terça-feira, 16 de agosto de 2005

mar de volta...aniversariantes queridos ... Irmão Roger


Irmão Roger
o homem do sorriso bom,
o homem da palavra cativante,
assim o recorda a minha longínqua
(bem presente) juventude.
Tu terias resposta?



Deixo os Parabéns a duas pessoas muito queridas que aniversariam nestes dias

No dia 19 Mariaras a velha e reencontrada amiga

No dia 21 o meu querido, o meu paciente Ognid .
Para os dois este extenso mar numa modesta fotografia que é arte que ambos praticam e amam. Um grande abraço a ambos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Joel...

Joel tartamudeava sentado no banco corrido, o corpo quase deitado sobre a mesa, a cerveja a meio beber.
Não estava bêbado. Nunca se embebedara. Gabava-se disso. Sempre sóbrio na sua história de moço de fretes, bar aqui bar além, que ele achava, e sempre de outros assim ouvira, o tino não lhe dava para mais. Uma história de trinta e dois anos carregando cerveja para os outros beberem. Recolhendo as garrafas que os outros jogavam. Garrafas, no areal das noites de farra. Joel apanhava-as. Caixas e caixas de vazio no sol de cada Verão.
Hoje ele nem ainda apanhou uma garrafa. A farra durou até tarde. Hoje, ele e a sua cerveja conversando.
Semicerrou os olhos e reviu todos os acontecimentos do fim da madrugada. Um a um. Ninguém notara que ele ali estava, desprendido da vida, apenas querendo ver como ela pode acabar num apenas de repente. Ficou a olhar. Todos fugiam de lado a lado. Pareciam os coelhos soltados na avó. Ele viu tudo. Os tiros. O sangue. A areia vermelha no sol que despontava.
Estava ali sentado desde que tudo acontecera. O cheiro a injustiça enchia-lhe as narinas. Joel cerrava os dentes. A pele avermelhava em torno dos olhos. Sempre avermelhava de raiva na zona onde o queimado do sol é mais ameno e deixa ver restos de uma pele rosada do menino loiro.
Alguém se aproximou da mesa. Joel sentiu-o sentar-se aconchegando o banco às pernas. Ouviu o toque do copo dele no seu a quebrar o silêncio no bar abrigado na duna, a soar por sobre o ruído do mar. Joel fitou o homem sentado em frente. Olhou-o a beber a cerveja em pequenos goles. Esperou que ele lhe perguntasse alguma coisa. O homem olhava as ondas despedaçarem-se na falésia ao longe. Joel percebeu o seu engano. Uma gota transparente assomou no canto dos olhos.
Não viriam perguntar-lhe nada. Nada do que Joel bem vira. Aquele retirar da vida de modo tão simples que ele nem se assustara. Sentia a injustiça a planar no ar. Sempre. Joel fungou baixinho. A ele o tino não dava para mais. Diziam...

sábado, 30 de julho de 2005

rosa mel acastanhado

Rosa mel acastanhado.
Era este o tom da sua pele tal e qual a pensei naquela tarde.
Tal qual a descrevi naquele momento.
Outra luz, outro ângulo dos ponteiros, outra relação da areia na ampulheta, outra disposição minha. Qualquer desvio do meu pensar aquela pele, e variaria a descrição. Fiquei pela descrição inicial. Nunca mudei a descrição que fiz. A descrição da cor da perna. A cor da coxa dobrada em posição de um descanso soçobrado. Joelho e perna aconchegados, escondidos ambos por um leve lençol de pano branco. Um pano muito suave. A suavidade no pender de pregas nas formas da perna e restante do corpo.
Era de tarde, na hora do calor. O quarto cheirava a maresia. O vento, nortada desde o amanhecer, fazia velas em balão nos cortinados.
Ao seu lado, eu apreciava-lhe o sono. Sorria. Sonhava, pensei. Sorri-lhe descansado e terno. Olhei embevecido a cor de pele que adquiria mal o sol lhe tocava livre.
Tentava pintar aquele tom numa tela imaginária.

Foi a descrever o tom de pele, a pintá-lo, que tudo aconteceu.
Não percebi se foi o vento norte...
Não percebi se foi a maresia que se tornou mar forte...
Sei que foi mais rápido que mudar de posição os ponteiros no relógio, cair mais um grão de areia na ampulheta ou mudar a minha disposição...

Daquela tarde ficou-me a cor da sua pele.
Rosa mel acastanhado.
Ficou-me a descrição da cor que tinha a sua pele.

Naquela tarde em que o mar veio fazer navegar os barcos nas velas dos cortinados.

Bluelandscape de M. Chagall

quinta-feira, 28 de julho de 2005

encontro

Sempre soube que os homens voam. Mais. Sempre soube que cada um pode afastar-se de si mesmo. Ir para bem longe de si. Ir e ficar. Sentado na reunião, na mesa do café, no auto-carro. Ir e ficar. De pé, afastando o cortinado do banho, calcando areia na praia, chapinhando lama. Simplesmente, de pé ou sentado, por um ror, outro, de tantas coisas. Ir para muito longe de aqui como que voando. Pode acontecer a cada uma de todas as pessoas. Eu sempre soube. Chamavam-me, por isso, tolo. Tolo. Doido. Louco. Assim, atravessei meia vida (que Deus ma dei!). Hoje, fiquei cansado de afirmar ou retorquir aos que desacreditadamente encaram este meu saber de estar, e não estar ali. Que me chamem o que me chamem nunca me incomodou. O que me entristece é que não sintam como eu este saber. Ou desatentam dele, não o confessam?!
Um destes dias, andava eu devagarinho a passear no cais. Era em dia de sueste. As ondas espanejavam a falésia. As rochas, de momento a momento, ficavam mulher de veste branca, ou monge, ou padre. Andava eu devagarinho sentindo o espargir da água no ar a cada onda esfarrapada no molhe. O ar sabia a sal. A pele estalava. Era o final da tarde e mais se acentuava este tardio do dia naquele de Agosto com a neblina que acompanhava o sueste.
Foi num destes dias que encontrei sentado no molhe um rapazito dos seus oito anos. Sentado no paredão, apreciava o sentir da onda que se espraiava no molhe. Parei a olhá-lo. Senti uma enorme serenidade olhando-o. Aproximei-me. Junto dele e nem deu por mim. Sorria. Sentei-me a seu lado. Fiquei olhando-o. Restos de ondas molhavam-nos. Em dado momento, o rapazito moveu-se. Olhou para mim e riu. Mais do que isso falou:
- Quando te sentaste aí? Não dei por ti.
Respondi:
- Estavas tão concentrado na tua brincadeira. Fiquei a ver-te. Preferi brincar também.
Numa expressão de quem quer desfazer com firmeza um mal entendido. Numa expressão de quem olha para muito longe. Num misto de expressões para além de nós, o rapazito disse:
- Eu estava voando. Eu não estava aqui. Aproximei-me de mim quando te senti. Sabes como é?!
- Sei, sim – disse eu, sorrindo.
E ficamos ali sentados apanhando os restos de cada onda de um sueste em maré vazante num fim de tarde de Agosto, um dia destes.
Um dia destes depois de eu ter ficado cansado de afirmar ou retorquir aos que desacreditadamente encaram este meu saber. O homem pode voar. Afastar-se de si para muito longe.


domingo, 24 de julho de 2005

realidades?!

Ias no teu passo lesto. Mais lesto nessa manhã por duas razões. O receio que o atentado, por mais que te insurgisses contra ti mesmo, te havia deixado. Teres combinado estar cedo junto à saída do metro. A namorada esperava-te para irem ver a casa que pensavam comprar. Pensavas nela quando ouviste o metro a chegar à estação quase vazia. Ao mesmo tempo, sentiste correria, vozes que chamavam. Um ruído de vozes muito contundentes. E tu a correr para o metro com o teu tempo de fazer vida, de fazer futuro. E tu sempre a correr e as vozes cada vez mais perto e cada vez mais a chamar com ar contundente. E tu a correr e a tentar perceber. E o tempo que corrias era o mesmo tempo de ver que era polícia, de perceber que era a ti que seguiam. O mesmo tempo de separares cada perceber do outro. O mesmo tempo de colocar cada perceber numa ordem de prioridades. Colocar a ênfase no perceber inicial. O que primeiro te acudiu. O de sentires que a polícia estar a perseguir alguém podia ser indício de outro atentado. E o terror a revirar-te as tripas a toldar-te o raciocínio. E tu a correr para o metro que era o apelo racional mais forte. E neste tempo, os polícias em cima de ti e tu ainda sem uma organização de perceber. E o tempo terminou com o medo a transparecer-te nos olhos. Um medo que ninguém viu. Quem te agarrava apenas via o seu medo reflectido, transparente, nos teus esbugalhados olhos.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

desilusão

Deitou-se no sofá frente à televisão. A cozinha arrumada. A luz do candeeiro, muito velada, deixava em quase escuridão o grande espaço da sala onde tremelicava a luz da televisão. Ouvia mais do que olhava. Um ruído estranho e constante fê-la prestar atenção. Soergueu-se devagar, atenta. Voltou a recostar-se. Era a máquina de lavar. Punha as máquinas a funcionar sem pensar no que estava a fazer e depois nem de tal se lembrava. Esta mania de estar sempre a pensar longe. O noticiário acabou. Desligou a televisão e colocou música. No livro que andava lendo, mal passou duas linhas. A cabeça a andar às voltas. Interrogava-se. Espantava-se. Ela ali a sentir que, nestes últimos tempos, ou andava acompanhando mais as actualidades ou se andavam passando aconteceres tão estranhos que a levavam a dar-lhes atenção. Ou seriam as duas coisas?! Sorriu. Deixou que as imagens se formassem usando os olhos de ver para dentro e para longe. Pensava assim perceber ou, ao menos, relaxar.

Uma lagoa de terra muito escura. Um castanho quase negro. Disse lagoa, mas era mais uma enorme cratera de terra muito esfarelada em todo o perímetro e que se acumulava assim no centro. Uma brisa soprava e a terra do centro espraiava pelo espaço. Um espaço que parecia uma cúpula translúcida sem cor definida. Um horizonte que não acabava. Que não se percebia onde acabava. Era da neblina intensa ou daquela luminosidade esbranquiçada.
Concentrou-se um pouco mais naquela interioridade que a levava a outros lugares.
Como que foi abarcando para além daquele buraco árido. Era como se estivesse andando por lá...
Uma casa enorme toda branca. Um casarão com portões, portas, muitas janelas. Tudo fechado.
Deve ter ficado ansiosa naquele exercício de olhar com os olhos de ver para dentro. Deve ter sido isso.
De repente estava na parte detrás da casa e havia um tanque e uma trepadeira sobre um tanque onde água fresca corria de uma telha. Uma rapariga, via-a detrás, devia estar aparando água. Dobrada sobre o tanque devia estar molhando o vestido vermelho. Devia ter um avental largo. Via o laço branco atado atrás.
Era o que ela via com os olhos de passear para lá do de dentro de si.
Sentiu que tinha sede. Sentiu que tinha medo de voltar à cratera. Sentiu que lhe era estranho haver ali água e flores e uma casa e antes aquela paisagem morta. Sentiu que era bom que houvesse ali gente. Sentiu que era estranho a moça não se voltar. Sentiu que estava com muito medo e não sabia de quê. Já etava quase tocando a moça e sentia um estranho tremor, um quase desejo.
De repente, percebeu porque era vermelho o vestido da moça e de igual cor estava mesclada a água do tanque...
Tentou ir mais longe naquele ver para lá do de dentro de si. Tentou voltar a usar os olhos de ver para dentro, mas não conseguiu.

Ergueu-se e foi estender a roupa. A máquina acabara a lavagem.

Sentiu tristeza e receio ao pensar que perdera os olhos de olhar para de dentro ou que estes viam o mesmo que os outros...


quinta-feira, 14 de julho de 2005

simplesmente

Já fez uma semana que, numa capital da Europa, numa cidade do Ocidente, manhãzinha detonaram bombas em locais de gentes que acorriam, simplesmente, ao seu local de trabalho ou a um hospital, ou, ou...simplesmente apanhava aquele transporte público que, no instante em aquela pessoa- muitas aquelas- se dirigia simplesmente para o seu trabalho ou, ou, ou, o estrondo aparecia e o pavor e os gritos e o sentir que está numa armadilha e o sufoco e a saudade e o não saber respirar e o desrespirar e o morrer sentindo que se morre e ai que vou morrer e passam por cima dele sem lhe ver que passam e querem se salvar e são muitos num medo que é mais que medo e é sempre crer que se pode e já não pode a dor ensanguentada e o rir pensando em alguém amado e o chorar e o grito muito gritado de pavor ou se aquele consegue um vislumbre de sair daquele morrer e ...
Não eu não tenho o direito de assim narrar... já faz uma semana e silenciaram dois minutos por alma...
E faz uma semana e eu interrogo-me: PORQUÊ?
E gostava de obter resposta. Gostava.
Mas já fizeram tantas outras, muitas semanas, de outros tantos, muitos, rebentamentos em outras capitais do ocidente e menos aí que em capitais do oriente...fizeram semanas...nem acaba de fazer uma semana de um e está outro acontecendo e nem que têm tempo de tentar respirar.
E eu, de todos antes de há muito me venho a interrogar: PORQUÊ?
Simplesmente, eu, muito simplesmente me respondo:
Pior que não acreditar em sei lá eu bem o quê, é acreditar muito, mas mesmo muito em sei lá bem eu o quê. Será?!Poderá a grande crença que cega ser resposta aos meus interrogares?
Sei que, para mim, muito simplesmente eu, digo:
Acreditar muito completamente, mesmo muito, é acreditar na Vida nas suas múltiplas formas e em tudo o que a preserva e envolve e dignifica.
(Mesmo assim, um acreditar com a ressalva de não sabermos tudo de uma maneira definitiva e termos que ir pensando e crescendo uns com os outros. )
Tudo, e todos, o que contraria a Vida, seja de que seja o seu justificar, anda agindo errado no meu simples modo de ver.

sábado, 9 de julho de 2005

mal entendidos


- Bons dias Sª Dona Assunção! Uns espinafrezinhos fresquinhos?!
Avelino, ataviado no guarda-pó cor de terra que lhe expunha o excesso de carnes, esfregava as mãos uma na outra, as costas num requebro e os pés fazendo passinhos para a esquerda e a direita em frente da velha senhora. Senhora Dona era como Avelino sempre chamava às, como ele dizia, “verdadeiras senhoras”. Dona Assunção parecia não o ver e ia seguindo a sua entrada na loja o que fazia Avelino dançar – esquerda, direita, atrás; esquerda, direita, atrás; até chegar ao balcão, dois metros desde a entrada atulhados de caixas de fruta e legumes variados. Então, Avelino postava-se muito direito do lado de lá do balcão e ouvia atento e solícito.
Nem sempre ela vinha. Era até raro. Uma vez por mês, talvez. Normalmente vinha a Gertrudes, moça das Beiras que desde há muito trabalhava na casa. Trazia sempre um papelinho com a letra muito cheia de arabescos da dona Assunção. Quando Dona Assunção saía daquela casa, a maior da rua, aliás também da outra pois que ia de um lado ao outro; quando era ela que vinha à loja do Senhor Avelino, era assim que, como há 50 anos, Avelino a recebia. O mesmo quase cerimonial, variando apenas na sugestão de compra.
Hoje Dona Assunção encostou um pouco mais o corpo ao balcão, deixou cair a ossatura, que poucas carnes sempre haviam recoberto, numa inclinação de confidência ou de pedido. Avelino estranhou e sentiu-se como se uma lava lhe percorresse, em todos os sentidos, o corpo. Dobrou-se, instintivo, por de cima das chouriças, salpicão e demais charcuteria. A cabeça dependurada do corpo rechonchudo, muito espetada para ouvir. Avelino, antes, durante, enquanto ouvia, ele não sabe, apercebeu-se de coisas…tantas coisas!
A boca da Dona Assunção cheirava a leite e a açúcar queimado e Avelino pensa que corou. A boca da Dona Assunção era rosada por baixo do batom vermelho esborratado e Avelino sentiu que uma baba lhe escorreu aos cantos da boca. O cabelo dela era muito branco e via-se, assim de perto, o rosado da cabeça e Avelino sentiu que estava olhando Dona Assunção em camisa e acha que nem ouviu quando ela lhe sussurrou:
- Senhor Avelino pode passar-me a levar a casa estas compras? - e mostrava um rol escrito naquela letra esmerada. E explicava:
-A Gertrudes adoeceu e foi para a terra.
Avelino tremia-lhe a mão com que aceitou o rol.
Dona Assunção, que sempre o soubera um bom homem, não supusera que tal amizade o ligasse à Gertrudes e hesitou em dizer-lhe:
- Tenha paciência senhor Avelino.
E Avelino respondeu-lhe tentando que a voz lhe saísse sem tremuras:
- Farei com o maior gosto, Dona Assunção.
A entoação soou-lhe a grito de entusiasmo. Mas já, endireitando-se, Dona Assunção pedia:
- Pese-me estes três pêssegos, por favor, Senhor Avelino.

Gustave Klimt

terça-feira, 5 de julho de 2005

tesouro

Levei-me a ver o mar e estava acastanhado.
Levei-me a ver os prados e estavam amarelos de secura.
Subi aos altos montes e a neve derretia nas vertentes vermelhas.
Olhei o céu e o azul tapara-se de um amarelo que crepitava.
O sol no alto crescera num tamanho e cor como se fora pôr-se no horizonte.
Levei-me a ver os rios e andei a pisar leitos secos e em pedra. Sem nem lodo.
Sentei-me debaixo de uma árvore e não havia sombra.
Levei-me a espreitar as fontes nas serranias e esfarelavam terras amarelas. Lavas.
Levei-me a ver cidades e encontrei os vermes e as gentes convivendo.
Dependurados das janelas. Desfalecidos. Mortos. Deambulando enlouquecidos.
Levei-me a ver de novo o mar e este fervia.
Sentei-me na areia que ofuscava. Pus-me de joelhos.
Cruzei as mãos no peito e pedi-Te perdão.
Depois, eu que nunca soube oração, vi-me a rezar.
Pedia que nos perdoasses.
Agradecia-Te pela Vida.
(...)
Quando acordei a chuva tamborilava na janela.
Nunca mais parei de agradecer-Te nos essenciais tesouros que nos deste.

Imagem de G. Klimt

sexta-feira, 1 de julho de 2005

leveza

Trazias um vestido de ramagens verdes
com uma margarida em cada seio.
Cheia de cuidados, deste dois passinhos.
Parecia que pedias desculpa ao chão
licença para o pisar.
Passos de gata bailarina.
Passos de querer ir devagar.
Não mais que esses passinhos
dois
quase de passarinho.
Foi deste modo que vieste a mim.
Envolvi-te com muita ternura.
Encostaste o teu corpo ao meu.
Sorriste.
Apertaste de leve a minha mão.
Levaste-a aos teus lábios.
E, mais do que um beijo,
puseste nela o ardor do teu corpo,
o teu desejo.
Nossos corpos enfeitavam-se um ao outro.
Peguei nesse jardim que me acolhia
e numa curva de água
num fresco de sombra junto a um ribeiro,
em suas margens
fomos desfazer em pétalas
brancas, amarelas
devagarinho
uma a uma
as margaridas do teu vestido de ramagens.


sábado, 25 de junho de 2005

o dedal

O dedal caiu de novo. Parecia vivo o demo do objecto. De cada vez que o tentava enfiar no dedo anelar como assim aprendera amparando o dedo do forçar da agulha no tecido. De cada vez, ele caía e findava desaparecido. Ia encontrá-lo no lugar nenhum em que supusera. E só depois de um grito desesperado de estupor se lhe calar. Um grito que a ser, acordaria, a uma hora tardia como era aquela em que cosia na camisa o bordado. Pedira-lhe a filha. E arreliava-a aquela coisa do dedal. Ela que pensara fazer aquele serviço em menos tempo e, afinal, ali estava já a lua era um ponto no céu, muito lá em cima, depois de se ter apresentado redonda e rosada mal o sol se escondeu. Logo naquela noite, se lembrara de ficar dando aqueles pontos com o dedal endoidado de escondidas e saltos. Na noite de um dia em que ele chegara mais cedo. Ele sempre entrava no banho directo da fazenda. Por lá se ficava ronronando. Hoje, como habitual, chamara-a. Ela demorara-se no ir. Esperara novo chamar. Fizera charme, como um destes dias lhe dissera, de covinhas na cara, a sua menina. “Mãezinha, tu fazes tão bem o teu charme.” Pois que assim fosse. Fizera outra vez esse tal de charme. Era assim. Era como sempre fora. Ela tardava. Ele chamava. Ela demorava mais um niquinho. Sempre ia deixando ele esperar. Ele batia na água. Molhava a saia dela. Parecia brinca de meninos. Ela sabia que não era, não. Rolavam molhados e riam. Riam muito.
Pensava e ia dando pontos miudinhos para prender o bordado. De repente, exclamou um apre muito agudo. Um fio fininho escorria-lhe do dedo. Apenas um toque da agulha. Ela olhava o tecido embebendo. Assentou os tecidos na mesa e apertou o dedo com um pedaço de trapo. Não percebia porque se sentia tão bem com aquele fio de sangue a correr pelo dedo, encharcando os tecidos, sujando a blusa. Ela se parecia que vinha descendo de uma nuvem. A luz da lua entrava pela sala numa nesga da janela grande. A luz do candeeiro mal se apercebia. Apagou-o. Abriu de par em par a janela. O trapo caiu do dedo. Caiu-lhe o vestido. Devagarinho, quase numa dança, entrou no quarto. Aconchegou-se ao corpo dele.
Ele envolveu-a nos braços e, num sorriso que só a lua viu, tirou-lhe o dedal do dedo.
Ela teve acerteza que a luz da lua estava muito quente nessa noite
.

sábado, 18 de junho de 2005

instante

Buscavas uma sombra. A tarde abrasava, mas ali, na margem da ribeira, refrescava. A vegetação rendilhava de luz o saibro marginando as águas. Poucas águas. Um nada mais que regato ondulando sobre dispersas pedras. Viste-a. A sombra lá estava. Extensa sombra de um tronco, mesmo na beira da água, quase conforme ao anatómico que desejavas descansar. Encostaste a mochila, tropeçaste de ligeiro num ramo e deitaste-te. O corpo todo assente. Do lado de lá da ribeira pachorrentavam-se bois. Lentamente tiraste botas e meias. O fresco da água tocou cada um dos pés. Respiraste fundo.
A manga da camisa acima do pulso mostrou a marca arredondada. Sete dias. Deram-te sete dias de liberdade. Mais para a noite dormirias no endereço certo. Agora, precisavas abrir os pulmões à serra. Por isso, ali estavas apenas respirando...


imagem "por entre as pedras"de José Rebelo[ Mané ]

quarta-feira, 15 de junho de 2005

tu

Um risco no céu
Um luminoso risco alaranjado
Tu voando para muito além
Tu indo para qualquer lado

Um risco muito longo
Um risco muito andado
Tu sorrindo um sorriso rasgado
Tu aprimorado cavalgando potro

O céu rugia azul, anil, alaranjado
Tu pintando tintas no rosto amado
Tu tecendo rimas
Tu voando ventos
Tu chovendo chuvas
Tu...
um risco cortando o céu
num fim de tarde.

domingo, 12 de junho de 2005

anúncio


mataram o teu filho, mãe

fecharam-no numa cela,
a horas certas vendaram-no
mataram o teu filho, mãe

a uma hora que não esperava
apanhou-o o estilhaço da bomba
mataram o teu filho, mãe

o estampido soltou-se da pistola do guarda
mataram o teu filho, mãe

em volta da cintura uma faixa,
a uma hora de ponta retirou a cavilha
mataram o teu filho, mãe

na beira da estrada assaltaram-no
mataram o teu filho, mãe

mataram –no, mãe...

Acordei com a notícia da morte deles e aqui fica a minha parca homenagem

de Álvaro Cunhal

Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!


de Eugénio de Andrade

segunda-feira, 6 de junho de 2005

duvidas

Dois planos. Dois espaços. Mais do que essa simplicidade de ver: dois tempos. Não. Não é isso do relógio atrasado. É um algum outro espaço com um tempo diferente. Uma dimensão outra. Vagueias entre um e outro como uma corrente em movimentos de sinusóides interferindo.
Funcionas em planos diferentes.
Oscila em tempos diferentes o teu eu dividido.
Queres contar e as palavras não te chegam. Ou tu não as dominas. Não dominas as imagens. O mundo em que o teu eu vagueou. O mundo em que viveste. Não dominas a palavra de o contar. A palavra de te dizeres tu nesse mundo real que to dizem, e tu dizes, de imagens. Esse mundo que sentes real. (Esse mundo que sabes real.)
Não. Tu não dominas a arte de usar a palavra para contar o que nem percebes.
Não, tu... mais do que isso. Tu receias contar. Tu receias entender.
Não, tu não dominas a palavra que te conte.
Não, tu não dominas a palavra que te questione.
E as imagens soltam-se-te onde?! sim! e de onde aquela realidade?!
Campos de regatos terminando em lagos de fogo brando, amarelado, manso.
O mar em ondas de fogo. Ondas de fogo com a consistência e o ruído da água contra rochas. Rochas de lava. Cavalos brancos fogem em tropel. Só cavalos brancos. Rebanhos de ovelhas em fuga. Só ovelhas negras. O ruir das cidades como se tu estivesses longe e lá. Tu, sentada numa poltrona, vindo à varanda e sentindo-te ruir num escombro igual a cada um dos que eram apenas escombros da cidade. A cidade toda a escoar-se para um mar enorme. Um mar enorme muito azul muito escuro. Um mar que sabias muito fundo.
De onde essas imagens quando te sentias a tangenciar outra dimensão sem que te fosse permitido nela entrar?! (parecia que te empurravam, lembras?!) E tudo o que sentias, vias, era real. Mais do que imagem. Mais do que sonho. Eram reais entrelaçando-se na imprecisão de tempos.
As casas vertiam-se sobre um lago abanado como brincadeira de papel. E tu dentro de uma delas caías realmente de um cair de sufoco e imenso medo por ti e pelos que tu sabias que caiam também.
Dizem-te que é imaginação. Sorris. Sorris de novo sem que te vejam. Não te iam entender. Tu viveste lá nesses imensos confins que...onde ficam?! de onde vêm essas... imagens (tão) reais?!
Aprecias mais dócil (est)a realidade. A tua, dizem-te. Sabes tu?! Olhas em redor. Não foi sonho. Os sonhos têm-se numa noite. Num pedacinho da noite ou de um dormir...

Não dominas a palavra de o contar.
A palavra de te dizeres tu.
De te contares nesse mundo real que to dizem de imagens.
Esse mundo que sentes real. Esse mundo que sabes real.



Quadro de
Dali


sexta-feira, 27 de maio de 2005

Um ele

Calorava na carruagem . Separadas por cada vida, gentes entravam. Buscava cada uma seu lugar longe da outra. Havia, naquela hora da tarde, muito espaço. Poucas gentes muito longes de um a outro banco. Tu na janela. O queixo na mão. Pensavas. Não muito pensando. Um laivo de pensar, rasando o olhar nas gentes, uma a uma, entrando na carruagem. No relógio enorme os ponteiros faziam um ângulo agudo. O sol batia no das horas. Ofuscava-te. Eram trinta depois das cinco. De apressado passo, a figura destacava no vir de lá do fundo. Não entrou na porta. Surgiu no meio de todas as gentes andando rápido, o sobretudo esvoando de sobre o fato. Uma barba entre o branco e o amarelo palha. Olhaste o que podias no ápice que se fez dele a esgueirar seu ir na extremidade oposta à que surgira. Ficou-te um interrogar de condição a dele. Ficou-te um a pensar que era figura de excentricidade. Não mais. Um tudo-nada além do cada um que buscava, longe de cada outro, sentar na carruagem. Solavancou de leve o corpo todo como de todos, cada um sentando sua vida no ir ou, como tu, no voltar.
E de repente. Muito de repente, tu ficaste no susto. Um gritar. Parecia que tinha começado sessão de teatro. A voz apregoando. Ele de passo tão estudado, entrando do oposto lado em que há pouco se fora de teu pensar. Um passo bem diverso como dançando. As mãos segurando coloridos venderes. A voz apregoando como quem conta história. Nem que nada mais tu vias que a excentricidade consumada. Não. Aquele teatrar vivido incomodou-te. O real de um ele a entrar em cena a cada ir da carruagem. Sim. Confirma. O teu imaginar espezinhado. Vidas no comboio.
Distraíste. Olhaste firmemente a paisagem.

quarta-feira, 25 de maio de 2005

replicação

Passado um ano… escritos que ainda dizem muito… que ainda dizem tudo…



instante

A tarde está terminando o dia
rumores de memórias acodem-me
perturbantes
viscosas
caprichosas
jogam comigo um jogo de escondidas
vão e vêm
aninham-se
descobrem-se
nunca de todo se mostram
e sei que estão ali
sinto o roçagar
a marca ténue
Concentro-me na quase sombra que deixaram
e noutra
e em outra ainda.
Fecho os olhos para ver melhor
Que nada!
Fugiram outra vez sem que eu perceba.
Fugiram sem que as perceba.
Memórias a brincar assim
parece de endoidado!
Não é!
Apenas de quem fica,
de repente,
sem querer,
com fome de explicar o presente,
a brincar com o passado.


adapatado do publicado em 1 de Julho de 2004

continua ali o texto invisível

segunda-feira, 23 de maio de 2005

um ano?!

Onde andava cada um de nós naquele dia 23 de Maio de 2004?!

onde...neste mundo dos blogues quando me iniciei com um espaço ali num intervalos, agora ahpartes, de um indeciso, mas já e sempre seilá, então com muitas reticências sei lá...?!
um espaço que iniciei
assim... tinham florido as minhas orquídeas

( tu aniversavas em aleluia de outras andanças desta vida! )

...devagarinho... com tantos de vós, amigos, fui vivendo e cheguei ao
UM ano a blogar!
como na Parábola do filho pródigo, hoje a lembrança aos que deixei de ver por aqui.
Mariaras a Velha... Armando do meu top do coração – nunca mais vos vi!
Inconformada que diz
escrevo apenas (ai! o nosso Devil!! ) – onde andarás, amiga?!
Inde - disfarçado por aí...nunca mais o vi!

A eles e a todos que vejo dia a dia neste tempo diferente de por aqui,

o meu muito obrigada

a todos é devido o meu estar hoje aqui

tudo o que escrevo, eu escrevo por vossas mãos também...

escrevi para todos este texto invisível




domingo, 22 de maio de 2005

amizade

Gostei tanto d'as Bordadeiras!!
um hino à Vida
as mutações/contrastes/continuidades nas relações...
Vão ver!
Vi em Lisboa no Quarteto
Vejam mais aqui


Nota:realmente merecia que dissesse mais para irem logo, logo ver...

..............



com a palavra doBiquinha
me fico

e o penso

quarta-feira, 18 de maio de 2005

dom de

Não era necessariamente azul. Nem era especialmente rosado. Nem era azul apenas. Nem era rosa. Era um céu de fim de tarde. Também não era um céu, apenas, de fim de tarde. Era um céu azul rosado ao fim da tarde. Porém, eu entendo, passada esta eternidade sobre esse eu ter visto, que não era isso. Nem que lhe acrescente eu adjectivos de assim como : era um fim de tarde belíssimo com o rosado do céu em fundo azul. Nem assim, deste outro modo: um fim de tarde majestoso banhava de rosado o azul do céu. Não. Decido que não. Não era um desses fins de tarde. Era aquele fim, daquela tarde. O céu não era nem azul nem rosa. O céu era uma paleta entre tons de muitos rosa e tons de muito azul. Tons de muitas frequências, naquela tarde. E estou quase a escrever algo de aproximado ao que era aquele, aquele e não outro, fim de tarde. Escrevi a palavra tom e escrevi a palavra frequência. Naquela tarde, além da luz com que se pinta e de outros variados modos se contar um fim de tarde, naquela tarde que chegava ao fim, houvera sons de várias tonalidades. Tantos acordes como a paleta que era o céu que vos tentei, de escrever dorido, descrever aqui. Acordes e tonalidades. Tonalidades de cor e som. Acordes de som e luz. A mesma caracterização precisa cada uma.
Tal era nesse dia de há pouco, agora, o fim de tarde em que se ali chegaste. O fim de tarde em que tu te sentaste na sombra. Não sentado à sombra. Não por ela, mas pela protecção daquele arredondado do casco do barco ali deixado. Como ele, tu. O barco e tu, ambos perdidos na praia de enseada virada a poente. Na praia onde se fazia um fim de tarde igual àquele fim de tarde de um outro Abril. Estavas acocorado naquele ninho do entre o barco e a areia morna em sentido oposto ao sol que derramara os tais de cor de rosa por sobre o fundo azul.
Quem te viu pensou, disto estou eu certa por devido àquele outro, muito antigo, fim de tarde que tentei descrever em tom e som. Quem te viu, olhou um doirado de debaixo do escuro quase que fazia no entre o barco e a areia. Quem te descortinou, pensou que era reflexo do céu naquela parte que era mais em tom azul, o que eram afinal os olhos teus. Quem te primeiro encontrou ali sentado, deparou dois olhos muito azuis e uma madeixa loira. Só depois, muito depois, quem te viu, percebeu que este fim de tarde em que te encontrou nem tinha nada de rosado e nem tinha, isso nem tinha nada, qualquer som.
Tu, vindo de nem sabes de onde, apenas ouvias naquele colorido da tarde, o colorido do teu imenso som.

leia notícia aqui
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
Oiçam-me nas palavras "minhas" escritas pela encandescente
Obrigada a ela!

segunda-feira, 16 de maio de 2005

No Chiado…à tardinha

Esguia, grossa,densa,
mulher de precisa passada.
Soltada de ti,
tua mão esquerda
esquartejava o ar.
Faca invisível,
dura.
Um gesto curto, rijo, agudo, intenso.
Num ir e vir de braço e mão,
o ar cortado
o ar abraçado.
A vida esventrada
ali
no início de coisa-nenhuma
bem no começo da calçada
bem no início da subida.
Esquartejavas a vida
num gesto rude
num gesto de tanto nada.
Precisa na passada,
deixaste no ar um rasgão.
...
(...ou foi apenas o meu medo?
Tão só ele correndo?!
Meu medo correndo de mim a ti
Desfazendo o ar
Esquartejando a vida
No início da calçada que subias,
Apenas o meu medo
Abraçado ao ar com que afinal vivias?! )


:_:_:_:_:_:_:_:_:_:_:
ei!!!!!....
por aqui a gente anda em obras
desculpai as interrupções


domingo, 8 de maio de 2005

ao sabor...


.-.-.-.-.-.-.-.-
No mail estava um comentário a um escrito meu num blogue Livro Branco. Eu fui ver e aqui sorri e chorei ali...


e fui relendo logo aqui e, bem antigo, em dia de chuva aqui

e, já agora, vão espreitar ARTE...AQUI

Gostei de ir folheando... e lendo

como eles além .... como elas ali...

terça-feira, 3 de maio de 2005

malhas...

Apetecia-lhe uma cerveja bem gelada. Uma amarelinha a borbulhar de pressão. Sentir o escorrer gelado pela garganta e cada um dos movimentos do corpo engolindo-a. Prazer. Um pequeno prazer entre corridas, a meio da tarde. Todos os dias escaldantes. Este ano, desde quase... desde... e espantou-se! este ano era assim desde o Natal?!
Hoje, mais lhe apetecia. Hoje ele transportara o inferno na última corrida. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo. Hoje, tal e qual como vinha (como se lembrava bem!) no Catecismo da 3ª comunhão, ele transportara infernos assentados no banco detrás do seu Mercedes de aluguer. Por isso, e porque lhe era de costume, desejava tanto beber aquela amarelinha dos dias quentes. Sentou-se na mesa de que tanto gostava. Uma mesa solitária no fundo do café. A última mesa, bem por debaixo de uma desbotada Severa enquadrada a doirado de dimensões que cortavam o pé pendente do tocador.
Sentado sob um Malhoa que nunca apreciou mais do que o que via como concupiscência aveludada da pele desnudada do corpo. O corpo oferecido dela, sempre o fazia descer o olhar sobre o tampo rosa da mesa de imitação de mármore. Um desviar de não querer ver que nunca lhe acontecera com os calendários que dependurara no carro, noutros tempos. Deixara-se disso que a clientela de um modo geral, nunca se percebera bem porque razão, desapreciara. E que belos calendários ele tivera! Um para cada ano! mas escolhia-os de entre os que as lojas quase pediam que aceitasse e alguns clientes ofereciam num gesto de simpatia ou de mistura com uma daquelas mais picantes. Seleccionava. Confessa, hoje, ali sentado já a amarelinha ia a meio do copo e ele distendera ambas as pernas contorcidas debaixo das quatro da mesa de ferro imitado de cor verde tropa. Escolhia a dedo cada calendário e chegou a pedir, discreto, aquele que vira a um colega na praça ou na paragem mais prolongada num semáforo.
Bom fornecedor de sobras de qualidade, era o Rodrigues. Onde andaria?! Fechara a casita de concertos já ia para dez anos. Tanto?! espantou-se e reparou que nessa tarde se espantara várias vezes e com uma intensidade invulgar nele ou no que julgava conhecer de si. E ainda se sentia de incómodos com aquelas viagens e aqueles passageiros. O inferno no banco detrás por quatro corridas. Sempre o inferno ardendo lá atrás. Mas, lhe pedisse sequer a ele mesmo, quanto mais contar a outro, e ele não saberia dizer porque sentia que fora mesmo o inferno que transportara.
Desviou o sentir para os calendários e fixou-o nele, o Rodrigues Sapateiro. Bom moço! E perfeito no colocar capas, solas meias e inteiras, saltos...e ainda colocou muita brochas e biqueiras...aquelas coisitas que faziam o andar duro demais para soalhos de gente fina, mas poupavam meias solas e umas gáspeas. Bom moço o Rodrigues! A lojeca de arranjos decorava-a ele com os calendários. Sempre cuidadoso – todos calendários do mesmo ano. Entre os finais de Novembro e o dealbar do ano, como ele dizia “já estamos no dealbar de um novo ano!”, mudava, um a um, cada calendário.
Sorriu agarrando a amarelinha já apenas fundo de copo.
Ia colocar a moeda de pagar sobre o rosa da mesa, já o corpo se desdobrando-se do sentado para o levantar.
O ar parou. Ele acha que deve ter parado. Ele acha que parou tudo depois de ver aquela mão de dedos rechonchudos anelados a oiro se colocar sobre a dele, enquanto o cotovelo se esgueirava, duro e doloroso, no seu apessoado ventre vestido com a t.shirt que dizia o nome do seu clube.
Literalmente, como diria o Rodrigues Sapateiro, moço de boa fala, literalmente empurrado, voltara a esquentar o assento da cadeira com o rabo de calça agangada.
Levantou a cabeça e, claro!!! antes do que lhe dizem que aconteceu, ele teve a certeza! mas porque achou tão normal?! porra! é que nem percebia porque parecia que estava à espera deste que lhe estava em frente! era ele! o homem que levara desde o Roma até à Clínica Angel. Ainda o ouvia: “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”. E aquele som do se faz o obséquio ele juntou rápido ao que entreviu no retrovisor já rolava Almirante Reis abaixo. Quatro vezes a mesma voz e o mesmo pedido de quatro locais diferentes. Agora como explicar o que percebera?! que culpa tinha ele, Almerindo desde que seu pai assim entendera no “se for rapaz”? que culpa tinha ele de ter reparado nas meninas, duas de cada vez, de locais vários daquela capital, “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”?!
Ele, Almerindo, sorrira para o espelho, mas jurava a si mesmo que fora pela puta da coincidência de ter ele passado quatro vezes nessa manhã por aquele homem em locais diferentes daquela cidade capital de país o que quer dizer enorme, apesar de não ser o caso. E sorrira porque se lembrara dos calendários e do Rodrigues.
O homem viu o riso. Olhou. Abriu uns olhos, supõe ele Almerindo que os tenha aberto, por debaixo daqueles óculos negríssimos de marca. E Almerindo ouviu apenas um rugir de “Encontramo-nos, meu!”
E encontraram-se! ali, por debaixo do quadro desbotado do Malhoa.
Ele, Almerindo, pensou estes aconteceres todos sobre o homem, já ele tinha-se deslargado nas calmas pela rua do Conde Redondo abaixo que era onde ficava o cafezito, e deixara a cara do Almerindo preparada para ir “ali até S. José” como dizia a Cremilde empregada de há anos no servir das amarelinhas, acrescentando “ eles tratam-te! mas porque seria que o cabrão te assentou tão percebido que eras tu?! que raio sabes tu, Almerindo?! porra, homem, a gente tá cá...arrima-te”. Desenfreada de língua a Cremilde.
E Almerindo a pensar, de dentro de sangues e socos e dentes pendurados, que aquela advertência-interrogação da Cremilde devia de se encaixar com o que o fez vir mais de repente a meio da tarde para sorver a amarelinha e que era ele sentir que hoje transportara o inferno. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo.
Adormeceu ou desmaiou, aos solavancos no 115?!
Dois riscos de amarelinha saía-lhe pelos lados da boca.


domingo, 1 de maio de 2005

dia de todas as mães

Neste dia da Mãe e 1º de Maio de tantas lutas em tantas diferentes datas, veio-me à memória o menino de sua mãe do Pessoa e lembrei-me de Gorki e encontrei uma resenha da sua Mãe aqui
a Lyra lembra-nos os meninos que não tem mãe...


E eu fiquei pensando nas mães e nos filhos
e o que eu hoje gostava era de saudar todas as mães!
Todas as mães !
A mãe do drogado, do prostituto, do desempregado

do doente, do morto, do louco, do desesperado...
do...do...do...
A mãe do que é assaltado e morto e estropiado
A mãe do que assalta e mata e estropia
A mãe do preso e a mãe do carcereiro
A mãe do soldado morto e a mãe do soldado que atirou
A mãe do violado e a mãe do violador
Disseram: “Chega” ?!...
Claro que chega...
é mais interessante, mais elegante
(será politicamente correcto, também?!)
lembrar a mãe de um deles
mas há uma mãe em cada um deles!






cada um com uma mãe a esperar

E aqui deixo ....


O Menino da sua Mãe
Fernando Pessoa

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


retirado daqui


Obrigada Ognid pelo conselho pela dádivano teu comentário...é o que ainda vale de aqui andar nos blogs ! Vão ler este texto da Encandescente!

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Chocolate

Este hoje é dedicado
Ao pessoal d’oblogdalibelua que faz um aninho
À Sotavento ca mecinha hoje (e sempre...mas NÃO faz anos carago!!!) merece tudo



Ao fundo da sala a parte antiga de mim pinta os lábios de vermelho. O batom esborrata-se nos cantos e eu lambo. Sabe a amora com travo de ranço. Um batom, como eu, rançoso. O fato que visto é verde. O brilho que tinha ainda se nota na bainha. No resto, e sobretudo nos sovacos e nos em redor dos mamilos, também na cintura, o brilho do tecido deu lugar a um baço verde. Quando iluminado, parece branco, opaco, quase roto. No cabelo, camadas de cores antigas esconsas num acobreado. A ondulação larga e fingida descai-me sobre a testa. Eu sentada com o cotovelo apoiado na mesa lá bem no mais escuro fundo do salão. Eu. A que vive perdida de mim há anos. Eu a que não morri. Velha?! Não! Desgostada da vida. Busca-me a cada canto. Olha, noite após noite, que eu passe na rua quando volto, pela madrugada, já as gentes se indo para os afazeres de um dia. Olho-me. Eu a procurar-me naquelas mulheres que conduzem carros. Naquelas mulheres que se sentam displicentes no balcão de um bar tomando o pequeno-almoço. Naquela que folheia revista de decoração de casa, na outra que começou a aula e se debruça sobre uma criança, na que não dormiu e sai do hospital zonza pensando. Naquela que descobriu a um olhar, um rasgão vertical na meia preta muito esticada, muito elegante, muito feita para ser vista. Eu de cabeça em volta busco-me e não me encontro. Eu olho-as todas num cansaço. Puxo a aba do casaco de uma imitação de burel castanho e afofo ao cabelo a boina. Aconchego as luvas entrelaçando os dedos uma mão na outra e aproveito para um bafo de quentura lhes deitar da boca. Endireito as costas e o pescoço levantando o mais que posso o queixo e sinto que este gesto me obriga a um pisar mais forte no cinzento do asfalto coberto de geada da noite. Sinto as botas a tocar a saia cinzenta por baixo do casaco. Sinto o soutien mover-se roçagando os bicos dos seios. Sorrio a este sentir do corpo. Olho-me no espelhado de um carro. Encontro eu ali na imagem. O cabelo parece penteado e com corte. O ondulado ganhou forma de naturalidade e a cor de um cobre natural, sombreada de muitos entremeados brancos. O batom...Continuo a andar. Busco-me a mim. Paro defronte de uma cafetaria. Na montra há um espelho que multiplica os detrás dos bolos. Fez-me fome e vontade de uma bebida quente. Um chocolate grosso! Eu, parada frente à montra, pensando chocolate quente. O espelho envia a minha boca reflectida. Uma boca sem batom! Uma boca de cor rosada. Encostei o nariz no frio do vidro. Eu queria ver se era eu. Olhei com força no tal espelho que fazia muitos os bolos na montra. Debaixo dos cabelos caídos para a cara, descobri um par de olhos de mim! Um par de eu a olhar para mim!
Meti as mãos nos bolsos e com o ombro empurrei a porta rotativa e dei uma, duas, três, tantas voltas sem entrar no café. Fiquei andando de roda na porta com aquela eu que encontrei. Mas há mais de mim, eu sei!

Estarei em casa lendo?! Será que estou na cama revendo o êxtase de há instantes, revolteando lençóis meu corpo desvestido, saciado fazendo-se-me afagos?! Ah! Serei a que desabriu a janela para penumbrear sala onde tem marido doente?! Não?! andarei cantando num jardim?! Ah! Estou nadando numa praia no outro lado desta rua, quero eu dizer, no outro lado do mundo!!
É! eu ando por aí em muitas muitas tantas e estou aqui escrevendo assim... ando por aí....

ando por aí!!!!

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eu a acabar de escrever este texto e trazem-me esta caixa de chocolates embrulhada num sorriso
a vida é feita de pequenas coincidências algumas de chocolate...
saborosa!
é mesmo de lamber os beiços!





domingo, 24 de abril de 2005

era uma vez...

Escusado gritar por eles ... Timóóoooteo!...Esteeeer!!! Mariaaaana!!! Melhor mesmo é ir lá, juntinho de cada um. Devagarinho, assim que nem festinha, muito de lento, tirar tampa de ouvido e logo, ao mesmo tempo, dizer o que se quer: “Timóteo, vou contar história!” “Ester, vamos na roda do tapete?!” – a Ester é ainda quase de pegar no colo!
Eles sempre querem ouvir história. Lhes habituei eu que nunca tive, nas terras em que me vi crescer, aqueles materiais que Dona Marília compra para eles cada dia. Sim mesmo! Ela traz sem ser dia de festa de aniversário ou Natal... É só ver ela chegar naquela caixinha de subir que nem lagartixa em parede, desde o jardim até ao décimosextoandar! Ai! décimosextoandar?! e eu que nunca percebi o que ela queria de dizer com aquela palavra. Olha... eu que estava pensando em contar a eles, hoje, uma história que minha avó contava sobre palavras, e logo me encontro com uma que nem sei que ela quer dizer... se sequer é palavra! A Dona Marília chegava na tal caixinha (essa eu sei que é elevador!) e dizia: “Finalmente no meu...”e falava aquela tal que eu, agorinha mesmo, agora, descobri que nem sei se é palavra!
Bom, mas a conversar assim, com vocês que não estão aqui na sala onde cada um dos três rapazes filhos da Dona Marília, mais cinco primos e primas que hoje cá ficaram para dormir... a falar,mesmo que seja, como é, um falar só pensando, nunca mais eles se desprendem das ligações na rede...Olha outra palavra que não sei significado!! Mas é o que cada um deles diz : “Espera Maria das Dores que inda tou na rede”.
Nem que eu mesma, nunca apercebera que havia palavras que sendo ditas não eram sabidas! Estou quase me chorando de andar aqui tentando que eles oiçam a tal história sobre palavras e eu descobrindo que emprego algumas de mal entendimento. Mas não vou desistir. Olha quem?! Eu sou nascida naquela ilha que chamam de Cabo Verde e minha pele é negra mais que a da Dona Marília quando volta do solário. Deus que me valha que eu tou-me assustando de mim! Outra palavra a sair sem percepção! Solário?! Não sei, não, o que é! Minha cabeça hoje está me pregando partida...pois que eu julgava que solário era...Que sei eu o que eu julgava que era solário! Não julgava nada!
E com esta atrapalhação ainda vou me mentir...mentir apenas de pensar! Porra! Eu nem sei palavra melhor para, inda que só pensando, gritar minha indignação comigo – falar palavra sem saber o que ela é de querer dizer.
Pronto. Ando a pensar isto tudo ao mesmo tempo que vou ajuntando cada um dos meninos em volta do tapete, e agora como é que eu vou contar a história que começa assim: Houve um tempo em que a palavra andava presa.
Me diga eu a mim: Maria das Dores, como é que tu vais contar?
Mas vou que eu não sou de assustar com palavra nova ou que descobri que empregava sem lha perceber.
Então agora que eles já estão todos sentados, enrolados, abraçados aqueles ali no canto! Eu vou é começar. Já sentei a bunda que é que nem a da minha avó... no resto sou fininha, mas a bunda é rija e alargada.
Eles tão julgando que é de bichos da selva ou de tiros ou de aquele avião que deitava fogo e do outro que deitava saco de milho.
Hoje, a Maria das Dores vai contar uma história de um tempo em que as palavras, mesmo aquelas que eram muito percebidas, eram proibidas de sequer ser pensadas.
Era uma época em que as palavras podiam ser presas. Era uma época em que era crime palavra inventada, e mais ainda palavra de verdade. E as palavras podiam ser mortas.
As palavras andavam refugiadas em encontros nocturnos, perdidas em esquinas.
Palavras sussurradas muito, muito amadas.
A história é longa, mas tem como todas as que lhes conto, um final muito feliz.
Antes de contar pra eles, eu adianto o final.
Há um dia em que a Palavra, foi libertada. E com ela todas as palavras.
E as bocas e os olhos ficaram cheios de palavras à solta enchendo as ruas.


Esta é a história que lhes vou contar ...
-Ester, minha linda! não durma... Maria das Dores conta...
Era uma vez...


quinta-feira, 21 de abril de 2005

memória

Vinhas em torneados de dança.
Os pés descalços.
Finos os tornozelos.
Inaudível o teu pisar.
A luz a que dançavas, era...
entre ser o sol e o se deixar de ser
a estrela que alumia
Também na luz de um castiçal de velas
teu corpo tu dançavas.
Volteios de serena volúpia.
A dança duplicada.
O deslizar da vela se lacrimando
e o teu quase chorar... dançando.
Serpenteavas abraçando o ar.
Descalça.
Sacolejando panos... asas...
transparências coloridas.



Vinhas dançando
e eu estava ali.
Eu estive sempre lá.
Vi o sol se colocar detrás
Vi as velas acabarem...
lágrimas de cera... só...
Eu estive sempre lá.
Sempre...

E tu vinhas para mim....
Dançavas ronronando
gatinha bailarina.



o verdadeiro sentido deste texto está ali na gatinha do abstracto concreto que eu nem sei como dizer eu te agradeço TCA! eu te agradeço!




segunda-feira, 18 de abril de 2005

imploração



deixa eu descansar
eu quero mesmo só ficar assim
de costas voltadas
sem ver um só de nada
quero ficar desouvindo
ficar bisbilhotando sonho dormido
prevaricar dormindo em hora de trabalhar
baixar a persiana e desver o sol
passar olhar em letra e não ler
fazer lacinho com dobra de camisa...torcer
abraçar o ursinho
ficar olhando desenho em risco de parede
deixa eu descansar
não me chama em hora de ir
deixa eu andar por aí despida
sentar no tapete a tarde toda
toda a tarde vendo fotografia
deixar correr o rio saudoso
fungar nariz em cima de foto amarela
deixa eu descansar
deixa esquecer
deixa ficar comigo, eu
depois eu volto e faço vida de viver
agora...deixa eu morrer de gente...
apenas não estar...

sábado, 16 de abril de 2005

anos


Voltavas da tarde na eira. O vestido debotado volteava de lilás em teu redor. A brisa soltava dele florinhas. Voltavas vestida com um simples e velho vestido lilás com flores miúdas rosadas. As florinhas, sopradas pela brisa, faziam grinalda em teu andar. Era um fim de tarde de Agosto. Um muito ao fim da tarde quando as sombras se esbatem e ficam muito atrás das gentes e das coisas. Era uma hora em que os corpos vão deixando de fazer sombra. As mangas do vestido eram um balão muito pequenino. O elástico dentro da manga que fazia que ela fosse dita manga de balão, quase encostado ao ombro. O braço, os dois braços, ficavam sem vestido. Os dois braços ficavam muito braços entre a manga e o pulso, passando pelo cotovelo aguçado, tão rosado como o resto da pele. E os pelos loiros brilhavam na luz do fim daquela tarde de Agosto. Tão loiros eram, ainda mais brilhando, os cabelos de caracóis meio cobertos pelo lenço azul atado displicente por um nó. Um lenço na cabeça atado com um nó sobre a nuca muito branca. Como era branca a pele da nuca ali onde o nó segurava o lenço e onde poderia alguém tocar ou simplesmente ver, confirmar, a brancura, alguém a quem permitisses que levantasse devagar os caracóis aí dependurados. O loiro, esse, a gente consegue descrever por comparando ao folheado das maçarocas secas que desfazias na noite de há quatro dias naquela mesma eira de aonde agora vinhas. Ficavam-te na mão as maçarocas de cor divina e de quando em quando ou num quase nunca mais, gritavas tu, que outro já fizera, milho-rei. Vinhas da eira ao fim de uma tarde assim como descrevi do que eu me lembro. A brisa soprava em inverso sentido do teu andar. Por este acaso de vento leve que sopra no sentido da eira, eu quase via teu corpo sob o vestido lilás. Os seios. O redondo do ventre. As coxas. Calçavas aquelas sandálias de cabedal entrançado em tiras sobre o peito do pé. Os dedos, quatro deles, livres volteavam ao teu andar. Dançavam, os dedos nas sandálias. Dedos brancos apesar do pó da terra. Assim te via eu sentado no beiral de cima da fonte. Muito sentado olhava a menina Tinhas quinze, dezasseis?!
Em cada mão trazias uma outra apertada. Uma mão pequenina dependurada de uma criança. E eu via três meninas. Eu via a ti menina . no dia dos teus vinte e cinco anos. Hoje. Quando vinhas, em contra brisa, da eira, trazendo, em quase brincando que ias, uma em cada mão as tuas crianças. E eu só via, dependurado, olhando, do beiral da fonte, a menina andando, quase que voando, de me fazer a mim pelos céus me ir, naquele riso de descuido ao passar na fonte, com um sonoro e quase trinado “Deus te salve, António!”

quinta-feira, 14 de abril de 2005

encontros do coração

Tinha na caixa do correio este Risco

obra sempre prima do TCA

e palavras ...
velhas palavras...
assim como um abraço ele escrevia
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara! (...)
palavras encanecidas que ele leu...
palavras velhas por aí

Deuses lh'abençoem! o mesmo desenho ilustra no Abstracto Concreto
palavras NOVAS... as palavras No Lago do Breu do Zeca Afonso recordado com magia de amor no Orpheu.


segunda-feira, 11 de abril de 2005

realidade/s

Nem um traço de caminho. Nem um sinal de orientação. Nem luz, nem sombra, nem um estrebuchar de ave volvendo ao ninho perdida na debanda a outro rumo. Nada . Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada. De repente, um roçar de seda fria na mão. Um estremeço... medo, espanto, desejo, esperança. Alegria? Não.
Agora, um sentir de carne
Uma pele roçando. Em redor a negritude e aquele nada de nem sequer o silêncio por comparado. Nada. A pele e a seda. Começas a sentir que existes. Há algo que se relaciona contigo. És. No nada, a pele e o tecido. Não sabes. Sabes que se rompeu o nada. Dás um passo e sentes um soprar quente na zona que te lembras ser a mão de um dos braços. O teu braço ergue-se para alguma coisa-alguém. Pára. A mão que o teu braço conduziu no espaço deserto de som e luz, encontra um rosto. Desliza devagar e sente-o peça a peça: nariz longo, olhos semicerrados, as pestanas, sobrolhos fartos, um queixo ossudo. Tu tens uma pessoa contigo. Afagas o rosto. Um dedo da tua mão encontra a cavidade da boca. Percorre os contornos internos de uma boca que se fecha e te entrega a suavidade húmida de uma língua. O teu dedo rola no interior daquela cavidade que o lambe e morde com dentes pequenos e agudos. O silêncio arde. Não sabes se falas. Sabes que pensas. Sabes que não ouves. Nada. Vazio?! Dás um passo a encontrar o corpo. Envias a mão no erguer do braço e buscas. Acima e abaixo daquela boca e daquele rosto...nada. Duvidas. Retornas. Outro passo. O dedo revolteia na contorção da língua e sentes o bafo quente. Mais nada. Estás ali... num ali que nem sabes o que é porque sem referencias. Contigo uma face, uma boca, uma língua. Sem corpo. Volteias o braço em redor de ti. Não tocas. Não te tocas.
Dois braços. Duas mãos e um rosto com boca e língua que lambe e dentes que mordem. Sentes a suavidade da pele e aquela outra de seda caída do cima do rosto. Puxas devagar o dedo. Solto o dedo da boca. Coloca-lo sobre a outra mão. Seco. Lambido, o teu dedo está seco.
Uma luz intensa embate nos olhos que fechas com pressão das pálpebras. Encolhes o corpo numa uterina postura. Um ruído intenso. Um som que não dominas. O dedo seco aprisiona algo. Ergues-te na luz branca do quarto. Tocas, incrédulo,uma parede. Apalpas. A parede água suga a tua mão. A tua mão, além,um jacto de água.
Ah! o barco! ela no barco! há quanto tempo?!
Agora te sabias. Vagavas de quando em vez...Agora te sabias ser. Frequências interferindo te faziam ser.Pedaços. Pedaços de ser.
O que fica da gente! pensaste tu. A parede de água enrolou-se-te nos pedaços de ti.
partiste? tu? quem? onde? quando?

(Nada. Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada.)???

sexta-feira, 8 de abril de 2005

estórias...

Dona Antónia modista.
Antoninha era apenas nome de designar a senhora assim de brincar. Maria Antónia para a família e amigos.
Era a Dona Antónia modista pois piadas eram pouco frequentes...nem as havia! mais agora que ela se deixara dos pontos e das máquinas e deitara na lixeira as cadeirinhas onde se assentavam as meninas da costura.
Antoninha há muito que ninguém se referia a Dona Antónia desse jeito de sentir, sequer de lembrar ou se a ela referir. Quase podíamos dizer que nunca existira uma Antoninha.
Maria Antónia era, essa sim, figura de presença assim designada pela madrinha. Mas também, mais ninguém, ao que o narrador saiba, se lhe referiu deste modo, ao tempo desta narração. Dona Antónia modista de profissão herdada precisamente dessa madrinha. Madrinha, modista de casa posta, freguesia certa e seleccionada de entre, e apenas de entre, as senhoras de nome e casa de brasão. (Verdade que muita camisa e fato de sair, vira o corte e a vestidura primeira, nessa modista madrinha de Dona Antónia. Mas essa roupa de pano de condição sempre inferior a uma seda ou a um brocado, essa de um corte que nem consulta de desenhados se precisara, saía sempre pelas traseiras na calada da noite ou muito antes de algum galo cantar. É isso que os leitores pensam esta,r eu narrador, dizendo: essa madrinha fazia umas roupas para o povo, mas era coisa de escondido para não desafamar a casa de modista que fizera nome. Estórias...)
Foi pois Maria Antónia, ainda menina, sentar o seu já bem apessoado traseiro, numa das pequenas cadeiras dessa madrinha. Levava-o, ao traseiro de então, recoberto em saias de panos de cotim, uma chita florida, um algodão na roupa de mais achegar ao corpo - um colete, um saiote. Dobrada como as outras naquele jeito de coser. As pernas, muito juntas. A roupa se achegando aos olhos tal como o prato da sopa.
Maria Antónia cedo chuleava de jeito que não saía um fio do interior da costura. Envelhecida a tia, já ela dava ordens de prioridades e modos de colocar o ferro na entretela ou a tesoura entre o molde e o tecido num espaço para bainhas e algum embebido.
Numa noite de um Janeiro muito nevado, a tia continuou o sono que dormira aí pelo início do sol se esconder atrás do monte e as galinhas acabarem com aquele odioso guerrear de arrumação nos poleiros. (Maria Antónia bem que viu o fogareiro de manter brasas para os ferros de engomar as roupas, toda a noite alumando.)
A madrinha ficou dormindo ía Maria Antónia nos seus dezassete anos. Não que soubesse esta idade com muita certeza, mas era mais assim do que menos porque os sangrares mensais já se lhe eram segredo só partilhado com a Emília Coxa, desde há largos seis anos.
Dormida a madrinha, ficou a casa em debanda. E eram muitos os vestidos em meio terminar e os fatos de tecido grosso, bem como uma meia dúzia de casacões de abafar. Havia ainda os cortes encarrapitados na sala de arrumos e passares de ferro.
Maria Antónia enterrou a madrinha (salvo seja!! está bem de ver que o narrador não gosta destas lides de funerais e resolveu brincar! quem a enterrou foi o Januário Zarolho mais o Pedro Castigo de Deus, os dois coveiros lá da zona)
No acto de ver enterrar, Maria Antónia estava toda de negro. Notaram-lhe o desgosto devido. Dona Antónia levava a cara coberta. De acima da cabeça até ao fim do começar a pele da gola do casaco, descaía um véu de brocado pesado e quase opaco. Ela quase não via. Mas, também ninguém podia ver como, por detrás do véu, ela sorria. Levezinho, Maria Antónia sorria a pensar que agora não havia ninguém para lhe mandar. Ninguém para lhe dizer: “Maria Antónia atende essa senhora, filha” e ela ali ouvindo aquela puta, amante do alcaide, que trazia mais um daqueles tecidos de seda que escorregavam e faziam as dores de cabeça daquela mocidade. Agora, morta a madrinha, teria ela uma outra a quem dizer: “Atende aquela senhora, enquanto acabo aqui esta prova!”. E lhe diria assim... num ar mandado!
O funeral passou. Muito passado se foi fazendo. Muito tempo de nunca mais, até ao dia em que Dona Maria Antónia sentou o apessoado traseiro, nunca apalpado por mão alheia (o que não vem nada a propósito do contar, mas isto são pequenas distracções do sacana do narrador, perdoem!) Dona Antónia sentou-se, pois, na almofada que cobria a cadeira junto à janela; o seu recanto da tarde desde que mandara deitar as cadeirinhas na lixeira e vendera, ao ferro velho que ali aparecera sabido da intenção que ela anunciara por dois ou três da cidade, ferros de engomar, máquinas de costura e, porque o homem fizera questão, duas tábuas de talhar. A caixa de dedais (desapareciam sempre que precisos!) e as almofadinhas de espetar alfinete, essas ofertara-as, a um pedido do sucateiro, pensando para que quereria o rapaz aquilo.
Sentada naquele recanto, viu o sol depositar-se como uma enorme romã descascada por detrás do monte. Sentiu um arrepio na zona onde o casaquinho se juntava ao pescoço. Levantou-se muito devagarinho.
Era hora de meio-dia, quando chegou a menina da limpeza. (Uma moça que nunca obedecia, assim pensava Dona Antónia saudosa de outras meninas.)
A menina encontrou Dona Antónia dormindo na cama.
A menina gritou de um sentir que aquilo era mais que dormir.
A menina gritou a pensar porque raio a mulher se deitara com aquele enorme véu negro a tapar a cara.
O que a moça não viu foi o sorriso de Dona Antónia por debaixo do opaco do véu.
(este sorriso o narrador nunca entendeu!)



imagem adaptada d’ AQUI

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Cadências


As lágrimas soltam-se-te. Ficas olhando-te nesse estar chorando. Espantas-te.
E nem sabes o que te faz assim. E nem entendes. E nem te explicas.
Quando te explicaste a ti sobre ti?!
Quando te admitiste chorando?!
Mas sabes que o fizeste... não! não!
de modo algum! tu não choraste!
Hoje...sabes que o fazes. Espantas-te.
Percebes que este chorar é um de muito longe...e ao mesmo tempo...
ai! ao mesmo tempo... este chorar é um... assim como um aviso.
Tu sentes.
Quando elas se te soltam, sentes.
Um tempo que não conheces.
Um tempo que te aguarda...te permite ...te pede que te escorras lágrimas pelo rosto.
Olhas-te como sempre te olhaste. Mas esse chorar avisa-te.
Tu estás deixando-te a ti. E a despedida dói. E as lágrimas soltam-se.
E olhas quem te está em volta. Indagas da nossa prontidão na percepção de ti.
Tu que te soltas devagar desse eu que olhamos.
Olhas-nos espantado de te veres ser visto quando tu, tu mesmo, estás partindo de ti. Partindo devagar. De um modo de partir que eu, que te vejo e te conto, com ele me espanto...me sofro...me não entendo.
E eu me vejo chorando.
Eu... num choro des-me-percebendo.

sábado, 2 de abril de 2005

estendais

O alguidar verde olhava-a debaixo para cima assente no lajeado do quintal. Uma manga de camisa de um azul usado, caía de cima de uma amálgama de cores molhadas. Um bolo de aniversário muito enfeitado... podia parecer. Podia. Podia a outro que olhasse o alguidar e a roupa dentro. A ela, o alguidar olhava-a. Ela nem disso encontrava modo de se ali ficar. Lonjeava. Olhava distraída. Uma distracção de ausência. Um não estar ali que sempre se lhe dava. Sempre, naquele debaixo de sol. Sempre, naquele abrir e fechar de molas. Sempre se fugia dela. Sempre se ia voando para longe de ali.
Debruçava na roupa. Erguia no arame. Ritmava, doce, num pensar que lhe abria covinhas na face. Num pensar que acentuava a nesga de olhos que o sol frisara. O sol e o de erguer a roupa. O sol e o alguidar de azul olhando-a repleto de roupa que era de ser vestida pelos da casa. E mais se alonjava de aquela roupa. Mais se ia longe daquele ali onde estendia roupa com molas. Mais, nesta roupa esticada em grande. Esta, dependurada a toda a largura: uma mola, duas, mais uma. Um roçagar na mão sobre uma cor de rosa de flores miudinhas. Das mãos, redobrada no arame, soltava-se roupa de adormecer. Um pano grande, represado em molas de cores garridas.

Voar a roupa dali e ir ela andando com esses voares. Haveria de ver muitas outras assim cadenciadas num levantar e baixar sobre a roupa de dormir.
Ela, naquele voar por cima de muitos estendais em terras outras que sonhava ali. O sol batendo forte e o olhar piscando. Ela se via arrancando as molas e levando os panos de esticar em cama de dormir.
Não. Nem era assim que ela via, agora que o sol passara debaixo de uma quase nuvem.
O que ela via mesmo, era como ela faria naqueles e em outros panos de cobrir cama. Como ela faria e como ela veria. Ela, voando com o vento que fazia vapor e assim secava a roupa. Ela, sonhava o lençol dormido.
O alguidar olhava-a debaixo, de sobre o lajeado. Um alguidar redondo todo azul. Olhou-a de tal olhar que ela se fixou nele e voltou do lonjear onde andava.
Escondeu-lhe o côncavo no lajeado. Não mais alguidar olhando-a.
Um banco. Sentou nele a saia e ficou olhando. Olhando a roupa volteando colorida.
Mais do que o calor do sol, apesar da nuvem, o corpo dela era todo quentura.


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saiba porque não fui ao jantar da Pandora AQUI

terça-feira, 29 de março de 2005

cumplicidades


Dá-me a tua mão. Assim. Os dedos entrelaçados. Os braços enroscados. O teu ombro a tocar o meu. Agora, fecha os olhos. Cerra os dois olhos com muita força. Até veres luzinhas. Fixa essas cores que é o que vês de olhos bem cerrados. Deixa o corpo bem encostado ao meu. Apenas encostado. Não empurres. Sente o calor do meu braço. A força da minha anca na tua. A coxa encostando a tua com firmeza. Respira devagar. Inspira e expira sentindo o ar a circular.
Está um ar frio e seco. Estamos no cimo da montanha. Subimos para ver-o-mar. Lembras-te? Lá baixo, na cidade, fazia frio mas não este vento. O mar estava quase raso. O vento era de Norte. Riste-te quando te propus que subíssemos. Os sinos anunciavam a missa de Domingo de Páscoa e as ruas estavam pejadas de flores na entrada das casas. Tinhas decidido que não enfeitávamos a nossa. Afinal frente à casa havia cactos no chão. Cactos variados cada um florido na sua única flor de cor intensa. Cores grossas, como gostavas de chamar. E havia a buganvília amarela. E camélias e orquídeas variadas no parapeito de cada janela. As duas janelas a ladear a porta de madeira cinzenta. É! Tu nunca quiseste pintar a porta velha! Muito menos trocar por outra. O cinzento era de velho e tu entretinhas-te a lavá-lo com água quente e sabão. Lembras-te? Claro que te lembras!
Agora vamos aqui os dois muito encostados. Chegamos ao cimo da montanha. Um monte de escassos metros acima da planura do mar e da cidade. Os metros suficientes para se sentir o Norte como um vento de frio a cortar as mãos mesmo as nossas duas que estão entrelaçadas. Agarra bem a minha mão, mas não apertes. Sente como se estivesses colada. Eu sinto o meu corpo colado ao teu.
Não. Não sinto um corpo só. A tua forma sempre se encaixou na minha. Naqueles momentos em que escorregávamos para o abismo e subíamos montanhas anichados em lençóis ou na margem resguardada de um riacho. Sim. Eu sei. Nunca na areia fria numa noite de luar. Era nesses momentos que estava mais longe de ti. Lembras-te de concordares comigo?! Dizias que devíamos ser esquisitos porque ficávamos sós no acto de amar. Acentuavas, dizendo que era um estar eminentemente solitário. Os advérbios de modo, uma compulsão na tua forma apaixonada de dizer!
Acabei de cerrar os meus olhos. Antes olhava-te. Olhei para ti todo este tempo. Chorei quando cerraste os olhos. Esses olhos verdes que sempre dizem tudo. Nunca percebi porque era a palavra necessária em pessoas com olhos desses.
Mas agora só vejo luzes. Muitas luzes coloridas em fundo negro. Agora, devo ter rodado o glóbulo, e ficou branco com um ponto amarelo ao fundo.
Vamos andar devagar. Não fales. Querias dizer que me amas? Mas eu sei. Eu também te amo.
Hoje o dia está cheio de sol e de um frio trazido pelo vento de Norte. No esverdeado do mar havia pequeninas ondas de branco. Umas ondinhas a que chamavas cachão. Assim chamavas, tu que viveste em paragens que eu não conheci. O mar era pois de cachão antes de fechar os meus olhos.
Vamos andando, assim, devagar, muito agarrados ao que temos.
Muito agarrados um ao outro.
Vamos andando devagar com os olhos a ver apenas para dentro de cada um.
Vamos sentindo o vento, o corpo de cada um, o frio.
Vamos até onde a montanha se debruça sobre o mar.
Sabes onde fica o limite?
Não sabes?!
Eu também não!
Vamos muito devagar. Um passo a seguir ao outro até que a montanha deixe de ser e fiquemos debruçados sobre o mar muito verde e branco.
Debruçados entre a montanha e o teu mar de cachão.
foto adaptada de uma intitulada Cúmplices de voo

sábado, 26 de março de 2005

quarta-feira, 23 de março de 2005

RESSURREIÇÃO

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Páscoa
Ressurreição
Ressuscite a Natureza
de uma Primavera em Chuva


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Mais e melhor (?!) vão ver ali ao ladinho no OLHARES FELINOS
as fotos foram todinhas feitas esta manhã aqui pela Seila que vos deseja Boa Páscoa!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein