domingo, 8 de maio de 2005

ao sabor...


.-.-.-.-.-.-.-.-
No mail estava um comentário a um escrito meu num blogue Livro Branco. Eu fui ver e aqui sorri e chorei ali...


e fui relendo logo aqui e, bem antigo, em dia de chuva aqui

e, já agora, vão espreitar ARTE...AQUI

Gostei de ir folheando... e lendo

como eles além .... como elas ali...

terça-feira, 3 de maio de 2005

malhas...

Apetecia-lhe uma cerveja bem gelada. Uma amarelinha a borbulhar de pressão. Sentir o escorrer gelado pela garganta e cada um dos movimentos do corpo engolindo-a. Prazer. Um pequeno prazer entre corridas, a meio da tarde. Todos os dias escaldantes. Este ano, desde quase... desde... e espantou-se! este ano era assim desde o Natal?!
Hoje, mais lhe apetecia. Hoje ele transportara o inferno na última corrida. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo. Hoje, tal e qual como vinha (como se lembrava bem!) no Catecismo da 3ª comunhão, ele transportara infernos assentados no banco detrás do seu Mercedes de aluguer. Por isso, e porque lhe era de costume, desejava tanto beber aquela amarelinha dos dias quentes. Sentou-se na mesa de que tanto gostava. Uma mesa solitária no fundo do café. A última mesa, bem por debaixo de uma desbotada Severa enquadrada a doirado de dimensões que cortavam o pé pendente do tocador.
Sentado sob um Malhoa que nunca apreciou mais do que o que via como concupiscência aveludada da pele desnudada do corpo. O corpo oferecido dela, sempre o fazia descer o olhar sobre o tampo rosa da mesa de imitação de mármore. Um desviar de não querer ver que nunca lhe acontecera com os calendários que dependurara no carro, noutros tempos. Deixara-se disso que a clientela de um modo geral, nunca se percebera bem porque razão, desapreciara. E que belos calendários ele tivera! Um para cada ano! mas escolhia-os de entre os que as lojas quase pediam que aceitasse e alguns clientes ofereciam num gesto de simpatia ou de mistura com uma daquelas mais picantes. Seleccionava. Confessa, hoje, ali sentado já a amarelinha ia a meio do copo e ele distendera ambas as pernas contorcidas debaixo das quatro da mesa de ferro imitado de cor verde tropa. Escolhia a dedo cada calendário e chegou a pedir, discreto, aquele que vira a um colega na praça ou na paragem mais prolongada num semáforo.
Bom fornecedor de sobras de qualidade, era o Rodrigues. Onde andaria?! Fechara a casita de concertos já ia para dez anos. Tanto?! espantou-se e reparou que nessa tarde se espantara várias vezes e com uma intensidade invulgar nele ou no que julgava conhecer de si. E ainda se sentia de incómodos com aquelas viagens e aqueles passageiros. O inferno no banco detrás por quatro corridas. Sempre o inferno ardendo lá atrás. Mas, lhe pedisse sequer a ele mesmo, quanto mais contar a outro, e ele não saberia dizer porque sentia que fora mesmo o inferno que transportara.
Desviou o sentir para os calendários e fixou-o nele, o Rodrigues Sapateiro. Bom moço! E perfeito no colocar capas, solas meias e inteiras, saltos...e ainda colocou muita brochas e biqueiras...aquelas coisitas que faziam o andar duro demais para soalhos de gente fina, mas poupavam meias solas e umas gáspeas. Bom moço o Rodrigues! A lojeca de arranjos decorava-a ele com os calendários. Sempre cuidadoso – todos calendários do mesmo ano. Entre os finais de Novembro e o dealbar do ano, como ele dizia “já estamos no dealbar de um novo ano!”, mudava, um a um, cada calendário.
Sorriu agarrando a amarelinha já apenas fundo de copo.
Ia colocar a moeda de pagar sobre o rosa da mesa, já o corpo se desdobrando-se do sentado para o levantar.
O ar parou. Ele acha que deve ter parado. Ele acha que parou tudo depois de ver aquela mão de dedos rechonchudos anelados a oiro se colocar sobre a dele, enquanto o cotovelo se esgueirava, duro e doloroso, no seu apessoado ventre vestido com a t.shirt que dizia o nome do seu clube.
Literalmente, como diria o Rodrigues Sapateiro, moço de boa fala, literalmente empurrado, voltara a esquentar o assento da cadeira com o rabo de calça agangada.
Levantou a cabeça e, claro!!! antes do que lhe dizem que aconteceu, ele teve a certeza! mas porque achou tão normal?! porra! é que nem percebia porque parecia que estava à espera deste que lhe estava em frente! era ele! o homem que levara desde o Roma até à Clínica Angel. Ainda o ouvia: “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”. E aquele som do se faz o obséquio ele juntou rápido ao que entreviu no retrovisor já rolava Almirante Reis abaixo. Quatro vezes a mesma voz e o mesmo pedido de quatro locais diferentes. Agora como explicar o que percebera?! que culpa tinha ele, Almerindo desde que seu pai assim entendera no “se for rapaz”? que culpa tinha ele de ter reparado nas meninas, duas de cada vez, de locais vários daquela capital, “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”?!
Ele, Almerindo, sorrira para o espelho, mas jurava a si mesmo que fora pela puta da coincidência de ter ele passado quatro vezes nessa manhã por aquele homem em locais diferentes daquela cidade capital de país o que quer dizer enorme, apesar de não ser o caso. E sorrira porque se lembrara dos calendários e do Rodrigues.
O homem viu o riso. Olhou. Abriu uns olhos, supõe ele Almerindo que os tenha aberto, por debaixo daqueles óculos negríssimos de marca. E Almerindo ouviu apenas um rugir de “Encontramo-nos, meu!”
E encontraram-se! ali, por debaixo do quadro desbotado do Malhoa.
Ele, Almerindo, pensou estes aconteceres todos sobre o homem, já ele tinha-se deslargado nas calmas pela rua do Conde Redondo abaixo que era onde ficava o cafezito, e deixara a cara do Almerindo preparada para ir “ali até S. José” como dizia a Cremilde empregada de há anos no servir das amarelinhas, acrescentando “ eles tratam-te! mas porque seria que o cabrão te assentou tão percebido que eras tu?! que raio sabes tu, Almerindo?! porra, homem, a gente tá cá...arrima-te”. Desenfreada de língua a Cremilde.
E Almerindo a pensar, de dentro de sangues e socos e dentes pendurados, que aquela advertência-interrogação da Cremilde devia de se encaixar com o que o fez vir mais de repente a meio da tarde para sorver a amarelinha e que era ele sentir que hoje transportara o inferno. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo.
Adormeceu ou desmaiou, aos solavancos no 115?!
Dois riscos de amarelinha saía-lhe pelos lados da boca.


domingo, 1 de maio de 2005

dia de todas as mães

Neste dia da Mãe e 1º de Maio de tantas lutas em tantas diferentes datas, veio-me à memória o menino de sua mãe do Pessoa e lembrei-me de Gorki e encontrei uma resenha da sua Mãe aqui
a Lyra lembra-nos os meninos que não tem mãe...


E eu fiquei pensando nas mães e nos filhos
e o que eu hoje gostava era de saudar todas as mães!
Todas as mães !
A mãe do drogado, do prostituto, do desempregado

do doente, do morto, do louco, do desesperado...
do...do...do...
A mãe do que é assaltado e morto e estropiado
A mãe do que assalta e mata e estropia
A mãe do preso e a mãe do carcereiro
A mãe do soldado morto e a mãe do soldado que atirou
A mãe do violado e a mãe do violador
Disseram: “Chega” ?!...
Claro que chega...
é mais interessante, mais elegante
(será politicamente correcto, também?!)
lembrar a mãe de um deles
mas há uma mãe em cada um deles!






cada um com uma mãe a esperar

E aqui deixo ....


O Menino da sua Mãe
Fernando Pessoa

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


retirado daqui


Obrigada Ognid pelo conselho pela dádivano teu comentário...é o que ainda vale de aqui andar nos blogs ! Vão ler este texto da Encandescente!

