terça-feira, 23 de novembro de 2004

saudades

Tenho saudades hoje
De coisas simples

Um bocado de corda pra saltar
Dois berlindes
Um aro de bicicleta e um ferro
Um carro de linhas, sabão, elástico
Um prego grande
Uma meia velha cheia de trapos
Um grão de bico um pedacinho de tecido
Um biscoito frito
O doce na côdea humedecida na boca
Uma fita vermelha no pescoço

Hoje tenho saudades dessas e outras
Simples...simples coisas

Um cabelo entrançado em duas
Um bibe branco... a mala de cartão
O cheiro de borracha e tinta
O quadro de artista plástico
num mataborrão
e no papel dobrado em dois
as formas fabulosas dum borrão

Hoje as saudades crescem-me
Saudades de coisas simples
As coisas, afinal, que me deste...vida

O cheiro que a terra tinha então
O sabor diferente em cada fruta
Joelhos esfolados lambidos a cuspo
A cópia rigorosa de caligrafia
A caneta de aparo
O tinteiro de loiça no buraco
O beijo trocado no banco do quintal
A cama de ferro de lençóis de linho
A palha solta do colchão riscado
Aquela tarde que não acabava
O verde mais verde que havia num prado

Hoje, nem eu sei...
Ficou-me uma saudade...

Do mar que era de cheiro intenso
Das covas na areia até ficar tapado
A bicicleta com dois, três e quatro
E a lama...a terra suja no vestido
E o vento molhando de maresia
E a chuva trespassando a alma
E os rios que corriam devagar
Os rios sempre quase parados

Hoje se continuo assim escrevendo
Hoje rebento de saudades

Hoje tu partiste
Foste de mansinho...
Sorrindo... acho...
Partiste agarrado à Vida
E eu fico falando assim
Destas saudades



a tua praia

domingo, 21 de novembro de 2004

Beijos...mãe!

Li no Biquinha poemas sobre o beijo

e me lembrei
mãe

aquele que escreveste...BEIJOS
tu, Senhora de Poemas...

Lembras?!
(nunca me dei de t'ouvir senão já bem crescida...
que me me perdoas, sei...mas dói de mim
este ter desatentado tanto no teu escrever
Tu sabes, mãe!)

Aqui um teu poema!
Vão gostar de te ler!


Os meus beijinhos são brancos!
Escolhi a cor da Paz!
Mas todos...se forem francos...
de qualquer cor...tanto faz!

Sendo beijos amarelos
eles terão outro sabor...
mas também podem ser belos
quando dados com Amor!

Beijo azul é ciumento?!
Só o sabe quem o deu!
Dado com sentimento
nos fará subir ao Céu!

Vermelhos são suculentos
Saborosos com'a romã!
despertam-nos sentimentos
São assim...um talismã!

De cor de rosa os beijinhos
são o Amor...são a Ternura!
Transmissores de carinhos...
pois que dados com doçura!

São os beijos mais bonitos
os que os filhos nos dão!
São belos! são infinitos!
Gravam-se no coração!

Parecidos...quase iguais...
Ternurentos...amistosos
dados aos filhos pelos pais
com carinho e amorosos.


Ai! Beijos! Beijos fogosos
Cheios de outros sabores !!
Apaixonados...amorosos...
São rubros...cheios de cores !!
São beijos cativantes
quando eles são trocados
pelas bocas dos amantes...
Com ternura! com ardor!
Plenos de sinceridade
nas suas juras de Amor...

Beijos dão Felicidade!


Mãe em 1 de Fevereiro de 1992

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

caminho/s

Uma estrada. Não. Um caminho. Uma vereda de areia. Em cada margem. Berma. Em cada berma pinheiros. Mansos. Pinheiros mansos.Redondos. Negros. Cerrados. Apertadas as copas. Copas baixas. Pinheiros novos. Não verdes. Negros. A noite caia. Sulcos de rodado na areia. Um carro. Ela guiava. Conduzido um carro rodava na vereda. De noite. Quase noite. Ainda se via. Pouco. Via o rubro do sol. Sol já posto. Era visto à esquerda. À esquerda da vereda de areia o sol já se tinha posto enquanto ela conduzia um carro escuro de uma marca antiga. Um carro grande. O carro rolava muito devagar. Olhássemos de longe nem tanto dali de uns metros e o carro se diria parado. Ela conduzia agarrada ao volante. Um volante grande. Redondo e de diâmetro grande. A cara dela encimava o volante. O queixo encostava. Encostava quase. Apenas o tanto para deixar rodar. Que nada. O volante ía parado. O volante não rodava. Era caminho estreito. Era caminho de areia. E era a direito. Em recta. Ela não sabia onde ía. Ía. O queixo apoiado no volante. Via ao fundo o areal de sulcos. Outros carros de antes. Antes do dela este. Passou um de repente. O carro estacou. Pisou travão nem mais que ao de leve. Precisava ver. O caminho andava em frente. Ainda se via areia até uns metros. Em frente. Depois era escuro. Desaparecia ali quase logo o caminho em frente. Parada para ver dois caminhos. Um de esquerda dela. Outro de sua direita. Dois caminhos abertos de repente no corpo do caminho que era antes um. Onde ía ela não sabia. Sim. Tanto fazia o qual tomar. Pensou no mar. Olhou um rubro em negro ali . Devia ser. Sol posto sobre o mar. Rodou. O caminho outro acabava. Logo ficava mato. Não percebia. Agora era mesmo já escuro. Era noite. Pensou onde ía. Não lhe deu a ela resposta. Abriu a porta. Porta pesada. Grande. Saiu. Espantou. Uma casa. Uma falésia. O caminho. Aquele sobre uma falésia. O outro não sabia. Fora naquele pelo pensar de mar que havia no onde se pusera o sol. O outro nem pensava. Pisava coisa mole. Chorões. Mar se havia estava ainda longe. Mas ouvia um som vrum vrum e era logo ali. Um sono. Assim um torpor de digo eu que conto. Talvez de receio. Talvez de indecisão. Ela sabia. Foi um arrepio de pensar cair. Não. Não sabia onde ou porque ía. Mas cair da arriba. Não. Isso sabia. Não queria. Rodeou o mato. Olhou. Flores. Jardim pensou. Mato plantado. Sorriu deste pensar. Uma porta aberta e de dentro luz. Uma luz fraquinha. Espirrou. Um despropósito. Um calhou. Alguém ouviu. Alguém andou. De onde estava cosendo bordando não sabia ela nada do de lá de dentro. Entrou. Pareceu que deslizou. Estranhou. Casa grande. Sala de tudo e outra mulher sentada. Não houve de dizer. Ela deslizou. Pensou que estranho nada me falarem. Mas andou viu mexeu. Parou na janela ao fundo. Um vidro só. Uma parede só vidro. Pensou que lindo! Espreitou do negro o que via do lado de lá do vidro. Um branco remexido. Lá ao fundo. Em baixo. Do lado de lá do vidro. O mar. Pensou que bom e virou. Olhou as duas. Três mulheres na sala. Palavra nem uma. Nada. Disseram-lhe que dormisse sem lhe dizerem nada. Disseram-lhe que ficasse. Sem nem uma palavra. Sorrir ela sorriu. Sorriso viu. Não. A mulher levantada era sisuda. Loura. Alta. Magra. A outra sempre a cara baixa. Sentada. Lia. Bordava. Ela nem percebeu. A loura alta sisuda parou de frente nela. Uma chave pegada na mão. Não. Sentiu um arrepio. Um arrepio diferente. Este não era frio. Sabia. Era um quase medo. A porta abria. Não havia nada. Uma luz tão forte. Não era dia. Isso ela sabia.

Acordou. O sol batia em cheio na cara. O cão ladrava. Abriu os olhos devagar. A gata ergueu um em arco de cauda alçada. Piscou. Afagou a gata. Saltou da cama. Que raio de sonho estranho. Pensou. Como é que o carro andava? Que raio de casa! Bolas deixa-me ir ver as horas. Meio dia! Nunca lhe acontecia. Sorriu e levantou. E ele? Ah! Saira já. Voltava a almoçar. Descansa. Está tudo feito. Debaixo do chuveiro morno inda cantou.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

voltas...

Acordado. Olhar vago. Alma pesada? Um fardo?
Dormir. Descansar? Não sei. Volteios. O sol brilha.
Digo. “O sol aquece alma”. (aquece?!)
Dormir. Redondo. Fetal.Revolteado. Retorcem-se olhos. Círculos de redondo.
Vejo-os. (vejo?!). Oscilantes pálpebras. Cortina ventando. Titilam pestanas.
Não. Não dormir. Dormir cumprido.
O sol brilha. Enche de luz em tiras o volume na cama.
Persianas discretas injectando luz. Um volume . Um dormindo.
Num mundo outro (será?!).
Falo de quem? Não sei. Será de mim? De alguém?
Acordar.
Quando choverá? A chuva. O olhar brilhando. (será?)
Falo de mim. De ti. De muitos.
Espero.
Chuva. Digo. “Chuva limpa a alma” (limpa?!).
Acordar.
Chuva. Sol. (e se nevasse?! e se ventasse?!)
Ficamos. Acordados. Depois. Novo sono.
Digo. Talvez neve. Então brincamos. Rimos.
Depois. Dormimos todos. Abraçamos o sono.
Olhos cerrados. Sono de justo. Digo.
Esperamos. (espero?!)
O teu (o meu?!) olhar brilhando.

...e hoje é segunda feira...




domingo, 14 de novembro de 2004

mais que nostalgia...mais...

Estive a ouvir no meu velho vinil
Ouvi tudo e voltei a ouvir . Aqui deixo a segunda parte do texto que, depois de uma busca Google, retirei daqui Obrigada UNO

Segunda Parte

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

************************************

e ainda estive pensando e lendo sobre essa coisa obscura da pobreza e dos pedintes a propósito do texto de hoje da Blueshell

fica aqui um sinal

mais aqui e aqui


sexta-feira, 12 de novembro de 2004

fuga

Deixem que perca o sabor de tudo
Apenas a sensação de boiar
em cada superfície

da descida às profundezas
apenas flutuar
afogando-me
na água que um dia verti
Sem memória
Sem ouvido
Sem vista
Sem tacto
Sem sentidos

Sem corpo
que não o que se precipita
para mais nada



(escrito e desenho de finais de 02)

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

luto

SILÊNCIO!
O MUNDO PERDEU UM HOMEM!



::::::::::::::::::::::::::::

AGORA... por favor
leiam o post anterior!
sff...
!!

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

a cura

Já o querido Orca o Jorge ali dos 7 mares tinha no dia anterior começado a ver que eu estava a precisar de um aviso qualquer de um apoisito e escrevia assim:
Fugaz cada momento desta vida
Fugaz o nascer e o morrer à desfilada
Fugaz ser feliz
Fugaz tristeza
Mas vem de lá grávida a certeza
De que é também fugaz a madrugada
Que apaga a fugaz noite
E faz o dia
Que por nós passa e repassa sempre à espera
Que dele se faço
Por fim
A Utopia
mas eu desouvi dele...
eu insisti na gritaria e postei aquele texto de eufemismo dito momento de alma negra sangrada marafada (olha! onde andou o Ognid?! também pronto na fica linkado!!) que foi de “baixa” o raio do dia!
E foi-se do negro aliviando com os passinhos de leve
da MWoman
Entrei e li em silêncio...nada mais direi. Não há receitas. Um beijo muito grande.
A sempre doce e discreta
Wind Estou contigo! beijos:)***
O amigo filósofo
Willnow (não era para dizer nada, como o pedido). Que adiantam (mais) palavras? Como traduzir um sentimento? Li o poema e sei. Isso me basta (que o único destino é partir!).
Mas a festa inda (perdoem!) estava negra os altares tapados...taipados mesmo digo eu que era o templo aqui na minha zona!
Vai daí aparece um castiço que do Além se apercebe que por aqui andava alminha em desassossego e o
Porquinho da Índia amigo Bertus obedece à ordem de nada dizer e desata a escrever a escrever .... assim:
....calado que nem um túmulo (brrrr có horror!) eis como aqui hoje me posiciono: hirto, quedo e mudo -que escrever não é falar e sei que te agrada ler as bacorices que debito (não sou nada vaidoso...) e acho que estás em grande estilo com o teu poema pois que pelo tamanho ( e pela qualidade!) dava para uma ópera; se quiseres posso fazer os cenários e ainda contratar um barítono e uma diva (atenção que não escrevi divã)e a orquestra ficava por tua conta. É só dizeres que tenho conhecimentos no meio (é no meio que reside a virtude...) e até eu próprio dou uns lamirés no belo canto. Entrei uma vez no Barbeiro de Sevilha; interpretava o
pincel...da barba.Que tudo te continue a correr de feição -ou de maré-, que os ventos e oa mares estão propícios à navegação. Já mandei "notícias do além". Beijinhos e intés!!
Lá mais para a tardinha, creio, aparece, coisa rara, que me fez pensar que isto devia andar mesmo muito sentido e ou então o escrito era tomado por belo escrito da alma bem sentido, isto para dizer que aparece naquele silêncio em cores de aguarelas o poeta das cores o querido Almaro....vinha ele, assim o entendi, despido das coloridas e silenciosas cores com que veste as palavras e escreveu uma coisa em que, já vão ver, além de Colibri eu sou, para ele, Gato em Cão e ando por aqui a deixar de mim pegadas no meu próprio chão. Mas, claro, sempre tudo dito com acerto... eu é que me deu pra rir (mal feito!!)
mas foi de ver um bichinho tão simpático quanto este...
Deu-me tanto pra rir
(já começara tá visto com o Porquito mas isso é trivial é de esperar!)
fiquei daquela negritude, ao menos por hoje... curada!
atão ele até achou (tão mal que eu estava!!!) e ele a achar-me engraçada!!!
Pois...é isso...ou ria, como fiz, ou ficava amuada. Deu-me para rir...olha fiquei curada!
Delícia pura aqui fica o que escreveu o Almaro:
Ás vezes imagino-te na praia, na areia, a tatuar os teus passos. É uma fantasia. Minha, porque te sinto sempre a voar nos silêncios, nos teus e nos nossos.
És um colibri engraçado que se esconde curioso a espreitar o “des / ser”.
Será do gato em que te passeias no cão?
Não sei, nem tenho que saber. Mas hoje vi-te desenhar as tuas próprias pegadas, no teu próprio chão.
Ilusão?
Acho que não!
Estás engraçada, hoje, assim, pregada no Teu chão…

A todos do coração muito obrigada!!!

momento


partir para uma viagem
sem sem som e sem sentido
simplesmente nem ir
des/ser de mim
vaguear por aí
sem fusos sem sequer tempo
sem gente
sem sem sem sem
desouvir o que tanto oiço
rebentar as correias
retirar o cabresto (o de mim)
abrir os braços
apanhar a chuva
(e não cegar de sol!)
partir aos tropeções
picar-me nos ramos
numa floresta escura
(desver o sol em cima!)
cair numa cratera
num buraco
(cilada para fera!)
desarrumar os livros
partir todos os discos
riscar as folhas todas
(riscos riscos riscos!)
amarrotar tudo regar a gasolina
(depois ficar olhando o fogo!)
partir de mim pra loooonge
e nem sequer partir
ficar aqui quietinha
no fofo da cadeira
olhando o crepitar do fogo na lareira
des/sentir esta dor que fica de pensar
desatar este nó que fica de sentir
deslassar tudo em mim
devagar sem tempo sem horas
ficar mole a parda
parada
não ter que responder
(porque sou perguntada?!)
deixem-me só sofrer
assim apenas assim sem ser por nada
(porra!!já nem se pode estar simplesmente cansada)
cansada sem razão sem motivo aparente
cansada de si mesmo e no entanto querendo
apenas e tão só estar consigo mesmo
assim sossegada sem mais nenhum motivo
que seja o de estar descansada
Porra!! Sempre ter que responder!!
Caramba!! sempre ser comparada
consigo mesma...e ter FORÇA!
Que puta de palavra!!
Força força que nada!!
A quem me ouvir...
Por favor!!! Por favor!!!
Não me diga NADA!!
Sobretudo não diga espera que isso passa
ou que tenha força
ou que grande depressão
(caramba!!! tanto chavão!!)
digam se aprouver disso
que ouviram só!! e estão comigo!
Mais nada!
O resto o resto é cá comigo!!
E desde já vos digo de coração
OBRIGADA!!!



terça-feira, 9 de novembro de 2004

a uma Amiga

o/um desespero de mim hoje se aconchegou
negro brutal irracional
de ti me fiquei pensando
e quase em oração te reli
(nas tuas buscas...sabes que te entendo...)
também esta oraçãoé para/por ti


Eu sei só tu , Vida, és minha resolução
No que em mim é irresolúvel
Neste ponto sem retorno,
Sem saber mais como existir
Neste faz de conta de vida.
Não me deixes mais
Aqui neste espaço-tempo
Presa e livre sem solução
Nesta imitação sufocante de Ti,
Na vaidade e crueldade de não sermos
Negando a beleza que somos,
Que mais não consigo aguentar.
Deixa-me ser só minha parte
Da água dos rios , do mar
E da foz em que todas se vão misturar.
Minha parte do ar
Onde os pássaros vão migrar.
Minha parte
Da fluidez da lava.
Minha parte da seiva das árvores
Da beleza das flores
E do alimento dos frutos .
Minha parte do riso
De criança de braços abertos ao Sol.




(Escrito de uma Amiga ...
parte final de um extenso texto a que ela chamou
Ponto sem retorno )




domingo, 7 de novembro de 2004

Ao raio dos servidores!!!!!!

A essas entidades enigmáticas tão escondides de face quanto nós, mas de alma se a escondem sei eu lá bem se é porque a perderam nas ondas deste espaço imenso de redes e de, sobretudo, me parece, de interesses. Se estas entidades fossem homens mulheres e se tivessem estes espaços imensos para servir de comunicar entre eles seja ciência, arte, apenas um trocar de palavras...se eles percebessem que já não é o tempo de esperar o carteiro mas agora o tempo é de estar em cada instante (isso! o tempo é o instante!) e que o que há para dizer tem que ser dito nesse momento perene que eles, os tais senhores gerem ... palavra digna deles(?!) servidores do nada que esta apalavra servir, meus senhores, também a desconhecem de significado e alma! Se vocês precisassem de escrever apenas, por exemplo isto: "São as que não escrevendo evoco." e a seguir dizer de quem o escreveu:" olha que bom terem as tuas iguais às minhas sido palavras importantes perdidas as que não foram escritas " e a seguir: "MJM vai ver as minhas letras no post que está referenciado em conflitos... leste... viste?!"
Assim coisas de nada !
mas...senhores! em vez "disto" podia ser coisa de salvar uma alma ou uma vida se fosse palavra de dizer o como tal fazer!
cuidem deste espaço, senhores! não façam dele o que fazem do resto da vida! deixem correr a nova era em vez de andarem a perder-vos em chalaças e tentar saber mais uma vez quem tem mais frequência, mais linha mais ...massa!!
abram um blog
criem uma página
façam o que raio vos aprouver...
peçam uma taxa se é isso que querem!
mas...
mas cum raio deixem que a gente comunique SEMPRE que nos der na gana!!!

sábado, 6 de novembro de 2004

conflito


pensem pensem só
imaginem
ainda mais
sintam

pedradas de palavras
rebentam baralhadas
informes disformes
entrelaços
pedaços
palavras desfeitas em letras
desarrumadas
borradas de cores
palavras desfonadas
zunem revoadas
toneladas de escória
lava esfriada
zunem
doem
desarrumadas
palavras que não dizem
nunca disseram
palavras esfriadas
cansadas

palavras desfaladas



minhas as palavras um dia

hoje de novo
palavras desditas

as palavras dominam



quinta-feira, 4 de novembro de 2004

re/Composição

Aproximou-se. Um nadica só. Correram na direcção certa os dois olhos. Fechou um. O outro deixou-o apontado. Atingia, assim, mesmo no ponto certo. Lá onde queria ver o que via.

O que a ela mesmo mesmo lhe apetecia era gritar. gritar que a deixassem só. mais só do que aquele só que era todo estar todo companhia. aquele só que tanto lhe pedia. Gritar que a deixassem. não um dia. dois. uma semana. Gritar que a deixassem sempre. Que não lhe precisassem. Ou. se o sim. lho não pedissem. Que deslembrassem assim como em desastre que se diz amnésico. ficarem todos despensados dela. Gritar que não estava. encerrara. não para obras balanço remodelação. Não. não estava simplesmente. deixara um bilhete ou nem tal e partira. melhor seria assim - eles desconheciam dela que existia. Nem partida. Nem bilhete. Desconhecimento. Um atrás de tempo .Gritar neste momento era tão só o que lhe apetecia. Mas gritar não resolvia. Fingia. Fingia que via. Olhava.Uma luz. Que nada! O que via era o que supunha ver. No ponto em que assestara o olho só estava uma casa e dentro dela sentada na janela uma menina. Vestia um bibe. Em cada ombro do bibe ela vestia um folho. Ou era asa?

Chegou-se mais. O muro de cal amparou-lhe o corpo. Sentiu-lhe o frio. Sentiu mais. Sentiu o limite ali da aproximação. O muro limitava. O muro empurrava. Encostava e de resposta levava um empurrão. Era assim como se o muro estivesse a dizer daqui para baixo não.

Era! ela estava assim. apertada entre um muro e o resto. Mais. Ela estava numa caixa. Não. Não era uma caixa grande. Muito menos era uma caixa fechada. Nem. Nem de madeira ou metal ou material duro resistente ao abrir. Resistente ao sair de dentro que quer que fosse que lá estivesse. Não. Não caixa onde estava... entalada... dobrada. Essa era simples. Mole. cartão. nem isso. papelão. Entalada. nela estava. Sentia assim como se...se estivesse. Sabia que não estava. Pensava até. Que tinha as peças desencaixadas. Que, a sair, teria que se reconstruir. Um braço aqui, ali um dedo. .É. Se não se cuidasse, a ser assim, inda ficava o médio na ponta onde devia o mindinho estar. Devia ser lindo! É. Via. Só. Plena de vontade de gritar. Isso. Inda assim sorria só de se assim pensar...um mindinho no meio e nas pontas um médio e um polegar.

O olho dela entretanto olhava. E via a menina que estava. Sentada no parapeito da janela. Muito lá longe. Tanto que só com a ver de um olho lhe alcançava. Por isso passou a mão em cima. Tapou o outro. Agora via. Via mesmo bem.

Curioso! destas coisas que a vida tem! depois de tanto olhar com aquele olho que só queria ver e não gritar... gritar era ela que queria.
Depois do olho e do muro e da menina e do bibe...
Curioso...passou-lhe aquele apetecer de ir. Aquele querer que lhe esquecessem.
Até arrepiou de horror um nadica. Um pouco só.
Afinal estava apenas a olhar ao longe.


Lá muito muito tanto de longe estava a menina.
Agora sorria. Olhava. Via. Sorria... em vez de gritar...
E...curiosa vida.
Um choro levezinho suave quase doce escorreu...
Teimoso do choro escorreu daquele e também do outro olho.
Limpou na saia a mão molhada e ficou olhando a paisagem. Com um e também com o outro olho. Olhou com os dois olhos. Depois...sentou no muro a perna. Uma só.
Mais não precisava. E ficou pensando.

Curioso! agora sabia que pensava.
Pois. Pensou que iria... e depois viria... e seria sempre bom ir e vir.
Sempre saber que voltava.


Lá muito longe a luz que vestia de bibe a menina na janela da casa...
sumira devagar.

Ela nem dera por nada.



segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Sorvete


Os cabelos redondos. Uma negrura de pele. Redonda a anca. Um por detrás redondo. Rolava pé descalço. Rolava! que não anda quem assim andava. Por detrás do assentar do pé, ficava um chão pisado. Igual?! vocês o pensam! Pois desigual vos digo eu que é! O chão que ela pisava rolava de um pé a outro pé. Nem ela era que andava! disse. Sim! Era o chão que rolava por debaixo do pé. Negrinha toda. Não. Minto. Rosada a língua aparecendo no lamber calado do sorvete. Sorvete castanhinho que nem ela. Um chocolate lambido de rosa. Rosa também o dela no debaixo da mão. Debaixo era de cima e um par. Isso era mesmo. Quando aparava água de chover pingo de céu. Rosado sim! olhando para cima, ficava o em devolta do negro muito preto do olhar. Redondo. Um negro em fundo rosa redondo! a olhar. Agora. Ali. Rolando o chão no que se diz de andar. Ela. Passando língua rosa em chocolate mole. O calor do sol. Redondo o sol. Desmantelado o doce chocolate do calor duplicado. O sol e a língua rosa. Luta desigual. Cai pingo na blusa. Cai pingo junto do céu. Cai o que se diz de chuva. É. O pingo redondo no lá em cima da nuvem. Caindo engelha. Estica. Fica forma tal de pingo de chuva. Cai. Arredonda em cima da blusa. Ela pára. Desvolteia o chão de terra no em redor do pé. Olhem! Por debaixo do negro (o pé) rosa/amarelado. Rosa por de dentro e por debaixo. E ela...toda ela chocolate. Negrinha. Parada olhando. Um olhar redondo. Vendo. A boca aberta suja de sorvete. Olhem! Rosada de rosa quente até mesmo ao lá de dentro.
Negra.
Negrinha tola olhando a chuva e perdendo sorvete.
imagem adaptada d'aqui

sexta-feira, 29 de outubro de 2004

exorcismo

a boneca mulher...
mulher sentada...
desgrenhada....
desenhaste-a...
quantas vezes...

mãos amarfanhando o desalinho do cabelo...
cotovelos esventrando os joelhos...
força de um desespero...


não sabias...ainda...
então...não o sabias...


desenhaste...bonecas...
a óleo a lápis a carvão...


agora...agora sabes...
agora ela e tu...

sentadas no degrau da escada...
o desespero...antes...
antes deste estar

sentada...ouvindo...
tu...desgrenhada...

no degrau da escada...

ela o vivia... antes...
papel esborratado...
olhando-te...


o desespero da duvida...
os cabelos dela...os teus...
o sem - sentido dela... o teu...
enclavinhadas as mãos...

as tuas mãos...
o desespero...

a duvida... a dor...
a tua...a dela...


riscada no papel ...antes...
muito antes...

muitas vezes...
antes...

deste sentar... ouvindo...
no degrau da escada...

vivias... antes...
boneca...
desenhada
...

(adaptado de texto escrito em 18/1/03)

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

lua cheia

Cansara de aguardar. Um dia atrás do outro. Um de riachos de água a desentupir sujeiras. Em outro, brasas de lume sobre a terra e nem maior se daria a secura...esta e o odor...aquele dançar de partículas de coisa que já fora.
Cansara. De Junhos e Setembros. Também dos que lhes ficavam, antes, depois e no entre. Aguardar é demais que espera. De espera a gente sabe que aquilo chega. De aguardar a gente nunca sabe. Até se dá em deslembrar . Fica só entalado num desvio da memória.
Ele cansara disso.
Num dos Dezembros, o pai morrera. Não chorara. Não lhe entendeu aquilo na cara choro. Estranhara só.
Uma noite de um desses meses...puxaria a camisola para o pescoço. Abotoaria o éclair das de ganga. No bolso a carteira documentos notas. Aos pés da cama deixaria um cartão...pedaço de uma oferta de um Dezembro. Escreveria fui. Em letras garrafais. Ninguém que visse se deslembraria. Ficaria antes correndo. Procurando. Ele já iria em outro Junho. Nem seria já ele. Ele descambado de aguardar. Ele cumprimentado daqueles que passavam. Ele sempre quieto. Sentado na soleira da porta...arrimado ao pé do limoeiro. Arrumando sonhos.
Partiria.
Puxou a camisola para o pescoço.... apanhou um limão.
A lua rebentava de brilhos de cheia. Pisou a soleira. Entrou. A luz da lua estendia um lençol sobre a cama.
No mês de dois seguintes o limão mirrara. Na cama outro lençol de lua.
Ele já não era ele. Dizia assim quem o cumprimentara cansado de aguardar.... Diziam...num mês depois de dois...cuidaram que partira...ele apenas cansara. Cansara de aguardar.
Um dia atrás do outro...cansara.

O DORMITÓRIO III de Vicent Van Gogh

domingo, 24 de outubro de 2004

lembrando

os aconteceres fazendo "cache-cache" ....suspresas...
recordares...
Almada Negreiros...O Nome de Guerra... Maternidade...
esboços do antes de ser...desenhos...
cópias enchendo paredes...eles pequeninos...eu...
os outros...os desenhos...os nomes...as palavras....
aconteceres sempre...


Maternidade de Almada Negreiros
Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais um estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal.
O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. E é este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião.
in Nome de guerra de Almada Negreiros
Cap II A sociedade só tem que ver com todos não tem nada que cheirar com cada um



terça-feira, 19 de outubro de 2004

UM

Este escrito ...(aquele, afinal ali abaixo!) ficou por ali escrito sem mais memórias ou com tantas!
Hoje, venho colocá-lo neste local que me está sendo de...vida! quem mo diria! eu não sabia! (saberei algum dia alguma coisa, eu?!) não sabia ao que vinha.
E estou de estar...ficando.
A vida corre seu curso igual: de seres, de porvires, de risos, de cores, de tempos, de amores (desamores eu, acho, desachei de os ter) viver .... um simples balançar de flor, um apanhar de frutos no quintal, uma corrida ao entardecer, um sorriso, o jornal, o trabalho a fazer...os amores a tratar...... à vida eu agradeço .... carreiros, degraus, assentos de jardim,beiras de regatos, barcaças atravessando dois delás de afastar...

e... eu ía escrever nada e postar apenas este, "de gaveta" dito, apanhado ali em base de CD com data de 23/4/03 e título prosaico de UM
...eu ía e...olha escrevi, saíu...aqui ficou



A pressão dos nervos tensos
na corrida do endemoninhado
circulando nas ruas
sem fim
apressando e retardando
os passos
em cozimento com as paredes
caminhando
rompendo os passeios
em passinhos miúdos
apressados

A pressão dos nervos
nas mãos do electricista
nos braços do cavador
na cara do médico...
nas olheiras da mulher das 19 horas
a pressão na esquina
no passeio de venda e compra

A pressão
sentida nas fibras
indefinidas
numa noite insónia

A pressão – a falta
nos lábios moles de velha precoce
balbuciando
a pressão
na mão... na pega do saco


A fúria do mar de sueste
A dureza na tempestade de areia
O sufoco do sol do meio dia
O norte...o vento de norte...

...pressionando .... sempre...

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Escrever...agora...


Era costume escrever mais tarde.
Pela madrugada quando tudo dorme.
Naquela manhã alonjara-se da hora de fazer os fazeres de ninguém. Outrora houvera a casa e havia a escola e a havia o reboliço dos risos e os choros e os ralhos. Havia os horários e os cortes dos vestidos, as bainhas ...os pontos. Os deveres da escola. A vela. Os acampares.Outrora fora há tanto e parecia agora. Ou seria ao invés?! outrora fora há pouco e parecia há tanto?! Deixá-lo! O tempo passando. Eles foram vivendo. As casas desandaram. Cartas já não havia. Hoje, apenas ela, normalmente, diferente de hoje, pela noite adentro, escrevia.
Estava, notava enquanto remorava/revivia/percebia, sempre, sempre de ouvido atento. Não não era ao cão, nem ao ruído na porta (ele vinha vinha sempre não se surpreendia) . Este ouvido atento que se lhe apercebeu sempre de ouvido à escuta, sempre de ouvir esperando, era de outro ouvir. Era, o apercebia, como outrora o bater, repenico trinado, conhecido, a tempo. Mas, estava na hora, precisava escrever. Não que fosse costume fazê-lo àquela hora assim, depois de nada, ainda o sol pinando o de cima do monte e uma luz suave mas ainda bem forte, azulejando o chão lavado. Estava ali sentada meio de esguelha. Apenas metade da coxa no tampo da cadeira. Outrora havia sempre a voz a dizer-lhe que se sentasse bem. Outrora. Agora nem sentia. Estava assim sentada ao acaso. Sequer era porque apetecia. Calhava. Debruçou o corpo no castanho da mesa. Ficou. Os olhos entreviam para o delá do écran. Os ícones de apagar, abrir, refazer a letra em muitas tantas letras que nunca era a sua. As caras sorridentes que pusera no dito de Ambiente. Via para lá. Não estava nada ali. O corpo descaiu um pedacinho mais. A cabeça poisou no dobrado do braço. Ouviu um estalido. Não. Não era aquele o tal que sempre estava à espera que soasse ao ouvido. Desapercebeu-se deste. Nem sequer o ouviu. No écran giraram alguns ícones. As horas de escrever não eram mesmo aquelas. Outrora sabia ela quando. Mas ali não estava atempando. Bem bastava o relógio fazendo tic tic. Tempo apenas o medido. Aligeirou a manga que apertara o pulso. Um gesto tão sem gente como se fora outrem que assim a colocasse. Ainda mais, assim, num quase tudo nada de descuido.A roda desandando. Destempada.(Des) sentia tudo/não sentia nada. Apenas num delá de outroras lhe mergulhara o tempo e esse era agora ela ali sentada, debruçada no tampo de cima do teclado espelhando o monitor. A cabeça parada no de dentro, no delá do que se podia ver. Um cabeça inclinada sobre um braço rosado, afagado de leve por cabelo inda farto e apenas, só apenas, levemento branco.

- Adormeceste?
Ouviu.
–Não! Estava a tentar escrever, mas... esta não é a minha hora.
E sorriu.
Ele vinha sempre voltava sempre. Nem se apercebia.
O telefone soou (ou era o telemóvel?!).
Clicou. (clicar era termo que gramaticara ali e no de escrever que num tempo de dar lhe ofertaram e ela se impusera que a mão entorpecia na escrita habituada e gostada de caligrafia).
-Está?!... Tá?!... Viva! Olá!!! (.....) sim...diz......
(Era a filha! )

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

enquanto...

Havia um banco. Um banco igual àquilo a que se chama banco de assentar. Quatro pernas e um tampo. Quatro travessas a unir as pernas. Um ângulo desviava de cada uma a outra perna e desperpendiculava uma e as quatro do horizontal do chão. (afinal todos sabemos o que é um banco neste contexto de descrição de casa) No demais era um espaço. No demais eram corpos deitados. Juntos. Aconchegados. Apertados. Dormiam numa colcha de cheiro a descomidos.
Pancadearam na grade. (Podíamos dizer simplesmente que bateram à porta. Mas se não havia isso, há que encontrar modo de dizer de onde aquele ruído.) Um ruído surdo sobre tábua que é muitas tábuas com vários entres entre elas. Duas vezes bater. Às duas, foi ela que acordou. Ela. Um dos eles que dormia aconchegado,apertado (como vos aprouver). Arrumou um olho aberto. A cabeça descaiu do lado do ouvido que primeiro ouvira. Quem seria?! E isto não pensou. Gritou para o de lá dos entre tábuas quem é? Um grito que sabe, não é grito. Afirmação, não pergunta. Ela não falou. (podíamos dizer, apenas, que ela acordou com aqueles bates e esfregou um olho e pensou: “quem será?” mas...não foi bem assim...) Ergueu-se. Um corpo por de cima de outros. Alinhado numa vertical. Mais os outros se ficaram vistos na contrária posição. Corpos outros, que não ela, ondularam em espasmos de desouvir remorejando babas e sonidos sem voz e sem tino. Ela, a mão, nas tábuas. Os entres e as tábuas deslocadas para um ângulo agudo com...(podíamos dizer, simplesmente : levantou-se e abriu a porta, mas...não foi bem isso...).
Assombreou-se o escuro do de cá do ângulo, com o escuro do de lá. O emsombreado deslocou-se. O ângulo desfez-se. Ela seguida pelo que emsombreou. Acresceu um odor novo. Tudo renovou à horizontal. Tudo, não. O banco! O banco a fazer quatro ângulos com o tudo embaixo a ele.
Cheirava a cheiros. Rugiam silêncios entre corpos. Silvos. Esgares. Soluços. Fungares. Um choro. Um vagido. Um ranger de molares.
Nos entre as tábuas começava a clarear. O banco assomando num raio de sol à altura,precisa e segura,de uma mão, a primeira a sair de leve, nua, para o acordar de um dormir (aconchegado ou apertado, como vos aprouver) e correr para o de lá da rua.

Enquanto não consigo escrever o que se passou. Enquanto...outros o dizem de simples escrever...enquanto...escrevi este aqui - tem no por debaixo o que eu queria e não me sai de dizer nem, inda menos, escrever (e sangra...)

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein