quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

requiem




Morreu dançaricando em cima do varal do cortinado.
Sei que se espantam, que nem acreditam no que digo, e me chamam louca, mas é a pura verdade.
Ela tinha por costume dependurar-se no cortinado, subir por ele, e depois ficar zanzando a passear-se entre as argolas que dependuravam um tecido com riscas amarelas, de baixo até acima, que é o mesmo que dizer a toda a altura da cortina da janela que tenho na cozinha.
No dia em que fui dar com ela já morta, tinha comido carapaus grelhados – um resto que ficara do almoço.
Subira como era seu costume, mas chegada lá cima, ter-se-á gorado o intento de ficar zanzando, que quando pretendeu deslocar o corpo naquele quase sapateado, faltou-lhe a força, desequilibrou-se, e já viria morta quando se estatelou no ladrilho vermelho.
Nem a salvou aquele ditado, ou será até coisa explicada pelas leis do movimento, de que gato cai sempre sobre as quatro patas. A minha gata terá morrido de ataque fulminante, o que também dá nos outros animais que não seja a gente.
Anastázia de seu nome, tinha aquele costume de subir o cortinado e ficar zanzando como se fosse um bailado.
Hoje mudei a tal cortina de riscas cor de canário, troquei até a posição dos móveis, senão morro eu de tanta saudade.




         TCA


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

dia de anos

Com que então caiu na asneira
de fazer anos nesta quarta-feira?!
Que tolo!
Ainda se os desfizesse,
mas fazê-los não parece
de quem tem muito miolo!

E já no ano passado
fez a mesma tolice?!
Por esse andar, quase aposto,
vai-lhe tomar o gosto,
e repetir
 ano a ano!
Coitado!

Não faça tal, porque os anos
só nos trazem desenganos
e  fazem a gente velha!
Faça outra coisa, 
que em suma,
não fazer coisa nenhuma,
também não lhe aconselho.

Mas anos...
Não caia nessa!
Olhe que a gente começa,
às vezes por brincadeira,
e depois, cria-lhe o gosto,
já não tem vontade sua,
e fá-los, queira ou não queira,
esses maganos, que nos dão tanta canseira!


um poema de João de Deus livre e ousadamente alterado por mim que me apetecia oferecer-te um poema levezinho e lembrei-me deste

terça-feira, 29 de novembro de 2011

reflexos



Lá fora, o sol brilhava. Intenso.
Um reflexo de cegueira no branco de cal.
Despidos de luz que reenviassem, os olhos da tua irmã  mais velha e os olhos da tua irmã mais nova. Dois pares de olhos a olharem-te de um alto sem sopé nem base. Um alto todo imaginado, que elas tinham descido a escadaria degrau a degrau, quando chegaste. E no entanto, continuavam vagando acima do sítio onde as vossas vozes aguardaram sempre, que se fizesse um silêncio antes que cada uma falasse. Frases curtas. Palavras isoladas com poder de verbo. Nenhum som mais alto do que o outro. E só tu a ouvir o grito amalgamando-se com o ar da sala.
Um grito por cima das vossas vozes, enquanto decidiam o que fazer ao açucareiro, às facas com cabo de osso, e ao baixo relevo trazido nem sabias de onde. Um valor enorme o daquele tinteiro – cristal debruado a prata.
Estavas certa de ouvir nitidamente a voz dela.
A sala atafulhada, e mais o sol que dava do lado do páteo. A casa em que tinham crescido reduzida a isto: um para mim, outro para ti. Aquele ali vende-se e divide-se o saldo.
As vossas vozes comedidas. Grito, apenas o que tu ouvias ressoar no canapé de palhinha e nos reposteiros – seda pura, trazida do oriente.
– Podes ficar com ele  – disse a tua irmã mais velha.
– Toma, leva – dizia-te, a segurar um vasinho. Uma marca castanha, restos de um pé de salsa, desfeava a porcelana mal lavada.
– Ofereço-te – insistia.
E era também a tua irmã mais nova.
– Toma, fica com ele – dizia, a segurar um gato de loiça a que faltava a pedrinha de um olho.
O grito era a voz dela, não te restavam dúvidas.


sábado, 12 de novembro de 2011

ao chá



Sentou-se como se ainda fosse. 
E já não era. 
O chá soube-lhe demasiado à erva de que era feito, ardendo a água como se fosse isso apenas: água fervente. 
E como lhe pesava a chávena de uma loiça cara em azul debruado a oiro. 
Maria Inácia entrelaçara o bojo com a mão inteira. A mão dela com os dedos nodosos de uma artrite antiga. 
Sentia escaldarem-lhe cada um dos veios. Até nos ossos ela sentia o quente. Apertou a loiça mais um pouco. Aquele calor a trespassá-la braço acima, e a encolherem-se num desassossego os músculos de todo o corpo. Um prazer estranho, pensou ela, a chávena muito apertada na mão esquerda. E o fio de lágrimas que lhe marejou os olhos  seria do imenso esforço. 
Bebeu um minúsculo gole e sentiu aquele sabor estranho.
Eram seis sentados em redor da mesa. Ninguém bebera o chá fervente antes que ela tivesse bebido aquele golinho. Foi só quando se ouviu o tinir dos talheres. O bolo de nozes a ser partido em fatias estreitinhas, o açucareiro a passar de um a outro. E o mel. E a casquinha de limão. E o ruído, raro, de algum sorver mais descuidado.
Maria Inácia serviu-se de manteiga numa torradinha de pão de centeio. 
Amparara com a outra, a mão que segurava a faiança. Maria Ináca no esforço de colocar a chávena sobre o pires. As mãos dela cada vez mais inseguras do que fizesse uma e fizesse a parceira, tinham aprendido a entreajuda mesmo nos pequenos gestos em que nem deviam, que  mais não fosse por uma questão de etiqueta à mesa.
Dentro em breve, seria o costume: lembra-se, tia? lembra-se mãezinha? sabe como foi avó, sabe? Conte-nos, dona Inácinha - era a fala de uma amiga que estava por lá como se fosse da família. E Maria Inácia se contasse seriam recontos. Ou inventaria. E sorriu-se de novo, os olhos perpassando cada um deles. 
Quase distraída, foi erguendo a chávena. Subiu aquela loiça muito azul até à altura do peito. E mais um pouco. A mão a segurar a asa, dois dedos apenas, e ela muito hirta, muito direita na cadeira.
Maria Inácia muito contente de ter conseguido um gesto como antigamente. 



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

loucura,Otelo?


Expresso da Linha questiona-se "está tudo maluco ou é só ele?" o que comentei deste modo: 
"é assim como que um estado anunciado: está-lhe na massa do sangue, pula-lhe e de vez em quando salta-lhe... não deve bater muito bem, não... vá que lhe deu para levar em frente a revolução dos cravos...depois disso mais valia que estivesse calado...e ainda lhe dão caixa sem comentários..."
Mas fiquei matutando.
E fui em busca de mais para reflexão.
E encontrei uma crónica no semanário Sol.
Estarão na base desse texto, assinado por Luís Osório, outras declarações de Otelo, mas é tão a propósito que o transcrevo na íntegra. 
Aqui fica.


Herdou o nome do avô – Otelo Augusto – e pediu dinheiro ao pai para fazer um curso de representação: desejava cumprir o nome e ser um verdadeiro Otelo.

Nas últimas semanas o palco voltou a ser ocupado por Otelo Saraiva de Carvalho. Todos os anos, umas vezes mais e outras menos, é procurado pelas perguntas de sempre. Desta vez, empurrado por um impulso que o leva a fazer e a dizer o que não se espera, quase afirmou sentir saudades de Salazar e confessou-se angustiado e arrependido por ter feito o 25 de Abril.

Conheço Otelo de poucos encontros. Um na sua casa de Oeiras, outro no Rádio Clube quando me quis convencer a contratar Os Parodiantes de Lisboa – de quem era amigo e admirador – e vários pequenos diálogos que, sem assunto, fomos tendo.