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Chocolate

Este hoje é dedicado
Ao pessoal d’oblogdalibelua que faz um aninho
À Sotavento ca mecinha hoje (e sempre...mas NÃO faz anos carago!!!) merece tudo



Ao fundo da sala a parte antiga de mim pinta os lábios de vermelho. O batom esborrata-se nos cantos e eu lambo. Sabe a amora com travo de ranço. Um batom, como eu, rançoso. O fato que visto é verde. O brilho que tinha ainda se nota na bainha. No resto, e sobretudo nos sovacos e nos em redor dos mamilos, também na cintura, o brilho do tecido deu lugar a um baço verde. Quando iluminado, parece branco, opaco, quase roto. No cabelo, camadas de cores antigas esconsas num acobreado. A ondulação larga e fingida descai-me sobre a testa. Eu sentada com o cotovelo apoiado na mesa lá bem no mais escuro fundo do salão. Eu. A que vive perdida de mim há anos. Eu a que não morri. Velha?! Não! Desgostada da vida. Busca-me a cada canto. Olha, noite após noite, que eu passe na rua quando volto, pela madrugada, já as gentes se indo para os afazeres de um dia. Olho-me. Eu a procurar-me naquelas mulheres que conduzem carros. Naquelas mulheres que se sentam displicentes no balcão de um bar tomando o pequeno-almoço. Naquela que folheia revista de decoração de casa, na outra que começou a aula e se debruça sobre uma criança, na que não dormiu e sai do hospital zonza pensando. Naquela que descobriu a um olhar, um rasgão vertical na meia preta muito esticada, muito elegante, muito feita para ser vista. Eu de cabeça em volta busco-me e não me encontro. Eu olho-as todas num cansaço. Puxo a aba do casaco de uma imitação de burel castanho e afofo ao cabelo a boina. Aconchego as luvas entrelaçando os dedos uma mão na outra e aproveito para um bafo de quentura lhes deitar da boca. Endireito as costas e o pescoço levantando o mais que posso o queixo e sinto que este gesto me obriga a um pisar mais forte no cinzento do asfalto coberto de geada da noite. Sinto as botas a tocar a saia cinzenta por baixo do casaco. Sinto o soutien mover-se roçagando os bicos dos seios. Sorrio a este sentir do corpo. Olho-me no espelhado de um carro. Encontro eu ali na imagem. O cabelo parece penteado e com corte. O ondulado ganhou forma de naturalidade e a cor de um cobre natural, sombreada de muitos entremeados brancos. O batom...Continuo a andar. Busco-me a mim. Paro defronte de uma cafetaria. Na montra há um espelho que multiplica os detrás dos bolos. Fez-me fome e vontade de uma bebida quente. Um chocolate grosso! Eu, parada frente à montra, pensando chocolate quente. O espelho envia a minha boca reflectida. Uma boca sem batom! Uma boca de cor rosada. Encostei o nariz no frio do vidro. Eu queria ver se era eu. Olhei com força no tal espelho que fazia muitos os bolos na montra. Debaixo dos cabelos caídos para a cara, descobri um par de olhos de mim! Um par de eu a olhar para mim!
Meti as mãos nos bolsos e com o ombro empurrei a porta rotativa e dei uma, duas, três, tantas voltas sem entrar no café. Fiquei andando de roda na porta com aquela eu que encontrei. Mas há mais de mim, eu sei!

Estarei em casa lendo?! Será que estou na cama revendo o êxtase de há instantes, revolteando lençóis meu corpo desvestido, saciado fazendo-se-me afagos?! Ah! Serei a que desabriu a janela para penumbrear sala onde tem marido doente?! Não?! andarei cantando num jardim?! Ah! Estou nadando numa praia no outro lado desta rua, quero eu dizer, no outro lado do mundo!!
É! eu ando por aí em muitas muitas tantas e estou aqui escrevendo assim... ando por aí....

ando por aí!!!!

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eu a acabar de escrever este texto e trazem-me esta caixa de chocolates embrulhada num sorriso
a vida é feita de pequenas coincidências algumas de chocolate...
saborosa!
é mesmo de lamber os beiços!





domingo, 24 de abril de 2005

era uma vez...

Escusado gritar por eles ... Timóóoooteo!...Esteeeer!!! Mariaaaana!!! Melhor mesmo é ir lá, juntinho de cada um. Devagarinho, assim que nem festinha, muito de lento, tirar tampa de ouvido e logo, ao mesmo tempo, dizer o que se quer: “Timóteo, vou contar história!” “Ester, vamos na roda do tapete?!” – a Ester é ainda quase de pegar no colo!
Eles sempre querem ouvir história. Lhes habituei eu que nunca tive, nas terras em que me vi crescer, aqueles materiais que Dona Marília compra para eles cada dia. Sim mesmo! Ela traz sem ser dia de festa de aniversário ou Natal... É só ver ela chegar naquela caixinha de subir que nem lagartixa em parede, desde o jardim até ao décimosextoandar! Ai! décimosextoandar?! e eu que nunca percebi o que ela queria de dizer com aquela palavra. Olha... eu que estava pensando em contar a eles, hoje, uma história que minha avó contava sobre palavras, e logo me encontro com uma que nem sei que ela quer dizer... se sequer é palavra! A Dona Marília chegava na tal caixinha (essa eu sei que é elevador!) e dizia: “Finalmente no meu...”e falava aquela tal que eu, agorinha mesmo, agora, descobri que nem sei se é palavra!
Bom, mas a conversar assim, com vocês que não estão aqui na sala onde cada um dos três rapazes filhos da Dona Marília, mais cinco primos e primas que hoje cá ficaram para dormir... a falar,mesmo que seja, como é, um falar só pensando, nunca mais eles se desprendem das ligações na rede...Olha outra palavra que não sei significado!! Mas é o que cada um deles diz : “Espera Maria das Dores que inda tou na rede”.
Nem que eu mesma, nunca apercebera que havia palavras que sendo ditas não eram sabidas! Estou quase me chorando de andar aqui tentando que eles oiçam a tal história sobre palavras e eu descobrindo que emprego algumas de mal entendimento. Mas não vou desistir. Olha quem?! Eu sou nascida naquela ilha que chamam de Cabo Verde e minha pele é negra mais que a da Dona Marília quando volta do solário. Deus que me valha que eu tou-me assustando de mim! Outra palavra a sair sem percepção! Solário?! Não sei, não, o que é! Minha cabeça hoje está me pregando partida...pois que eu julgava que solário era...Que sei eu o que eu julgava que era solário! Não julgava nada!
E com esta atrapalhação ainda vou me mentir...mentir apenas de pensar! Porra! Eu nem sei palavra melhor para, inda que só pensando, gritar minha indignação comigo – falar palavra sem saber o que ela é de querer dizer.
Pronto. Ando a pensar isto tudo ao mesmo tempo que vou ajuntando cada um dos meninos em volta do tapete, e agora como é que eu vou contar a história que começa assim: Houve um tempo em que a palavra andava presa.
Me diga eu a mim: Maria das Dores, como é que tu vais contar?
Mas vou que eu não sou de assustar com palavra nova ou que descobri que empregava sem lha perceber.
Então agora que eles já estão todos sentados, enrolados, abraçados aqueles ali no canto! Eu vou é começar. Já sentei a bunda que é que nem a da minha avó... no resto sou fininha, mas a bunda é rija e alargada.
Eles tão julgando que é de bichos da selva ou de tiros ou de aquele avião que deitava fogo e do outro que deitava saco de milho.
Hoje, a Maria das Dores vai contar uma história de um tempo em que as palavras, mesmo aquelas que eram muito percebidas, eram proibidas de sequer ser pensadas.
Era uma época em que as palavras podiam ser presas. Era uma época em que era crime palavra inventada, e mais ainda palavra de verdade. E as palavras podiam ser mortas.
As palavras andavam refugiadas em encontros nocturnos, perdidas em esquinas.
Palavras sussurradas muito, muito amadas.
A história é longa, mas tem como todas as que lhes conto, um final muito feliz.
Antes de contar pra eles, eu adianto o final.
Há um dia em que a Palavra, foi libertada. E com ela todas as palavras.
E as bocas e os olhos ficaram cheios de palavras à solta enchendo as ruas.


Esta é a história que lhes vou contar ...
-Ester, minha linda! não durma... Maria das Dores conta...
Era uma vez...


quinta-feira, 21 de abril de 2005

memória

Vinhas em torneados de dança.
Os pés descalços.
Finos os tornozelos.
Inaudível o teu pisar.
A luz a que dançavas, era...
entre ser o sol e o se deixar de ser
a estrela que alumia
Também na luz de um castiçal de velas
teu corpo tu dançavas.
Volteios de serena volúpia.
A dança duplicada.
O deslizar da vela se lacrimando
e o teu quase chorar... dançando.
Serpenteavas abraçando o ar.
Descalça.
Sacolejando panos... asas...
transparências coloridas.



Vinhas dançando
e eu estava ali.
Eu estive sempre lá.
Vi o sol se colocar detrás
Vi as velas acabarem...
lágrimas de cera... só...
Eu estive sempre lá.
Sempre...

E tu vinhas para mim....
Dançavas ronronando
gatinha bailarina.



o verdadeiro sentido deste texto está ali na gatinha do abstracto concreto que eu nem sei como dizer eu te agradeço TCA! eu te agradeço!




segunda-feira, 18 de abril de 2005

imploração



deixa eu descansar
eu quero mesmo só ficar assim
de costas voltadas
sem ver um só de nada
quero ficar desouvindo
ficar bisbilhotando sonho dormido
prevaricar dormindo em hora de trabalhar
baixar a persiana e desver o sol
passar olhar em letra e não ler
fazer lacinho com dobra de camisa...torcer
abraçar o ursinho
ficar olhando desenho em risco de parede
deixa eu descansar
não me chama em hora de ir
deixa eu andar por aí despida
sentar no tapete a tarde toda
toda a tarde vendo fotografia
deixar correr o rio saudoso
fungar nariz em cima de foto amarela
deixa eu descansar
deixa esquecer
deixa ficar comigo, eu
depois eu volto e faço vida de viver
agora...deixa eu morrer de gente...
apenas não estar...

sábado, 16 de abril de 2005

anos


Voltavas da tarde na eira. O vestido debotado volteava de lilás em teu redor. A brisa soltava dele florinhas. Voltavas vestida com um simples e velho vestido lilás com flores miúdas rosadas. As florinhas, sopradas pela brisa, faziam grinalda em teu andar. Era um fim de tarde de Agosto. Um muito ao fim da tarde quando as sombras se esbatem e ficam muito atrás das gentes e das coisas. Era uma hora em que os corpos vão deixando de fazer sombra. As mangas do vestido eram um balão muito pequenino. O elástico dentro da manga que fazia que ela fosse dita manga de balão, quase encostado ao ombro. O braço, os dois braços, ficavam sem vestido. Os dois braços ficavam muito braços entre a manga e o pulso, passando pelo cotovelo aguçado, tão rosado como o resto da pele. E os pelos loiros brilhavam na luz do fim daquela tarde de Agosto. Tão loiros eram, ainda mais brilhando, os cabelos de caracóis meio cobertos pelo lenço azul atado displicente por um nó. Um lenço na cabeça atado com um nó sobre a nuca muito branca. Como era branca a pele da nuca ali onde o nó segurava o lenço e onde poderia alguém tocar ou simplesmente ver, confirmar, a brancura, alguém a quem permitisses que levantasse devagar os caracóis aí dependurados. O loiro, esse, a gente consegue descrever por comparando ao folheado das maçarocas secas que desfazias na noite de há quatro dias naquela mesma eira de aonde agora vinhas. Ficavam-te na mão as maçarocas de cor divina e de quando em quando ou num quase nunca mais, gritavas tu, que outro já fizera, milho-rei. Vinhas da eira ao fim de uma tarde assim como descrevi do que eu me lembro. A brisa soprava em inverso sentido do teu andar. Por este acaso de vento leve que sopra no sentido da eira, eu quase via teu corpo sob o vestido lilás. Os seios. O redondo do ventre. As coxas. Calçavas aquelas sandálias de cabedal entrançado em tiras sobre o peito do pé. Os dedos, quatro deles, livres volteavam ao teu andar. Dançavam, os dedos nas sandálias. Dedos brancos apesar do pó da terra. Assim te via eu sentado no beiral de cima da fonte. Muito sentado olhava a menina Tinhas quinze, dezasseis?!
Em cada mão trazias uma outra apertada. Uma mão pequenina dependurada de uma criança. E eu via três meninas. Eu via a ti menina . no dia dos teus vinte e cinco anos. Hoje. Quando vinhas, em contra brisa, da eira, trazendo, em quase brincando que ias, uma em cada mão as tuas crianças. E eu só via, dependurado, olhando, do beiral da fonte, a menina andando, quase que voando, de me fazer a mim pelos céus me ir, naquele riso de descuido ao passar na fonte, com um sonoro e quase trinado “Deus te salve, António!”

quinta-feira, 14 de abril de 2005

encontros do coração

Tinha na caixa do correio este Risco

obra sempre prima do TCA

e palavras ...
velhas palavras...
assim como um abraço ele escrevia
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara! (...)
palavras encanecidas que ele leu...
palavras velhas por aí

Deuses lh'abençoem! o mesmo desenho ilustra no Abstracto Concreto
palavras NOVAS... as palavras No Lago do Breu do Zeca Afonso recordado com magia de amor no Orpheu.


segunda-feira, 11 de abril de 2005

realidade/s

Nem um traço de caminho. Nem um sinal de orientação. Nem luz, nem sombra, nem um estrebuchar de ave volvendo ao ninho perdida na debanda a outro rumo. Nada . Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada. De repente, um roçar de seda fria na mão. Um estremeço... medo, espanto, desejo, esperança. Alegria? Não.
Agora, um sentir de carne
Uma pele roçando. Em redor a negritude e aquele nada de nem sequer o silêncio por comparado. Nada. A pele e a seda. Começas a sentir que existes. Há algo que se relaciona contigo. És. No nada, a pele e o tecido. Não sabes. Sabes que se rompeu o nada. Dás um passo e sentes um soprar quente na zona que te lembras ser a mão de um dos braços. O teu braço ergue-se para alguma coisa-alguém. Pára. A mão que o teu braço conduziu no espaço deserto de som e luz, encontra um rosto. Desliza devagar e sente-o peça a peça: nariz longo, olhos semicerrados, as pestanas, sobrolhos fartos, um queixo ossudo. Tu tens uma pessoa contigo. Afagas o rosto. Um dedo da tua mão encontra a cavidade da boca. Percorre os contornos internos de uma boca que se fecha e te entrega a suavidade húmida de uma língua. O teu dedo rola no interior daquela cavidade que o lambe e morde com dentes pequenos e agudos. O silêncio arde. Não sabes se falas. Sabes que pensas. Sabes que não ouves. Nada. Vazio?! Dás um passo a encontrar o corpo. Envias a mão no erguer do braço e buscas. Acima e abaixo daquela boca e daquele rosto...nada. Duvidas. Retornas. Outro passo. O dedo revolteia na contorção da língua e sentes o bafo quente. Mais nada. Estás ali... num ali que nem sabes o que é porque sem referencias. Contigo uma face, uma boca, uma língua. Sem corpo. Volteias o braço em redor de ti. Não tocas. Não te tocas.
Dois braços. Duas mãos e um rosto com boca e língua que lambe e dentes que mordem. Sentes a suavidade da pele e aquela outra de seda caída do cima do rosto. Puxas devagar o dedo. Solto o dedo da boca. Coloca-lo sobre a outra mão. Seco. Lambido, o teu dedo está seco.
Uma luz intensa embate nos olhos que fechas com pressão das pálpebras. Encolhes o corpo numa uterina postura. Um ruído intenso. Um som que não dominas. O dedo seco aprisiona algo. Ergues-te na luz branca do quarto. Tocas, incrédulo,uma parede. Apalpas. A parede água suga a tua mão. A tua mão, além,um jacto de água.
Ah! o barco! ela no barco! há quanto tempo?!
Agora te sabias. Vagavas de quando em vez...Agora te sabias ser. Frequências interferindo te faziam ser.Pedaços. Pedaços de ser.
O que fica da gente! pensaste tu. A parede de água enrolou-se-te nos pedaços de ti.
partiste? tu? quem? onde? quando?

(Nada. Nem um som de galo desatempado. Escuro e silêncio. Ficar pairando em nada e andar. Deslocar o corpo. Um corpo deserto de si. Um eu desorientado de nada. Nada.)???

sexta-feira, 8 de abril de 2005

estórias...

Dona Antónia modista.
Antoninha era apenas nome de designar a senhora assim de brincar. Maria Antónia para a família e amigos.
Era a Dona Antónia modista pois piadas eram pouco frequentes...nem as havia! mais agora que ela se deixara dos pontos e das máquinas e deitara na lixeira as cadeirinhas onde se assentavam as meninas da costura.
Antoninha há muito que ninguém se referia a Dona Antónia desse jeito de sentir, sequer de lembrar ou se a ela referir. Quase podíamos dizer que nunca existira uma Antoninha.
Maria Antónia era, essa sim, figura de presença assim designada pela madrinha. Mas também, mais ninguém, ao que o narrador saiba, se lhe referiu deste modo, ao tempo desta narração. Dona Antónia modista de profissão herdada precisamente dessa madrinha. Madrinha, modista de casa posta, freguesia certa e seleccionada de entre, e apenas de entre, as senhoras de nome e casa de brasão. (Verdade que muita camisa e fato de sair, vira o corte e a vestidura primeira, nessa modista madrinha de Dona Antónia. Mas essa roupa de pano de condição sempre inferior a uma seda ou a um brocado, essa de um corte que nem consulta de desenhados se precisara, saía sempre pelas traseiras na calada da noite ou muito antes de algum galo cantar. É isso que os leitores pensam esta,r eu narrador, dizendo: essa madrinha fazia umas roupas para o povo, mas era coisa de escondido para não desafamar a casa de modista que fizera nome. Estórias...)
Foi pois Maria Antónia, ainda menina, sentar o seu já bem apessoado traseiro, numa das pequenas cadeiras dessa madrinha. Levava-o, ao traseiro de então, recoberto em saias de panos de cotim, uma chita florida, um algodão na roupa de mais achegar ao corpo - um colete, um saiote. Dobrada como as outras naquele jeito de coser. As pernas, muito juntas. A roupa se achegando aos olhos tal como o prato da sopa.
Maria Antónia cedo chuleava de jeito que não saía um fio do interior da costura. Envelhecida a tia, já ela dava ordens de prioridades e modos de colocar o ferro na entretela ou a tesoura entre o molde e o tecido num espaço para bainhas e algum embebido.
Numa noite de um Janeiro muito nevado, a tia continuou o sono que dormira aí pelo início do sol se esconder atrás do monte e as galinhas acabarem com aquele odioso guerrear de arrumação nos poleiros. (Maria Antónia bem que viu o fogareiro de manter brasas para os ferros de engomar as roupas, toda a noite alumando.)
A madrinha ficou dormindo ía Maria Antónia nos seus dezassete anos. Não que soubesse esta idade com muita certeza, mas era mais assim do que menos porque os sangrares mensais já se lhe eram segredo só partilhado com a Emília Coxa, desde há largos seis anos.
Dormida a madrinha, ficou a casa em debanda. E eram muitos os vestidos em meio terminar e os fatos de tecido grosso, bem como uma meia dúzia de casacões de abafar. Havia ainda os cortes encarrapitados na sala de arrumos e passares de ferro.
Maria Antónia enterrou a madrinha (salvo seja!! está bem de ver que o narrador não gosta destas lides de funerais e resolveu brincar! quem a enterrou foi o Januário Zarolho mais o Pedro Castigo de Deus, os dois coveiros lá da zona)
No acto de ver enterrar, Maria Antónia estava toda de negro. Notaram-lhe o desgosto devido. Dona Antónia levava a cara coberta. De acima da cabeça até ao fim do começar a pele da gola do casaco, descaía um véu de brocado pesado e quase opaco. Ela quase não via. Mas, também ninguém podia ver como, por detrás do véu, ela sorria. Levezinho, Maria Antónia sorria a pensar que agora não havia ninguém para lhe mandar. Ninguém para lhe dizer: “Maria Antónia atende essa senhora, filha” e ela ali ouvindo aquela puta, amante do alcaide, que trazia mais um daqueles tecidos de seda que escorregavam e faziam as dores de cabeça daquela mocidade. Agora, morta a madrinha, teria ela uma outra a quem dizer: “Atende aquela senhora, enquanto acabo aqui esta prova!”. E lhe diria assim... num ar mandado!
O funeral passou. Muito passado se foi fazendo. Muito tempo de nunca mais, até ao dia em que Dona Maria Antónia sentou o apessoado traseiro, nunca apalpado por mão alheia (o que não vem nada a propósito do contar, mas isto são pequenas distracções do sacana do narrador, perdoem!) Dona Antónia sentou-se, pois, na almofada que cobria a cadeira junto à janela; o seu recanto da tarde desde que mandara deitar as cadeirinhas na lixeira e vendera, ao ferro velho que ali aparecera sabido da intenção que ela anunciara por dois ou três da cidade, ferros de engomar, máquinas de costura e, porque o homem fizera questão, duas tábuas de talhar. A caixa de dedais (desapareciam sempre que precisos!) e as almofadinhas de espetar alfinete, essas ofertara-as, a um pedido do sucateiro, pensando para que quereria o rapaz aquilo.
Sentada naquele recanto, viu o sol depositar-se como uma enorme romã descascada por detrás do monte. Sentiu um arrepio na zona onde o casaquinho se juntava ao pescoço. Levantou-se muito devagarinho.
Era hora de meio-dia, quando chegou a menina da limpeza. (Uma moça que nunca obedecia, assim pensava Dona Antónia saudosa de outras meninas.)
A menina encontrou Dona Antónia dormindo na cama.
A menina gritou de um sentir que aquilo era mais que dormir.
A menina gritou a pensar porque raio a mulher se deitara com aquele enorme véu negro a tapar a cara.
O que a moça não viu foi o sorriso de Dona Antónia por debaixo do opaco do véu.
(este sorriso o narrador nunca entendeu!)



imagem adaptada d’ AQUI

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Cadências


As lágrimas soltam-se-te. Ficas olhando-te nesse estar chorando. Espantas-te.
E nem sabes o que te faz assim. E nem entendes. E nem te explicas.
Quando te explicaste a ti sobre ti?!
Quando te admitiste chorando?!
Mas sabes que o fizeste... não! não!
de modo algum! tu não choraste!
Hoje...sabes que o fazes. Espantas-te.
Percebes que este chorar é um de muito longe...e ao mesmo tempo...
ai! ao mesmo tempo... este chorar é um... assim como um aviso.
Tu sentes.
Quando elas se te soltam, sentes.
Um tempo que não conheces.
Um tempo que te aguarda...te permite ...te pede que te escorras lágrimas pelo rosto.
Olhas-te como sempre te olhaste. Mas esse chorar avisa-te.
Tu estás deixando-te a ti. E a despedida dói. E as lágrimas soltam-se.
E olhas quem te está em volta. Indagas da nossa prontidão na percepção de ti.
Tu que te soltas devagar desse eu que olhamos.
Olhas-nos espantado de te veres ser visto quando tu, tu mesmo, estás partindo de ti. Partindo devagar. De um modo de partir que eu, que te vejo e te conto, com ele me espanto...me sofro...me não entendo.
E eu me vejo chorando.
Eu... num choro des-me-percebendo.

sábado, 2 de abril de 2005

estendais

O alguidar verde olhava-a debaixo para cima assente no lajeado do quintal. Uma manga de camisa de um azul usado, caía de cima de uma amálgama de cores molhadas. Um bolo de aniversário muito enfeitado... podia parecer. Podia. Podia a outro que olhasse o alguidar e a roupa dentro. A ela, o alguidar olhava-a. Ela nem disso encontrava modo de se ali ficar. Lonjeava. Olhava distraída. Uma distracção de ausência. Um não estar ali que sempre se lhe dava. Sempre, naquele debaixo de sol. Sempre, naquele abrir e fechar de molas. Sempre se fugia dela. Sempre se ia voando para longe de ali.
Debruçava na roupa. Erguia no arame. Ritmava, doce, num pensar que lhe abria covinhas na face. Num pensar que acentuava a nesga de olhos que o sol frisara. O sol e o de erguer a roupa. O sol e o alguidar de azul olhando-a repleto de roupa que era de ser vestida pelos da casa. E mais se alonjava de aquela roupa. Mais se ia longe daquele ali onde estendia roupa com molas. Mais, nesta roupa esticada em grande. Esta, dependurada a toda a largura: uma mola, duas, mais uma. Um roçagar na mão sobre uma cor de rosa de flores miudinhas. Das mãos, redobrada no arame, soltava-se roupa de adormecer. Um pano grande, represado em molas de cores garridas.

Voar a roupa dali e ir ela andando com esses voares. Haveria de ver muitas outras assim cadenciadas num levantar e baixar sobre a roupa de dormir.
Ela, naquele voar por cima de muitos estendais em terras outras que sonhava ali. O sol batendo forte e o olhar piscando. Ela se via arrancando as molas e levando os panos de esticar em cama de dormir.
Não. Nem era assim que ela via, agora que o sol passara debaixo de uma quase nuvem.
O que ela via mesmo, era como ela faria naqueles e em outros panos de cobrir cama. Como ela faria e como ela veria. Ela, voando com o vento que fazia vapor e assim secava a roupa. Ela, sonhava o lençol dormido.
O alguidar olhava-a debaixo, de sobre o lajeado. Um alguidar redondo todo azul. Olhou-a de tal olhar que ela se fixou nele e voltou do lonjear onde andava.
Escondeu-lhe o côncavo no lajeado. Não mais alguidar olhando-a.
Um banco. Sentou nele a saia e ficou olhando. Olhando a roupa volteando colorida.
Mais do que o calor do sol, apesar da nuvem, o corpo dela era todo quentura.


......................................

saiba porque não fui ao jantar da Pandora AQUI

terça-feira, 29 de março de 2005

cumplicidades


Dá-me a tua mão. Assim. Os dedos entrelaçados. Os braços enroscados. O teu ombro a tocar o meu. Agora, fecha os olhos. Cerra os dois olhos com muita força. Até veres luzinhas. Fixa essas cores que é o que vês de olhos bem cerrados. Deixa o corpo bem encostado ao meu. Apenas encostado. Não empurres. Sente o calor do meu braço. A força da minha anca na tua. A coxa encostando a tua com firmeza. Respira devagar. Inspira e expira sentindo o ar a circular.
Está um ar frio e seco. Estamos no cimo da montanha. Subimos para ver-o-mar. Lembras-te? Lá baixo, na cidade, fazia frio mas não este vento. O mar estava quase raso. O vento era de Norte. Riste-te quando te propus que subíssemos. Os sinos anunciavam a missa de Domingo de Páscoa e as ruas estavam pejadas de flores na entrada das casas. Tinhas decidido que não enfeitávamos a nossa. Afinal frente à casa havia cactos no chão. Cactos variados cada um florido na sua única flor de cor intensa. Cores grossas, como gostavas de chamar. E havia a buganvília amarela. E camélias e orquídeas variadas no parapeito de cada janela. As duas janelas a ladear a porta de madeira cinzenta. É! Tu nunca quiseste pintar a porta velha! Muito menos trocar por outra. O cinzento era de velho e tu entretinhas-te a lavá-lo com água quente e sabão. Lembras-te? Claro que te lembras!
Agora vamos aqui os dois muito encostados. Chegamos ao cimo da montanha. Um monte de escassos metros acima da planura do mar e da cidade. Os metros suficientes para se sentir o Norte como um vento de frio a cortar as mãos mesmo as nossas duas que estão entrelaçadas. Agarra bem a minha mão, mas não apertes. Sente como se estivesses colada. Eu sinto o meu corpo colado ao teu.
Não. Não sinto um corpo só. A tua forma sempre se encaixou na minha. Naqueles momentos em que escorregávamos para o abismo e subíamos montanhas anichados em lençóis ou na margem resguardada de um riacho. Sim. Eu sei. Nunca na areia fria numa noite de luar. Era nesses momentos que estava mais longe de ti. Lembras-te de concordares comigo?! Dizias que devíamos ser esquisitos porque ficávamos sós no acto de amar. Acentuavas, dizendo que era um estar eminentemente solitário. Os advérbios de modo, uma compulsão na tua forma apaixonada de dizer!
Acabei de cerrar os meus olhos. Antes olhava-te. Olhei para ti todo este tempo. Chorei quando cerraste os olhos. Esses olhos verdes que sempre dizem tudo. Nunca percebi porque era a palavra necessária em pessoas com olhos desses.
Mas agora só vejo luzes. Muitas luzes coloridas em fundo negro. Agora, devo ter rodado o glóbulo, e ficou branco com um ponto amarelo ao fundo.
Vamos andar devagar. Não fales. Querias dizer que me amas? Mas eu sei. Eu também te amo.
Hoje o dia está cheio de sol e de um frio trazido pelo vento de Norte. No esverdeado do mar havia pequeninas ondas de branco. Umas ondinhas a que chamavas cachão. Assim chamavas, tu que viveste em paragens que eu não conheci. O mar era pois de cachão antes de fechar os meus olhos.
Vamos andando, assim, devagar, muito agarrados ao que temos.
Muito agarrados um ao outro.
Vamos andando devagar com os olhos a ver apenas para dentro de cada um.
Vamos sentindo o vento, o corpo de cada um, o frio.
Vamos até onde a montanha se debruça sobre o mar.
Sabes onde fica o limite?
Não sabes?!
Eu também não!
Vamos muito devagar. Um passo a seguir ao outro até que a montanha deixe de ser e fiquemos debruçados sobre o mar muito verde e branco.
Debruçados entre a montanha e o teu mar de cachão.
foto adaptada de uma intitulada Cúmplices de voo

sábado, 26 de março de 2005

quarta-feira, 23 de março de 2005

RESSURREIÇÃO

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Páscoa
Ressurreição
Ressuscite a Natureza
de uma Primavera em Chuva


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Mais e melhor (?!) vão ver ali ao ladinho no OLHARES FELINOS
as fotos foram todinhas feitas esta manhã aqui pela Seila que vos deseja Boa Páscoa!

domingo, 20 de março de 2005

pulsar

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A foto ali especada. Especada tu olhando a foto.
As tuas palavras a desacertarem-se-te como naqueles dias. Lembras-te?
Lembras-te de como as palavras se te desapareciam para muito longe e ficavam apenas sons?! apenas vocábulos dispersos de sim não já vou...
E ficaste com esse olhar que era muito, mas muito mais comprido e muito, mas muito mais desarrumado do que o eram os corredores que conheceste! Um olhar que era o teu olhar de corredor atulhado em partida ou chegada.
Tantos corredores!
Olhaste todos eles naquele teu olhar a fotografia. Nem nunca tinhas sequer pensado que um corredor...muitos corredores...tinham sido parte essencial, parte marcante da vida que já viveste. Uma parte tão tanto escondida, ali desvendada no olhar uma foto de um corredor que nem sequer é nenhum dos aqueles que viste olhando a foto. Nenhum dos muitos tantos compridos desarrumados corredores. Quem pensaria fotografar um dos corredores onde as malas se acumulavam no entretanto de uma outra casa com um outro corredor?!
Alguns iriam ser corredores em outra terra. Longe.
As palavras deixavam de se tecer. Lembras-te?! Apenas te ficavam vocábulos designativos. Perdias, na desarrumação do corredor, a palavra das relações e do sentir. Ficavam atadas num local do teu ser... atadas como as peças que atulhavam o corredor.
Atulhados os corredores porque era preciso partir. Atulhada tu de sentires e de palavras porque partias...porque tinhas acabado de chegar. Chegada tu sem ter ainda deixado de estar lá de onde vieras. Um corredor atulhado lá, outro aqui.
E tu sem palavras e com aquele olhar comprido.
Parece-te até que o corredor tinha essa finalidade: de se assim encher, de tempos em tempos que daria uma frequência. Diria que se ouvia.
Um corredor. Uma geografia das casas. Um espaço que servia para que portas desembocassem no para dentro da casa. Um espaço de passar para os espaços de ser na casa.
Não se vivia no corredor. Passava-se nele...

Vivia-se nos corredores que recordas olhando essa foto?!
Ah! nos momentos de atulhamento...
... tu sempre te sentavas num recanto?!
Havia sempre um recanto em cada corredor de chegada e em cada corredor de partida?!
Havia sempre um canto em cada corredor...
Um canto que te aninhava... no corredor ...
Aninhada... antes...até que...
...devagarinho...
voltavas à palavra!





Obrigada Ognid pela foto que me deu estes ir lá onde andamos ou nem sabemos se apenas sonhamos...

sábado, 19 de março de 2005

Pai?!

Passo a passo
fazes-te ao terreno
arrojas-te à despedida
Começas por ti
Resolveste assim há muito
Dizias:
Partir é deixar-se para trás e renascer
Assim vais fazer
Despedes-te sobretudo de ti
os outros vão-te vendo partir
Sorris a uns...aconselhas a um outro
Recebes abraços ...abraças
Mas gostas e precisas de coisas
As coisas que te são tu
Aquele pedacito de areia junto ao rio
(que bem dormias nu depois do banho!)
O rio sombreado de um castanheiro
O banco verde sob a amoreira....
(lutos de outros em ti
dois soluços e uma cara lavada)
Andas nas despedidas
percebes

sabes
sentes
tens que ser rápido
tudo antes de pôr o sol
Baixando devagar
confunde-te essa luz
Achas graça
sorris
recordas
(um daquilo um daqueloutro)
A cidade que te acarinhou
abandonado aqui...tu...
Não entendes
Pedes ajuda
Choras

Fazes o teu luto
na enorme solidão de ti.





terça-feira, 15 de março de 2005

my darling, my blood PARTE II

O último post que aqui coloquei e que integro neste a seguir foi lido e comentado. Nada de mais! Mas ele era-me muito caro como as opiniões sobre o filme que lhe estavam na origem e sobre o que eu escrevera. Por isso volto a ele.
Esta MULHER leu o meu texto, comentou-o e escreveu aqui .
E eu, que pensava escrever ainda sobre este tema, acabei por fazer um daqueles comentários que passo a transcrever aqui (ela não se zanga)
minha linda! o bonito e rico é podermos ver a mesma coisa, neste caso um filme magnífico, por ópticas diversas! A minha (e te agradeço comovida a referência e o comentário) saíu como já disse assim brutal e quase (até a mim parece !) desligada do filme -não está e talvez ainda escreva sobre issso! A tua é uma ternura, uma suave visão do que está à vista e envolve toda a narrativa. Ternurenta. Mas ...e a violência?! e as mulheres no ring? e aquela "família"? e aquela filha daquelas cartas?! e o Deus dele? e o ar a chiar a chiar... o ar que a fazia rir?! o ar que fazia aquele lindo sorriso e aquela voz?! ai Lique onde anda a Vida? Eu coloquei-as a atirar...podiam ser murros (disseram que queria mutilar-me...pois!!! quem escreve sujeita-se!!!)e a amar-se e a querer não querer sair daquilo e a rir e...coloquei-as sozinhas...muito sozinhas...Eu vi outra história .... eu escrevi e depois vi ! Foi muito angustiante e sincera a pergunta o que é que este texto me quer dizer...e acho que o que ele ME quiz dizer, eu ainda não sei, mas ando a ler o que me escrevem e a pensar e já sei ao menos isto que acabei de escrever - que vi no filme as mulheres que lutavam...foi isso que me chocou no filme...isso e a solidão delas e de cada um dles!Um abração Mulher!
Publicado por: seila em março 15, 2005 10:55 PM


Faço isto, porque me parece que as questões que, em mim, o filme fez questões primeiras, estão ali descritas. Acrescento-vos apenas que a descoberta da resposta à questão que coloquei ainda não está respondida e não sei se o será...a vida é cheia de surpresas e recantos escondidos... Deixem que diga ainda que não vi relação com o filme (sentia, sabia, mas não percebia!) senão no acordar do dia seguinte. Acordei com uma espécie de "Ah! o que te chocou no filme, o que para ti foi mais importante, foi a relação que existia sem existir entre aquelas mulheres do ringue"

O post de dia 13

…my darling, my blood PARTE I

Escrevi este texto de jacto a pensar no filme que vi ontem Million Dollar Baby de e com Clint Eastwood.
O filme é belíssimo e perturbou-me muito! muito!! muito!! muito!.........
A foto que reproduzo está
neste site e é da atriz Hilary Swank na interpretação de Maggie Fitzgerald.

e eu não percebo o que o meu texto me quer dizer

Dá-me um tiro de raiva
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara!
Enfia essa merda no cano e díspara, caramba!
Um balázio na esquerda e outro na direita.
Rebenta um vaso... deixa lá o osso...
Quero sangue a correr e eu deitada
De borco tentando rastejar.
Dispara porra!
Ficas a olhar com essa cara de anjo...
És linda de morrer... ou melhor...
Linda tu não és! Mas tens uns olhos verdes
Adoro olhos que olham e se forem verdes...
Mas ias mesmo disparar?! Não acredito!
Claro!!!
nem tens arma!!
Eu sei que percebeste!!!
Estávamos ambas a brincar
Que se lixe se não acham isto brincadeira!
Eu queria que disparasses
Sentir o disparo a atravessar a polpa
Na outra perna o choque cru com o osso
A tíbia?! Não! Preferia o outro...
isso...o perónio.
Depois, eu caía.... e tu fugias.
Acabavas a ir ver-me com um ramo de flores
Rosas e gerberas amarelas
táaaá.... também podias levar malmequeres.
Todos os dias irias ver-me ao hospital.
Não! Nunca ninguém saberia.
A arma disparada por ti era imaginada
e cada uma das minhas pernas
estavam simplesmente.... cansadas.
Eu estava internada apenas por ser mulher.
Sangrava de outros sangues
E pedia que disparasses de uma loucura.
Essa loucura que tu entenderas tão bem...
Por isso... dispararas
a tua mão aparando sangue.
O sangue escorria entre as pernas.
Sentada... as flores no colo
sorrindo muito cara de anjo
Quando acordei estavas a meu lado
Dispara porra - gritei
Dipara essa merda!!
E rimos as duas... rimos muito!
Tu arrumavas as flores na jarra
eu tinha adormecido soluçando - dispara!

sábado, 12 de março de 2005

menino...homem



Sou pela primeira vez mãe de um homem de trinta anos!
E estou tão baralhada de sentires
choro e rio igualinho...


tal qual fiz... quando te pari de mim
foi a primeira vez que eu pari
quando nasceste tu de mim
Nasceste-me de um maravilhoso parto lindo
Era Primavera na Natureza
Primavera no nosso País
Foi Primavera na minha Vida

Estou baralhada nos sentires e choro e rio

Desejo que te leves pela mão sempre ao meu menino
Que não percas de ti o teu eu menino
Que ele te faça companhia
Que se saibam um ao outro dar carinho
Protege o teu menino tu de vendavais
Enfrenta com ele a vida
Sorrindo... brincando...chorando... rindo
Leva sempre contigo pela mão o teu eu menino

Ai tou tão baralhada que nem sei...

homem...menino...

(que é isto que sinto morno aqui na mão ?!
Uma lágrima atrevida que se descaiu
a deixar soltar-se o coração!)

sexta-feira, 11 de março de 2005

memória



há momentos ...tantos momentos!!!
em que não há...eu não as tenho...
palavras
guardo...tento...

silêncio...
sinto o coração desfazer-se

sangue
sempre sangue derramado ...
nesses...tantos momentos...

choro dos corações....tantos corações...
os ficados até ao sempre depois daquele...
tantos corações depois do momento...
sangrando
hoje...ainda...sangram corações
pingam

e as flores...
desfazem-se em seivas
as flores amarelas rosadas brancas
as flores são todas vermelhas
e sangram

quinta-feira, 10 de março de 2005

...vontade

Se eu fosse a derramar o sangue que me escorre em cada pequenina veia, em cada capilar...se eu derramasse assim de natural, então seria em sangue de vermelho cada lágrima de meu chorar. Loucura. Como se de um plano de cidade em teias de ruas e becos e avenidas de visão aérea feita. Assim meus sentires. Assim meus pensares. Assim se deles tornam causa de chorares em soluços que, se sentidos são e a alma desfalecem, são confusos como se a vista aérea estivesse desfocada e da cidade, entremeadas de becos e rotundas, jardins e pequenos nichos, apenas eu visse uma difusa rede de linhas inapercebidas e as até confundisse com vasos de meu sanguíneo sistema. Vejo-te ali sentado. A ti eu vejo nítido. Mas não és o tu que eu chamo e de quem me apelido. Aquele que se ali derrama vai não sendo. Eu sinto isso. E este que referido faço antes dito, devolve-me um de chorar que aborta no interior do peito e deixa uma pressão que mais um pouco medida em bar, atmosfera ou unidade de medida outra, sufoca. Sufoco dessa pressão do não chorar. Dizia eu acima, e continuo. Se me desse em rebentar as correntes que me fazem ser vivente, choraria eu de vermelho vivo e cada soluço operaria um diagrama aqui na face. Cada tentativa de conter o curso do choro seria um avermelhar de mão e braço e cotovelo. E isso porque ele se não ergue, não lhe pede a vontade que se vá dali em passeio de sol ou de chuva. É isto que eu sinto olhando a ele. Ele perde a vontade mas nem ele e nem eu sabemos como e para onde, para quem, porque caminhos se vai, se perde tal de importância de se ter que é igual e maior de se perder de cada um numa cidade assim ou de perder o tino. Mal maior é, assim me dá em sentir e crer, perder a vontade. E por esta perda que nele se está processando, a da vontade, se me estão em mim desfazendo as vias daquele um sistema lógico de circuitos alimentadores do ser na energia transportada em vermelho de plaquetas. Como se me desfazem? Não sei. Estas coisas eu sinto. Apenas sinto. Sinto eu apenas?! Loucura. E fico olhando em espanto porque se me escorrem transparentes as designadas lágrimas. Fico em soluço esfregando um de cada olho com estas mãos que se me voltam humedecidas, mornas, mas límpidas. E eu as esperava tintas de vermelho sangue.

sem ...

segunda-feira, 7 de março de 2005

degraus...

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Era uma pedra enrugada. Teria, em muitos tempos idos, sido uma lisa placa de marmoreada pedra, arroseada de cor, com listes de cinza muito ténue. E, porque era um local de passar o pé para o de dentro da cozinha, talvez nunca fora bem um degrau. Talvez fora um degrau de mármore, apenas para um alguém que dele fez a sua vez primeira. Talvez tenha havido para alguém um dia inicial Dia, de um dia, parabentar. Dia de relembrar, passando que fosse o moço, envelhecido já, a comoção mostrando-se a ele no dobrar que a língua se lhe fazia como se fora uma peça estranha, ao dizer ao neto: “aquele foi o primeiro degrau que o avô assentou”. A gente sabe lá que pode estar de sentir ligado a uma pedra tão de pisar que nem já lhe chamam o nome, como o que esta tinha – degrau. Mas, para um assentador, um moço de robusto dorso e mãos ainda apenas a ajeitar-se ao virar do cabo da colher da massa para dar aquele final toque que fazia que o degrau estivesse agora ali, a crer nisto que é da imaginação que pode tudo se se deixar andar, podia ser aquele degrau, um degrau com história. Que mais não seja, a história de ser o primeiro degrau que colocou aquele moço na sua, e continuamos a supor, que seria longa carreira de os vir a assentar.
Hoje havia a pedra enrugada que descrevemos e supusemos e havia Marília. E entre os dois uma queda. Ainda não dissemos. Uma Marília que tropeçava na pedra enrugada. Uma Marília um dia, comprara aquela casa enorme rodeada de ervas. Comprara a casa por... devido a .... pelo gosto de... comprara por aquela corrosão estranha que sentira; um aquilo que nunca sabia, quando assim se dava de se lhe aconchegar, se era mesmo ela lá num seu de interior, se era um de outro ser de uma outra vida, como a avó dizia que seres nos entravam; assim mesmo dizia a avó de Marília – seres que nos possuíam. Era este mesmo o termo que empregava – possuíam.
Certo é que Marília comprara a casa pelo sobreiro que nunca outro daquele porte nunca vira. E, no dia primeiro que o viu dependurando rama sobre a chaminé da casa, tinha metade dele em cinzento grosso e a outra metade lisinha de um acastanhado que não sabia na ocasião, e também não encontramos nós agora designação para dar à cor, mas há cores que são assim...não se deixam chamar. E o sobreiro parecia gente acabada de sair de banho em meias vestes. Isto, apesar, Marília lembra bem, de ser de frio com sol, o dia aquele em que, nem sabe bem quem foi, se ela se outro incarnado ser em si, decidiu que a casa seria para ela viver dali até a uma sepultura ou, sabia ela lá como seria, o acabar da vida daquela Marília ali embevecida.
Marília comprou a casa, a erva, o sobreiro e... o degrau.
E hoje, agora que estamos a seguir a história, Marília estatelou-se de cima daquele minúsculo desnível de pedra...o degrau da cozinha. Foi como “o degrau da cozinha” que ficou sempre conhecida a pedra que, talvez, isso a gente não sabe, tenha sido a primeira assente por um rapaz que depois foi, terá sido, avô.
O que sabemos é que esse degrau estava agora muito rugoso, muito desgastado, muito sem aquela posição horizontal que, talvez, tenha sido resultado de um primeiro toque que passou a ser de mestre, dado com o cabo da colher de massa por um rapaz que se estreava na arte de colocar pedras que passariam a servir de para subir e para descer, para entrar e para sair e que, neste preciso descrito, também servia de local de queda.
O degrau, por desgaste ou descuido de vir a tal de Marília a correr, servia, neste momento, para alguém se estatelar.
E o alguém que caía, no degrau que fora pedra, presumível primeiro degrau assente por um moço futuro mestre de colocar degraus, que mostraria a um neto o local da sua obra primeira com a comoção a enrolar-se na língua, o alguém era Marília.
Marília. Uma mulher linda rondando a idade de ser uma avó. Marília que não era avó, nem seria, porque dela não brotara vida senão a que ela possuía em rodos que a faziam se alevantar de um pulo e prosseguir a corrida mesmo que depois de caída do degrau.
E, cheia dessa vida que não passara a outro alguém que de seu filho assim se chamaria, gritar de um vozearia que era uma das vantagens de a casa e o sobreiro ficarem no de longe de outras casas.
O grito de Marília, era um grito com nome de homem. O homem que corria de encontro ao apelo contido no grito de Marília, logo a seguir ao ela se estatelar no degrau da cozinha, sorria sempre que contava ter sido de seu ido avô a profissão fazer escadas de pedra. Escadas de pedra degrau a degrau.


Foto do querido Ognid que contém a imagem linda amalgamada com a sua enorme paciência para aturar aqui a Seila

sexta-feira, 4 de março de 2005

Pôr de luz



Brilho de incandescente feito
cada degrau reluzindo
branco
e a cor...todas as cores...
resguardada
colorida.... branquinha
a escada.
Encandeava o quem que a olhava.

Sentado no degrau do meio,
enroscado num degrau a meio,
o Homem.
Sombreava um tanto.
O brilho encurvava ali,
naquele de seu redondo Ser,
naquele degrau do meio.
No meio de uma escadaria
fazia sombra, fazia desluzir.
Acima e mais abaixo... a luz.
Ali... o Homem,
num redondo encolhido,
uma sombra em degrau
a meio da escadaria.
De verdes olhos olhava
de verdes olhos, o Homem via.
De um olhar de luz, o Homem
ergueu-se
do fundo de um Eu,
olhou de encandear,
olhou de se desensombrar.
A sombra deslassou acima e abaixo
O brilho sumiu devagarzinho
milímetro por milímetro de baixo a cima
até um só redondinho
um de brilho pequenininho
um nadinha de luz no cimo.
Depois desse redondinho,
escureceu.
Ensombreou de negro a escadaria.

No degrau do meio
devagarinho...a luz.
Brilho de encandescer
Um redondinho de brilho
Um brilho de verde olhar
Todo o brilho ali...
num degrau do meio da escadaria.

Rebrilhando de luz
o Homem descansou.

quinta-feira, 3 de março de 2005

Percursos


às vezes as palavras precisam saltar do coração
desatar de entre as duas que se olham e se dizem-ouvem
às vezes é preciso tirar as palavras todas para dá-las ao mundo
as palavras entremeadas de coração e olhos ficam ali quietinhas
assim ficaram aquelas ali
devagarzinho vou tirá-las uma a uma e ofertar a todos vós
olhem aqui
não! não é nada demais ...
são apenas umas simples palavrinhas...

então ela lhe deu os parabéns...
lhe disse de mansinho “ih! que de tempo passou!!!” você tá linda e eu...ai eu minina eu tou tão de coração sorrindo que lhe fiquei de amiga sua de tempos que nem dava no jeito de sentir que ia ser de assim sentida esta meiguice do jeito seu ...arredia que eu andava de encontar com gente...me conquistou...a conquistei ...aconchegada agora eu sei....posso ficar e se você necessitar ou só mesmo desejar, pode bater as vezes que quiser mas não vai precisar eu vou estar não precisa avisar...olha meu ombro aqui: que quer chorar, se rir?! ah! hoje foi dizer olá e ir! Minina, a gente sempre fica junto quando é de si gostar...


Diverti-mo-nos imenso! Não foi amigalhaço?

terça-feira, 1 de março de 2005

PARABÉNS ALICE

Mulher ali abeiradinha entre as 50 e as 60 Primaveras

ao Sul num Mar de Sol
sussurrando sob palmeiras bravas
os deuses Te abençoam
Mulher que no-la hoje
a trazes
Primavera!

domingo, 27 de fevereiro de 2005

foto

se as visses hoje
se olhasses o céu de chuva em fundo
se caminhasses rindo ali comigo
se me desses a mão amigo
se olhasses as flores de amendoeira
as flores já fugindo sob o verde
afagando-te o cabelo sujo e pardo
se estivesses aqui olhando as flores...
mas de ti ficou-me este desenho d’arte
foto em cinzento como o céu de esta tarde

Víamos-te, certo
na esquina da cidade grande
eras tu a gente sabia
mas nada de quem eras a gente percebia
Quem eras ?!
Ficaste naquele suspenso gesto do teu Ser,
mas quem serias Tu?!
Inventando escrevi sobre quem?
Sobre Ti?!
Pecado ou Amor que molda em um os muitos
semelhantes todos...naquele tu que vi?!
Enquanto te invento, a pergunta dolorosa fica:
quem eras Tu?
E, sincera, suplico a esse Alguém que ousei reinventar:
Perdoa que te tenha assim feito Ser
Foi por a muitos todos querer amar
Foi por te sentir um tu pleno de um Amor
que poderias dar!



texto sobre a foto aqui

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

travessias


Apetecia-me escrever-lhe. Dizer-lhe.
A perda das certezas. A perda das respostas. A perda do controlo dos aconteceres.
Queria escrever a ela.
Depois dessa perda, a serenidade. Depois, o amainar dos medos...Os corredores labirínticos a transformar-se em ruelas sossegadas. Algumas desembocando em recantos ajardinados. Outras, descendo até margens de regatos de águas transparentes. Os labirintos entrecruzados, cinzentos, húmidos que me faziam imagem de mim, não desexistiram. Eles lá estão. Apenas eu me passeio neles sem olhar receosa a minha sombra ou apressar o passo medrosa. Aprendi a percorrê-los para melhor os conhecer e não para lhes fugir. E até aprendi a gostar dos seus recantos mal iluminados, do cheiro acre de uma valeta sem sol.
Dizer-lhe a ela.
Um dia passei muitos dias em que os dias que vivia eram a soma de esperar. E eu não sabia que sabia fazer isso. Eu não sabia que podia viver apenas esperando algo que não estava na minha mão mudar. Eu não sabia que podia viver os dias sentindo as divisões de cada dia e em cada intervalo de cada parte o dia, nos bocados em que o dia era para ser, a boca amargava-me e eu desexistia.
Imagina!
Imagino eu agora que escrevo sobre o que foi viver dias que nem existiam nas partes em que era para existir, nem existiam nos intervalos dessas partes. E isto era assim, mesmo que eu estivesse no cinema ou sentada numa esplanada com amigos. E isto era assim mesmo que estivesse a ver o mar sentada deixando que as lágrimas enchessem aquela covinha de areia. E isto era assim, mesmo com o Natal a rebentar em alegorias de quadra de ofereceres ou a Primavera a rebentar em cascatas de flores e verdes e sol e luz e águas de Abril. E o isto que era assim era o dia, todos os dias, ser dividido em três partes que não eram a manhã, a tarde e a noite, mas eram outras partes de outro horário, marcado por outro fazer. Eram dias de esperar e dias de ver e dias de contar e dias de saber outras coisas diferentes daquilo que se queria e se desejara saber e nem sequer se importar se para saber isso se deixava de saber outras tantas...muitas coisas. E nesses dias aprendi a desesperar como uma forma de sossegar. Contraditório? Não. Tão apenas sentar o desespero frente a frente para o poder ter não como inimigo, mas como aliado. E os corredores do medo não encurtam nesses dias. E os corredores do desespero não se tornam menos húmidos e escusos. Apenas aprendo a percorrê-los sem receio. Apenas aprendo que vou ver o fundo, mesmo que não saiba quando. A dor é o percorrer desses corredores dos nossos medos. A nossa dor. A dor que sentimos por não poder apaziguar a dor do outro, essa dor apenas o saber esperar a colmata.
Um dia, eu vivi muitos dias divididos em partes que o sol não comandava.

Um dia, depois desses dias, percebi, aprendi que a serenidade advém da aceitação do que a Vida nos dá.
Um dia, depois de conviver com a dor do outro feita minha que mais dor é, um dia desses, depois dos outros, eu percebi a unidade do meu eu com os demais. Noutros, muitos outros, eu continuo vivendo muitos dias em que os dias são a soma de esperar. E muitos outros eus não sabem que sabem fazer isso...que podem viver apenas esperando algo que não está na sua mão transformar...que não sabem que podem viver os dias sentindo as divisões de cada dia e em cada intervalo de cada parte o dia, nos bocados em que o dia era para ser, a boca amarga e cada um dos muitos eus desexiste.

Eu gostava de lhe escrever
e dizer das noites sem manhã e das tardes sem pôr de sol.
Eu gostava de lhe escrever
e dizer que soluçar confunde-se
no cascatear da água na fonte
na chuva caindo no quintal.
Eu queria dizer-lhe
depois desses dias nunca mais aqueles dias
Mas eu gostava de dizer-lhe
do sorrir :
Um sorrir de uma outra Alegria!

Escrito depois de ler a Lique
Obrigada ao
Ognid pela foto carinhosamente ofertada

domingo, 20 de fevereiro de 2005

serenamente


A frescura da flor de amendoeira
a fragilidade e o fruto que a sua singeleza encerra
o sol a esconder-se em religiosa e silenciosa despedida
anuncia o raiar de um dia novo
é isto que deixo hoje
uma mensagem escondida e por isso inda pura


sábado, 19 de fevereiro de 2005

Longa espera


No fim da espera
quando acabar este silêncio
num ruído de alegria
ou num rugir de desesperança,
choverá!
Finalmente...
choverá!
Quando vires chover,
acredita:
é o milagre das lágrimas!
O sol chora,
finalmente!
De uma a outra Primavera,
soltam-se lágrimas!
É o nosso sol a poder libertá-las
num ruído de alegria
ou num rugir de desesperança...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

...que chova

Que a água se desfaça!
Que o suor rompa de cada poro!
Que o corpo escorra deslizando
o ventre em tuas mãos!

Quero engolir a dor e rir do choro
sufocar de odores de maresias
salgar dos limos entre as pedras
ficar ébria de um respirar de leve
entre teus joelhos firmes amarras
ficar perdida em sabor de branco sal
confundindo luz e escuridão
olhar de frente todos os sóis
e mais que ter-te doar-me em ti
solto livre companheiro
caminhante de serranias íngremes
pular todas as constelações
em nossos corpos seduzidos, meigos.

Voltar devagarzinho nos teus beijos...
aplanar a roupa com o riso
deixar correr areia grão a grão
soltar a gratidão no teu sorriso
amar-te serena mão na mão
sorver a chuva no teu rosto
e ficar a olhar, a olhar, a olhar...

a ver-te até ao infinito...

Quero a água da chuva na janela
e entre ela e nós
entre ela e nós... o prazer do corpo!

sábado, 12 de fevereiro de 2005

Zoom

O quente vermelho do sol brilha, indecoroso, dependurado de um céu entre o azul e o plúmbeo. Sopra brisa de norte. Uma frescura que não perpassa o rosto, osso embrulhado de pele ondulada.
Em volta, a terra perdeu há muito qualquer sinal de verde. Montículos de pedras confundem-se com a terra esboroada por pés desnudados num arrastar silencioso, lento.
As árvores são troncos acinzentados, caminhantes em fúnebre cortejo.
Uma sombra paira. O voo baixo de uma águia não refresca o escaldar do sol. A paisagem não se enobrece de vida. A águia poisa no ramo mais alto de uma árvore. Árvore sem copa, sem folhas, sem mais que tronco e raiz. A brisa é morna.
Numa escala diferente de visão, a mesma paisagem. Uma face recoberta de pele seca e pelos hirtos. Um granulado salpicado de montículos castanhos. Tudo seco. Tudo quente. Tudo pardo. Troncos mirrados, arrastam, doridos pés. Nas dobras de pele escorre uma seiva acastanhada.


Olho as fotos que tiramos. Ficaram belíssimas.
Recordo o ermo do local e o acaso de um velho.
Ou era um réptil em vias de ressurgir numa nova pele?
Selecciono as fotos a enviar para a exposição.


Lá fora chove intensamente.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

corpo

Feito de mar, sol
ar e areia,
nele perpassa o desejo
de extase
invade o tremor de cópula
e vagabundeia o pensamento
ao seu sabor.

Tenho-te no segredo de mim,
à espera de poder perder-te,
no sabor de outro corpo




escrito por uma amiga a quem abraço hoje
neste seu de muitos dias!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

as amendoeiras reflorescem

Mesmo que lhe tivessem dito
Mesmo que tivesse visto
Mesmo que tivesse ouvido
Tendo ouvido o que disseram
Tendo visto e ouvido o que julgou ter visto e julgou ter ouvido
Mesmo assim, que ficou realmente a saber sobre o que se passou naquele fim-de-semana?
Mesmo assim, que ficou a saber sobre aquela pessoa?
Depois, passaram-se mais aconteceres
Depois, passaram anos sobre esse fim-de-semana
Passaram outros fins-de-semana e dias de semana e noites de dias de fim-de-semana e ditos úteis
E hoje que fica a saber juntando todos os pedaços vistos, contados, ouvidos?
Hoje, tantos anos depois daquela vez em que mesmo que lhe tivessem dito, mesmo que tivesse visto, mesmo que tivesse ouvido, ficaria, como hoje, sem saber nada sobre o que viu, ouviu, escutou e sobre o que se passou com aquela pessoa.
E hoje numa segunda-feira de um outro Carnaval, volta a tentar entender o que, repetido, presente, quase se diria tão natural como ser de jeito que é cada um diferente de cada qual, sente apesar de tudo e, sobretudo apesar do repetido, igual, constante. Hoje teoriza. Não se distancia. Não pode a dor a esse ponto permitir. Mas afasta-se, isso pode. Olha de um afastado de querer entender. E a teoria leva por estranhos meandros, carreiros do ser, azinhagas, cruzamentos, fluxos de sentir, emoções de.... Não. A teoria não conduz a mais do que um enorme e convulsivo ponto de interrogação empanturrado de porquês, de comos, de quando, de até quando.
Fica, outra segunda-feira de Carnaval, olhando aquele olhar de azul que olha numa dureza de olhar o vulgar e se alonja sereno e meigo em territórios...que territórios serão?!
Não. Ainda não é hoje que consegue. Hoje sabe dizer que não entendeu acontecido... e dizer a dor - não sabe contar... esta não na sabe...
As noites não foram as suas
Os medos não foram seus
Os delírios não os sentiu
Os olhares dos outros não os viu
Nada se passou consigo
Nada se passou a não ser o seu medo
A não ser a sua dor
Nem a dor da pessoa a sentiu
A dor dessa pessoa, se dor, era distante, era não sua
Então se souber um dia contar...
Se uma qualquer segunda-feira de um outro Carnaval souber dizer... será de si que dirá
Mas sabe que algo se passou
Mas sabe que nada nunca mais foi o que era antes
Antes de se ter apercebido
Porque, isso entende que seja assim, o algo seja o que for que se estatelou ali naquele olhar que se afundou num olhar outro de muitos olhares diferentes, esse algo era germe desde o sempre. Esse sempre do antes de aquilo se manifestar e que, se deixasse, lhe tolheria o seu ser de culpas porque nesse antes poderia ter havido um talvez que permitisse outro diferente depois... Recusava pensar assim, mas...como entender o que estava na génese? Como entender o cadinho propiciador da (quela) evolução?
Chora. Não um choro de lágrimas. Um outro.
As amendoeiras floriram.


As amendoeiras florescem no Carnaval.
Parecem iguais e são tão diferentes estas das outras flores dos anos anteriores.
As amendoeiras florescem.
As máscaras colocam-se e retiram-se.
As feridas saram.
A vida é este continuum de diferenças que teimamos em querer semelhantes.
Os ciclos ajudam a viver.
Mas os ciclos terão que ser reconstruidos quando se quebra a sua aparência de igualdade.
Aparência.
Realidade.
O ponto de interrogação carregado, empanturrado de comos e porquês.
A vida a fluir.
O tempo.
Os ciclos.
Amar o olhar que julgamos afundado.
mas...que olhar afinal se afundou?
É... andará cada um dos todos ou andarão todos os olhares afundados e há olhares que sobressaem, sobrenadam, diferentes, na igualdade dos olhares que jazem olhando todos os dias o mesmo de modo igual?!


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

encontro/s

Maria sentava-se de vez em quando naquele banco. Era um banco de jardim igual a tantos outros que se espalhavam há anos, tantos, pela pequena cidade. Aquele sobrara da renovação que fizera o município. Ficara como que esquecido naquele recanto. Sim que não fora decerto amor a algum romance ali passado! E, daí, quem sabe?! Quem sabe se, no plano de renovação, não teria alguém desafectado aquele, precisamente o banco que Maria costumava ocupar, por via de a esse alguém ser o banco motivo de recordar?! Quem sabe?
Maria estava sentada no banco. Mais uma vez, descera devagar a rua estreita que desaguava naquele larguinho frente ao rio. Ali como se o rio fizesse uma esquina e o banco ficasse resguardado de tudo. Ninguém o via. E dele via-se muito. Maria sabia. Sentada quase abraçando com o corpo o todo da madeira, estava mais deitada que sentada. Lânguida. Deslassada. Esticavam-se meio cruzadas as pernas recobertas de meias e descida a eito sobre elas a saia de lã comprida e rodada. O braço direito caía dependurado na parte do banco oposta ao rio. O braço todo, não. Apenas a mão e uma parte do pulso de onde balouçava uma corrente de ouro com uma cruz pendente. A cabeça de Maria estava a ser aconchegada pela mão esquerda, o cotovelo assente na leve curvatura que fazia a parte cimeira das costas do banco. A cabeleira loura levemente encanecida derramava caracóis desalinhados quase tapando a mão.
Seriam as cinco e meia duma tarde de Inverno. O rio corria sereno. Liso. Prateado? Não. Era um rosa amarelado. O sol devia andar tentando dormir ali bem perto. Um silêncio enrolado com o frio soprava nas folhas do ulmeiro espelhado no rio.
Um homem de samarra aproximou-se. Estacou. Ficou olhando. Desviou o olhar. Torneou o banco. Olhou para trás. Voltou. Cumprimentou Maria com um aceno tímido no transparente azul do olhar que a olhou. Sentou-se na ponta extrema que o corpo de Maria deixara vago no banco. Desencostado. As mãos unidas entre os joelhos muito ajustados um ao outro. Uma quase vergonha de se ali estarem sentados. Maria endireitou-se. Sussurrou um esteja à vontade; gosto deste recanto. O homem olhou-a de novo com aquela transparência de azul no olhar. Ficaram até que o sol já se dormia e a bruma do rio era só a luz que fazia no escuro da noite antecipada de um Inverno. Maria ficou a conhecer a história daquele banco.
Quando acordou, tinha frio. Ergueu a mão donde pendia a corrente. Eram as oito. Já noite. Espreguiçou-se. Sentia uma leveza boa como se alguma coisa tivesse de facto acontecido. Maria levantou-se. Olhou o banco e sem pensar disse com um tom meigo: Boa noite! Eu volto!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein