Tu não precisas escrever para ser poeta...
não precisas fazer para ser um homem
não precisas dizer para ser ouvido...
Simplesmente,
do fundo do teu eu escondido,
quase sempre envergonhado,
não de ti, mas das coisas do mundo,
tu falas, dizes, gritas
a liberdade de estar sozinho
liberdade que é ,
sem que o saibas, e por isso, o precises dizer,
a forma mais dura, mais ignara,
mais vivida de viver!
Tu, leal ao mundo
aos que o polulam
que sempre,
quando o dizes,
se percebe que te enchem,
incomodam e, mais, melhor,
confundem
na multiplicidade anárquica que os sentes
não ser cada um em si ,
como tu te és em ti,
sozinho e crente da vida e dos demais,
mas sim um amalgamar
em condições
em regras
o eu
peculiar e único e singular e belo
que cada um, como tu,
se o deixassem,
podia SER.
Perceber-te nessa singularidade que desolhas
nesse desatento olhar,
que, mais que tu, outros te impõem,
é um carinho, uma Graça
maior que olhar o esconder do sol no horizonte
maior que ouvir o bater de asas de um passarinho.
Perceber-te
saber que o sabes...
ver-te a olhar para ti
único ..
sozinho...encantado de ti,
despojado...
sábio e amante...
fazê-lo...
é poder partir de aqui
sem precisar de mais
senão agradecer, rezando, a um deus,
que nem sei se existe, mas me ouve...
dizendo em silêncio:
adormeci...
tudo está em Paz.
(Julho de 2004)