Há umas semanas voltei a lembrar-me de histórias que me contou. A culpa foi de João Miranda, chefe de gabinete de Jardim Gonçalves, por ter recordado um episódio com uma cozinheira da sua família. Chamava-se Delfina – e certa vez, candidamente, perguntou à dona da casa «se o senhor Santos Costa ainda era general ou se já era Salazar».

Ao imaginar a legítima dúvida de Delfina – dúvida que, aliás, não era um exclusivo da cozinheira (para muitos Salazar era um posto e não um nome) –, voltei a Otelo e lembrei-me do amor que ele me confessou ter pelo nome herdado do avô, Otelo Augusto, alentejano de Moura que se apaixonou pelo teatro.

O avô morreu cedo, desamparando o filho. E este, anos mais tarde, ouviria o jovem Otelo pedir-lhe dinheiro para entrar num curso do Actors Studio, porque desejava cumprir o nome e ser um verdadeiro Otelo!

Por isso, sinceramente, acho bizarras as críticas às suas palavras. Se Otelo fosse controlável, se fosse calculista no que pensa e diz, se fosse consequente e não tivesse a mania das grandezas, nunca teria liderado a revolução que derrubou o Estado Novo.

Disse-lhe isto há uns anos e ele não gostou. Tinha-lhe feito uma pergunta sobre a democracia directa e ele, entusiasmado, fez um paralelismo com a democracia de Péricles, com a experiência da Comuna de Paris e com os conselhos de operários e camponeses no início da revolução russa.

Nada havia a comentar: a partir daquele momento percebi que deixara há muito de ser tenente-coronel, coronel ou general, e já concretizara o sonho de ser Otelo.

Conto-lhe três episódios. Numa célebre viagem a Moçambique, pouco tempo após o 25 de Abril, Spínola pediu a Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros desse Governo provisório, que fosse a Moçambique negociar com Samora Machel um acordo de cessar-fogo com a Frelimo. Só que, entre as sombras, Spínola chamou Otelo a Belém e ordenou-lhe que vigiasse Soares, visto não confiar nele.

Otelo, então comandante do Copcon, aproveitou a viagem para conhecer Mário Soares e virar do avesso toda a estratégia do Presidente. Em plenas negociações, Soares seguiu o guião pensado por Spínola: negociar um cessar-fogo imediato e, implicitamente, criar condições para um regime pluripartidário.

Foi então que Otelo, perante o espanto geral, pediu a palavra e disse: «Eu estou aqui como representante do MFA e a nossa filosofia não passa por isto. De facto, quem tem direito ao exercício do poder num Moçambique livre e independente é a Frelimo. Se eu estivesse do vosso lado, faria exactamente a mesma coisa. Realmente não faz sentido o cessar-fogo».

Soares interrompeu a cimeira e levou Otelo para um canto. Mas, antes que pudesse abrir a boca, o militar avisou-o de que falava em nome do MFA. Mário Soares apenas lhe perguntou se estava preparado para dizer a Spínola o que estava a dizer-lhe a ele. Otelo disse que sim – e, a partir daquele momento, nunca mais os protagonistas conseguiram encarar-se.

O curioso é que Otelo, quando me confirmou os acontecimentos, colocou maior ênfase no espanto que sentiu ao ver Soares, no aeroporto em Nairobi, fazer do casaco almofada, tirar os sapatos e deitar-se nos bancos. Disse para consigo que não fazia sentido um ministro ‘espojar-se’ daquela forma.

O segundo episódio foi anterior: passa-se quando tinha os seus 17 anos. Desejava ardentemente ser actor, já o sabemos. O pai demoveu-o – e, ainda antes da entrada na Academia Militar, obrigou-o a pertencer à Milícia, grupo ligado à Mocidade Portuguesa.

Foi o único a ser reprovado – tendo ficado escrito no relatório que o aluno não tinha a mínima vocação para a vida militar. Muito mais tarde, depois do 25 de Abril, Otelo voltaria a encontrar o oficial que tal profetizara. Chamava-se Melo Egídio e, por ironia, viria a ser seu subordinado – e, depois, chefe de Estado-Maior das Forças Armadas.

O terceiro episódio aconteceu um mês antes do 25 de Abril. O país assistira, a 16 de Março, a uma tentativa de golpe de Estado e vários militares tinham sido presos. Otelo temeu que a companhia das Caldas – que avançara solidária com Spínola, por este ter sido exonerado do cargo que ocupava – tivesse abortado a operação que preparava há tanto tempo.

Era fundamental voltar a falar com os operacionais, moralizar as tropas e ligar as pontas soltas.

Foi exactamente isto que disse a Melo Antunes. Num café na Avenida de Roma, Otelo reafirmou que estava preparado para liderar o processo, garantiu que era de confiança e que tinha tudo na cabeça.

Melo Antunes ficou de escrever o programa político – e marcaram uma derradeira reunião para a Quinta da Figueirinha, perto de Oeiras. Aí ficou definido que o dia escolhido teria de ser antes do 1.º de Maio, para aproveitar a obsessão da PIDE com os comunistas. E assim foi.

Não fiquei surpreendido com as suas declarações, como poderia? Otelo é hoje exactamente o que sempre foi – e, talvez por isso, um golpe de Estado numa madrugada em final de Abril resultou.

Excessivo, brutal, terno, incoerente e megalómano, foi sempre, para o bem e para o mal, um actor em representação. Não o actor que julga representar uma mentira, apenas o homem que se julga providencial e escolhido por Deus.

E de alguma forma o foi, não tenho dúvidas. Também por isso, não entende o porquê da morte da sua filha, uma menina de sete anos que, em menos de 24 horas, se despediu nos seus braços no Hospital Militar. Meningite, disseram-lhe. Também por isso não entende – mas, quando lá volta, quando regressa à brutal imagem, Otelo não é mais nem menos do que outro qualquer homem nas suas circunstâncias. Humano, demasiado humano."



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

mares de outono

  - A questão, disse Inesinha, e esticava as pernas vestidas de negro transparente, os pés  dela calçados com sapatos rasos atados com cordões.
  Mariana mal a escutava, a olhar o mar em frente, um mar que ficara excepcionalmente calmo depois da tormenta que fora a noite.
  Sobre a mesa, a chávena de chá que Inesinha beberricava de vez em quando, e entretanto puxava fumaças dum cigarro tamanho gigante com filtro castanho.
  E havia ainda a caneca que Mariana envolvia com a mão direita, o bojo embaciado, e o vermelho das unhas dela a fazerem reflexos ondulantes sobre o amarelo borbulhante da cerveja.
  Um sol de outono borrava sombras redondas no chão de cimento da pequena esplanada.
  - A questão é essa, Mariana, entendes?
  E Inesinha debruçava-se sobre o tampo da mesa, a chávena espetada num ar de maresia.
  Segurava com dois dedos a asa fervente a levar aos lábios sem pintura o que seria um sorvo ruidoso.
  Dizia das suas razões. Contava como tinha sido, aventava como seria, e rematava com uns "sabes?" e uns "percebes?" ou esganiçava um "ouves-me?".
  E nesse ir dizendo da amiga, Mariana bebia tranquila mais um gole.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

véspera

seguiam-na, pé ante pé como se fossem pintainhos atrás da galinha
quase meia-noite e a casa parecia amedrontada: nem vivalma mais que aqueles quatro corpinhos em camisa surripiando ruidos ao silêncio dos sonos que os outros dormiam
Mariana voltou-se com o indicador a cobrir-lhe, num prumo perfeito, o biquinho dos lábios e a ponta do nariz, e eles silenciaram dum ruído que nem faziam, não fosse o coração de cada um batendo mais que a conta
Mariana parada no cimo da escada e eles em fila mal formada a quererem espreitar o que ela espreitava: seria essa a hora? não era! a hora seria de madrugada, mas Mariana dissera: espreitaremos antes
e ali estavam o Gabriel, o André e a Zulmira, os netos da avó Celísia
nem irmãos eram, cada um filho de uma filha, e a comandá-los a prima Mariana que tinha sido adoptada, ainda de mama, pelo único tio que tinham
Celísia percebeu o reboliço que eles tomavam por silêncio, e sorriu-se
que Mariana, nos seus dez aninhos, tivesse tido o bem senso de vestir-lhes roupa quente por cima das camisas de flanelinha de pelo, pensou Celísia e voltou-se no leito largo de viúva recente
que vissem os presentes, que satisfizessem esse que seria um dos primeiros desacertos com as regras da sociedade
e Celísia dormiu de coração aconchegado

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

olhos de insecto



Ela nem responde entretida com a mosca, as asas transparentes e os anéis do corpo. 
Ou será da morte que ela se devaneia...
A voz indaga, conta, espera, e ela agarra uma asa do bicho, réstia de rendilhado ali sobre a mesa, o cadáver do insecto entre os seus dois dedos. 
Na sala iluminada com luz forte, apenas ela, Mariana, e aquele senhor que despiu o casaco e o colocou nas costas da cadeira.
- Duas vezes... 
A voz do homem ecoa pela sala, só paredes nuas, e nem mais janelas que aquele pedaço de vidro a correr junto ao tecto.
Duas punhaladas no pescoço, diz ele.
Ódio premeditado ou gesto incontido?
Quer que fale disso.
Como é belo o olho da mosca, assim, visto de perto.

domingo, 25 de setembro de 2011

a oval



Sobre papel grosso, assente no chão, desenhou com traço vigoroso. 

Primeiro desenhou um quarto de círculo.
Depois, deixou que o pedaço de carvão fosse escorregando até ao fundo da folha, curvando  para baixo – cada vez menos curvo, até ficar,  inscrito no branco do papel, a metade de um ovo.
Repetiu no lado oposto.
Simetria perfeita sem os rigores da régua e do compasso.
Desenhara, simplesmente, o contorno do que seria um rosto.
Parou a olhar o traço.
Salteou riscos diminutos. 
Um risco atrás do outro, a simular um cabelo farto, ligeiramente ondulado, e curto, muito curto – não deixou que sobrassem traços ao nível da zona onde seria a face.
Escorregou o indicador sobre um risco grosso que traçou de cima abaixo: sombreou um pouco, sugeriu volume, indicou que a luz vinha do lado oposto. E deu por terminado. Antes, assinou o seu nome no canto inferior direito, e a data em que estava a ser realizado.
Um rosto, e nem olhos, nem o esboço de uns lábios, um nariz adunco...
Levantou o corpo do chão de tijoleira onde desenhara sentado, o papel entre os pés, os joelhos flectidos.
Finalmente, aspergiu fixador sobre o pó de carvão, sobre o rosto imensamente triste da mulher que vira nessa tarde.


sábado, 24 de setembro de 2011

querido Ognid

já não me restam dúvidas minha estimada amiga e aqui venho, ao blogue aonde nos conhecemos e estimamos, recordar, que é função dos que ficam dizer dos que se vão e nisso dar-lhes o nosso quinhão de eternidade 
fazias essas belas fotos, e a gente, os que escrevinhávamos,  escrevíamos nelas e tu gostavas, lembras-te?!


portais escancarados
quais mãos esperando
dádiva
um mar de mundo
um céu de cores iluminado
o infinito na palma das mãos
um passo apenas
um desvio da gente
estamos no para lá de nós
no infinito
apenas um portão aberto...
o coração da gente

era no blog catedral onde tu assinavas Ognid e eu era a Seilá
obrigada meu querido Dionísio Leitão e até um dia, se os deuses assim o entenderem

terça-feira, 13 de setembro de 2011

eu assim entendo...

um sentimento acre que corrói o corpo
é causa, presumo, de ferimentos gangrenados nas partes moles
não foi disso que morreu o Raimundo? não foi de um ódio que ele ruminou em vida? não terá sido desse desamor intenso que lhe apareceu aquele prurido malcheiroso mesmo na zona em que o corpo se abre para dar saída à merda que tem dentro?
a mim sempre me pareceu...
convenci-me que tinha sido desses ódios, que não se deram em murros nem em tiros, nem sequer em desaforos: ódios calados que lhe foram roendo as carnes, destruindo, antes que tudo, a alma - uma vida inteira chafurdando nos seus próprios males...
eu convenci-me que gangrena e sarna e coisas dessas que dão em apodrecer o corpo, é mal de gente que tem dentro um sentimento do demónio
ou...
que deus me guarde!
que lhe deram um mal
alguém que, calado, o vem odiando
não terá sido disso que tonteou a Mariana e ficou falando pelos cantos o bom do Cipriano?
eu entendo...
que foi tal e qual aconteceu com o sobrinho do Raimundo...
disseram-me ainda há nada que deu fim aos seus parcos dias afogado no poço
que deus seja louvado!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

bucólico ou nem tanto

aldeias espreitando de cabeços ou despenteadas no chão da planície
pequeninas vilas
povoados onde a vida parece decorrer ao ritmo do sol e das chuvas
e das luas
hoje a têvê instala-se no café da praça e rivaliza com a natureza
e rivaliza com a igreja, que é uma mole a gente que se senta  a ver a bola ou a novela no écrã projectado na parede, e meia dúzia os que assistem ao santo ofício na manhã de domingo
aldeias a que se chega depois de tanta estrada, que me ocorre como seria quando os caminhos eram apenas os que trilhavam as mulas e as ovelhas
perdidas não estarão, agora, e até recebem, hospitaleiras, quem queira fruir do seu estado de alma que é o das andorinhas chilreando na manhã de uma chuva de agosto
ou será o ruído do carro acelerando pelas ruas, dez da noite, como se fora na cidade grande
aldeias com seus castelos raia afora
assomam ameias numa curva que sempre se abre na estrada alentejana ou no redondo íngreme de uma lomba
e há lá coisa mais linda que subir a um desses baluartes da nossa história e olhar Espanha muito ao longe, como nos tempos em que as damas mal cheirosas olhariam os seus homens cavalgando
isso, e os campos salpicados de oliveiras
rebanhos de cabras e ovelhas pastam nas escassas sombras e é como se Jesus por ali andasse de milagre em milagre

a paz que desejamos ver nas pequenas coisas...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

só se fosse...

Se me tivesse sido dado, num acaso, ter nascido só com um olho...
Um olho que abrangesse o espaço que vai da extremidade de um, à outra extremidade. Um olho que ocupasse a zona em que o nariz divide o rosto. Ou que ficasse só do lado esquerdo, a deixar um ror de face do outro lado. Ou o contrário.
Tivesse eu um olho apenas, de um ou outro modo, verde, azul, negro ou castanho, se fosse só um olho, eu choraria um choro desvalido, copioso, por qualquer desaforo.
Talvez não chorasse por tristezas, males de alma, desassossegos, mas por desaforo, estou certa, desataria avalanches do saco lacrimal do tal meu olho.

Apenas se fosse desaforo
apenas se fosse um único olho

Com estes dois
com estes jeitosinhos, um de cada lado
arrumadinhos como Deus mos deu,
nem uma lágrimazinha escorre
e podem dizer-me os piores horrores. 
Choro copioso, apenas se for tristeza funda, coisa de alma, desassossego.

Chorar por desaforo só mesmo choro defeituoso.

domingo, 21 de agosto de 2011

flor de lótus

Cambiantes de cera e os reflexos que a luz lhe confere. E nem um veio, um vinco, um dedo marcado de quem ali a tenha colocado por promessa, enfeite, ou tão só pelo gosto de a ver pasmada aos pés de cristo-morto. Nenhum  sujo de óleo que tivesse escorrido de um guizado. Brancura apenas, e os laivos multicores da luz coada nos vitrais.
Uma flor boiando no altar de nosso senhor.
Pungente, lancinante, o grito que já nem se ouve e ainda assim perdura pelos séculos, pelos milénios, mares e desertos, pragas e festins, mortes e nascimentos, e o rumor intenso do homem-deus morrendo pelos outros. O mesmo rumor que atravessa o branco desta flor em taça de vidro, soprado por pulmão de um que nem terá vivido no temor a deus.
Estames cor do oiro, e nem caule que a erga, magestosa. Uma corola em pura singeleza, diria que submissa, diria que temente. Diria mesmo que estará orando: perdão, senhor, imploro, pelos meus pecados e pelos pecados de todo o universo.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

o sublime valor dos vencidos*

Salgari,Hemingway. Dois escritores apenas de entre os muitos criativos, génios, que desde Séneca escolheram partir deste mundo a seu belo modo, em dia aprazado.
Usam modos solitários, por vezes prosaicos como Virgínia Woolf, ou fazem disso um evento público como Mishima.
Nem sempre ficam registos tão directos como  deixou Cesare Pavese no seu diário: "Os suicidas são homicidas tímidos. Masoquismo en vez de sadismo" e o seu lapidar: "Não voltarei a escrever"
Mas na obra de todos, uma frase, um poema, denotará a sua pulsão no confronto com a morte. 

Florbela Espanca nestes belos versos:
  
Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo outono,
Fecha os olhos, simples, docemente,
Como à tarde uma pomba que tem sono...

ou Mário de Sá Carneiro no seu poema Fim


Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.





"O suicidio é o sublime valor dos vencidos" - Maupassant que morreu num acidentede carro




terça-feira, 9 de agosto de 2011

obrigada Rolando

Eu não privei com ele
Foi coisa de encontros escassos na Tertúlia

E no entanto, deixo aqui o meu preito ao homem que umas poucas vezes disse, referindo o que eu tinha escrito: gostei muito!

Fico feliz que um dia, num acaso, uma palavra minha, seguida das demais, um texto, tenha merecido o seu apreço, o tenha agradado

E eu que creio que cada um leva consigo para o Universo cada letra, cada frase, cada gesto
creio cada vez mais nisso: que andarão por aí os nossos pequenos gestos levados por ele, alimentando o saber dos anjos

obrigada por seres, Rolando

sexta-feira, 29 de julho de 2011

o tio

Eram as férias grandes e a mãe mandava-mo
que viesse a banhos de mar para casa do tio Afonso
era assim desde a idade de seis anos
e nunca o tinha sequer admoestado
até hoje
- homessa – respondeu-me a coçar o pescoço com a mão dobrada, a venta larga latejando de um ar que lhe sobrava
vivaço o moço, pensei, e nunca o tinha visto senão menino, e nem aquele dobrar do joelho ininterrupto, enquanto me olhava
desisiti do intento que era fazer que confessasse
arrepiei caminho que mentir-me era doer dobrado, e eu queria muito perdoar-lhe
tentei bons modos:
- olha-me cá, Carlos, melhor será que a guardes na garagem, enquanto não a devolves
nem me olhou
agarrou a motorizada com as mãos abafando os punhos de borracha, e lá foi deslizando o engenho para dentro, eu atrás dele:
- mas olha que é só por hoje, olha que nem pensar em ficares com ela
e o moço esbaforindo, galgou de um só passo a berma baixa que fazia rebordo do passeio onde detivera a moto, assim lhe chamava ele, mas aquilo nem era mais que uma bicicleta movida por um motorzinho - um brinquedo que teimou em dizer seu
o meu sobrinho dilecto, o Carlos com apelido Ribeiro tal e qual o meu, a tentar ludibriar-me
que sim, que o Ernesto lha vendeu por uns tantos réis que tinha no mealheiro de anos e natais
disse assim e rematou com um:
- sabe?
como se falasse verdade, e não falava
a Domingas do supermercado avisara-me:
- olhe que eles roubaram uma motorizada: o seu sobrinho e mais o Malhado - o Ernesto do terceiro frente, vendo senhor Ribeiro?
tava vendo, tava: o sonso do Ernesto, filho da parteira
e o sacana do Carlos a arrumar a motoreta na garagem:
- posso colocar deste lado? - acalmara o latejar da venta
e eu desorientado, eu a querer resolver a coisa do melhor modo, que terei falado sem o devido tacto quando disse:
- Carlos, essa merda não fica aqui em casa: vai entregá-la ao dono
e os catorze anos do filho único da minha irmã mais velha tinham-me olhado como se eu tivesse enlouquecido, redondos de um sincero espanto:
- quem lhe disse isso, tio?!
ofendido de estar a ser acusado injustamente
a olhar-me como quem diz: está doido varrido?!
e eu, a vê-lo fedelho, decido que melhor seria esperar uma noite, deixar que entenda o erro, que na manhã seguinte devolva o furto
e, neste meu golpe estratégico, digo-lhe:
- sobe para o teu quarto, Carlos, amanhã voltamos a falar sobre isto

(chamei o Ernesto e a mãe dele, mais a Domingas
devolveram a motorizada
mas ninguém mais me devolve a noite que passei a congeminar: com devo proceder, meu deus, como devo sem umas boas chapadas?)







sábado, 23 de julho de 2011

amarelo-limão

Trazem um lindo guarda-sol as senhoras que chegam, e eu distraio-me a olhá-las nesta manhã de praia com água gelada. Serão mãe e filha hospedadas num dos hotéis debruçados sobre a praia.
- não te esqueças de levar as almofadas,
terá dito a senhora mais idosa, a repetir o que já tinha dito antes de abalarem, estrada fora, a caminho da semana de férias,
e terá usado o mesmo tom imperativo, muito antes, muitos meses antes de aqui estarem:
- este ano vê se arranjas um hotel perto da praia, Margarida,
o mesmo tom que empregou decerto, nem há nada:
- não te esqueças da minha toalha,
como se tomasse banho e nem os pés molha.
Margarida é o nome da filha:
- Margarida, chega para lá a cadeira,
diz, e ajeita o fato de banho com uma risca amarela no decote, uma risca larga que lhe contorna o seio farto. Amarelo-limão sobre o preto do tecido que a senhora estica um tudo-nada nas virilhas e sobre as coxas adiposas.
- preto, quero um fato de banho preto,
e terá sugerido:
- este ano, devias levar um guarda-sol maior,
este, que a senhora mais nova abre com gestos compassados, numa larga sombra: riscas finíssimas em tons de lilás, que alternam com um amarelo muito claro. Um guarda-sol de que eu gosto.
E a mãe, de novo:
- estica bem a toalha para não ficarem vincos no corpo,
e amacia o tom, quase choraminga:
- o médico disse que desse sol directo sobre as pernas.
Eu a olhá-las detrás dos óculos muito escuros: os delas e os meus, nem sei se oiço, se imagino.
A senhora mais nova acomoda-se na cadeira, senta-se nas almofadas no mesmo tom do lenço que lhe prende o cabelo impecávelmente penteado.
Debaixo do guarda-sol nada se passa que não seja mãe e filha, e o amarelo-limão das almofadas.
Nem a minha imaginação para quebrar tanto sossego,

Não estivesse a água tão gelada, e mergulhava.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

14 de Julho

O suor dos corpos tem um cheiro pestilento, e será dos ódios. 
Os ossos assomam sob a pele,  e há mulheres com filhos sugando seios secos.
De cada rosto emana uma força estranha, e os lábios ressequidos gritam: queremos a Bastilha.
Terá sido assim o saque, que a fome, o corpo a desfazer-se, fraco, os olhos sobrando dos ossos descarnados, ver assim os filhos, o homem não suporta.
Solta-se a besta.
Disto se erguem sempre os povos pelos tempos.
Disto se derrubam mitos, Bastilhas intransponíveis.  .
Só depois clamores de igualdade.
Só depois a fraternidade, a liberdade.
Só depois da besta saciada... 

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein