De coisas simples
Um bocado de corda pra saltar
Dois berlindes
Um aro de bicicleta e um ferro
Um carro de linhas, sabão, elástico
Um prego grande
Uma meia velha cheia de trapos
Um grão de bico um pedacinho de tecido
Um biscoito frito
O doce na côdea humedecida na boca
Uma fita vermelha no pescoço
Hoje tenho saudades dessas e outras
Simples...simples coisas
Um cabelo entrançado em duas
Um bibe branco... a mala de cartão
O cheiro de borracha e tinta
O quadro de artista plástico
num mataborrão
e no papel dobrado em dois
as formas fabulosas dum borrão
Hoje as saudades crescem-me
Saudades de coisas simples
As coisas, afinal, que me deste...vida
O cheiro que a terra tinha então
O sabor diferente em cada fruta
Joelhos esfolados lambidos a cuspo
A cópia rigorosa de caligrafia
A caneta de aparo
O tinteiro de loiça no buraco
O beijo trocado no banco do quintal
A cama de ferro de lençóis de linho
A palha solta do colchão riscado
Aquela tarde que não acabava
O verde mais verde que havia num prado
Hoje, nem eu sei...
Ficou-me uma saudade...
Do mar que era de cheiro intenso
Das covas na areia até ficar tapado
A bicicleta com dois, três e quatro
E a lama...a terra suja no vestido
E o vento molhando de maresia
E a chuva trespassando a alma
E os rios que corriam devagar
Os rios sempre quase parados
Hoje se continuo assim escrevendo
Hoje rebento de saudades
Hoje tu partiste
Foste de mansinho...
Sorrindo... acho...
Partiste agarrado à Vida
E eu fico falando assim
Destas saudades
a tua praia








