
Sentava-se no meio do largo como se fosse a sala de visitas. Direita. As duas pernas muito unidas nos joelhos. As mãos cruzadas sobre o colo. Nunca vestia um fato, uma saia, um vestido, umas calças. Nunca. Fosse de dia frio ou canícula, cobria o que se não via num apertado casaco sempre azul tisnado de pingados de tinta. Trazia uma mala. Uma daquelas antigas malas de cartão com cantos de lata arredondando os cantos. Uma mala dita de viagem. Mas era uma mala pequena assim pelo mal medido de quatro mãos-travessas (o mesmo que dizer fechadas de dedos o que é diverso do palmo mais usado em medidas). Sentava-se num banco mesmo no centro do largo. No único banco onde chovia directa a chuva e a sombra não cobria do sol quando este dava. No largo havia bancos e havia árvores. Aquele banco tinha, por razões de arquitectura que de paisagem, ao tempo, não havia, ficado ali ao centro sem ficar por debaixo de coisa nenhuma. E, por razões dadas ao acaso, o banco ficava bem no meio do dito largo. No meio mesmo, não! Havia entre ele e o meio um canteiro. Quer dizer...era um arredondado de terra salpicada de ervas e duas roseiras secas e, mesmo, mesmo no meio, um cipreste. Ela, sentada no banco. É de dizer que cada banco, e também esse, tinham sido verdes que ainda se lho via, na tinta saltada em lascas, essa, apenas de longe apercebida, cor. Para além do canteiro com o banco ao lado, o largo era rodeado por um gradeado. Um enfiamento de ferros verticais com pontas esguias apontando acima e a uni-los uma espécie de fita torcida do mesmo material. Era assim todo em volta do largo onde havia o banco onde ela se sentava. Ademais disto, as árvores eram, precisemos, quatro. Quatro árvores de folha caduca uma em cada canto como se formassem um quadrado inscrito no arredondo do círculo do gradeado. Eram árvores antigas de troncos gorgulhosos, esburacados. O chão deste largo era todo de terra amarelada. Aqui e ali, um naco de côdea parecia uma pedra. Mais noutro sítio uma semelhança mesma se fazia uma poita de caca de animal canídeo ali vindo de rara ocasião. Sim, que o largo não era quase nada frequentado, nem mesmo pelo bicho passeante cão. É verdade! Esquisito também! Mas o certo é que nunca se via, além dela, ninguém passeando ou ocupando qualquer dos outros bancos. De quando em vez. Lá muito de longe em longe, um que não era dali, e isso via-se pelo modo como parecia, atravessava o chão terroso e, raras vezes, se sentava numa ponta de um banco. Podia parar olhando o que ela nunca via. Uma ponte que corria por cima do rio lá muito ao fundo, lá muito do outro lado, lá muito embaixo do alto em que planava, parecia quase, o largo. Porventura quem ali passava era em busca do rio. Talvez, de o ver de ali de encima. Há que dizer que o largo não fazia parte de nada. Isto é, não era largo de aldeia, nem de cidade ou vila. Não. Era simplesmente um largo perdido ali no em cima de uma povoação de casas soltas atravessadas por um rio delgado e uma ponte estreita. Claro! a ponte nem precisava ser larga para tão pouca água.
Nessa tarde ventava. Um vento frio azulado num ar de trovoada. O céu estava roxo escuro. Plúmbeo?! Não! era roxo misturado de negro. Escuro! Ela chegou, como costume, e sentou-se tal qual descrita. Pousou a mala no lado esquerdo. Deitada, a mala sobre o banco, parecia prenha. Uma das mãos deslocou-se de sobre a outra que se manteve inerte. Num gesto de cegueira, inesperado para quem o visse. Num gesto que, a ver-se de alguém, se diria sem tento, soltou os fechantes dois da mala, um de cada canto. Qual boneco de mola preso em caixa, um soltar de folhas brancas, vermelhas, verdes, amarelas, se fez de dentro. Cada, todas as folhas escritas de certa, rigorosa, esguia caligrafia. Cartas?! Parecia, se alguém o visse. O largo e mais o ar azulado de quase trovejar ficou coberto daquele arco íris de papel. Lá no bem no fundo as casas desviam-se de alguém que olhasse. Ela, sentada, abriu o casaco botão a botão. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Sete botões dourados verdes de zinabre. Ergueu-se. Uma de cada aba do casaco em cada mão. Diria, quem visse, que parecia ela com duas asas. O vento batia forte os seios desnudos. Os pelos púbicos, muito negros, tremiam de arrepio no roçagar do ar sobre eles. Os pés calçados de chinelas pretas de um verniz quebrado, deslocaram-se no amarelado da terra. Um passo. Dois, três, quatro, cinco. Cinco passos em linha recta. Parou certeira na grade pendurada sobre o de lá embaixo onde havia o rio e as casas e a ponte.
Os papéis voavam.
Diz quem por lá passou, assim de por acaso, que no banco do meio nunca mais viu alguém sentado.









