Dois planos. Dois espaços. Mais do que essa simplicidade de ver: dois tempos. Não. Não é isso do relógio atrasado. É um algum outro espaço com um tempo diferente. Uma dimensão outra. Vagueias entre um e outro como uma corrente em movimentos de sinusóides interferindo.
Funcionas em planos diferentes.
Oscila em tempos diferentes o teu eu dividido.
Queres contar e as palavras não te chegam. Ou tu não as dominas. Não dominas as imagens. O mundo em que o teu eu vagueou. O mundo em que viveste. Não dominas a palavra de o contar. A palavra de te dizeres tu nesse mundo real que to dizem, e tu dizes, de imagens. Esse mundo que sentes real. (Esse mundo que sabes real.)
Não. Tu não dominas a arte de usar a palavra para contar o que nem percebes.
Não, tu... mais do que isso. Tu receias contar. Tu receias entender.
Não, tu não dominas a palavra que te conte.
Não, tu não dominas a palavra que te questione.
E as imagens soltam-se-te onde?! sim! e de onde aquela realidade?!
Campos de regatos terminando em lagos de fogo brando, amarelado, manso.
O mar em ondas de fogo. Ondas de fogo com a consistência e o ruído da água contra rochas. Rochas de lava. Cavalos brancos fogem em tropel. Só cavalos brancos. Rebanhos de ovelhas em fuga. Só ovelhas negras. O ruir das cidades como se tu estivesses longe e lá. Tu, sentada numa poltrona, vindo à varanda e sentindo-te ruir num escombro igual a cada um dos que eram apenas escombros da cidade. A cidade toda a escoar-se para um mar enorme. Um mar enorme muito azul muito escuro. Um mar que sabias muito fundo.
De onde essas imagens quando te sentias a tangenciar outra dimensão sem que te fosse permitido nela entrar?! (parecia que te empurravam, lembras?!) E tudo o que sentias, vias, era real. Mais do que imagem. Mais do que sonho. Eram reais entrelaçando-se na imprecisão de tempos.
As casas vertiam-se sobre um lago abanado como brincadeira de papel. E tu dentro de uma delas caías realmente de um cair de sufoco e imenso medo por ti e pelos que tu sabias que caiam também.
Dizem-te que é imaginação. Sorris. Sorris de novo sem que te vejam. Não te iam entender. Tu viveste lá nesses imensos confins que...onde ficam?! de onde vêm essas... imagens (tão) reais?!
Aprecias mais dócil (est)a realidade. A tua, dizem-te. Sabes tu?! Olhas em redor. Não foi sonho. Os sonhos têm-se numa noite. Num pedacinho da noite ou de um dormir...
Não dominas a palavra de o contar.
A palavra de te dizeres tu.
De te contares nesse mundo real que to dizem de imagens.
Esse mundo que sentes real. Esse mundo que sabes real.

Quadro de Dali
Calorava na carruagem . Separadas por cada vida, gentes entravam. Buscava cada uma seu lugar longe da outra. Havia, naquela hora da tarde, muito espaço. Poucas gentes muito longes de um a outro banco. Tu na janela. O queixo na mão. Pensavas. Não muito pensando. Um laivo de pensar, rasando o olhar nas gentes, uma a uma, entrando na carruagem. No relógio enorme os ponteiros faziam um ângulo agudo. O sol batia no das horas. Ofuscava-te. Eram trinta depois das cinco. De apressado passo, a figura destacava no vir de lá do fundo. Não entrou na porta. Surgiu no meio de todas as gentes andando rápido, o sobretudo esvoando de sobre o fato. Uma barba entre o branco e o amarelo palha. Olhaste o que podias no ápice que se fez dele a esgueirar seu ir na extremidade oposta à que surgira. Ficou-te um interrogar de condição a dele. Ficou-te um a pensar que era figura de excentricidade. Não mais. Um tudo-nada além do cada um que buscava, longe de cada outro, sentar na carruagem. Solavancou de leve o corpo todo como de todos, cada um sentando sua vida no ir ou, como tu, no voltar. E de repente. Muito de repente, tu ficaste no susto. Um gritar. Parecia que tinha começado sessão de teatro. A voz apregoando. Ele de passo tão estudado, entrando do oposto lado em que há pouco se fora de teu pensar. Um passo bem diverso como dançando. As mãos segurando coloridos venderes. A voz apregoando como quem conta história. Nem que nada mais tu vias que a excentricidade consumada. Não. Aquele teatrar vivido incomodou-te. O real de um ele a entrar em cena a cada ir da carruagem. Sim. Confirma. O teu imaginar espezinhado. Vidas no comboio. Distraíste. Olhaste firmemente a paisagem.

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Passado um ano… escritos que ainda dizem muito… que ainda dizem tudo…

instante
A tarde está terminando o dia rumores de memórias acodem-me perturbantes viscosas caprichosas jogam comigo um jogo de escondidas vão e vêm aninham-se descobrem-se nunca de todo se mostram e sei que estão ali sinto o roçagar a marca ténue Concentro-me na quase sombra que deixaram e noutra e em outra ainda. Fecho os olhos para ver melhor Que nada! Fugiram outra vez sem que eu perceba. Fugiram sem que as perceba. Memórias a brincar assim parece de endoidado! Não é! Apenas de quem fica, de repente, sem querer, com fome de explicar o presente, a brincar com o passado. adapatado do publicado em 1 de Julho de 2004
Onde andava cada um de nós naquele dia 23 de Maio de 2004?! onde...neste mundo dos blogues quando me iniciei com um espaço ali num intervalos, agora ahpartes, de um indeciso, mas já e sempre seilá, então com muitas reticências sei lá...?! um espaço que iniciei assim... tinham florido as minhas orquídeas ( tu aniversavas em aleluia de outras andanças desta vida! ) ...devagarinho... com tantos de vós, amigos, fui vivendo e cheguei ao UM ano a blogar! como na Parábola do filho pródigo, hoje a lembrança aos que deixei de ver por aqui. Mariaras a Velha... Armando do meu top do coração – nunca mais vos vi! Inconformada que diz escrevo apenas (ai! o nosso Devil!! ) – onde andarás, amiga?! Inde - disfarçado por aí...nunca mais o vi! A eles e a todos que vejo dia a dia neste tempo diferente de por aqui, o meu muito obrigada a todos é devido o meu estar hoje aqui

tudo o que escrevo, eu escrevo por vossas mãos também...
escrevi para todos este texto invisível
Gostei tanto d'as Bordadeiras!! um hino à Vida as mutações/contrastes/continuidades nas relações... Vão ver! Vi em Lisboa no Quarteto Vejam mais aqui
 Nota:realmente merecia que dissesse mais para irem logo, logo ver...
com a palavra doBiquinha me fico e o penso
Não era necessariamente azul. Nem era especialmente rosado. Nem era azul apenas. Nem era rosa. Era um céu de fim de tarde. Também não era um céu, apenas, de fim de tarde. Era um céu azul rosado ao fim da tarde. Porém, eu entendo, passada esta eternidade sobre esse eu ter visto, que não era isso. Nem que lhe acrescente eu adjectivos de assim como : era um fim de tarde belíssimo com o rosado do céu em fundo azul. Nem assim, deste outro modo: um fim de tarde majestoso banhava de rosado o azul do céu. Não. Decido que não. Não era um desses fins de tarde. Era aquele fim, daquela tarde. O céu não era nem azul nem rosa. O céu era uma paleta entre tons de muitos rosa e tons de muito azul. Tons de muitas frequências, naquela tarde. E estou quase a escrever algo de aproximado ao que era aquele, aquele e não outro, fim de tarde. Escrevi a palavra tom e escrevi a palavra frequência. Naquela tarde, além da luz com que se pinta e de outros variados modos se contar um fim de tarde, naquela tarde que chegava ao fim, houvera sons de várias tonalidades. Tantos acordes como a paleta que era o céu que vos tentei, de escrever dorido, descrever aqui. Acordes e tonalidades. Tonalidades de cor e som. Acordes de som e luz. A mesma caracterização precisa cada uma. Tal era nesse dia de há pouco, agora, o fim de tarde em que se ali chegaste. O fim de tarde em que tu te sentaste na sombra. Não sentado à sombra. Não por ela, mas pela protecção daquele arredondado do casco do barco ali deixado. Como ele, tu. O barco e tu, ambos perdidos na praia de enseada virada a poente. Na praia onde se fazia um fim de tarde igual àquele fim de tarde de um outro Abril. Estavas acocorado naquele ninho do entre o barco e a areia morna em sentido oposto ao sol que derramara os tais de cor de rosa por sobre o fundo azul. Quem te viu pensou, disto estou eu certa por devido àquele outro, muito antigo, fim de tarde que tentei descrever em tom e som. Quem te viu, olhou um doirado de debaixo do escuro quase que fazia no entre o barco e a areia. Quem te descortinou, pensou que era reflexo do céu naquela parte que era mais em tom azul, o que eram afinal os olhos teus. Quem te primeiro encontrou ali sentado, deparou dois olhos muito azuis e uma madeixa loira. Só depois, muito depois, quem te viu, percebeu que este fim de tarde em que te encontrou nem tinha nada de rosado e nem tinha, isso nem tinha nada, qualquer som. Tu, vindo de nem sabes de onde, apenas ouvias naquele colorido da tarde, o colorido do teu imenso som.

Obrigada a ela!
Esguia, grossa,densa, mulher de precisa passada. Soltada de ti, tua mão esquerda esquartejava o ar. Faca invisível, dura. Um gesto curto, rijo, agudo, intenso. Num ir e vir de braço e mão, o ar cortado o ar abraçado. A vida esventrada ali no início de coisa-nenhuma bem no começo da calçada bem no início da subida. Esquartejavas a vida num gesto rude num gesto de tanto nada. Precisa na passada, deixaste no ar um rasgão. ... (...ou foi apenas o meu medo? Tão só ele correndo?! Meu medo correndo de mim a ti Desfazendo o ar Esquartejando a vida No início da calçada que subias, Apenas o meu medo Abraçado ao ar com que afinal vivias?! )
:_:_:_:_:_:_:_:_:_:_: ei!!!!!.... por aqui a gente anda em obras desculpai as interrupções

.-.-.-.-.-.-.-.- No mail estava um comentário a um escrito meu num blogue Livro Branco. Eu fui ver e aqui sorri e chorei ali...
e fui relendo logo aqui e, bem antigo, em dia de chuva aqui e, já agora, vão espreitar ARTE...AQUI Gostei de ir folheando... e lendo como eles além .... como elas ali...
 
Apetecia-lhe uma cerveja bem gelada. Uma amarelinha a borbulhar de pressão. Sentir o escorrer gelado pela garganta e cada um dos movimentos do corpo engolindo-a. Prazer. Um pequeno prazer entre corridas, a meio da tarde. Todos os dias escaldantes. Este ano, desde quase... desde... e espantou-se! este ano era assim desde o Natal?! Hoje, mais lhe apetecia. Hoje ele transportara o inferno na última corrida. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo. Hoje, tal e qual como vinha (como se lembrava bem!) no Catecismo da 3ª comunhão, ele transportara infernos assentados no banco detrás do seu Mercedes de aluguer. Por isso, e porque lhe era de costume, desejava tanto beber aquela amarelinha dos dias quentes. Sentou-se na mesa de que tanto gostava. Uma mesa solitária no fundo do café. A última mesa, bem por debaixo de uma desbotada Severa enquadrada a doirado de dimensões que cortavam o pé pendente do tocador. Sentado sob um Malhoa que nunca apreciou mais do que o que via como concupiscência aveludada da pele desnudada do corpo. O corpo oferecido dela, sempre o fazia descer o olhar sobre o tampo rosa da mesa de imitação de mármore. Um desviar de não querer ver que nunca lhe acontecera com os calendários que dependurara no carro, noutros tempos. Deixara-se disso que a clientela de um modo geral, nunca se percebera bem porque razão, desapreciara. E que belos calendários ele tivera! Um para cada ano! mas escolhia-os de entre os que as lojas quase pediam que aceitasse e alguns clientes ofereciam num gesto de simpatia ou de mistura com uma daquelas mais picantes. Seleccionava. Confessa, hoje, ali sentado já a amarelinha ia a meio do copo e ele distendera ambas as pernas contorcidas debaixo das quatro da mesa de ferro imitado de cor verde tropa. Escolhia a dedo cada calendário e chegou a pedir, discreto, aquele que vira a um colega na praça ou na paragem mais prolongada num semáforo. Bom fornecedor de sobras de qualidade, era o Rodrigues. Onde andaria?! Fechara a casita de concertos já ia para dez anos. Tanto?! espantou-se e reparou que nessa tarde se espantara várias vezes e com uma intensidade invulgar nele ou no que julgava conhecer de si. E ainda se sentia de incómodos com aquelas viagens e aqueles passageiros. O inferno no banco detrás por quatro corridas. Sempre o inferno ardendo lá atrás. Mas, lhe pedisse sequer a ele mesmo, quanto mais contar a outro, e ele não saberia dizer porque sentia que fora mesmo o inferno que transportara. Desviou o sentir para os calendários e fixou-o nele, o Rodrigues Sapateiro. Bom moço! E perfeito no colocar capas, solas meias e inteiras, saltos...e ainda colocou muita brochas e biqueiras...aquelas coisitas que faziam o andar duro demais para soalhos de gente fina, mas poupavam meias solas e umas gáspeas. Bom moço o Rodrigues! A lojeca de arranjos decorava-a ele com os calendários. Sempre cuidadoso – todos calendários do mesmo ano. Entre os finais de Novembro e o dealbar do ano, como ele dizia “já estamos no dealbar de um novo ano!”, mudava, um a um, cada calendário. Sorriu agarrando a amarelinha já apenas fundo de copo. Ia colocar a moeda de pagar sobre o rosa da mesa, já o corpo se desdobrando-se do sentado para o levantar. O ar parou. Ele acha que deve ter parado. Ele acha que parou tudo depois de ver aquela mão de dedos rechonchudos anelados a oiro se colocar sobre a dele, enquanto o cotovelo se esgueirava, duro e doloroso, no seu apessoado ventre vestido com a t.shirt que dizia o nome do seu clube. Literalmente, como diria o Rodrigues Sapateiro, moço de boa fala, literalmente empurrado, voltara a esquentar o assento da cadeira com o rabo de calça agangada. Levantou a cabeça e, claro!!! antes do que lhe dizem que aconteceu, ele teve a certeza! mas porque achou tão normal?! porra! é que nem percebia porque parecia que estava à espera deste que lhe estava em frente! era ele! o homem que levara desde o Roma até à Clínica Angel. Ainda o ouvia: “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”. E aquele som do se faz o obséquio ele juntou rápido ao que entreviu no retrovisor já rolava Almirante Reis abaixo. Quatro vezes a mesma voz e o mesmo pedido de quatro locais diferentes. Agora como explicar o que percebera?! que culpa tinha ele, Almerindo desde que seu pai assim entendera no “se for rapaz”? que culpa tinha ele de ter reparado nas meninas, duas de cada vez, de locais vários daquela capital, “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”?! Ele, Almerindo, sorrira para o espelho, mas jurava a si mesmo que fora pela puta da coincidência de ter ele passado quatro vezes nessa manhã por aquele homem em locais diferentes daquela cidade capital de país o que quer dizer enorme, apesar de não ser o caso. E sorrira porque se lembrara dos calendários e do Rodrigues. O homem viu o riso. Olhou. Abriu uns olhos, supõe ele Almerindo que os tenha aberto, por debaixo daqueles óculos negríssimos de marca. E Almerindo ouviu apenas um rugir de “Encontramo-nos, meu!” E encontraram-se! ali, por debaixo do quadro desbotado do Malhoa. Ele, Almerindo, pensou estes aconteceres todos sobre o homem, já ele tinha-se deslargado nas calmas pela rua do Conde Redondo abaixo que era onde ficava o cafezito, e deixara a cara do Almerindo preparada para ir “ali até S. José” como dizia a Cremilde empregada de há anos no servir das amarelinhas, acrescentando “ eles tratam-te! mas porque seria que o cabrão te assentou tão percebido que eras tu?! que raio sabes tu, Almerindo?! porra, homem, a gente tá cá...arrima-te”. Desenfreada de língua a Cremilde. E Almerindo a pensar, de dentro de sangues e socos e dentes pendurados, que aquela advertência-interrogação da Cremilde devia de se encaixar com o que o fez vir mais de repente a meio da tarde para sorver a amarelinha e que era ele sentir que hoje transportara o inferno. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo. Adormeceu ou desmaiou, aos solavancos no 115?! Dois riscos de amarelinha saía-lhe pelos lados da boca. 
Neste dia da Mãe e 1º de Maio de tantas lutas em tantas diferentes datas, veio-me à memória o menino de sua mãe do Pessoa e lembrei-me de Gorki e encontrei uma resenha da sua Mãe aqui a Lyra lembra-nos os meninos que não tem mãe...
E eu fiquei pensando nas mães e nos filhos e o que eu hoje gostava era de saudar todas as mães! Todas as mães ! A mãe do drogado, do prostituto, do desempregadodo doente, do morto, do louco, do desesperado...do...do...do... A mãe do que é assaltado e morto e estropiado A mãe do que assalta e mata e estropia A mãe do preso e a mãe do carcereiro A mãe do soldado morto e a mãe do soldado que atirou A mãe do violado e a mãe do violador Disseram: “Chega” ?!... Claro que chega... é mais interessante, mais elegante (será politicamente correcto, também?!) lembrar a mãe de um deles mas há uma mãe em cada um deles!
 cada um com uma mãe a esperar E aqui deixo .... O Menino da sua Mãe Fernando Pessoa
No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado – Duas, de lado a lado –, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! Que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira É boa a cigarreira, Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!" (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe.retirado daqui Obrigada Ognid pelo conselho pela dádivano teu comentário...é o que ainda vale de aqui andar nos blogs ! Vão ler este texto da Encandescente!
Este hoje é dedicado Ao pessoal d’oblogdalibelua que faz um aninho À Sotavento ca mecinha hoje (e sempre...mas NÃO faz anos carago!!!) merece tudo
Ao fundo da sala a parte antiga de mim pinta os lábios de vermelho. O batom esborrata-se nos cantos e eu lambo. Sabe a amora com travo de ranço. Um batom, como eu, rançoso. O fato que visto é verde. O brilho que tinha ainda se nota na bainha. No resto, e sobretudo nos sovacos e nos em redor dos mamilos, também na cintura, o brilho do tecido deu lugar a um baço verde. Quando iluminado, parece branco, opaco, quase roto. No cabelo, camadas de cores antigas esconsas num acobreado. A ondulação larga e fingida descai-me sobre a testa. Eu sentada com o cotovelo apoiado na mesa lá bem no mais escuro fundo do salão. Eu. A que vive perdida de mim há anos. Eu a que não morri. Velha?! Não! Desgostada da vida. Busca-me a cada canto. Olha, noite após noite, que eu passe na rua quando volto, pela madrugada, já as gentes se indo para os afazeres de um dia. Olho-me. Eu a procurar-me naquelas mulheres que conduzem carros. Naquelas mulheres que se sentam displicentes no balcão de um bar tomando o pequeno-almoço. Naquela que folheia revista de decoração de casa, na outra que começou a aula e se debruça sobre uma criança, na que não dormiu e sai do hospital zonza pensando. Naquela que descobriu a um olhar, um rasgão vertical na meia preta muito esticada, muito elegante, muito feita para ser vista. Eu de cabeça em volta busco-me e não me encontro. Eu olho-as todas num cansaço. Puxo a aba do casaco de uma imitação de burel castanho e afofo ao cabelo a boina. Aconchego as luvas entrelaçando os dedos uma mão na outra e aproveito para um bafo de quentura lhes deitar da boca. Endireito as costas e o pescoço levantando o mais que posso o queixo e sinto que este gesto me obriga a um pisar mais forte no cinzento do asfalto coberto de geada da noite. Sinto as botas a tocar a saia cinzenta por baixo do casaco. Sinto o soutien mover-se roçagando os bicos dos seios. Sorrio a este sentir do corpo. Olho-me no espelhado de um carro. Encontro eu ali na imagem. O cabelo parece penteado e com corte. O ondulado ganhou forma de naturalidade e a cor de um cobre natural, sombreada de muitos entremeados brancos. O batom...Continuo a andar. Busco-me a mim. Paro defronte de uma cafetaria. Na montra há um espelho que multiplica os detrás dos bolos. Fez-me fome e vontade de uma bebida quente. Um chocolate grosso! Eu, parada frente à montra, pensando chocolate quente. O espelho envia a minha boca reflectida. Uma boca sem batom! Uma boca de cor rosada. Encostei o nariz no frio do vidro. Eu queria ver se era eu. Olhei com força no tal espelho que fazia muitos os bolos na montra. Debaixo dos cabelos caídos para a cara, descobri um par de olhos de mim! Um par de eu a olhar para mim! Meti as mãos nos bolsos e com o ombro empurrei a porta rotativa e dei uma, duas, três, tantas voltas sem entrar no café. Fiquei andando de roda na porta com aquela eu que encontrei. Mas há mais de mim, eu sei!
Estarei em casa lendo?! Será que estou na cama revendo o êxtase de há instantes, revolteando lençóis meu corpo desvestido, saciado fazendo-se-me afagos?! Ah! Serei a que desabriu a janela para penumbrear sala onde tem marido doente?! Não?! andarei cantando num jardim?! Ah! Estou nadando numa praia no outro lado desta rua, quero eu dizer, no outro lado do mundo!! É! eu ando por aí em muitas muitas tantas e estou aqui escrevendo assim... ando por aí....
ando por aí!!!!

eu a acabar de escrever este texto e trazem-me esta caixa de chocolates embrulhada num sorriso a vida é feita de pequenas coincidências algumas de chocolate... saborosa! é mesmo de lamber os beiços!
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Escusado gritar por eles ... Timóóoooteo!...Esteeeer!!! Mariaaaana!!! Melhor mesmo é ir lá, juntinho de cada um. Devagarinho, assim que nem festinha, muito de lento, tirar tampa de ouvido e logo, ao mesmo tempo, dizer o que se quer: “Timóteo, vou contar história!” “Ester, vamos na roda do tapete?!” – a Ester é ainda quase de pegar no colo!
Eles sempre querem ouvir história. Lhes habituei eu que nunca tive, nas terras em que me vi crescer, aqueles materiais que Dona Marília compra para eles cada dia. Sim mesmo! Ela traz sem ser dia de festa de aniversário ou Natal... É só ver ela chegar naquela caixinha de subir que nem lagartixa em parede, desde o jardim até ao décimosextoandar! Ai! décimosextoandar?! e eu que nunca percebi o que ela queria de dizer com aquela palavra. Olha... eu que estava pensando em contar a eles, hoje, uma história que minha avó contava sobre palavras, e logo me encontro com uma que nem sei que ela quer dizer... se sequer é palavra! A Dona Marília chegava na tal caixinha (essa eu sei que é elevador!) e dizia: “Finalmente no meu...”e falava aquela tal que eu, agorinha mesmo, agora, descobri que nem sei se é palavra!
Bom, mas a conversar assim, com vocês que não estão aqui na sala onde cada um dos três rapazes filhos da Dona Marília, mais cinco primos e primas que hoje cá ficaram para dormir... a falar,mesmo que seja, como é, um falar só pensando, nunca mais eles se desprendem das ligações na rede...Olha outra palavra que não sei significado!! Mas é o que cada um deles diz : “Espera Maria das Dores que inda tou na rede”.
Nem que eu mesma, nunca apercebera que havia palavras que sendo ditas não eram sabidas! Estou quase me chorando de andar aqui tentando que eles oiçam a tal história sobre palavras e eu descobrindo que emprego algumas de mal entendimento. Mas não vou desistir. Olha quem?! Eu sou nascida naquela ilha que chamam de Cabo Verde e minha pele é negra mais que a da Dona Marília quando volta do solário. Deus que me valha que eu tou-me assustando de mim! Outra palavra a sair sem percepção! Solário?! Não sei, não, o que é! Minha cabeça hoje está me pregando partida...pois que eu julgava que solário era...Que sei eu o que eu julgava que era solário! Não julgava nada!
E com esta atrapalhação ainda vou me mentir...mentir apenas de pensar! Porra! Eu nem sei palavra melhor para, inda que só pensando, gritar minha indignação comigo – falar palavra sem saber o que ela é de querer dizer.
Pronto. Ando a pensar isto tudo ao mesmo tempo que vou ajuntando cada um dos meninos em volta do tapete, e agora como é que eu vou contar a história que começa assim: Houve um tempo em que a palavra andava presa.
Me diga eu a mim: Maria das Dores, como é que tu vais contar?
Mas vou que eu não sou de assustar com palavra nova ou que descobri que empregava sem lha perceber.
Então agora que eles já estão todos sentados, enrolados, abraçados aqueles ali no canto! Eu vou é começar. Já sentei a bunda que é que nem a da minha avó... no resto sou fininha, mas a bunda é rija e alargada.
Eles tão julgando que é de bichos da selva ou de tiros ou de aquele avião que deitava fogo e do outro que deitava saco de milho.
Hoje, a Maria das Dores vai contar uma história de um tempo em que as palavras, mesmo aquelas que eram muito percebidas, eram proibidas de sequer ser pensadas.
Era uma época em que as palavras podiam ser presas. Era uma época em que era crime palavra inventada, e mais ainda palavra de verdade. E as palavras podiam ser mortas.
As palavras andavam refugiadas em encontros nocturnos, perdidas em esquinas.
Palavras sussurradas muito, muito amadas.
A história é longa, mas tem como todas as que lhes conto, um final muito feliz.
Antes de contar pra eles, eu adianto o final.
Há um dia em que a Palavra, foi libertada. E com ela todas as palavras.
E as bocas e os olhos ficaram cheios de palavras à solta enchendo as ruas.

Esta é a história que lhes vou contar ...
-Ester, minha linda! não durma... Maria das Dores conta...
Era uma vez...
Vinhas em torneados de dança.
Os pés descalços.
Finos os tornozelos.
Inaudível o teu pisar.
A luz a que dançavas, era...
entre ser o sol e o se deixar de ser
a estrela que alumia
Também na luz de um castiçal de velas
teu corpo tu dançavas.
Volteios de serena volúpia.
A dança duplicada.
O deslizar da vela se lacrimando
e o teu quase chorar... dançando.
Serpenteavas abraçando o ar.
Descalça.
Sacolejando panos... asas...
transparências coloridas.
Vinhas dançando
e eu estava ali.
Eu estive sempre lá.
Vi o sol se colocar detrás
Vi as velas acabarem...
lágrimas de cera... só...
Eu estive sempre lá.
Sempre...
E tu vinhas para mim....
Dançavas ronronando
gatinha bailarina.

o verdadeiro sentido deste texto está
ali na gatinha do abstracto concreto que eu nem sei como dizer eu te agradeço TCA! eu te agradeço!

deixa eu descansar
eu quero mesmo só ficar assim
de costas voltadas
sem ver um só de nada
quero ficar desouvindo
ficar bisbilhotando sonho dormido
prevaricar dormindo em hora de trabalhar
baixar a persiana e desver o sol
passar olhar em letra e não ler
fazer lacinho com dobra de camisa...torcer
abraçar o ursinho
ficar olhando desenho em risco de parede
deixa eu descansar
não me chama em hora de ir
deixa eu andar por aí despida
sentar no tapete a tarde toda
toda a tarde vendo fotografia
deixar correr o rio saudoso
fungar nariz em cima de foto amarela
deixa eu descansar
deixa esquecer
deixa ficar comigo, eu
depois eu volto e faço vida de viver
agora...deixa eu morrer de gente...
apenas não estar...

Voltavas da tarde na eira. O vestido debotado volteava de lilás em teu redor. A brisa soltava dele florinhas. Voltavas vestida com um simples e velho vestido lilás com flores miúdas rosadas. As florinhas, sopradas pela brisa, faziam grinalda em teu andar. Era um fim de tarde de Agosto. Um muito ao fim da tarde quando as sombras se esbatem e ficam muito atrás das gentes e das coisas. Era uma hora em que os corpos vão deixando de fazer sombra. As mangas do vestido eram um balão muito pequenino. O elástico dentro da manga que fazia que ela fosse dita manga de balão, quase encostado ao ombro. O braço, os dois braços, ficavam sem vestido. Os dois braços ficavam muito braços entre a manga e o pulso, passando pelo cotovelo aguçado, tão rosado como o resto da pele. E os pelos loiros brilhavam na luz do fim daquela tarde de Agosto. Tão loiros eram, ainda mais brilhando, os cabelos de caracóis meio cobertos pelo lenço azul atado displicente por um nó. Um lenço na cabeça atado com um nó sobre a nuca muito branca. Como era branca a pele da nuca ali onde o nó segurava o lenço e onde poderia alguém tocar ou simplesmente ver, confirmar, a brancura, alguém a quem permitisses que levantasse devagar os caracóis aí dependurados. O loiro, esse, a gente consegue descrever por comparando ao folheado das maçarocas secas que desfazias na noite de há quatro dias naquela mesma eira de aonde agora vinhas. Ficavam-te na mão as maçarocas de cor divina e de quando em quando ou num quase nunca mais, gritavas tu, que outro já fizera, milho-rei. Vinhas da eira ao fim de uma tarde assim como descrevi do que eu me lembro. A brisa soprava em inverso sentido do teu andar. Por este acaso de vento leve que sopra no sentido da eira, eu quase via teu corpo sob o vestido lilás. Os seios. O redondo do ventre. As coxas. Calçavas aquelas sandálias de cabedal entrançado em tiras sobre o peito do pé. Os dedos, quatro deles, livres volteavam ao teu andar. Dançavam, os dedos nas sandálias. Dedos brancos apesar do pó da terra. Assim te via eu sentado no beiral de cima da fonte. Muito sentado olhava a menina Tinhas quinze, dezasseis?!
Em cada mão trazias uma outra apertada. Uma mão pequenina dependurada de uma criança. E eu via três meninas. Eu via a ti menina . no dia dos teus vinte e cinco anos. Hoje. Quando vinhas, em contra brisa, da eira, trazendo, em quase brincando que ias, uma em cada mão as tuas crianças. E eu só via, dependurado, olhando, do beiral da fonte, a menina andando, quase que voando, de me fazer a mim pelos céus me ir, naquele riso de descuido ao passar na fonte, com um sonoro e quase trinado “Deus te salve, António!”
Tinha na caixa do correio este Risco

obra sempre prima do TCA
e palavras ...
velhas palavras...
assim como um abraço ele escrevia
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara! (...)
palavras encanecidas que ele leu...
palavras velhas por aí
Deuses lh'abençoem! o mesmo desenho ilustra no Abstracto Concreto palavras NOVAS... as palavras No Lago do Breu do Zeca Afonso recordado com magia de amor no Orpheu.
Nem um traço de caminho. Nem um sinal de orientação. Nem luz, nem sombra, nem um estrebuchar de ave volvendo ao ninho perdida na debanda a outro rumo. Nada . Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada. De repente, um roçar de seda fria na mão. Um estremeço... medo, espanto, desejo, esperança. Alegria? Não.
Agora, um sentir de carne
Uma pele roçando. Em redor a negritude e aquele nada de nem sequer o silêncio por comparado. Nada. A pele e a seda. Começas a sentir que existes. Há algo que se relaciona contigo. És. No nada, a pele e o tecido. Não sabes. Sabes que se rompeu o nada. Dás um passo e sentes um soprar quente na zona que te lembras ser a mão de um dos braços. O teu braço ergue-se para alguma coisa-alguém. Pára. A mão que o teu braço conduziu no espaço deserto de som e luz, encontra um rosto. Desliza devagar e sente-o peça a peça: nariz longo, olhos semicerrados, as pestanas, sobrolhos fartos, um queixo ossudo. Tu tens uma pessoa contigo. Afagas o rosto. Um dedo da tua mão encontra a cavidade da boca. Percorre os contornos internos de uma boca que se fecha e te entrega a suavidade húmida de uma língua. O teu dedo rola no interior daquela cavidade que o lambe e morde com dentes pequenos e agudos. O silêncio arde. Não sabes se falas. Sabes que pensas. Sabes que não ouves. Nada. Vazio?! Dás um passo a encontrar o corpo. Envias a mão no erguer do braço e buscas. Acima e abaixo daquela boca e daquele rosto...nada. Duvidas. Retornas. Outro passo. O dedo revolteia na contorção da língua e sentes o bafo quente. Mais nada. Estás ali... num ali que nem sabes o que é porque sem referencias. Contigo uma face, uma boca, uma língua. Sem corpo. Volteias o braço em redor de ti. Não tocas. Não te tocas.
Dois braços. Duas mãos e um rosto com boca e língua que lambe e dentes que mordem. Sentes a suavidade da pele e aquela outra de seda caída do cima do rosto. Puxas devagar o dedo. Solto o dedo da boca. Coloca-lo sobre a outra mão. Seco. Lambido, o teu dedo está seco.
Uma luz intensa embate nos olhos que fechas com pressão das pálpebras. Encolhes o corpo numa uterina postura. Um ruído intenso. Um som que não dominas. O dedo seco aprisiona algo. Ergues-te na luz branca do quarto. Tocas, incrédulo,uma parede. Apalpas. A parede água suga a tua mão. A tua mão, além,um jacto de água.
Ah! o barco! ela no barco! há quanto tempo?!
Agora te sabias. Vagavas de quando em vez...Agora te sabias ser. Frequências interferindo te faziam ser.Pedaços. Pedaços de ser.
O que fica da gente! pensaste tu. A parede de água enrolou-se-te nos pedaços de ti. partiste? tu? quem? onde? quando?
(Nada. Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada.)???
