sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

corpo

Feito de mar, sol
ar e areia,
nele perpassa o desejo
de extase
invade o tremor de cópula
e vagabundeia o pensamento
ao seu sabor.

Tenho-te no segredo de mim,
à espera de poder perder-te,
no sabor de outro corpo




escrito por uma amiga a quem abraço hoje
neste seu de muitos dias!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

as amendoeiras reflorescem

Mesmo que lhe tivessem dito
Mesmo que tivesse visto
Mesmo que tivesse ouvido
Tendo ouvido o que disseram
Tendo visto e ouvido o que julgou ter visto e julgou ter ouvido
Mesmo assim, que ficou realmente a saber sobre o que se passou naquele fim-de-semana?
Mesmo assim, que ficou a saber sobre aquela pessoa?
Depois, passaram-se mais aconteceres
Depois, passaram anos sobre esse fim-de-semana
Passaram outros fins-de-semana e dias de semana e noites de dias de fim-de-semana e ditos úteis
E hoje que fica a saber juntando todos os pedaços vistos, contados, ouvidos?
Hoje, tantos anos depois daquela vez em que mesmo que lhe tivessem dito, mesmo que tivesse visto, mesmo que tivesse ouvido, ficaria, como hoje, sem saber nada sobre o que viu, ouviu, escutou e sobre o que se passou com aquela pessoa.
E hoje numa segunda-feira de um outro Carnaval, volta a tentar entender o que, repetido, presente, quase se diria tão natural como ser de jeito que é cada um diferente de cada qual, sente apesar de tudo e, sobretudo apesar do repetido, igual, constante. Hoje teoriza. Não se distancia. Não pode a dor a esse ponto permitir. Mas afasta-se, isso pode. Olha de um afastado de querer entender. E a teoria leva por estranhos meandros, carreiros do ser, azinhagas, cruzamentos, fluxos de sentir, emoções de.... Não. A teoria não conduz a mais do que um enorme e convulsivo ponto de interrogação empanturrado de porquês, de comos, de quando, de até quando.
Fica, outra segunda-feira de Carnaval, olhando aquele olhar de azul que olha numa dureza de olhar o vulgar e se alonja sereno e meigo em territórios...que territórios serão?!
Não. Ainda não é hoje que consegue. Hoje sabe dizer que não entendeu acontecido... e dizer a dor - não sabe contar... esta não na sabe...
As noites não foram as suas
Os medos não foram seus
Os delírios não os sentiu
Os olhares dos outros não os viu
Nada se passou consigo
Nada se passou a não ser o seu medo
A não ser a sua dor
Nem a dor da pessoa a sentiu
A dor dessa pessoa, se dor, era distante, era não sua
Então se souber um dia contar...
Se uma qualquer segunda-feira de um outro Carnaval souber dizer... será de si que dirá
Mas sabe que algo se passou
Mas sabe que nada nunca mais foi o que era antes
Antes de se ter apercebido
Porque, isso entende que seja assim, o algo seja o que for que se estatelou ali naquele olhar que se afundou num olhar outro de muitos olhares diferentes, esse algo era germe desde o sempre. Esse sempre do antes de aquilo se manifestar e que, se deixasse, lhe tolheria o seu ser de culpas porque nesse antes poderia ter havido um talvez que permitisse outro diferente depois... Recusava pensar assim, mas...como entender o que estava na génese? Como entender o cadinho propiciador da (quela) evolução?
Chora. Não um choro de lágrimas. Um outro.
As amendoeiras floriram.


As amendoeiras florescem no Carnaval.
Parecem iguais e são tão diferentes estas das outras flores dos anos anteriores.
As amendoeiras florescem.
As máscaras colocam-se e retiram-se.
As feridas saram.
A vida é este continuum de diferenças que teimamos em querer semelhantes.
Os ciclos ajudam a viver.
Mas os ciclos terão que ser reconstruidos quando se quebra a sua aparência de igualdade.
Aparência.
Realidade.
O ponto de interrogação carregado, empanturrado de comos e porquês.
A vida a fluir.
O tempo.
Os ciclos.
Amar o olhar que julgamos afundado.
mas...que olhar afinal se afundou?
É... andará cada um dos todos ou andarão todos os olhares afundados e há olhares que sobressaem, sobrenadam, diferentes, na igualdade dos olhares que jazem olhando todos os dias o mesmo de modo igual?!


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

encontro/s

Maria sentava-se de vez em quando naquele banco. Era um banco de jardim igual a tantos outros que se espalhavam há anos, tantos, pela pequena cidade. Aquele sobrara da renovação que fizera o município. Ficara como que esquecido naquele recanto. Sim que não fora decerto amor a algum romance ali passado! E, daí, quem sabe?! Quem sabe se, no plano de renovação, não teria alguém desafectado aquele, precisamente o banco que Maria costumava ocupar, por via de a esse alguém ser o banco motivo de recordar?! Quem sabe?
Maria estava sentada no banco. Mais uma vez, descera devagar a rua estreita que desaguava naquele larguinho frente ao rio. Ali como se o rio fizesse uma esquina e o banco ficasse resguardado de tudo. Ninguém o via. E dele via-se muito. Maria sabia. Sentada quase abraçando com o corpo o todo da madeira, estava mais deitada que sentada. Lânguida. Deslassada. Esticavam-se meio cruzadas as pernas recobertas de meias e descida a eito sobre elas a saia de lã comprida e rodada. O braço direito caía dependurado na parte do banco oposta ao rio. O braço todo, não. Apenas a mão e uma parte do pulso de onde balouçava uma corrente de ouro com uma cruz pendente. A cabeça de Maria estava a ser aconchegada pela mão esquerda, o cotovelo assente na leve curvatura que fazia a parte cimeira das costas do banco. A cabeleira loura levemente encanecida derramava caracóis desalinhados quase tapando a mão.
Seriam as cinco e meia duma tarde de Inverno. O rio corria sereno. Liso. Prateado? Não. Era um rosa amarelado. O sol devia andar tentando dormir ali bem perto. Um silêncio enrolado com o frio soprava nas folhas do ulmeiro espelhado no rio.
Um homem de samarra aproximou-se. Estacou. Ficou olhando. Desviou o olhar. Torneou o banco. Olhou para trás. Voltou. Cumprimentou Maria com um aceno tímido no transparente azul do olhar que a olhou. Sentou-se na ponta extrema que o corpo de Maria deixara vago no banco. Desencostado. As mãos unidas entre os joelhos muito ajustados um ao outro. Uma quase vergonha de se ali estarem sentados. Maria endireitou-se. Sussurrou um esteja à vontade; gosto deste recanto. O homem olhou-a de novo com aquela transparência de azul no olhar. Ficaram até que o sol já se dormia e a bruma do rio era só a luz que fazia no escuro da noite antecipada de um Inverno. Maria ficou a conhecer a história daquele banco.
Quando acordou, tinha frio. Ergueu a mão donde pendia a corrente. Eram as oito. Já noite. Espreguiçou-se. Sentia uma leveza boa como se alguma coisa tivesse de facto acontecido. Maria levantou-se. Olhou o banco e sem pensar disse com um tom meigo: Boa noite! Eu volto!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

o nosso mundo?!!!

Hoje sopra um vento norte frio. O sol brilha. Não chove. Nunca mais chove! Em Portugal vai haver eleições. Eleições antecipadas por via de tanta coisa e quase nada. Ontem houve eleições no Iraque com tanques estrangeiros nas ruas por razões tantas e nenhumas. No dia qualquer coisa deste mês fez anos que um campo de extermínio nazi foi descoberto pelos aliados por razões tantas e nenhumas aquilo tinha acontecido. Vocês percebem porque falamos de cada coisa destas separadamente em níveis diferentes? Sabem?! Eu suponho que a razão de ser de encontrar diferenças entre o terror, o medo, a injustiça, a farsa, a morte, a tortura, a fome, a doença...deve advir de ser muito difícil a gente, cada um de nós, aguentar com tudo no mesmo saco, na mesma data, com igual peso, ao mesmo tempo. E depois que seria da nossa vidinha certa, sisada, cumprida, cheia de devoções?! Que seria da nossa sanidade se nos pusessem em igual a injustiça, o medo, a tortura quer ela fosse de um na sua casa ou na nossa rua, ou de milhões deles ali num país ao lado ou noutra época, num passado?! Se compararmos os nazis com, para não ir mais longe, casos na Bosnia-Herzegovina ou, mais recente os torturados no Iraque em prisões guardadas por europeus...se .....não podemos?!!! porquê?! misturar tudo é nunca conseguir encontrar culpados, é dar a todo o acto o mesmo peso?! ahahahah! deixem-me rir que só com um riso louco se consegue afugentar a loucura maior, a real, que é a do que tem juízo segundo a norma! Pois vos digo eu que nada sei, mas sinto e muito, que nada de diferente existe entre a cara que eu volto para o lado perante o ....como lhe chamam mesmo?!!!...drogado e aquele que enviou multidões a morrer em Treblinka, Auschwitz...Dachau... ali nos corredores da António Maria Cardoso ou na fritadeira do Tarrafal no Sal. Não concordam?! Não se pode meter tudo no mesmo saco?! Que piada!!! O medo que nos acagaça de sair para certos bairros é diferente do medo que tinham os judeus?! é?! Então vos digo que medo é medo e ponto final e neste momento a gente anda com medo até do vizinho do lado...diferente?! ah! claro! Mais cómodo sentir diferente para a gente poder ir levando esta vidinha até que nos caia o telhado em cima! Não acreditam?! Pois então deixem que a gente vá cantando Esperança e chorando o passado e não olhe o presente e não faça nada...
e depois digam que os poetas são... premonitores...

Terá mais fome o filho do meu filho
procurando a destruição dessa pedra verde,
árvore ou lâmpada, rio de folhagem.
É fascinante a ferida embriagada.
Nos olhos anoitecem biliões de mundos:
só o homem solitário acredita nas estrelas
e quando as olha é duro como uma nogueira
ardendo no vento em fogueira de frutos.
Há no peito do Homem um cristal profundo
mas, no mais fundo do fundo, é um sino mudo
que herdou do frio a paz da borboleta.
Como criança que apedreja andorinha,
cada homem destruirá a sua pedra verde,
árvore ou lâmpada, rio de folhagem
e breve será a prata de um coração feliz.
Essa fome é maior e ao filho do meu filho
pergunto se estou morto, pergunto se estou vivo,
ele encherá talvez a boca com a fome
e sem palavras calará qualquer resposta.

Terá mais fome o filho do meu filho de Joaquim Pessoa



e, já agora...assim numa de ao acaso....
encontram diferenças
?!


More than half million Muslims were massacred,
thousands of Muslims were sent into concentration camps,
women were raped and children
were kidnapped by the Serbs during 1990s.

e há muitos sites com torturas bem actuais
que me recuso a colocar
pela dor que me causa a sua actualidade
eles podiam todos ser meus filhos, entendem?!




segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

Dildo

Nunca te arrependas de entrar numa simples brincadeira.
O Tim Bora** foi um querido, um mecinho cheio de estilo dizia ele que responder era o mais fácil, mas não havia a quem enviar e por isso...não respondeu... olha... fiquei sabendo que ele brinca sem ter brinquedo!
O meu amigo Zé Gomes*** mostrou-se bem educado, respondeu ao meu pedido mas não sabia como fazer o questionário...nem sabia onde ele andava! Deixa estar Zé a gente adivinha...tu deves ler poesia.
Mas a um não perdoo ao Badallo meu safado deste tampa às outras duas, mas a mim eu queria mesmo saber qual é o brinquedo! Deixa estar que logo pagas. ####

Mas fazer disto outro post?! Credo que mau gosto! Que nada! Sabem lá que bem me soube o coment da Riacho?!!! uma ternura! Ela colocou em post e eu não resisto a agradecer a lição que assim me deu e enviar a ela e à gente de Dildo um fortíssimo abração!



####
afinal o Badallo respondeu por e-mail aqui fica:


1 - ou é "brincadera" pegada ou não presta! os "toys" não são prá aqui
chamados...
2 - o futuro a deus pertence, já dizia a minha avó, que não usava
preservativo! mas Dildos? isso é alguma coisa que se "coma"?!
3 - atão não! estou como o outro: ou tens, ou já não te nasce...
4 - esse gajo, o "dildo", está em todas! porém, juro pela minha virgindade que
não conheço! mas não garanto que não tenha "comido": há "dildos" tão bem
disfarçados que qualquer um cai...
5 - receber?! ora essa!... eu não "recebo", expludo! (aqui nunca entrou nada,
apenas sai...)

** afinal o mecinho respondeu vejam aqui como pus no template
VÃO VER AS RESPOSTAS TOY SEX do Tim Bora JÁ!!"

*** e este tb diz que respondeu...onde?!!!!!!!!!!!rsss

domingo, 30 de janeiro de 2005

Brincadeiras inocentes

1. HAVE YOU EVER USED TOYS OR OTHER THINGS DURING SEX?
Deixem-se de merdas com brinquedos...brincadeira é aquilo tudo...na chega?!!!

2. WOULD YOU CONSIDER USING DILDOS OR OTHER SEXUAL TOYS IN THE FUTURE?
Boooom…agora brinquedos sexuais…assim… ná! ná!!! Mesmo...(oh! porra tá a dar um programa sobre Jigolôs.....ca gandas TOY’S!!)
3. WHAT IS YOUR KINKIEST FANTASY YOU HAVE YET TO REALIZE?
Outra vez?!!! Eu sei lá o que será o meu futuro...até pode ser que tenha que arranjar um brinquedo...sei lá...
4. WHO GAVE YOU THIS DILDO?
Se é um Dildo eu nem quero saber o que isso é! O que sei é que a seriedade em pessoa, aquela de quem menos esperava, vem desafir-me com esta! Tal qual! Adivinharam? Essa mesmo! A dona Lique num momento em que eu estava numa muito séria, enfia-me com este dildo que já tinha visto aqui local que é onde estas coisas tomam as devidas proporções dildescas e esta sonsa diz que não me mandou porque eu estava com gripe... mulherio...
5. WHO ARE THE ONES TO RECEIVE THIS DILDO FROM YOU?
Só homens
Ao Lobices Oh! Quim alinha lá na brincadeira, tá?!
Ao DomBadalo Manel anda lá daí da tua toca e faz esta merda aqui que eu depois passo!
Ao TimBora bora lá Tim quero saber como brincas na te negues carago senão nunca mais brinco contigo
Ei José Gomes conta lá à gente os teus toys senão não és tu que fazes o requium é a gente que te mata o blog!
Vá lá uma senhora
D.Cecília na te negues anda lá e faz a tua biografia, amiga... só a referente aos toys tá visto!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

chuva


A porta estava aberta. Desfez o gesto de tocar. Empurrou. Atravessou o átrio muito ainda a cheirar a tinta, muito espelhos de deixar ver espalhados entre a porta envidraçada de entrada e as portas amarelas dos elevadores. Os elevadores eram todos, agora eram todos assim, com um ar de quem nos quer levar a outra dimensão, engolir-nos naquela lentidão de abre porta, desliza porta e o gesto repetido depois de entrar. Fazia-o nesse instante - com a mão enluvada de verde carregava no décimo sexto. Tão alto, pensara o seu pensar que ela, ela mesmo olhava distraindo esse seu eu, olhando o espelho e fazendo esgares à boca encarnada de dentes brancos e certos, verdadeiros. Sorriu de si para a imagem. Sorrir que a traiu pois que ficou por ele dependente de si e do seu eu. Conversavam à sua revelia que ela só queria ver o batom se estava ou não esborratado, a curva suave das sobrancelhas, aquele cair torcido da camisola verde por debaixo do ponche de muitas cores e, apesar de não reflectida, a saia comprida cor de palha de uma lã fininha muito quente quase a rasar a pontas das botas castanhas rasas. Mas ficou a olhar para isto tudo enquanto o seu pensar desfilava a tramá-la com perguntas e recordações. A luz piscou no 14º. Era engano. Por ele, levou os dois últimos andares a fazer mesmo o que queria e dava jeito - arrumou os óculos no estojo de metal, meteu-os na carteira onde ajeitou o emaranhado de papéis que para lá jogara antes de sair de casa enquanto anunciava para alguém que estaria decerto ainda a ouvir, não janto! vou ao teatro e a casa da Beatriz. Respondera-lhe um silêncio. Parou o elevador. O ritual das portas e ei-la lesta atravessando uma nave iluminada e oca de gente. E, mais uma vez, a luva premindo uma campainha ao lado de uma porta branca e dourada como o botão e encimada por 16º F em algarismos escavados no mármore branco.
Abriu-se a porta. Um salão, muito bem decorado, vazio de gente. Ninguém. Acordes de violino atravessavam as paredes. Uns sapatos de silêncio azuis atravessaram a parte de soalho e desapareceram. Ficou um ligeiro ar de lugar comum no salão.
Sentou-se no sofá vermelho. Ficou olhando o rio lá longe. Cheirava a coisas doces. Cachimbo?! Recostou-se. A nuca sentiu o fresco do alinhado do tecido. Fazia um sol escondido sobe nuvens cinza que corriam para sul.
Ouviu o nome que reconhecia chamar-se. Ergueu-se debaixo da saia e do poncho. Dependurou pelo pescoço a mala num tiracolo a desfazer-se. Os sapatos de silêncio indicavam-lhe o caminho. E agora voltara o pensamento a querer dizer de si e ela que estivera esta meia hora apenas a ser ela sem pensamento e dirigindo o sentir para aquele rio e aquele fim de tarde que anunciava finalmente chuva. Pensava na Beatriz que a esperava com os bilhetes para comemorar ou comemorar, tinha dito. A sala era pequena e a luz coada pelo cortinado duplo de tecido azul-escuro. Sentiu o arrepio do costume fender-lhe ao mesmo tempo os dois pulsos. Sorriu ao moço sentado na secretária. Lindo rapaz, pensou. Podia ser meu filho. A mão dele engoliu-lhe a luva e ela sentiu que ia ser engolida por alguma outra coisa. Sentou-se. Mandou calar com fúria o pensamento que lhe obedeceu como quase sempre. Jogou de leve a saca para o tapete. Recostou-se. Encarou-o com um olhar que sabia firme. Ele sorriu-lhe. Muito, mas muito longe daquela sala, chegou-lhe um som. Tão longe estava a voz que era daquela pessoa ali sentada em sua frente sorrindo e mexendo os lábios e ela ouvindo a voz e, mais estranho, a voz chegava-lhe apenas fazendo ouvir num repetindo: negativo.
O pensamento não lhe obedeceu. Nada lhe obedeceu. Ela tropeçou na saia, no ponche, nos sofás, no tapete e ficou agarrada ao moço num abraço tão sem jeito que só mesmo ele estando também contente porque a deixou chorar desmanchada em soluços e risos e tolices que parecia que algo de errado acontecera. E tudo fora do ela ter ouvido aquele acorde vindo de um confim de sabia lá de onde – negativo.
...................
Na rua reparou num guarda chuva grande todo repleto de gotinhas e sorriu do pensamento que antes prendera, lhe segredar agora em tom gozado – são as tuas lágrimas de alegria a passear... caíram de lá do 16º andar!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

risco

um risco preto
arranhado
rasgado na folha
a vida
esventrada pelo risco
os rubros fétidos molengos
espraiando do risco
um risco fino
imperceptível forte
um traço de estilete...
pronto acabou-se

esvaziar o centro
abater o cenário
despedaçar os fatos
derreter as correntes
entrar nos bastidores
abraçar de vez a costureira
o electricista
o moço de recados
comer no vão da escada
rasgar o camarim
esborratar as tintas
queimar perucas e saiotes
subir aos escadotes
abraçar o rapaz das cortinas
cantar de sala vazia
olhar nos olhos
uns olhos na coxia...
sorrir-lhe
sair prá rua
em passos curtos
anichada nas paredes
sentir
no corpo e em tudo o resto
a chuva o sol a lua
a vida
para lá do risco...

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

palavras doutrem

As minhas palavras fizeram hoje um novelo
estão ali acocoradas
Apertadas em si
recusam-se
obstinam-se em ficar sem mim
Compreendo-as
as palavras.... que julgo minhas
rezam como eu....oram a um deus qualquer
pensam nestas Mulheres e em outros muitos
preferem oferecer-lhes um toque de mãos
doando Esperança nas palavras de outro!

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Amostra sem valor de António Gedeão

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

tempo/s


Tremia-lhe uma voz de espanto. Ou a voz seria, antes, um abafado choro?! Ou seria grito há muito calado?! De onde vinha aquele ruído de silêncio?! De onde aquelas cores espalhadas em seus olhos?!
Olhei as mãos nos ombros dele. As mãos não tocavam. As mãos espantavam-se e gritavam e choravam. As mãos num silêncio tão grande como os olhos. As mãos mais pedindo que dando ou pedindo e doando tal era o espanto!
Olhei-lhe os braços deslizados no corpo. Os braços afagando o peito dele. Os braços desnudados transparentes emanando luz de um de dentro. Os braços adormecidos em gesto que nem era abraço, nem afago, nem sequer um apoio, um encosto.
No silêncio recoberto de cores e luz, dois corpos. De dentro do silêncio esboroou um tremor.
Olhei os dois. Olhei os corpos deitados. Inerte ele. Tremor seria dela.
Olhei de ver. Cerradas, as mãos, antes abertas, eram dois punhos. Dois punhos de veias muito de azul sovando o peito dele. Dois punhos batendo. Tremia o corpo dela. A boca do grito calado que soara antes, abria e fechava. Os olhos que emanavam, há instantes, o que me parecia cor, abriam-se em espasmos e deles desciam transparências acumuladas em bagas. Os punhos socavam. Os braços, antes iluminados, eram, agora via, dois nervos tensos.
Saí de mansinho. Deixei de olhar. Continuei a ver.

Era um silêncio de antanho. Eram nunca ditos. Eram nunca chorados. Era a perda do nunca doado. Era a dádiva do não recebido. Era o grito calado de muito passado. Era o tremor/temor de já não haver tempo. Era silêncio do silêncio. Não eram lágrimas eram restos de não sonhados.


Afastei-me.
Na rua trovejava. Caía chuva.
A Natureza chorava e tremia em tempo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Sala de espera

Estavam todas sentadas. Cadeiras em quadrado. Uma escapava a esta geometria. Uma estava encostada num recanto que deixava uma viga mal planeada. Eram mais de vinte. Trinta cadeiras em quadrado e uma delas escondida por detrás de uma viga. Todas as cadeiras ocupadas. Digo com isto que em cada cadeira estava sentada uma pessoa. Em todas não. Naquela desviada do quadrado que as outras faziam em redor da parede com umas quatro portas de permeio, nessa, estavam sentadas três pessoas. Três pessoas na mesma cadeira: aquela que estava desviada desalinhando o quadrado. As cadeiras com as pessoas sentadas estavam numa sala onde haviam quatro entradas e uma entrada e saída. Explico com mais preciso entendimento para quem não viu. A sala tinha uma porta de vidros que badalava para cá e para lá deixando entrar e sair. A sala tinha mais três portas de madeira pintada de amarelo com dedadas pretas na zona de alto abaixo de onde se fechavam. Essas três portas estavam fechadas. Eram portas de entrada. Há cerca de duas horas cada uma das trinta pessoas sentadas tinha visto abrir em intervalos de meia hora uma pessoa em cada uma das portas. Eram, assim, três portas de entrada do ponto de vista, sempre relativo, de cada uma das pessoas que estavam sentadas. Disse trinta. Eram trinta e duas. Numa das cadeiras estavam três pessoas na mesma cadeira. Assim eram trinta e duas pessoas sentadas em trinta cadeiras em volta de uma sala que tinha quatro portas. Uma porta de vidros que desde que elas estavam havia três horas ali sentadas tinha ficado, como as outras três, fechada. Por essa porta entrava a luz do dia. Uma luz coada que dito assim pode parecer poético. Não. A luz coada era-o pelo sujo dos vidros e mais era também pelo facto de haver em frente um muro alto. Por via de estar a sala assim iluminada pela luz do dia, tinha no tecto acesas duas lâmpadas grandes que produziam aquilo a que se chama uma luz crua. Na sala em que estavam aquelas pessoas havia outra coisa evidente para quem, saindo ou entrando, aparecesse. A sala estava ocupada por trinta cadeiras com trinta e duas pessoas e ainda ocupava-a em todos os recantos e mesmo nas paredes e mais ainda em cima do rosto de cada uma das trinta e duas pessoas, alguma coisa que não se via, mas estava, vos garanto, por todo o lado. Na sala havia silêncio. A cadeira atrás da viga que distorcia o quadrado da sala por lapso ou por plano concebido a preceito, tinha, como disse, sentadas três pessoas. Uma estava realmente com o corpo encostado na cadeira. Essa estava sentada na cadeira. Outra estava no colo tão encolhida que mais parecia ser parte integrante da sentada. A terceira pessoa daquela cadeira ocupava dela apenas um recanto. Estava meio encostada. Notavam-se duas pernas esticadas de um corpo que não teria ainda mais do que seis anos de saber o que era estar sentada ou encostada. Então, na sala, havia, mais precisamente, trinta adultos e duas crianças. Estavam todas sentadas ou ao colo, ou encostadas, há mais de duas horas. E estavam nesse tempo cobertos de um quase visível silêncio. Como já disse, o silêncio ocupava tudo e todos na sala.
A cara de alguns mostrava que eram gente grande e gente velha e gente jovem e gente vestida de gastas roupas e gente alguma com falta de dentes e gente com mãos de unhas roídas ou enegrecidas. Eram então pessoas de idades diversas e desapossadas de teres. Uma ou outra das pessoas tinha na mão um lenço, um papel escrito amarrotado, uma mão que tremia, um jeito de quem dói a posição de estar sentado. Havia uma com uma perna enorme avermelhada na canela. A pessoa que tinha a criança no colo, era mulher e nova e linda. Essa mulher, de quando em vez, quebrava baixinho aquele silêncio. Sussurrava ao ouvido do menino seu filho encostado que estivesse quietinho que o senhor doutor já vinha. De quando em vez era o silêncio quebrado por um espirro ou uma tosse, ambos recolhidos pela mão frente ao rosto quase a medo.
Nesta sala de repente ficaram vazias a maioria das cadeiras e uma fila de pessoas que estavam sentadas movia-se falando numa cadência que diria que cantavam dizendo não há direito não se admite. A mulher do canto segurou a mão do corpo que deixou de estar encostado. Na outra mão agarrou um saco e encostou ao seu o corpo que tinha ao colo. Olhou em frente. Os olhos grandes lindos. Levantou-se. O silêncio estalou como um estrondo. Duas pessoas tombaram numa só naquela zona da sala quadrada em que a viga escondia a cadeira em que estavam três pessoas.

PAZ



Alegria de viver! que Alegria a Vida!

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

desejo hoje


nem forma nem movimento nem fala nem riso nem choro nem passo nem abraço nem beijo nem fome nem sede nem vivas nem lamúria nem busca nem indecisão nem aventura nem ficar nem partir nem forma nem dimensão nem ar nem água nem heresia nem deus nem ideologia nem crer nem desistir nem ódio nem passado nem presente nem futuro nem corpo nem alma nem lei nem juiz nem sim nem não nem porta fechada nem portão escancarado nem rio nem cascata nem sol poente nem lua cheia nem precipício nem prado nem duna nem ceara nem sueste nem nortada nem brisa nem ar nem vela nem escuridão nem pão nem farelo nem vinho nem sobriedade nem música nem sirene...
nem o resto que lembro mas não escrevo por mor do que comanda tudo e chamamos tempo....
Hoje apenas
Alegria Esperança Paz Amor em Silêncio!

(Hoje no dia do meu comemorar do passar do tempo)

Criança de Rembrandt

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

hoje fizeste anos Mãe



Tantos anos minha mãe!
Ai tantas Primaveras
Tantos Invernos e Verões!
Tantas tantas quimeras
Tantas desilusões!
Tantos dias labutando
Tantas noites de aflição!
Sempre sempre trabalhando
Para os filhos terem pão!
Tantos Invernos tão frios!
E Verões tão escaldantes!

Ai minha mãe tantos anos
De alegrias e ternuras
Misturando desenganos!

Quando tive entendimento
Comecei a conhecer-te!

Oh! minha mãe, minha mãe!
Como posso eu esquecer-te?!



Escrito pela minha mãe em 2/7/89


sábado, 8 de janeiro de 2005

Perdoem

Não sei nada. Nada do que sei interessa a ninguém. Sinto. Também não sei se o que sinto interessa a alguém. Não que queira, mas que devia (a mim mesma, claro!) uma reflexão, uma que fosse, sobre o nosso momento. Abro os jornais. Leio. Folheio. Fico pensando. Um desencanto cai-me ali e esborrata as letras. Tiro os óculos. Limpo-os distraída. Penso: “não, este desfocado, não é do sujo das lentes; tampouco de estarem desajustadas a esta vista cansada”. Apoio o queixo na palma da mão. Que raio se anda a passar?! Andarei eu confundida ou...deve ser! Eu ando sempre out, ando sempre a leste! Mas... a cada página deste jornal de sábado, encontro coisas confusas para a minha mente! Não! Necessariamente eu não tenho qualquer jeito para comentadora! Tá visto! Não vale a pena o esforço que estou fazendo.
A Ministra da Educação de que nem sei o nome (vergonha? Eu?! Porquê?! Esqueço-me, pronto!) mas...essa dama teve a desfaçatez de dizer o que disse?! E ainda teve defesa de um qualquer ministro?! Preciso foi o senhor açoriano do alto do seu magistério de segunda figura deste ex- império, tentar colocar alguma ponta de verniz naquela pouca vergonha. Sim porque as intervenções dos senhores da bancada deixaram também muito a desejar! Oh! Zé Magalhães! Oh! Homem, tem lá respeito pelos cabeleireiros que aí a gente lê a Holla ou lá que é e outras revistas cor-de-rosa, mas não telefona a dizer que não vai porque elas não merecem ou apenas porque não apetece. A gente arranja uma desculpa simpática nem que seja a proverbial dor de cabeça ou uma marcação para tratar dos dentes que esqueceu! Sinceramente, aquela outra do acidente e incidente vinda do lado mais à esquerda da bancada daquele rapaz com um ar sempre bem-educado...oh! Louçã! Depois do que disse a dama, na valia, digo eu que nada sei, na seria mais do jeito dessa ala, contribuir para deixar o resto louça partida em vez de pores a dar lição de vocabulário?!
Este país está de gatas, dizem alguns (muitos?!!!!) Mas atão na havia de estar?! Atão agora os senhores da banca ou empresários o diabo que os carregue e os (ai meu deus!!!) sindicatos fazem concertações assim em jeito de um beberete e os trabalhadores deste país que dão o coirão, nem sequer são convidados nem tidos nem chorados.

Podia eu dizer mais, mas como vejo e já sabia, na tenho veia para coisas de política. Mas enerva-me. Irrita-me. Fico encolhida na cadeira cheia de vergonha, até coro e sinto arrepios, como no circo ou no balet em pequenina (e ainda agora) quando os artistas davam um passo fora do tom. Isto quer esteja sentada em frente do pequeno ecrã ou na posição horizontal a ler um jornal...coro até à raiz dos cabelos!
Depois não percebi ainda, mas isto desde há muito tempo, porque raios querem os partidos (que nome haviam de ter estes conjuntos! E como assenta ele bem, neste momento, aos que cá temos!) dizia eu, para quê essa postura de fazer coligações?! E o nosso presidente (devia ter escrito com letra grande?! Na me apetece!) depois dos acontecimentos de um passado recente que remonta aí ao despontar da Primavera, entrou em delírios trémulos talvez seja por razões religiosas, a anuir com esta das coligações! Oh! Jorginho que a ti nunca em sítio de acaso te conheci, nem à tua Zézinha, mas custa-me! Que me parecias um rapaz atinado e andas assim a modos que uma ventoinha – roda-te a cabeça para todo o lado. E anda o teu mano, coitado, a escrever que se farta aqueles livritos e artigos de revista a defender a moçada e os professores e a escola e tu, homem, tira uma noite, uma semana, e vai jantar e ouvir-lhe uns conselhos! Não que eu partilhe de tudo o que ele diz, mas antes isso que andar assim de tensão baixa a tentar compor o puzzle em que está tornado este país!
Felizmente, ( pra mim, tá-se vendo!...) nestas eleições de parto prematuro, não nas há por razões se calhar obscuras...sei lá... Mas explico a minha: se cada partido defende uma linha de pensamento, uma ideologia (não?!!!!!!!!) e uma forma diferente de conduzir os destinos da nação (não?!!!!!!!) porque não vai cada um por si ver o que os votantes desejam e depois de contados quantos e quais tem mais riscos nos papelinhos (agora é no computador?!!! é?!!!) todos juntos serão a representação de quem votou, repito, de quem votou! De outro modo, uns destes dias estamos naquela negra fase que tão bem conheci de partido único (havia algum?!!!).
Entretanto...digo? na digo? Vá! Digo!... que este tipo de escrita na me dá, felizmente, todos os dias!
Dizia, eu, que entretanto a Mãe Natureza respirou forte e matou uma data de gente! Parece cru?! Não é! Um destes dias, pode acontecer o mesmo aqui à gente! Mas, respirando de um natural que a Terra tem de fazer, alagou países inteiros e deixou, vivas, sem abrigo, sem pão e sem família, muita, um ror de gente! Aqui d’el rei que a nossa TV nos dias primeiros apenas via que europeu podia, das suas ricas férias ter ido na cheia prás alminhas! Depois, lá acalmou, mas como eu me espanto de ver a dor estampada na cara das gentes (com razão pêra lá na façam confusão que eu inda sei o que estou a dizer!) anunciando, anunciando quantos mortos e as idades e mais ao pormenor não é que não há assim condições logísticas para fazer daquilo um furo jornalístico. E deram até em tentar encontrar alguém que sabia e não avisou que a onda gigante vinha lá!
E, pergunta a minha santa ingenuidade, quando não é a Terra que respira, quando o “fenómeno” que mata tanta gente todos os dias é devido a causas não da Natureza, mas antropogénicas (!) e as responsabilidades estão bem definidas em homens a que podemos apontar o dedo?! Ah! Aí a coisa tem uma dimensão cumulativa...é coisa costumeira de dia a dia... e por tal não é assim uma tragédia!!! Pois!... eu bem disse desde o princípio que não sei nada! Sinto! Mas e as guerras?! E os soldados e as populações não são mães, pais e filhos mortos?!!! E as cidades e aldeias destruídas e a fome?!!! São quê?!!! Ah! Acontecem todos os dias...a gente esquece?!!!
Pois... olha eu cá por mim até diria que se estas coisas do dia a dia não acontecessem, talvez, melhor, quase de certeza, que teria à tecnologia e à ciência sido permitido ter orçamento por aí pelos diversos continentes, para que os respirares da Terra fossem mais previstos e, sobretudo, tivessem aquelas gentes modos diferentes de casa para viver e os ressorts (que bonitos estes nomes! que eu também já estive neles, calma eu sou um deles tenho tanta culpa como toda a gente!) não estivessem entrados pelo mar fora como se fosse pecado deixar os areais parecerem um bocado com isso que já foram um regalo para os sentidos!
Misturei tudo! Pois bem! que seja!
Mas ainda digo mais: adorei ver na TV aquela festa de caridade (não?!!!) em que foi lá um senhor banqueiro muito humildemente fazer um donativo e ganhar palmas! Foi um gesto bonito quase que me vieram as lágrimas aos olhos! bondade pura apenas com a TV por mero acaso a buscar pressurosa mais um furo!
Assim, por mim sentida, vai a vida neste mundinho. A Terra respirando e a gente julgando que dura eternamente e pode a seu bel-prazer e fazer da Natureza, da Vida e dos Homens o que bem entende.
Esquecendo-se que o mais importante não é visível aos olhos! Ou será?!....

de onde?!! de quando?!!! estas imagens?!!!!!!!!!!!



leiam AQUI o post de 5.1.05 O mar enrola na areia

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

...às mãos


As mãos no colo.
As mãos debruçadas na janela.
As mãos labutando
Mãos suadas

Mãos afagando um rosto.
percorrendo as linhas
todos os recantos .
As mãos descendo tontas
rolando nos redondos
roçando agudos bicos.
As mãos entrelaçando outras.
Evolam dedos
peças soltas pesquisando corpo
desenham letras em cada interstício
desdobrados afagam nervuras
Enrola-se um fio de seda entre dois dedos
Desvelos de mãos
os dedos.
Um dedo vertical na boca
silêncio enrolado.
Quatro dedos debruçados
afastado um
Sobre o rosto
descanso...atenção...espanto.
Assentes na zona média do corpo
provocação.
Passeiam os dedos num afago
o cabelo da criança, o pelo do cão
presos por um fio ao coração.
As mãos juntas
verticais
pertinho do rosto
quase o tocam
oram
pedem a um deus ou louvam.
Abrindo aquele vertical em leque
fechando logo em união e força
aplaudem.
Aquela mão dobrada
dedo que não pertence à mão
descomandado
em riste num gatilho.
dedo malvado.
Dedos dobrados
todos juntos apertados
um punho dizem
gritando esperanças
lutas
porvires desejados
sovam se descontrolados...
As mãos percorrem interiores profundos
enrodilham-se lestas precisas sábias
em torno do ser que se avizinha.
As mãos lindas do corpo.
As mãos viradas
palmas das mãos
pedindo dando
Palmas de linhas mágicas
a vida toda ali adivinhada.
Brancas as palmas
em qualquer raça
imaculadas.


Mãos de ódio e amor
As nossas pobres mãos Senhor.


imagem :The hand of God - Rodin

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

segredo

Um olhar redondo. Letras pretas sobre a cal de um muro.
Dancei nua à luz da lua.
Alguém tinha dançado iluminada pela lua. Alguém tinha dançado nu. Uma mulher. Um olhar redondo no desenhado a preto sobre branco de cal. Dançou por amor, por loucura, por gostar da lua, por gostar de andar nua. O escrito sobre o branco – um acontecido ou um desejo. A frase de redondo olhado. Dançava a luz da lua no correr de nuvens. Sombras inclinavam agudos sobre o redondo da frase. Sentei-me. Encostada à parede por baixo do redondo da frase. Adormeci.
Dancei numa nuvem solta de um céu de duas luas. Cada lua em uma das mãos. As luas estavam negras. Em cada mão uma bola enorme fria. A lua morrera depois do dançar da mulher nua. Não havia luz da lua. Estranhei as duas luas. Não se pode estranhar dormindo.Acordei.
A lua brilhava alta. Muito redonda. Muito lua cheia. Por detrás do muro uma mulher surgiu dançando. Vestida de um longo e negro cabelo esvoaçante. Passou tão rente a mim que senti o cheiro a alfazema. Poisou as duas mãos por de cima da minha cabeça. Apoiada no branco, apagou uma a uma cada letra. Desapareceu dançando.
Olhei para cima. O muro todo branco. Dancei num passo tonto. Uma a uma retirei roupa. Fiquei nua. Dançava à luz da lua. Dançava por amor, por loucura, por gostar da lua, por gostar de andar nua.
Escrevi no muro a vermelho de um sangue que me escorreu: dancei nua à luz da lua. A frase cresceu. A frase pintou o muro de vermelho. O muro branco. O muro agora cor de sangue escondia um segredo. Eu dancei nua à luz da lua.

domingo, 2 de janeiro de 2005

Devagar

Os cavalos suados galgaram os prados
estacaram na beira do riacho
Inclinaram as crinas
a água fresca roçou-lhes as beiças
Beberam na corrente lenta da água

imagens ondulando
sósias ou clones

ou outros cavalos bebendo o céu
outros cavalos bebendo ...


As árvores agitavam ao sabor da brisa
Duas folhas verdes caíram

escorregaram na ida do riacho
Um cavalo abanou a crina

relinchou mostrando a dentuça alva
Uma fiada elegante de bolas castanhas

soltando-se do cavalo pardo
a cauda inconsciente formando um arco
Outros abanavam, vagarosos, cabeças esguias

torneavam...saciados

A luz do sol fazia uma renda no saibro

luz tecida nas folhagens dos arbustos

Do lado de lá do riacho um girassol

inclinado a poente...semicerrava
Um girassol solitário adormecendo
Um girassol observando o festim dos cavalos.


adaptado de anterior publicação em livro branco

sábado, 1 de janeiro de 2005

POEMA DA MINHA VIDA

Há um ano que as
nos chegam do SETE MARES
Um grande abraço de PARABÉNS com um poema da minha vida


ENIVREZ-VOUS*
Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: «Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise!

*Cette oeuvre a été publiée pour la première fois en 1856. Il s'agit donc là d'un des premiers poèmes en prose composés par Baudelaire.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

de 2004 para 2005


...entrada em grande!!!!!!!!!
e um grande e Feliz ANO!!!!!!!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

para ti....


se apenas desejo o bem de ti
se apenas e tão só para ti
para ti apenas
meus pensamentos, meus desejos, meus votos
desejar a mim, aos outros...
afinal tudo, tudo mesmo, o que desejo
concentra-se em ti somente
para ti desejo e faço votos
para ti
a Paz
a Serenidade
as mãos dadas de Amor
os pés pisando firmes
alcançando horizontes
largos horizontes
para ti o desejo, a vontade
o sorriso de te veres e gostares
em ti concentro
o que desejo para toda a gente
pra mim eu só desejo o que pra ti espero
um ano de ternura, de encontros
um ano de te encontrares
serei feliz e o ano será um ano bom
se tudo o que desejas e precisas
nas tuas mãos guardares

(que me desculpem todos! tudo o que vos desejo...desejo eu a ele)





quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

fragilidades

O dia de Natal... mais um vinte e cinco depois de mais uma Consoada...apenas mais uma mais nada?!
Os olhos estendem-se para além do que está e...não vislumbram...nada mais que o que existe – visível e penumbra. Uma densa névoa tolda tudo o que tento olhar para além daquilo que vejo, se é, sequer, que realmente é o que vejo aquilo que realmente lá está. A penumbra adensa-se em negrume se olho outro. Se tento vê-lo além daquilo que de imagem percebo, fica-me assim mais nada que um eu. Isso! É como se me visse apenas rodeada de espelhos e neles apenas vejo, mais ou menos fosca, sempre alterada, a minha, a minha só, a minha imagem. E, mesmo assim, quando me apercebo que sou eu apenas que me vejo reflectida, e tento perceber, então o que me vejo eu em mim para tanto me sobrepor ao eu do outro que desse modo desvejo. Fico inerte. Soçobro numa visão de imagem parada como se o meu eu reflectido em todos, em cada um dos que, assim, nem olho, se esfumasse para um fundo e deixasse aquela imagem desfocada que nem sou eu nem é mais nada. Fico, como imaginam, sozinha. Nem me alcanço a mim nem estou com eles. E rio e choro e palavreio, mas no fundo de mim sobra um vazio. Como se quisesse dar-lhes a mão e escorregasse cada um dos dedos em cada um dos deles esticados, ansiosos de dar e receber, eu e eles...e sós...a escorregar para um fundo de nada. E sei que sou eu que me meto no meio. Sinto que sou eu que rodeada dos meus espelhos, incapaz de quebrar cada um deles, me afasto e fico apenas vendo a sombra daquilo que cada um é e os deixo, a eles também, de mim sozinhos. Posso acordar de mil e uma madrugadas. Posso dormir de mil e muitos sonos descansados. Mal me coloco de frente a cada um, fico longe, distante anos – luz como se os elos da cadeia ali em mim estivessem quebrados por um qualquer ácido ou ferramenta de corte que deixou um elo muito, muito fraco e de cada lado eu e todos, todos eles. Posso acordar e ficar pensando. Posso ficar madrugada adentro matutando. Posso sacudir milhões de vezes o corpo em sentidos e sinceros soluços. Posso receber mil sorrisos e sorrir de volta. Posso escrever e ler e passear. Posso isso e muita outra coisa. O que não consigo, aquilo que me está vedado, é algo de profundo, algo de congénito ou adquirido por um qualquer instante acontecido que por mais que pense não deslindo e fico assim sem nada de mim e sem nada realmente de cada um. Parece-me, por vezes, que é amor aquilo que não sinto. Parece-me, outras tantas vezes, muitas, que há em mim uma incapacidade de dádiva. Parece-me que me ficou faltando em alguma parte do meu crescimento, aquele bocadinho de ser amada que daria assim como que uma semente que, germinando, me daria agora a capacidade de não andar pedindo, pedindo e fingindo, quase me convencendo, que o que ando a fazer é dar quando ando apenas implorando aquele pedacinho que me não foi dado.
Sou muito grande, velha quase. Sobra-me pouco tempo para tal façanha. Mas tenho vontade de fazê-lo. Libertar-me de mim. Olhar os outros sem me ver a mim. Deixá-los partir sem lhes criar peias e, ficando comigo, conseguir olhar-me como sou e deixar de andar a pedir o tal bocadinho que não germinou, mas que posso adquirir cá num fundo de mim que recria as coisas. Em mim a solução e não o problema?! Muitos o dizem de si, leio por aí. Não sei se alcancei a dimensão plena deste saber que a frase encerra.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

UM ANO ...TANTO?!!!

Porque o Porquinho-da-Índia...o Bertus...Francis Bacon também dito... hoje, mesmo hoje, fez a proeza de atingir um ano – DOZE MESES! - a manter activo, escorreito, pleno de novidades comentadas da nossa praça sempre muito propositadas, o seu TOPOCILGAS!

Aqui deixo a minha homenagem ao bicharoco que, apesar de nunca me dizer nada, nunca sequer uma vez me comentar uma palavra, eu prezo muito tudo o que leio no seu canto!
Gostava que ele me ligasse assim um pouco! Tenho pena, porque aprendo muito com as suas delicadas e sábias conversas, posso assim dizer, que observo, sem que consiga deter uma réstia de inveja de para mim não serem, com os diversos leitores e leitoras (muitas e boas!) que passam pelos comentários e a quem ele responde, uma, duas, três, no mesmo post, as vezes que cada um precise de lá deixar um dito, um pedido, um desabafo.
O Porquinho preza o comentário...escreve postes e acaba-os no verso da folha...
Sérios. Sisados. Eu leio e fico extasiada com a precisão com que ele responde a cada um dos comentários. Com graça e ferroada, plenos de delicadeza e sempre, disso tenho eu a certeza, com total verdade.
Ele diz coisas que se fossem faladas, levadas à cena num Teatro, davam rios de dinheiro em bilheteira.
Outra faceta do Porquito, assim algumas lhe chamam carinhosas, é ser, apesar de podre de rico, um esbanja mãos, um caridoso. Ele até traz prendas para alguns!
E...outra coisa que eu acho que deve ficar registada neste dia de aniversário:
O Bertus Francis Bacon detesta que o chamem de Porco! Tem essa pecha, esse único defeito! terá ficado de linhagem, de ser da Índia de uma alta casta...
Isto...digo eu que leio tudo o que ele até hoje escreveu! O que é fácil porque, ele, quer no post , mas sobretudo nos comentários, nunca escreve mais que uma linha duas, no máximo três!
Parcimonioso no gasto de bits, creio.
Muito mais teria eu a dizer, não fora urgente colocar a carta, esta, no posteiro a tempo de lhe dar os meus calorosos PARABÉNS!
E pedir-lhe que me leia, me faça a fineza, a caridade de responder aos meus pedidos...se ele há uma tal Seila que junto com uma Nia não largam o pobre do bicho todo o dia, e ele responde aqui ali e acolá!... posso rogar que me faça um pedacinho só o mesmo que eu até nem escrevo muito...lê-se bem!

Para que melhor o conheçam, fui buscar algumas fotos que roubei num assalto - ele não sabe, claro!- que fiz a sua casa um destes dias!
São fotos dele (descubram!) e de membros da família!







domingo, 26 de dezembro de 2004

Vida...


Isto não anda nada fácil. Mas para que nos havemos de queixar?! A Vida é isto mesmo! Assim um fogacho. Um niquinho de tempo que passa num instante. Ainda ontem era o tempo de prever e já estamos no hoje e logo a seguir no “olhem que...lembras-te?!” E pronto!... lá se foi o presente e o futuro e fica um grande passado que, bem olhado, e nem preciso é olhar assim tanto, é afinal um pedacito de tempo. E quando nos começam a bater na porta aquelas ditas desgraças que podem até não ser as desgraças mesmo aquelas, mas são as nossas!...então a gente observa...realmente!... que andamos nós a fazer do tempo?!
Olha que raio de conversa me vai esta arranjar logo, mas mesmo logo, logo depois...melhor!...ainda no dia da festa! Bem podia esperar que passasse o dia de Natal para vir para aqui com estas lamechas de dizer do tempo! Olha que realmente! Já nem uma pessoa pode viver sossegada a época das broas e do bolo rei e das rabanadas...que vem alguém, armada em sofredora, lembrar o tempo aí a vir e que temos a certeza, ai, temos! vai ser um tempo de coisas boas! que esse ... já passou! Bolas! ele há gente!!
Pronto!... eu, por mim, aquilo que digo, e nem é lamento...apenas constato! é que a coisa de viver anda assim um tanto xoxa! um bocado má!
Agora, além dos mortos na estrada, da crise na política e, por tabela, nas nossas bolsas, aparecem à porta de cada um, desprevenido, claro está!...doenças! e, porra! nem podiam ser assim umas gripes, umas dores de dentes derivado aos doces, um torcicolo por espetar tanto o pescoço a ver as montras ou, para quem ainda acredita, a olhar se o Pai Natal sempre descia do cimo, lá de dentro, da chaminé! Não!...agora!... isso... essas doenças de rápida cura...foi chão que já deu uvas! Quando se dá por ela, o que nos bate à porta é doença da grossa. Enfarte. Cancro disto e daquilo. E pode até sair na rifa assim uma sida desirmanada. Isto para nem falar das doenças da moda. As do foro psiquiátrico. Que bem que soa, não?!
Não estou a brincar!! Parece?! Pois creiam que, a ser assim, eu devo ter jeito para dizer o sofrido com ar de chalaça. Mas, olhem que a coisa anda assim borrada aqui pelos meus lados. Na minha casa, na do vizinho, num amigo, num outro mais distante no espaço, que não no coração. E já nem consigo falar da velhice que entra pela casa adentro pejada de sinais de esquecimentos e desordens que, não fora a gente ter alguma ponta de riso, mesmo que de pouco siso, seria o laço para atar o ramo daquilo a que simplesmente poderia apelidar de “ai! que desgraça!” Apenas eu entendo que a Vida é alegria de mistura com muita tristeza e muito desconsolo.
Pois... eu entendo!...não será a melhor forma de terminar o ano! Eu sei! Compreendo! Mas que querem?! A gente não comanda nada! Pensavam?! Não acredito que pensem tal! Eu, por mim, há já bastante que entendo que devemos estar preparados para tudo! Tudinho! Há uns natais atrás, a coisa andava mesmo colada aqui a mim. Mesmo debaixo do meu telhado. Lá foi passando. Mas...digo-vos! Nunca mais nada é visto, sentido, pensado, do mesmo...nem sei eu qual!... assim...do mesmo modo que...já esqueci qual!...que era antes! Agora...foi bater a outra porta e deixa-me aqui um peso do caraças! mais do que isso! um engasgamento entalado na garganta.
Se eu rezasse...mas só sei fazer andares pelo pôr do sol ou ficar muito quietinha a olhar o mar!... será isso alguma outra diferente forma de rezar?! Se for...eu rezo, então!...aos deuses...a todos as entidades! Rezo à Vida que faça a graça de dar a perceber que ela, ela mesmo, é da Morte entrelaçada! Desta, e daquilo a que nos habituamos a sacudir da Vida com tanta força e afinal não passa apenas de sinais com que ela nos espicaça a ver como nos comportamos ...se é grande e segura e firme a Esperança! Em quê?! Nela!...na Vida! Curta, escorregando lesta, pregando partidas a cada momento, mostrando a outra face, aquela que a gente sempre esquece...mas...uma curtida esta Vida! Demais! Foliona! Divertida! Adora brincar com a gente e avisar-nos que, sendo o nosso maior bem, esconde-se a um dado momento, faz negaças, vai-se mesmo...e a gente tem mais é que perceber que é ela, essa divina deusa, fazendo os seus rituais. Apenas isso! Mas, vá lá dizer a gente isto assim a quem está em maus lençóis!
Por mim, e olhem que sei bastante do que estou a falar, entendo que atrás de um dia outro virá e vou tentando levar a água ao meu moinho!...se possível, e caso queiram, distribuo também por outros.
Isto não anda nada fácil! Isto anda mau! E eu peço que me desculpem este modo assim do meu falar!
Àqueles, concretos, em que neste momento penso, a minha, a tal...da forma que sei...oração!
_______________________________________________

E o boneco assim a modos que o Pinóquio foi o mote.
É brincando que tento levar a coisa da Vida, da Morte e do Sofrimento.
Mas não pensem que tenho arte...tento!!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

uma visita

Se eu soubesse onde mora a solidão ia lá um destes dias. Batia-lhe à porta de mansinho e convidava-me a entrar. Deve ser mulher de meia idade bem vivida. Foi até rica, com marido e dois divórcios antes deste último ter falecido de enfarte. Pois, dizia, aparecia-lhe assim de repente e sentadas as duas frente a frente com um copo de sumo de maracujá e um pratinho de biscoitos de manteiga, eu havia de com ela conversar. Perguntar-lhe-ía de onde aparecia assim nas gentes sem avisar. Porque se dava em sentir mais pesadamente em alturas festivas. Porque se coadunava tão bem, andando quase abraçada, com gente da alta roda e malta da pesada, velha e nova. Mas, sobretudo, dir-lhe-ia se ela não sentia assim uma pena grande, se não se gostava de desaparecer quando visitava assim um velhote ou uma senhora viúva com meia dúzia de filhos que dois deles estavam na Austrália, dois nem sabia o paradeiro, um morrera há um mês e outro vivia duas ruas acima da casa onde morava, mas nunca o via. Entretanto, ela beberricaria o sumo de maracujá aguado e ir-me-ia olhando de lado, calada, com ar de quem espera a ocasião para despejar do seu dito e entretanto vai mirando o interlocutor que neste propósito era eu. E este eu que imagino visitando a dita senhora, recusa o bolinho amanteigado que ela empurra para a minha frente assim num gesto de como quem não quer a coisa. Eu falaria. Eu nem sabia ao que ia. Nem tinha lá muito bem pensado no que diria, mas acontecera, por um daqueles acasos, que apanhara um bocado de papel amarrotado caído de um saco de plástico de uma criatura que arrastava um carrinho de rodas desses das compras muito velho abarrotado de tralha e levava pendurado no ombro um saco cheio de papéis e trapos e garrafas e latas. E o papel...nem sei porque diabo me abaixei para o apanhar... mas certo é que o fiz e o abri e lá estava escarrapachada a direcção: Solidão Rua X número Tal assim muito esborratado, mas suficiente para ver que era ali para estes lados onde acabei por vir parar. A casa era mais assim uma barraca, apesar de ser de tijolo e ter uma espécie de telhado e uma porta de alumínio e campainha e tudo. Por dentro era a jeito de um T0 com muita tralha amontoada e no meio uma mesa muito limpa coberta de toalha de oleado azul com rosas e uma jarra de vidro baço com um pedaço do que fora laço encarnado. Duas cadeiras de palhinha e na parede um calendário de um ano atrasado com um Sagrado Coração a sangrar desbotado. A um canto, a tentar ficar escondida, uma cama de madeira meio bamba, segura, no pé que eu desvisava, por um maço de revistas e um livro. No canto atrás de mim, que num repente vi quando entrei, havia um armário com uma torneira e uma data de loiça que me pareceu ser ali o seu lugar lavada ou suja e, arrumado a ele, um frigorífico tão branco que devia ter sido adquirido para aquele local há dias recentes. Foi de lá, presumi, que teria saído aquele inopinado sumo de maracujá.
Tudo isto, já perceberam é o que eu conto se realmente um dia pudesse visitar a tal de Solidão. Pois assim, continuando, eu fui desfiando um rosário de situações que, entendia eu, seriam todas elas conhecidas dessa senhora. A certa altura desse meu imaginado tanto que até aqui conto tal qual se tivesse passado, a Solidão encarou-me nos olhos com um olhar profundo e tão intenso que senti que se não fosse a minha Paz e as minhas boas intenções, se bem que imprecisas, eu teria sido cuspido da cadeira e levado nos ares como se passasse ali um tufão daqueles que felizmente ainda só vi na televisão e no cinema, sim! A esse olhar eu fiquei sem mais o que dizer. Ela debruçou-se sobre a toalha, agarrou com as dela as minhas duas mãos e apertou-as. Ficámos assim um tanto instante que, hoje quando me lembro, entendo que às vezes não há relógios para marcar o tempo! Foi infinito e de repente. Depois, com voz que nem parecia ser daquela boca que saía, ela disse apenas: Meu amigo só pode mesmo falar comigo, saber o que essa, toda essa gente que agora enumerou, sente, quando a visito ou com eles moro uma vida ou a partir de uma dada altura! quem já viveu ou me encontrou assim sem dar por mim, num mero acaso! Os outros, como a senhora que me procura, percebo que com o melhor intento! O de fazer que me deixe de aparecer, que desapareça, que me faça com presença de menos peso a tanta gente! Esses, como a senhora, lhe garanto nunca poderão saber o que é viver comigo dia a dia, nem percebem, por muito que no meu nome falem, quem eu realmente represento. Cuide que, com esta visita se não vá ficar sentindo que aliviou alguma solidão ou, pior ainda, que estima que me conhece de perto. Nem de longe, lhe garanto. Não poderia nunca aqui vir assim, sem me conhecer, se algum dia tivesse eu cruzado o seu caminho! seria eu a encontrá-lo! apenas eu decido a quem faço ou não companhia.
Fiquei de cara à banda! A mulher lia-me os pensamentos! A mulher sabia que tantas vezes eu havia dito, escrito, coisas sobre a minha solidão! Agora ali estava ela. Ela mesmo em pessoa, afirmando que tivesse juízo que eu nunca a tivera! feliz me devia sentir! a sua companhia nunca, dizia ela, eu conhecera, nem naqueles momentos em que parecia que o mundo e todo o universo me fugia e eu ficava apenas eu, poeira perdida sem uma única companhia. Eu a ouvira como um acusado a quem lêem os crimes antes de ditarem a sentença.
Solidão, a voz dela ressoava baixa mas intensa aos meus ouvidos, solidão mesmo não tem voz, meu caro amigo, solidão quando eu lá entro, fica assim um desapercebimento que é apenas uma dor que apanha tudo na pessoa e, sendo assim, ela nem percebe que havia antes outra coisa...um diferente. Eu caio, vou minando, falo baixinho, trato de apagar recordações e em seu lugar deixo um vazio de pensar, apenas uma dor sem nome e sem direcção...melhor com todas! Fique sabendo que, por vezes, quando passo junto de gente que me emprega o nome, dá-me uma vontade enorme de as abanar e dizer tenham siso que...um dia eu lhes entro e... nada nada do que viveram vocês aproveitaram. E dá-me uma raiva! Que... sabe?! eu tenho sentimentos e dói-me a solidão dos outros! Penso, quando eu sou mesmo eu presente, que é a deles sempre muito maior que a minha. É o que resta a cada um quando me instalo, perceber no outro a solidão e dar-lhe, apesar de tudo, um pouco de solidariedade! Agora vá-se embora! E quando vir alguém precisado de ajuda, de assim de companhia, dispa-se dessa pele de querer saber tudo e fique apenas assim juntinho sem pedir nada e sem querer dar o que não sabe. Eu quando me instalo, cuido eu, que quem me fica comigo apenas sabe perceber que está ali alguém um instante que seja ao seu lado.
E lhe digo mais, continuou, eu entro tanto mais facilmente, quanto cada um de cada qual onde me instalo, andara sempre...sempre...buscando fora de si a sua própria metade!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

ora bem....

Ora bem! Estava eu aqui a pensar com os meus botões: por que raio ando eu sempre a fazer ilustres postes (esta do ilustres advém dos comentários ! a culpa é portanto deles! vossa! se me revejo babada naquilo que escrevo e escrevo mais!) mas estava então, falando eu com os ditos dos aqueles que apertam os casacos e outras coisas mais de roupa de vestir e, diria, que desapertar um assim ali num local certo, tem por vezes efeitos que, diria, podem ser mais colaterais dependendo, evidente, do local certo do corpo em que é colocado o botão fora da casa! E pronto isto está mesmo a ir como eu pensava, dizia, pensando com os tais...está a ir por um caminho diferente daquela sensaboria de escrever contos que saem sei lá de onde e são sempre tragédias, e mais tristezas e pesos de alma. Ora eu cá até me tenho por uma mecinha com uma pontinha jeitosa de ironia e muita, alguma gracinha (quer dizer...na tenho piada nenhuma ...mas rio-me muito e à minha volta fica, quase sempre, todo o mundo a rir!) Entonces...porque raio saem todos os dias aqui uns postes que são uma coisa assim que, vinda sei lá de onde, dá da minha virtual pessoa a imagem de uma gaja sensaborona, triste, ca alma apanhada por uma qualquer virose de tristeza ou coisa parecida?! Nem eu entendo!! Quer dizer...na acreditem que eu percebo, sim, e muito bem , mas que querem, hoje, deu-me para colocar-me aqui escarrapachada como eu sou assim meio marada e dichotando sem tino nenhum! Acabei?! Que jeite?! A coisa inda vai no mêo ou menos...sei lá... Hoje acordei a ler um artigo que o jornal na digue qual que eles, taditos, são assim todos a modes que muita parecidos e tamém na tou pra entar nessa de publicidade que bem me chega ter a caixa do corrêo chêa dessas coisas cheias de cores que apresentam de uma ponta à outra bacalhau e flores e cadeiras e camisolas e chóriços e percima vem uns números sempre de tamanho grande e a cores e eu amando aquilo tudo pra forrar o cêste do lixe que dá pra isso muito jeite. Mas...olha deve ser aquilo que aqueles que me conhecem bem, costumam dizer: ela perdesse...faz uma data de parênteses e depois na sabe o que ia dezer! Pois...dizia a prima do outro... assim estava eu lendo o tal artigo... ah! esquecia-me de dizer que além dos tais papéis, agora aparecem no telefone umas vozes a dizer pra mim ir a um jantar assim lá num hotel e um dia é fui e levei o mé home queles , os moços que me telefonaram, disseram quéra preciso levar o marido se não na mofereciam o jantar, assim é cá fui e... Depois conto cagora estava a contar que lia o tal artigo no jornal! Ai! Carago! Esquecia-me ! tenho quir ao banco e deve tar a fechar! Té logo! Eu depois conto! Um abraço que agora...Ai! já me esquecia, inda vou dizer uma num instante sobre essa coisa de publicidade! é cá goste é cande aparecem a bater aqui na porta uns rapazites muita loucos! percebem?! buéda giraços! Coitados! andam a ganhar uns cruzados! euros é?!pois! São capazes de ser meus netos, mas são tão fofos que é percasa disse que é face sempre os inquéritos todes e inda lhes précuro se ganham bem e coisas assim ou se andam a ganhar pró curse e ... eles contam-me assim a vida toda ou quase...é ache...e é tenhe pachorra...mete assim cunbersa e ele gostam... vê-se nas caritas...às vezes são umas mecitas ...um dia tava um raio dum calor caté escaldava e é disse quentrasse e dei-lhe um cope dágua fresquinha... coitadas das gentes estas que na tem mais empregue e anda a fazer o que pode... o raio da publicidade é outra coisa qué digue sempre a quem me telefona que deixe que na quere ir (sim depois daquela em que levei o mé maride e me queriam impigir um colchão que andava de baixo para cima sem a gente mexer coisa nenhuma do nosso corpe...é nunca mais fui a outra! caí né?!) mas sou muito simpática qué cá percebe queles estão a fazer aquilo qué o sé empregue e lhes mandam assim... Pior é esta seca da TV quentra pela casa dentre! ( mas há anúncios que são arte!!! é adore!! É uma contradição, mas se calhar até não!!! Sei lá...tamém na tou aqui pra convencer minguém! ) Pois...o pior ainda são esses Spames quinda na percebi bem o que é...

Ah! agora, desculpem lá, tenho méme quir! Té outra ócasião!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

Maria...


-Anda Maria corre! Olha ali em cima no alto da torre da Igreja!
Maria arrumava a loiça. Os pratos muito limpos de um pano branco que dependurava na mão e mais parecia, quando o erguia lenta a retirar os restos de água do lavar, que afagava com algodão ou alinhado pano, ferida de ente querido.
De fora, o grito se ouvia:
-Maria! Anda! Corre! Anda ver!
Parecia coisa de aflição, mas ela, Maria, conhecia aquele deslariar e continuou a tarefa de colocar um sobre o outro, já bem secos, os pratos, dois, do almoço acabado há pouco. Ainda se deu em abrir a gaveta da mesa redonda e colocar, sem pressas, antes com desvelos, se diria, muito dobrada pelos quatro cantos e depois em quatro partes, a toalha de quadrados. Compra-a na feira no sábado passado. Enquanto passava a mão direita para aconchegar de melhor guardada, pensava que encontrara o António nesse dia. Há quanto tempo não o via! Pegava na toalha (essa que agora guardava) apreçando. Uma conversa de descuido com a feirante, cigana bem parecida se bem que não lhe tivesse quase visto a cara. O António. Partira dali há tanto! Ninguém mais lhe soubera o paradeiro. Deixara um bilhete na mesa, aquela redonda. Dizia apenas: Amar-te-ei sempre. António. Fora há tanto ano! Aquela barba! O cabelo muito louro! nem os brancos se viam! E os olhos! Aqueles olhos azuis olhando-a como se fosse ontem aquele longe dia! Desapareceu no meio da gente falando, falando e ela ficou olhando...a toalha de quadrados pendurada entre a dela e a mão da feirante e o coração a saltar-lhe de um não percebia de onde como se hoje ali fosse o outro dia. Tirara a nota da carteira como se nada mais tivesse a fazer que comprar a toalha. Recebera o troco e sabia que por mais que olhasse nunca mais o veria. Mas olhou tentando alcançar uma guedelha loura a andar apressada no meio da feira cheia de gente. Uma voz de dentro ralhou-lhe muito forte, muito zangada. Dizia-lhe que se lembrasse que ele, aquele, já não era o António o pai da sua filha. Esse fugira para sempre deixando um bilhete e nunca mais dissera nada. Era esta a história, não sabia ela que essa era a história?! Não havia António!
De fora para o dentro de casa a voz gritava:
- Maria, anda ver! O homem vai cair assim empoleirado. Corre, Maria!
Ela entreolhou a cozinha arrumada. Fechou de manso a gaveta, endireitou a jarra com um ramo de malmequeres apanhados de manhãzinha a dar de comer às galinhas. Havia tantos! Ainda mal abertos! Ainda orvalhados! Agora estavam lindos na jarra. Rodeados de verdes das folhas. Ainda com raízes. O transparente do vidro mostrava. Nestes gestos e observados, se perdeu não mais que em passando, ouvindo a que gritava e pensando “que seria?!”. Era melhor ir. Apesar de, como costume, não ser nada. Alguém que arranjava o relógio há muito parado nas dez horas ou um curioso que pedira ao padre para subir a ver de cima os campos de cevada. E como estavam lindos com tanta papoila e aquelas borboletas negras que pareciam contas caídas do colar de uma fada. Foi-se assim chegando, agarradas, como lhe era hábito, as duas mãos dobrando, para cima, para junto da cintura, o avental meio molhado. Assomou na porta. Olhou a filha ali especada no quintal. Aquele olhar azul meio debotado e a boca sempre a esboçar um sorriso ou pronta para se esboroar num babado de choro sem lágrimas. Olhou-a naquela saia de quadradinhos encarnados com a blusa muito apertada deixando no decote redondo assomar uns seios alvos, duros de menina. Os pés descalços enfiados num par de sandálias verdes muito velho. O cabelo loiro atado num tufo desarranjado por cima do pescoço. Era linda! Era muito linda a sua menina! Tinha, no momento em que assim, num sequer que instante em que a olhava, a mão em pala sobre os olhos assestados na torre da igreja ali ao fundo da rua; ali dependurada acima do quintal. Maria olhou para cima e gritou. Um grito que nem sequer se ouviu de forte ressoou no peito. Ela sentiu que não gritou, mas que julgou. No alto da torre o corpo de um homem balançava como um galho seco. Maria não gritou. Pegou na mão da filha, abraçou-a pela cintura como que para a proteger do que ambas viam. Só ela, Maria, percebia. Trouxe-a assim colada a ela. Sentou-se às duas na soleira, viradas ambas para dentro da casa. Deixou que a filha a olhasse com aquele ar de perguntar sem saber o que pergunta. Levantou o avental e enxugou um nico de água que corria do lugar que não devia. Ficou Maria assim abraçada à filha. Lá fora, junto ao muro baixo do quintal, passava gente em corrida, em vozearia. Maria bem ouviu o nome que diziam.
Aconchegou-se mais num encolhido que se deu em pranto de balançar o corpo.
Uma voz de dentro falava baixinho. Falava de dizer a história que ela dera em esquecer. Quanto mais a voz falava, mais Maria lembrava o balançar do homem. Bastara um relance. Vira quase sem ver. O sol batia forte na cabeleira ainda loira. A voz soava no seu lá de dentro. Levava-a a um tempo de guerra e de fome. Ele voltara de lá. Uma terra de nome que soava como de muito longe e nossa se diziam ser. Voltara. O mesmo cabelo loiro. Diverso era o olhar. Um outro olhar azul. Um azul sem fundo, sem alvo. E a voz. A voz rouca que cantava, agora falando, falando. Sempre falando de coisas que ela nem entendia. No meio da fala apenas ouvia, quando a ele dava de soluçar: Maria, amo-te! Nunca percebera da filha. E a voz dizia. Não, Maria, não! ele não fugiu, Maria! Ele foi que o levaram a tratar na cidade longe, lembras?! E ela chorava. Agarrava a filha que assim, mesmo sem a tal de guerra, ficara que nem ele sem mundo deste se aperceber. Outro, ela habitava. Um seu mundo de fantasia, dizia o doutor. Tratar de quê?! Deixar. Ela assim nasceu, assim irá morrer. Ali, agora, se cruzaram seus caminhos. A filha olhando, sem perceber, o homem que trepara no cimo da torre.
Maria já não chorava.
Ergueu-se devagar. Tirou o avental. Pegou a mão da filha. Sentou-a na cadeira e deu-lhe a caixa dos lápis, os papéis.
- Ficas aqui que a mãe vai ver se estão a concertar o relógio, sim?!
Ela sorriu de ver Maria sem chorar.
- Sim, vai. Olha, eu desenho o homem pendurado na torre. Sim?! O homem loiro. Viste que era loiro?!
- Sim! – respondeu Maria e saiu.

sábado, 11 de dezembro de 2004

Bora!!! Parabéns ao Tim!

CENTRO COOL TURAL DE PARABÉNS!!!


Tim

BORA PRÁ FARRA QUE HOJE É O TEU DIA!!

...vá lá...um beijinho...

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein