domingo, 20 de novembro de 2005

bolas de sabão

ainda ir fazendo bolas de sabão
lindas e coloridas bolas de sabão

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

mulata

Dona de Encarnação passava na minha rua todas as quartas-feiras. Passava quando era a hora para levar meu de meio irmão mais caçula a ver menino ir prá escola.
Essa de Dona de Encarnação voltava na minha rua lá quase quando a noite já tentava fazer a tarde adormecer.
- Toda quarta-feira! Lá vai ela inchada de solteirice. Julga que é virtude! Vaca! Passa e nem olha!
Este era o falar de minha mãe quando passava Dona de Encarnação. Toda a quarta-feira, minha mãe arranjava jeito de estar na janela em cada um dos dois daqueles descritos tempos do dia em que ela passava. E nesses dois assomares de minha mãe, era o que ela falava o que disse ali a vocemecêas. E tão de alto ela dizia que Dona de Encarnação devia de ouvir. Era assim como um te esconjuro ou uma provocação ditada desde a janela de onde nos dependurávamos a ver passar. Eu era dada de pensar que a Dona de Encarnação era assim como que bruxa ou, ao menos, teria feito muito mal a minha mãe. E eu que dava em gostar dela. Escondida, no meu de não dizer nunca, que gostava dessa de Dona de Encarnação. Mesmo diante da nossa janela, Dona de Encarnação voltava de ligeirinho o andar e dirigia seu passo engordado pela sandália de tira debaixo do pano da saia rojando terra. Muito devagarinho, ela ia soprando terra com o pé até desaguar no buraco escuro, que minha mãe esconjurava, da porta da Igreja.
Minha mãe arrumada de casar com o pai do pequenino que era, diferente de eu, bem pretinho. Eu era, segundo minha mãe...eu era...como...eu vou mostrar como ela dizia a falar da minha cor de pele.
- Esta menina tem pele de atravessada. Suja. Ela nem é mulata. Suja de castanho que eu sou preta negra e o que dei de pai dela, o Dório morto, era preto lustroso.
Pronto já disse pra vocês como minha mãe fala. Eu era negra suja de pele... ela falava de convencer! esse pai que me fez, ela dizia, era preto lustroso. Cabra ! - pensava eu quando ela, assim como eu mostrei a vocês, falava de minha cor. Cabra mesmo que mãe pode ser!
Ah! Eu estava contando que Dona de Encarnação subia e descia aquela rua toda a quarta feira! Cabeça a minha! Cabeça cheia de história enrolada na vida da gente, dá nisto – a gente perde o fio na meada como fazia o meu irmão, aquele que era bem pretinho, quando ajudava minha avó Teresa a desenrolar meada.
Mas, mesmo que me pensem de enrolação contando, eu vou dar um jeito de explicar como é que era aqui nesta casa com uma janela de onde eu via Dona de Encarnação passar cada um de todos os dias ditos de quarta-feira. Essa casa era só de janela e porta olhando a gente ela de frente, ou seja, apontando o olhar nela, e virado o traseiro de vossemecêas para a Igreja que ficava mesmo em frente. Para o depois de entrar pela porta, e percorrido um corredor com uma data de portas que nem olhos olhando pela direita quem ia entrando, chega-se a ver que a casa era muito mais que ser casa de uma porta e uma janela. Era uma casa que quem entrasse, assim como fui dizendo, clamava, ao chegar ao fim do corredor: “que casarão!”. E eu comecei a falar do tamanho, neste caso grande, da casa, para poder dizer, sem ver olhar de espantamento que nem que fantasma lhes aparecesse, que a minha mãe, além de mim e do caçula preto de negro retinto, tinha debaixo de tecto mais seis filhos deste que foi de casar de papel e festa com conviva e bolo. Todo o pensar dela minha mãe era que se esquecesse ser eu nascida de uma parição resultada de um enrolar de pernas, um ejacular de jeito favor de paixão, de ai que bom que gosto tanto. E a natureza fez o resto que avó Teresa não ia com a cara da parteira que os tirava ainda antes de se bem pegarem no saco ventral da mãe. Disto tudo, ao que parece, eu sou! Eu, preta de castanho sujo, de pai balanceado entre o preto Dório e uma duvidação que me a alma amoldou de tremida e a mim a um escorregar na vida desviada de todos.
Se não fosse a Dona de Encarnação que minha mãe falava de não gostar, como eu mostrei a vocemecês, eu inda hoje que me julgava ser de defeito de terra me ter sujado quando minha mãe me pariu de Dório.
Eu mulata linda! Eu mulata, sim, filha do Pastor que se apaixonou! Pastor que passou na aldeia com tropa e era moço galante e minha mãe, além de preta de carne enxuta, era devota! É! Foi o que me contou em noite de calor e raio seco a riscar o céu, Dona de Encarnação. E chorava contando a eu. Ela teve tanto, muito amor, pelo padre pastor e nem que nunca se lhe podia pensar de assim fazer que nem minha mãe me fez. Mas se desabafavam de amigas. Ela, Encarnação, sabia que eu sofria. No tal dia, sentadas em segredo num banco da Igreja, me contou.
Por isso é que eu pensava, e me arrependo, mas pensamento voa. Por isso é que eu pensava assim como fui dizendo:
“Cabra! Cabra mesmo que mãe pode ser!”
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Vão ler em ESCRITOR FAMOSO e VOTAR os TRÊS melhores AQUI
estou lá com Prenhas e Silêncio maior

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

letras

Havia dias que repetia este já quase ritual – abrir o computador e ficar ali horas até o sono lhe dependurar uma pálpebra na outra.
Um ar ausente, quase se diria adormecido não fora o olhar focado na luz do monitor e, de quando em vez, num ou outro livro que se alinhava nas estantes.
Hoje está um pouco mais desperto. Um nada só. Que terá para contar?
As letras no teclado olham-no apelativas. Colocam-se em jeito de ser tocadas. Parece que cada uma delas tenta desvendar-lhe a narração completa começada nela –
Era uma vez... – Manuela dizia... – Visitava a casa...
Parece que ele se não decide nem pelo E nem pelo M nem pelo V.
E todos, as letras e os sinais de pontuação, esperam.
Até que um dedo indicador de mão direita se aproxima da letra H.
Num ápice outros dedos se movimentam sobre o teclado. Uma após outra, as letras vão dando origem a palavras. Esvai-se do homem o ar adormecido. Um brilho inunda-lhe o olhar.
Se as letras soubessem ler palavras, teriam lido o princípio duma linda história.
(E também, as letras não podiam entender que, naqueles dias, o escritor esperava uma visita importante, muito importante. Essa visita, por vezes, fazia-se demorar. O escritor esperava paciente, pensativo,e a Inspiração vinha sempre mais sadia, mais cuidada, mais sapiente.
É, as letras serviam mesmo só para escrever...)
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Vão ler em ESCRITOR FAMOSO Prenhas e Silêncio maior dois textos com que concorri.
Leiam bons textos e concorram!
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domingo, 23 de outubro de 2005

Aves de arribação


Era o tempo em que ágeis andorinhas
Consultam-se na beira dos telhados,
E inquietas conversam, perscrutando
Os pardos horizontes carregados ...

Em que as rolas e os verdes periquitos
Do fundo do sertão descem cantando ...
Em que a tribo das aves peregrinas
Os Zíngaros do céu formam-se em bando!

Viajar! viajar! A brisa morna Traz
de outro clima os cheiros provocantes.
A primavera desafia as asas,
Voam os passarinhos e os amantes! ...
II
Um dia Eles chegaram.
Sobre a estrada Abriram à tardinha as persianas;
E mais festiva a habitação sorria
Sob os festões das trêmulas lianas.

Quem eram? Donde vinham? — Pouco importa
Quem fossem da casinha os habitantes.
— São noivos —: as mulheres murmuravam!
E os pássaros diziam: — São amantes —!

Eram vozes — que uniam-se co'as brisas!
Eram risos — que abriam-se co'as flores!
Eram mais dois clarões — na primavera!
Na festa universal — mais dous amores!

Astros! Falai daqueles olhos brandos.
Trepadeiras! Falai-lhe dos cabelos!
Ninhos d'aves! dizei, naquele seio,
Como era doce um pipilar d'anelos.

Sei que ali se ocultava a mocidade...
Que o idílio cantava noite e dia...
E a casa branca à beira do caminho
Era o asilo do amor e da poesia.

Quando a noite enrolava os descampados,
O monte, a selva, a choça do serrano,
Ouviam-se, alongando à paz dos ermos,
Os sons doces, plangentes de um piano.

Depois suave, plena, harmoniosa
Uma voz de mulher se alevantava...
E o pássaro inclinava-se das ramas
E a estrela do infinito se inclinava.

E a voz cantava o tremolo medroso
De uma ideal sentida barcarola...
Ou nos ombros da noite desfolhava
As notas petulantes da Espanhola!

III
As vezes, quando o sol nas matas virgens
A fogueira das tardes acendia,
E como a ave ferida ensangüentava
Os píncaros da longa serrania,

Um grupo destacava-se amoroso,
Tendo por tela a opala do infinito,
Dupla estátua do amor e mocidade
Num pedestal de musgos e granito.

E embaixo o vale a descantar saudoso
Na cantiga das moças lavadeiras!...
E o riacho a sonhar nas canas bravas.
E o vento a s'embalar nas trepadeiras.

Ó crepúsculos mortos! Voz dos ermos!
Montes azuis! Sussurros da floresta!
Quando mais vós tereis tantos afetos
Vicejando convoseo em vossa festa? ...

E o sol poente inda lançava um raio
Do caçador na longa carabina...
E sobre a fronte d'Ela por diadema
Nascia ao longe a estrela vespertina.

IV
É noite! Treme a lâmpada medrosa
Velando a longa noite do poeta...
Além, sob as cortinas transparentes
Ela dorme... formosa Julieta!

Entram pela janela quase aberta
Da meia-noite os preguiçosos ventos
E a lua beija o seio alvinitente
— Flor que abrira das noites aos relentos.

O Poeta trabalha!... A fronte pálida
Guarda talvez fatídica tristeza ...
Que importa? A inspiração lhe acende o verso
Tendo por musa — o amor e a natureza!

E como o cáctus desabrocha a medo
Das noites tropicais na mansa calma,
A estrofe entreabre a pétala mimosa
Perfumada da essência de sua alma.

No entanto Ela desperta... num sorriso
Ensaia um beijo que perfuma a brisa... ...
A Casta-diva apaga-se nos montes...
Luar de amor! acorda-te, Adalgisa!

V
Hoje a casinha já não abre à tarde
Sobre a estrada as alegres persianas.
Os ninhos desabaram... no abandono
Murcharam-se as grinaldas de lianas.

Que é feito do viver daqueles tempos?
Onde estão da casinha os habitantes? ...
A Primavera, que arrebata as asas...
Levou-lhe os passarinhos e os amantes!...

AVES DE ARRIBAÇÃO de Castro Alves

terça-feira, 18 de outubro de 2005

a contra luz

Nunca pararam em frente de uma montra, repleta de arrumado vestuário, olhando nela o mundo inteiro na forma de fantasma?
Os vestidos saindo em formas de pessoas
Aquele saia casaco, mais apressado, quase a furar a montra junto ao vosso ombro
Nunca sentiram aquele roçar de sombra que desliza por detrás de vós enquanto preparam legumes?
Um roçar de corpo em vosso corpo. Se de relance buscam, é sombra de gente afastando-se
E nem precisam explicar-me que é noite... Comigo acontece de dia. Ao pino do meio-dia. Na hora da sesta. Ao por de sol. Numa tradicional madrugada , claro.
Naquela noite, foi diferente e único.
Entrara em casa pelas duas da manhã. Vivia, então, ali à Ajuda numa casa antiga na travessa da Memória. Meti a chave na fechadura. Pensei: tenho que mudar esta fechadura antiga...e fui abrindo a porta. Entrei devagar. Sem ruído mais que o necessário. Fechei a porta com duas voltas na chave. Rodei o velho interruptor de porcelana na parede do lado direito. Fui subindo a escada estreita e inclinada. Lá em cima, no pequeno pátio de acesso à casa, liguei o interruptor da sala, desliguei o da escada. Por esta ordem o fiz, de modo a ficar sempre com luz. Atravessei o corredor até à extremidade. Tinha sono. Sentia o cansaço de uma noite de jantar e reunião. Entrei na cozinha. A iluminação pública banhava a janela ampla, envidraçada. O reflexo no chão projectava luz coada nas paredes. A cozinha estava como que envolta em sombreado. Tirei do frigorífico uma garrafa de água. De cima da bancada, segurei um copo ali esquecido. Bebi a água. A água deglutida sem pressas. O copo vazio colocado na pedra da mesa.
O copo vazio retirado de sobre a mesa da cozinha.
Uma mão muito branca agarrando o copo. O copo deslizando de cima do balcão para o ar. O copo sempre seguro na mão. O ruído da água escorrendo muito devagar. A água bebida por alguém com uma mão muito branca.
A luz da cozinha que acendi. A mão e o alguém perdidos na luz. O copo vazio colocado na outra ponta do balcão.

Nunca vos aconteceu algo semelhante?!! enigmático?!!
Ou será que também não me aconteceu, apenas terei dado atenção à Realidade por detrás da Realidade?!!

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

O gato Jeremias



Queria escrever-lhe. Colocar uma folha de papel branca, sem linhas nem quadrados, em cima da secretária ou num canto da mesa da cozinha. Ao lado da folha, a sua fotografia. Aquela em que está, de mãos sujas, segurando o Jeremias. Jeremias, o nosso gato cinzento, enorme. Queria, pois, escrever-lhe uma carta sob o seu olhar. O olhar com que me olhava, segurando o gato, num fim de tarde de Maio. Sorria na fotografia. Sorria-me. Fui buscar uma caneta. Uma qualquer, desde que escrevesse em azul. Um azul de tinta, muito azul. Um azul como o azul do céu do começar a noite naquele Maio. Aquele Maio em que a fotografei segurando o gato com as mãos sujas de farinha. Porque desceu ela a escada em vez de entrar em casa? Nada nunca mais foi. Desde esse dia de Maio, nunca nada mais foi.
Mas era preciso que eu lhe escrevesse. Queria escrever-lhe. Já tinha a folha de papel e a caneta que escrevia aquele azul.
O que eu escrevi foi uma carta assim.

Minha querida
Tenho tantas saudades.
Nunca consegui perceber o que aconteceu naquela tarde de Maio.
Tu fazias bolos. Vi a massa estendida sobre a larga mesa da cozinha. Cozinha que atravessei em direcção ao jardim para fotografar as roseiras floridas. Lembras-te? Ouvi o teu zangar-te com o gato. O Jeremias saltara sobre a mesa. Ouvi-te descrever a massa salpicada com as patas do gato. Descrever, imitando um zangado que era só imitado. Assomaste à porta do jardim, o Jeremias abafado nos teus braços. Do cimo da escadaria gritaste ao quase escuro do jardim. “Olha, amor, o Jeremias anda a ajudar. Tiras uma foto?” E sorrias o sorriso com que estás na fotografia.
Depois, só tu o saberás contar. Por isso te escrevo. Para que me contes. Para que me expliques o que até hoje ninguém me soube, ou sequer tentou, explicar. E eu não entendo. Continuo sem entender como é que tu fazias bolos, sorrias, pegavas no Jeremias, pedias fotografias e, um instante só depois de eu registar o teu sorriso, já não sorrias, o Jeremias miava atordoado e os bolos queimavam-se na cozinha. Foi muito depressa, sabes? Eu nunca percebi. Entro na cozinha e...
Desde esse dia de Maio, nunca nada mais foi.

Eu sei que a carta era uma fantasia minha. Uma forma de acalentar a saudade. Gritar a precariedade deste estar vivo que tanto desatentamos. Deixei-a na mesa da cozinha onde a escrevi, tal qual a acabei. A folha escrita, aberta sobre a mesa.
No dia seguinte, relancei o olhar sobre o papel enquanto mordiscava um scone. A folha estava escrita com uma caligrafia que não era a minha e numa cor verde-água. Debrucei-me mais. Reconheci a letra. Arrepiei-me e li.
Depois de a ler sosseguei. Diz-me que naquele anoitecer, me vinha oferecer um scone acabado de sair do forno. O gato saltou assustado com o flashe o que a fez desequilibrar e cair. Acrescenta que tentou falar comigo, mas as palavras não saiam. Pede-me que fique descansado que ela está bem. Escreve no fim: toma conta do Jeremias.

Guardei a carta na pasta do correio.
Lá fora as rosas estão lindas e o sol de Verão acaricia o pelo do Jeremias estirado no cimo da escadaria em frente da porta da cozinha.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Sonhos meus

Nos sonhos que sonho
Pernas, braços, chapéus.
Sapatos, escadas.
Gente, animais.
Eu...

Um gato, uma velha,
Uma data de gente,
Uma flor, uma janela.
Uma escada,
Um escorrega.
Uma lareira, um cão.
Uma parelha de bois,
Uma cama desfeita.
Uma montra exposta.
Um par enamorado.
Uma feira, tendeiros.
Um barulho no ar.
Uma rocha ardendo no mar.

Eu descalça.
Eu perdida.
Eu correndo,
Eu despida.

Um xaile nas costas.
Um quarto sem janela.
Uma porta de rua.
Um saguão.
Outro gato.
Umas luzes de rua, escadas.
Uma praia sem mar.
Uma rua inclinada.
Uns garotos.
Muita gente.
Uma estrada no ar.
Um comboio.
Muito escuro.
Uma onda parada.
Uma mesa.
Comida.

Eu vestida,
Eu sentada.
Eu chorando.
Eu com fome.

Mulheres rezando.

Eu correndo.
Eu de novo perdida.
Eu rindo desnuda,
Debaixo de chuva.

Os sonhos que sonho
Destroços do eu.

Pedaços de mim.


segunda-feira, 10 de outubro de 2005

sábado, 8 de outubro de 2005

sapos?!..



Sabem que raramente falo de mim aqui, assim de modo contado. Mas hoje PRECISO!!!
A causa? uns sonhos que se deram em perseguir-me toda a noite e, recorrentemente, se instalaram, mal fechei os olhos para uma sesta (nem a fiz ! que os bichos saltavam em minha volta como se de verdade fossem!) Mas SAPOS?!!! porque raio?! será de ter visto aquele filme Os irmãos Grimm? mas isso já foi há quase um mês!!!
se souberem, ajudem-me que eu até receio ir dormir esta noite!
e inda mais preciso descansar que amanhã temos eleições!
aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!! atão na é que VI com estes dois aqui um de cada lado da penca, um sapo enorme sentado no écran?!
deve ser dessa guerra que anda por aí armada e o nosso SAPO terá entrado nela... será?!
Aceito sugestões para terminar com este inferno.
Se engoli algum?! nãooooo, mas receio tanto sobretudo engolir varios que andam sempre aos tercetos e quartetos...

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

agradecida


Recosta-te
Repousa tua cabeça num travesseiro de calma
Respira devagar a espuma que te envolve
Branca espuma do mar
Mar de sueste (dizem)
Revolto mar de ondas brancas.

Recosta-te mais
Envolve o corpo nu na areia branca
Deixa que uma mão descaia
Sente com ela o quente da areia
Quente de sóis do Verão como o teu corpo.
Deixa que o mar encha de maresia,
de água
as covinhas que fazes na areia
e todos os poros do teu corpo.
Respira
Recosta-te
Sente...
Ama a Vida
Neste início de Outono,
Vive
tua dose de Paz,
agradecida.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

a medalhinha

No fundo de uma arca arrumei
roupas de minha mãe
Roupas velhas, rasgadas.
Camisas de dormir
Vários lençóis bordados
Duas ou três toalhas
Uns lenços de assoar
Umas saias.
Coloquei, muito dobrada
Muito perfumada
Alisada de mão e bem passada,
Uma barra de lençol antiga.
Foi quando sob a minha mão senti
O roçar arredondado de medalha.
Fiquei com ela na mão
Espalmada mão, espantada.
Seria a mesma, aquela
A medalhinha que minha mãe,
Minha mãezinha falecida,
Dissera andar perdida?

Coloquei-a junto ao seio.
Se encontrar minha mãe,
um dia por aí no Universo,
entrego-lhe a medalhinha
os lençóis e o resto.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

maçã


Anda comer a maçã derradeira
Aquela que ficou depois de tudo
Depois do fim da Era
Depois do fim do nosso Mundo.

Madura maçã da cor das tuas faces quando coras.
Maçã rubra de passados sóis.

Devagar, morde-a.
Deixa que escorra sumo sobre os teus seios.
Lambe-a.
Sorrindo, olha-a.
Roda-a na mão.
Observa-a dentro e fora.
Repara no branco esverdeado da polpa.
Saboreia-a na tua rubra boca.
Vê a dentada.
Vê.
O recorte certo dos teus dentes.
O suco melado que escorre e ensopa o teu decote.

Ficou apenas o suco da maçã.
Deixa que o saboreie
Que prove a última maçã sobre o teu seio.

domingo, 18 de setembro de 2005

paragem


Apetece-me desviar um pouco de aqui. ficar de longe vendo. silenciar mesmo da escrita. partir em outras, mesmo que apenas idealizadas, mas procuradas, direcções. preciso fazê-lo, agora. vou espaçar.
deixo-vos com um homem cuja escrita e pensar me cativam e onde gosto de sentir que me apoio ao escrever. um poema dele que gostava de poder ter escrito.


(Escre)ver-me
Nunca escrevi
sou
Apenas um tradutor de silêncios

A vida
Tatuou-me nos olhos
Janelas

Sou
Um soldado
Que se apaixona
Pelo inimigo que vai matar!


Mia Couto in Raiz de Orvalho

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

máscaras

Acabou de ler a mensagem. Não chorou, nem sentiu essa vontade. Ficou gelada e deve ter mudado de semblante porque o Semião tocou-lhe o ombro por sobre o enchumaçado do casaco de veludo mel e falou muito baixo: “sai discreta que eu trato do resto.” Parecia um deslizar mais que andar o que a dirigiu ao gabinete. Pegou a pasta. Deixara de usar carteira há muito. Foi quando a mão se colocava no local de abrir a porta que lhe sobreveio aquela onda que de imediato se desfez em choro. Sentou-se na cadeira de frente para a avenida barulhenta, dois andares abaixo. Não havia um pensamento que cortasse aquele chorar. Quando acabou, passou um pouco de água nos olhos, pestanejou, colocou os óculos muito escuros e saiu do gabinete. No elevador, gostou do que o espelho reflectia. O louro do cabelos repassado a branco caía sobre a testa. A boca rosada brilhava de natural. Sorriu sem que se visse a alvura certinha dos dentes. Puxou a gola do casaco com a mão enluvada de camurça. Atravessou o átrio do prédio em passadas firmes de cima dos saltos das botas. A saia mesclada de muitos cor de vinho, espreitava, a cada passo, por debaixo do casacão.
Ermelinda nunca fora a sua amiga. Ermelinda era a sua melhor amiga. Poderia dizer que ela, Maria Augusta Menezes sempre olhara Ermelinda Natércia como uma vizinha . Vizinha de casa e de carteita. A filha do sócio do seu pai. A noiva e mulher do Albuquerque. Amiga, amiga mesmo, não. Ermelinda e Maria Augusta brincaram juntas em meninas. Maria Augusta e Ermelinda habitavam as vivendas vastas de seus pais na zona alta da cidade africana. A baía ao fundo olhada do jardim das traseiras onde, regularmente, se fizeram festas de tudo e de só alguma coisa. Ermelinda Natércia Baptista era seu nome de solteira. Ermelinda Natércia Baptista de Albuquerque seu nome de casada com aquele Nataniel que um dia se matriculou, já o 7º ano da alínea H, ía no 2º período. Vinha do sul. Do planalto. Loiro que ofendia. O sol rebrilhando nos caracóis e no corpo felpudo. Nataniel olhando-as do seu metro e oitenta sempre adornado de cores muito a puxar ao branco a contrastar com os dois olhos muito, mas mesmo muito negros.
O pé saltou sobre o travão e Maria Augusta percebeu que estava no meio do trânsito das seis da tarde. Fez sinal para a direita e contornou a placa em direcção à Clínica.
A porta do quarto estava entreaberta numa claridade ofensiva. Ermelinda parecia que dormia. Sentiu-a assim. Ermelinda dormindo velada por aquele homem grande demais para parecer sentado, a cabeça dobrada sobre o negro do cabelo dela. Nataniel ergueu os olhos muito azeviche, muito raiado de sangue, muito olheirento. “De choro ou de noites mal dormidas?” pensou enquanto lhe dirigia um olhar que sabia não querer dizer nada. Um olhar mudo, quase imbecil. Lembrou-se que ele bebia e sentiu como se o tivesse gritado. Nataniel soergueu-se e ficou quase à sua altura. Beijou-a num afago de face, fugidio. Ficaram olhando Ermelinda. Nem uma palavra. Maria Augusta retirou, vagarosa, cada uma das luvas e colocou-as na pasta, arrumadas ao lado do dossier das actas. Lembrou-se que deixara em meio a reunião e sentiu curiosidade em saber como acabara. Distraiu-se e envergonhou-se de o fazer. Fixou firmemente o rosto de Ermelinda. Quase pedia, sabia lá a quem, que lhe desse um pouco de sentir aquela vida em suspenso. Nada. O que sentia era uma enorme vontade de que tudo, sem pensar em quê, acabasse depressa. Um cansaço enorme entorpeceu-lhe o corpo. Sentiu um quase sono. Sentou-se numa poltrona. Nataniel ficava-lhe de costas. Imaginou-os em acto sexual. Sentiu medo dos seus pensamentos, mas sorriu interiormente. Concentrou-se em ter pena e ficou adormecendo qualquer diverso pensamento. A enfermeira entrou com alarido seguida de dois homens. Pediu-lhes que saíssem. Maria Augusta apressou o passo para a porta. De soslaio, olhou o corpo destapado e viu as cuecas vermelhas de Ermelinda. Sentiu ridículo aquele olhar. Saíu do quarto.
Na sala de espera, Nataniel recostava-se na janela. A sua sombra alongada cobria o soalho. Não parecia nem cansado nem triste. Dir-se-ia que, também ele, desejava o desfecho. Maria Augusta encostou-se na janela ensolarada. Alargou-se a sombra no soalho da sala .

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

papel vegetal

Escorria-lhe pelos dedos a história não prevista. A caneta deslizando num qualquer bocado de papel e a história criando vida como se tirasse cópia. Cópia de desenho em revista com papel vegetal. Nunca usava máquina de escrever. Escrevia com a velha caneta de tinta permanente que o pai lhe dera no final da primária. Uma Parker invejada. Escrevia em qualquer papel. Não, nunca escrevera em papel vegetal. E, no entanto, este era um papel mágico. Papel de embrulhar toicinhos e chouriço ou as 100 gramas de banha retirada do tacho de barro com colher de pau. Papel de proteger de queimados os bolos da mãe.
O mesmo papel vegetal que a Ercília usava para copiar bordados para barras de lençóis e paninhos de loiça. Há quanto tempo! Era ele catraio na 3ª classe. Ercília sentada na soleira da porta. O vestido de florinhas muito apertado. A tábua de talhar sobre as pernas roliças, muito brancas até onde começavam as meias vindas das alpargatas de corda. Como ele se lembra bem dessas tardes! Ercília debruçada na tábua. A folha de papel vegetal sobre a revista. A mão esquerda muito tensa a segurá-la. A segurar o papel contra a revista que não pudera alfinetá-los – era uma revista emprestada pela Rosinha modista. A mão tensa carregava aberta no papel. Cada unha de Ercília ficava muito branca na extremidade. Quase tão branca, cada unha na sua respectiva extremidade, como cada uma das mamas esborrachadas no vestido. Com a outra mão, Ercília passava o lápis por cada risco do desenho. O desenho copiado para a transparência do papel. De vez em quando, com muito cuidado, Ercília levantava a folha de papel vegetal. Olhava por debaixo. Certificava-se de pétala de flor ou asa de borboleta bem traçada.

Ele e o papel presos por Ercília. O papel pela mão de unhas brancas nas extremidades. Ele pelos dois seios muito brancos tapando-se e destapando-se ao deslizar da mão de Ercília sobre o papel vegetal.
Como se recorda bem!
Ele encostado na parede em frente com o ar inocente de um menino na 3ª classe.

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Pode ver neste blog há um ano

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

nostalgia do verão

A minha terra é branca
Branca do sol e das casas
Branca de muita cor

A minha terra tem o mar
e as canastras de peixe
e as gaivotas dançando
e muito céu azul
e brilho de luar

A minha terra e o mar
Mar mansinho
Mar de borrifos
Mar azul verdinho
Um mar que lambe a areia
devagarinho
e vai entrando
a minha terra amando.
O mar entrando nela
e ela sorrindo sem pudor.

Na minha terra há uma praia
uma praia grande
um tapete de areia branca
uma poeira de estrelas
derramada ali por algum anjo.
Se passares ao fim da tarde
quando o sol se esconde
quando ele matiza a duna
à hora dos talheres soando
nas casas da cidade
nesse intervalo que nem tempo tem
em que o ar cheira a salgado
Respirarás os raios de sol
aqueles que sobram
aqueles que ainda fazem azul o mar
Pisarás na areia:
na maré-vasa, o sal pelo mar deixado
na maré-alta, o morno de sol acumulado.
A minha terra começará a piscar luzinhas
a cumprimentar-te.

A minha terra é branca
Tem uma praia feita de pó de estrelas
É nessa praia que o mar se aconchega
É nela que podes ver o par de namorados.
.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Os quatro elementos

A LENDA DA FLOR DE LÓTUS

Certo dia, à margem de um tranquilo lago solitário, a cuja margem se erguiam frondosas árvores com perfumosas flores de mil cores, e coalhadas de ninhos onde aves canoras chilreavam, encontraram-se quatro elementos irmãos: o fogo, o ar, a água e a terra.
-Quanto tempo sem nos vermos em nossa nudez primitiva - disse o fogo cheio de entusiasmo, como é de sua natureza.
-É verdade - disse o ar. É um destino bem curioso o nosso. À custa de tanto nos prestarmos para construir formas e mais formas, tornamo-nos escravos de nossa obra e perdemos nossa liberdade.
- Não te queixes - disse a água. Pois estamos obedecendo à Lei, e é um Divino Prazer servir à Criação. Por outro lado, não perdemos nossa liberdade; tu corres de um lado para outro, à tua vontade; o irmão fogo, entra e sai por toda parte servindo a vida e a morte. Eu faço o mesmo.
- Em todo o caso, sou eu quem deveria me queixar - disse a terra - pois estou sempre imóvel, e mesmo sem minha vontade, dou voltas e mais voltas, sem descansar no mesmo espaço.
- Não entristeçais minha felicidade ao ver-nos - tornou a dizer o fogo - com discussões supérfluas. É melhor festejarmos estes momentos em que nos encontrarmos fora da forma. Regozijemo-nos à sombra destas árvores e à margem deste lago formado pela nossa união. Todos o aplaudiram e se entregaram ao mais feliz companheirismo. Cada um contou o que havia feito durante sua longa ausência, as maravilhas que tinham construído e destruído. Cada um se orgulhou de se haver prestado para que a Vida se manifestasse através de formas sempre mais belas e mais perfeitas. E mais se regozijaram, pensando na multidão de vezes que se uniram fragmentariamente para o seu trabalho. Em meio de tão grande alegria, existia uma nuvem: o homem. Ah! como ele era ingrato. Haviam-no construído com seus mais perfeitos e puros materiais, e o homem abusava deles, perdendo-os. Tiveram desejo de retirar sua cooperação e privá-lo de realizar suas experiências no plano físico. Porém a nuvem dissipou-se e a alegria voltou a reinar entre os quatro irmãos. Aproximando-se o momento de se separarem, pensaram em deixar uma recordação que perpetuasse através das idades a felicidade de seu encontro. Resolveram criar alguma coisa especial que, composta de fragmentos de cada um deles harmonicamente combinados, fosse também a expressão de suas diferenças e independência, e servisse de símbolo e exemplo para o homem. Houve muitos projectos que foram abandonados por serem incompletos e insuficientes. Por fim, reflectindo-se no lago, os quatro disseram:
- E se construíssemos uma planta cujas raízes estivessem no fundo do lago, a haste na água e as folhas e flores fora dela? A idéia pareceu digna de experiência.
-Eu porei as melhores forças de minhas entranhas - disse a terra - e alimentarei suas raízes.
- Eu porei as melhores linfas de meus seios - disse a água - e farei crescer sua haste.
- Eu porei minhas melhores brisas - disse o ar - e tonificarei a planta.
- Eu porei todo o meu calor - disse o fogo - para dar às suas corolas as mais formosas cores.
Dito e feito. Os quatro irmãos começaram a sua obra. Fibra sobre fibra foram construídas as raízes, a haste, as folhas e as flores. O sol abençoou-a e a planta deu entrada na flora regional, saudada como rainha.
Quando os quatro elementos se separaram, a Flor de Lótus brilhava no lago em sua beleza imaculada, e servia para o homem como símbolo da pureza e perfeição humana.

Texto retirado daqui

............................
Começo hoje a colocar um link para o post do ano anterior

domingo, 28 de agosto de 2005

desejos

Fechados nos teus olhos,
o sangue, o vómito,
o enjoo agoniante.
(desejos coalhados)
Ardias de um desejo acre.
Agitavam-se-te as mãos.
Ficavas-te balançando
Ficavas
dependurada num vazio de ti.

Balançada do desejo
no teu corpo
ardido
só.

Gritavas sobre o rio
(no silêncio da casa abafavas)
Só o rio te ouvia.

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

cidade grande

regresso do mesmo modo discreto como parti. partir e regressar um contínuo. como se no partir do início de um livro se tratasse. como se no regressar fosse o fechar suave de cada capa sobre as folhas no final da leitura e aquele sentir de frescura de um "algo" que fica no cá de dentro da gente...

regresso da cidade grande
abismada de beleza e gente

apalpei-lhe duas ou três ruas
descansei nuns bancos, nuns degraus
apanhei-lhe o sol, mas não o jeito
senti-lhe o cheiro
mas não o do amanhecer ao sair do leito

cidade de curvas onduladas como tantas
esta como todas é diferente
linda
prefiro sempre a tua rival
a cidade pequenina
prefiro sempre, ai de mim,
a minha



terça-feira, 16 de agosto de 2005

mar de volta...aniversariantes queridos ... Irmão Roger


Irmão Roger
o homem do sorriso bom,
o homem da palavra cativante,
assim o recorda a minha longínqua
(bem presente) juventude.
Tu terias resposta?



Deixo os Parabéns a duas pessoas muito queridas que aniversariam nestes dias

No dia 19 Mariaras a velha e reencontrada amiga

No dia 21 o meu querido, o meu paciente Ognid .
Para os dois este extenso mar numa modesta fotografia que é arte que ambos praticam e amam. Um grande abraço a ambos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Joel...

Joel tartamudeava sentado no banco corrido, o corpo quase deitado sobre a mesa, a cerveja a meio beber.
Não estava bêbado. Nunca se embebedara. Gabava-se disso. Sempre sóbrio na sua história de moço de fretes, bar aqui bar além, que ele achava, e sempre de outros assim ouvira, o tino não lhe dava para mais. Uma história de trinta e dois anos carregando cerveja para os outros beberem. Recolhendo as garrafas que os outros jogavam. Garrafas, no areal das noites de farra. Joel apanhava-as. Caixas e caixas de vazio no sol de cada Verão.
Hoje ele nem ainda apanhou uma garrafa. A farra durou até tarde. Hoje, ele e a sua cerveja conversando.
Semicerrou os olhos e reviu todos os acontecimentos do fim da madrugada. Um a um. Ninguém notara que ele ali estava, desprendido da vida, apenas querendo ver como ela pode acabar num apenas de repente. Ficou a olhar. Todos fugiam de lado a lado. Pareciam os coelhos soltados na avó. Ele viu tudo. Os tiros. O sangue. A areia vermelha no sol que despontava.
Estava ali sentado desde que tudo acontecera. O cheiro a injustiça enchia-lhe as narinas. Joel cerrava os dentes. A pele avermelhava em torno dos olhos. Sempre avermelhava de raiva na zona onde o queimado do sol é mais ameno e deixa ver restos de uma pele rosada do menino loiro.
Alguém se aproximou da mesa. Joel sentiu-o sentar-se aconchegando o banco às pernas. Ouviu o toque do copo dele no seu a quebrar o silêncio no bar abrigado na duna, a soar por sobre o ruído do mar. Joel fitou o homem sentado em frente. Olhou-o a beber a cerveja em pequenos goles. Esperou que ele lhe perguntasse alguma coisa. O homem olhava as ondas despedaçarem-se na falésia ao longe. Joel percebeu o seu engano. Uma gota transparente assomou no canto dos olhos.
Não viriam perguntar-lhe nada. Nada do que Joel bem vira. Aquele retirar da vida de modo tão simples que ele nem se assustara. Sentia a injustiça a planar no ar. Sempre. Joel fungou baixinho. A ele o tino não dava para mais. Diziam...

sábado, 30 de julho de 2005

rosa mel acastanhado

Rosa mel acastanhado.
Era este o tom da sua pele tal e qual a pensei naquela tarde.
Tal qual a descrevi naquele momento.
Outra luz, outro ângulo dos ponteiros, outra relação da areia na ampulheta, outra disposição minha. Qualquer desvio do meu pensar aquela pele, e variaria a descrição. Fiquei pela descrição inicial. Nunca mudei a descrição que fiz. A descrição da cor da perna. A cor da coxa dobrada em posição de um descanso soçobrado. Joelho e perna aconchegados, escondidos ambos por um leve lençol de pano branco. Um pano muito suave. A suavidade no pender de pregas nas formas da perna e restante do corpo.
Era de tarde, na hora do calor. O quarto cheirava a maresia. O vento, nortada desde o amanhecer, fazia velas em balão nos cortinados.
Ao seu lado, eu apreciava-lhe o sono. Sorria. Sonhava, pensei. Sorri-lhe descansado e terno. Olhei embevecido a cor de pele que adquiria mal o sol lhe tocava livre.
Tentava pintar aquele tom numa tela imaginária.

Foi a descrever o tom de pele, a pintá-lo, que tudo aconteceu.
Não percebi se foi o vento norte...
Não percebi se foi a maresia que se tornou mar forte...
Sei que foi mais rápido que mudar de posição os ponteiros no relógio, cair mais um grão de areia na ampulheta ou mudar a minha disposição...

Daquela tarde ficou-me a cor da sua pele.
Rosa mel acastanhado.
Ficou-me a descrição da cor que tinha a sua pele.

Naquela tarde em que o mar veio fazer navegar os barcos nas velas dos cortinados.

Bluelandscape de M. Chagall

quinta-feira, 28 de julho de 2005

encontro

Sempre soube que os homens voam. Mais. Sempre soube que cada um pode afastar-se de si mesmo. Ir para bem longe de si. Ir e ficar. Sentado na reunião, na mesa do café, no auto-carro. Ir e ficar. De pé, afastando o cortinado do banho, calcando areia na praia, chapinhando lama. Simplesmente, de pé ou sentado, por um ror, outro, de tantas coisas. Ir para muito longe de aqui como que voando. Pode acontecer a cada uma de todas as pessoas. Eu sempre soube. Chamavam-me, por isso, tolo. Tolo. Doido. Louco. Assim, atravessei meia vida (que Deus ma dei!). Hoje, fiquei cansado de afirmar ou retorquir aos que desacreditadamente encaram este meu saber de estar, e não estar ali. Que me chamem o que me chamem nunca me incomodou. O que me entristece é que não sintam como eu este saber. Ou desatentam dele, não o confessam?!
Um destes dias, andava eu devagarinho a passear no cais. Era em dia de sueste. As ondas espanejavam a falésia. As rochas, de momento a momento, ficavam mulher de veste branca, ou monge, ou padre. Andava eu devagarinho sentindo o espargir da água no ar a cada onda esfarrapada no molhe. O ar sabia a sal. A pele estalava. Era o final da tarde e mais se acentuava este tardio do dia naquele de Agosto com a neblina que acompanhava o sueste.
Foi num destes dias que encontrei sentado no molhe um rapazito dos seus oito anos. Sentado no paredão, apreciava o sentir da onda que se espraiava no molhe. Parei a olhá-lo. Senti uma enorme serenidade olhando-o. Aproximei-me. Junto dele e nem deu por mim. Sorria. Sentei-me a seu lado. Fiquei olhando-o. Restos de ondas molhavam-nos. Em dado momento, o rapazito moveu-se. Olhou para mim e riu. Mais do que isso falou:
- Quando te sentaste aí? Não dei por ti.
Respondi:
- Estavas tão concentrado na tua brincadeira. Fiquei a ver-te. Preferi brincar também.
Numa expressão de quem quer desfazer com firmeza um mal entendido. Numa expressão de quem olha para muito longe. Num misto de expressões para além de nós, o rapazito disse:
- Eu estava voando. Eu não estava aqui. Aproximei-me de mim quando te senti. Sabes como é?!
- Sei, sim – disse eu, sorrindo.
E ficamos ali sentados apanhando os restos de cada onda de um sueste em maré vazante num fim de tarde de Agosto, um dia destes.
Um dia destes depois de eu ter ficado cansado de afirmar ou retorquir aos que desacreditadamente encaram este meu saber. O homem pode voar. Afastar-se de si para muito longe.


domingo, 24 de julho de 2005

realidades?!

Ias no teu passo lesto. Mais lesto nessa manhã por duas razões. O receio que o atentado, por mais que te insurgisses contra ti mesmo, te havia deixado. Teres combinado estar cedo junto à saída do metro. A namorada esperava-te para irem ver a casa que pensavam comprar. Pensavas nela quando ouviste o metro a chegar à estação quase vazia. Ao mesmo tempo, sentiste correria, vozes que chamavam. Um ruído de vozes muito contundentes. E tu a correr para o metro com o teu tempo de fazer vida, de fazer futuro. E tu sempre a correr e as vozes cada vez mais perto e cada vez mais a chamar com ar contundente. E tu a correr e a tentar perceber. E o tempo que corrias era o mesmo tempo de ver que era polícia, de perceber que era a ti que seguiam. O mesmo tempo de separares cada perceber do outro. O mesmo tempo de colocar cada perceber numa ordem de prioridades. Colocar a ênfase no perceber inicial. O que primeiro te acudiu. O de sentires que a polícia estar a perseguir alguém podia ser indício de outro atentado. E o terror a revirar-te as tripas a toldar-te o raciocínio. E tu a correr para o metro que era o apelo racional mais forte. E neste tempo, os polícias em cima de ti e tu ainda sem uma organização de perceber. E o tempo terminou com o medo a transparecer-te nos olhos. Um medo que ninguém viu. Quem te agarrava apenas via o seu medo reflectido, transparente, nos teus esbugalhados olhos.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

desilusão

Deitou-se no sofá frente à televisão. A cozinha arrumada. A luz do candeeiro, muito velada, deixava em quase escuridão o grande espaço da sala onde tremelicava a luz da televisão. Ouvia mais do que olhava. Um ruído estranho e constante fê-la prestar atenção. Soergueu-se devagar, atenta. Voltou a recostar-se. Era a máquina de lavar. Punha as máquinas a funcionar sem pensar no que estava a fazer e depois nem de tal se lembrava. Esta mania de estar sempre a pensar longe. O noticiário acabou. Desligou a televisão e colocou música. No livro que andava lendo, mal passou duas linhas. A cabeça a andar às voltas. Interrogava-se. Espantava-se. Ela ali a sentir que, nestes últimos tempos, ou andava acompanhando mais as actualidades ou se andavam passando aconteceres tão estranhos que a levavam a dar-lhes atenção. Ou seriam as duas coisas?! Sorriu. Deixou que as imagens se formassem usando os olhos de ver para dentro e para longe. Pensava assim perceber ou, ao menos, relaxar.

Uma lagoa de terra muito escura. Um castanho quase negro. Disse lagoa, mas era mais uma enorme cratera de terra muito esfarelada em todo o perímetro e que se acumulava assim no centro. Uma brisa soprava e a terra do centro espraiava pelo espaço. Um espaço que parecia uma cúpula translúcida sem cor definida. Um horizonte que não acabava. Que não se percebia onde acabava. Era da neblina intensa ou daquela luminosidade esbranquiçada.
Concentrou-se um pouco mais naquela interioridade que a levava a outros lugares.
Como que foi abarcando para além daquele buraco árido. Era como se estivesse andando por lá...
Uma casa enorme toda branca. Um casarão com portões, portas, muitas janelas. Tudo fechado.
Deve ter ficado ansiosa naquele exercício de olhar com os olhos de ver para dentro. Deve ter sido isso.
De repente estava na parte detrás da casa e havia um tanque e uma trepadeira sobre um tanque onde água fresca corria de uma telha. Uma rapariga, via-a detrás, devia estar aparando água. Dobrada sobre o tanque devia estar molhando o vestido vermelho. Devia ter um avental largo. Via o laço branco atado atrás.
Era o que ela via com os olhos de passear para lá do de dentro de si.
Sentiu que tinha sede. Sentiu que tinha medo de voltar à cratera. Sentiu que lhe era estranho haver ali água e flores e uma casa e antes aquela paisagem morta. Sentiu que era bom que houvesse ali gente. Sentiu que era estranho a moça não se voltar. Sentiu que estava com muito medo e não sabia de quê. Já etava quase tocando a moça e sentia um estranho tremor, um quase desejo.
De repente, percebeu porque era vermelho o vestido da moça e de igual cor estava mesclada a água do tanque...
Tentou ir mais longe naquele ver para lá do de dentro de si. Tentou voltar a usar os olhos de ver para dentro, mas não conseguiu.

Ergueu-se e foi estender a roupa. A máquina acabara a lavagem.

Sentiu tristeza e receio ao pensar que perdera os olhos de olhar para de dentro ou que estes viam o mesmo que os outros...


quinta-feira, 14 de julho de 2005

simplesmente

Já fez uma semana que, numa capital da Europa, numa cidade do Ocidente, manhãzinha detonaram bombas em locais de gentes que acorriam, simplesmente, ao seu local de trabalho ou a um hospital, ou, ou...simplesmente apanhava aquele transporte público que, no instante em aquela pessoa- muitas aquelas- se dirigia simplesmente para o seu trabalho ou, ou, ou, o estrondo aparecia e o pavor e os gritos e o sentir que está numa armadilha e o sufoco e a saudade e o não saber respirar e o desrespirar e o morrer sentindo que se morre e ai que vou morrer e passam por cima dele sem lhe ver que passam e querem se salvar e são muitos num medo que é mais que medo e é sempre crer que se pode e já não pode a dor ensanguentada e o rir pensando em alguém amado e o chorar e o grito muito gritado de pavor ou se aquele consegue um vislumbre de sair daquele morrer e ...
Não eu não tenho o direito de assim narrar... já faz uma semana e silenciaram dois minutos por alma...
E faz uma semana e eu interrogo-me: PORQUÊ?
E gostava de obter resposta. Gostava.
Mas já fizeram tantas outras, muitas semanas, de outros tantos, muitos, rebentamentos em outras capitais do ocidente e menos aí que em capitais do oriente...fizeram semanas...nem acaba de fazer uma semana de um e está outro acontecendo e nem que têm tempo de tentar respirar.
E eu, de todos antes de há muito me venho a interrogar: PORQUÊ?
Simplesmente, eu, muito simplesmente me respondo:
Pior que não acreditar em sei lá eu bem o quê, é acreditar muito, mas mesmo muito em sei lá bem eu o quê. Será?!Poderá a grande crença que cega ser resposta aos meus interrogares?
Sei que, para mim, muito simplesmente eu, digo:
Acreditar muito completamente, mesmo muito, é acreditar na Vida nas suas múltiplas formas e em tudo o que a preserva e envolve e dignifica.
(Mesmo assim, um acreditar com a ressalva de não sabermos tudo de uma maneira definitiva e termos que ir pensando e crescendo uns com os outros. )
Tudo, e todos, o que contraria a Vida, seja de que seja o seu justificar, anda agindo errado no meu simples modo de ver.

sábado, 9 de julho de 2005

mal entendidos


- Bons dias Sª Dona Assunção! Uns espinafrezinhos fresquinhos?!
Avelino, ataviado no guarda-pó cor de terra que lhe expunha o excesso de carnes, esfregava as mãos uma na outra, as costas num requebro e os pés fazendo passinhos para a esquerda e a direita em frente da velha senhora. Senhora Dona era como Avelino sempre chamava às, como ele dizia, “verdadeiras senhoras”. Dona Assunção parecia não o ver e ia seguindo a sua entrada na loja o que fazia Avelino dançar – esquerda, direita, atrás; esquerda, direita, atrás; até chegar ao balcão, dois metros desde a entrada atulhados de caixas de fruta e legumes variados. Então, Avelino postava-se muito direito do lado de lá do balcão e ouvia atento e solícito.
Nem sempre ela vinha. Era até raro. Uma vez por mês, talvez. Normalmente vinha a Gertrudes, moça das Beiras que desde há muito trabalhava na casa. Trazia sempre um papelinho com a letra muito cheia de arabescos da dona Assunção. Quando Dona Assunção saía daquela casa, a maior da rua, aliás também da outra pois que ia de um lado ao outro; quando era ela que vinha à loja do Senhor Avelino, era assim que, como há 50 anos, Avelino a recebia. O mesmo quase cerimonial, variando apenas na sugestão de compra.
Hoje Dona Assunção encostou um pouco mais o corpo ao balcão, deixou cair a ossatura, que poucas carnes sempre haviam recoberto, numa inclinação de confidência ou de pedido. Avelino estranhou e sentiu-se como se uma lava lhe percorresse, em todos os sentidos, o corpo. Dobrou-se, instintivo, por de cima das chouriças, salpicão e demais charcuteria. A cabeça dependurada do corpo rechonchudo, muito espetada para ouvir. Avelino, antes, durante, enquanto ouvia, ele não sabe, apercebeu-se de coisas…tantas coisas!
A boca da Dona Assunção cheirava a leite e a açúcar queimado e Avelino pensa que corou. A boca da Dona Assunção era rosada por baixo do batom vermelho esborratado e Avelino sentiu que uma baba lhe escorreu aos cantos da boca. O cabelo dela era muito branco e via-se, assim de perto, o rosado da cabeça e Avelino sentiu que estava olhando Dona Assunção em camisa e acha que nem ouviu quando ela lhe sussurrou:
- Senhor Avelino pode passar-me a levar a casa estas compras? - e mostrava um rol escrito naquela letra esmerada. E explicava:
-A Gertrudes adoeceu e foi para a terra.
Avelino tremia-lhe a mão com que aceitou o rol.
Dona Assunção, que sempre o soubera um bom homem, não supusera que tal amizade o ligasse à Gertrudes e hesitou em dizer-lhe:
- Tenha paciência senhor Avelino.
E Avelino respondeu-lhe tentando que a voz lhe saísse sem tremuras:
- Farei com o maior gosto, Dona Assunção.
A entoação soou-lhe a grito de entusiasmo. Mas já, endireitando-se, Dona Assunção pedia:
- Pese-me estes três pêssegos, por favor, Senhor Avelino.

Gustave Klimt

terça-feira, 5 de julho de 2005

tesouro

Levei-me a ver o mar e estava acastanhado.
Levei-me a ver os prados e estavam amarelos de secura.
Subi aos altos montes e a neve derretia nas vertentes vermelhas.
Olhei o céu e o azul tapara-se de um amarelo que crepitava.
O sol no alto crescera num tamanho e cor como se fora pôr-se no horizonte.
Levei-me a ver os rios e andei a pisar leitos secos e em pedra. Sem nem lodo.
Sentei-me debaixo de uma árvore e não havia sombra.
Levei-me a espreitar as fontes nas serranias e esfarelavam terras amarelas. Lavas.
Levei-me a ver cidades e encontrei os vermes e as gentes convivendo.
Dependurados das janelas. Desfalecidos. Mortos. Deambulando enlouquecidos.
Levei-me a ver de novo o mar e este fervia.
Sentei-me na areia que ofuscava. Pus-me de joelhos.
Cruzei as mãos no peito e pedi-Te perdão.
Depois, eu que nunca soube oração, vi-me a rezar.
Pedia que nos perdoasses.
Agradecia-Te pela Vida.
(...)
Quando acordei a chuva tamborilava na janela.
Nunca mais parei de agradecer-Te nos essenciais tesouros que nos deste.

Imagem de G. Klimt

sexta-feira, 1 de julho de 2005

leveza

Trazias um vestido de ramagens verdes
com uma margarida em cada seio.
Cheia de cuidados, deste dois passinhos.
Parecia que pedias desculpa ao chão
licença para o pisar.
Passos de gata bailarina.
Passos de querer ir devagar.
Não mais que esses passinhos
dois
quase de passarinho.
Foi deste modo que vieste a mim.
Envolvi-te com muita ternura.
Encostaste o teu corpo ao meu.
Sorriste.
Apertaste de leve a minha mão.
Levaste-a aos teus lábios.
E, mais do que um beijo,
puseste nela o ardor do teu corpo,
o teu desejo.
Nossos corpos enfeitavam-se um ao outro.
Peguei nesse jardim que me acolhia
e numa curva de água
num fresco de sombra junto a um ribeiro,
em suas margens
fomos desfazer em pétalas
brancas, amarelas
devagarinho
uma a uma
as margaridas do teu vestido de ramagens.


sábado, 25 de junho de 2005

o dedal

O dedal caiu de novo. Parecia vivo o demo do objecto. De cada vez que o tentava enfiar no dedo anelar como assim aprendera amparando o dedo do forçar da agulha no tecido. De cada vez, ele caía e findava desaparecido. Ia encontrá-lo no lugar nenhum em que supusera. E só depois de um grito desesperado de estupor se lhe calar. Um grito que a ser, acordaria, a uma hora tardia como era aquela em que cosia na camisa o bordado. Pedira-lhe a filha. E arreliava-a aquela coisa do dedal. Ela que pensara fazer aquele serviço em menos tempo e, afinal, ali estava já a lua era um ponto no céu, muito lá em cima, depois de se ter apresentado redonda e rosada mal o sol se escondeu. Logo naquela noite, se lembrara de ficar dando aqueles pontos com o dedal endoidado de escondidas e saltos. Na noite de um dia em que ele chegara mais cedo. Ele sempre entrava no banho directo da fazenda. Por lá se ficava ronronando. Hoje, como habitual, chamara-a. Ela demorara-se no ir. Esperara novo chamar. Fizera charme, como um destes dias lhe dissera, de covinhas na cara, a sua menina. “Mãezinha, tu fazes tão bem o teu charme.” Pois que assim fosse. Fizera outra vez esse tal de charme. Era assim. Era como sempre fora. Ela tardava. Ele chamava. Ela demorava mais um niquinho. Sempre ia deixando ele esperar. Ele batia na água. Molhava a saia dela. Parecia brinca de meninos. Ela sabia que não era, não. Rolavam molhados e riam. Riam muito.
Pensava e ia dando pontos miudinhos para prender o bordado. De repente, exclamou um apre muito agudo. Um fio fininho escorria-lhe do dedo. Apenas um toque da agulha. Ela olhava o tecido embebendo. Assentou os tecidos na mesa e apertou o dedo com um pedaço de trapo. Não percebia porque se sentia tão bem com aquele fio de sangue a correr pelo dedo, encharcando os tecidos, sujando a blusa. Ela se parecia que vinha descendo de uma nuvem. A luz da lua entrava pela sala numa nesga da janela grande. A luz do candeeiro mal se apercebia. Apagou-o. Abriu de par em par a janela. O trapo caiu do dedo. Caiu-lhe o vestido. Devagarinho, quase numa dança, entrou no quarto. Aconchegou-se ao corpo dele.
Ele envolveu-a nos braços e, num sorriso que só a lua viu, tirou-lhe o dedal do dedo.
Ela teve acerteza que a luz da lua estava muito quente nessa noite
.

sábado, 18 de junho de 2005

instante

Buscavas uma sombra. A tarde abrasava, mas ali, na margem da ribeira, refrescava. A vegetação rendilhava de luz o saibro marginando as águas. Poucas águas. Um nada mais que regato ondulando sobre dispersas pedras. Viste-a. A sombra lá estava. Extensa sombra de um tronco, mesmo na beira da água, quase conforme ao anatómico que desejavas descansar. Encostaste a mochila, tropeçaste de ligeiro num ramo e deitaste-te. O corpo todo assente. Do lado de lá da ribeira pachorrentavam-se bois. Lentamente tiraste botas e meias. O fresco da água tocou cada um dos pés. Respiraste fundo.
A manga da camisa acima do pulso mostrou a marca arredondada. Sete dias. Deram-te sete dias de liberdade. Mais para a noite dormirias no endereço certo. Agora, precisavas abrir os pulmões à serra. Por isso, ali estavas apenas respirando...


imagem "por entre as pedras"de José Rebelo[ Mané ]

quarta-feira, 15 de junho de 2005

tu

Um risco no céu
Um luminoso risco alaranjado
Tu voando para muito além
Tu indo para qualquer lado

Um risco muito longo
Um risco muito andado
Tu sorrindo um sorriso rasgado
Tu aprimorado cavalgando potro

O céu rugia azul, anil, alaranjado
Tu pintando tintas no rosto amado
Tu tecendo rimas
Tu voando ventos
Tu chovendo chuvas
Tu...
um risco cortando o céu
num fim de tarde.

domingo, 12 de junho de 2005

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mataram o teu filho, mãe

fecharam-no numa cela,
a horas certas vendaram-no
mataram o teu filho, mãe

a uma hora que não esperava
apanhou-o o estilhaço da bomba
mataram o teu filho, mãe

o estampido soltou-se da pistola do guarda
mataram o teu filho, mãe

em volta da cintura uma faixa,
a uma hora de ponta retirou a cavilha
mataram o teu filho, mãe

na beira da estrada assaltaram-no
mataram o teu filho, mãe

mataram –no, mãe...

Acordei com a notícia da morte deles e aqui fica a minha parca homenagem

de Álvaro Cunhal

Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!


de Eugénio de Andrade

segunda-feira, 6 de junho de 2005

duvidas

Dois planos. Dois espaços. Mais do que essa simplicidade de ver: dois tempos. Não. Não é isso do relógio atrasado. É um algum outro espaço com um tempo diferente. Uma dimensão outra. Vagueias entre um e outro como uma corrente em movimentos de sinusóides interferindo.
Funcionas em planos diferentes.
Oscila em tempos diferentes o teu eu dividido.
Queres contar e as palavras não te chegam. Ou tu não as dominas. Não dominas as imagens. O mundo em que o teu eu vagueou. O mundo em que viveste. Não dominas a palavra de o contar. A palavra de te dizeres tu nesse mundo real que to dizem, e tu dizes, de imagens. Esse mundo que sentes real. (Esse mundo que sabes real.)
Não. Tu não dominas a arte de usar a palavra para contar o que nem percebes.
Não, tu... mais do que isso. Tu receias contar. Tu receias entender.
Não, tu não dominas a palavra que te conte.
Não, tu não dominas a palavra que te questione.
E as imagens soltam-se-te onde?! sim! e de onde aquela realidade?!
Campos de regatos terminando em lagos de fogo brando, amarelado, manso.
O mar em ondas de fogo. Ondas de fogo com a consistência e o ruído da água contra rochas. Rochas de lava. Cavalos brancos fogem em tropel. Só cavalos brancos. Rebanhos de ovelhas em fuga. Só ovelhas negras. O ruir das cidades como se tu estivesses longe e lá. Tu, sentada numa poltrona, vindo à varanda e sentindo-te ruir num escombro igual a cada um dos que eram apenas escombros da cidade. A cidade toda a escoar-se para um mar enorme. Um mar enorme muito azul muito escuro. Um mar que sabias muito fundo.
De onde essas imagens quando te sentias a tangenciar outra dimensão sem que te fosse permitido nela entrar?! (parecia que te empurravam, lembras?!) E tudo o que sentias, vias, era real. Mais do que imagem. Mais do que sonho. Eram reais entrelaçando-se na imprecisão de tempos.
As casas vertiam-se sobre um lago abanado como brincadeira de papel. E tu dentro de uma delas caías realmente de um cair de sufoco e imenso medo por ti e pelos que tu sabias que caiam também.
Dizem-te que é imaginação. Sorris. Sorris de novo sem que te vejam. Não te iam entender. Tu viveste lá nesses imensos confins que...onde ficam?! de onde vêm essas... imagens (tão) reais?!
Aprecias mais dócil (est)a realidade. A tua, dizem-te. Sabes tu?! Olhas em redor. Não foi sonho. Os sonhos têm-se numa noite. Num pedacinho da noite ou de um dormir...

Não dominas a palavra de o contar.
A palavra de te dizeres tu.
De te contares nesse mundo real que to dizem de imagens.
Esse mundo que sentes real. Esse mundo que sabes real.



Quadro de
Dali


sexta-feira, 27 de maio de 2005

Um ele

Calorava na carruagem . Separadas por cada vida, gentes entravam. Buscava cada uma seu lugar longe da outra. Havia, naquela hora da tarde, muito espaço. Poucas gentes muito longes de um a outro banco. Tu na janela. O queixo na mão. Pensavas. Não muito pensando. Um laivo de pensar, rasando o olhar nas gentes, uma a uma, entrando na carruagem. No relógio enorme os ponteiros faziam um ângulo agudo. O sol batia no das horas. Ofuscava-te. Eram trinta depois das cinco. De apressado passo, a figura destacava no vir de lá do fundo. Não entrou na porta. Surgiu no meio de todas as gentes andando rápido, o sobretudo esvoando de sobre o fato. Uma barba entre o branco e o amarelo palha. Olhaste o que podias no ápice que se fez dele a esgueirar seu ir na extremidade oposta à que surgira. Ficou-te um interrogar de condição a dele. Ficou-te um a pensar que era figura de excentricidade. Não mais. Um tudo-nada além do cada um que buscava, longe de cada outro, sentar na carruagem. Solavancou de leve o corpo todo como de todos, cada um sentando sua vida no ir ou, como tu, no voltar.
E de repente. Muito de repente, tu ficaste no susto. Um gritar. Parecia que tinha começado sessão de teatro. A voz apregoando. Ele de passo tão estudado, entrando do oposto lado em que há pouco se fora de teu pensar. Um passo bem diverso como dançando. As mãos segurando coloridos venderes. A voz apregoando como quem conta história. Nem que nada mais tu vias que a excentricidade consumada. Não. Aquele teatrar vivido incomodou-te. O real de um ele a entrar em cena a cada ir da carruagem. Sim. Confirma. O teu imaginar espezinhado. Vidas no comboio.
Distraíste. Olhaste firmemente a paisagem.

quarta-feira, 25 de maio de 2005

replicação

Passado um ano… escritos que ainda dizem muito… que ainda dizem tudo…



instante

A tarde está terminando o dia
rumores de memórias acodem-me
perturbantes
viscosas
caprichosas
jogam comigo um jogo de escondidas
vão e vêm
aninham-se
descobrem-se
nunca de todo se mostram
e sei que estão ali
sinto o roçagar
a marca ténue
Concentro-me na quase sombra que deixaram
e noutra
e em outra ainda.
Fecho os olhos para ver melhor
Que nada!
Fugiram outra vez sem que eu perceba.
Fugiram sem que as perceba.
Memórias a brincar assim
parece de endoidado!
Não é!
Apenas de quem fica,
de repente,
sem querer,
com fome de explicar o presente,
a brincar com o passado.


adapatado do publicado em 1 de Julho de 2004

continua ali o texto invisível

segunda-feira, 23 de maio de 2005

um ano?!

Onde andava cada um de nós naquele dia 23 de Maio de 2004?!

onde...neste mundo dos blogues quando me iniciei com um espaço ali num intervalos, agora ahpartes, de um indeciso, mas já e sempre seilá, então com muitas reticências sei lá...?!
um espaço que iniciei
assim... tinham florido as minhas orquídeas

( tu aniversavas em aleluia de outras andanças desta vida! )

...devagarinho... com tantos de vós, amigos, fui vivendo e cheguei ao
UM ano a blogar!
como na Parábola do filho pródigo, hoje a lembrança aos que deixei de ver por aqui.
Mariaras a Velha... Armando do meu top do coração – nunca mais vos vi!
Inconformada que diz
escrevo apenas (ai! o nosso Devil!! ) – onde andarás, amiga?!
Inde - disfarçado por aí...nunca mais o vi!

A eles e a todos que vejo dia a dia neste tempo diferente de por aqui,

o meu muito obrigada

a todos é devido o meu estar hoje aqui

tudo o que escrevo, eu escrevo por vossas mãos também...

escrevi para todos este texto invisível




domingo, 22 de maio de 2005

amizade

Gostei tanto d'as Bordadeiras!!
um hino à Vida
as mutações/contrastes/continuidades nas relações...
Vão ver!
Vi em Lisboa no Quarteto
Vejam mais aqui


Nota:realmente merecia que dissesse mais para irem logo, logo ver...

..............



com a palavra doBiquinha
me fico

e o penso

quarta-feira, 18 de maio de 2005

dom de

Não era necessariamente azul. Nem era especialmente rosado. Nem era azul apenas. Nem era rosa. Era um céu de fim de tarde. Também não era um céu, apenas, de fim de tarde. Era um céu azul rosado ao fim da tarde. Porém, eu entendo, passada esta eternidade sobre esse eu ter visto, que não era isso. Nem que lhe acrescente eu adjectivos de assim como : era um fim de tarde belíssimo com o rosado do céu em fundo azul. Nem assim, deste outro modo: um fim de tarde majestoso banhava de rosado o azul do céu. Não. Decido que não. Não era um desses fins de tarde. Era aquele fim, daquela tarde. O céu não era nem azul nem rosa. O céu era uma paleta entre tons de muitos rosa e tons de muito azul. Tons de muitas frequências, naquela tarde. E estou quase a escrever algo de aproximado ao que era aquele, aquele e não outro, fim de tarde. Escrevi a palavra tom e escrevi a palavra frequência. Naquela tarde, além da luz com que se pinta e de outros variados modos se contar um fim de tarde, naquela tarde que chegava ao fim, houvera sons de várias tonalidades. Tantos acordes como a paleta que era o céu que vos tentei, de escrever dorido, descrever aqui. Acordes e tonalidades. Tonalidades de cor e som. Acordes de som e luz. A mesma caracterização precisa cada uma.
Tal era nesse dia de há pouco, agora, o fim de tarde em que se ali chegaste. O fim de tarde em que tu te sentaste na sombra. Não sentado à sombra. Não por ela, mas pela protecção daquele arredondado do casco do barco ali deixado. Como ele, tu. O barco e tu, ambos perdidos na praia de enseada virada a poente. Na praia onde se fazia um fim de tarde igual àquele fim de tarde de um outro Abril. Estavas acocorado naquele ninho do entre o barco e a areia morna em sentido oposto ao sol que derramara os tais de cor de rosa por sobre o fundo azul.
Quem te viu pensou, disto estou eu certa por devido àquele outro, muito antigo, fim de tarde que tentei descrever em tom e som. Quem te viu, olhou um doirado de debaixo do escuro quase que fazia no entre o barco e a areia. Quem te descortinou, pensou que era reflexo do céu naquela parte que era mais em tom azul, o que eram afinal os olhos teus. Quem te primeiro encontrou ali sentado, deparou dois olhos muito azuis e uma madeixa loira. Só depois, muito depois, quem te viu, percebeu que este fim de tarde em que te encontrou nem tinha nada de rosado e nem tinha, isso nem tinha nada, qualquer som.
Tu, vindo de nem sabes de onde, apenas ouvias naquele colorido da tarde, o colorido do teu imenso som.

leia notícia aqui
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
Oiçam-me nas palavras "minhas" escritas pela encandescente
Obrigada a ela!

segunda-feira, 16 de maio de 2005

No Chiado…à tardinha

Esguia, grossa,densa,
mulher de precisa passada.
Soltada de ti,
tua mão esquerda
esquartejava o ar.
Faca invisível,
dura.
Um gesto curto, rijo, agudo, intenso.
Num ir e vir de braço e mão,
o ar cortado
o ar abraçado.
A vida esventrada
ali
no início de coisa-nenhuma
bem no começo da calçada
bem no início da subida.
Esquartejavas a vida
num gesto rude
num gesto de tanto nada.
Precisa na passada,
deixaste no ar um rasgão.
...
(...ou foi apenas o meu medo?
Tão só ele correndo?!
Meu medo correndo de mim a ti
Desfazendo o ar
Esquartejando a vida
No início da calçada que subias,
Apenas o meu medo
Abraçado ao ar com que afinal vivias?! )


:_:_:_:_:_:_:_:_:_:_:
ei!!!!!....
por aqui a gente anda em obras
desculpai as interrupções


domingo, 8 de maio de 2005

ao sabor...


.-.-.-.-.-.-.-.-
No mail estava um comentário a um escrito meu num blogue Livro Branco. Eu fui ver e aqui sorri e chorei ali...


e fui relendo logo aqui e, bem antigo, em dia de chuva aqui

e, já agora, vão espreitar ARTE...AQUI

Gostei de ir folheando... e lendo

como eles além .... como elas ali...

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein