sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

tempestade


Sentava-se no meio do largo como se fosse a sala de visitas. Direita. As duas pernas muito unidas nos joelhos. As mãos cruzadas sobre o colo. Nunca vestia um fato, uma saia, um vestido, umas calças. Nunca. Fosse de dia frio ou canícula, cobria o que se não via num apertado casaco sempre azul tisnado de pingados de tinta. Trazia uma mala. Uma daquelas antigas malas de cartão com cantos de lata arredondando os cantos. Uma mala dita de viagem. Mas era uma mala pequena assim pelo mal medido de quatro mãos-travessas (o mesmo que dizer fechadas de dedos o que é diverso do palmo mais usado em medidas). Sentava-se num banco mesmo no centro do largo. No único banco onde chovia directa a chuva e a sombra não cobria do sol quando este dava. No largo havia bancos e havia árvores. Aquele banco tinha, por razões de arquitectura que de paisagem, ao tempo, não havia, ficado ali ao centro sem ficar por debaixo de coisa nenhuma. E, por razões dadas ao acaso, o banco ficava bem no meio do dito largo. No meio mesmo, não! Havia entre ele e o meio um canteiro. Quer dizer...era um arredondado de terra salpicada de ervas e duas roseiras secas e, mesmo, mesmo no meio, um cipreste. Ela, sentada no banco. É de dizer que cada banco, e também esse, tinham sido verdes que ainda se lho via, na tinta saltada em lascas, essa, apenas de longe apercebida, cor. Para além do canteiro com o banco ao lado, o largo era rodeado por um gradeado. Um enfiamento de ferros verticais com pontas esguias apontando acima e a uni-los uma espécie de fita torcida do mesmo material. Era assim todo em volta do largo onde havia o banco onde ela se sentava. Ademais disto, as árvores eram, precisemos, quatro. Quatro árvores de folha caduca uma em cada canto como se formassem um quadrado inscrito no arredondo do círculo do gradeado. Eram árvores antigas de troncos gorgulhosos, esburacados. O chão deste largo era todo de terra amarelada. Aqui e ali, um naco de côdea parecia uma pedra. Mais noutro sítio uma semelhança mesma se fazia uma poita de caca de animal canídeo ali vindo de rara ocasião. Sim, que o largo não era quase nada frequentado, nem mesmo pelo bicho passeante cão. É verdade! Esquisito também! Mas o certo é que nunca se via, além dela, ninguém passeando ou ocupando qualquer dos outros bancos. De quando em vez. Lá muito de longe em longe, um que não era dali, e isso via-se pelo modo como parecia, atravessava o chão terroso e, raras vezes, se sentava numa ponta de um banco. Podia parar olhando o que ela nunca via. Uma ponte que corria por cima do rio lá muito ao fundo, lá muito do outro lado, lá muito embaixo do alto em que planava, parecia quase, o largo. Porventura quem ali passava era em busca do rio. Talvez, de o ver de ali de encima. Há que dizer que o largo não fazia parte de nada. Isto é, não era largo de aldeia, nem de cidade ou vila. Não. Era simplesmente um largo perdido ali no em cima de uma povoação de casas soltas atravessadas por um rio delgado e uma ponte estreita. Claro! a ponte nem precisava ser larga para tão pouca água.
Nessa tarde ventava. Um vento frio azulado num ar de trovoada. O céu estava roxo escuro. Plúmbeo?! Não! era roxo misturado de negro. Escuro! Ela chegou, como costume, e sentou-se tal qual descrita. Pousou a mala no lado esquerdo. Deitada, a mala sobre o banco, parecia prenha. Uma das mãos deslocou-se de sobre a outra que se manteve inerte. Num gesto de cegueira, inesperado para quem o visse. Num gesto que, a ver-se de alguém, se diria sem tento, soltou os fechantes dois da mala, um de cada canto. Qual boneco de mola preso em caixa, um soltar de folhas brancas, vermelhas, verdes, amarelas, se fez de dentro. Cada, todas as folhas escritas de certa, rigorosa, esguia caligrafia. Cartas?! Parecia, se alguém o visse. O largo e mais o ar azulado de quase trovejar ficou coberto daquele arco íris de papel. Lá no bem no fundo as casas desviam-se de alguém que olhasse. Ela, sentada, abriu o casaco botão a botão. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Sete botões dourados verdes de zinabre. Ergueu-se. Uma de cada aba do casaco em cada mão. Diria, quem visse, que parecia ela com duas asas. O vento batia forte os seios desnudos. Os pelos púbicos, muito negros, tremiam de arrepio no roçagar do ar sobre eles. Os pés calçados de chinelas pretas de um verniz quebrado, deslocaram-se no amarelado da terra. Um passo. Dois, três, quatro, cinco. Cinco passos em linha recta. Parou certeira na grade pendurada sobre o de lá embaixo onde havia o rio e as casas e a ponte.
Os papéis voavam.
Diz quem por lá passou, assim de por acaso, que no banco do meio nunca mais viu alguém sentado.


hoje, 5 de Fevereiro de 2012, encontrei o largo onde se podia ter passado esta tempestade

terça-feira, 30 de novembro de 2004

pequeno almoço


Era o meio-dia. Era o fim da manhã. Era domingo. Chuviscava. Era na capital. Era na grande cidade. E era num Bairro. Todas as cidades grandes são somatórias de bairros! Não?! Esta sim! Falta pouco e será um somatório de casas. Era domingo num bairro de uma grande cidade - não assim tão capital, nem assim tão grande, nem assim tão bairro. Era uma avenida. Era mais assim uma rua antiga que cortava, há muitos, muitos anos, um bairro de um outro bairro. A capital, ali, era duas partes dentro de uma. Era dia de descanso. Chovia na cidade grande. Os carros chapinhavam nas poças. O alcatrão colado sobre o velho empedrado deixava, aqui e além, com o passar dos andantes, estas coisas arredondadas, mostrando por debaixo pedras aquadranguladas que noutros idos tempos sentiram, em si, rodados diversos e foram afagadas por lisas ferraduras. Digo eu que conto e não vi senão os salpicos que faziam os carros de dentro da água chovida dentro dos referidos buracos.
Era, pois, domingo dia de descanso numa rua que dividia, naquele sítio, a cidade em duas – um bairro a poente e outro a nascente. E chovia. Na rua passavam carros. Era, do lado da rua em que eu estava, o bairro de ruas estreitas que assomavam em goelas direitas de casario envelhecido. Ruas lisas. Ruas que, espreitadas, pareciam um retrato de janelas enfileiradas resguardadas umas das outras dirigindo-se todas a um ponto de fuga. Eram ruas de casas com janelas floridas. Era roupa pendurada parecendo gente que assomava.
Assim, na grande rua atravessada por carros e com buracos onde havia água de chuva, espreitavam uma série de outras ruas todas fugindo, quase se unindo lá num ponto ao longe, que não se via, se adivinhava apenas, fugindo todas para um rio ao fundo. Era um rio o que aparecia, aqui e além, como se fosse um lugar de debruçar das ruas e das casas todas. Era uma cidade nem por isso assim tão grande, mas capital, e tinha, ali, no local onde me encontrava, um bairro cujas ruas espreitavam de um lado sobre a rua onde passavam carros chapinhando nos buracos da chuva, e do outro lado, parecia, que cada rua se acabava, toda e cada uma, dentro de água, penso eu que vi e conto, de um rio ao fundo.
Era na rua essa grande que, numa esquina, e daí ser meio da rua meio do bairro, havia uma padaria. Pois! Eu sei, eu que vi e conto, que padaria não é de conto. Sim. Mas esta era uma padaria especial. Era uma padaria da cidade grande e do bairro. E isto faz uma diferença tal que nem eu, que conto, pensava o quanto é diferente ser, ao mesmo tempo, padaria de cidade grande numa rua central e de um bairro com roupa e flores de vaso e até limoeiros, soltados nas janelas. Era mais. Era a padaria uma casa antiga e, como calhava bem naquela zona, de tectos altos toda decorada com vistosos retorcidos doirados e rococós de medalhões entrecruzados nos ditos. Era uma padaria que servia pão que ali mesmo fazia e vinha para boca da gente ainda quente. Era uma padaria que servia, a um tempo, pão para transportar e nas mesas, colocadas em local onde antes, digo eu que agora invento pois não sei da sua história, se formavam filas de raparigas do bairro e outras senhoras e suas raparigas, de então ditas criadas, esperando o pão. Era, devia ter sido, penso, um espaço de conversas animadas. Isso não sei de ter visto nem sequer lido ou ouvido - imagino.
Era, assim, uma padaria o espaço onde, em manhã de domingo, dia de descanso e de chuva, duas coisas juntas apenas de acaso, que eu tomava, lenta, o pequeno-almoço tarde como convinha em manhã de domingo. Era na padaria que, olhando (este vício de olhar em volta e ver que me ficou de não sei onde nos genes) eu via os casais novinhos com um dois filhos bem trajados; aquela rapariga magra de roupa que já tivera cor e uma cara que não tinha idade, agarradas as duas mãos no copo do galão, os olhos enfiados num de dentro vazio (assim me pareceu); o casal de meia-idade esguio e com os corpos enfarpelados em caros trajares entrando na porta verde de vidraças eu não disse? era uma porta enorme e havia outras em recantos de mesas enquadradas nas grossas paredes; a um canto um rapaz lia o jornal com ar de quem esperava alguém, um descentrado olhar que o fazia ter, para mim que o via, esse ar, digo eu mas sem certeza. Era assim uma padaria e um dito de café como por cá gostamos de dizer.
Era aqui que, na mesa ao lado daquela de onde eu via, olhava enquanto comia e bebia, se veio sentar uma senhora. No cabelo muito liso, muito ralo e muito branco, salteavam uns ganchos. O casaco de um xadrez coçado a preto e branco quadrava sobre uma blusa de malha multicolor coçada como a saia de viés de cor indefinida, usada. No rosto, a pele era lisa, branca por debaixo de um mar de lindas rugas sobre as quais refulgiram, olhando-me, um par de olhos semi escondidos por detrás de umas lentes de algumas, poucas, as suficientes, creio, dioptrias. Era assim, descrita agora por mim que a vi, a vizinha que, também ela, me olhava. Era uma senhora sim! Era do bairro, dizia: “ a senhora sabe?! já aqui venho há mais de quarenta anos!”. Não eu não sabia e ouvia parando, toda eu ali na padaria, a minha vida, ouvindo a dela se contando. Era mãe de um filho que sofria “sabe a senhora que ele teve, fumava muito, um enfarte! Aqui deviam abrir uma nesga da porta para sair este ar a tabaco! Sabe?! Não que a mim me incomode, mas há crianças e há quem se incomode e nada diga. A senhora sabe?! Não! não apague o seu cigarro! Eu digo por dizer! Gosto de falar! Venho aqui só ao domingo, sabe?! Moro aqui na rua ao lado, no bairro. Nasci aqui. Que idade me dá?!” Era uma senhora do bairro. Era uma mulher da padaria. Era uma mulher daquela rua que descia para longe e tinha flores e roupa dependurada nas janelas e ao fundo tinha, de um lado o rio, e de outro, a rua onde a cidade dividia o bairro dela do bairro do outro lado. “Sabe, minha senhora eu tenho mais do que isso, muito mais, mas não pareço, não! “ Era uma mulher de quase oitenta anos e sorria da vida que fazia parecer ser outra a sua real idade. “ Olhe, veja aqui!” Era uma mulher que abria uma carteira engordada de enchimentos vários entre elas muitas fotografias de um nada ali espalhadas e colocadas da dela na minha comovida mão. Era um dedo, o dela, que apontava e a boca, ainda de lábios carnudos, que dizia:”este é o filho que falei. Desempregado. Mora por cima de mim. O outro, vê?! são tão diferentes, não?! um louro o outro tem assim um ar aciganado” Era ela quem dizia dos dois filhos sorrindo embevecida. No meu de tentar sair que espreitava na tal de porta de entrada e saída, o meu marido, ela sorriu e disse, uma vaga onda de água transparecendo por debaixo das lentes: “Sabe?! fiquei viúva deste, um lindo homem o meu marido! há quarenta anos!” Era viúva a senhora do bairro, ocasional vizinha da mesa ao lado da minha numa manhã de domingo na padaria que era também café de diversas gentes. E, acrescentou, enquanto eu já me levantava desejando, apesar, de ficar mais à palavra: “a solidão custa muito, minha senhora! Custa muito! Sobretudo à noite! A solidão é muito, muito pesada! Gosto de aqui vir. Ao domingo, só ao domingo! Venho sempre!
Saí para a rua deixando, espero, desejava, a minha mão assente num carinho sobre aquele ombro sob o casaco de xadrez usado.
Saí e fiquei pensando que a solidão é muito, mas muito mais, do que estar sozinho.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

PARABÉNS MINHA LINDA!!!


Hoje este meu espaço é todo todinho para dizer do coração sentido
e com um abraço do tamanho do que o real e virtual em união se fazem
um mundo de emoção e vida
que desejo PARABÉNS
e dizendo nele transporto para o lado de onde ela se encontra
o desejo de toda a FELICIDADE prara esta
MULHER INCONFORMADA
que hoje completa
ela o diz de modo lindo
44 PRIMAVERAS !
PARABÉNS! e um monte de beijinhos, Linda!

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

contradição?!!!

    porque será que pode num nadica de nada a gente ficar assim despedaçada?
    porquê este estar feliz pela manhã e de repente sem que sequer mude esse sentir de se estar por outro tão contente, se escorre de frio, uma termura, um mal estar dorido como se todo o Universo se concentrasse todo frio e quente e a evoluir num turbilhão dolente, deixando lágrimas a correr por fora e um mar de lava entupindo dentro? o que será afinal estar contente? nao é tristeza, nem dor...é isso tudo e uma vontade moribunda a rodar aqui dentro...é o corpo a pedir descanso e é a alma a soluçar por nós...a rogar-nos que por favor a cuidem que ela não aguente mais o que somos nós! e que fazer de mim se sinto que não lhe sei dar mais e que inda por cima lhe minto nesta insistente permenência de rir e rir quando estou a carpir?! e, no entanto, afirmo, eu estou feliz por outra muita gente! eu não vos minto quando afirmo que hoje estou de facto feliz, contente!!mas...talvez ande dividida em duas...talvez esteja há muito feita em cacos e ande de gatas a colá-los e de repente é aquele...aquele pequininino...o que se perdeu de mim e faz toda a diferença entre o ser todo, mesmo colado, e aquele buraquinho, uma fissura que dá, em alturas devidas, toda a forma ao vaso! será?! o que sei é que há por aqui muita racha que faz que o vaso de que me comparo de ser, fique sem jeito ou graça apenas porque alguma coisa se perdeu e eu...eu não sei achar!

Amigo/s

Hoje eu hoje estou Feliz!
assim uma coisa calma um escorrer de leve uma alegria doutro derramada em mim!
Eu estou feliz sinceramente! e sei que não é de mim que isto me vem!
por isso sinto-me assim tão bem! Ele está feliz!!! entendem ?! Ele está tão Feliz!!! e eu ...ai eu...sinto-me tão Bem!!!

Fui buscar, por isso, uma coisinha que considero querida escrita era eu uma menina. Publiquei um dia no início quase deste andar por blog! deixo aqui...
Ofereço-vos de novo com esta Alegria aos Amigos todos!


    Amigo!
    apetece gritar ao mundo
    ir por aí dizer a toda a gente
    Dizer que não é tarde
    que vale a pena espear
    amar e crer
    sorrir e no sorriso dar-se
    A hora sempre chega!
    E, então..
    o ribombar da tempestade
    é doce sol nascendo
    luz filtrando-se nos bagos da chuva
    o sol, o firmamento
    as terras, os mares
    o trinado dos pássaros
    o coaxar das rãs
    o rugido das feras
    o rumorejar do vento nos sobreiros
    a calma do sorriso
    o soluço no choro
    é vida...vida!
    A alma volteia em passos de dança
    loucos, muito loucos.
    Vestiste-a de brancos folhos, Amigo!
    e ela rodopia
    dança, dança, dança...
    escorrega aqui, mas logo retoma
    na mais louca das danças
    ao ritmo voluptuoso da Alegria pura!
    Ouve, Amigo,
    Ouve!
    És tu quem colocou na pauta
    o dó , o ré, o mi...
    as notas todas!
    És tu, Amigo quem conduz a minha alma
    quem doira de luz o salão
    onde ela rodopia!


    Debruçado nos prados, nos vales, nas montanhas
    nos ribeiros, nas fontes
    na vastidão do mar
    na imensidão do espaço...
    és tu... Amigo...

    quinta-feira, 25 de novembro de 2004

    que dia é hoje?!!!

    Hoje ...
    Trocam-se-me as datas todas
    Revolteiam-se números
    Enrolam-se intricados nós
    Apertam-se imprecisas cadeias
    Hoje...
    eu tenho a alma...
    nem sei... está ela aqui ainda
    ou se voou de mim
    deste sentir de ferida
    carne viva de Vida
    Hoje...
    Gritam por aí cantares
    Oiço rufar tambores
    vozes de multidão
    megafones troando
    na rua
    bandeiras desfraldadas
    Soam ecos surdos
    Ecoam
    Longe
    Mal se ouvem
    (escutem...ouvem?)
    O calendário voou...agora
    folha a folha
    desabriu pela janela
    revolteou no céu
    (O céu ainda azul)
    eu nesta confusão
    de não saber dos números
    (a quantos são?!)
    Novembro...em eco oiço
    doendo como antes
    A jarra de cristal
    e a panela de barro
    estão ali em cacos
    E os panos...
    bandeiras descoloridas
    Vermelho só o sangue...
    ... ainda corre quente
    Hoje...
    relembro...
    havia um mês de Abril
    depois um de Novembro...
    ...é impreciso...
    é tudo muito longe...

    (Que dia é hoje...então?! )


    terça-feira, 23 de novembro de 2004

    saudades

    Tenho saudades hoje
    De coisas simples

    Um bocado de corda pra saltar
    Dois berlindes
    Um aro de bicicleta e um ferro
    Um carro de linhas, sabão, elástico
    Um prego grande
    Uma meia velha cheia de trapos
    Um grão de bico um pedacinho de tecido
    Um biscoito frito
    O doce na côdea humedecida na boca
    Uma fita vermelha no pescoço

    Hoje tenho saudades dessas e outras
    Simples...simples coisas

    Um cabelo entrançado em duas
    Um bibe branco... a mala de cartão
    O cheiro de borracha e tinta
    O quadro de artista plástico
    num mataborrão
    e no papel dobrado em dois
    as formas fabulosas dum borrão

    Hoje as saudades crescem-me
    Saudades de coisas simples
    As coisas, afinal, que me deste...vida

    O cheiro que a terra tinha então
    O sabor diferente em cada fruta
    Joelhos esfolados lambidos a cuspo
    A cópia rigorosa de caligrafia
    A caneta de aparo
    O tinteiro de loiça no buraco
    O beijo trocado no banco do quintal
    A cama de ferro de lençóis de linho
    A palha solta do colchão riscado
    Aquela tarde que não acabava
    O verde mais verde que havia num prado

    Hoje, nem eu sei...
    Ficou-me uma saudade...

    Do mar que era de cheiro intenso
    Das covas na areia até ficar tapado
    A bicicleta com dois, três e quatro
    E a lama...a terra suja no vestido
    E o vento molhando de maresia
    E a chuva trespassando a alma
    E os rios que corriam devagar
    Os rios sempre quase parados

    Hoje se continuo assim escrevendo
    Hoje rebento de saudades

    Hoje tu partiste
    Foste de mansinho...
    Sorrindo... acho...
    Partiste agarrado à Vida
    E eu fico falando assim
    Destas saudades



    a tua praia

    domingo, 21 de novembro de 2004

    Beijos...mãe!

    Li no Biquinha poemas sobre o beijo

    e me lembrei
    mãe

    aquele que escreveste...BEIJOS
    tu, Senhora de Poemas...

    Lembras?!
    (nunca me dei de t'ouvir senão já bem crescida...
    que me me perdoas, sei...mas dói de mim
    este ter desatentado tanto no teu escrever
    Tu sabes, mãe!)

    Aqui um teu poema!
    Vão gostar de te ler!


    Os meus beijinhos são brancos!
    Escolhi a cor da Paz!
    Mas todos...se forem francos...
    de qualquer cor...tanto faz!

    Sendo beijos amarelos
    eles terão outro sabor...
    mas também podem ser belos
    quando dados com Amor!

    Beijo azul é ciumento?!
    Só o sabe quem o deu!
    Dado com sentimento
    nos fará subir ao Céu!

    Vermelhos são suculentos
    Saborosos com'a romã!
    despertam-nos sentimentos
    São assim...um talismã!

    De cor de rosa os beijinhos
    são o Amor...são a Ternura!
    Transmissores de carinhos...
    pois que dados com doçura!

    São os beijos mais bonitos
    os que os filhos nos dão!
    São belos! são infinitos!
    Gravam-se no coração!

    Parecidos...quase iguais...
    Ternurentos...amistosos
    dados aos filhos pelos pais
    com carinho e amorosos.


    Ai! Beijos! Beijos fogosos
    Cheios de outros sabores !!
    Apaixonados...amorosos...
    São rubros...cheios de cores !!
    São beijos cativantes
    quando eles são trocados
    pelas bocas dos amantes...
    Com ternura! com ardor!
    Plenos de sinceridade
    nas suas juras de Amor...

    Beijos dão Felicidade!


    Mãe em 1 de Fevereiro de 1992

    quinta-feira, 18 de novembro de 2004

    caminho/s

    Uma estrada. Não. Um caminho. Uma vereda de areia. Em cada margem. Berma. Em cada berma pinheiros. Mansos. Pinheiros mansos.Redondos. Negros. Cerrados. Apertadas as copas. Copas baixas. Pinheiros novos. Não verdes. Negros. A noite caia. Sulcos de rodado na areia. Um carro. Ela guiava. Conduzido um carro rodava na vereda. De noite. Quase noite. Ainda se via. Pouco. Via o rubro do sol. Sol já posto. Era visto à esquerda. À esquerda da vereda de areia o sol já se tinha posto enquanto ela conduzia um carro escuro de uma marca antiga. Um carro grande. O carro rolava muito devagar. Olhássemos de longe nem tanto dali de uns metros e o carro se diria parado. Ela conduzia agarrada ao volante. Um volante grande. Redondo e de diâmetro grande. A cara dela encimava o volante. O queixo encostava. Encostava quase. Apenas o tanto para deixar rodar. Que nada. O volante ía parado. O volante não rodava. Era caminho estreito. Era caminho de areia. E era a direito. Em recta. Ela não sabia onde ía. Ía. O queixo apoiado no volante. Via ao fundo o areal de sulcos. Outros carros de antes. Antes do dela este. Passou um de repente. O carro estacou. Pisou travão nem mais que ao de leve. Precisava ver. O caminho andava em frente. Ainda se via areia até uns metros. Em frente. Depois era escuro. Desaparecia ali quase logo o caminho em frente. Parada para ver dois caminhos. Um de esquerda dela. Outro de sua direita. Dois caminhos abertos de repente no corpo do caminho que era antes um. Onde ía ela não sabia. Sim. Tanto fazia o qual tomar. Pensou no mar. Olhou um rubro em negro ali . Devia ser. Sol posto sobre o mar. Rodou. O caminho outro acabava. Logo ficava mato. Não percebia. Agora era mesmo já escuro. Era noite. Pensou onde ía. Não lhe deu a ela resposta. Abriu a porta. Porta pesada. Grande. Saiu. Espantou. Uma casa. Uma falésia. O caminho. Aquele sobre uma falésia. O outro não sabia. Fora naquele pelo pensar de mar que havia no onde se pusera o sol. O outro nem pensava. Pisava coisa mole. Chorões. Mar se havia estava ainda longe. Mas ouvia um som vrum vrum e era logo ali. Um sono. Assim um torpor de digo eu que conto. Talvez de receio. Talvez de indecisão. Ela sabia. Foi um arrepio de pensar cair. Não. Não sabia onde ou porque ía. Mas cair da arriba. Não. Isso sabia. Não queria. Rodeou o mato. Olhou. Flores. Jardim pensou. Mato plantado. Sorriu deste pensar. Uma porta aberta e de dentro luz. Uma luz fraquinha. Espirrou. Um despropósito. Um calhou. Alguém ouviu. Alguém andou. De onde estava cosendo bordando não sabia ela nada do de lá de dentro. Entrou. Pareceu que deslizou. Estranhou. Casa grande. Sala de tudo e outra mulher sentada. Não houve de dizer. Ela deslizou. Pensou que estranho nada me falarem. Mas andou viu mexeu. Parou na janela ao fundo. Um vidro só. Uma parede só vidro. Pensou que lindo! Espreitou do negro o que via do lado de lá do vidro. Um branco remexido. Lá ao fundo. Em baixo. Do lado de lá do vidro. O mar. Pensou que bom e virou. Olhou as duas. Três mulheres na sala. Palavra nem uma. Nada. Disseram-lhe que dormisse sem lhe dizerem nada. Disseram-lhe que ficasse. Sem nem uma palavra. Sorrir ela sorriu. Sorriso viu. Não. A mulher levantada era sisuda. Loura. Alta. Magra. A outra sempre a cara baixa. Sentada. Lia. Bordava. Ela nem percebeu. A loura alta sisuda parou de frente nela. Uma chave pegada na mão. Não. Sentiu um arrepio. Um arrepio diferente. Este não era frio. Sabia. Era um quase medo. A porta abria. Não havia nada. Uma luz tão forte. Não era dia. Isso ela sabia.

    Acordou. O sol batia em cheio na cara. O cão ladrava. Abriu os olhos devagar. A gata ergueu um em arco de cauda alçada. Piscou. Afagou a gata. Saltou da cama. Que raio de sonho estranho. Pensou. Como é que o carro andava? Que raio de casa! Bolas deixa-me ir ver as horas. Meio dia! Nunca lhe acontecia. Sorriu e levantou. E ele? Ah! Saira já. Voltava a almoçar. Descansa. Está tudo feito. Debaixo do chuveiro morno inda cantou.

    segunda-feira, 15 de novembro de 2004

    voltas...

    Acordado. Olhar vago. Alma pesada? Um fardo?
    Dormir. Descansar? Não sei. Volteios. O sol brilha.
    Digo. “O sol aquece alma”. (aquece?!)
    Dormir. Redondo. Fetal.Revolteado. Retorcem-se olhos. Círculos de redondo.
    Vejo-os. (vejo?!). Oscilantes pálpebras. Cortina ventando. Titilam pestanas.
    Não. Não dormir. Dormir cumprido.
    O sol brilha. Enche de luz em tiras o volume na cama.
    Persianas discretas injectando luz. Um volume . Um dormindo.
    Num mundo outro (será?!).
    Falo de quem? Não sei. Será de mim? De alguém?
    Acordar.
    Quando choverá? A chuva. O olhar brilhando. (será?)
    Falo de mim. De ti. De muitos.
    Espero.
    Chuva. Digo. “Chuva limpa a alma” (limpa?!).
    Acordar.
    Chuva. Sol. (e se nevasse?! e se ventasse?!)
    Ficamos. Acordados. Depois. Novo sono.
    Digo. Talvez neve. Então brincamos. Rimos.
    Depois. Dormimos todos. Abraçamos o sono.
    Olhos cerrados. Sono de justo. Digo.
    Esperamos. (espero?!)
    O teu (o meu?!) olhar brilhando.

    ...e hoje é segunda feira...




    domingo, 14 de novembro de 2004

    mais que nostalgia...mais...

    Estive a ouvir no meu velho vinil
    Ouvi tudo e voltei a ouvir . Aqui deixo a segunda parte do texto que, depois de uma busca Google, retirei daqui Obrigada UNO

    Segunda Parte

    Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
    Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
    Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

    ************************************

    e ainda estive pensando e lendo sobre essa coisa obscura da pobreza e dos pedintes a propósito do texto de hoje da Blueshell

    fica aqui um sinal

    mais aqui e aqui


    sexta-feira, 12 de novembro de 2004

    fuga

    Deixem que perca o sabor de tudo
    Apenas a sensação de boiar
    em cada superfície

    da descida às profundezas
    apenas flutuar
    afogando-me
    na água que um dia verti
    Sem memória
    Sem ouvido
    Sem vista
    Sem tacto
    Sem sentidos

    Sem corpo
    que não o que se precipita
    para mais nada



    (escrito e desenho de finais de 02)

    quinta-feira, 11 de novembro de 2004

    luto

    SILÊNCIO!
    O MUNDO PERDEU UM HOMEM!



    ::::::::::::::::::::::::::::

    AGORA... por favor
    leiam o post anterior!
    sff...
    !!

    quarta-feira, 10 de novembro de 2004

    a cura

    Já o querido Orca o Jorge ali dos 7 mares tinha no dia anterior começado a ver que eu estava a precisar de um aviso qualquer de um apoisito e escrevia assim:
    Fugaz cada momento desta vida
    Fugaz o nascer e o morrer à desfilada
    Fugaz ser feliz
    Fugaz tristeza
    Mas vem de lá grávida a certeza
    De que é também fugaz a madrugada
    Que apaga a fugaz noite
    E faz o dia
    Que por nós passa e repassa sempre à espera
    Que dele se faço
    Por fim
    A Utopia
    mas eu desouvi dele...
    eu insisti na gritaria e postei aquele texto de eufemismo dito momento de alma negra sangrada marafada (olha! onde andou o Ognid?! também pronto na fica linkado!!) que foi de “baixa” o raio do dia!
    E foi-se do negro aliviando com os passinhos de leve
    da MWoman
    Entrei e li em silêncio...nada mais direi. Não há receitas. Um beijo muito grande.
    A sempre doce e discreta
    Wind Estou contigo! beijos:)***
    O amigo filósofo
    Willnow (não era para dizer nada, como o pedido). Que adiantam (mais) palavras? Como traduzir um sentimento? Li o poema e sei. Isso me basta (que o único destino é partir!).
    Mas a festa inda (perdoem!) estava negra os altares tapados...taipados mesmo digo eu que era o templo aqui na minha zona!
    Vai daí aparece um castiço que do Além se apercebe que por aqui andava alminha em desassossego e o
    Porquinho da Índia amigo Bertus obedece à ordem de nada dizer e desata a escrever a escrever .... assim:
    ....calado que nem um túmulo (brrrr có horror!) eis como aqui hoje me posiciono: hirto, quedo e mudo -que escrever não é falar e sei que te agrada ler as bacorices que debito (não sou nada vaidoso...) e acho que estás em grande estilo com o teu poema pois que pelo tamanho ( e pela qualidade!) dava para uma ópera; se quiseres posso fazer os cenários e ainda contratar um barítono e uma diva (atenção que não escrevi divã)e a orquestra ficava por tua conta. É só dizeres que tenho conhecimentos no meio (é no meio que reside a virtude...) e até eu próprio dou uns lamirés no belo canto. Entrei uma vez no Barbeiro de Sevilha; interpretava o
    pincel...da barba.Que tudo te continue a correr de feição -ou de maré-, que os ventos e oa mares estão propícios à navegação. Já mandei "notícias do além". Beijinhos e intés!!
    Lá mais para a tardinha, creio, aparece, coisa rara, que me fez pensar que isto devia andar mesmo muito sentido e ou então o escrito era tomado por belo escrito da alma bem sentido, isto para dizer que aparece naquele silêncio em cores de aguarelas o poeta das cores o querido Almaro....vinha ele, assim o entendi, despido das coloridas e silenciosas cores com que veste as palavras e escreveu uma coisa em que, já vão ver, além de Colibri eu sou, para ele, Gato em Cão e ando por aqui a deixar de mim pegadas no meu próprio chão. Mas, claro, sempre tudo dito com acerto... eu é que me deu pra rir (mal feito!!)
    mas foi de ver um bichinho tão simpático quanto este...
    Deu-me tanto pra rir
    (já começara tá visto com o Porquito mas isso é trivial é de esperar!)
    fiquei daquela negritude, ao menos por hoje... curada!
    atão ele até achou (tão mal que eu estava!!!) e ele a achar-me engraçada!!!
    Pois...é isso...ou ria, como fiz, ou ficava amuada. Deu-me para rir...olha fiquei curada!
    Delícia pura aqui fica o que escreveu o Almaro:
    Ás vezes imagino-te na praia, na areia, a tatuar os teus passos. É uma fantasia. Minha, porque te sinto sempre a voar nos silêncios, nos teus e nos nossos.
    És um colibri engraçado que se esconde curioso a espreitar o “des / ser”.
    Será do gato em que te passeias no cão?
    Não sei, nem tenho que saber. Mas hoje vi-te desenhar as tuas próprias pegadas, no teu próprio chão.
    Ilusão?
    Acho que não!
    Estás engraçada, hoje, assim, pregada no Teu chão…

    A todos do coração muito obrigada!!!

    momento


    partir para uma viagem
    sem sem som e sem sentido
    simplesmente nem ir
    des/ser de mim
    vaguear por aí
    sem fusos sem sequer tempo
    sem gente
    sem sem sem sem
    desouvir o que tanto oiço
    rebentar as correias
    retirar o cabresto (o de mim)
    abrir os braços
    apanhar a chuva
    (e não cegar de sol!)
    partir aos tropeções
    picar-me nos ramos
    numa floresta escura
    (desver o sol em cima!)
    cair numa cratera
    num buraco
    (cilada para fera!)
    desarrumar os livros
    partir todos os discos
    riscar as folhas todas
    (riscos riscos riscos!)
    amarrotar tudo regar a gasolina
    (depois ficar olhando o fogo!)
    partir de mim pra loooonge
    e nem sequer partir
    ficar aqui quietinha
    no fofo da cadeira
    olhando o crepitar do fogo na lareira
    des/sentir esta dor que fica de pensar
    desatar este nó que fica de sentir
    deslassar tudo em mim
    devagar sem tempo sem horas
    ficar mole a parda
    parada
    não ter que responder
    (porque sou perguntada?!)
    deixem-me só sofrer
    assim apenas assim sem ser por nada
    (porra!!já nem se pode estar simplesmente cansada)
    cansada sem razão sem motivo aparente
    cansada de si mesmo e no entanto querendo
    apenas e tão só estar consigo mesmo
    assim sossegada sem mais nenhum motivo
    que seja o de estar descansada
    Porra!! Sempre ter que responder!!
    Caramba!! sempre ser comparada
    consigo mesma...e ter FORÇA!
    Que puta de palavra!!
    Força força que nada!!
    A quem me ouvir...
    Por favor!!! Por favor!!!
    Não me diga NADA!!
    Sobretudo não diga espera que isso passa
    ou que tenha força
    ou que grande depressão
    (caramba!!! tanto chavão!!)
    digam se aprouver disso
    que ouviram só!! e estão comigo!
    Mais nada!
    O resto o resto é cá comigo!!
    E desde já vos digo de coração
    OBRIGADA!!!



    terça-feira, 9 de novembro de 2004

    a uma Amiga

    o/um desespero de mim hoje se aconchegou
    negro brutal irracional
    de ti me fiquei pensando
    e quase em oração te reli
    (nas tuas buscas...sabes que te entendo...)
    também esta oraçãoé para/por ti


    Eu sei só tu , Vida, és minha resolução
    No que em mim é irresolúvel
    Neste ponto sem retorno,
    Sem saber mais como existir
    Neste faz de conta de vida.
    Não me deixes mais
    Aqui neste espaço-tempo
    Presa e livre sem solução
    Nesta imitação sufocante de Ti,
    Na vaidade e crueldade de não sermos
    Negando a beleza que somos,
    Que mais não consigo aguentar.
    Deixa-me ser só minha parte
    Da água dos rios , do mar
    E da foz em que todas se vão misturar.
    Minha parte do ar
    Onde os pássaros vão migrar.
    Minha parte
    Da fluidez da lava.
    Minha parte da seiva das árvores
    Da beleza das flores
    E do alimento dos frutos .
    Minha parte do riso
    De criança de braços abertos ao Sol.




    (Escrito de uma Amiga ...
    parte final de um extenso texto a que ela chamou
    Ponto sem retorno )




    domingo, 7 de novembro de 2004

    Ao raio dos servidores!!!!!!

    A essas entidades enigmáticas tão escondides de face quanto nós, mas de alma se a escondem sei eu lá bem se é porque a perderam nas ondas deste espaço imenso de redes e de, sobretudo, me parece, de interesses. Se estas entidades fossem homens mulheres e se tivessem estes espaços imensos para servir de comunicar entre eles seja ciência, arte, apenas um trocar de palavras...se eles percebessem que já não é o tempo de esperar o carteiro mas agora o tempo é de estar em cada instante (isso! o tempo é o instante!) e que o que há para dizer tem que ser dito nesse momento perene que eles, os tais senhores gerem ... palavra digna deles(?!) servidores do nada que esta apalavra servir, meus senhores, também a desconhecem de significado e alma! Se vocês precisassem de escrever apenas, por exemplo isto: "São as que não escrevendo evoco." e a seguir dizer de quem o escreveu:" olha que bom terem as tuas iguais às minhas sido palavras importantes perdidas as que não foram escritas " e a seguir: "MJM vai ver as minhas letras no post que está referenciado em conflitos... leste... viste?!"
    Assim coisas de nada !
    mas...senhores! em vez "disto" podia ser coisa de salvar uma alma ou uma vida se fosse palavra de dizer o como tal fazer!
    cuidem deste espaço, senhores! não façam dele o que fazem do resto da vida! deixem correr a nova era em vez de andarem a perder-vos em chalaças e tentar saber mais uma vez quem tem mais frequência, mais linha mais ...massa!!
    abram um blog
    criem uma página
    façam o que raio vos aprouver...
    peçam uma taxa se é isso que querem!
    mas...
    mas cum raio deixem que a gente comunique SEMPRE que nos der na gana!!!

    sábado, 6 de novembro de 2004

    conflito


    pensem pensem só
    imaginem
    ainda mais
    sintam

    pedradas de palavras
    rebentam baralhadas
    informes disformes
    entrelaços
    pedaços
    palavras desfeitas em letras
    desarrumadas
    borradas de cores
    palavras desfonadas
    zunem revoadas
    toneladas de escória
    lava esfriada
    zunem
    doem
    desarrumadas
    palavras que não dizem
    nunca disseram
    palavras esfriadas
    cansadas

    palavras desfaladas



    minhas as palavras um dia

    hoje de novo
    palavras desditas

    as palavras dominam



    quinta-feira, 4 de novembro de 2004

    re/Composição

    Aproximou-se. Um nadica só. Correram na direcção certa os dois olhos. Fechou um. O outro deixou-o apontado. Atingia, assim, mesmo no ponto certo. Lá onde queria ver o que via.

    O que a ela mesmo mesmo lhe apetecia era gritar. gritar que a deixassem só. mais só do que aquele só que era todo estar todo companhia. aquele só que tanto lhe pedia. Gritar que a deixassem. não um dia. dois. uma semana. Gritar que a deixassem sempre. Que não lhe precisassem. Ou. se o sim. lho não pedissem. Que deslembrassem assim como em desastre que se diz amnésico. ficarem todos despensados dela. Gritar que não estava. encerrara. não para obras balanço remodelação. Não. não estava simplesmente. deixara um bilhete ou nem tal e partira. melhor seria assim - eles desconheciam dela que existia. Nem partida. Nem bilhete. Desconhecimento. Um atrás de tempo .Gritar neste momento era tão só o que lhe apetecia. Mas gritar não resolvia. Fingia. Fingia que via. Olhava.Uma luz. Que nada! O que via era o que supunha ver. No ponto em que assestara o olho só estava uma casa e dentro dela sentada na janela uma menina. Vestia um bibe. Em cada ombro do bibe ela vestia um folho. Ou era asa?

    Chegou-se mais. O muro de cal amparou-lhe o corpo. Sentiu-lhe o frio. Sentiu mais. Sentiu o limite ali da aproximação. O muro limitava. O muro empurrava. Encostava e de resposta levava um empurrão. Era assim como se o muro estivesse a dizer daqui para baixo não.

    Era! ela estava assim. apertada entre um muro e o resto. Mais. Ela estava numa caixa. Não. Não era uma caixa grande. Muito menos era uma caixa fechada. Nem. Nem de madeira ou metal ou material duro resistente ao abrir. Resistente ao sair de dentro que quer que fosse que lá estivesse. Não. Não caixa onde estava... entalada... dobrada. Essa era simples. Mole. cartão. nem isso. papelão. Entalada. nela estava. Sentia assim como se...se estivesse. Sabia que não estava. Pensava até. Que tinha as peças desencaixadas. Que, a sair, teria que se reconstruir. Um braço aqui, ali um dedo. .É. Se não se cuidasse, a ser assim, inda ficava o médio na ponta onde devia o mindinho estar. Devia ser lindo! É. Via. Só. Plena de vontade de gritar. Isso. Inda assim sorria só de se assim pensar...um mindinho no meio e nas pontas um médio e um polegar.

    O olho dela entretanto olhava. E via a menina que estava. Sentada no parapeito da janela. Muito lá longe. Tanto que só com a ver de um olho lhe alcançava. Por isso passou a mão em cima. Tapou o outro. Agora via. Via mesmo bem.

    Curioso! destas coisas que a vida tem! depois de tanto olhar com aquele olho que só queria ver e não gritar... gritar era ela que queria.
    Depois do olho e do muro e da menina e do bibe...
    Curioso...passou-lhe aquele apetecer de ir. Aquele querer que lhe esquecessem.
    Até arrepiou de horror um nadica. Um pouco só.
    Afinal estava apenas a olhar ao longe.


    Lá muito muito tanto de longe estava a menina.
    Agora sorria. Olhava. Via. Sorria... em vez de gritar...
    E...curiosa vida.
    Um choro levezinho suave quase doce escorreu...
    Teimoso do choro escorreu daquele e também do outro olho.
    Limpou na saia a mão molhada e ficou olhando a paisagem. Com um e também com o outro olho. Olhou com os dois olhos. Depois...sentou no muro a perna. Uma só.
    Mais não precisava. E ficou pensando.

    Curioso! agora sabia que pensava.
    Pois. Pensou que iria... e depois viria... e seria sempre bom ir e vir.
    Sempre saber que voltava.


    Lá muito longe a luz que vestia de bibe a menina na janela da casa...
    sumira devagar.

    Ela nem dera por nada.



    segunda-feira, 1 de novembro de 2004

    Sorvete


    Os cabelos redondos. Uma negrura de pele. Redonda a anca. Um por detrás redondo. Rolava pé descalço. Rolava! que não anda quem assim andava. Por detrás do assentar do pé, ficava um chão pisado. Igual?! vocês o pensam! Pois desigual vos digo eu que é! O chão que ela pisava rolava de um pé a outro pé. Nem ela era que andava! disse. Sim! Era o chão que rolava por debaixo do pé. Negrinha toda. Não. Minto. Rosada a língua aparecendo no lamber calado do sorvete. Sorvete castanhinho que nem ela. Um chocolate lambido de rosa. Rosa também o dela no debaixo da mão. Debaixo era de cima e um par. Isso era mesmo. Quando aparava água de chover pingo de céu. Rosado sim! olhando para cima, ficava o em devolta do negro muito preto do olhar. Redondo. Um negro em fundo rosa redondo! a olhar. Agora. Ali. Rolando o chão no que se diz de andar. Ela. Passando língua rosa em chocolate mole. O calor do sol. Redondo o sol. Desmantelado o doce chocolate do calor duplicado. O sol e a língua rosa. Luta desigual. Cai pingo na blusa. Cai pingo junto do céu. Cai o que se diz de chuva. É. O pingo redondo no lá em cima da nuvem. Caindo engelha. Estica. Fica forma tal de pingo de chuva. Cai. Arredonda em cima da blusa. Ela pára. Desvolteia o chão de terra no em redor do pé. Olhem! Por debaixo do negro (o pé) rosa/amarelado. Rosa por de dentro e por debaixo. E ela...toda ela chocolate. Negrinha. Parada olhando. Um olhar redondo. Vendo. A boca aberta suja de sorvete. Olhem! Rosada de rosa quente até mesmo ao lá de dentro.
    Negra.
    Negrinha tola olhando a chuva e perdendo sorvete.
    imagem adaptada d'aqui

    adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

    desafio dos escritores

    desafio dos escritores
    meu honroso quarto lugar

    ABRIL DE 2008

    ABRIL DE 2008
    meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

    Abril de 2009

    Abril de 2009
    ai meu Abril, meu Abril...

    dizia ele

    "Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
    Einstein