quinta-feira, 14 de julho de 2011

14 de Julho

O suor dos corpos tem um cheiro pestilento, e será dos ódios. 
Os ossos assomam sob a pele,  e há mulheres com filhos sugando seios secos.
De cada rosto emana uma força estranha, e os lábios ressequidos gritam: queremos a Bastilha.
Terá sido assim o saque, que a fome, o corpo a desfazer-se, fraco, os olhos sobrando dos ossos descarnados, ver assim os filhos, o homem não suporta.
Solta-se a besta.
Disto se erguem sempre os povos pelos tempos.
Disto se derrubam mitos, Bastilhas intransponíveis.  .
Só depois clamores de igualdade.
Só depois a fraternidade, a liberdade.
Só depois da besta saciada... 

terça-feira, 5 de julho de 2011

senhora ministra

   - Juro por minha honra que cumprirei ...
   A voz saiu-lhe firme, pausada.
   A mãe costumava dizer-lhe: olha que os deuses vêem tudo! e acrescentava, depois de um intervalo curto, o necessário para a olhar do alto do seu metro e meio, e mais um pouco, com aqueles olhos muito claros, os mesmos com que veria os deuses: olha que eles castigam as meninas presunçosas...
   Setas de fogo, e corredores sem ir aonde, e o chão a abrir-se em precipícios: uma lista imensa de castigos.
   Letra por letra, palavra por palavra, Maria Rosa terminou a leitura da lauda de tomada de posse.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

insónias

Queria morrer  de um pontapé que lhe dessem no pescoço; ou afundar-se num mar de mosto; ou um pé descair-se: ela a rebolar pela ravina e o mar profundo a receber-lhe a vida inteira, bons e maus momentos, e sobretudo aquele atulhamento que eram as noites de insónia,  neurónios e sinapses baralhando os tempos que tinham sido, com os que nunca seriam, e ela revolteando o corpo no colchão ortopédico, último modelo comprado pelo marido. 
Gostava que a morte chegasse como se fosse um acto de descuido, coisa acidental decorrida de ela andar cirandando em zonas escusas da cidade, ou ter ido passear no carapeto de arribas mal delineadas pelos ventos.
(o mosto, era um desejo antigo, um modo outro de sair de aqui para o infinito - desejos estranhos que passam pela cabeça de quem dorme pouco...)

sábado, 4 de junho de 2011

alucinando com Rene

hoje só me vêm à cabeça quadros do Magritte
e nem entendo, que o meu deveria ser um dia semelhante ao de todo o cidadão neste recanto, hoje, dia de meditação, dia para deixar que o conteúdo assente, crie fundagem, e disso surja a decisão, se ainda não tomada
e eu neste despropósito: as telas insistentes de cada vez que cabisbaixo, busco o ângulo necessário, a posição para que reflita em boas condições
são sobretudo os rostos... 
 
e é recorrente a tela do cachimbo...


vou tentar uma reflexão condigna, mas assim não prometo



quarta-feira, 1 de junho de 2011

dia da criança

as mãos dos meninos carregam o Universo
galáxias indescobertas
camadas e camadas de segredos
mãos sábias de futuros
as mãos dos nossos netos

sábado, 28 de maio de 2011

S. Teófilo

Entrou escondendo o rosto no cabelo solto, quase desgrenhado. Entrou, e um odor de perfume caro seguia-lhe os passos: ela esgueirando o corpo como se fosse sem razão vir àquele sítio, mas quisesse muito.
Era o sol quase posto, badalavam avé-marias surdas pelos campos. Na capela, rezavam as mulheres do costume - só elas e nem padre, nem mais ninguém que orientasse aquele rezar cadenciado: avé maria cheia de graça, e por aí adiante.
Sentou-se no banco derradeiro, numa ponta junto da parede, e só então descobriu o rosto. E era um olhar tão branco, tão vítreo, tão distante que, a olhar aqueles olhos, se espantariam os bandos de aves, e nem os anjos descuidosos ousariam pousar-lhe no ombro.
E nem rezou, e nem acompanhou a reza das mulheres. 
Destapou um frasquinho negro que trazia apertado na mão, e bebeu de um gole: via-se o escorrer do líquido através da pele.
Os anjos que por ali andavam, por costume, àquela hora, nem se aproximaram quando o corpo, ainda muito jovem, tombou na pedra fria que era o chão da capela.
E nem as mulheres pararam as rezas.
Apenas um dos santos, Teófilo salvo erro, revirou os olhos pintados na madeira do seu corpo de boneco, e chorou duas lágrimas por aquela morte.

terça-feira, 24 de maio de 2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

assuntos de mulheres?!


