terça-feira, 30 de agosto de 2011

só se fosse...

Se me tivesse sido dado, num acaso, ter nascido só com um olho...
Um olho que abrangesse o espaço que vai da extremidade de um, à outra extremidade. Um olho que ocupasse a zona em que o nariz divide o rosto. Ou que ficasse só do lado esquerdo, a deixar um ror de face do outro lado. Ou o contrário.
Tivesse eu um olho apenas, de um ou outro modo, verde, azul, negro ou castanho, se fosse só um olho, eu choraria um choro desvalido, copioso, por qualquer desaforo.
Talvez não chorasse por tristezas, males de alma, desassossegos, mas por desaforo, estou certa, desataria avalanches do saco lacrimal do tal meu olho.

Apenas se fosse desaforo
apenas se fosse um único olho

Com estes dois
com estes jeitosinhos, um de cada lado
arrumadinhos como Deus mos deu,
nem uma lágrimazinha escorre
e podem dizer-me os piores horrores. 
Choro copioso, apenas se for tristeza funda, coisa de alma, desassossego.

Chorar por desaforo só mesmo choro defeituoso.

domingo, 21 de agosto de 2011

flor de lótus

Cambiantes de cera e os reflexos que a luz lhe confere. E nem um veio, um vinco, um dedo marcado de quem ali a tenha colocado por promessa, enfeite, ou tão só pelo gosto de a ver pasmada aos pés de cristo-morto. Nenhum  sujo de óleo que tivesse escorrido de um guizado. Brancura apenas, e os laivos multicores da luz coada nos vitrais.
Uma flor boiando no altar de nosso senhor.
Pungente, lancinante, o grito que já nem se ouve e ainda assim perdura pelos séculos, pelos milénios, mares e desertos, pragas e festins, mortes e nascimentos, e o rumor intenso do homem-deus morrendo pelos outros. O mesmo rumor que atravessa o branco desta flor em taça de vidro, soprado por pulmão de um que nem terá vivido no temor a deus.
Estames cor do oiro, e nem caule que a erga, magestosa. Uma corola em pura singeleza, diria que submissa, diria que temente. Diria mesmo que estará orando: perdão, senhor, imploro, pelos meus pecados e pelos pecados de todo o universo.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

o sublime valor dos vencidos*

Salgari,Hemingway. Dois escritores apenas de entre os muitos criativos, génios, que desde Séneca escolheram partir deste mundo a seu belo modo, em dia aprazado.
Usam modos solitários, por vezes prosaicos como Virgínia Woolf, ou fazem disso um evento público como Mishima.
Nem sempre ficam registos tão directos como  deixou Cesare Pavese no seu diário: "Os suicidas são homicidas tímidos. Masoquismo en vez de sadismo" e o seu lapidar: "Não voltarei a escrever"
Mas na obra de todos, uma frase, um poema, denotará a sua pulsão no confronto com a morte. 

Florbela Espanca nestes belos versos:
  
Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo outono,
Fecha os olhos, simples, docemente,
Como à tarde uma pomba que tem sono...

ou Mário de Sá Carneiro no seu poema Fim


Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.





"O suicidio é o sublime valor dos vencidos" - Maupassant que morreu num acidentede carro




terça-feira, 9 de agosto de 2011

obrigada Rolando

Eu não privei com ele
Foi coisa de encontros escassos na Tertúlia

E no entanto, deixo aqui o meu preito ao homem que umas poucas vezes disse, referindo o que eu tinha escrito: gostei muito!

Fico feliz que um dia, num acaso, uma palavra minha, seguida das demais, um texto, tenha merecido o seu apreço, o tenha agradado

E eu que creio que cada um leva consigo para o Universo cada letra, cada frase, cada gesto
creio cada vez mais nisso: que andarão por aí os nossos pequenos gestos levados por ele, alimentando o saber dos anjos

obrigada por seres, Rolando

sexta-feira, 29 de julho de 2011

o tio

Eram as férias grandes e a mãe mandava-mo
que viesse a banhos de mar para casa do tio Afonso
era assim desde a idade de seis anos
e nunca o tinha sequer admoestado
até hoje
- homessa – respondeu-me a coçar o pescoço com a mão dobrada, a venta larga latejando de um ar que lhe sobrava
vivaço o moço, pensei, e nunca o tinha visto senão menino, e nem aquele dobrar do joelho ininterrupto, enquanto me olhava
desisiti do intento que era fazer que confessasse
arrepiei caminho que mentir-me era doer dobrado, e eu queria muito perdoar-lhe
tentei bons modos:
- olha-me cá, Carlos, melhor será que a guardes na garagem, enquanto não a devolves
nem me olhou
agarrou a motorizada com as mãos abafando os punhos de borracha, e lá foi deslizando o engenho para dentro, eu atrás dele:
- mas olha que é só por hoje, olha que nem pensar em ficares com ela
e o moço esbaforindo, galgou de um só passo a berma baixa que fazia rebordo do passeio onde detivera a moto, assim lhe chamava ele, mas aquilo nem era mais que uma bicicleta movida por um motorzinho - um brinquedo que teimou em dizer seu
o meu sobrinho dilecto, o Carlos com apelido Ribeiro tal e qual o meu, a tentar ludibriar-me
que sim, que o Ernesto lha vendeu por uns tantos réis que tinha no mealheiro de anos e natais
disse assim e rematou com um:
- sabe?
como se falasse verdade, e não falava
a Domingas do supermercado avisara-me:
- olhe que eles roubaram uma motorizada: o seu sobrinho e mais o Malhado - o Ernesto do terceiro frente, vendo senhor Ribeiro?
tava vendo, tava: o sonso do Ernesto, filho da parteira
e o sacana do Carlos a arrumar a motoreta na garagem:
- posso colocar deste lado? - acalmara o latejar da venta
e eu desorientado, eu a querer resolver a coisa do melhor modo, que terei falado sem o devido tacto quando disse:
- Carlos, essa merda não fica aqui em casa: vai entregá-la ao dono
e os catorze anos do filho único da minha irmã mais velha tinham-me olhado como se eu tivesse enlouquecido, redondos de um sincero espanto:
- quem lhe disse isso, tio?!
ofendido de estar a ser acusado injustamente
a olhar-me como quem diz: está doido varrido?!
e eu, a vê-lo fedelho, decido que melhor seria esperar uma noite, deixar que entenda o erro, que na manhã seguinte devolva o furto
e, neste meu golpe estratégico, digo-lhe:
- sobe para o teu quarto, Carlos, amanhã voltamos a falar sobre isto

(chamei o Ernesto e a mãe dele, mais a Domingas
devolveram a motorizada
mas ninguém mais me devolve a noite que passei a congeminar: com devo proceder, meu deus, como devo sem umas boas chapadas?)







sábado, 23 de julho de 2011

amarelo-limão

Trazem um lindo guarda-sol as senhoras que chegam, e eu distraio-me a olhá-las nesta manhã de praia com água gelada. Serão mãe e filha hospedadas num dos hotéis debruçados sobre a praia.
- não te esqueças de levar as almofadas,
terá dito a senhora mais idosa, a repetir o que já tinha dito antes de abalarem, estrada fora, a caminho da semana de férias,
e terá usado o mesmo tom imperativo, muito antes, muitos meses antes de aqui estarem:
- este ano vê se arranjas um hotel perto da praia, Margarida,
o mesmo tom que empregou decerto, nem há nada:
- não te esqueças da minha toalha,
como se tomasse banho e nem os pés molha.
Margarida é o nome da filha:
- Margarida, chega para lá a cadeira,
diz, e ajeita o fato de banho com uma risca amarela no decote, uma risca larga que lhe contorna o seio farto. Amarelo-limão sobre o preto do tecido que a senhora estica um tudo-nada nas virilhas e sobre as coxas adiposas.
- preto, quero um fato de banho preto,
e terá sugerido:
- este ano, devias levar um guarda-sol maior,
este, que a senhora mais nova abre com gestos compassados, numa larga sombra: riscas finíssimas em tons de lilás, que alternam com um amarelo muito claro. Um guarda-sol de que eu gosto.
E a mãe, de novo:
- estica bem a toalha para não ficarem vincos no corpo,
e amacia o tom, quase choraminga:
- o médico disse que desse sol directo sobre as pernas.
Eu a olhá-las detrás dos óculos muito escuros: os delas e os meus, nem sei se oiço, se imagino.
A senhora mais nova acomoda-se na cadeira, senta-se nas almofadas no mesmo tom do lenço que lhe prende o cabelo impecávelmente penteado.
Debaixo do guarda-sol nada se passa que não seja mãe e filha, e o amarelo-limão das almofadas.
Nem a minha imaginação para quebrar tanto sossego,

Não estivesse a água tão gelada, e mergulhava.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

14 de Julho

O suor dos corpos tem um cheiro pestilento, e será dos ódios. 
Os ossos assomam sob a pele,  e há mulheres com filhos sugando seios secos.
De cada rosto emana uma força estranha, e os lábios ressequidos gritam: queremos a Bastilha.
Terá sido assim o saque, que a fome, o corpo a desfazer-se, fraco, os olhos sobrando dos ossos descarnados, ver assim os filhos, o homem não suporta.
Solta-se a besta.
Disto se erguem sempre os povos pelos tempos.
Disto se derrubam mitos, Bastilhas intransponíveis.  .
Só depois clamores de igualdade.
Só depois a fraternidade, a liberdade.
Só depois da besta saciada... 

terça-feira, 5 de julho de 2011

senhora ministra

   - Juro por minha honra que cumprirei ...
   A voz saiu-lhe firme, pausada.
   A mãe costumava dizer-lhe: olha que os deuses vêem tudo! e acrescentava, depois de um intervalo curto, o necessário para a olhar do alto do seu metro e meio, e mais um pouco, com aqueles olhos muito claros, os mesmos com que veria os deuses: olha que eles castigam as meninas presunçosas...
   Setas de fogo, e corredores sem ir aonde, e o chão a abrir-se em precipícios: uma lista imensa de castigos.
   Letra por letra, palavra por palavra, Maria Rosa terminou a leitura da lauda de tomada de posse.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

insónias

Queria morrer  de um pontapé que lhe dessem no pescoço; ou afundar-se num mar de mosto; ou um pé descair-se: ela a rebolar pela ravina e o mar profundo a receber-lhe a vida inteira, bons e maus momentos, e sobretudo aquele atulhamento que eram as noites de insónia,  neurónios e sinapses baralhando os tempos que tinham sido, com os que nunca seriam, e ela revolteando o corpo no colchão ortopédico, último modelo comprado pelo marido. 
Gostava que a morte chegasse como se fosse um acto de descuido, coisa acidental decorrida de ela andar cirandando em zonas escusas da cidade, ou ter ido passear no carapeto de arribas mal delineadas pelos ventos.
(o mosto, era um desejo antigo, um modo outro de sair de aqui para o infinito - desejos estranhos que passam pela cabeça de quem dorme pouco...)

sábado, 4 de junho de 2011

alucinando com Rene

hoje só me vêm à cabeça quadros do Magritte
e nem entendo, que o meu deveria ser um dia semelhante ao de todo o cidadão neste recanto, hoje, dia de meditação, dia para deixar que o conteúdo assente, crie fundagem, e disso surja a decisão, se ainda não tomada
e eu neste despropósito: as telas insistentes de cada vez que cabisbaixo, busco o ângulo necessário, a posição para que reflita em boas condições
são sobretudo os rostos... 
 
e é recorrente a tela do cachimbo...


vou tentar uma reflexão condigna, mas assim não prometo



quarta-feira, 1 de junho de 2011

dia da criança

as mãos dos meninos carregam o Universo
galáxias indescobertas
camadas e camadas de segredos
mãos sábias de futuros
as mãos dos nossos netos

sábado, 28 de maio de 2011

S. Teófilo

Entrou escondendo o rosto no cabelo solto, quase desgrenhado. Entrou, e um odor de perfume caro seguia-lhe os passos: ela esgueirando o corpo como se fosse sem razão vir àquele sítio, mas quisesse muito.
Era o sol quase posto, badalavam avé-marias surdas pelos campos. Na capela, rezavam as mulheres do costume - só elas e nem padre, nem mais ninguém que orientasse aquele rezar cadenciado: avé maria cheia de graça, e por aí adiante.
Sentou-se no banco derradeiro, numa ponta junto da parede, e só então descobriu o rosto. E era um olhar tão branco, tão vítreo, tão distante que, a olhar aqueles olhos, se espantariam os bandos de aves, e nem os anjos descuidosos ousariam pousar-lhe no ombro.
E nem rezou, e nem acompanhou a reza das mulheres. 
Destapou um frasquinho negro que trazia apertado na mão, e bebeu de um gole: via-se o escorrer do líquido através da pele.
Os anjos que por ali andavam, por costume, àquela hora, nem se aproximaram quando o corpo, ainda muito jovem, tombou na pedra fria que era o chão da capela.
E nem as mulheres pararam as rezas.
Apenas um dos santos, Teófilo salvo erro, revirou os olhos pintados na madeira do seu corpo de boneco, e chorou duas lágrimas por aquela morte.

terça-feira, 24 de maio de 2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

assuntos de mulheres?!


Na Arábia Saudita!
"as mulheres não podem dirigir e devem ter uma autorização por escrito de um guardião - pai, marido, irmão ou filho - para deixar o país, trabalhar ou viajar para o exterior."





Ainda falando de assuntos de mulheres...
deixo-vos o texto de Isabela Figueiredo as putas somos nós



quinta-feira, 19 de maio de 2011

coisas da vida

Um embuste, o que Inácinha lhe fizera.
Aconselhara-a:
- Eu se fosse o teu caso, ía... - e metera-lhe na mão a direcção escrita num papelinho.
Dissera-lhe ainda:
- Hás-de ver numa esquina, uma montra com roupa de senhora: é por cima!
E não seria coisíssima nenhuma!
Nunca lhe criticaria o erro, ela que calcorreou o quarteirão, seca e meca, ela e mais o papelinho, para trás e para a frente: "onde diabo será que não encontro?", e afinal a  Inácinha tinha trocado!
Lá deu com uma entrada numa outra esquina onde havia um alfaiate, e nem havia montra de loja.
Não lhe pediria satisfações por esse erro, mas havia de dizer-lhe que nem era caso para lá ter ido.
Isso, havia de dizer-lhe, olhos nos olhos.
É que nem era nada de feitiço, nem de bruxaria, não senhora: a coisa que lhe acontecia era apenas a vida a interagir com o destino que lhe coubera em sorte, ou lhe estava inscrito algures! Apenas isso!
E pagara duas notas de quinhentos, ali batidas!
Havia de ouvi-las, a Inácinha!

domingo, 15 de maio de 2011

ao teu coração que tresbateu

O coração da gente,
Muitas vezes
Vezes demais, pressinto,
Pesa que nem ao homem
O molho das redes



Massa informe,
Mercúrio denso envenenando,
O coração da gente chora
Por muitas vezes,
Dias, anos, meses

A gente soluça o coração em fases
Intermitentes ais que guardamos
Choros de muito antes

Quando choramos,
Soluçamos alma e corpo
Tristezas do Universo todo

E vivemos

Vivemos apesar do grande choro
Um dia e mais um outro
Ai como pesa o coração da gente!
(Como nos pesa ainda mais o coração do outro!)

terça-feira, 10 de maio de 2011

o sol tão quente...

um grão da areia a rebolar entre os teus dois dedos e o sol de frente
o sol muito intenso na hora do zénite
o grão tão rijo parece um mundo redondinho ali aconchegado 
e quem sabe
quem pode dizer daquele pedacinho de quartzo
um planeta sujeito a forças imensas e só tu saibas que são apenas as forças dos teus dedos
um baguinho de entre a multidão incontável de tantos outros ali na praia
nem um fiapo de nuvem e o mar em espumas sossegadas
e entre os teus dois dedos talvez haja um outro ser deitado numa outra areia

segunda-feira, 2 de maio de 2011

pediria

ah! nem que fosse apenas um ditongo! sílabas despegadas que caissem como pingos de chuva a fazerem lagos de palavras!
ou nem tanto!
tão só o que bastasse para dizer o perfume de uma manhã de sol ou o cheiro acre da terra depois da trovoada. 
contar de fadas, arengar de demónios.
falar dos homens seria pedir demais, que são contos a necessitar palavras rebuscadas, muitas frases, parágrafos, diálogos: coisas só para mestres.
bastar-me-iam letras que se emparceirassem num verbo, num nome que chamasse outro até ficar um dito.
ah! palavras com que dissesse tristeza e alegria, ou um recanto de paisagem, ou a elegância de um gesto, ou um dizer jocoso suspenso entre duas frases!

pediria essa graça, mas não me atrevo a incomodar os deuses

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein