
O DORMITÓRIO III de Vicent Van Gogh

O DORMITÓRIO III de Vicent Van Gogh

Este escrito ...(aquele, afinal ali abaixo!) ficou por ali escrito sem mais memórias ou com tantas!
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Aliviamos as nossas duas esperas quando o teu isqueiro se recusou acender novo cigarro. Foi planeado o gesto que nos soergueu com o mesmo objectivo?! olhando tu primeiro em volta e só depois se me dirigindo, e eu fingindo que não via a tua busca, aguardando ser solicitada.
(As calças estavam de facto demasiado lavadas e com vincos colocados ali no local certo de uma calça de corte. A blusa tinha o toque de uma marca que não identifiquei. As duas peças estavam separadas por um cinto de cabedal largo que apertavas, não displicente, não sobre um local qualquer das nádegas, mas bem assente na cintura. Calçavas sandálias rasas de tirinhas de um verniz azulado nuns pés de unhas bem tratadas e coloridas de azul, como nas mãos.
Como os olhos!!).
Retornamos às nossas esperas mordiscando a borda das respectivas chávenas, enquanto o café escorregava devagar. Gesto que repetimos quase em sincronia.
(E, de repente, desapareceste-me. Quero dizer, deixei de te dar atenção, perdi-te.)
Quando voltei a olhar, a mesa estava repleta de bonecos que só eu via e o teu pescoço saia da blusa numa rodada de pregas confundidas com um colar de pedras avermelhadas; as tuas mãos esguias e magras estavam igualmente fendidas de rugas e alteadas de veias arroxeadas. Um aro grosso cobria-te quase metade do anelar esquerdo.
(Pasmei e observei melhor – avidamente.)
Sorriste-me de modo consciente. Atabalhoadamente, respondi com um olhar que devia ser despegado do sorriso pois dirigia-se-te de outra forma que o sorriso – tentava perceber.
(Sim, era o teu olhar, apenas ele, que te fizera toda quando entraste. Apenas o olhar.)
Só então respondi ao teu sorriso.
Dois adolescentes sentaram-se ruidosamente, calorosamente, pedinchosamente à tua mesa.
Sorriste ao meu real sorriso.
(eu já me distraia com outras chegadas)
(rascunho encontrado ...1999?)
Hoje saí e esqueci o riso pendurado no cabide
deu em chover esparsado e eu sem o riso
apanhava a água (toda aquela água!) em cheio na cara
lágrimas do riso chorando de o ter esquecido!
Sabem o que é querer escrever e não ter, ali à mão, uma folha de papel?! andar esgravatando ao derredor e nada que não esteja já escrito e a tua cabeça estrebucha de palavras como uma torneira a pingar de desarranjo sem mais que o chão onde escorrer e a alagar casa! Assim, as palavras numa cabeça sem um papel onde a mão escreva qual vaso parando ou sustentando a água, vão pingando e perdendo-se no éter mesmo quando, já tresloucada de procurar papel que as sustenha, ou mão que as estanque, te ouves palavras a saltar em tua volta e são elas saindo-te pela boca em sons desconexos molhando o ar em volta, perdidas, formando por vezes frases como os pingos acabam por formar um lago que invade tapetes e pode causar, a tempo, inundação pior que igual a chuva grande. Assim, as palavras sem um papel onde assentar.
Um dos papéis encontrados, neste quase delírio de impedir que as palavras inundassem o ar em volta, estava escrito numa das faces com um poema. Um ror de palavras que não vieram de ti. Alguém as escrevera nele sobre a vaidade, os palcos, os que batem palmas e os que são ovacionados; alguém que talvez tenha andado aos papéis anos e anos, ou, talvez, tenha começado apenas a sentir a força de percorrer o papel para se parar a palavra, precisamente quando cresceu a necessidade de andar aos papéis. Antes, talvez, digo eu, nunca tenha sentido esta quase compulsão de escrita, de deixar a palavra desfazer-se amparada, qual pingo de água no balde, sobre a folha...ou rebenta...inunda...enlouquece...entope...derrama-as em discurso anódino.
Mas...o tal papelinho escrito de um dos lados, dizia (dizia-te?!) que o mundo é um palco de representações/ que o peso das reproduções/ a afirmação das imagens/ nega o amor/ que se deve afirmar. Dizia mais... o papelucho, menor que a tua mão já de si pequena, ali abandonado, afinal também escrito na outra face como um vulgar papel de lembrar que preciso de ...comprar...fazer. Dizia, em letra de escrever em teclado impresso a um rosa esbatido, que o tempo da vida faz/ o meu ser estrebuchar/no vazio/ de nem a uma nem outra/cena pertencer/e de o circulo vicioso/ entre poder da submissão/ e submissão dos poderes/(...) estilhaçaram-se as representações/que sufocam as emoções.
Toma lá para aprenderes a ter cuidado quando procuras papel para escrever – NUNCA LER!!! Precisas de papel vazio! um papel com palavras é um perigo – como um balde cheio de água ou colocado de fundo para o ar debaixo da torneira que pinga. Não deves ler...nunca! quando andas, assim, em busca de papel!
Pronto, agora, o tal papelinho diz, tal e qual o que (talvez!) as tuas tais palavras fossem dizer escrevendo em papel outro: Exilada/ fora e dentro do mundo./ no lado invisível/ o dos sonhos de todos/ para lá das ilusões.
O papelucho a reenviar os pingos de volta em ricochete ( as palavras para dentro da tua cabeça, da tua boca) uma magia, mas uma possibilidade que as leis da Física não desmentem – tudo uma questão de direcção do pingo e de momento cinético no ressalto. A palavra a bater na folha escrita e retornando, palavra que não escreveste chocando com palavra que está lá, direitinha para o local de origem na tua boca, na tua cabeça.
O papelucho, ocasional na busca doutro, fez-te (diz lá, diz!!) fez-te engolir as palavras que ias escrever. Deixaste de pingar!
Não te foi permitido alagar como farias sem qualquer papel. Afogou-te a palavra e remeteu-te ao sentir.
Como dizia o papel: deixando sair os sentires/para sentir a plenitude da existência corporal/como a pertença universal.
E aqui, precisamente nestas palavras, o papelucho foi rasgado. Alguém (tu?!) mataste as palavras...um dia...não viste o lado escrito a rosa e escreveste, apressado, um lembrar de cebolas, carne, arroz e um prosaico ir ao banco. E...não sentiste as palavras chorando, contorcendo-se no rrrrr do rasgar transversal?!
Querias saber mais...o resto... não existe.
Agora talvez seja o tempo de escrever as tuas. Só agora...depois de mescladas com as do papelucho!
(Afinal havia tanto onde ir buscar papel e logo havia de te aparecer este papelucho escrito de rosa e rasgado tão transversal que te permitiu as palavras, perturbadoras...vivas!)
Agora, talvez, já não seja o tempo de escreveres.
A manhã já abriu de sol. O silêncio ensurdecedor das tuas palavras amainou e, lá fora, surgem os rumores de mais um dia. Um domingo. O fundo longínquo do sueste, o deslizar seco das folhas de buganvília no quintal, um cão, o tic-tac do relógio estragado na parede.
As palavras acomodadas na cabeça qual torneira que parou de pingar...
(Escrito em 25/9/04)
Olá linda, menina Inconformada!
A Seila pediu-me pra lhagradecer, a publicação do texto dela no seu bi logo...
Tá vendo? Pois... eu bi logo que a menina bia!
Tá então feito o agradecimento!
Aproveito, eu agora, a vaquita, para dizer reconhecida e de minha voz "muuuuu", tal como a menina gosta!
Porquê?! Ora, não seja tímida!
Eu sei que a menina tem um fraquinho pela minha gente!
eu queria ter malmequeres a rodar na cabeça
uma carrada de malmequeres a dançar
nunca mais a cabeça zunir de contradições,
de sonhares desfeitos
de pesadelos acordada
nada mais que o zum zum dos malmequeres
rodando...
...com calma
nas palmas das mãos pétalas
rosadas pétalas de rosas
esvoaçantes
nos cabelos odores de pinhais
circundantes
carumas calcadas de pés nús
deslizantes
águas de um rio
escorrentes
meus olhos num arrepio
sosssegados
olhando-te neste fim de estio!
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o Almaro não deve ficar zangado ...este comentário dele, ali no outro post, tem tanto a ver com o que aqui, agora escevi!...
Tenho andado a sonhar…… com um mundo de acordares onde tudo é descoberta. Onde cada um desenha a sua própria ideia. Sem papagaios. Que cada um não repita o que ouve, o que vê. Mas que crie. Um mundo onde ninguém deixe que os jornais, as televisões, os fazedores de opiniões, nos retire o gosto de olharmos tudo, com o nosso ver. Um mundo sem espelhos, onde cada um não precise de se rever. Que sinta uma única necessidade. SER!
eram coisas que apareciam e desapareciam dos computadores lá pela madrugada
é pá a lista estava lá e agora já não está?!
era uma entidade estranha ...lista feita à mão... que me aparecia assim...
mais ou menos isto...uma confusão!!!

e eram imagens estranhas

com vozes ainda mais esquisitas
Aqui tem as listinhas!
se me tivessem dito há mais tempo...
escusava ter armado esta confusão ...
eu trabalho bem é à mão
...acordei?! ou ainda estou sonhando?!
Acaba-se imperceptivelmente o fulgor do Verão
Vai-nos caindo sobre...
esta lassidão de Outono.
A luz já não é bem luz
mas uma pasta que se mistura com a Terra.
Dela se ergue uma bruma da sua cor,
diluída, esparsa.
O cheiro entra-nos na pele
absorve-nos
dispensa as narinas.
é acre
intenso
quase agressivo.
As estrelas baixaram no céu
teimosamente entre nós.
Ensombra-nos uma ténue cortina-
futuras nuvens
ainda medrosas de o serem.
O céu já não é a donzela
desconhecedora de vergonhas
descuidando-se brilhante no seu virginal fulgor.
É, agora, pudica menina
tentando encobrir a nudez
em indiscreta cortina translúcida.
Se Paz houvesse, ela seria proclamada em cada início de Outono!
(As fêmeas deveriam sempre aleitar nesta estação.
Então, os vagidos das crias sequiosas ou o ronronar da saciedade, soariam abafados docemente na penumbra, de manhã a manhã, como uma almofada de lã fofa e transparente e as crias, rolando dos leitos, vagueariam nesta maciez onde a gravidade quase se anula.)
Se houvesse Paz... seria sempre no começar do Outono!
(de um manuscrito anterior a 1997)
| Ai deuses e todos os demais que possa para aqui congregar!
Oh! Forças do Universo! poderosas forças que trazeis de vós o irreal para as entranhas do real ! Oh! inomináveis contadores de vós que presenteais ao insondável energias transmitidas e reconvertidas Partículas e ondas numa realidade que se ousou poisar, incontrolada, num local abeirado de águas numa noite aquentada de sóis escondidos, já, nessa rotação dos astros, pela vossa mão, no ventre das vossas inenarráveis estruturas! Oh! Deuses, demónios, anjos, vulcões, luas, quarks e esse sem fim de pedacinhos que fazem de cada um um todo e do todo cada um! Oh! aflita alma minha rodopiando nesta infinitude que de sentires se entrelaçam sem que saiba se de mim para eles ou num outro qualquer direccionamento e se, sequer, sentires lhe chame tal a confusa demanda do que entendia virtual que por, ouvindo, semelhar a virtude, tão doce se me encanta seu existir num nada, se me deu em desfazer em SER! Enlouquecida! Devaneante! Errónea! Incorpórea! Neste estado os invoco ....shut!!!!!!!!!! eles estão vindo...devagar...doces... Sinto-os por entre as paredes, o tecto, o soalho... Sentaram-se...estiram mesclas que semelho a pernas, braços... mas serão, antes alguma outra entidade que desceu com eles Aquietam-se em meu derredor Estão aqui Envolvem-me Aquietei também Respiro como um ser real Apalpo-me.... sinto as estrias, os poros, os pelos Eu estou aqui e.... maravilha! estou sentindo que sinto! Agora, talvez possa pensar o que terá acontecido naquele local abeirado de águas numa noite aquentada de sóis já escondidos .... Talvez!... Antes, preciso estar mais um pouco com estas entidades aqui convocadas! Olho-as!! sossegadamente, se estão a preparar para entardecer comigo! Depois... Depois eu contarei .... Agora, eles estão segredando Shut!!!! quero ouvir! Dizem .....que foram as sensações cruzadas nesse local,sempre à beira rio mesmo quando já um outro dia se amanhecia, foram essas doses intensas, concentradas, fortes, que me fizeram assim os congregar... Dizem-me que assossegue Que olhar o real pelas portas da alma é tão desusado ao humano ser Que (dizem-me eles, aqui, juro!) Pode transmutar-se o ser em eles...num deles... Que me aquiete Que veja as fotos lindas Que recorde cada sorriso Que sinta cada abraço Que oiça os rumores do linguajar doce e o rir suave ou garagalhado Que recorde as histórias contadas em surdina Que sinta a lágrima que não correu enquanto sorria Que oiça o poema e reveja o piscar à luz dos flashs adocicados por detrás de alguém que fotografando beijava Que acaricie aquele sorriso sentado frente a mim Que não pretenda contar o que já só é porque está aqui guardado, mas planando no espaço, e a que o humano ser português, ou nele se expressando, designa docemente de AMIZADE! |
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tudo que escrevesse
agora...era mentira
escrevesse eu sobre o que fosse
e sairia borrada
assim, decidi não escrever
deixar este espaço em branco
aparecer um quadro de cores misturadas
um arco Íris em dupla refracção
uma folha de papel sem um borrão
nem um bom dia
nem uma saudação
nada de nada
hoje, tudo seria isso:
uma falsidade
ou um nada
fico por este
e assim me vou alumiar no sonho