Na Arábia Saudita!
"as mulheres não podem dirigir e devem ter uma autorização por escrito de um guardião - pai, marido, irmão ou filho - para deixar o país, trabalhar ou viajar para o exterior."





Ainda falando de assuntos de mulheres...
deixo-vos o texto de Isabela Figueiredo as putas somos nós



quinta-feira, 19 de maio de 2011

coisas da vida

Um embuste, o que Inácinha lhe fizera.
Aconselhara-a:
- Eu se fosse o teu caso, ía... - e metera-lhe na mão a direcção escrita num papelinho.
Dissera-lhe ainda:
- Hás-de ver numa esquina, uma montra com roupa de senhora: é por cima!
E não seria coisíssima nenhuma!
Nunca lhe criticaria o erro, ela que calcorreou o quarteirão, seca e meca, ela e mais o papelinho, para trás e para a frente: "onde diabo será que não encontro?", e afinal a  Inácinha tinha trocado!
Lá deu com uma entrada numa outra esquina onde havia um alfaiate, e nem havia montra de loja.
Não lhe pediria satisfações por esse erro, mas havia de dizer-lhe que nem era caso para lá ter ido.
Isso, havia de dizer-lhe, olhos nos olhos.
É que nem era nada de feitiço, nem de bruxaria, não senhora: a coisa que lhe acontecia era apenas a vida a interagir com o destino que lhe coubera em sorte, ou lhe estava inscrito algures! Apenas isso!
E pagara duas notas de quinhentos, ali batidas!
Havia de ouvi-las, a Inácinha!

domingo, 15 de maio de 2011

ao teu coração que tresbateu

O coração da gente,
Muitas vezes
Vezes demais, pressinto,
Pesa que nem ao homem
O molho das redes



Massa informe,
Mercúrio denso envenenando,
O coração da gente chora
Por muitas vezes,
Dias, anos, meses

A gente soluça o coração em fases
Intermitentes ais que guardamos
Choros de muito antes

Quando choramos,
Soluçamos alma e corpo
Tristezas do Universo todo

E vivemos

Vivemos apesar do grande choro
Um dia e mais um outro
Ai como pesa o coração da gente!
(Como nos pesa ainda mais o coração do outro!)

terça-feira, 10 de maio de 2011

o sol tão quente...

um grão da areia a rebolar entre os teus dois dedos e o sol de frente
o sol muito intenso na hora do zénite
o grão tão rijo parece um mundo redondinho ali aconchegado 
e quem sabe
quem pode dizer daquele pedacinho de quartzo
um planeta sujeito a forças imensas e só tu saibas que são apenas as forças dos teus dedos
um baguinho de entre a multidão incontável de tantos outros ali na praia
nem um fiapo de nuvem e o mar em espumas sossegadas
e entre os teus dois dedos talvez haja um outro ser deitado numa outra areia

segunda-feira, 2 de maio de 2011

pediria

ah! nem que fosse apenas um ditongo! sílabas despegadas que caissem como pingos de chuva a fazerem lagos de palavras!
ou nem tanto!
tão só o que bastasse para dizer o perfume de uma manhã de sol ou o cheiro acre da terra depois da trovoada. 
contar de fadas, arengar de demónios.
falar dos homens seria pedir demais, que são contos a necessitar palavras rebuscadas, muitas frases, parágrafos, diálogos: coisas só para mestres.
bastar-me-iam letras que se emparceirassem num verbo, num nome que chamasse outro até ficar um dito.
ah! palavras com que dissesse tristeza e alegria, ou um recanto de paisagem, ou a elegância de um gesto, ou um dizer jocoso suspenso entre duas frases!

pediria essa graça, mas não me atrevo a incomodar os deuses

terça-feira, 26 de abril de 2011

nascido

mais do que haver luz de sol ou estar o céu nublado
mais do que andarem avezinhas a fazer ninho ou um sapo a coachar ali no lago
mais do que se fosse o dia inicial de tudo
ou fosse ele o dia derradeiro
apitassem combóios e navios
ou tivesse sido  de uma guerra o fim ou o início
final ou começo fosse do que fosse
amor ou ódio
ou pintura de quadro
ou carta que alguém escrevesse
fosse o que fosse que se imaginasse
risos ou dinheiros
ou simplesmente um cão roendo um osso
ou moedas chovidas dos céus
mais do que tudo
hoje
dia vinte e seis do quarto mês do ano de dois mil e onze
hoje
é o dia do teu primeiro vagido
glória aos arcanjos e deuses
e a ti menino que nasceste

segunda-feira, 25 de abril de 2011

grito





teremos cravos espetados em canos de espingardas
teremos flores em vez de balas
e o riso
o rir de alegria
semelhante em tudo ao daquele dia
esse rir de esperança e de futuro
a brilhar de novo

terça-feira, 19 de abril de 2011

oremos

se eu rezasse 
se eu pusesse as mãos unidas e orasse:
"Senhor dos céus, lá nas alturas..."
se eu soubesse padre-nossos ou ladaínhas
mas eu quebrei o terço de contas brancas que me deram
e o livro de orações deixei-o ao sol e à chuva
encarquilhou-se, corroeu as folhas, e das letras só vislumbro borrões ilegíveis
resta-me balbuciar uns versos sem mais sentido do que serem
eles em vez de preces:
"deuses dessa imensidão que é o Universo
atendei o rogo desta humilde serva
intercedei para que seja de boa parição a sua hora
que tenha a mama abarrotada de néctar
que não lhe falte o pão, o mel, a água
e na hora do parto, dai-lhe,
Senhor Deus do Universo,
Vós que reinais sobre os outros deuses,
concedei-lhe aquele quanto baste de energia!
disso, eu hoje Vos rogo e agradeço!"

eu orando, assim, como se fosse...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

sorrisinhos

a gente em frente uma da outra e ela disse:
- tá boa
ou fosse perguntando ou fosse comentando a sopa

não entendi, mas sorri-lhe

 a gente em frente uma da outra e ela a dizer-me:
- teria prepado um jantarzinho
ela emprega muito os diminutivos

não gosto do modo, mas sorri-lhe

a gente em frente uma da outra, despediu-se:
- até um dia destes - dizia-me ela
- até mais ver - dizia-lhe eu

e sorríamos

segunda-feira, 28 de março de 2011

diálogos

sons surdos entre a gente. como se o ar circundante deixasse de transportar as vibrações. e ela: "pois..." e nem havia entre nós o abraço, o carinho a suplantar aquele silêncio. era como se os nossos ouvidos tivessem rebentado - pum! lá se fora o pedacinho de tecido. e no entanto, seria outra a razão do desentendido. um silêncio profundo a entremear-se nas palavras. e lembrei-me: talvez se eu chorasse, talvez se eu risse muito, gargalhasse. mas ela olhou-me, num e outro caso, com olhos de que olhasse um caso raro: coisa do demo, satanás, mafarrico. ou que eu tivesse enlouquecido. só depois de muito sofrimento: eu e ela, únicas neste imenso mundo. só depois percebi como fazer-nos companhia: deixei que ela me falasse dos seus dias. e fiquei ouvindo.


quinta-feira, 24 de março de 2011

pequequatro



Por sinal este blog não tem o costume. Ele por estes lados é mais umas larachas intimistas à laia de contos, uma pincelada acerca disto ou daquilo: a morte de alguém, ou do gato, ou a referência, indirecta tantas vezes, uma alusão apenas, a um acontecido.
Quem escreve aqui não tem o jeito da crítica e nem da reflexão. E nem vai ser hoje que muda este modo.
No entanto, gostava de deixar registo do muito que me vem incomodando o que se passa lá para S. Bento e arredores. Mas antes deixem que pergunte: afinal é mesmo preciso o tal pequequatro ou podia ser outro menos incisivo?!
Se era preciso um peque assim a doer nas costas da gente, o sacana do homem foi um mestre de contradança do caraças! fez com que  lá na Europa ficassem a pensar que era verdade, que aqui os rapazes de S. Bento estariam pelos ajustes, que o nosso país ia mesmo deixar de pagar parte dos ordenados e mais os subsídios e que o povo agora, além de não tratar dos dentes, não trataria de muitas outras coisas e aumentariam os defeituosos a pedir nas ruas e a gente a andar a pé e de autocarro. E magros. Tudo elegante por falta de divisas para comprar lá fora os bens essenciais.
O pequequatro muito louvado: "que lindo ministro este, vá meu filho, e ponha isso em prática que se precisar de uma sopinha ou de gasóleo para os seus carros, a gente isso cede-lhe de boa vontade."
E  muitos beijinhos na senhora Merquére convencida da bondade do que o nosso primeiro lhe mostrava nos papéis, e dizia aos microfones.
(Eu estou em crer que o português que um dia se passou para o lado de lá e deixou o país entregue, literalmente aos bichos, devia estar a ver-lhe a trapaça, mas finório, ter-se-á posto nas putas: digo eu que nada sei e me meto em conjecturas... )
Certo, é que  o nosso primeiro voltou  com o pequequatro que tinha levado às escondidas - não sabiam?!
pois! ele e o pai que é aquele de cabelos brancos que toca a sineta quando o nosso primeiro levanta o cálice, cá, e em Bruxelas levaram sem dizer um corno.
Por aqui ninguém tinha sido convidado a meter o bedelho, a dizer ao menos: "concordo com  os sacrifícios, o país precisa" e quando deram por isso, ficaram furiosos.
E vai daí, mal o nosso primeiro descia do avião, já havia um clamor nas escadarias do palácio de S. Bento, de tal modo que em Belém, o nosso presidente, ainda mal acomodado, ainda a decidir se continuava a receber naquela sala ou se redecorava aqueloutra, lá reuniu forças e, clamaria ele para a sua Maria a dependurar uns cortinados : "rais partam! lá anda aquele marafado a fazer das suas", enquanto despia o robe para ir ouvir as partes e os parceiros.
Um teatro do caraças armado, digo eu que nem percebo, pelo nosso primeiro naquele gesto de levar o pequequatro escondido - ele e o pai que o segue em tudo e lhe dá o amén.
Isso faz-se?!
E nem disso contente, quando viu os outros todos a dizerem que devia ter mostrado, fez birra, pôs beicinho: "Ou fazem como eu quero ou vou-me embora disto" e nem assim estava sendo sincero, o filho da mãe dele, que o que tinha na mente era passar a outro a batata quente do tal pequequatro de má fama. Poder dizer, em caso de voltar ao governo, ou se fosse outro seria o mesmo: "esta merda bateu no fundo porque quiseram deixar a crise entrar em S. Bento...se tivessem aprovado o pequequatro, mesmo depois de ter sido conspurcado pelos perdigotos de Bruxelas... a minha querida Merqueréle e os outros..." - parece que o oiço! 

Um guião de ópera bufa que o danadinho do nosso primeiro levou redigido para Bruxelas e anda representando.
Será ainda apenas a cena dois do primeiro acto.
Em rodapé, em negrito, os nomes dos actores...


Segir-se-ão os demais actos.

Presumo que no segundo esteja escrito:
O  povo reelege-me.  
Eu o salvador! o que tentou os favores da Europa e esta aceitou o namoro! o que estava impedindo o país de escorregar no mar de euros da divida.  
Cai o pano.

entendem porque hoje escrevo?
por receio de o ter de novo a escrever cenas e a beijar a mérquerél e o diabo que o carregue



aqui é outra onda...

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein