento na bordinha, com os dois sapatos dependurados do mindinho.
Se me acontece adormecer um olho sem que o outro acorde, costumo ter sonhos dos dois olhos.
Quando se dá, fico-me enroscadinha no verde da minha íris como colcha que me cubra.
É só então que calço o meu par de sapatos e ando de saltos muito altos, muito encarnados…Ando, então, por muito lado e não apenas na bordinha do meu olho enfeitado de verde.


segunda-feira, 12 de abril de 2010

ah!

faz tempo que não lia este blog o que é pecado grave
abri-o, e em boa hora, que assim as coisas batem mais certo na minha cabecinha
leiam, leiam e digam de vossa justiça
e leiam no DN

e fico a pensar  
que a História se faz de coisas mais prosaicas e pessoais que os ismos nem sempre comportam

terça-feira, 6 de abril de 2010

meninas?!





A senhora já de muita idade, foi-me contando :
- Eram duas mecinhas que teriam aí treze anos.
E a confirmar-se emendou:
- Sei lá se não teriam catorze...
E ainda, antes de me contar o caso, mas já depois de ter precisado o onde andava e a razão de estar naquele largo, atravessando, dizia -me:
- Tinha ido ao correio da Ameijeira e vinha descendo: ia mesmo a atravessar junto à rotunda, cá em baixo, apareceram duas moças a pedirem: dê-me um euro que a gente vai para o Sargaçal e na temes dinheire para a caminete
A contar-me, imitava o jeito de falar da garota e dizia-me:
- Uma era branca e a outra era preta...
E eu que me surpreendo, mas apenas porque não sabia o que seria o desenrolar do que ela me contava e calei-me a ouvi-la:
   - Abri o porta moedas e ...
aqui interrompi-a: se faz isso e um dia destes roubam-na, e no entanto, creio que nem ela me ouvia a falar em uníssono, que nem seria o roubo o importante.
   - Perguntei-lhes: mas vocês vão daqui para tão longe, mesmo?
E diz que as duas meninas, a afastarem-se, desataram a gritar: olha a velha acreditou e mais alto ainda é mentira, repetido aos gritos e a rirem que a referida senhora diz que, sem ver vivalma no caminho, teve receio das moças que foi o termo que empregou:
   - Quase que tive medo das moças a rirem e a gritarem daquele modo e sempre atrás de mim até à muralha.
   A ouvir atenta, cuidei que tivesse terminado. Mas ela continuou contando.
   - Atão não é que ontem...
e teriam passado uns dias de permeio
   - ... ia eu chegando à biblioteca
e lá disse ao que ia naquele fim de tarde.
   E foi contando que viu vir, a subir a rua da biblioteca, vinda do lado do hospital, uma criatura (o termo empregue foi mesmo este a referir-se a uma outra senhora assim para a mesma idade o que quererá dizer oitenta já muito passados) e dizia que a outra vinha muito perturbada, que lhe disse que ali, antes do hospital, duas moças...
   E ela falando quase tal qual me contou :
   - Fiquei sem pinga de sangue, que nem quis acreditar que eram as mesmas duas, uma preta e outra branca, a subirem a rua atrás da mulher : as mesmas moças do outro dia, e ficaram paradas, na maior desfaçatez, enquanto a senhora me contava que lhe atiraram uma pedra, que bateu aqui, e apontava o tornozelo, e que vieram a chamarem nomes malcriados, desde lá de baixo, e a dizerem se foges a gente ainda te joga mais.
e eu espantando-me e ela a continuar:
   - Nem imaginas: a criatura estava mesmo assustada! Pudera! E as moças, encostadas na parede do outro lado da rua a rirem, e eu com um nervoso, que me apetecia era bater-lhes e ainda lhes falei: não têm vergonha?
   Eu, que ouvia, pasmada de ser verdade e me estar a ser contado, devo ter exclamado alguma tonteira de que nem me lembro, e era já ela dizendo:
   - Atão não é que, quando iamos entrando, uma delas se aproxima da porta da biblioteca e se chega mesmo em cima de mim, a dizer: sua puta não tens mais nada que fazer que me andares a seguir.
Sabes que tive vergonha?!
  
   E terminava o conto a deixar-me sem fala.
   E eu que ouvi e me espanto, deixo o resgisto do que é verdade e se passou na nossa cidade com os nossos velhos que merecem respeito.
   Que pensar disto? acaso? caso de polícia?
e se acontecer com quem, e seja eu o exemplo disso, sem pachorra para meninas malcriadas por aí à solta na cidade, lhes der um par de estalos?
ou será um caso de crianças a precisarem de carinho?!...
alguém deve saber que acontecem casos destes e como os resolver
eu por mim conto e espero que seja apenas um caso isolado a ser sanado
 
 
 
 
Publicado no blog Lagos

sexta-feira, 2 de abril de 2010

eu estou a lê-la e as minhas letras desfizeram-se

como pude não tê-la lido antes!
este pequeno trecho de a cidade sitiada de Clarisse Lispector onde as coisas exalam como se fossem elas os seres e não o contrário

"Eram três os degraus para a sala de jantar e a di­ferença de nível dispunha o aposento em profundeza. A má eletricidade do subúrbio, então distribuída apenas por algumas casas, construía à noite um compartimento cheio de estruturas e núcleos onde o tique-taque do pên­dulo tombava preciso — círculos concêntricos se apa­gando nas sombras dos móveis. Abafadores de bule amarelecendo, o passarinho empalhado, a caixa de ma­deira com vista dos Alpes na tampa, eram a presença minuciosa de Ana.
A casa parecia ornamentada com os despojos de uma cidade maior.
— Você está cansada? perguntou Ana da cabeceira da mesa, franzindo os olhos como se a filha estivesse longe e a luz entre ambas fosse forte.
Lucrécia não gostava deste aposento tão impregnado da viuvez feliz de Ana. Para entendê-lo seria preciso continuidade de presença, parecia pensar a moça pro­curando olhar cada objeto: eles nada revelavam e guar­davam-se apenas para o modo de olhar da mãe. Que os deslocava e os espanava — afastando-se em seguida um passo para trás, como se os estivesse esculpindo, para examiná-los de longe com delicadeza de míope — um olhar de lado. Os próprios objetos agora só podiam ser vistos de viés; um olhar de frente os veria vesgos. De­pois de examiná-los Ana suspirava e fitava Lucrécia em sinal de que já estava desocupada; Lucrécia desviava os olhos para o teto, grosseira.
Cada vez mais Ana procurava se aproximar, an­siosa por lhe participar os insignificantes segredos que a sufocavam: de fato já se queixava de não dormir de noite. Lucrécia desviava os olhos.
Há muito tempo solitária, e amando aquela viuvez sem os sobressaltos que podem vir de um homem, a mu­lher começava porém a inquietar-se — e a tentar arras­tar a filha para uma intimidade onde ambas construi­riam compensações sorrateiras, suspiros e regozijos, aquele prazer de costureira com a sua costura, Ana que se rejubilava quando havia alguma roupa a emendar."

[...]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

dia das mentiras

A ilustrar este dia, poderia fazer uma graça, dizer uma falsidade para, logo, logo, emendá-la.
Podia, mas nem quero.
Que nem posso entrar nesses brinquedos, tão farta estou de tanto mentiredo.
O que me ocorre, a nadar à superfície da minha indignação, a sobressair da nata de mentiras que são o nosso dia-a-dia, são aqueles padres.
E os outros.
O circo dessa gente devota a seguir as pegadas dos que andaram a dizimar deuses e crenças e culturas para construir impérios, aqueles que professaram a fazer voto de castidade, os homens cobertos de capas e mais capas, que nem só as que trazem vestidas nas homilias a tapar-lhes os falsos pudores, mas as capas que têm na alma: camadas e mais camadas de mentiras como se fossem cebolas. 
E choram.
Lágrimas, também elas falsas, a pedir perdão do que nem Deus perdoa!
Neste um de Abril radioso, nem é da comunidade dos que impõem o preço da laranja, que me lembro, eles que inventam falsos dígidos quando o produto aparece à venda no mercado.
E nem é dos que acumulam, a deixar tantos na miséria. 
E nem dos que se arrebentam a matarem às centenas, na fezada de terem o paraíso ali à porta. Não é  deles que me lembro a querer celebrar condignamente o dia das mentiras festejado.
Neste dia, hoje, do que me lembro é dessa padralhada dada a caridades e que mais valia se contentasse com beatas de confessionário.


sexta-feira, 19 de março de 2010

efeméride

    


    Maria Inês tem uma cabra e duas galinhas. É a criação que ela mantém há muito ano, tantos que perdeu o conto. Se morre a cabra, ela compra um bode, e vai rodando. Reveza também a criação de bico, mas nunca teve um galo, que Maria Inês não faz criação, pelo contrário.
    No baraço em que prende a cabra, Maria Inês, em cada ano, estrafega uma galinha.
    É na data em que comemora as suas bodas.
    Dirá este ano: o meu pai casou-me com o Fernando faz hoje dezoito anos, e irá apertando o baraço no pescoço do bicho.
    Se a conversarem, se algum passante demorar a escutá-la, ela dirá que o marido emigrou, faz anos, por terras que ela não sabe onde e nunca mais voltou nem disse dele a deixá-la mal parida de um filho.
    O que Maria Inês não contará, a quem a escute, é que o dia onze de cada mês de Fevereiro, ela não tem por certo que seja a data do seu casamento: que ela bem sabe que, quando subiu ao altar pelo braço do pai, já rompiam os dias mais compridos e despontavam papoilas pelos campos. Seria Abril, mas Maria Inês, num dia em que o luto de vivo mais lhe tenha pesado, ou porque o filho lhe berrasse mais que a cabra, ou por razão outra que não sabe, nem saber disso vem ao conto, tomou para data de efeméride o dia onze do segundo mês do ano: a data em que comemoraria as suas bodas com Fernando.
     E é nesse dia que ela, sem deixar que um só pingo de sangue manche a terra do quintal que lhe deixou o pai, enforca o animal de pena que trouxe por ali pastando expressamente para tal.
    Este ano, será uma pedrês de crista vermelha, reluzente de gorda.
     A ave há-de estrebuchar ao aperto da corda, empinará o papo num derradeiro cacarejo e, a estremecer o corpo como se lhe tivesse passado uma aragem, há-de baloiçar ao ar as duas patas antes de ser apenas um monte de penas, branco e preto, sossegado.    
    Há-de ficar-lhe, muito vermelho como só nas galinhas e coelhos, um olho aberto como que espreitando...





terça-feira, 16 de março de 2010

se me perguntassem...


Se me perguntassem: quem és?
eu olharia em volta, rodaria sobre os calcanhares
e havia de sorrir ao que quisesse saber tanto em tão pouco intervalo

Se bem me parecesse, havia de convidá-lo:
vem, vamos dar um passeio, tomar um chá com torradas
beber uma cerveja
nadar numa praia deserta, ao finzinho da tarde,
ou…

Ou nem faria propostas  e ficaria simplesmente conversando

Ou deixaria que ficasse no outro a escolha de saber o como

Mas iríamos
em gestos e palavras,
que nem vejo outro modo de responder a tamanha pergunta...

Talvez lhe dissesse:
vive comigo e olha, ouve, sente,
come da minha sopa que fiz ontem,
planta esta semente e vem colher a flor para o ano que entra

se eu sou um todo, uma panóplia que de mim faz cada um dos outros…

E o mais que fica, esse reduto que me cresce mais e mais a cada instante
esse ser eu que me acalenta e faz tão boa companhia, 
por mais que eu queira (e nem sei se quereria)
não sei dizê-lo nem com palavra escrita, menos ainda num desenho...

Por isso, se me perguntam,
e é o caso, ou não terei entendido,
eu rodo sobre os calcanhares e sorrio





aqui deixo a minha tarefa do mês de Março eu que me tenho baldado e me perdoarão, mas a vida é mesmo esse monte de altos e baixos, de estar e ir saindo e retornar sorrindo
a tarefa seria: fazer seu auto-retrato e explicava:
pode ser um texto, uma foto, um desenho, uma pintura, uma escultura, uma colagem, uma instalação, um poema, uma canção, qualquer dessas formas de expressão, que o represente.
"

sexta-feira, 12 de março de 2010

simplesmente, hoje

simplesmente
porque embrulhadas em lágrimas
misturadas em sorrisos,
as palavras hoje fugiram-me
se eu pudesse,
se fosse o caso de conseguir isso,
eu hoje seria borboleta ou pássaro migrador
ou seria deusa com o poder da ubiquidade
se fosse o caso,
eu levava-me a ficar olhando-te
ou a dar-te um abraço
se eu pudesse,
mas não posso e envio-te a foto
não fui eu que a fiz e no entanto ela tem lá o que sinto,
que as palavras com que eu pudesse dizer-te  evolaram-se
e depois, 
o mais que eu dissesse seria sempre pouco
hoje que é dia doze do terceiro mês
 podia contar-te uma história
dizer-te do quanto foi um dia bonito aquele em que vieste por milagre dos deuses,
(só pode ser por isso que nasce um ser)
de mim vieste a este mundo e disso eu te agradeço,
de seres meu filho e seres um ser tão lindo
eram tempos de pão e de canções nas ruas
tempo de esperança
e mais que isso
 tempos de certezas em porvires risonhos
que me perdoes se não soube construir para ti esse mundo de cujos hinos nasceste a ouvir os sons

quinta-feira, 11 de março de 2010

a uma Matilde que veio ainda há nada a este Mundo

uma carta de amor do tempo em que se escreviam cartas dessas
para que a Matilde tenha o amor que transborda delas
para que no seu tempo não existam terras sem nome de onde escrevê-las
com abraços aos babados que neste momento a rodeiam cheinhos de amor, que é desse que ela aprenderá o amor vivido que transborda das cartas


Minha querida Matilde

Escrevo-te de um lugar de guerra
Um lugar sem nome
Escrevo-te num dia da semana entre dois domingos – será hoje dia santo?!
E nem sei se é Janeiro, ou se será Dezembro, ou um outro mês que fique de permeio
Mas o ano em que escrevo, esse, sei: mil novecentos e sessenta e oito
Eu já fiz vinte anos e tu farás dezoito.
Matilde bem amada
Consolação da minha alma triste. Canção que me cantam os anjos quando ando de arma em punho a catar sei lá eu bem que inimigo.
Tão calmos que eram os teus abraços. Neles me aninho em sonhos doces, como doce é o teu regaço onde irei deitar-me todos os dias que me restarem depois deste degredo.
No teu colo macio é onde durmo quando tenho a bênção de um recolhimento. E revivo-te.
Meu querubim, minha alfazema, meu tesouro ignoto de preciosas pedras. Minha abelha rainha, imensamente nua daquele pano.
Tu a unires as sobrancelhas, a franzir os teus olhos mais verdes do que os muitos verdes por onde me caminho.
Tu a dizer-me: a capulana, deixa estar, Tiago, que ela há-de soltar-se.
E rias-te, desengonçavas o teu corpo muito virgem para rires do meu desassossego, das minhas mãos tremendo por não saberem como desatar os nós dos teus vestidos, não terem o mister de retirar os panos com que tapavas os segredos do teu corpo.
Naquela tarde, a tua capulana estava atada com um nó corrido. Quando o nó se desfez, assim num por acaso, surgiu o teu corpo livre de mais atavios. Sublime.
Tu, minha Matilde, a mostrares-te nua, e eu de olhos piscos como se os entontecessem luzes de meio-dia em Agosto.
Ai Matilde, minha doce Matilde, que naquela tarde cheiravas a sargaço e a limos. Ou seria de estarmos na maré vaza e o cheiro vinha dos caranguejos que por ali se passeavam, e das lapas, curiosas, a soltarem-se das rochas?
Seria o cheiro que tu tinhas, ou seria a maresia, minha doce amante, minha querida?
Mas que importa saber a que cheiravas, se eu sei que o teu perfume é o dos lírios no altar de todas as Nossas Senhoras que há por esse mundo?!
Minha adorada Matilde!
Deste lugar de sangue e ódio, deste local tão longe, envio-te mãos cheias, cordões e mais cordões de letras a dizerem: Amo-te. Que a palavra se repita, que reverbere dela o ar dos locais onde respires.
Este que será teu para toda a eternidade
Tiago

segunda-feira, 1 de março de 2010

sôdá, sôdá



coisa corroente, indigestão de almoço muito temperado, choro soluçado e ranhoso que fica doendo pelo corpo, assim a saudade por alguém que parte ou quando se deixa o local onde gostamos
nem se sabe o dia certo, ou sequer se haverá o dia em que nos reencontramos, mas fica-nos este estar dependurado entre passado e futuro: a espera, o desejo de voltar ao local de que gostamos tanto, a ânsia de reatar o abraço que ficou no espaço
dois passos e mais outros tantos, a separar-nos um do outro, a afastar-nos do lugar aonde, e a saudade a fazer uma ponde de vertigem entre passado e futuro
será assim, ou será um sentimento calmo, um doce a deslizar pelos interstícios da alma, a desfazer-se em aromas multi-cores
de um modo e de outro, a manter-nos apaziguados com a lembrança do que foi e não se repete e no entanto desejamos tanto



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

morreu um homem






a gente morre de gripe, de gangrena
a gente morre até de sarro pelo corpo
de tripa desfuncionando
morre-se de tiro de bala
engasgado com rebuçado
a gente acaba sempre morto
seja de que seja: morre-se e pronto
no entanto, é frase que não suporto
se bem que a gente morre até de estar descuidado e vir um terramoto
ou deslizar lama em cima da cama onde a gente fode
morre-se e pronto é que não
a gente pode morrer de acaso
pode até morrer porque deseja e colocar a corda no pescoço
é uma pena, mas pronto, será forma de descanso para uns tantos
o que eu não suporto
o que me incomoda e faz coceira pelo corpo todo
e desejo ir pelo mundo gritando: porra isto não pode estar acontecendo!
o que me tira o sono é a morte de um homem pelo que está pensando
sem facas
sem balas, sem socos
sem que seja o ladrão em pleno assalto
ou tenha por causa a raiva de um momento
o que me incomoda é a morte porque se tem um pensar diverso
em nada molesta o ser humano
são modos diferentes de cada qual pensar o mundo
por tal morreu fulano e foi por isso que morreu beltrano
queimados em piras ou de outro modo
cuidava eu que tinha terminado
e ontem
a dois passos dum local onde ainda há pouco morreram muitos
morreu apenas um
morreu um homem por ter pensado desigual
e não se fala dele nos noticiários: não fazem imagens, não contam as causas
não mostram os olhos da mãe dele clamando
morreu um homem
morreu e pronto
Não!
morreu um homem pelo seu modo de pensar






Zapata, considerado um prisioneiro de consciência pela Amnistia Internacional, faleceu num hospital de Havana na última terça-feira, após uma greve de fome iniciada em Dezembro em protesto pelas péssimas condições prisionais.

O dissidente foi condenado a três anos de prisão, em 2003, mas posteriormente recebeu outras penas que elevaram a sua sentença para 32 anos..(notícia daqui)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Isaura a contar de carnavais

    – A minha avó chamava-se Maria da Assunção, mas todos a conheciam por Marquinhas.
     Isaura a bebericar um chá de tília a e a recordar carnavais com Iria.
     Naquele Entrudo, como de costume, em cada sala de baile estava armado o mastro com fitas e balões, e havia uma mão cheia de saquinhos de pano cheiinhos de areia ou serradura, conforme. E havia serpentinas e confetis. Os sacos de pano eram feitos expressamente. Mal passavam os reis, e já em cada casa havia mãos que recortavam tecidos velhos, a fazerem saquinhos que nas vésperas de se iniciarem os festejos, eram cheios e atados, ficando preparados para serem belas armas de brincar ao Carnaval: os saquinhos, prenhes, jogados a um e outro no cortejo ou atirados da janela a um incauto que passasse.
     – Costumes. – disse Isaura a ver se a outra se mantinha atenta ao que estava contando.
     Nesse Entrudo, a minha avó juntou as quatro filhas, minha mãe entre elas, e vestiu-as com saias de muita roda e saiotes embebidos em muita goma. Colocou na cabeça de cada uma um lenço de ramagens e, no braço, a uma pediu que levasse um cesto, a outra que segurasse uma galinha, à minha tia mais novita pendurou no braço uma bilha de trazer azeite, e à minha mãe, a avó Marquinhas disse que levasse um bácoro aconchegado no avental – um porco ainda mal desmamado que minha mãe segurou com desvelado cuidado.
     Minha avó materna, vestiu-se parecida com as filhas, mas colocou arrecadas nas orelhas, herança da mãe dela, e um xaile sedoso, negro e com cadilhos a descaírem na camisa branca. Na cabeça colocou um lenço todo ele em seda pura, ou imitando:
     – Sei lá eu… – e Isaura riu-se a acrescentar, para compor o quadro que ouvira repetido à avó e à mãe: levava um lenço vermelho sobre as tranças, que a minha avó as tinha muito pretas.
     E prosseguiu contando.
     Pela hora em que o povo, e o resto da sociedade, começava a dirigir-se à sala de baile a que, por profissão e escalonamento social, lhe cabia em uso, minha avó Marquinhas deu a cada filha uma mascarilha que ela mesmo tinha feito em flanela preta com dois buracos para que assomassem os olhos. Em si mesma colocou, presa por fitas de cetim, no mesmo tom, uma rede negra, de tal modo colocada que no rosto mal se apercebia o brilho dos seus olhos. Nas mãos enluvadas de vermelho, Marquinhas segurava um baralho.
     – Seriam onze horas e o baile na sociedade dos ricos ía animado. 
     Isaura afirmou assim como se lá tivesse estado, a sorver mais um gole de chá e a prosseguir o conto sob o olhar atento de Iria que tasquinhava um biscoito.    
     Minha mãe contava que havia muita gente pelas escadas e que se apartaram a fazerem filas enquanto elas subiam, e que gritaram: deixem entrar as ciganas, que seriam elas com minha avó adiante e o bácoro grunhindo preso nos bracinhos de minha mãe ainda quase criança.
     Contavam, minha mãe e minha avó já falecidas – houve tempo que contavam ao despique –  que no salão parou o baile, arredaram-se cadeiras e as senhoras olharam-se a perguntarem o que seria aquilo, e outros riam a verem a minha avó andando de um lado para o outro na roda que se fizera no salão mais chique da cidade.
     Marquinhas e as suas quatro filhas ensaiando o que nem tinham ensaiado.
     Minha mãe diz que teve medo daqueles risos todos a olharem para ela muito aflita a segurar o porco para que não fugisse.
     Minha avó Marquinhas sentou-se com a saia em balão espalhada no sobrado e, espetando o dedo, chamou, com voz disfarçada, cada uma das filhas segundo a sua função:
                                            tu que tens o galo, senta- te minha filha
                                            tu que tens o bacorinho, aninha-te neste chão real
      – Minha mãe jura que a minha avó disse assim quando se referiu ao lugar onde ela se devia sentar.
      Isaura parou o conto a beber um gole de chá, mas logo retomou.
      E minha avó chamou a filha que trazia a bilha e a outra que levava a galinha e sentou em sua volta as quatro meninas.
      Minha mãe contava do medo que tinha tido das caras dos senhores, rindo a mostrarem dentes de oiro e a olharem para ela lá do alto da roda que haviam feito em redor do espaço que elas ocuparam.
      E a minha avó leu sinas e deu sentenças, coisas que ela dizia ver nas cartas, ou seriam umas que inventava e outras que sabia de verdade serem casos de pessoas que estavam na sala ou eram aparentados.
      Todos riam: olha, olha o que diz a cigana, e a perguntarem entre dentes, sobretudo as senhoras: quem será que assim se atreve? e a desviarem-se, que sabiam que no Carnaval valia tudo.
      E foi quando se deu a fuga do bácoro.
     Parece que minha mãe adormeceu, ou descuidou o segurar no bicho, e este soltou-se, fugiu a grunhir por entre os pés dos foliões, senhores da classe mais alta da cidade.
      E minha avó Marquinhas, esquecida da função de ler as sinas, a levantar as saias e a correr pelo salão de baile a tentar apanhar o porco e a deixar as filhas com a galinha sentadas no soalho do salão.

 
versão encurtada e reformulada do texto publicado na revista SAMIZDAT

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

chapéu verde

...nem estava despida nem com roupas que se pudesse dizer a noite passada passou-a numa cama, ali dentro, dormida entre pacientes, entre aparelhos com sinais de luzes a dizerem se as tripas funcionam a preceito, se tem açucares e oxigénio em doses justas e os colestróis em níveis decentes.
    Ela vestia calças de ganga muito justas - azuis- e uma camisola verde a marcar-lhe as mamas, e tinha um blusão em cabedal castanho que descaía no braço da cadeira: coisa de corte duvidoso tal como as botas com tacão do tamanho do meu palmo bem esticado, num castanho semelhante ao blusão, que era mais um amarelo caca. 
   Dormitava quando me sentei. Eu a sentar-me a seu lado na cadeira que sobrava. Eu a medo: com licença. Eu com todo o cuidado e ela a remexer o corpo magro. Senti-lhe o cheiro que era um perfumezito sem destino em prateleiras que não fossem as de um qualquer supermercado.
   A mulher que tinha rimel nas pestanas e batom a cobrir-lhe os lábios - encarnado - não estaria ainda na casa dos quarenta, teria até muito menos, não fosse aquele leve traço - reparei que tinha um de cada lado dos lábios - e um plissado, ainda que suave, no canto dos olhos que ela manteve fechados apesar do ruído que troava no corredor feito sala de espera. Um corredor apinhado: doentes recebendo líquidos vertidos de saquinhos transparentes, caras de estar fartos, caras de estar doente, e havia-as, também, de quem está velho.
    Os médicos esgravatavam por ali e os técnicos e os enfermeiros.
   Um relógio especado na parede assinalava, mudo, a passagem lenta, imensamente demorada, do tempo que pesava como se fosse um suor de trabalhos forçados, e seria dele que o ar semelhava pejado de maus gases - como custava respirar.
   Ela remexeu uma mão sem anéis nem pintura nas unhas e eu vi-lhe o relógio, uma coisa enorme com ponteiros a navegarem entre números escritos a vermelho sobre fundo azul. Estava parado nas duas de um qualquer outro dia que não este, que era meio dia e treze no relógio da parede.
   Natércia Pimentel, chamou a enfermeira e ela endireitou-se, abriu os olhos que eram enormes e de um azul de céu ensolarado, e ficou a agarrar a napa preta do cadeirão como se fosse a amurada de um navio de onde olhasse, incrédula, que a chamavam do cais.
   A enfermeira era tão bonita e tão menina, a olhar a mulher e a dizer: venha comigo.

   Eu sorri e ela piscou-me os olhos como a responder, e sorriu também, a afastar-se. Só então lhe vi o chapéu de feltro. Verde. Igual ao tom da camisola. Um chapéu que ela tinha enterrado quase até aos olhos.  Um chapéu a não deixar desvendar a cabeleira, a tapar, diria eu, um cabelo que seria em cachos de vermelho, ou em doirados, ou negro atado em duas tranças. 
   Assim pensei eu a olhar o chapéu da mulher colocado como se quisesse esconder.




quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

estou em espera




estou naquele limbo doce de esperar uma chegada boa

aguardar quem se ama é uma festa! ficar assim a ver passar minuto a seguir a minuto e depois dizer: é meia noite! olha, já faltam menos dias para apertar nos braços e beijar quem tanto amo!
é...
estou em espera e nem sei se deva ficar assim dependurada dos minutos...
o melhor talvez fosse preparar-lhe doces, fazer-lhe uma sopa, decorar de novo o quarto onde durma,
mas o que me apetece é ficar simplesmente a pedir que não chova, ou a providenciar-lhe um guarda-chuva e uma caixinha com peúgas, que pode dar-se o caso que as traga suadas do caminho andado para chegar ao sítio onde eu espero: longe!
que tão apartados que temos estado!
não vejo a hora!
depois de saber que viria, ficou-me um desassossego que nem sei se consigo ficar de perna traçada a contar os dias, de domingo a domingo
antes me metesse a caminho, ao seu encontro
mas se dizem que não posso, se eu nem sei a estrada! talvez me instale num degrau da casa a olhar por onde vem, quem vem de fora, e aqui chega: uma estradinha com pó, cercada de valados, e ao fundo um campo chão onde semeavam milhos, mas que não foi plantado
olha... posso pedir que aterre aí o avião!
vou escrever para a companhia e pedir-lhes que tragam até ali ao terreiro, o meu ente querido, que depois pode vir na mula que lhe enviarei ou, caso não chova, nem esteja muito sol, pode vir vindo a pé
e aí, já eu irei caminhando ao seu encontro 
eu a andar debaixo da sombrinha e, para que não me dei em choro o ver de repente a sua imagem, irei rodando as varetas de modo que tape destape o local onde esteja, e que, antes de o ver, eu adivinhe
e será sempre uma surpresa

prometo que sossego
prometo que não faço escândalo a saltar-lhe ao pescoço
que nem lhe darei beijos lambidos nem irei sujar com minhas lágrimas as mangas dum casaco que traga



estou em espera e por isso não contem comigo para coisa outra que não seja falar disto




foto da net



foi um anjo




Ah! está desvendado o mistério
Quem me enviou o livro foi um anjo! 
Que saudade tenho!



domingo, 24 de janeiro de 2010

Passajando rotinas






um texto  publicado por mjm  a quem agradeço, que é o mínimo que se deve a quem escreve textos como este que ela escreveu



"Não me venham dizer que os limites se reconhecem por se ter inventado uma sinalética e por proliferarem cartazes normalizados perfeitamente decalcados sobre os rostos, porque Maria da Graça desconhece códigos e é regida pelo instinto que lhe veio das coisas terrenas e nem sabe que alguém as apelidou de realidade. Se sonha paraísos, ninguém lhos mostrou. Talvez a teia da imaginação seja isso: um intrincado de necessidades que passam a fronteira física - talvez por isso alguém um dia se aventurou num passeio maior do que a área do seu quintal e deu de caras com o universo.
O que é certo é que Maria da Graça sente os pregos retorcidos a rasgarem-lhe a pele dos sonhos e reconhece amarelecidas as manchas que cunham as lembranças, mas não a vontade. Não sabia muito bem porquê, nem se interrogava sobre isso; sabia apenas que em cada dia se levantava com o sol e que quando abotoava o último botão da camisa e erguia os braços na última volta do nó do lenço, enquanto os descia já os trazia eléctricos de vontade, tal um ciclo pela repetição, mas novinho em folha o gesto da navalha que corta pão e queijo e os leva instintivamente à boca. Aquela fome sem hora, que faz dos olhos boca e das mãos ceifeira que sega trigo, joio, tudo o que vem da terra e dos bichos à volta. Uma fome sôfrega que desperta a saliva e abre directo o caminho entre dentes e estômago e todo o âmago se transforma num infindável aparelho digestivo e voraz.
Numa dessas tardes soalheiras, àquela hora entre o turno do chão lavado e a loiça a secar no escorredor, e o do migar das couves para a refeição da noite, passajava trapos, entretendo mãos e pensamento - não necessariamente por esta ordem -, quando num ímpeto irreprimível se levantou e se lançou a correr pátio afora. Só parou quando pernas e fôlego lhe negaram outra distância e espojou-se. Terra vermelha, pólen, restolho; a terra toda num turbilhão dentro dela. Ali deitada, sob um céu azul enorme, subitamente rasgado pela estridência da sua imensa gargalhada.
Estremeceu a terra toda, na tarde em que Maria da Graça vomitou papoilas."




e assim celebro o papoilas de janeiro que veio à estampa faz hoje um ano

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

quem me desvenda este mistério?


recebi esta delícia no correio


um livrinho que é um verdadeiro tesouro

propaganda da editora?
terei ganho algum prémio e esqueci-me?
terei algum admirador ignoto?

aproveito e, bem educada, agradeço
mas irrita-me não saber a quem

vem daqui da wook  será spam?!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein